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sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Os três émes*

* Hoje no Jornal do Centro

Moisés Naím, no seu livro “O fim do poder”, descreve as três revoluções que estão a a acontecer à frente dos nossos olhos:

a revolução do mais (“que se caracteriza por aumentos em tudo” - número de países, populações, níveis de vida, literacia, produtos no mercado, …);

a revolução da mobilidade (pessoas, bens, dinheiro, ideias, valores, a “movimentarem-se de forma nunca antes vista por todo o planeta”); e

a revolução da mentalidade (o “mais” e a “mobilidade” causam “grandes mudanças nas mentalidades, expectativas e aspirações” das pessoas).

Na nossa política, estes três émes “revolucionários” receberam um impulso muito grande durante o longo caminho que nos levou às eleições legislativas do passado domingo.

Agora há mais forças partidárias, mais ideias, mais candidatos. Nunca o boletim de voto foi tão grande. Depois da cruzinha feita, já não chega dobrar o voto em quatro, aquele lençol tem que levar mais uma dobra.

E, apesar de todos os travões colocados na engrenagem pelos donos do regime, ...


Daqui
... o eleitorado moveu-se. E esta “mobilidade” pode ser quantificada: foram 550 mil votos (11%) nos dezasseis partidos mais pequenos que não pertencem ao cartel partidário instalado. De uma só vez, entraram no parlamento três partidos novos e o PAN quadriplicou a sua presença.

Este “mais” da oferta partidária, somado a esta “mobilidade” dos eleitores, vai ter consequências na “mentalidade” do próximo parlamento.

A seguir a uma legislatura sem partidos de protesto (a domesticação do BE e do PCP fez-lhes perder, respectivamente, 57 mil e 116 mil votos), vamos passar a ter uma voz anti-sistema (o Chega) e, de novo, vozes de protesto (a Iniciativa Liberal e o PCP).

Por sua vez, o Bloco, depois da sua campanha demagógica e errática, vai ter no Livre um concorrente directo no mercado do tribalismo identitário, um mercado sempre indignado com qualquer coisa e que vai dando assunto aos papagaios das televisões e aos viciados em likes das redes sociais.

sexta-feira, 4 de outubro de 2019

Onze euros e sessenta cêntimos*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Já depois de ter enviado o último Olho de Gato para o jornal, o INE alterou os números indicados aqui de crescimento do PIB durante os anos da geringonça. Houve uma revisão em alta, o país está mais rico dois mil milhões de euros do que se julgava.

De qualquer forma, esta boa notícia não abana os fundamentos da crónica da semana passada: a instabilidade espanhola (vai para a quarta eleição em quatro anos) fez crescer bem mais a economia do que a nossa estabilidade. Se tivéssemos tido o mesmo crescimento de "nuestros inestables hermanos" éramos mais ricos 7,5 mil milhões.

2. A campanha eleitoral que acaba hoje trouxe-nos o costume: outdoors nas rotundas; discursos zangados não se sabe com quê; comícios e bebícios com aparelhistas, boys e emplastros nas primeiras filas; feiras e mercados com candidatos e jornalistas à procura de algo castiço que dê algum tempero àquela estopada; arruadas em que aparecem uns "espontâneos" a abraçar o chefe, num teatro de papelão feito para as televisões.

Fora desta mesmice, tivemos um pouco Rui Rio e o PAN. Este, de tão veg, vai fazer diminuir a abstenção entre os talhantes.

E, claro, o melhor desta campanha eleitoral: o programa "Gente que não sabe estar", de Ricardo Araújo Pereira. É tão, tão bom que até dá pena não termos legislativas com a cadência dos espanhóis para termos mais vezes aquela desbunda. Foi neste programa que se viu, entre nós, o primeiro "deepfake" - uma hilariante tourada sem cavalos nem touro.



3. Um voto serve para duas coisas: eleger deputados e dar €2.90 por ano ao partido em que se vota, desde que este obtenha, pelo menos, 50 mil votos.

No distrito de Viseu, só dois ou três partidos deverão eleger deputados. Mas tenha isto presente: mesmo não votando em nenhum desses três, o seu voto pode ser muito útil — poderá valer, nos quatro anos da próxima legislatura, €11.60 para o partido da sua simpatia.

sexta-feira, 27 de setembro de 2019

Portugal e Espanha*

* Hoje no Jornal do Centro


Fotografia editada
a partir daqui
1. Portugal vai a votos em 6 de Outubro. Espanha vai um mês e quatro dias depois, numa overdose eleitoral - é a quarta vez em quatro anos.

É que a crise do ladrilho de 2007 estoirou com o sistema bipartidário espanhol e fez aparecer novos partidos, à esquerda e à direita, incapazes de se coligarem.

Esta instabilidade política de "nuestros hermanos" não tem sido má para a sua economia: em 2015, Espanha cresceu 3,6% (o que compara com 1,5% de Portugal); em 2016, Espanha 3,2% (Portugal 1,4%); em 2017, Espanha 3% (Portugal 2,7%); em 2018, Espanha 2,6% (Portugal 2,1%).

Isto é, a instabilidade do lado de lá de Vilar Formoso deu um banho de 4,7% à estabilidade do lado de cá. Se tivessemos crescido como os espanhóis o nosso país era mais rico 9,5 mil milhões de euros.

Nada que espante nestes tempos de impotência do poder. Os governos já não conseguem fazer o bem. O ideal é que, ao menos, não tenham força para fazer o mal. Se forem fracos estragam pouco. Lembremos os 541 dias em que a Bélgica esteve sem governo, felicidade só interrompida quando as agências de notação ameaçaram desqualificar a dívida pública do país.

António Costa tem alertado para o perigo de contágio da instabilidade espanhola. Subliminarmente, o primeiro-ministro está a avisar para o risco de Catarina Martins e as manas Mortágua virarem uma espécie de "unidas bloquemos", à moda do que tem feito Pablo Iglesias.

E já se sabe: o mantra da estabilidade, repetido dia-sim-dia-sim por António Costa, é forte e dá votos.

Pena é não nos dar os crescimentos da instável Espanha.

2. O Museu Grão Vasco de Viseu prolongou, até 13 de Outubro, a exposição temporária "Identidades, pronomes e emoções - as regras do retrato".

É uma excepcional exposição, para visitar sem pressa. Atarde-se na severidade de D. Virgínia Pinto Guedes, pintada por Villaça, ou nos olhos castanhos da senhora pintada por António Joaquim de Santa Bárbara, ou na..., ou no...

Imperdível.

sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Baixa densidade*

* Hoje no Jornal do Centro


1. O politiquês, esse dialecto do politicamente correcto, deixou de chamar “interior” à parte do país a que não chega o cheiro do mar e agora prefere chamar-lhe “território-de-baixa-densidade”.

Já se sabe, os políticos são palavrosos, podendo usar quatro palavras não vão usar só uma e a nova designação faz algum sentido. Onde não chega o iodo e a maresia é cada vez mais baixa a densidade de serviços de saúde, de estações de correio, de agências da CGD, de transportes públicos com passes fofinhos, de estradas decentes não-portajadas.

2. O PS, o vencedor anunciado das próximas legislativas, dedica quatro páginas do seu programa eleitoral à “coesão territorial” onde se propõe “tomar medidas” para o “desenvolvimento harmonioso de todo o país, com especial atenção para os territórios de baixa densidade”.

Em sete sub-capítulos, cheios de clichês, são elencadas cinquenta “medidas” que querem “apostar no potencial” e “apoiar o aumento”, para além de “incentivar o surgimento” e “reforçar o diferencial”, de forma a “promover a obtenção” e “incorporar o desígnio”. Algures, claro, lá surge também o inevitável “incentivar o empreendedorismo”.

É uma lista de cinquenta eufemismos, escritos em língua-de-trapo, sem nenhuma quantificação ou calendarização, sem nenhum pensamento operativo sobre as cidades médias ou sobre o mundo rural, sem nenhum incentivo fiscal nem em IRS, nem IRC, nem IMI, sem nada palpável capaz de atrair pessoas ou investimentos para o interior.

3. À hora que escrevo este texto ainda não se sabe se o distrito de Viseu vai eleger oito ou nove deputados e também ainda não se conhece a lista do PSD.

Lúcia Silva e Rosa Monteiro
Já foi divulgada a lista socialista onde, em segundo lugar, em vez da secretária de estado Rosa Monteiro, o aparelho prantou Lúcia Silva. Percebe-se a lógica da batata da distrital socialista: para um “território-de-baixa-densidade”, uma deputada com densidade política equivalente.

sexta-feira, 26 de julho de 2019

Medo*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Todas as campanhas eleitorais usam o medo para ganhar votos. Umas mais, outras menos, nenhuma dispensa a retórica da guerra entre o “nós”, onde mora a virtude, e o “eles”, onde habita o perigo.

Até não há muito tempo, esta batalha na lama tinha que ser protagonizada por políticos, com o microfone à frente, à vista de toda a gente. Agora os políticos de primeira linha já raramente fazem essa triste figurinha. As mensagens mais mentirosas são deixadas para as redes sociais e para a comunicação mais endereçada (WhatsApp, Messenger e afins).

O impacto deste lixo mal-cheiroso na decisão de voto é muito difícil de avaliar e troca com frequência as voltas às sondagens, como se viu recentemente na Austrália, ou, em 2016, com o Brexit e Trump.

Por cá, o medo também vai ser usado na próxima campanha das legislativas, mas com pouco sucesso por duas razões óbvias: a geringonça descrispou o país e as eleições têm vencedor anunciado.

É claro que poderão ser enviados para os telemóveis dos funcionários públicos memes toscos com um penteado de Assunção Cristas a dizer “vêm aí outra vez as 40 horas!”, ou produtos similares a flagelarem outros líderes, mas não é provável que se tornem virais.


Edição em cima de uma fotografia de Rui Ochoa

2. Deixemos as catacumbas da propaganda política e debrucemo-nos agora sobre o medo que está a ser debatido às claras no espaço público, e que descrevi aqui em Outubro de 2018: “no próximo ano só vai haver um assunto político — a maioria absoluta do PS. Os socialistas vão fazer tudo para a obter, os outros partidos vão fazer tudo para a evitar.”

A dez semanas das eleições, esse risco é mais visível. É que, à medida que Rui Rio se afunda e o bloco vai parecendo o novo dono disto tudo, mais aumenta a probabilidade de um jackpot eleitoral do PS.

E convém lembrar: uma maioria absoluta de um só partido mete mesmo medo, basta lembrar o negocismo arrogante e autoritário dos únicos primeiros-ministros que a obtiveram — Cavaco e Sócrates.

sexta-feira, 12 de julho de 2019

O íman centralista*

* Hoje no Jornal do Centro



Daqui
Depois de 38 mil milhões de euros de receita global das privatizações, depois do aumento doido da dívida pública em 165 mil milhões de euros a seguir a Guterres ter abandonado o pântano, depois da transferência global de 130 milhões de euros de fundos comunitários que era suposto servirem para desenvolver as regiões mais pobres, o país está mais desigual do que nunca, com a riqueza e a população empilhadas no litoral.

Barroso e Sócrates fingiram que controlavam o défice, com truques contabilísticos e receitas extraordinárias. Passos e Costa, depois da bancarrota de 2011, controlaram-no mesmo. Numa coisa não houve diferença nenhuma entre estes quatro primeiros-ministros: todos eles usaram o pretexto do controlo do défice para centralizar, cada vez mais, todo o poder em Lisboa.

O ex-secretário de estado do ensino superior e professor de economia José Reis, aqui no Jornal do Centro, quantificou o que nos está a acontecer: de "2001 a 2017, o país perdeu 1% da sua população, mas na Área Metropolitana de Lisboa aumentou 5,8%. A própria Área Metropolitana do Porto perdeu 1%. O Norte, o Centro e o Alentejo perderam respectivamente 3,2%, 5,1% e 8,3%."

Lisboa é um íman que despovoa já não só o interior, mas todo o país. José Reis faz o diagnóstico exacto do que é agora Portugal: "um país unipolar, unicamente centrado e concentrado em Lisboa, com uma forte deslocação interna de recursos e uma desestruturação dos demais lugares".

Como o actual poder socialista é comandado por gente que gastou os fundilhos das calças na câmara de Lisboa, por gente que se casou e se nomeia para os gabinetes entre si, por gente que vai ganhar as próximas eleições, este panorama centralista dificilmente mudará.

O interior precisa de uma fiscalidade substancialmente mais baixa em IRC, IRS e IMI, que atraia investimento e gente. Partidos que forem omissos nestas propostas não merecem o nosso voto.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Quem manda*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Para o Serviço Nacional de Saúde, uma putativa nova lei de bases é como o Melhoral, não faz bem nem faz mal. Nada nela tirará um dia que seja a uma lista de espera por uma cirurgia ou uma consulta.

Qual então a razão para os políticos estarem às voltas com um assunto tão exotérico, ainda por cima em fim de legislatura? Há uma razão táctica e uma razão estratégica para este gasto de energia.

A primeira é óbvia: há que desviar a atenção dos portugueses dos problemas do SNS, embora eles sejam tantos que não está fácil varrê-los para debaixo do tapete.

A segunda, muito mais importante, é que a esquerda, depois de quatro anos de matrimónio, até 6 de Outubro vai fingir que está em processo de divórcio.

Para o bloco, este gambozino na saúde é uma boa trincheira, diaboliza as PPP, mesmo as que funcionam bem como a do hospital de Braga.

Para o PCP, muito abalado depois das derrotas nas autárquicas e europeias, é bom tudo o que lhe permita pôr-se a milhas do, como está sempre a dizer, "governo minoritário do PS".

Mas é o PS que mais beneficia com esta demarcação com os demais partidos da geringonça. Para além de desviar os holofotes dos inconseguimentos da ministra da saúde, tem aqui uma oportunidade para mostrar aos eleitores moderados que "não é o bloco que manda no país". Assim o explicou o patriarca César, em Viseu, esta semana.

Carlos César será mais explícito do que António Costa, mas ambos estão sintonizados na estratégia: criar condições para que o eleitorado central dê ao PS a maioria absoluta. E, com a falta de comparência de Rui Rio, está mais para isso do que para outra coisa.


Fotografia Olho de Gato
2. A introdução dos autocarros amarelos em Viseu modificou a paisagem urbana e está a alterar, lentamente, a mobilidade das pessoas.

Nos últimos seis anos, a câmara, no essencial, derreteu os nossos impostos em festas e festinhas borliantes, para minorias. O novo sistema de transportes é a primeira medida estrutural feita depois de Fernando Ruas. Muito bem, vereador João Paulo Gouveia.

sexta-feira, 22 de março de 2019

O estrado*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Junto ao bairro de Marzovelos em Viseu foi feito um lago artificial que, de tão belo e inesperado naquele sítio, deve ter ajudado a vender os apartamentos dos prédios vizinhos. Tinha patos, tinha até uma grácil garça que por lá poisava para alegria de pequenos e graúdos.

Entretanto, aquela beleza virou pesadelo. Aquilo está transformado num charco de águas pútridas, numa fábrica de mosquitos e melgas, numa ameaça à saúde pública.

Aquele desmazelo feito de telas rasgadas e lixo é o retrato chapado do presidente da câmara e da sua equipa.

Em matéria de obras novas, já se sabe, António Almeida Henriques é só inconseguimentos. O mesmo na manutenção das que recebeu: basta espreitar o lago que virou charco em Marzovelos.

2. Numa cativante cerimónia acontecida em 2017, no Hospital de S. Teotónio, foi tirada uma fotografia a nove cidadãos, cinco deles em cima de um estrado vermelho, onde se reconhecem o então secretário de estado da saúde, Manuel Delgado, o director do hospital, Cílio Correia, e os presidentes da câmara de Viseu e de Tondela. A fotografia, publicada na última edição deste jornal, mostra os homens da saúde de gravata, os autarcas sem, todos à frente de uma placa a anunciar: “Aqui vai ser instalado o Centro Oncológico”.
Anúncio do Centro Oncológico do Hospital Tondela-Viseu, 6 de Maio de 2017
Fotografia do Jornal do Centro (editada) 
Na altura, Manuel Delgado, naquele estrado erguido acima do chão, deixou tudo prometido e calendarizado: iam ser seis milhões de euros de investimento num bunker com capacidade para dois aceleradores lineares, mas, avisou o governante, só um é que ia ser instalado e ia estar a funcionar dois anos depois. Isto é: agora, em 2019.

Foi, repito, uma cativante cerimónia. Só que, logo a seguir, o cativante Mário Centeno, o nosso CR7 das finanças, puxou o travão do acelerador linear. Não há lá nada a não ser a placa.

Mas tenhamos calma: estamos em ano eleitoral, a coisa é capaz de ser reprometida. Em nova cativante cerimónia. Caro Cílio Correia, é melhor ir preparando, de novo, o estrado.

sexta-feira, 15 de março de 2019

O lugarito*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Ninguém tinha dado conta mas, pelos modos, conforme se lê num comunicado da comissão política da JS-Viseu, há “um grande mau estar e grave insatisfação por parte dos jovens socialistas” com o seu presidente distrital, Miguel Figueiredo. Um quarteirão de jotinhas convocou um congresso extraordinário.

O “bom estar” do líder lembrou ao “mau estar” daqueles militantes que era estúpido fazer um congresso seis meses antes de outro obrigatório, mas, já se sabe, o cozinhado da lista de deputados é agora, não é no outono.

É verdade: como não há primárias, chega-se ao lugarito nas listas através da intriga, lugarito que costuma calhar ao chefe local e aos seus acartadores da pasta.

Há quatro anos, o PS elegeu três bons deputados pelo distrito de Viseu: Maria Manuel Leitão Marques, António Borges e João Paulo Rebelo, mas, como estes foram para outros voos, acabaram substituídos por três nulidades de aparelho sem uma ideia política na cabeça.

Desta vez, como há algumas hipóteses de o PS eleger quatro deputados, a luta para um lugarito até ao oitavo lugar está a ser ainda mais brava do que o costume. Uns jotinhas querem pôr uns patins em Miguel Figueiredo que, coisa rara entre os vips da JS, trabalha no duro numa empresa e não precisa de tacho.

2. Em todo o lado, os centros históricos das cidades estão a ser vedados, total ou parcialmente, à circulação automóvel. Em todo o lado menos em Viseu.

Fotografia Olho de Gato
Maio/2012
Em 2005, ainda houve uma tentativa mas, perante o clamor, a câmara desistiu. Ainda não havia evidências que um centro histórico livre de carros pode ser bom até para os negócios dos bares. Agora já há. Os Jardins Efémeros encarregaram-se de demonstrar que os viseenses não se importam de caminhar um pouco mais e ter as ruas e praças do centro histórico livres da poluição e do incómodo do trânsito.

Era bom, pelo menos nas noites dos fins-de-semana de Maio a Setembro, Viseu proporcionar às pessoas um centro histórico despoluído e civilizado.

sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Bodes expiatórios*

* Hoje no Jornal do Centro



“O homem é a criatura que não sabe o que desejar e que se vira para os outros para se decidir. Nós desejamos o que os outros desejam porque imitamos o seu desejo.”
Renė Girard

É esta teoria do desejo mimético de René Girard que explica o sucesso das redes sociais. As pessoas desejam o que os outros desejam e odeiam o que os outros odeiam e essa imitação materializa-se em likes e partilhas.

As sociedades ligadas em rede como as nossas, apesar de toda a tecnologia que usam, são comandadas, como explica o filósofo francês, pelas pulsões primitivas de sempre — a alcateia de “haters” a uivar em cada indignação do Facebook parece-se muito com os antigos ritos sacrificiais, em que eram sangrados e queimados em aras os bodes expiatórios (os inimigos, as bruxas, os sacrílegos, ...)

A sociedade foi partida em grupos identitários que criam para si uma história de agravos e de ressentimentos, reais ou imaginários, sempre a querer fazer ajustes de contas. Isso permite à política viver do fabrico de bodes expiatórios que vão sendo entregues para sacrifício ao vampirismo identitário. Enquanto ardem as redes sociais, e elas estão sempre incendiadas, os políticos lá vão tratando das suas vidas.

A criança Trump precisa do “traficante” do lado de fora do muro com o México enquanto o seu clã faz negócios com os sauditas, o boçal Bolsonaro necessita da “petralhada” enquanto os filhos abrem a boca e sai asneira, o sinistro Puigdemont depende da diabolização do “espanhol” para que os catalães não vejam a sua mediocridade, o aflito Macron carece do “casseur” para ver se se safa daquele colete de onze varas em que está metido.


Daqui
Até a nossa pacífica geringonça, pelo que se tem visto com a reacção à ida de um suástico a um programa de televisão, anseia por um “fascista” que possa ocupar o lugar de bode expiatório que está vago desde que saiu de cena Pedro Passos Coelho.

sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Maioria absoluta*

* Hoje no Jornal do Centro


1. No início desta semana, Joana Marques Vidal foi agraciada com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo. Numa fotografia oficial da cerimónia, ...

Daqui
... vêem-se Ferro Rodrigues, Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa com um sorriso de plástico e a ex-PGR com a cara fechada.

O dossier político mais importante deste ano foi fechado assim, com esta rotina institucional tristonha e envergonhada, que decorreu longe dos olhares da comunicação social.

2. Vamos agora a 2019. No próximo ano só vai haver um assunto político - a maioria absoluta do PS. Os socialistas vão fazer tudo para a obter, os outros partidos vão fazer tudo para a evitar.

E, valha a verdade, sendo a maioria absoluta difícil de alcançar, ela não é impossível. É que, quando o segundo partido fica muito longe do primeiro, o método de Hondt pode dar a maioria ao vencedor com uma votação à volta de 42/43%.

Façamos um parêntesis. E se acontece, como em 1999, um empate com 115 deputados da situação e 115 da oposição? Pois, já devia haver um número ímpar de deputados para evitar isso, mas os políticos comem muito queijo limiano. Fim de parêntesis.

Pelas razões explicadas acima, quanto maior a inacção e falta de estratégia de Rui Rio, maior a probabilidade de acontecer uma maioria absoluta socialista.

O principal obstáculo é o descontentamento dos professores. Estando em causa valores orçamentais equivalentes, Costa preferiu tratar bem o IVA dos donos dos restaurantes e tratar mal o tempo de serviço dos professores. Isso vai ter custos eleitorais.

Termino com uma pergunta: quais foram os primeiros-ministros que fizeram mais mal ao país? Pois. Foram mesmo esses dois em que está a pensar.

E repare: tanto Cavaco Silva como José Sócrates foram eleitos com maiorias absolutas de que resultaram governos arrogantes, autoritários e negocistas.

sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Utilizadores-não-pagadores*

* Hoje no Jornal do Centro


Ele é borlas para o IRS dos emigrantes, ele é saldos dos passes sociais, ele é isto, ele é aquilo, os políticos estão lelés da cuca, como dizia há uns anos Marcelo Rebelo de Sousa.

Ainda faltam nove meses para as europeias e mais de um ano para as legislativas, mas, apesar de toda esta lonjura, a bolha em que vivem os políticos já só pensa numa coisa — votos.

E onde é que há votos? Pois, já se sabe, votos, votos a sério, há no litoral. No distrito de Viseu, se as pessoas estiverem contentes com o PS dão-lhe quatro deputados, se estiverem zangadas dão-lhe três. Não aquenta nem arrefenta. Já nos grandes círculos as coisas piam mais fino.

Foi por isso que o PS se saiu, no último fim-de-semana, com a ideia de uns passes fofinhos para os transportes em Lisboa. Coisa para uns sessenta milhões de euros a pagar por todos, alfacinhas ou não.

Depois, aquele eleitoralismo centralista foi diluído com um acrescentamento carinhoso de quinze milhões para os passes dos tripeiros e um afago de cinco milhões para os outros, entenda-se, para os passes de Coimbra e Braga.

Falta ver se estas águas de bacalhau cativam, ou não, o ministro Centeno. Esperemos sentados a trautear aquela cantiga do Sérgio Godinho que espera pelo comboio na paragem do autocarro. Os nossos poucos comboios, avariados ou atrasados, periclitam-se nos carris, enquanto os novos autocarros amarelos de Viseu...


Fotografia Olho de Gato
... ganham pó há meses em Coimbrões, à espera de uma decisão judicial. Mas, mesmo que estivessem a andar, não havia carinhos nem afagos do orçamento de estado nos passes de ninguém.

Quanto mais longe do mar, mais se sente o chicote implacável do princípio do utilizador-pagador, o mesmo que ergueu pórticos nas nossas auto-estradas. Sem alternativas, lá temos de atestar os nossos carros com 40% de combustível e 60% de impostos. Impostos que, depois, vão financiar transportes metropolitanos, com passes fofinhos para utilizadores-não-pagadores.