Mostrar mensagens com a etiqueta Assembleias Muncipais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Assembleias Muncipais. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 3 de maio de 2019

Pinderiquices*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Apesar da oposição de várias organizações ciganas, alguns activistas que se dizem “racializados”, comandados pelo sr. Mamadou Ba do bloco de esquerda, têm feito tudo para prantar uma pergunta sobre origem étnica no Censos de 2021.

Ora, uma pergunta deste tipo é racista. Como explica o sociólogo Rui Pena Pires, um departamento do estado usar a "categoria 'raça' reforça os fundamentos cognitivos do racismo”.

Os identitarismos têm muito poucos usos nobres. Este não é de certeza um deles.

2. Durante três longos anos, o parlamento teve uma “Comissão Eventual para o Reforço da Transparência” para, alegadamente, transparentar aquela casa.

Resultado dos trabalhos da comissão:
— vamos continuar a ter deputados em part-time a romperem os fundilhos das calças no parlamento de manhã e na advocacia de negócios de tarde;
— os deputados que fizeram ou venham a fazer viagens patrocinadas por empresas podem apanhar o avião à vontade.

Como se vê, enquanto o voto for sempre nos mesmos, o cartel partidário não deixa que nada mexa.

3. Como contou este jornal na sua última edição, dezenas de militantes do PCP-Viseu assinaram uma carta dirigida ao comité central em que se manifestavam contra a geringonça.

Este descontentamento das bases comunistas é incomum e, tudo indica, vai aumentar. É que, a seguir à perda de dez câmaras nas últimas autárquicas, das quais nove para o PS, o PCP vai perder um eurodeputado nas eleições deste mês.

Os tempos pós-Jerónimo que aí vêm adivinham-se turbulentos.


Fotografia de Nuno André Ferreira
Editada a partir daqui

4. Na última assembleia municipal de Viseu, o presidente da câmara culpou a geringonça por não haver Jardins Efémeros, porque o governo não teria dado 15 mil euros àquele festival.

Tendo presente as centenas e centenas e centenas de milhares de euros que o vereador Sobrado vai espatifando por ano em festas e festinhas, António Almeida Henriques vir desta maneira tentar atirar as culpas para terceiros é pindérico.

quarta-feira, 1 de maio de 2019

Autárquicas 2009 (I)*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 1 de Maio de 2009


Correia de Campos vai ser, de novo, o candidato do PS à presidência da assembleia municipal de Viseu (AMV). Esta recandidatura ainda vai passar por escrutínio na comissão política concelhia, onde deverá ser aprovada sem sobressaltos.

Daqui
Escrevi aqui em 6 de Janeiro de 2006: “A candidatura do ministro Correia de Campos à Assembleia Municipal de Viseu foi um erro. O PS local perdeu autonomia estratégica e tem que defender o governo, quer este se porte bem ou se porte mal com Viseu. O PSD ficou com a sua tarefa facilitada. O Dr. Ruas só precisa de sublinhar as clivagens, reais ou imaginárias, entre Lisboa e Viseu.”

No essencial, esta minha previsão confirmou-se: o PS-Viseu na AMV ficou remetido a uma posição defensiva, deixando que os problemas nacionais fossem usados pelo PSD como biombo dos problemas locais.

Contudo, o PSD não aproveitou tanto como lhe era possível a oportunidade de ouro que lhe foi oferecida numa bandeja. Ainda por cima aconteceu o “corram-nos à pedrada!” de Fernando Ruas, em plena sessão da assembleia municipal, que o fragilizou muito. Depois deste episódio das pedradas, Fernando Ruas afonizou. A sua voz deixou de ter o mesmo impacto nacional que tinha.

A candidatura em 2009 de Correia de Campos à AMV tem um enquadramento político diferente de a de há quatro anos. Há quatro anos Correia de Campos era ministro. Agora, felizmente, já não é.

Apesar de, muitas vezes, o pensamento e a acção política de Correia de Campos ultrapassarem a direita pela direita, o seu conservadorismo não vai conseguir tirar votos ao PSD e ao CDS. Mas deve ser respeitado o direito de Miguel Ginestal escolher quem quiser para seu companheiro de candidatura.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Coimas*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Sem se perceber bem como, ...


Editada a partir daqui
... Rui Rio e António Costa consumaram um acordo para transferir competências da administração central para as câmaras e comunidades intermunicipais.

Como os autarcas estão confrontados com um “aceitas-já” ou “aceitas-daqui-a-dois anos”, todas as deliberações que estão a ser tomadas sobre o assunto são pouco interessantes. Há um ou outro socialista mais vocal a tentar mostrar serviço aos chefes, mas, regra geral, o entusiasmo é pouco e as votações sobre o assunto são mornas.

Com este pacote legislativo, o centralismo não bule. E não bulirá enquanto o interior continuar com punhinhos de renda e conversa de chá-das-cinco e enquanto os políticos locais aceitarem qualquer coisinha, como se viu com aquele remendo mal botado que o governo arranjou para o IP3.

O centralismo vai continuar a levar para Lisboa todos os investimentos, todos os eventos, todos os passes fofinhos para os transportes metropolitanos, passes que o resto do país, sem alternativas, vai continuar a pagar com os seus impostos. O que está em causa, neste pacote descentralizador, são coisas de intendência que já não interessam a Lisboa, e que o sr. Rio e o sr. Costa querem entregar à província, mas sem lhes acoplar os necessários recursos financeiros.

Um exemplo: as câmaras municipais vão poder, a partir de agora, gerir o “estacionamento público”. Porreiro, pá! É um avanço transcendente na capacidade de auto-determinação do interior. Soem as trombetas! A partir de agora já não vai ser precisa uma assinatura prévia de um boy alfacinha para se poder decidir o estacionamento numa avenida em Moimenta da Beira ou em Mortágua.

2. Recomeçaram os avisos e as ameaças do ministro Cabrita: «evite coimas, limpe os 50 metros de terreno à volta da sua casa, e os 100 metros à volta da sua aldeia, até 15 de Março.»

É a mesma asneira do ano passado. Como se sabe, mato cortado tão cedo torna a crescer antes do Verão. Não se pode coimar a estupidez do legislador?

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Monocultura*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Está a ser publicado nos jornais, como publicidade paga, um “Manifesto por uma Floresta não Discriminada” ilustrado com uma fotografia XXL de um eucalipto com a legenda: “o bode expiatório”.

O documento anuncia “duas páginas de factos sobre a floresta que vale a pena ler” e é subscrito por académicos, câmaras, entidades da indústria e da produção florestal, ex-políticos e dois no activo: o eurodeputado Fernando Ruas e Vasco Estrela, o presidente da câmara de Mação.

Das oito câmaras que o subscrevem, a maioria tem fábricas de papel nos seus territórios. Não é o caso da câmara de Mortágua, mas não é surpresa nenhuma a sua presença ao lado deste lóbi. Mortágua sempre apostou forte na silvicultura industrial.

O manifesto apresenta argumentos pró-eucalipto que merecem leitura e escrutínio atento e sem preconceitos. Só assim podemos evitar que este lóbi compre a decisão política e faça da região uma monocultura de eucaliptos.

Há uma característica daquela árvore que até estes seus defensores concedem que é má — a “regeneração natural por via seminal”. Esta é a designação técnica para os rebentos que estão a surgir em força nas áreas ardidas e que, diz o manifesto, “devem ser objecto de acções de controlo e arranque”.


Fotografia Olho de Gato 
Ora, esse controlo não está a ser feito em lado nenhum. Há uma ou outra acção de relações públicas, uma ou outra iniciativa da sociedade civil, mas não há remoção sistemática daquela praga.

2. Depois do episódio em que a vereadora/deputada socialista Lúcia Silva chegou, assinou e bazou, a assembleia municipal de Viseu passou a querer disciplinar o pagamento das senhas de presença dos seus membros.

Faz bem: os deputados municipais só devem receber quando estiverem presentes no debate e votação dos pontos da ordem de trabalhos.

Já o período de antes da ordem do dia, esse looongooo bocejo de mesmice e sexo dos anjos, não deve ser obrigatório. A presença que fique a depender da maior ou menor pulsão masoquista de cada um.

quarta-feira, 9 de maio de 2018

D. Afonso Henriques*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 9 de Maio de 2008



1. A sessão do 25 de Abril deste ano da Assembleia Municipal de Viseu, teve intervenções de Flórido Marques, João Lima, Vítor Boga e Carlos Coelho de Sousa, deputados eleitos em Viseu, em 1975, nas primeiras eleições democráticas após o 25 de Abril.

Todos eles assinalaram a extraordinária qualidade política e humana dos deputados da Constituinte. Os deputados que fizeram a nossa constituição eram, de facto, a “nata da nata”. Depois, a qualidade foi caindo.

O politólogo Joaquim Aguiar explica muito bem como foi a evolução da nossa classe política nestes últimos trinta e quatro anos: primeiro, tivemos os “fundadores”; depois, os “sucessores”; agora é o tempo dos “funcionários”.

2. Vítor Boga, bem-humorado, preveniu que a sua intervenção, na Assembleia Municipal, não ia ser “comprida e pesada como a espada de D. Afonso Henriques”. Esta referência ao nosso primeiro rei foi a motivação que eu precisava para acabar de ler Viseu, Agosto de 1109, Nasce D. Afonso Henriques, de Almeida Fernandes, em boa hora reeditado pela Fundação Mariana Seixas.
Atirei-me ao livro logo naquela tarde. Quatro ideias:

i) As notas deviam estar em rodapé; não é fácil ter que marinhar no livro para a frente e para trás 406 vezes;

ii) As terras de Marzubelus foram cedidas por Dona Teresa a dona Gavilhe, em 1125; pergunto aos meus caros vizinhos: foi alguém com apelido Gavilhe que nos vendeu a casa?

iii) É mesmo verosímil que D. Afonso Henriques tenha nascido em Viseu, em Agosto de 1109, e não, como se pensava, em Guimarães;

iv) Esta reviravolta na nossa historiografia confirma, mais uma vez, uma convicção que já tenho há muito tempo: nada há mais instável que o passado.

quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Liberdade*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 18 de Janeiro de 2008

Fotografia Olho de Gato
1. António Barreto, na edição de 6 de Janeiro do Público, pôs na mesma frase o nome do primeiro-ministro e a terrível palavra começada por “f”. Escreveu ele: “Não sei se Sócrates é fascista. Não me parece, mas, sinceramente, não sei.”

António Barreto está preocupado com a liberdade. O que tem acontecido depois do 11 de Setembro, de facto, não nos deve deixar descansados. Os estados apertam cada vez mais o controlo dos cidadãos. Dizem-nos que isso é necessário para combater o terrorismo e que “quem não deve, não teme”. Sempre que deixamos que nos vigiem mais a nossa vida por causa desse “quem não deve, não teme”, é mais uma vitória de Bin Laden; mas é justo lembrar que este andar para trás das nossas sociedades abertas não é um exclusivo português.

Um só exemplo deita por terra todos os pressentimentos de António Barreto sobre o líder do governo. José Sócrates aceitou idas quinzenais ao Parlamento com regras muito mais duras para o primeiro-ministro. Sócrates deu, portanto, poder às oposições. Ora, por definição, um fascista não dá poder às oposições.


Numa coisa António Barreto tem razão: precisamos de usar mais a liberdade. E sem medo.


2. Já que ninguém pergunta, pergunto eu:
Caras e caros viseenses, ficam descansados ao saberem que o Hospital de S. Teotónio tem o seu Director Clínico em part-time?

3. Durante os anos em que liderei a oposição autárquica em Viseu, habituei-me a apreciar a intervenção, na Assembleia Municipal, de Jorge Adolfo Marques. Preparado, frontal, sem medo de correr riscos numa altura difícil para o PS, fez muito pela memória e pelo património do concelho. Obrigado, Jorge Adolfo.

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

Balanços*

*Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 4 de Janeiro de 2008

1. Acabo de folhear todas as edições do Jornal do Centro de 2007. Confesso que me demorei mais nas minhas 26 crónicas. O meu balanço é claro: o Olho de Gato podia e devia ter tido mais unhas. O Jornal do Centro também.

Fotografia Olho de Gato
2. É importante olhar-se com mais atenção para as Assembleias Municipais que, com a nova lei das autarquias, vão ter um papel muito mais importante nos governos municipais. Infelizmente, a primeira metade do mandato da actual Assembleia Municipal de Viseu foi muito murcha.

O PSD não se renova. Ora fala Mota Faria e, depois, António Vicente, ora fala António Vicente e, depois, Mota Faria; ouvem-se uns Presidentes de Junta avulsos; é um coro grego em culto à personalidade de Fernando Ruas; para mal de Viseu, as palavras do Presidente da Câmara já não conseguem o impacto nacional que tinham antes do episódio das pedradas.

No PS pontifica o economês de João Cruz que recita o mesmo discurso insulso há mais de dez anos. Correia de Campos, metodicamente, mistura os papéis de ministro e de deputado municipal. Primeiro anulou a construção, já concursada, de um Centro de Saúde magnífico, junto ao Continente; agora fala nuns contentores para servirem de Unidades de Saúde Familiar.

O Bloco de Esquerda é incapaz de dizer algo que se oiça cá fora, é incapaz de uma ruptura: nem sequer foi capaz de quebrar a unanimidade nas Moções patéticas sobre a defunta Universidade de Viseu.

Da acção do CDS na Assembleia Municipal também não chegam ecos à imprensa.

3. Como se sabe, quando fraqueja a política, medram os interesses.

Portugal precisa de alma. Viseu ainda mais.

Um bom 2008.

sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

Familismo, boyismo*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Para além do fenómeno do familismo — pujante no concelho de Viseu como vimos aqui na semana passada —, há outra disfunção do poder local a que se dá pouca atenção: o aliciamento das oposições. Quando um presidente da câmara não tem maioria ou não quer chatices raramente precisa de dar pelouros a mais do que um vereador da “oposição”. Este, depois, encarrega-se de domesticar o seu grupo parlamentar na assembleia municipal.

É por isso que era muito mais transparente não misturar “situação” e “oposição” numa câmara. Os executivos deviam resultar de maiorias coerentes na assembleia municipal, assumidas por um partido ou por uma coligação. E o presidente da câmara devia poder escolher e substituir a sua equipa de vereadores como entendesse.

Claro que tudo isto implicava termos assembleias municipais com mais poderes de escrutínio e com o poder de derrubar os governos municipais.


Daqui


2. O forrobodó que a assembleia municipal de Lisboa, presidida por Helena Roseta, acaba de aprovar por unanimidade só é entendível no quadro de aliciamento das oposições.

Os lisboetas vão pagar mais de um milhão e duzentos mil euros por ano em boys e girls para todos os grupos parlamentares. Cada assessor vai afinfar 3752,50 euros mais IVA, cada secretária 2802,50 euros mais IVA. Por exemplo: só os boys veg do partido mais pequeno, o PAN, vão custar mais de 7000 euros por mês aos alfacinhas.

Esta cadeia alimentar — que já vem do tempo em que o então mayor António Costa estava em minoria — foi conhecida agora com algum estrépito nos jornais. O dirigente do PSD, José Eduardo Martins, acrescentou um pormenor delicioso: há deputados municipais com tanta flexibilidade vertebral que... conseguem contratar-se a si próprios como assessores.

No que veio a público não há referência a laços de parentesco desta malta. Tenhamos esperança que algum jornalista garimpe essas conexões familiares e indague se elas influenciam, ou não, a atribuição de casinhas municipais.

sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

Familismo*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Sem surpresa, o orçamento de estado foi aprovado esta semana, apesar do mal-estar que reina na geringonça.

Tempos Modernos, de Charles Chaplin (1936)

Há causas conjunturais para as esquerdas terem começado às cotoveladas entre si: os incêndios, Tancos, o Infarmed, a borla aos rentistas das eólicas, ...

E há três causas estruturais que listo por ordem crescente de importância:
(i) o trambolhão autárquico do PCP fez soar todas as campainhas de alarme no partido e fez acordar a CGTP da sonolência em que tinha caído;
(ii) com a saída anunciada de Pedro Passos Coelho, os partidos de esquerda perderam o “bode-expiatório” ideal para culpar de todos os males da pátria e, com isso, unir as suas tropas;
(iii) a geringonça teve pressa demais e já fez tudo o que assinou há dois anos; nunca teve grande projecto comum para o país, agora está sem nenhum.

Para já, o bloco e o PCP vão ser lobos na retórica e cordeiros nas votações no parlamento. A intervenção de João Oliveira, do PCP, no encerramento do debate do orçamento, já não conseguiu esconder esta esquizofrenia; Mariana Mortágua conseguiu ainda disfarçá-la com a força moral que lhe foi dada pela pirueta de Costa nas eólicas, mas no futuro o bloco vai soar também cada vez mais a falso.

2. Os trabalhadores do sector privado vão deixar de poder receber em duodécimos metade dos subsídios de férias e de natal. Em vez de alargar, como devia, essa opção ao sector público, o parlamento votou a proibição aos privados.

Já se sabe: em Portugal desama-se a liberdade e os políticos pelam-se por uma proibiçãozinha.

3. No concelho de Viseu, nas últimas autárquicas, no bloco, o mano deu lugar à mana na assembleia municipal; no PS, o marido foi a votos para a câmara, a esposa para a assembleia; assembleia onde se sentam também manos de ex e filhos de ex.

Entretanto, um irmão do número dois da distrital socialista quer ir para número um da concelhia.

Ninguém estranha tanto familismo?

domingo, 17 de setembro de 2017

Carta aberta ao meu gastrenterologista *

* Carta aberta escrita há exactamente treze anos, num dia de muita azia e empaturramento em que — também eu enquanto vereador na câmara municipal de Viseu — fui vítima do dr. Miguel Relvas.
Na altura, esta carta foi publicada e/ou referenciada em vários media locais e nacionais.


Viseu, 17 de Setembro de 2003

Meu caro doutor:

O seu trabalho e especialidade, caro amigo, é melhorar as digestões das pessoas e eu sei que hoje vou ter uma digestão difícil. É por isso que lhe estou a escrever esta carta. Acabo de engolir um sapo dos grandes numa Sessão da Câmara Municipal de Viseu.
Acabo de votar a favor da Grande Área Metropolitana de Viseu (GAMV). Desde que sejam respeitados os parceiros, devo dizer-lhe que sou a favor que Viseu assuma com naturalidade a liderança desta região. Não sou a favor é deste tipo de Associações de Municípios.
Parece complicado, doutor, mas eu explico: preferia que a Assembleia da República não tivesse aprovado estas coisas. Estando previstas na Lei, claro que Viseu deve ter iniciativa política neste assunto.
Como lhe disse, sou o mais possível contra as Leis 10/2003 e 11/2003, ambas de 13 de Maio, dia de Nossa Senhora de Fátima, e que criaram as Grandes Áreas Metropolitanas (GAMs), as Comunidades Urbanas (CUs) e as Comunidades Intermunicipais (CIs).
É que, como sabe, esta regionalização do PSD é feita ao contrário: em vez de ser o Estado Central a passar poder para mais perto dos cidadãos, as GAMs, as CUs e as CIs vão tirar poder aos municípios e subtrair-se do controle democrático dos cidadãos.
Julguei que já tinha visto tudo em matéria de desprestígio da democracia mas enganei-me. Há sempre gente a querer piorar ainda mais as coisas. O governo quer destruir o único poder que verdadeiramente responde aos cidadãos e é respeitado por estes: o poder local. É isso que me causa azia.
As GAMs, as CUs e as CIs têm défice democrático. Tudo vai ser decidido em negociatas de bastidores entre Presidentes da Câmara. É assim que está previsto na lei. Vai ser um processo sem nenhuma transparência. Os cidadãos não vão ser tidos nem achados. Não votam. Nunca. Só cá estarão para, no fim, pagarem a factura.
A Direcção Nacional do PS andou mal ao ter deixado passar esta coisa, ao ter deixado andar para a frente este processo político que está a ser feito com o objectivo cirúrgico de acabar com o que resta do PS autárquico.

Penso que os Presidentes da Câmara socialistas que não forem seus clientes, caro doutor, vão redobrar o consumo de Alka Seltzer e de Água das Pedras, e vão engolir este sapo para poderem vir a ter eventuais contratos programas com a Administração Central. É esta a chantagem que lhes é feita pelo governo.
A organização administrativa e política de Portugal vai ficar com mais uma camada de gordura.
No projecto de regionalização socialista, que foi chumbado em referendo, em 1998, estava previsto acabarem-se com as CCRs e os distritos. Agora mantém-se tudo. É “tudo ao monte e fé em Deus”.
Daqui a uns anos, um empreendedor, por exemplo o doutor se quiser abrir uma Clínica, para além de meter um seu projecto na Câmara, na CCR e na tutela, vai ter ainda que contar com mais um sítio para meter papelada: a sua GAM ou CU.
Vão ser mais jobs for the boys. Mais burocracia.
Ninguém fala em referendo a esta coisa. Nem em referendos locais. Ninguém quer ouvir os cidadãos. Eles que comam e calem. Sapos são para os autarcas socialistas.
Vejamos mais de perto, senhor doutor, a Grande Área Metropolitana de Viseu que se prefigura no horizonte.
Que coerência, que sentido, que unidade, que metrópole é esta que pretende ir dos lameiros de Penedono às encostas onde se apascentam os rebanhos que dão o Queijo da Serra? Será tudo uma carneirada? Anda tudo doido? Não há sentido do ridículo? Quem é que se quer enganar para se chegar aos 350 000 habitantes? A GAM de Viseu vai criar um sistema de transportes coerente? Um sistema de lixos? Uma organização escolar? Há algum denominador comum a estes mais de trinta concelhos que possa dar um projecto intermunicipal? Um que seja?
Dá para ver o filme que se segue. Vão entreter a malta agora com as GAMs, as CUs e as CIs. Vão dar-nos um Big Brother: quem se junta a quem, que câmara com que câmara. Com que arrufos, com que ameaças de divórcio, aproximações e afastamentos de bigode. E vão encher páginas e páginas de jornal com este nada de coisa nenhuma, para entreter o pagode e gastar os nossos impostos e dar emprego aos boys. O que não é mau atendendo ao desemprego que para aí vai...
Saiba, caro doutor, que ao escrever o parágrafo anterior a minha digestão do sapo começou a correr melhor. É bom pensar em empregos. Não é bom é ser neste contexto.
Como sabe, caro doutor, o deputado socialista João Cravinho chamou a isto uma garotada. Foi o único socialista que se ouviu. O Secretário de Estado Miguel Relvas, o pai desta ideia e destas leis, queixou-se do tom de João Cravinho.
Eu antevejo futuro ao Dr. Relvas. Depois do ducentésimo trigésimo sexto Contrato Programa que foi assinar a Tondela, Miguel Relvas ainda chega a ministro. Ministro do pior governo de Portugal depois do 25 de Abril.
Que governo é este que se dá ao luxo de desperdiçar fundos comunitários que são aproveitados por Espanha e quer criar mais despesa pública desta forma?
Que governo é este que vende o património do estado ao desbarato e patrocina esta punção ao Orçamento?
Receba, caro doutor, um abraço deste autarca agora - depois da sua paciência - já menos empaturrado.

Joaquim Alexandre Rodrigues

sexta-feira, 25 de agosto de 2017

Cartazes*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. As eleições autárquicas são “a” festa da democracia, festa com dezenas e dezenas e dezenas de milhares de candidatos às freguesias, às assembleias municipais e às câmaras.

O poder local democrático é lugar de aprendizagem e de realização cívica, é nele que reside a solidez da nossa democracia. Não é a primeira vez que faço aqui este merecido elogio ao poder mais próximo dos cidadãos e que melhor lhes responde.

O poder local fez um trabalho formidável de infra-estruturação do país, com menos de dez por cento do orçamento de estado. Embora haja algumas câmaras falidas, a dívida global das autarquias não é preocupante e tem vindo a ser diminuída nos últimos anos, ao contrário da dívida do estado central que é o que se vê: mês após mês, upa-upa.

2. A cinco semanas das eleições autárquicas, a única ferramenta de propaganda que tenta chegar às pessoas continua a ser o cartaz de rua — o cartaz de rotunda, na maior parte dos casos.

Ora, nestes tempos wiki em que toda a gente está a produzir informação para toda a gente nas redes sociais, o outdoor é inútil e politicamente perigoso. Não ganha um voto mas pode fazer perder muitos.

É que há uma guerra entre os marqueteiros da política e um exército à solta, de telemóvel em punho, pronto a transformar qualquer mensagem política num “tesourinho” risível. Não lhe tem faltado matéria-prima.

A política é atirada para o lugar da galhofa e, a seguir, os media escritos ou falados pouco mais fazem com impacto do que ruminar os casos que, como eles dizem, “estão a incendiar as redes sociais”.


Fotografia de Cecília Pereira
publicada em Tesourinhos das Autárquicas 2017
Quando, acabadinho de regressar de férias, o Governo Sombra vai a uma página de “tesourinhos” do Facebook buscar cartazes e pede ao público para ir virando os polegares para cima ou para baixo (gosto/não-gosto), o excelente programa da TVI está a dizer o óbvio: as eleições, agora, são coisa de redes sociais e não de grandes rectângulos photoshopados ao derredor das rotundas.

quinta-feira, 6 de julho de 2017

Micro-Escolas*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente em dez anos, em 6 de Julho de 2007

1. É muito difícil dar aulas a uma turma de quatro anos de escolaridade. Não é fácil gerir um grupo de alunos, dos cinco aos dez anos, que comem Chocapics logo de manhã e ficam cheios de energia e que, ainda por cima, têm a cabeça cheia de enredos dos “Morangos com Açúcar”. É complicado pôr, ao mesmo tempo e de uma maneira organizada, um grupo a aprender as primeiras letras, outro a estudar os órgãos do sistema digestivo, outro a fazer divisões e ainda outro a calcular perímetros ou a conjugar verbos. 

O resultado é óbvio: nestas turmas os alunos aprendem pouco e os professores saem exaustos e frustrados ao fim de cada dia de aulas.

As micro-escolas deviam ter sido fechadas há 20 anos. Estão a sê-lo agora. Vale mais tarde do que nunca. Não gosto nem um bocadinho do messianismo político da Ministra da Educação, mas devo reconhecer que, neste assunto, ela tem estado bem.

A Assembleia Municipal de Viseu aprovou, há uma semana, uma Moção a exigir pelo menos uma escola do primeiro ciclo em cada freguesia. Esta é uma “regra” incluída na Carta Educativa do concelho e que nenhum partido teve (ou tem) a coragem de contestar. Ninguém quer sarilhos com os Presidentes de Junta.

Resultado desta política timorata: no concelho de Viseu vamos continuar a ter micro-escolas sem massa crítica, nem recursos, nem qualidade pedagógica, nem futuro.

2. Encontrei num blogue estas palavras de Gaston Bachelard:



Banville afirma que quando
a vela de Camões se apagava
o poeta continuava a escrever o poema
à luz dos olhos do seu gato.
Resta-me acabar assim este Olho de Gato, desligar o computador e ir respirar fundo o perfume das tílias…

sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

Autárquicas (#2)*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Este é o segundo texto que dedico integralmente às autárquicas deste ano. O primeiro foi em 6 de Maio de 2016.

Recordo algumas ideias dessa crónica: (i) no PS, estava a começar um bombardeio dos seguristas de Viseu à concelhia costista de Adelaide Modesto; (ii) o dr. Ruas estava e está bem no parlamento europeu e não vai regressar; (iii) no PSD, António Almeida Henriques vai gerir o processo autárquico à vontade; e, (iv) quanto ao CDS, disse então: “depois do absentismo e afonia do vereador Hélder Amaral, os centristas vão ter muitas dificuldades, mesmo que candidatem algum ex-membro das equipas do dr. Ruas.”


Fotografia Olho de Gato

2. No PS, a segurista Lúcia Silva já é candidata a candidata. Deu, nessa qualidade, uma entrevista ao Jornal do Centro, onde informou que já “sentiu” o apoio do secretariado da concelhia e que, tudo que seja dito em contrário, é “hipocrisia humana”.

Ao mesmo tempo, declarações anónimas de militantes destacados a este jornal vão destilando: “pouco ambiciosa”; “ausência de bandeiras”; “direcções políticas fracas”; “ninguém se quer incomodar”.

Os “vips” do PS-Viseu estão esta nulidade cívica. Muito veneno cochichado aos jornais, nenhuma coragem para assumirem no partido e publicamente o óbvio: como se viu na entrevista, Lúcia Silva é um vazio de ideias sobre a cidade e o concelho, um vazio que até já pede socorro ao bloco e ao PCP.

3. António Almeida Henriques está à vontade.

Tem, contudo, uma decisão estratégica para tomar: se é para dar tanto poder ao seu adjunto Jorge Sobrado, se é para o pôr a tomar decisões à solta (ver o caso da Viseu Marca), é mais transparente para com os viseenses pô-lo na lista como candidato a vice-presidente.

4. Quanto ao CDS, sim, o “ex-membro das equipas do dr. Ruas” em que estava a pensar há oito meses e meio era mesmo Américo Nunes. Ele acaba de ser “convidado” pelo presidente da concelhia centrista.

Adivinha-se um ano muito divertido.

sábado, 7 de janeiro de 2017

PS/Viseu, um desânimo* — por JB

* Comentário de JB ao texto de ontem no Jornal do Centro 


É impossível discutir seja o que for. 
Se se tem razão ou não tem. É totalmente indiferente. 
Ou se aceitam as regras do jogo ou se muda de vida e de lugar.
Jorge de Sena

Não vou falar da política partidária ou de como um partido quer ganhar ao outro, ter poder, mandar. Aqui, interessa-me a política enquanto questão eminentemente humana, a política no que ela tem de mais humano. O arrastar da ausência (estrutural) de um projecto político de conhecimento, em Viseu. E aqui um “pouco de banalidade leninista”: nunca resolveremos um problema se não o estudarmos e conhecermos.

No PS/Viseu continua a velha e óbvia ordem pré-estabelecida. Neste contexto, discutir a razão é inútil. A cada momento tropeçamos nesta inutilidade. A velha ordem política, o politicamente correcto, as velhas e novas ideias preconcebidas, tudo assenta numa estrutura que não se discute. As regras de um jogo não se discutem. Existem para isso mesmo. Rompê-las obriga a um desgastante e infrutífero esforço. As pessoas acabam por optar estar de fora. Ainda assim, admiro os que continuam a pugnar por uma mudança das regras do jogo, embora inutilmente, como mostra a sucessão de actos políticos falhados. Este é um texto de desânimo que se enquadra no quadro de pensamento político local e que assumo como um desinvestimento expressivo, gradual e que terminou no abandono da militância, da participação cívica e na construção de uma alternativa de dimensão organizativa.

Gif daqui

O PS/Viseu não tem, hoje, qualquer capacidade de mobilização própria fora de eleições, não agrega por mérito os sectores mais dinâmicos da sociedade, não produz ideias, nem políticas novas, está nas reuniões camarárias à espera da (hipotética) mudança do ciclo político e mesmo assim sem eficácia visível, apenas (violentamente) abstencionista…


Não apoio nenhum dos nomes que se falam, o que não me impede de participar no debate eleitoral como entender e com a liberdade que entender. Eu nunca deixei de ser “um socialista esquerdista”, as artroses é que já me limitam muito os movimentos… 

Quem fala que não se interessa por política está deixando de se interessar por sua própria vida. 
Monica Iozzi

Então, até breve!

JB

sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

2017*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Ao começar o ano, esta coluna reafirma-se adepta e praticante do método de Norberto Bobbio: devemos escolher uma parte , depois dessa escolha feita, há que exercer o juízo crítico com severidade, especialmente com a nossa parte.

2. Lá mais para o Outono, vamos ter eleições legislativas na Alemanha e autárquicas em Portugal.

Nas primeiras, joga-se o destino da “Europa” e esta coluna “vota” na decência de Angela Merkel, a única política europeia que merece respeito, como se tem visto na crise dos refugiados.

As autárquicas, que o loquaz Marcelo já colocou em Outubro, não têm nada de estrutural, mas, naturalmente, vão ser tratadas aqui ao longo do ano.

3. A última edição deste jornal informou-nos que já há dois pré-candidatos a candidato socialista à câmara de Viseu: Lúcia Silva e João Cruz. Criaturas de aparelho — ela ainda sem um lugarzito de nomeação —, nenhum dos dois tem sequer meia ideia política sobre a cidade e o concelho.

Se o PS-Viseu não arranjar melhor, fica aberta uma “janela de oportunidade”, como se costuma dizer em politiquês, para o bloco de esquerda, com um candidato mobilizador, tentar estrear-se na vereação.


Jorge Sobrado
Fotografia daqui
4. Jorge Sobrado, o omnipresente adjunto de António Almeida Henriques, tem sido posto por este a fazer tudo, até o trabalho que devia ser dos vereadores. E Sobrado começa a não chegar para as encomendas: a segunda edição da Street Art não teve nem metade do brilho da primeira; a sua última intervenção no Teatro Viriato foi um desastre ao defender um nome que acabou por recusar ser directora artística.

Para piorar as coisas, mal Paula Garcia assumiu a direcção do Viriato, logo veio o mal aconselhado presidente da câmara fragilizá-la.

Oxalá este tiro no pé não venha a pôr em causa a continuação do apoio do ministério da cultura ao teatro municipal. Apoio muito invejado por esse país fora que foi conseguido, em 1998, por Fernando Ruas e Paulo Ribeiro e que vai estar em reavaliação pelo actual governo.

sexta-feira, 12 de agosto de 2016

Poder local*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. As primeiras eleições autárquicas, em 1976, deram início ao poder local, o maior sucesso da nossa democracia. É que, enquanto o poder central já nos levou três vezes à bancarrota, o poder local conseguiu mudar a face do país usando somente 10% dos recursos públicos.

Houve e há erros, houve e há abusos, mas o balanço é mais que positivo. E não há eleitos mais próximos das populações e mais escrutinados e escrutináveis por elas do que os autarcas, especialmente os presidentes de câmara.

Daqui

A tendência destas quatro décadas, quer na evolução legal quer na prática, tem sido de reforço da visibilidade e dos poderes dos presidentes, o que faz sentido: as pessoas votam no presidente da câmara e é a ele que pedem contas, não é aos vereadores.

2. As câmaras municipais de Lamego (PSD) e de Nelas (PS) estão com problemas. Os seus presidentes perderam a maioria no colégio de vereadores. Tem havido propostas de deliberação chumbadas, pelouros retirados, maldades várias.

Sempre que acontecem casos assim, as legitimidades eleitorais do presidente e dos vereadores entram em colisão e a governabilidade da câmara avaria.

É que os vereadores são inamovíveis, a que se deve somar o facto bizarro de uma câmara municipal, um órgão executivo, ter, dentro dele, a situação e a oposição. Ser vereador da oposição é estar no mais ingrato dos lugares eleitos da nossa democracia.

Os presidentes de câmara deviam poder remodelar as suas equipas e as assembleias municipais deviam poder destituir o presidente da câmara.

3. Avanço já dois prognósticos para as autárquicas do próximo ano:

(i) O candidato do PSD-Lamego - seja ele Melchior Moreira ou uma segunda escolha - vai rejeitar a "herança" do actual presidente laranja.

(ii) Em Nelas, o presidente Borges da Silva vai ter uma vitória bem mais confortável do que a de 2013, em que ganhou por treze votos.

quinta-feira, 7 de julho de 2016

Fraquezas*

* Texto publicado há exactamente dez anos, em 7 de Julho de 2006


1. Viseu está fraco politicamente. Percebe-se isso com facilidade. José Junqueiro, o número um do PS no distrito, está em dificuldades. Depois da hecatombe das últimas autárquicas, em que o PS perdeu metade das câmaras que tinha no distrito, Junqueiro só pensa numa coisa: aguentar-se. Passar entre os pingos da chuva.

É sabido que, junto de José Sócrates, o sempiterno líder distrital do PS-Viseu tem uma influência próxima de zero. A universidade foi-se. O comboio descarrilou. O protagonismo político de Viseu já era. A situação lembra o título do filme de Victor Fleming: “E Tudo o Vento Levou”.

O quadro só não é completamente negro graças à qualidade da acção de António Borges, Presidente da Câmara de Resende. A visita de José Sócrates a Resende, no início de Junho, foi o reconhecimento do trabalho político daquele autarca. Merece também destaque o viseense Correia de Campos que está a ter uma experiência governativa, como Ministro da Saúde, muito mais positiva que a de 2001.

Não admira que seja para António Borges e Correia de Campos que o PSD-Viseu tenha virado ultimamente as suas baterias.

2. Os líderes do PSD e do CDS, Marques Mendes e Ribeiro e Castro, parece que engoliram um gravador de cassetes dos antigos e estão sempre a conspirar contra as nossas SCUTS. Durante o último ano não falaram doutra coisa. Parece que não podem ver uma camisa lavada a um pobre. As coisas não estão fáceis. Os nossos políticos locais não têm força para aguentarem as A24 e A25 sem portagens. Só nos resta confiar em José Sócrates.

3. O episódio das “pedradas” fragilizou Fernando Ruas e isso não é bom para a cidade e a região.
Fotografia Olho de Gato

Junqueiro e Ruas são, cada vez mais, o retrato da fraqueza a que chegou a política em Viseu. São políticos com mais passado que futuro.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Telhados*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 6 de Janeiro de 2006


1. Numa entrevista ao JN, publicada em 26 de Dezembro, Cavaco Silva, a propósito da deslocalização, disse que “(…) Podia existir um responsável do Governo que fizesse a lista de todas as empresas estrangeiras em Portugal e, de vez em quando, fosse falar com cada uma (…) deveria ser feito por um secretário de Estado especialmente dedicado a essa tarefa.” O jornalista perguntou-lhe então se ia propor a ideia ao governo. “Já o estou a propor aqui.” – respondeu Cavaco.

Embora bem intencionada, a ideia é má. Mais burocracia só iria atrapalhar o investimento estrangeiro. Mas uma ideia má, ou uma gaffe, toca a toda a gente. O que veio a seguir é que foi revelador.

2. No dia seguinte, à saída duma reunião com a ACAPO, Cavaco desdisse-se: Eu não sugeri a criação de um secretário de Estado nem defendi a criação de nenhuma Secretaria de Estado.

O Presidente da República é a válvula de escape da nossa democracia e é particularmente necessário em alturas de crise. Por isso, o Presidente da República deve ser um homem frontal e de coragem. Cavaco não o é. Ao primeiro tropeção, começa logo a meter os pés pelas mãos.

3. A candidatura do ministro Correia de Campos à Assembleia Municipal de Viseu foi um erro. 

O PS local perdeu autonomia estratégica e tem que defender o governo, quer este se porte bem ou se porte mal com Viseu. O PSD ficou com a sua tarefa facilitada. O Dr. Ruas só precisa de sublinhar as clivagens, reais ou imaginárias, entre Lisboa e Viseu.

Para além do que fica dito, depois do que aconteceu na última Assembleia Municipal, pergunto: era mesmo necessário, às cabeças falantes do Grupo Parlamentar do PS, acartarem tanto vidro para os telhados?

4. Um bom 2006 para todos.

quinta-feira, 29 de outubro de 2015

Os arquitectos super-estrelas*

* Texto publicado no Jornal do Centro em 8 de Maio de 2002, há treze anos e meio, e que vai ter o seu #2 amanhã no mesmo jornal


1. Na última Assembleia Municipal de Viseu, António Vicente, do PSD, mostrou preocupação sobre o Mercado 2 de Maio. João Paulo Rebelo, deputado municipal do PS, interrogou com oportunidade se “a montanha não teria parido um rato”.

Há duas questões a resolver naquele espaço: o comércio e a animação. E há uma outra resolvida: a obra da autoria de Siza Vieira.

As duas primeiras são indissolúveis: pôr gente lá dentro, dar vida ao Mercado 2 de Maio, passa pela qualidade dos projectos comerciais a instalar ali e pela qualidade dos projectos de animação. Há necessidade de competência, de técnica, de investimento, de criatividade e de perseverança.

Como é sabido, é bom começar as coisas com o pé direito. Este não começou. Vamos todos fingir que a abertura eleitoralista feita pelo PSD, em Dezembro, não existiu. Essa abertura precipitada contribuiu para os problemas que agora se vivem no Mercado 2 de Maio.

Até eu e a Candidatura do PS, que mais teremos sofrido com esse número eleitoralista, vamos fingir que esquecemos o “passo em falso”.

A questão de Siza Vieira e da qualidade do projecto arquitectónico também já não tem grande interesse. A coisa está lá, feita, com saibro e magnólias; ingratas magnólias chamei-lhes na última crónica. Estão lá as lojas para arrendar e as outras lojas já abertas, a necessitarem de outra dinâmica.

Não vale a pena a reacção do costume perante “o leite derramado”.
Ao trabalho de dar vida àquilo.

2. Mas regressemos ao princípio.

Um autarca, com uma obra destas entre mãos, precisa de fusíveis políticos, não vá ela – a obra – estalar-lhe nos dedos. E há uma solução que nunca falha: o autarca convida um arquitecto de prestígio. Quem resiste a um Siza, a um Souto, a um Salgado, a um Byrne?


Siza Vieira, Alcino Soutinho e Souto Moura
Fotografia daqui

O autarca ganha sempre em todos os tabuleiros. Não corre riscos políticos porque até a oposição se curva em reverência ao mestre. O autarca consegue um nome de peso para a Comissão de Honra da eleição seguinte. Se a coisa correr bem quem não verá, atrás das pedras belas da obra, o génio do autarca, esse Médicis contemporâneo? Se a coisa não correr tão bem, o nosso autarca tem sempre uma saída: atira os problemas para as costas larguíssimas do mestre. Está safo. Nunca falha…

3. Mas andemos mais para trás, para antes do princípio.
Esta forma de fazer as coisas instalou-se no país. Nunca houve tanto dinheiro nas autarquias como nos últimos seis anos. Havendo dinheiro há projectos de prestígio. Logo sai ajuste directo a arquitecto conhecido.

As grandes obras passaram a ser monopolizadas pelos arquitectos super-estrelas. São sempre os mesmos em todo o lado. Têm dezenas de obras em simultâneo. Os arquitectos mais novos não têm hipóteses de mostrarem o seu talento.

Isto está errado.

Uma obra tem dois momentos: a concepção e a execução. A concepção é muito importante, a cada dia de obra normalmente corresponderam antes dois dias de elaboração de projecto.
Quanto à execução não tem havido entorses: faz-se um Concurso, concorrem várias empresas, ganha uma. Há a concorrência, a fiscalização do Tribunal de Contas, etc.

Quanto à fase da concepção, mais importante ainda como ficou explicado, tudo é tratado no silêncio dos gabinetes.

Perdeu-se o hábito de lançar Concursos de Ideias, abertos a todos os arquitectos, nacionais e internacionais, e é pena. É nessa fase que a participação pública democrática, dos especialistas e dos cidadãos, faz o máximo sentido e não quando tudo o que é relevante já está decidido.

4. Se as barreiras comerciais aos produtos agrícolas do terceiro mundo fossem retiradas pelos países desenvolvidos, conforme mostra um estudo do Banco Mundial divulgado por Mike Moore, director-geral da Organização Mundial do Comércio, 320 milhões de pessoas seriam tiradas da pobreza até 2015.

Por exemplo, a Argentina, que está em colapso económico, faria mais 5 mil milhões de dólares por ano.

Mas esta medida de defesa de um comércio global mais justo provavelmente ofenderia o poderoso movimento antiglobalização sempre preocupado com o terceiro mundo.