domingo, 16 de dezembro de 2018

O menos possível

Fotografia de Guilherme Stecanella

Respirar
o menos possível
nestas cidades
de uma tristeza
sem idade
abrindo o espaço
com os gestos lentos de um náufrago
a caminho
do fundo

A noite sobe-me
na voz
como um lugar
capaz de imaginar
sozinho
o seu cenário
onde o azul
dorme
numa cave
com os cães
Ernesto Sampaio




sábado, 15 de dezembro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#221)

Overtone singing is a voice technique where it seems like one person sings two notes at the same time. 

You can sing the overtone scale on one fundamental. 

Another fundamental has its own overtone scale, so in order to have more overtones to sing nice melodies, you can use different fundamentals and change them while singing.


Pardais

Fotografia de Gery Wibowo


Acordei com dois pardais dentro do quarto
se debatiam procurando o que não fosse vidro
radical em ser transparente e firme

eu causava sustos ao me aproximar
abri a janela
é o certo a se fazer com o que não se deixa tocar

no quintal caracóis imensos disputam
os restos de mamão que deitei aos passarinhos
bem cedo enquanto pedia beleza

suplicava por favor eu quero escutar
não é a primeira vez que numa ilha
meus ouvidos entopem

meu bisavô sofria do mesmo
não sei se ele escrevia, se visitava as ilhas
se perdeu como se perdem na terra

os homens têm tal mística com o mar
ser instável na sua regularidade
marulho salsugem saudade

entre as palavras que eu sei lembrar.
Júlia De Carvalho Hansen


sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Glotofobia*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Cada vez há mais chuis da linguagem a quererem prescrever quais são as palavras certas e quais são as palavras erradas, quais as obrigatórias, quais as proibidas.

Esta sanha começou nas universidades norte-americanas e espalhou-se como uma praga. Por cá, é o livrinho que tem “estereótipos de género” e é retirado do mercado, é a dita “linguagem inclusiva” que já saúda “as camaradas e os camarados”, é a “melga” que quer impedir que se chame “burro” a um bípede porque isso é ofender o quadrúpede, é...

O politicamente correcto é uma fábrica de ressentimento que produz flores de estufa, gente sempre ofendidinha, que não pode ouvir nada. Acaba de abrir mais uma frente censórica: inventou uma putativa “linguagem anti-animal”. A resposta nas redes sociais foi hilariante. Já há muito tempo que não se via tantos e tão inspirados textos e memes a cascar nestes chuis da linguagem.
Encontrada no Facebook sem indicação de autoria
Esta reacção foi muito boa. Quem ama a liberdade de expressão tem que meter juízo na cabeça destes censores que, com as suas manias, estão a saturar as pessoas e a criar o caldo de cultura em que medram boçais como Trump e Bolsonaro.

2. Há dois meses, em França, houve uma querela que passou das palavras para os sotaques. Uma jornalista de Toulouse fez uma pergunta a Jean-Luc Mélenchon e este, em vez de lhe responder, pôs-se a imitar o sotaque toulousiano dela.

Foi o bom e o bonito. O homem foi acusado de glotofobia, um conceito cunhado pelo professor Philippe Blanchet, em 2016, e que designa actos de “xenofobia” contra outras línguas ou contra determinados sotaques. Uma deputada de Macron quis logo acrescentar a glotofobia aos vinte e quatro casos de discriminação já listados no código penal. Foi ridicularizada em todos os sotaques franceses.

Portanto, já sabe, caro viseense: se um alfacinha o gozar por falar “achim”, não se amofine, ria-se dele, lembre-lhe que ele diz “abalha” e, na brincadeira, chame-o “glotofóbico”.

Número 5

Fotografia de Clem Onojeghuo



Dei um passo atrás
e vi pela primeira vez
o número da minha porta.
No passeio, olhando
o metal gasto do algarismo
que há vinte e seis anos
sei que existe,
pensei em recuar um pouco mais
para ver todas as coisas que habito
e não compreendo.
Mas três passos depois
do passeio
o trânsito automóvel
impedia a perspectiva
e a sabedoria.
Pedro Mexia


quinta-feira, 13 de dezembro de 2018

A alma do vinho

Fotografia de Serge Esteve



A alma do vinho assim cantava nas garrafas:
“Homem, ó deserdado amigo, eu te compus,
Nesta prisão de vidro e lacre em que me abafas,
Um cântico em que há só fraternidade e luz!

Bem sei quanto custou, na colina incendida,
De causticante sol, de suor e de labor,
Para fazer minha alma e engendrar minha vida;
mas eu não hei de ser ingrato e corruptor,

Porque eu sinto um prazer imenso quando baixo
À goela do homem que já trabalhou demais,
E seu peito abrasante é doce tumba que acho
Mais propícia ao prazer que as adegas glaciais.

Não ouves retinir a domingueira toada
E esperanças chalrar em meu seio febris?
Cotovelos na mesa e manga arregaçada;
Tu me hás de bendizer e tu serás feliz:

Hei de acender-te o olhar da esposa embevecida;
A teu filho farei voltar a força e a cor
E serrei para tão tenro atleta da vida
Como o óleo que os tendões enrija ao lutador.

Sobre ti tombarei, vegetal ambrosia,
Grão precioso que lança o eterno Semeador,
Para que enfim do nosso amor nasça a poesia
Que até Deus subirá como uma rara flor!”
Charles Baudelaire
Trad.: Guilherme de Almeida



quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Sardas*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 12 de Dezembro de 2008
     
1. Há coisa de uns vinte anos, li Jangada de Pedra, de José Saramago. A jangada de pedra de que fala o livro é a Península Ibérica que se separa do resto da Europa e se põe a navegar no Oceano Atlântico para cima, para baixo e para os lados, acabando por rumar ao terceiro mundo.
     
Jangada de Pedra é um livro com muita imaginação mas, infelizmente, de escrita baça e ideologia repulsiva. Com provável prejuízo meu, mas devo confessar que nem a posterior nobelização de Saramago me fez ler mais nada dele.
     
2. Está em exibição o filme Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles, baseado na novela homónima de José Saramago.
     
Ensaio Sobre a Cegueira é a mesma parábola que Jangada de Pedra. É Saramago a citar Saramago. Conta-nos que o homem, em condições limite, fica mau como as cobras.
     
O enredo é conhecido. De súbito, as pessoas começam a ficar cegas. Não há nenhum sintoma anterior ou explicação médica. Essa cegueira é infecciosa e contagia cada vez mais gente...
     
No desespero, as pessoas ficam lobas umas das outras e juntam-se em alcateias, enquanto os santos nas igrejas vendam os olhos (ou alguém lhos venda, o que dá no mesmo). Na luta pela sobrevivência, a dignidade humana vaporiza-se, e a vacilação moral torna-se uma arma de destruição maciça. No fim, até os que resistem justos e bons acabam por perceber que o poder é a ponta de uma arma.


Ensaio Sobre a Cegueira é um bom filme e a protagonista, a fabulosa Julianne Moore, tem um talento ainda mais lindo do que as suas sardas.
   
3. Uma velha anedota:    
Duas cabras encontram um filme à porta de um estúdio de Hollywood e fazem da película o seu almoço. 
«Então?», pergunta uma.   
«Muito melhor que o livro!», responde a outra.

O vento à superfície

Fotografia Olho de Gato



O vento à superfície
Deste oceano limpo
E a regra é tão simples:
Cada um tem de se deixar escolher.
Rui Almeida


terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Tenho-te um amor de mansidões



Cânticos

I

Tenho-te um amor de mansidões
rebanho lento e branco passeando na alvorada
tenho-te um amor tranquilo e trémulo
não se música ou se constelações

tenho-te um amor de eternidades
em vagas renascentes — brando som de flauta
chamando as superfícies distraídas
para a reconcentração definitiva

II

Como um ramo de húmidas rosas
quisera estar na sala em que respiras
o aroma de tuas primaveras
Como um cesto de frutos derramados
quisera ser a oferta abandonada
na mesa simples da tua eternidade

Dora Ferreira da Silva


segunda-feira, 10 de dezembro de 2018

Memória

Fotografia de Kal Loftus

Refulge por dentro o dezembrado verão na carne, a infância à baila, um salto [momento fotográfico] sobre a polpa das nuvens e a queda quase/quase livre não fosse o líquido assobio a emplumar o canto. Ainda que a manhã soletre a breve chuva, eu quero o céu um rosário de estrelas, infindo rosário de estrelas e sóis enrubescidos a esplender por sobre a lembrança do teu rosto, a grácil meninice esculpida, a máscara — quase — rosto que procuro na idade das estátuas derruídas. E assim, antes do embrumecer da vida, estendo-me sobre o varal do meio-dia, a carne bilando na língua do fogo e recolho dos relógios as horas enevoadas com a mesma mão secreta que rouba do tempo o objecto com que te estilizo na memória.
Álvaro Taruma



domingo, 9 de dezembro de 2018

A minha proposta

Fotografia de Ricardo Gomez Angel


A minha proposta reduz-se a isto
nem mais um aluno para os liceus
o verdadeiro ensino está na vida
da pá e pica aos moinhos de vento

que sensaboria a História Antiga
com os seus heróis e os seus reis
tanto estudante a fingir que estuda
e faltam braços para o pastoreio

as artes nobres: varrer sachar empar
e outras: bordar coser fazer renda
não tenho nada contra a poesia
mas é mais útil a limpeza a seco
Fernando Assis Pacheco