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quinta-feira, 15 de novembro de 2018

Carta aberta, de um informal cuidador a um cuidador informal*

* Recebida hoje por e-mail


Exmo. Sr. Primeiro-Ministro, António Costa


Não refiro Doutor ou Dr. na titulação — como tantos farão quando a si se dirigem, certamente, embora não haja Doutoramentos em Primeiro-Ministerialismo, ou se seja Doutor sem se ser Doutor em algo concreto – porque, e à semelhança de tantos outros cuidadores informais, o Sr. Primeiro-Ministro só é Sr. neste caso. E neste caso um Sr. com responsabilidades específicas, mas Sr. Não há formação em cuidadores informais. Só a informal consideração de que se cuida, umas vezes sabendo-se, outras tentando-se o melhor possível. Sr., somente e sem desrespeito.

O Sr., que vem cuidando informalmente deste país desde 2015 e como tantos outros cuidadores informais, recorre, por vezes, à casualidade para aferir o seu dia-a-dia e a argumentação que necessita de apresentar a terceiros. Sempre com respeito, embora por vezes, também, agreste.

Reconhece-se que o ser agreste na argumentação, por vezes, é apenas porque, à semelhança de tantos cuidadores informais, o cansaço se sobrepõe à lide ou lides necessárias. Chama-se-lhe cansaço. Por vezes, só por vezes, alguém afirma ser exaustão. E dizem aos cuidadores informais: isso está mau; estás com um ar cansado; ou, estás com péssimo ar. O Sr. vai conseguindo disfarçar o cansaço. Persevere nesse aspecto, por favor; que seguiremos o exemplo, tendo as condições para tal.

Frequentemente não se sabe quem cuida, menos ainda quem cuida informalmente de alguém. Alguém que formalmente requer, necessita, depende, de um apoio formalizado em documento e em atenção. Cuidados, no fundo. Em que alguém requer, sem de facto algum dia ter desejado – imagino, embora não possa falar por outros – ser beneficiário de cuidado documentalmente atestado.

Quando, por vezes, o Sr. discute com os seus parceiros de solução governativa sustentada por via de uma maioria de incidência parlamentar, recordo-me das famílias que, por vezes, debatem as questões de cuidar informalmente de quem formalmente necessita de cuidado. E debatem e discutem e batem com portas – talvez – por vezes. E, por vezes até se esquece o cuidador de vestir calças de vinco para ir trabalhar. Esquece-se e engana-se e veste outras quaisquer. Vai de ganga quando devia fazer diferente. Ninguém leva a mal, não muito; mas acontece.


Imagem do Finta 2017, Acert
(daqui)
Sabe, claro que sabe, mas, sabe, Sr. Primeiro-Ministro, por vezes, muitas vezes, chega a um ponto em que se escolhe – imagine! – nem sequer trabalhar para cuidar. E não porque se não queira, antes porque o tempo necessário à escolha das calças com vinco e vincar as calças antes disso, é tempo que deverá ser ocupado a cuidar (ou a cuidar de quem cuida, que é cuidar de si um pouco). Nem sempre se age assim. Nem sempre se escolhe assim. Claro. E ainda bem. No entanto, e por vezes, não se pode conciliar cuidar. Ou se cuida ou não se cuida. E há quem cuide e não escolha mais…

Mas sabe – talvez não saiba – que chega a um ponto que é um momento só que é apesar de tudo um cumular de momentos e pontos; em que se escolhe. E um a cuidado, torna-se dois a cuidado. Ou mais. Por vezes mais, numa estranha osmose em que há sempre quem cuide e quem cuidado seja.

Mas a escolha, e isto sabe certamente, sem dúvida ou questão, só é [escolha] quando há opção. E o Sr. sendo cuidador informal deste país afirmando uma opção ao país de que cuida, defendeu uma opção. Uma diferença. Um outro modo de cuidar do país. O Sr. é um cuidador informal que escolheu e agiu perante a escolha. E, vá lá, até pôde ser considerado cuidador informal do país. Documentalmente considerado enquanto tal. Não lhe chamaram isso mas é-o mesmo. Ninguém precisa que configurem uma profissão, apenas o reconhecimento da função… (soou fria e calculista esta parte não foi?)

Como qualquer outro cuidador informal, o Sr. protestou, argumentou, agendou, reuniu e sublevou a interpretação das regras pré-estabelecidas. O Sr. é um dos heróis dos cuidadores informais. Ou de alguns. Talvez. Por vezes. E por ter feito assim e tudo isso, conseguiu que lhe reconhecessem a função que exerce. Tente o Sr., se não sendo Doutor ou Primeiro-Ministro, agendar, reunir e sublevar a interpretação das regras pré-estabelecidas. Considere, por favor, e para efeitos da presente, que argumentar, e até protestar se necessário, todos os restantes cuidadores informais fazem… para melhor cuidarem; e também, por vezes, por cuidarem.

Considere por favor, que nem todos insultam antes de se exasperarem com o tempo e dinâmicas de serviços públicos ou publicamente financiados, pesados, em que os cuidadores informais se vêem para aqueles de quem cuidam; por aqueles de quem cuidam. Pedidos, documentos, acesso à informação.

E tempo e vida que a momentos seja só sua, de quem cuida, e de mais ninguém. Imagine – voltando à analogia das calças – poder escolher casualmente vestir um par de ganga, só porque se quer aquela ganga e não outra. Imagine o privilégio de poder escolher. Imagine o privilégio de poder ser. Pessoa. Também.

E ser pessoa sem deixar de cuidar mas sem, igualmente deixar-se, a si mesmo/mesma, sem cuidado. E tudo assim, para os cuidadores informais, mesmo antes de o serem mas após cuidarem com toda a força e forma de um querer para outro, para outrem. Claro que há nisto nepotismo e afins. Claro que os cuidadores informais querem mais para os seus que para os outros. É a vida, caro Sr., a vida dar a alguns filhos e pais e aos outros pais e filhos. Por vezes, também, primos, sobrinhos, netos, tios e até familiares mais distantes ou, até mesmo, só amigos. E sabe – eu não sei - como escolheriam se pudessem escolher, convictos de que o cuidado existiria sempre nos termos e condições que é necessário que haja para que o cuidador e o cuidado, estejam igualmente bem? Não óptimos; não imagino que se peça um ideal de nada. Apenas bem. Duas pessoas (e as restantes que os envolvem – quando existe este envolvimento) podendo ser pessoas. Podendo Ser.

Imagino sempre os conselhos de segurança antes de um avião levantar voo: a primeira máscara de oxigénio, em caso de catástrofe, não se coloca a quem cuidado requer, antes ao cuidador. E sabe porquê [claro que sabe]? Porque sem cuidador não há cuidado para milhares de pessoas neste país e nos outros países e sabe-se lá em quantos outros locais onde haja necessidade de cuidado para que se Seja. No fim do dia é só isso. Luta-se e desespera-se para que se Seja.

O Sr., que é Primeiro-Ministro, mas antes de tal, um cuidador informal do país que governa desde 2015, tenha em atenção, por favor, que um qualquer outro cuidador informal, não pede salário como o seu. Pede espaço e dignidade para que se Seja; para todo e qualquer cidadão deste país. Todo e qualquer um. Quer não necessite de cuidar e ser cuidado; quer necessite de cuidado e/ou cuidar… Alguém refere que isso é inclusão. Pois bem, inclua, mas sobretudo, não exclua.


Atenciosamente,
um informal cuidador

quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

Ideias



Eu não sei de quem foi a ideia [do negócio da Santa Casa / Montepio] mas tenho pena de que não tenha sido minha, porque é boa.”
António Costa, 9.1.2018

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

Um aplauso*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Não tem sido fácil perceber o que se está a passar com a entrada da santa casa da misericórdia de Lisboa no Montepio. Pedro Santana Lopes, em vez de explicar ao país o que se estava a passar, fechou-se em copas.

Só agora quando deixou a santa casa e se meteu na guerra do PSD é que o “menino guerreiro” informou o país que: (i) foi pressionado pelo Banco de Portugal e pelo governo, (ii) não bateu logo o pé, apesar de achar a operação desastrosa, (iii) empaliou a coisa, (iv) delegou o assunto no seu número dois, um boy socialista, (v) guardou-se para dizer um “não” no fim, mas esse “não” acabou por nunca acontecer.

Sem surpresa, Pedro Santana Lopes foi uma nulidade mais uma vez. Resta esperar que o poderoso Marcelo não deixe o boy socialista que ficou a tomar conta da santa casa enterrar 200 milhões de euros dos pobres nesta aventura.



2. O “Viseu Cultura”, o novo programa de apoio à actividade cultural da câmara de Viseu, diz querer “gerar um mercado” e “sustentabilidade” na oferta cultural no concelho.

É um objectivo sensato já que a multiplicação de eventos borliantes em Viseu está a criar rotinas nas pessoas que não são sustentáveis. Basta fazer notar que o futuro Viseu Arena, para ser viável, vai precisar de público que não estranhe ter de pagar por um espectáculo.

Jorge Sobrado, o vereador da cultura, merece aplauso. Este novo regulamento aperfeiçoa muito o anterior. Equilibra os vários envelopes financeiros, institui apoios bienais, e inova com o apoio à criação artística não integrada em eventos. Aleluia!

Para além disso, ainda compõe uma aberração do regulamento anterior que estragava dinheiro público ao dar uma percentagem maior de comparticipação municipal aos projectos maiores, o que convidava, como escrevi aqui na altura, à salgação dos orçamentos.

Merece também aplauso já ter havido a divulgação dos nomes dos membros do júri. Houve transparência e convites a gente com currículo e capaz de um bom trabalho.

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Consanguinidade*

* Hoje no Jornal do Cemtro


1. Onde pára a lista dos grandes devedores da CGD? Para quem foram as centenas de milhões de euros que a caixa emprestou sem juros?

Infelizmente, a comissão parlamentar de inquérito à CGD foi sabotada pela geringonça e não serviu para se saber nada. Os deputados fizeram o triste papel de múmias paralíticas.

Neste ano, cada português entrou com 250 euros para o resgate do banco do estado. E, como não chegou para tapar o buraco, para o ano que vem logo se há-de ver. Não há ninguém preso. Nem vai haver.

2. Pedro Santana Lopes, antes do seu mergulho no rio laranja, ainda teve tempo para avançar no dossier da entrada da santa casa da misericórdia de Lisboa no capital do Montepio. Já há números: vão ser duzentos milhões de euros de dinheiro dos pobres por 10% do Montepio. As máquinas de calcular do menino guerreiro e do governo acham que aquela banqueta vale 2 mil milhões. Compare-se com o valor em bolsa do BPI: 1,65 mil milhões.

No governo, o pé de Centeno e o pé de Vieira da Silva vão carregando, à vez, no acelerador desta operação “raríssima”. Ninguém põe travão nisto?

3. A economia social já representa mais de 6% do emprego do país. Em muitos concelhos do interior é quase o único canal para obter um trabalho pago.

Há aqui um poder imenso que precisa de ser escrutinado. Foi o que fez este jornal, na última edição, ao descrever as recentes mordomias do provedor da misericórdia de Resende. Foi o que fez a TVI ao descrever as incursões da ex-presidente da Raríssimas ao El Corte Inglés.




4. Ficou a saber-se, naquela reportagem de Ana Leal, que o ministro Vieira da Silva, além de ter uma filha a secretária de estado, tem a mulher a deputada.

Pois é: o familismo que vai em crescendo no PS-Viseu não é uma originalidade local.

Uma coisa é certa: o PS, que se diz republicano, ou contraria esta dinâmica ou corre severos riscos de consanguinidade. E esta, como se sabe, costuma avariar os genes.