quarta-feira, 20 de junho de 2018

Israel - Irão*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 20 de Junho de 2008


1. A edição de 15 de Junho do Times dá notícia que George W. Bush está empenhadíssimo numa última tarefa antes de deixar o emprego: apresentar aos americanos, numa bandeja, as barbas do líder da al-Qaeda. Mesmo que consiga esse jackpot e Osama Bin Laden saia agora de debaixo duma pedra, Bush já não perde o título de pior presidente da história dos Estados Unidos.

A aliança Irão, Hezbollah, Hamas e Iraque (dominado pelos xiitas com apoio americano) criou um desequilíbrio estratégico no Médio Oriente. O presidente iraniano Mamoud Ahmadinejad, sempre que abre a boca, é para ameaçar varrer Israel do mapa e essas ameaças são levadas a sério em Telavive.

Joshka Fichler, o bem informado ex-ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, acaba de avisar que há cada vez mais sinais que Israel prepara um ataque às instalações nucleares iranianas ainda antes de Bush se ir embora.

É mesmo: 2008 é o ano de todos os pesadelos.

2. Deve haver verdade no preço dos combustíveis. Por razões ecológicas e económicas. As empresas e as pessoas devem receber os sinais certos. Se a energia está cara, há que mudar comportamentos e consumos.

Sócrates está a fazer melhor que Guterres que, em 1999, congelou os preços dos combustíveis.

A Galp tem-se revelado insolente. É possível e desejável introduzir mais concorrência no mercado dos combustíveis. 

Mas convém lembrar: nós não temos petróleo. É preciso investir cada vez mais em energias renováveis e na eficiência energética.

No curto prazo, há que cerrar os dentes, aguentar a tempestade e ir acudindo aos sectores mais fragilizados pela subida dos preços. É o que José Sócrates está a fazer.

Refresh. Refresh. Refresh.



I’d give you another day dizzy
in its bracket for the reluctant circumference
of a sad sad satellite’s antiquated orbital stoppage.
You can’t jump with a lead foot, can’t
anthropomorphize insect anticipation, can’t
pixelate postcard nostalgia, can’t
trace a boy’s tiny hand and call him
king of anything that crosses your path, your past,
your iconographic reluctance to let go the toehold
of ordinary New York lasting so long at night, so
lusty in traffic & another orphan absently
kicking the underside of an orange plastic chair.
Poems shouldn’t make you wait for them to finish.
Like love, they should finish making you wait.
Noah Eli Gordon


terça-feira, 19 de junho de 2018

Sabiá

Detalhes aqui


A todo mundo eu dou psiu.
Psiu! Psiu! Psiu!
Perguntando por meu bem.
Psiu! Psiu! Psiu!
Tendo o coração vazio,
Vivo assim a dar psiu,
Sabiá, vem cá também.
Psiu! Psiu! Psiu!


Tu que andas pelo mundo,
Sabiá!
Tu que tanto já voou,
Sabiá!
Tu que falas aos passarinhos!
Alivia a minha dor.
Tem pena d’eu,
Sabiá!
Diz, por favor,
Sabiá!
Tu que tanto andas no mundo,
Sabiá!
Onde anda o meu amor?
Sabiáááááááááá!!!
Luiz Gonzaga










segunda-feira, 18 de junho de 2018

Hah!

Daqui


Há a mulher que me ama e eu não amo.
Há as mulheres que me acamam e eu acamo.
Há a mulher que eu amo e não me ama nem acama.

Ah essa mulher!

Tu eras mais feliz, Apollinaire.
montado num obus, voavas à mulher.
Tu foste mais feliz, meu artilheiro.
tiveste amor e guerra.

Eu andei pra marinheiro,
mas pus óculos e fiquei em terra.

Upa garupa na mulher que me acama,
que a outra é contigo, coração que bem queres
sofrer pelas mulheres...
Alexandre O'Neill


domingo, 17 de junho de 2018

Violência urbana (#38)

Santa Cruz da Trapa

Fotografia de Olho de Gato

Construção

Fotografia de John Moeses Bauan

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Chico Buarque



sábado, 16 de junho de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#199)

Retrato do artista quando coisa

Por Robert e Shana Pakerharrison



A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.
Manoel de Barros


sexta-feira, 15 de junho de 2018

Atenção*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Quando alguém se foca em algo exterior a si, esse alguém está a aprender. Para aprender é imperativo prestar atenção e tudo indica que a atenção das pessoas é uma matéria-prima em declínio. Há cada vez mais gente a falar e, quanto mais falam os falantes, menos ouvem os ouvintes. E quanto mais falantes há, menos ouvintes há disponíveis.

Os professores sabem bem isso e tratam de, ao mesmo tempo que dão a matéria, manter debaixo de olho os alunos. Eles sabem que é cada vez mais difícil manter os alunos atentos, mesmo na ecologia ideal de uma sala de aulas em que os papéis e os tempos para os vários emissores e receptores estão bem definidos. Vamos lá ver se conseguem recuperar os 9A 4M 2D que a geringonça lhes quer roubar.

Fora das escolas o panorama é pior. Há para aí cada vez mais gente a falar sozinha sem dar conta disso. Muitos dos que dão conta, em desespero por audiências, até fazem o pino em posts no Facebook.

Já o devo ter dito aqui mas repito-o: como a atenção é cada vez mais rara, ela ainda vai ser paga. E, como sempre, quando isso acontecer, os ricos vão receber mais do que os pobres.


Fotografia de Lacie Slezak

2. A professora N. Katherine Hayles identificou dois tipos de atenção:

— a “atenção profunda”, que se concentra num só objecto durante um longo período de tempo, é capaz de ignorar estímulos externos e perseverar em objectivos de longo prazo, como por exemplo na leitura de um livro;

— a “hiperatenção”, sempre “a mudar de foco entre várias tarefas”, a fazer zapping, prefere “fluxos múltiplos de informação”, procura “um nível elevado de estimulação e tem uma tolerância baixa” à seca, ao chato.

É claro que umas vezes funcionamos em “atenção profunda”, outras vezes em “hiperatenção”, e que ambos “estilos cognitivos” têm vantagens e têm inconvenientes. Mas não é arriscado afirmar que a primeira maneira de conhecer o mundo está a perder terreno para a segunda e que essa perda é maior nas novas gerações.

Caixa de velocidades

Fotografia de Scott Webb



O carro arde, é
verão, falha-me
a embraiagem
(confesso que
tenho medo).

É por Monsanto que
sigo para recuperar
no opifício do comercial
centro a celeridade e
beijar as montras do
auto-conhecimento.

Faço aquisições, toco
na pele do pêssego.

Posso porque conheço
tão bem o curso que
me transporta para o
nível menos um
como a família
de feudatários
da qual descendo.
Respiro o condicionado
ar e a consolação de
um austero estacionamento.

Está escuro
está fresco
reina o silêncio.

Regresso ao vermelho
lugar e espera-me
aí — ar gasoso e suspenso

o garagista com olhos de Cristo
e é com mãos nos bolsos
que me aponta
o dedo.

De mão dada com
o meu saco plástico,
não me mexo.

De olhos fechados
conto até três
(como Ele pode)
mas é ponto
assente:
Pulverizados podem
seguir outros corpos
em nuvens isentas
financeiros túneis ou
vias rápidas mas
face ao ultimato
não concedo

Penso em nós —
súbditos amantes
no fundo do
saco de polietileno —
e simplesmente

não desapareço.
Susana Araújo




quinta-feira, 14 de junho de 2018

A minha saia

Fotografia de Simone Perrone



A minha saia é debruada de
dentes brancos
— saia rodada com pregas
e esconderijos que se abrem
sobre os precipícios da infância

É uma saia alta como janelas
remendada pelas mãos cuidadosas dos amantes

Debaixo da minha saia há
uma caixa com botões e olhos
que encontrei no leito seco dos caminhos
há um girassol que me aquece
o farelo e o sal dos ossos
há uma colmeia e o crescente negro
da sombra a roçar os joelhos

Há o riso dos velhos

Som de cordas, velas de moinho,
fábulas e exércitos balançam
dentro da minha saia
quando danço

Debaixo da minha saia há também casas
onde recolho o vento, e delas se avista
o pescoço curvo de dois bois mansos
alisando o pasto

Rodo o corpo e a minha saia aponta para o sul
baixo-a para desenhar círculos na poeira
ergo-a para atravessar o rio
na hora em que
a maré sobe
sobe
sobe
sobe
Ana Duarte


quarta-feira, 13 de junho de 2018

Part-time*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 13 de Junho de 2008


Fotografia de Tiago Caramujo
(daqui)
1. Manuela Ferreira Leite ganhou as eleições no PSD. A partir de agora vamos passar a ter o presidente, o partido do governo e o principal partido da oposição a dizerem o mesmo e isso não é bom.

Os sindicatos e as associações empresariais tentam moderar e enquadrar o descontentamento — veja-se o que se passou com os professores e o que se passa agora com os camionistas — mas a pressão está a acumular-se. Há um risco elevado de incêndio na “rua” e, infelizmente, Cavaco não sabe fazer de válvula de escape.

Já se começa a falar num governo Sócrates / Manuela para depois das eleições de 2009. É uma ideia péssima. O bloco central é estéril. Basta ver os resultados obtidos com o pacto de justiça que foi celebrado entre o PS e o PSD. Nada de bom aconteceu — os nossos tribunais estão na mesma como a lesma.

2. Marques Mendes defendeu a descida dos impostos e a moralização da política. Foi ele que libertou o PSD de criaturas como Valentim Loureiro e Isaltino Morais.

Não se imagina Manuela a baixar impostos e não se lhe conhecem ideias sobre a ganhuça em que se tornou boa parte da actividade política. Espera-se que, no mínimo, mantenha longe o seu antigo protegido, António Preto, o homem da mala cheia de dinheiro.

Durante a campanha interna do PSD, Manuela Ferreira Leite não disse nada. Agora vai ter que falar, especialmente para a classe média, os reformados e o funcionalismo que são quem tem pago, com língua de palmo, a redução do défice. Será que eles a vão ouvir?

3. A edição de 2 de Junho do Correio da Manhã trazia uma análise dos registos de interesse dos deputados. Em cada dois, um é deputado em part-time.