“Matar” o pai*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 7 de Novembro de 2008


1. Depois das eleições dos líderes distritais do PS em 2006, Marcos Perestrello, o homem forte do aparelho socialista, mostrou pena por só terem mudado oito presidentes de federação. Isso foi há dois anos. Agora, nas eleições internas de 2008, nenhum responsável nacional falou de renovação. O melindre eleitoral do próximo ano aconselhava a deixar tudo o mais possível na mesma.

Ora, como se sabe, a mesmice não é mobilizadora. Em Viseu, aconteceu mais uma candidatura de José Junqueiro - um filme que se repete desde os anos 80 do século passado. Este ritual fossilizado fazia adivinhar umas eleições mais frias que um glaciar.

Foi por isso que António Borges, o socialista viseense com mais influência nacional, veio para o terreno tentar impulsionar as coisas. O presidente da câmara de Resende só não levou ao colo José Junqueiro porque este é demasiado grande.

A eleição, naturalmente, não correu bem: em cada cinco militantes socialistas, quatro não foram votar. Os votos expressos deram uma matemática que já nem na Albânia se usa.

2. Num evento recente do partido, António Borges fez o seguinte aviso à navegação: «Na política, como na vida, é feio “matar” o pai.»

Esta referência directa a Sigmund Freud é fácil de perceber. O congresso distrital do PS, que vai decorrer depois de amanhã em Mangualde, representa a primeira etapa do pós-junqueirismo.

Perfilam-se, na grelha de partida para a sucessão, várias cópias de José Junqueiro que são muito piores que ele. Só sabem acartar-lhe a pasta. Não têm pensamento próprio. Fazem recados enquanto recheiam a agenda do telemóvel. Esperam o dia das partilhas e do testamento.


Daqui
Avisou-os António Borges: «É feio “matar” o pai.»

É, de facto, feiíssimo.

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