sábado, 21 de julho de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#204)

O homem das crises: a história de Harvey Wallinger
Um comicamentário de Woody Allen de 1971 a gozar Rixard Nixon e em que Woody Allen personifica Harvey Wallinger, um Henry Kissinger ainda com cabelo.

Esteve para ser emitido na PBS em Fevereiro de 1972 mas a direcção daquela televisão não teve tomates para o passar.



Woody, por causa disso, felizmente dedicou-se ao cinema.

*****

Men of Crisis: The Harvey Wallinger Story 
Is a short film directed by Woody Allen in 1971. The film was a satirization of the Richard Nixon administration made in mockumentary style.

Allen plays Harvey Wallinger, a thinly disguised version of Henry Kissinger.

The short was produced as a television special for PBS and was scheduled to air in February 1972, but it was pulled from the schedule shortly before the airdate. Reportedly, PBS officials feared losing its government support and decided not to air it.


Allen, who previously had sworn off doing television work, cited this as an example of why he should "stick to movies".[2] The special never aired and can now be viewed in The Paley Center for Media.

Two of Allen's regular leading ladies, Louise Lasser and Diane Keaton, make appearances, as does the Richard Nixon-lookalike Richard M. Dixon. The fictional characters are interspersed with newsreel footage of Hubert Humphrey, Spiro Agnew, and Nixon in embarrassing public moments. Allen would later explore this style again in Zelig.


Síndrome

Fotografia de Tom Pumford

Tenho ainda os dentes quase todos
o cabelo também e pouquíssimas cãs
posso fazer amor e desfazer
subir degraus dois a dois
e correr quarenta metros atrás do eléctrico
Quer dizer, não devia sentir-me velho
o problema é que dantes
não reparava nestes detalhes.
Mario Benedetti


Tears of the Black Tiger is a 2000 Thai western film written and directed by Wisit Sasanatieng

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Mornices tépidas*

* Hoje no Jornal do Centro


1. O teatro do IP3 não pára. Depois das prestações inesquecíveis de José Sócrates e Pedro Passos Coelho, foi agora a vez de António Costa. No início do mês, o actual primeiro-ministro fez uma performance tépida como este Verão no palco erguido junto ao nó de Raiva.

A raiva ficará para quando, na próxima bancarrota, forem instalar pórticos nos troços que venham eventualmente a ser duplicados. Não é o caso das obras agora lançadas que já estavam projectadas há muito tempo e que vão manter as duas vias.

2. O impacto conseguido pelo “Movimento pelo Interior”, onde não figurava nenhum político viseense, fez ressaltar a mornice irrelevante dos deputados e das cúpulas distritais dos partidos.

Num jogo de soma nula a que ninguém dá atenção, eles vão-se marcando uns aos outros como se tem visto nos problemas do hospital de Viseu. À falta de melhor, o deputado social-democrata Pedro Alves até já se mete com... os voluntários do hospital.

3. No concelho de Viseu, a omnipresença de Jorge Sobrado leva ao eclipse parcial do presidente da câmara e ao eclipse total dos outros vereadores.

Para deseclipsar a situação, António Almeida Henriques tem duas hipóteses: ou dilui Xanax nas bebidas do seu vereador da cultura ou contrata uma equipa alargada para a comunicação da câmara. 

Claro que a primeira hipótese não é defensável por ninguém e a segunda — que, ao que consta, está a ser cozinhada — é cara e de eficácia duvidosa.

4. Pelo que se leu na imprensa e nas redes sociais, os Jardins Efémeros foram tão tépidos como o Verão e a cidade não repetiu a chuva de críticas do ano passado ao evento. Ainda bem.

Foi bom também que, ao contrário dos anos anteriores, os JE não se tenham sobreposto ao Tom de Festa que precisa de bilheteira mais do que nunca, depois do corte de 24% feito pela geringonça à Acert. A pulseira custa cinco euros e a 28ª edição daquele festival de músicas do mundo prossegue hoje e amanhã em Tondela.

O que seria e não foi

Fotografia Olho de Gato


Percebo a sobra de minhas expectativas
sobrevoando o espaço que existe entre nós.
Das que se realizaram nem me lembro.
De nada me serviriam agora.


Tampouco me servem essas sobras
de expectativas diluídas no não agir.
Marcela Sperandio



quinta-feira, 19 de julho de 2018

como se o vento trouxesse recados

Fotografia de Roger Ballen

como se o vento trouxesse
recados
que pudesse abandonar
ao serviço do mensageiro

como se o vento te pudesse levar
e as palavras transformar
no milagre da cerejeira

não descuides o vento
que quem uiva
é lobo faminto

rodeia-te antes do essencial
faz-te cozinheira, semeia o teu quintal

o que por natureza rola
há-de rolar
e tu sozinha
o que podes contra o vento?
Ana Paula Inácio


quarta-feira, 18 de julho de 2018

Liberdade*

* Publicado no Jornal do Centro em 18 de Julho de 2008


Em Abril de 2007, critiquei aqui a criação de uma super base de dados destinada ao combate à fuga fiscal dos funcionários públicos. Para além do perigo da informação recolhida poder cair em mão erradas, é iníquo segmentar a sociedade em funcionários públicos (os “maus”) e não funcionários públicos (os “bons”).

Também nesta legislatura, foi aprovada uma lei em que se um cidadão reclamasse ao fisco perdia imediatamente direito ao sigilo bancário. Na assembleia da república só o actual líder parlamentar do PSD, Paulo Rangel, levantou a voz contra esse abuso. Só ele. Felizmente, essa aberração foi travada por Cavaco Silva e o tribunal constitucional.

Agora, querem pôr um chip em todos os carros. A última edição do Expresso dizia que o chip vai ser uma maravilha, que vai facilitar nos engarrafamentos e nas operações stop e que nos vai colocar na vanguarda da telemática mundial. Enfim: balões de ensaio e marketing.

Esta ideia é má. Tecnologia “big brother”, não, obrigado!



Não está a ser fácil a Mário Lino colocar praças de portagens nas SCUTs e, por isso, quer pôr-nos a pagar as portagens electronicamente.

Ora, eu quero chegar a uma portagem e poder pagar com cartão, ou com via verde, ou com notas ou moedas. Como me apetecer. Ninguém tem nada que saber se estou em Espinho ou na Guarda.

Sei que dizer isto não é popular. As pessoas acham que “quem não deve não teme”. É por causa desse “quem não deve não teme” que deixamos os governos espreitarem cada vez mais as nossas vidas. E, como se vê, a curiosidade dos governos é insaciável.

Se o chip for posto à venda, as pessoas vão correr para as filas para o comprarem. Os portugueses gostam muito de modernices. E pouco da liberdade.

O tempo não pára

Fotografia de Talles Alves



Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos factos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

Eu não tenho data pra comemorar
Às vezes os meus dias são de par em par
Procurando uma agulha num palheiro

Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos factos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára
Cazuza e Arnaldo Brandão








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Nota: post corrigido em 20/7, 11:12, na atribuição da autoria da letra e acrescentado com a versão dos Bersuit Vergarabat

terça-feira, 17 de julho de 2018

Rilke shake

Fotografia Olho de Gato

salta um rilke shake
com amor & ovomaltine
quando passo a noite insone
e não há nada que ilumine
eu peço um rilke shake
e como um toasted Blake
sunny side pra cima
quando estou triste
& sozinha enquanto
o amor não cega
eu bebo um rilke shake
e roço um toasted Blake
na epiderme da manteiga
nada bate um rilke shake
no quesito anti-heartache
nada supera a batida
de um rilke com sorvete
por mais que você se deite
se deleite e se divirta
tem noites que a lua é fraca
as estrelas somem no piche
e aí quando não há cigarro
não há cerveja que preste
eu peço um rilke shake
engulo um toasted blake
e danço que nem dervixe
Angélica Freitas


segunda-feira, 16 de julho de 2018

Cantata para professores… — por JB*

* Comentário de JB deixado hoje por JB no post Cantata do café — JS Bach


Fotografia daqui
— Porque este governo de socialista só tem o nome; após mais de um mês de greve, o que certamente se transformará num recorde de luta laboral e num péssimo chip de memória para um Partido Socialista (socialista? Vão estudar a etimologia do termo, por favor).

— Porque começa a ser uma péssima tradição do Partido Socialista o desconsiderar a Educação e os seus profissionais. A linha destruidora começa em Lurdes Rodrigues e continua com o Tiago.

— Porque é uma dor de alma ter que escrever que, provavelmente, o PPD consegue (des)tratar os professores de uma forma menos acintosa…

— Porque ao fim de um mês de greve, o que os “representantes” dos professores conseguem é a criação “de uma Comissão de estudo”??? É pá, vão-se federar!

— Porque uns lavaram a face dos outros e quem continua no batente, no terreno, na luta é que se lixa, SEMPRE!

— Porque “o carro” só conhece uma mudança: marcha atrás! Entra um qualquer governo, uma nova equipa e não muda a mentalidade: tudo para o lixo, que nós é que somos os donos da verdade!

Desiludidos, desanimados e irritados!

“Fantasmas de todos os planetas, vinde salvar-nos!” – José Gomes Ferreira

Cantata do café — JS Bach

Zimmermannsches Caffeehaus, 1700s


No libreto, escrito por Christian Friedrich Henrici, conhecido por Picander), lê-se:

"Se não pudesse, três vezes por dia, tomar a minha chávena de café, na minha angústia tornava-me numa cabra assada toda encarquilhada."

Bach não escreveu óperas: esta cantata ao café foi escrita para concerto, mas é frequentemente representada em palco com os cantores ataviados a concluirem que tomar café é natural.

Detalhes sobre os dez movimentos — aqui.


domingo, 15 de julho de 2018

Projecto de sucessão

Fotografia de Oliver Cole



Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua
continuar deitado até se destruir a cama
permanecer de pé até a polícia vir
permanecer sentado até que o pai morra

Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária
amar continuamente a posição vertical
e continuamente fazer ângulos rectos

Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora
pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo
fazer gestos no café até espantar a clientela
pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia
contar histórias obscenas uma noite em família
narrar um crime perfeito a um adolescente loiro
beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina
deixar fumar um cigarro só até meio
Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias
beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.
António Maria Lisboa


sábado, 14 de julho de 2018

S. O. S.! S. O. S.!

Fotografia de Sebastiaan Stam



Fantasmas de todos os planetas! Fantasmas de todos os planetas!
Saltai em pára-quedas no silêncio que há por dentro do silêncio
e vinde salvar-nos!

Vinde salvar os homens
para aqui abandonados ao pesadelo de si mesmos,
só a serem homens,
homens apenas,
homens sempre,
de manhã até à noite,
semi-homens,
infra-homens,
super-homens,
ex-homens...

E fartos, fartos, fartos, fartos, fartos,
desta desistência
de já nem quererem ser deuses!

Nem de transformarem os cavalos em relâmpagos!
José Gomes Ferreira



sexta-feira, 13 de julho de 2018

Ele e ela (XV)*

* Hoje no Jornal do Centro


Fotografia de Christin Hume


— Olá, querido, finalmente juntos e ao vivo.

— Tens razão, foi uma noite inesquecível aquela em que te conheci... mas no dia seguinte começava aquele curso de empreendedorismo em Londres...

— Foi boa, sim, mas soube a pouco e ainda não sei nada de ti. Durante estes meses, a tua conversa na net foi sempre a mesma: start-ups, unicórnios, janelas de oportunidade, candidaturas ao vinte-vinte, ou lá o que é isso...

— Chateia-te eu querer ser rico?

— Chateia-me não saber nada de ti, nem da tua família.

— Sou de uma família de falhados. O meu avô, um triste, montou uma fábrica de máquinas a petróleo em 1960...

— Máquinas a petróleo?

— Sim, eram muito usadas nas cozinhas antes de aparecerem os fogões a gás. O meu avô fez a fábrica quando estavam a chegar as botijas ao mercado. Um nabo. Faliu...

— Coitado, foi azar...

— Azar nada, o meu avô não percebia nada de empreeendedorismo, destratar a minha avó sabia ele, investir, não. Mas o meu pai fez pior...

— Então?!

— Em 1983, aquela besta enterrou uma fortuna numa fábrica de máquinas de escrever...

— Não correu bem?

— Claro que não. A IBM tinha lançado o primeiro PC dois anos antes. Estava-se mesmo a ver que o futuro ia ser das impressoras. O meu pai para tratar mal a minha querida mamã tinha muito jeito, para o empreendedorismo, nenhum...

— Empreendedorismo, empreendedorismo, estás sempre com isso na boca...

— Foi para isso que fui para Londres...

— Foi por isso que só tivemos aquela noite.

— ... e, enquanto estava lá, tive uma ideia para um negócio infalível...

— Infalível?

— Claro, não vou ser um falhado como o meu avô e o meu pai...

— Que vais fazer?

— Vou fazer um franchise de escolas tauromáquicas.



* Todas as crónicas desta série podem ser lidas no blogue Olho de Gato, na etiqueta "Ele e ela"

Se quereis ser fino amante

Fotografia de Andrei Lazarev



A um amante que disse 
que estava picado de sua dama

Se quereis ser fino amante
e dessa Senhora amado
o que tendes de picado,
haveis de ter de picante.
Este é remédio importante;
se ela a versos se aplica,
fazei-lhe uma canção rica
se a quereis namorar.
Porém, se a quereis picar,
usai com ela de pica.
D. Tomás de Noronha


quinta-feira, 12 de julho de 2018

Dois rios

Fotografia de Olenka Kotyk


O corpo dividido em duas partes
fechadas
à chave uma na outra, avanço
num duplo coração como se fosse
ao mesmo tempo num só barco por dois rios.
Luís Miguel Nava


quarta-feira, 11 de julho de 2018

PPPPP*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 11 de Julho de 2008


1. No início deste mês, o IVA passou de 21 para 20%. Podia ter descido mais qualquer coisinha. De qualquer forma: “Saravah!” - “Axé!” - “Shalom!” - “Salaam!” - “Ámen!” – “Iupi!”

Nunca é demais repetir esta ideia: é feliz o povo que tem um governo pequeno e moderado nos impostos.

Era bom que os impostos descessem mais e, para isso, há que cortar na gordura do estado. Porque não se privatiza a RTP? Se nem conseguimos manter urgências abertas nas vilas do interior, para que raio queremos uma televisão pública que faz rigorosamente o mesmo que fazem as televisões privadas?

Pergunta Jorge Fiel, no Diário de Notícias de domingo: “porque é que a telenovela "Dança Comigo" é "serviço público" e "Ciranda de Pedra" (SIC) e "A Outra" (TVI) não são?”

A RTP custa-nos meio por cento das receitas do IVA; 240 milhões de euros por ano; metade desta verba vem do orçamento de estado, a outra metade duma taxa que pagamos meio escondida na conta da luz.

2. É possível descer mais os impostos sem aumentar o défice. No estado, além de gordura inútil, há desperdício criminoso. Vamos pagar 485,5 milhões de euros pelo sistema de comunicações das forças de segurança, o SIRESP, cujo preço de mercado fica entre 70 e 105 milhões de euros. Não há ninguém preso por causa disto. Nem vai haver.

Fotografia de Carlos Manuel Martins
Daqui
Em Portugal, as PPP (Parcerias Público-Privadas) transformam-se em PPPPP (Parcerias Prejuízos Públicos Proveitos Privados).
Numa PPP, enquanto do lado empresarial há pensamento a longo prazo, no lado político mora um calendário eleitoral qualquer. Por vezes, as mesmas caras ora estão de um lado da mesa, ora estão do outro.

Aconteceu isso na PPP do SIRESP. Arderam 400 milhões de euros do nosso dinheiro. Quanto é isso em IVA?

Ainda sei a tua morada

Fotografia de Florin Kozma


Ainda sei a tua morada, quando a releio no soletro dos números e sonetos, confundo-a de encontro aos atalhos do meu coração. Quanto mais te escrevo, de lugares e quereres divergentes, de saberes e deveres indiferentes, mais o gasto da memória se disfarça devagarinho na sola dos teus sapatos. Ainda sei o nome da tua rua.
Alice Turvo


terça-feira, 10 de julho de 2018

segunda-feira, 9 de julho de 2018

domingo, 8 de julho de 2018

Poema porrada

 Salzedas -Tarouca
Fotografia Olho de Gato


Eu estou farto de muita
coisa
não me transformarei
em subúrbio
não serei uma válvula sonora
não serei paz
eu quero a destruição
de tudo que é frágil:
cristãos fábricas palácios
juízes patrões e operários
uma noite destruída cobre os dois sexos
minha alma sapateia feito louca
um tiro de máuser atravessa o
tímpano de
duas centopéias
o universo é cuspido pelo cu
sangrento
de um Deus-Cadela
as vísceras se comovem
eu preciso dissipar o encanto do meu velho
esqueleto
eu preciso esquecer que existo
mariposas perfuram o céu de cimento
eu me entrincheiro no Arco-Íris
Ah voltar de novo à janela
perder o olhar nos telhados
como
se fossem o Universo
o girassol de Oscar Wilde
entardece sobre os tetos
eu preciso partir um dia para muito longe
o mundo exterior tem pressa demais para mim
São Paulo e a Rússia não podem parar
quando eu ia ao colégio Deus tapava os ouvidos para mim?
Roberto Piva


sábado, 7 de julho de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#202)








Its subject is Scorsese's friend Steven Prince, best known for his small role as Easy Andy, the gun salesman in Taxi Driver. Prince is a raconteur telling stories about his life as an ex-drug addict and a road manager for Neil Diamond. Scorsese intersperses home movies of Prince as a child as he talks about his family. When talking of his years as a heroin addict, Prince tells a story about injecting adrenaline into the heart of a woman who overdosed, with the help of a medical dictionary and a Magic Marker. This story was re-enacted by Quentin Tarantino in his screenplay for Pulp Fiction. Prince also tells a story about his days working at a gas station, and having to shoot a man he caught stealing tires, after the man pulled out a knife and tried to attack him. This story was retold in the Richard Linklater film Waking Life.

The Neil Young song "Time Fades Away" is featured during the film's closing credits.

A sequel, American Prince, was released in 2009 and was directed by Tommy Pallotta.

This must be the place

Fotografia de Tim Mossholder

Home is where I want to be
Pick me up and turn me around
I feel numb, burn with a weak heart
Guess I must be having fun















sexta-feira, 6 de julho de 2018

O lobo no saco*

* Publicado hoje no Jornal do Centro

Fotografia de Miguel A. Lopes

1. Os pesos pesados da política portuguesa subiram ao palco do Rock in Rio e xutaram a cantiga eterna: «as saudades que eu já tinha da minha alegre casinha, tão modesta como eu.» Por causa destes pontapés, Marcelo e os seus companheiros políticos de performance foram chamados de ridículos ou populistas ou as duas coisas.

Ridículos talvez tenham sido, populistas não. "Populista" é o "vem-aí-lobo!", é o novo nome do "homem-do-saco" que vem levar as criancinhas que não comem a sopa. Houve uma altura em que se chamava a tudo o que não agradava "fassista", agora é "populista".

Escusado será dizer que quando chegarem os lobos populistas, e eles vão mesmo chegar, a palavra já estará gasta, metida no fundo do saco da indiferença.


2. Os deputados da nação têm alegres casinhas, tristes casinhas, modestos primeiros andares, opulentos primeiros andares, é lá com eles.

Já não é com eles a espertalhonice com que arredondam o fim-do-mês ao declararem uma casinha longe do parlamento, mesmo quando pagam IMI alfacinha. 

Enquanto as pessoas andavam distraídas com o futebol, o parlamento excretou um "parecer jurídico" que passa uma esponja nesta espertalhonice. Uma anedota.


3. No domingo passado, a diocese de Viseu despediu-se do bispo D. Ilídio Leandro com uma merecida homenagem.

Homem bom, tolerante, atento, sensível, D. Ilídio foi uma lufada de ar fresco numa cidade e numa diocese enclausuradas demasiados anos no mundo reaccionário e ultramontano do bispo D. António Monteiro.

Para além desta oxigenação vivificadora da diocese, D. Ilídio iniciou uma mais que necessária recuperação patrimonial, muito bem sucedida na vertente dos bens culturais, não muito bem na parte imobiliária por causa da crise pós-2008.

Saneou, ainda, moralmente o Jornal da Beira. Aquele órgão de comunicação da diocese cumpre agora o seu papel, não é mais o pasquim alaranjado que era no virar do milénio.

Obrigado, D. Ilídio!

Nocturno


Fotografia de Ethan Hoover


Déjame nadar por tus venas,
por tus ríos de sangre
y de saliva,
por tus mandíbulas de sombra,
por tus rincones tiernos,
por tus lentos respiros,
por tus ojos serenos,
por tus palabras tristes,
por tu sonrisa inquienta,
por tu marcha sobre el asfalto
turbio de las ciudades:
déjame serte.
Susana Thénon



quinta-feira, 5 de julho de 2018

Sibila

Fotografia de Velizar Ivanov




facilis descensus Averno;
noctes atque dies patet atri ianua Ditis;
sed revocare gradum superasque evadere ad auras,
hoc opus, hic labor est.
Vergílio, Eneida 6

o desconforto dos ombros
contra a porta
os óculos partidos no chão
as coisas tornam-se às vezes
a noite que as contém
não emergem
em perfeita corola
branco sorriso
mas quebradas
a beleza mais difícil
é a que fica imperfeita
sugerida apenas
no momento em que um gesto
a desfaz e a leva para longe
essa teimosia condenada
ao fracasso

a canção dele atravessa-te
por fim pelo cansaço
a visão do céu em plena tarde
está fora do teu desconforto
uma cor que não sirva
para falar de ti

voltas-te contra a janela
inclinas o corpo para a rua
o final de julho
desce lentamente
sem lâminas
e está nas pedras
que compõem
o desenho no chão
há uma precisão nas palavras
que te ensinou primordialmente a ver
talvez seja esta a tua justificação

sobre isso
outros te contaram histórias no escuro
quase que te sentes grato
por esses efémeros seixos
guardados nos bolsos
em jeito de armas de defesa
mas que de nada
te têm trazido a salvo

essas palavras que te escolheram
e que pululam pela solidão
algumas voltam mais tarde
perfuraram-te
ou
quase distraídas
afastadas do seu centro
estabelecem uma medida
para o que fica em volta

ou foram
a energia no momento
em
que pára:
vergílio
ao escrever
ibant obscuri
sola sub nocte
per umbram

assim
um verso perfeito
para dizer que eneias
desceu ao inferno
levado pela mão
de uma rapariga
cumas
um lugar dito por uma mímica
de pontos ardendo na noite
e o rumor do mar preso às folhas

reconstruir a partir dos estilhaços
o caminho de volta
como dizias
o amor que tens a essa teimosia
fracassada
assim dirás apenas
que foste deixado
para uma imagem imperfeita
e o som com que essas palavras te dizem
distrai-te
nas horas
de soturnos dormitórios
na solidão de longas viagens
em salas de espera

trouxeram-te de volta
até este desconforto mínimo
de ombros contra a porta
a canção da sibila
fica fora do círculo
sons que se articulam
num eco que recua
e se prende longe no tempo
convoca apenas
um rosto debruçado sobre o teu rosto
isso que talvez não exista
ou exista muito pouco
uma ternura que não fala de nós
uma ternura que nos salva
sem absolvição
Tatiana Faia


quarta-feira, 4 de julho de 2018

Preços hoje na Galp


Autárquicas 2009*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 4 de Julho de 2008


1. Num dia frio de Dezembro, José Junqueiro foi a Campia e prestou declarações à Rádio Vouzela.

Em menos de dois minutos ao microfone, Junqueiro conseguiu (i) “fechar” a urgência básica de S. Pedro do Sul ainda antes dela ser anunciada, (ii) “criar” unidades de saúde familiar em Oliveira de Frades, Vouzela e Santa Cruz da Trapa e (iii) “enfiar” todas as urgências nocturnas da região em ambulâncias a caminho do Hospital de Viseu.

Viviam-se então dias agitados na saúde. Faltavam menos de dois meses para José Sócrates mudar de ministro. Naquela altura, Correia de Campos aparecia nos media quase todos os dias.

Junqueiro - que em matéria de protagonismo tem mais sede que um eucalipto - não podia deixar-se ficar para trás.

2. Há poucos dias, José Junqueiro regressou a Vouzela e ao tema saúde, desta vez para dizer que, naquele assunto, o presidente da câmara de Vouzela (PSD) esteve mal enquanto o autarca de S. Pedro do Sul (PSD) esteve bem.

Ora, esta estratégia de “ataca-um-e-gaba-o-outro-do-lado” não deve ficar confinada a Lafões. Pode e deve ser estendida a todo o distrito.

Em Tondela, o sempiterno líder distrital do PS deve criticar Carlos Marta (PSD) enquanto entroniza o vizinho de Santa Comba Dão (PSD). Em Nelas, Junqueiro dirá mais uma vez que a presidente da câmara (PSD) se comporta como uma “barata tonta” enquanto incensa o vizinho Atílio Santos Nunes, de Carregal do Sal (PSD). E por aí fora…



3. O PS no distrito de Viseu tem que ganhar, no mínimo, oito câmaras nas eleições autárquicas do próximo ano. Tantas quantas tinha antes do trambolhão de 2005.

No meu país

Fotografia de Osman Rana


No meu país
dardejado de sol e da caca dos gaios
só há estâncias
(de veraneio) na poesia.
Nossos lábios
a um metro e sessenta e tal
do chão amarelecido
dos símbolos
abrem para fora
por dois gomos de frio.
Nossos lábios outonais, digo,
outonais doze meses.
No entanto
à flor da possível
geografia
um frémito cinde
as estações do ano.
Sebastião Alba



terça-feira, 3 de julho de 2018

Um homem no chão da minha sala

Fotografia de Evan Clark


Um homem no chão da minha sala
alonga sua raiz
galo que estufa o pescoço
cana-de-açúcar e bronze
poças, chuva, telha-vã
rio que escorre na velha taça empoeirada

O homem no chão da minha sala
cidades de ouro
castelos de mel
velhas metáforas
sinos línguas gelatina
O céu no chão da minha sala

Esse homem no chão da minha sala
provoca o veneno da cobra
pulgas atrás das orelhas
mexeu nos meus bibelôs
consertou aquela estante
revirou a roupa suja
desenterrou flores secas
fraldas
chifres
quatro cascas de ferida
um disco todo arranhado
e um punhado de pêlos

Aquele homem no chão daquela sala
me fez cruzar o ribeirão dos mudos
estufa de tinhorões gigantes
no piso do meu mármore
ele acordou a doida
as quatro damas do baralho
uma ninfeta de barro
e a cadela do vizinho

Daquele homem no chão da minha sala
há meses não tenho notícia
desde que virei a cara
saltei janela
fugi sem freio ladeira abaixo
perdi o bonde
estraguei tudo
Hilda Machado


segunda-feira, 2 de julho de 2018

La máquina

Fotografia de Val Vesa


Nos perseguimos
para matarnos.
Esperamos el momento oportuno
para el golpe por sorpresa
la emboscada definitiva.
En la práctica esta guerra
se reduce a una larga
continua vigilancia. Lo peor
son las noches afilando cuchillos.
José Daniel Espejo



domingo, 1 de julho de 2018

Odeio este tempo detergente

Fotografia de Julian Howard


Odeio este tempo detergente
um tempo português que até utilizou
os primeiros acordes da quinta sinfonia de beethoven
como indicativo da voz do ocidente
chamada actualmente a emissão em línguas estrangeiras
um tempo que parou e só mudou
o nome que puseram num mundo que muda
a coisas que afinal permaneceram
um tempo português que alguma vez até em camões vê
o antecessor e criador de coisa como a nato
com a profética visão de quem consegue conceber tal obra
bem pouco literária por sinal e só possível graças à visão
de quem com um só olho vê as coisas quatrocentos anos antes
Odeio este meu tempo detergente
de uma poesia que discreta até se erótica antigamente
hoje se prostitui numa publicidade
devida a algum poeta público que a certo detergente
deu de repente esse teu nome musical de musa
a ti precisamente a ti nesse teu rosto sorridente
onde o poeta público publicitário porventura viu
sobressair teu riso nesse território de alegria
e a brancura mais alva nesses dentes alvejar
E eu que faço eu aqui em todo este tempo detergente quando
sinto subitamente cem saudades tuas
que posso que não seja odiar mais um meio que jamais
tentaria impedir evitaria um tempo que consente até contente
que faças dentro em pouco um ano mais
um meio onde nem mesmo eu mulher afinal sei
que terei de fazer para deter ao menos um momento essa tua idade
a tua juventude se possível anos antes de haver-te conhecido
por acaso e já tarde na cidade onde nasceste
cidade que unamuno diz viver morrer apenas por amor
amor morto ou mortal mas amor imortal
cidade solidão as ruas muita gente os sons o sol
difusos e confusos corredores de uma faculdade
folhas que se renovam rostos que outros rostos
tão firmes tão presentes permanentes um só ano antes
friamente destroem sem deixar sequer
ao menos uma marca nessa fria impassível pedra
o tempo os sóis dos séculos cingindo os cintos da cidade
dessa cidade onde o povo morre novo à volta
do mesmo monumento destinado a exaltá-lo
cidade onde afinal a paisagem é pretexto para o homem
cidade portuguesa ó portugal ó parte da hispânia maior
maneira triste de se ser ibéria onde
da terra emerge o homem que depois o rosto nela imerge
ó portugal dos pescadores de espinho
espinho do suicida laranjeira espinho praia
antiga amiga e conhecida de unamuno
a praia dos seus últimos passeios portugueses
angústia atlântica e odor ó dor olor a campo
praia que so' existe quando alguém a veste
coisa que foi somente quando tu mulher a viste
Aqui em portugal aqui na vasta praia portuguesa
aqui nasci e ao nascer morri
como morri a morte que por sorte sempre tive
pesadamente do mais alto do meu peso dos meus anos
em cada um dos sítios onde um dia estive
Aqui tive dezasseis anos aos dezasseis anos
aqui só vejo pés há muitos anos já
Aqui o meu chapéu de chuva mais ao sul aceita em chapa o sol
chapéu que fecho quando fecha o sol definidor do dia
Tive um passado agora inacessível um passado
tão alto como a torre do relógio da aldeia
que pontual pontua a passagem do tempo
um tempo não ainda detergente um tempo
afinal só visível no sensível alastrar da sombra
ao longo desse pátio só possível ao adolescente
que mais tarde e mais só e de maneira mais sensível
mais só se sentirá no meio da imensa gente
que se sentia ali entre a andorinha e a nespereira
Não o sabia então mas dominava um mundo
esse mundo que espero que me espere um dia ao fundo
lá quando findo o dia sob o chão me afundo e ao final
em terra e em verdade é que me fundo
Mas eu aqui completamente envolto neste tempo detergente
é da segunda-feira e da semana que preciso pois
posso lutar melhor por uma luz melhor
do que esta luz do mar à hora do entardecer
É da cidade é da publicidade é da perversidade
que preciso e não tenho aqui na praia
Não tenho nem o mar nem tão rudimentar
a técnica de olhar alguém as minhas mãos
para me devassar a vã vida privada
É de inverno é domingo estou sozinho aqui na praia
regresso a casa à noite apanho eu próprio a roupa no quintal
e tenho a sensação de quem alguma coisa
faz pela vez primeira e sente bem ou mal
que tarde toma agora o seu banho lustral
Ruy Belo