sexta-feira, 31 de agosto de 2018

700*

* Hoje no Jornal do Centro

1. No último dia deste querido mês de Agosto, um número redondo: este é o septingentésimo Olho de Gato.

Este Agosto teve um calor bravo nos primeiros dias mas, depois, lá amansou e ficou querido como todos os anos. Dava jeito uma chuvinha em cima das nossas vinhas e dos pinhais. Pinhais que, mais para o Outono, hão-de dar míscaros e sanchas e tortulhos e gasalhos e centieiros.

Os nossos queridos emigrantes já regressaram às terras onde fizeram vida, a nossa classe média mais manienta chama-os aveques, eles estão-se bem nas tintas, gozaram cá as merecidas férias, para o ano regressam, abençoados sejam.

Os apoios e os descontos de IRS anunciados pelo primeiro-ministro não são para eles, não são para as Lindas de Suza. António Costa só quer pôr o fisco a mimar os “mochilas-de-cartão”, licenciados e de smartphones cheios de apps, ...

Fotografia daqui
... que emigraram nos anos a seguir à bancarrota, esses e mais ninguém.

Esta “ideia” do governo vai contribuir tanto para o regresso de quadros qualificados como o cheque-bebé de Sócrates, há oito anos, contribuiu para o aumento da natalidade. Mas vai entreter o pagode.

2. Esta semana, o jornal Público alegrava-se em letras garrafais na primeira página: “Novas regras para matrículas acabaram com fraudes das moradas falsas”.

Agora só falta o parlamento aplicar as mesmas regras das matrículas dos alunos às casinhas dos senhores deputados.

3. Com o fim do querido mês de Agosto, vai-se a bonomia e o sossego. Chegam as contas dos cartões de crédito e as despesas do “regresso às aulas”.

Há que cair na real e enfrentar os problemas. Na política, está a chegar o tempo da única decisão verdadeiramente importante de 2018 — a designação do Procurador-Geral da República.

Como é consabido, António Costa e Rui Rio não querem a recondução de Joana Marques Vidal. Paciência. Vão ter que a gramar. Era só o que mais faltava regressarmos aos tempos em que tínhamos um arquivador-geral da república às ordens das cliques partidárias.

Hit the road, Jack and don't you come back no more, no more, no more, no more


Woah, Woman, oh woman, don't treat me so mean
You're the meanest old woman that I've ever seen
I guess if you said so
I'd have to pack my things and go




quinta-feira, 30 de agosto de 2018

Existimos de forma concisa

Fotografia Olho de Gato


Num gomo de laranja, no feixe
De luz oblíquo ao parapeito da janela,
Nas superfícies das paredes que sobem
Até ao tecto da casa, no vidro outrora
E na gota de chuva e quando cessa a chuva
No troar das andorinhas, existimos de forma
Concisa

Não tendo o mundo outra forma de existir.
Sandra Costa


quarta-feira, 29 de agosto de 2018

Ele e ela (VI)*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 29 de Agosto de 2008

El Angel Exterminador, Luis Buñuel



— Finalmente! Onde estiveste?

— Estou a chegar do trabalho…

— Liguei para o teu escritório. Disseram que já tinhas saído…

— Havia muito trânsito. Passei na lavandaria para buscar o teu fato Armani; o que comprámos em Nova York…

— Às três não estavas no serviço…

— …?

— … não estavas, não… a tua secretária disse-me.

— Já te pedi para não ligares para o telefone da empresa. Liga-me antes para o telemóvel. Tive uma manhã infernal. Estamos a preparar a compra de uns terrenos. Só consegui ir comer qualquer coisa tardíssimo…

— Terrenos? É melhor nem dares pormenores…

— Vamos ter visitas hoje…

— Ai sim? Podias, ao menos, ter-me dito qualquer coisa…

— … convidei o meu sócio e a mulher para jantarem cá …

— Não percebo.

— O quê?!

— Estás sempre a dizer mal dela e agora convida-la cá para casa?

— Não digo nada mal dela… só que ela, antigamente, era muito ciumenta.

— Pois… cada um sabe as linhas com que se cose…

— Era bom que nós os quatro convivêssemos mais. Para nos conhecermos melhor e acabarem os mal-entendidos. Até porque é da empresa que vem quase todo o nosso rendimento…

— Já sei que ganho pouco.

— Não disse nada disso. Estou tão cansada da tua hostilidade…

— Vou pedir à empregada para preparar jantar para quatro.

— Depois, manda-a embora mais cedo. Vou tomar um banho.

— Ok.

— Sabes? O meu sócio deixou de ter problemas com a mulher…

— Ai, sim? Como?

— Agora eles visitam casais amigos e fazem swing…


* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008, 2009, 2011 e 2012 no Jornal do Centro.

Não o sonho

Fotografia de Saul Leiter


Talvez sejas a breve
recordação de um sonho
de que alguém (talvez tu) acordou
(não o sonho, mas a recordação dele),
um sonho parado de que restam
apenas imagens desfeitas, pressentimentos.
Também eu não me lembro,
também eu estou preso nos meus sentidos
sem poder sair. Se pudesses ouvir,
aqui dentro, o barulho que fazem os meus sentidos,
animais acossados e perdidos
tacteando! Os meus sentidos expulsaram-me de mim,
desamarraram-me de mim e agora
só me lembro pelo lado de fora.
Manuel António Pina



terça-feira, 28 de agosto de 2018

Deixe-me ir, preciso andar

Fotografia de Ciera Broussard



Deixe-me ir, preciso andar
Vou por aí a procurar
Sorrir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Quando eu me encontrar

Quero assistir ao sol nascer
Ver as águas dos rios correr
Ouvir os pássaros cantar
Eu quero nascer, quero viver


No mesmo palco: Zeca Pagodinho, Marisa Monte, Yamandú Costa, Hamilton de Holanda

segunda-feira, 27 de agosto de 2018

The lady loves me



The lady's got a crush on me
The gentleman's crazy obviously
The lady's dying to be kissed
The gentleman needs a psychiatrist
I'd rather kiss a rattlesnake
Or play Russian roulette
The lady loves me, but she doesn't know it yet


domingo, 26 de agosto de 2018

Gramática de la relatividad

Fotografia Olho de Gato


Quizá ni el tomate es tan puro
ni el tabaco tan mortal como comentan.
Me caen bien los extraños, me siento segura
en los países muy desordenados.
Protegerse está bien, pero a veces confiar
es mejor revulsivo para una vida larga.
Ni es cierto que no importe lo de lejos, ni es cierto
que no haya sitio en el mundo
para la literatura.
Pero la publicidad nunca es poesía.
Confío en mi cuerpo
más que en buena parte de los médicos,
y algunas drogas nos ayudan a dormir.
El amor existe.
Abrazarse a muchos cuerpos no es sinónimo de calma,
no hacerlo tampoco ayuda demasiado.
He tenido jefes que eran mis amigos
y compañeros que no.
El sentido común falla a menudo.
Si te cuidas demasiado, entonces eres presa fácil.
Los juicios no marcan la línea que separa el bien y el mal,
no marcan casi nada.
La verdad no tiene un solo nombre.
Cinco manzanas al día
son demasiadas manzanas.

Y la palabra es
como un juego de niños:
cuando llega a tus manos hay que abrazarla fuerte
y escaparse corriendo del enemigo.
Y, luego, lanzarla a quien sepa
guardarla mejor.
A quien corra más.
Laura Casielles


sábado, 25 de agosto de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#208)

«Ó sr. Silva, agora queremos uns pastelinhos de Belém...»

Sala dos actos / 3

Fotografia Olho de Gato



usa a tua nudez acessórios mortais
para quem procura. a fita de veludo,
o cinto de fivela prateada,
a pintura guerreira, o golpe subtil

com que anuncias a ascensão
ao cume do carinho, exactamente
quando sobre o desvario
distendes os flancos e lanças sobre mim

o golpe intrépido
para que o êxtase estoure no meu corpo
esse mar de grata violência

que pressinto chegar em vagas sucessivas
sempre que gritas e, nesse grito,
desatas o meu grito.
Amadeu Baptista



sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Um pesadelo*

* Hoje no Jornal do Centro


1. A constituição democrática do Brasil foi promulgada em Outubro de 1988, um ano antes da queda do muro de Berlim. Na altura, o Partido dos Trabalhadores (PT) era anti-sistema e não quis participar no processo de passagem da ditadura militar para a democracia. Não estava de acordo com as regras da “democracia-burguesa” mas depois usou-as impecavelmente e conseguiu eleger Lula da Silva, alcandorando o Brasil a uma posição de destaque e respeito no mundo.


Fotografia de Marcelo Sayao
Lula foi um bom presidente e chegou ao fim do seu último mandato com taxas de aprovação de 90%. Na altura muita gente queria que ele mudasse a limitação constitucional de mandatos de forma a poder continuar, mas Lula recusou. Fez bem. Lula foi, então, um democrata, contrastando, por exemplo, com o que estava a fazer o funesto Chavez na Venezuela.

2. Entretanto, Lula mudou. Para pior. Escrevo este texto no dia em que o PT o registou como seu candidato oficial a presidente, ao mesmo tempo que candidatava a vice-presidente Fernando Haddad, ex-prefeito de S. Paulo.

Estamos perante um padrão comportamental: mal começou a ter sarilhos no Lava Jato, Lula arrastou Dilma até ao chão e está agora a fazer o mesmo ao PT, levando-o a desrespeitar uma lei que a cidadania brasileira impôs à sua corrupta classe política.

Recorde-se: a lei da ficha limpa, que proíbe um condenado em segunda instância de ir a votos, foi aprovada pelo Congresso, após uma petição de 1,6 milhões de brasileiros, e foi promulgada por Lula, no seu último ano de presidência.

Lula, em 2010, respeitou as regras. Em 2018, a criatura não respeita nem tão pouco uma das leis que promulgou. Lula é agora um projecto de autocrata. Uma ameaça à democracia.

Se Haddad fosse eleito, trataria logo de conceder perdão a seu superior hierárquico. O Brasil virava uma Venezuela ou uma Nicarágua. Um pesadelo. Não pode acontecer.

Tal como em 1988, a democracia brasileira vai ter que avançar sem o PT.

Os dias declinando

Fotografia Olho de Gato



Tudo o que um dia te foi belo e amplo e prometedor
reúne-o e faz dele forragem e um telhado
para os teus dias inglórios de colmo

porque não haverá um dia um único
que não te aponte as graves falhas do que és
com a lanterna do esplêndido assomo do que foras.

Eu sei-o. Vou olhando-os fixamente nos olhos,
mosca aprisionada na cozedura da teia,
como repentino encontro com um velho conhecido
que julgara não se haver perdido de vista.
Daniel Jonas




quinta-feira, 23 de agosto de 2018

Viento de noche

Fotografia Olho de Gato


El viento es un can sin dueño,
que lame la noche inmensa.
La noche no tiene sueño.
Y el hombre, entre sueños, piensa.

Y el hombre sueña, dormido,
que el viento es un can sin dueño,
que aúlla a sus pies tendido
para lamerle el ensueño.

Y aun no ha sonado la hora.

La noche no tiene sueño:
¡alerta, la veladora!
Dámaso Alonso



quarta-feira, 22 de agosto de 2018

Ele e ela (V)*

* Publicado há exactamente dez anos, em 22 de Agosto de 2008





Imagem daqui


— Olá! Cheguei! 

«I've got a gal who's always late
Ev'ry time we gota a date
But I love her
Yes, I love her!» 

— Desculpa… atrasei-me muito?

— O costume:
«A minha namorada atrasa-se sempre
todas as vezes que temos um encontro
mas eu amo-a
sim eu amo-a!»

— Maluco, olha as pessoas a olharem para nós… Gosto do Joe Jackson a cantar isso: “Is you is or is you ain't my baby…”



— Eu prefiro a Diana Krall.

— Joe Jackson é muito melhor! Tem mais álcool e tabaco na voz… 

— Mexe-te. Vamos ver se ainda há bilhetes. Tu e os teus atrasos…

— Que filme queres ver?

— O novo com o Heath Ledger…

— Aquele do filme dos cowboys maricas?

— Sim. Agora faz de Joker no “Cavaleiro das Trevas”. Ainda ganha um Óscar póstumo.

— Este ano vi um filme de seis estrelas: o “Haverá Sangue”. É um filme para gente grande, não uma coisa para putos como as que tu gostas…

«Is you is or is you ain't my baby?
The way you're actin' lately makes me doubt»


— Duvidas? Estás com dúvidas sobre mim, é?

— Vim a ouvir a Diana Krall a cantar isso no carro. Aplica-se a ti. Chegas sempre atrasada. Ultimamente, estás pior…

— Que queres? O Francis Obikwelu também se atrasou e é um dos teus heróis…

— Mas é a ti que eu dou a medalha de ouro…

— Pronto, chatinho, peço desculpa mais uma vez…

— Agora já não há bilhetes para o Batman …

— Deixa lá… vamos mas é passear de carro de mãos dadas… Ouvir o Joe Jackson…

— A Diana Krall…



* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008, 2009, 2011 e 2012 no Jornal do Centro.


Os idílios

Fotografia de Senta Simond



Sente-se a força empresta-se-lhe face
converte-se a um nome a sujeição
prolonga-se o instante delicado
em risco no papel em ritmo no teclado

esteriliza-se num cristal a víscera
com etiqueta de onde foi colhida
se era macho ou fêmea e em que data
dispensam a circunstância implícita
da sua história íntima

assim o amor incomparável
Tereza Balté


terça-feira, 21 de agosto de 2018

No beto carreiro eu vi um macaco que ria

Fotografia de Viviane Sassen



desculpa se eu quebrei
o protocolo das fodas
casuais

mas você voltou
pra pegar o livrinho amarelo
do ferlinghetti
e os passos no andar de cima
misturaram-se
com filas quilométricas
de turistas e meninas em camisas
suadas muito
escritas

– é que você não
é gorda
é que eu pensei em sons
que já não lembro mais na volta pra casa
e em objetos
pequenos como peras
fatiadas
e na obesidade infantil
e em você criança
sendo tirado à força dum torneio de xadrez
porque esse método de não pensar em nada
por mais de três vezes ainda é o melhor método,
pra mim

é uma reflexão
pra concluir
depois dum filme
do hal
hartley
– é horrível –
são meditations
for dummies
são sempre os mesmos
lugares
mas melhor seria o filme
em que você descobre a bola
fugida da altinha na praia numa tarde
primaveril
e a devolve ao corpo
esguio de adolescente
marrom com gotículas
de sal, suor
& força
tal foi minha surpresa ao encontrar
entre os edredões de uma bebedeira
uma carta celeste e as 7 marcas
da porradaria.

noutra,
a cidade vazia
espera
há três dias
a carne
apodrecida de fukushima

– somos todos cúmplices
dos mesmos problemas
mecânicos
saindo de santa assim tão
          cedo

ou tarde

ou quando
a luz do pipoqueiro ilumina
dramaticamente
um rosto cru –

existe a distância
e existe o tempo
existem mulheres que são mulheres
e ainda rochas
e paisagens
e tudo mais que se desentranha
          da tarde

como quando você comia repolho
e escavava poemas
que diziam que era assim mesmo:
há amor, às vezes
Catarina Lins


segunda-feira, 20 de agosto de 2018

A mulher quer

Fotografia de Yana Toyber






a mulher quer
a mulher quer ser amada
a mulher quer um cara rico
a mulher quer conquistar um homem
a mulher quer um homem
a mulher quer sexo
a mulher quer tanto sexo quanto o homem
a mulher quer que a preparação para o sexo aconteça lentamente
a mulher quer ser possuída
a mulher quer um macho que a lidere
a mulher quer casar
a mulher quer que o marido seja seu companheiro
a mulher quer um cavalheiro que cuide dela
a mulher quer amar os filhos, o homem e o lar
a mulher quer conversar pra discutir a relação
a mulher quer conversa e o botafogo quer ganhar do flamengo
a mulher quer apenas que você escute
a mulher quer algo mais do que isso, quer amor, carinho
a mulher quer segurança
a mulher quer mexer no seu e-mail
a mulher quer ter estabilidade
a mulher quer nextel
a mulher quer ter um cartão de crédito
a mulher quer tudo
a mulher quer ser valorizada e respeitada
a mulher quer se separar
a mulher quer ganhar, decidir e consumir mais
a mulher quer se suicidar
Angélica Freitas




domingo, 19 de agosto de 2018

Poema dum funcionário cansado

Fotografia de Priscilla Du Preez



A noite trocou-me os sonhos e as mãos
dispersou-me os amigos
tenho o coração confundido e a rua é estreita
estreita em cada passo
as casas engolem-nos
sumimo-nos
estou num quarto só num quarto só
com os sonhos trocados
com toda a vida às avessas a arder num quarto só
Sou um funcionário apagado
um funcionário triste
a minha alma não acompanha a minha mão
Débito e Crédito Débito e Crédito
a minha alma não dança com os números
tento escondê-la envergonhado
o chefe apanhou-me com o olho lírico na gaiola do quintal em frente
e debitou-me na minha conta de empregado
Sou um funcionário cansado dum dia exemplar
Por que não me sinto orgulhoso de ter cumprido o meu dever?
Por que me sinto irremediavelmente perdido no meu cansaço
Soletro velhas palavras generosas
Flor rapariga amigo menino
irmão beijo namorada
mãe estrela música
São as palavras cruzadas do meu sonho
palavras soterradas na prisão da minha vida
isto todas as noites do mundo numa só noite comprida
num quarto só
António Ramos Rosa


sábado, 18 de agosto de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#207)

Erro de casting em A Noite Americana, de François Truffaut (1973)

Vídeo daqui
* Detalhes sobre o filme aqui e aqui

Nunca soube o teu nome

Fotografia de Scott Typaldos

Nunca soube o teu nome. Entraste numa tarde,
por engano, a perguntar se eu era outra pessoa —
um sol que de repente acrescentava cal aos muros,
um incêndio capaz de devorar o coração do mundo.

Não te menti; levantei-me e fui levar-te à porta certa
como um veleiro arrasta os sonhos para o mar; mas,
antes de te deixar, disse-te ainda que nessa tarde
bem teria gostado de chamar-me outra coisa — ou
de ser gato, para poder ter mais do que uma vida.
Maria do Rosário Pedreira


sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Cinema*

* Hoje no Jornal do Centro




1. O cinema é a arte que vampiriza todas as outras. Surgiu em França, na passagem do século XIX para o século XX, e logo com as suas duas “escolas” a funcionarem em pleno — a realista/documental, dos irmãos Lumière, e a fantástica/ficcional, de Georges Meliès.

Na noite de 28 de Dezembro de 1895, na primeira sessão de cinema, os manos Louis e Auguste Lumière projectaram numa cave escura de Paris um filme chamado “Chegada de um comboio à estação de la Ciotat”.


É fácil encontrar na internet 
— abençoada rede que alimenta todas as nostalgias! —...

... este genesial documentário de cinquenta segundos que mostra um comboio a chegar a uma estação e a entrada e saída dos passageiros.


Como é sabido, aqueles nossos trisavós, que pagaram bilhete para serem os primeiros espectadores de imagens em movimento, ao verem aquela locomotiva fumarenta a “avançar” para eles na sala escura, entraram em pânico e fugiram. Ainda não estavam equipados mentalmente para aquela forma nova de apresentar o “real”.

Não foi preciso esperar mais do que sete anos para aparecer o primeiro filme de ficção científica. O mágico Georges Méliès filmou, em “Viagem à lua”, a entrada de uns astronautas barbudos para o bojo de um projéctil de canhão que, depois, vai acertar literalmente no olho direito da lua.





Passou bem mais de um século, e a magia da sala escura continua a fazer imergir os espectadores no “real” (obrigado, irmãos Lumière!) e na “fantasia” (obrigado, Méliès!).

2. No saudoso Cinema S. Mateus, de Viseu, o projeccionista gostava de soltar os decibéis quando os filmes o pediam.** Uma vez, num filme de terror, numa daquelas cena de arrepiar, o homem deu gás ao som com tanto brio que uma campânula de coluna se soltou e foi aterrar na cabeça de uma espectadora da última fila.

A senhora, coitada, tinha ido ver um filme à “Méliès” e saiu-lhe uma sensação real, à “Lumière”. Não fugiu como os espectadores de 1895. Porque desmaiou.

________________________

** 
— esta história deliciosa foi contada por José Casimiro, gerente do Cinema S. Mateus, a Fernando Giestas, autor do livro "Cine Cidade — as salas de cinema, os protagonistas e os filmes do Cine Clube de Viseu, 1955-2007", edição Imagens & Letras (2008), p. 95;

— por erro exclusivamente meu, a edição impressa no Jornal do Centro desta crónica termina assim: "Não fugiu como os espectadores de 1895. Mas desmaiou."

ABC

Fotografia de Cheryl Dunn


Jamais saberei
o que A. pensava de mim.
Se B. acabou por me perdoar.
Por que razão fingia C. que tudo estava bem.
Qual a quota-parte de D. no silêncio de E.
O que esperava F. se acaso algo esperava.
Por que fingia G. sabendo de tudo.
O que tinha H. a esconder.
O que queria I. acrescentar.
Se o facto de eu estar por perto,
teve algum significado
para J. e K. e para o resto do alfabeto.
Wisława Szymborska
Trad.: Teresa Swiatkiewicz


quinta-feira, 16 de agosto de 2018

Sem nome e um pouco gago

Fotografia de Huy Phan


Eu falo tanto.
Tanto de amor
pois assim eu o gasto
todo carcomido
como a sola do sapato
se curva pra dentro
de tanto ser pisada
torto pode ser
amor levante
as suas asas
numa revoada
venha se revolte
espume e recolha
quando é madrugada
vamos descansar
dos truques
cara a cara
olho a olho
dente no pescoço
eu sei tão pouco
ao mesmo tempo
eu blefo e juro
ao mesmo tempo
aos teus pés
eu ofereço
agulha e tropeço
meus instrumentos
é honesta e cruel
a minha forma
líquido é o sal
anca com anca
prova na carne
que é carne
o poema
o encaixe
enraíza
o sol
o vai e o vem
o mar
instinto não sei
algo me diz
não falha
o caminho a navalha
o clarão do cavalo
a aurora e o breu
tudo isso e mais um pouco
pelo amor sou tua e tão eu.
Júlia de Carvalho Hansen












quarta-feira, 15 de agosto de 2018

Ele e ela (IV)*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 15 de Agosto de 2008



— Bom dia!

— Bom dia, minha senhora!

— Este é que é o comboio para o Mindelo?

— É. Esta linha do metro passa no Mindelo.

— Vou lá ver a minha filha. Casou-se muito bem. O meu genro é segurança no Norte Shopping e a minha filha faz lá limpezas.

— É bom ter emprego. O Porto está em crise. Só fazem obras em Lisboa….

— O meu falecido morreu nas obras em França. Foi de salto para lá. Não tinha papéis. O patrão dele nem no seguro o tinha! O meu homem caiu dum andaime. Fiquei viúva…

— Tempos difíceis…

— Tive que criar a minha filha sozinha. Esta estação já é Mindelo?

— Não, minha senhora. É Pedras Rubras.

— O senhor também vai para o Mindelo?

— Não. Continuo até à minha terra, Vila do Conde…

— Eu sou da Queiriga. Acartei muito saco de batatas à cabeça…

— Queiriga? Onde é?

— Em Vila Nova de Paiva. Perto de Viseu. Agora, em Agosto, lá é só franceses! É aqui, Mindelo?

— Ainda não…

— O meu neto anda a estudar para doutor…

— Isso é bom. Que curso é?

— Médico. Só tira vintes. Está sempre a ler…

— Parabéns, minha senhora! Isso é um grande curso!

— A minha neta também quer ir para médica. Mas está com medo que não haja vaga para ela. Os exames este ano foram demasiado fáceis. Até os burros vão ter boas notas!

— Minha senhora, olhe a placa ali a dizer Mindelo…

— É aqui que eu saio! Muito obrigada por tudo. Desculpe, senhor, se o incomodei… é que eu… eu… eu não sei ler…

* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008, 2009, 2011 e 2012 no Jornal do Centro.

À-bout-de-souffle, breathless, atemlos, sem-fôlego




terça-feira, 14 de agosto de 2018

É sempre a mesma curva cega

Fotografia de Sarah Michelle Riisager



é sempre a mesma curva
cega, neste troço de pedra lascada,
não há como escapar
às primeiras chuvas
ao piso escorregadio dos olhos,
despiste, falésia mortal,
o coração não entende
sinais vermelhos.
Renata Correia Botelho



segunda-feira, 13 de agosto de 2018

Pores-de-sol

Fotografia Olho de Gato


Toda a gente fala dos pores-de-sol
Todos os viajantes concordam em falar dos pores-de-sol nestas paragens
há montes de livros onde só se descreve pores-de-sol
Os pores-de-sol dos trópicos
Sim é realmente um esplendor
Mas eu prefiro de longe os nasceres de sol
A alvorada
Não falho uma
Estou sempre no convés
Em pelota
E estou sempre só a admirá-los
Mas não vou descrever as alvoradas
Vou guardá-las só para mim
Blaise Cendars
Trad.: Liberto Cruz




domingo, 12 de agosto de 2018

Grafito

Fotografia de Xuan Nguyen


O poema pode conter:
coisas certas, coisas incorrectas, venenos para
manter fora do alcance
excursões campestres, falhas de memória
uma bicicleta caída junto às primeiras paixões
sombrias
Pode conter Le matin, Le midi, Le soir
audácias típicas de um visionário
uma guerra civil
um disco dos Smiths
correntes marítimas em vez de correntes literárias
José Tolentino Mendonça


sábado, 11 de agosto de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#206)


Como que ocê pôde abandoná eu?
Se nóis foi sempre siliz
Esse moço nunca te mereceu
E eu sou o que ocê sempre quis


Cantiga

Fotografia Olho de Gato



Vem
EVA,
vem
dizer
no
meu
ouvido:

tudo
que
está
vivo.
Felipe Nepomuceno


sexta-feira, 10 de agosto de 2018

Água*

* Hoje no Jornal do Centro


1. O que está aqui a ser feito no Jornal do Centro — na edição em papel, no rádio, no vídeo e online — honra os profissionais desta casa.

As notícias e opiniões aqui publicadas vão ser uma fonte preciosa, no futuro, para quem se queira debruçar sobre a história e os protagonistas da região de Viseu, nestes anos de deserção do estado central e de anemia económica, social e política.


Barragem da Aguieira, em 18.11.207
Fotografia Olho de Gato
2. Um problema que tem chamado cada vez mais a atenção dos jornalistas desta casa é o da água. Primeiro por causa do preço proibitivo do precioso líquido privatizado no sul do distrito, depois com a crise da barragem de Fagilde, agora pelas movimentações políticas à procura de soluções duradouras para o problema.

É preciso escrutinar o que se passa com a “Águas de Viseu”, uma empresa intermunicipal de oito municípios, em processo de aprovação nas várias assembleias municipais (a AM de Viseu já aprovou uma posição de 49,9% no capital).

Primeira pergunta: por que raio é que esta entidade tem o mesmo nome da empresa municipal com que António Almeida Henriques, em má hora, quis substituir os superavitários e eficazes serviços municipalizados de Viseu e que foi chumbada pelo Tribunal de Contas?

É verdade que o governo e a “Europa” impõem soluções intermunicipais. Mas, à volta desta nova “Águas de Viseu” em formação, ainda há muito nevoeiro.

Há que impedir os nossos eleitos de privatizarem a água e de a encarecerem com aumentos e aumentinhos, taxas e taxinhas. É preciso que eles peguem na energia que gastam em festas e festinhas e, literalmente, a canalizem para a modernização das redes e para o rigor na cobrança dos consumos.

Como quantificou este jornal em Junho, no distrito só há uma rede a perder menos de um quarto da água tratada: é a de Mangualde. Todas as outras perdem mais ou muito mais. Em dez concelhos desperdiça-se muito mais de metade. Moimenta e Resende, os campeões, em cada dez litros conseguem desbaratar mais de sete litros (!) de água canalizada.

Pienso a veces...

Fotografia de Yiran Ding


Pienso a veces que ha llegado la hora de callar.
Dejar a un lado las palabras,
las pobres palabras usadas
hasta sus últimas cuerdas,
vejadas una y otra vez
hasta haber perdido
el más leve signo
de su original intención
de nombrar las cosas, los seres,
los paisajes, los ríos
y las efímeras pasiones de los hombres
montados en sus corceles
que atavió la vanidad
antes de recibir la escueta,
la irrebatible lección de la tumba.

Siempre los mismos,
gastando las palabras
hasta no poder, siquiera, orar con ellas,
ni exhibir sus deseos
en la parca extensión de sus sueños,
sus mendicantes sueños,
más propicios a la piedad y al olvido
que al vano estertor de la memoria.

Las palabras, en fin, cayendo
al pozo sin fondo
donde van a buscarlas
los infatuados tribunos
ávidos de un poder
hecho de sombra y desventura.

Inmerso en el silencio,
sumergido en sus aguas tranquilas
de acequia que detiene su curso
y se entrega al inmóvil
sosiego de las lianas,
al imperceptible palpitar de las raíces;
en el silencio, ya lo dijo Rimbaud,
ha de morar el poema,
el único posible ya,
labrado en los abismos
en donde todo lo nombrado
perdió hace mucho tiempo
la menos ocasión de subsistir,
de instaurar su estéril mentira
tejida en la rala trama de las palabras
que giran sin sosiego en el vacío
donde van a perderse
las necias tareas de los hombres.
Pienso a veces que ha llegado la hora de callar,
pero el silencio sería entonces
un premio desmedido,
una gracia inefable
que no creo haber ganado todavía.
Álvaro Mutis