domingo, 16 de junho de 2019

De que são feitos os dias?


De que são feitos os dias?
– De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias,
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…
Cecília Meireles


David Byrne & Brian Eno's "One Fine Day",
performed by Brooklyn Youth Chorus, David Byrne, and Mauro Refosco.
at the National Sawdust 2019 Spring Gala on May 7, 2019


sábado, 15 de junho de 2019

Desolation row

Fotografia de Navneet Mahajan

They're selling postcards of the hanging, they're painting the passports brown
The beauty parlor is filled with sailors, the circus is in town
Here comes the blind commissioner, they've got him in a trance
One hand is tied to the tight-rope walker, the other is in his pants
And the riot squad they're restless, they need somewhere to go
As Lady and I look out tonight, from Desolation Row

Cinderella, she seems so easy, "It takes one to know one, " she smiles
And puts her hands in her back pockets Bette Davis style
And in comes Romeo, he's moaning. "You Belong to Me I Believe"
And someone says, "You're in the wrong place, my friend, you'd better leave"
And the only sound that's left after the ambulances go
Is Cinderella sweeping up on Desolation Row

Now the moon is almost hidden, the stars are beginning to hide
The fortune telling lady has even taken all her things inside
All except for Cain and Abel and the hunchback of Notre Dame
Everybody is making love or else expecting rain
And the Good Samaritan, he's dressing, he's getting ready for the show
He's going to the carnival tonight on Desolation Row

Ophelia, she's 'neath the window for her I feel so afraid
On her twenty-second birthday she already is an old maid
To her, death is quite romantic she wears an iron vest
Her profession's her religion, her sin is her lifelessness
And though her eyes are fixed upon Noah's great rainbow
She spends her time peeking into Desolation Row

Einstein, disguised as Robin Hood with his memories in a trunk
Passed this way an hour ago with his friend, a jealous monk
Now he looked so immaculately frightful as he bummed a cigarette
And he when off sniffing drainpipes and reciting the alphabet
You would not think to look at him, but he was famous long ago
For playing the electric violin on Desolation Row

Dr. Filth, he keeps his world inside of a leather cup
But all his sexless patients, they're trying to blow it up
Now his nurse, some local loser, she's in charge of the cyanide hole
And she also keeps the cards that read, "Have Mercy on His Soul"
They all play on the penny whistles, you can hear them blow
If you lean your head out far enough from Desolation Row

Across the street they've nailed the curtains, they're getting ready for the feast
The Phantom of the Opera in a perfect image of a priest
They are spoon feeding Casanova to get him to feel more assured
Then they'll kill him with self-confidence after poisoning him with words
And the Phantom's shouting to skinny girls, "Get outta here if you don't know"
Casanova is just being punished for going to Desolation Row"

At midnight all the agents and the superhuman crew
Come out and round up everyone that knows more than they do
Then they bring them to the factory where the heart-attack machine
Is strapped across their shoulders and then the kerosene
Is brought down from the castles by insurance men who go
Check to see that nobody escapes to Desolation Row

Praise be to Nero's Neptune, the Titanic sails at dawn
Everybody's shouting, "Which side are you on?!"
And Ezra Pound and T. S. Eliot fighting in the captain's tower
While calypso singers laugh at them and fishermen hold flowers
Between the windows of the sea where lovely mermaids flow
And nobody has to think too much about Desolation Row

Yes, I received your letter yesterday, about the time the doorknob broke
When you asked me how I was doing, was that some kind of joke
All these people that you mention, yes, I know them, they're quite lame
I had to rearrange their faces and give them all another name
Right now, I can't read too good, don't send me no more letters no
Not unless you mail them from Desolation Row
Bob Dylan



sexta-feira, 14 de junho de 2019

Porque falham as nações*

* Hoje no Jornal do Centro


Em Julho de 1985, Bernie Sanders, então presidente de uma câmara nos EUA, fez uma visita à Nicarágua a convite dos sandinistas, visita que agora está a ser usada contra ele no debate das primárias democratas que hão-de escolher o próximo adversário de Trump.

Ora, a visita de Sanders naquele ano merece aplauso. Depois de terem derrubado a ditadura sanguinária de Somoza, os sandinistas de Daniel Ortega estavam no poder através de eleições justas e livres, tinham reduzido metade da mortalidade infantil e baixado o analfabetismo de 50 para 15%. Além disso, tinham devolvido ao controlo público 40% da riqueza do país roubada pela dinastia Somoza e seus apaniguados.

Só que, quatro anos depois, os sandinistas, em risco de perderem as eleições, fizeram um golpe que ficou conhecido por “la piñata” (nome de um jogo em que os putos partem um pote para chegarem às gulodices). Foi mesmo isso: a cúpula sandinista sacou para si própria centenas de empresas públicas. Ficaram riquíssimos, a começar pelo seu líder.

O sandinismo começou com preocupações com o povo mas transformou-se numa nódoa cleptocrática em que Daniel Ortega é o presidente e a mulher dele... vice-presidente. Se agora Sanders aceitasse um convite desta gente, merecia um banho de alcatrão e penas.

O que aconteceu na Nicarágua é a regra não é a excepção. Uma elite que chega ao poder, normalmente, acaba a fazer o mesmo que a que substituiu.

Daron Acemoglu e James A. Robinson, no seu obrigatório “Porque Falham as Nações”, explicam estes mecanismos. Uma nação pode prosperar se tiver instituições inclusivas, com elites que aceitem limites ao seu poder. Uma nação falha se, pelo contrário, tiver elites extractivas que não aceitam limites ao seu poder.

A Angola de João Lourenço tem agora acesa a mesma luz de esperança que tinha a Nicarágua quando foi visitada por Sanders. 
Fotografia daqui
Irá o novo presidente angolano recusar ser um Eduardo dos Santos II? 
Só o tempo nos dirá se acontece esse milagre.

The naming of cats

Pussy — a razão deste blogue
Fotografia Olho de Gato



The Naming of Cats is a difficult matter,
It isn't just one of your holiday games;
You may think at first I'm as mad as a hatter
When I tell you, a cat must have THREE DIFFERENT NAMES.
First of all, there's the name that the family use daily,
Such as Peter, Augustus, Alonzo or James,
Such as Victor or Jonathan, George or Bill Bailey--
All of them sensible everyday names.
There are fancier names if you think they sound sweeter,
Some for the gentlemen, some for the dames:
Such as Plato, Admetus, Electra, Demeter--
But all of them sensible everyday names.
But I tell you, a cat needs a name that's particular,
A name that's peculiar, and more dignified,
Else how can he keep up his tail perpendicular,
Or spread out his whiskers, or cherish his pride?
Of names of this kind, I can give you a quorum,
Such as Munkustrap, Quaxo, or Coricopat,
Such as Bombalurina, or else Jellylorum-
Names that never belong to more than one cat.
But above and beyond there's still one name left over,
And that is the name that you never will guess;
The name that no human research can discover--
But THE CAT HIMSELF KNOWS, and will never confess.
When you notice a cat in profound meditation,
The reason, I tell you, is always the same:
His mind is engaged in a rapt contemplation
Of the thought, of the thought, of the thought of his name:
His ineffable effable
Effanineffable
Deep and inscrutable singular Name.
T. S. Eliot












quinta-feira, 13 de junho de 2019

Canção de amor da jovem louca

Fotografia de Tamarcus Brown

Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)
Sylvia Plath
Trad.: Maria Luí­za Nogueira


quarta-feira, 12 de junho de 2019

Dupla SORTE a dos moradores em Marzovelos — por JB*

Primeiro: têm “Jardins Efémeros” privado e há mais de 365 dias.



Segundo: têm água verde e não essa tal de amarela…



E vamos lá montar o palco para outra FESTA!


* Fotografias, legendas e selecção musical de JB

Boomerang*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos,  em 12 de Junho de 2009 


1. No dia 8 de Dezembro de 2006, escrevi aqui no Olho de Gato:
“O desgaste da imagem dos professores junto da opinião pública feito pela Ministra da Educação é um boomerang que vai cair na cabeça do PS e do governo. É só deixar passar a água debaixo das pontes.”



A água passou debaixo das pontes. O boomerang caiu na cabeça do PS e do governo.

Foi nas eleições do domingo passado.

2. O código genético do PS é a liberdade.

A liberdade de as pessoas poderem pôr sal no pão sem o estado estar a meter o nariz no assunto.

A liberdade das pessoas poderem circular sem serem chipadas.

A liberdade de se poder dizer que a barbárie marilurdista gosta de bufos e delatores.

A liberdade de se poder dizer que nem tudo o que é bom para o senhor António Mota Coelho Engil é bom para o país.

A liberdade de se poder dizer que o secretário de estado que disse querer trucidar os funcionários públicos devia arranjar outro emprego.

A liberdade de se poder lembrar aos militantes do PS que congressos “albaneses” – como os de Mangualde e de Espinho - são o cemitério da política.

A liberdade de se poder dizer que é um erro moral fazer política a promover a inveja e a schadenfreude, atirando as pessoas umas contra as outras.

A liberdade de se poder dizer que Portugal precisa de um estado honrado e frugal que deixe as pessoas tratarem da sua vida e tentarem ser felizes.

3. O boomerang das europeias vai doer durante semanas.

Boys intranquilos. “Ai que ainda perco o tacho…”

Depois, os negócios do costume vão ser acelerados.

Na minha freguesia — Coração de Jesus, Viseu — o PS teve 18,5%.

A classe média está atenta.

Não é seguro que já tenha descarregado a bílis toda.

A orquídea solitária

Fotografia de Kelly Kiernan

Uma orquídea solitária
desabrochou um dia num jardim vazio,
rodeada de ervas e tristeza.
Outrora a Primavera tépida,
agora o Outono frio.
A geada embranquece a terra,
murcham as folhas verdes,
extingue-se a flor.
Se não soprar a brisa
quem aspirará as résteas de perfume?
Li Bai
Trad.: António Graça de Abreu





terça-feira, 11 de junho de 2019

Nascimento último

Fotografia de Angel Origgi


Como se não tivesse substância e de membros apagados.
Desejaria enrolar-me numa folha e dormir na sombra.
E germinar no sono, germinar na árvore.
Tudo acabaria na noite, lentamente, sob uma chuva densa.
Tudo acabaria pelo mais alto desejo num sorriso de nada.
No encontro e no abandono, na última nudez,
respiraria ao ritmo do vento, na relação mais viva.
Seria de novo o gérmen que fui, o rosto indivisível.
E ébrias as palavras diriam o vinho e a argila
e o repouso do ser no ser, os seus obscuros terraços.
Entre rumores e rios a morte perder-se-ia.
António Ramos Rosa


segunda-feira, 10 de junho de 2019

Manual de despedida para mulheres sensíveis

Fotografia de Serhat Beyazkaya


Ser digna na partida, na despedida, dizer adeus com jeito,
não chorar para não enfraquecer o emigrante,
mesmo que o emigrante seja o nosso irmão mais novo,
dobrar-lhe as camisas, limpar-lhe as sapatilhas
com um pano húmido, ajudá-lo a pesar a mala
que não pode levar mais de vinte quilos
(quanto pesará o coração dele? e o meu?),
três pares de sapatos, um jogo de lençóis, o corta-vento,
oferecer-lhe a medalha que a Mãe usava sempre que partia
e que talvez não tenha usado quando partiu para sempre,
ter passado o dia à procura da medalha pela casa toda
(ninguém sai mais daqui sem a medalha, ninguém sai mais daqui),
pensar que a data escolhida para partir é a da morte da Mãe,
pensar que a Mãe não está comigo para lhe dobrar as camisas
e mesmo assim não chorar, nunca chorar,
mesmo que o Pai esteja a chorar, mesmo que estejam todos a chorar,
tomar umas merdas, se for preciso: uns calmantes, uns relaxantes,
uns antioxidantes para não chorar; andar a pé para não chorar,
apanhar sol para não chorar, jantar fora para não chorar, conhecer gente,
mas gente animada, pintar o cabelo e esconder as brancas,
que os grisalhos são mais chorões, dizer graças para não pôr também
os amigos a chorar, os amigos gostam é de nós a rir, ver séries cómicas
até cair, acordar mais cedo para lhe fazer torradas antes da viagem,
com manteiga, com doce de mirtilo, com tudo o que houver no frigorífico,
e não pensar que nunca mais seremos pequenos outra vez,
cheios de Mãe e de Pai, no quarto ao lado,
cheios de emprego no quarto ao lado quando ainda existia Portugal.

É tanto o que se pede a um ser humano do século vinte e um.
Que morra de medo e de saudade no aeroporto Francisco Sá Carneiro.
Mas que não chore.
Filipa Leal




domingo, 9 de junho de 2019

Cântico das nervuras

Fotografia de Nicolas Ladino Silva


São tão largas as noites
para a concisão de um corpo.
Tão escuro o sorriso que as pernas abrem
ao mundo.
E no entanto animal que passe
aloira-se nas águas e geme
de uma alegria que tem flores e frutos.
Catarina Nunes de Almeida