Fado da censura — Fernando Pessoa (1927)
Neste campo da Política Onde a Guarda nos mantém, Falo, responde a Censura; Olho, mas não vejo bem. Há um campo lamacento Onde se dá bem o gado; Mas, no ar mais elevado, Na altura do pensamento, Paira um certo pó cinzento, Um pó que se chama Crítica. A Ideia fica raquítica Só de sempre o respirar. Por isso é tão mau o ar Neste campo da Política. Às vezes nesta planura, Se o vento sopra do Norte, O pó torna-se mais forte, E chama-se então Censura. É um pó de mais grossura, Sente-se já muito bem, E a Ideia, batida, tem Uma impressão de pancada, Como a que dão numa esquadra Onde a Guarda nos mantém. O pó parece que chove, Paira em todos os sentidos, Enche bocas e ouvidos, Já ninguém fala nem ouve. Se a minha boca se move, Logo à primeira abertura A enche esta areia escura. Só trago e me oiço tragar. É uma conversa a calar. Falo, responde a Censura. Vem então qualquer vizinho, Dos que podem abrir boca; No braço, irado, me toca, E diz, «Não vê o caminho? O seu dever comezinho De patri...
