domingo, 22 de setembro de 2019

O testemunho dos olhos

Fotografia de Eugene Chystiakov



na garganta, sementeira de gargalhadas
mortas e de penas de aves migradoras.
pendente a cabeça passa sobre nuvens
e o torvelinho das vozes sufoca à nascença
o gesto ritual entre os vaga-lumes de nicotina.
é de noite: seja dia: tanta noite, tanto dia.
nas horas do néon a loura seara do corpo, o corpo
ágil, o corpo-desejo estreito, haurindo o sumo
das bocas ígneas de lábios sôfregos, circulares
diálogos estriados de paladares e sons, sede
de lábios no recesso da língua viajando
sensitivas eternidades, língua que resguarda
a voz do sono e as armas que sempre sobram
dos sonhos rebeldes.
perturbante humidade, que chove na rua incontida.
a música, pacific 231 de arthur honegger, toca.
as gatas dançam o ritual do cio e há algures
no espaço um sol que acende luas citrinas
e outro que é pela noite consumido.
a mulher desta gargalhada não existe.
afirmaria afinal a ausência do diálogo
em que apenas participam partículas de som
como campânulas iníquas, implosões de bramidos
e a distância (ab)surda de estar nos olhos fixos
no gume das baionetas vitoriosas, nas esquírolas
das palavras que génios-profetas eternizam.
só os olhares, o testemunho dos olhos
João Candeias





sábado, 21 de setembro de 2019

Junto ao coração esperam

Fotografia de Matei Marcu



Junto ao coração esperam
as filhas insanas do esquecimento.

Tão loucas através dos fios e dos tendões.

No seu perfil suado de lâminas, às vezes.
Pedro Gil-Pedro




sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Vem-lobo!*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Durante a silly-season deste ano, o comentariado luso atirou-se com fúria ao projecto de criação de um Centro Interpretativo do Estado Novo, em Santa Comba Dão.

Era muito fácil de prever. Uma semana antes de ter sido tornada pública a petição que abriu aquele circo mediático, já o autarca de Santa Comba Dão era avisado aqui, no Olho de Gato, que nenhum "fusível" podia "evitar fortes descargas eléctricas naquele simpático concelho onde nasceu um antipático ditador".

Aquela petição pôs as pessoas a assinar contra um "Museu Salazar" e não está previsto "Museu Salazar" nenhum. Como explicar tamanho logro? Terá sido má-fé? Incúria?

Não se sabe. Sabe-se é que um dos redactores da petição é "investigador" no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Bastava o homem ter telefonado aos responsáveis científicos do projecto, seus colegas do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da mesma universidade, para perceber que, ao contrário do que é mentido na petição, o que está para ali previsto será tudo menos "um instrumento ao serviço do branqueamento do regime fascista".

Esta inventona é mais um prego no caixão dos "antifascistas" profissionais que andam, há décadas, a gritar o seu "vem-lobo!" pífio.

2. Em 16 de Março de 2017, no Observador, José Carlos Fernandes, num excelente texto intitulado "Um mundo cheio de porcos fascistas?", analisa com profundidade esta tendência actual para ver fascismo em todo o lado.

Imagem daqui
O autor começa por lembrar que os muito sociáveis macacos-vervet vocalizam alarmes de perigo diferentes consoante o predador à vista é uma serpente, ou um leopardo ou uma águia.

Aqueles macacóides têm rigor semântico nos alarmes. Quando gritam "águia!" está mesmo perigo a vir do céu e o bando corre a abrigar-se.

Já nos humanóides, o grito "vem-lobo!", de tão gasto, não vai ser ouvido por ninguém quando houver mesmo um perigo real para a democracia.

Três teorias

Fotografia de Samuel Zeller

As nuvens desenham figuras.
O céu em volta das nuvens desenha figuras.
Os olhos desenham sempre figuras no céu.
Pedro Mexia


quinta-feira, 19 de setembro de 2019

O prestigitador organiza um espectáculo

Fotografia de Emiliano Vittoriosi



Há um piano carregado de músicas e um banco
há uma voz baixa, agradável, ao telefone
há retalhos de um roxo muito vivo, bocados de fitas de todas as cores
há pedaços de neve de cristas agudas semelhantes às das cristas de água, no mar
há uma cabeça de mulher coroada com o ouro torrencial da sua magnífica beleza
há o céu muito escuro
há os dois lutadores morenos e impacientes
há novos poetas sábios químicos físicos tirando os guardanapos do pão branco do espaço
há a armada que dança para o imperador detido de pés e mãos no seu palácio
há a minha alegria incomensurável
há o tufão que além disso matou treze pessoas em Kiu-Siu
há funcionários de rosto severo e a fazer perguntas em francês
há a morte dos outros ó minha vida
Mário Cesariny



quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Viriato*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 18 de Setembro de 2009 

Na Hispânia, as coisas continuavam acesas entre os romanos e os lusitanos. Guerras, saques, fome, miséria. Roma desesperava.
Faltavam ainda 150 anos para Jesus Cristo nascer quando o pretor Sérvio Sulpício Galba fez saber por toda a Lusitânia que iria distribuir terras novas e férteis. Juntaram trinta mil lusitanos em idade de pegar em armas e Galba, hábil tribuno, fez-lhes um discurso a anunciar leite e mel, jurando desejar respeitá-los e viver em paz com eles.

A seguir, Galba dividiu os lusitanos em três grupos a pretexto de assim ser mais fácil a distribuição das terras.

Depois, chegou-se ao primeiro grupo e pediu-lhes que entregassem as armas. «Entre amigos não há lugar para armas», disse. A seguir, encurralou-os numa cerca e mandou-os matar. Os lusitanos em vão lhe recordaram as juras de amizade e desesperaram daquela traição. Galba, implacável, fez também o mesmo ao segundo e ao terceiro grupo.

Foram assassinados nove mil lusitanos, vinte mil foram vendidos como escravos e mil escaparam. Um dos que escapou foi Viriato que nunca mais se esqueceria ou perdoaria a desonrosa conduta de Galba.

Viriato, a seguir, assumiu o comando da resistência dos lusitanos, instalando o seu refúgio no Monte de Vénus, actual Sierra de San Pedro, na província de Cáceres.

Esta é a principal tese de “Lusitanos no Tempo de Viriato”, de João Luís Inês Vaz, livro escrito com excelente sentido da narrativa e que se lê de um fôlego.

A pesquisa histórica de Inês Vaz desconecta Viriato de Viseu.

É assim: enquanto Almeida Fernandes “põe” D. Afonso Henriques em Viseu, Inês Vaz “tira” Viriato de Viseu.

Não me canso de repetir: não há nada mais instável que o passado.

Um melro no tempo

Fotografia de Erin Cho


Negro, anónimo, bravio,
demora-se por uns segundos apenas
(em voo é mais difícil de captar)
Na cerca de ferro forjado
Do jardim público.
Eu escuto-o, fico em suspenso. E confesso
que, lidos os mapas astrais
e os melhores tratados
de ornitologia,
continuo às cegas,
sem compreender porque me comove
tanto este assobio dilacerante.
Consegues ouvi-lo?
Sim. Canta como se tudo estivesse
no seu lugar, como se este
fosse o primeiro de todos os dias do mundo,
como se nada de mal nunca nos pudesse acontecer.
Luís Filipe Parrado



terça-feira, 17 de setembro de 2019

Orquídeas

Fotografia de Daniel Schludi


Foi um erro substituir
por orquídeas
as flores artificiais
no centro da mesa.
Exigem luz, cuidados,
uma humidade temperada.
Bem as conheço:
flores venenosas
donas de uma beleza gratuita.
Às outras bastava passar
o pano do pó às vezes,
nem olhava para elas,
para as suas folhas baças,
para os seus ramos secos de arame;
estas ensinam-me, com esplendor, a tua morte,
a ferida com que o mundo vai acabar.
Luís Filipe Parrado


segunda-feira, 16 de setembro de 2019

Maus fígados

Fotografia de Timothy Paul Smith



Uma espécie de lacre
sobre os olhos
como se o olhar
fosse uma carta
escrita pela morte
e palavras gangrenadas
inscrevendo-se-te na boca
como numa caverna.
O eco ressoando
em outros órgãos
por isso com maus fígados
os teus poemas
são úlceras na língua
do tamanho da dúvida
de S. Tomé.
Ana Paula Inácio


domingo, 15 de setembro de 2019

Resgate

Fotografa de Clement Souchet

A memória,
luz indecisa,
ignora ainda
o que deve
iluminar.
José Mário Silva



sábado, 14 de setembro de 2019

Dois e dois: quatro

Fotografia de Joel Mott


Como dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena
embora o pão seja caro
e a liberdade pequena

Como teus olhos são claros
e a tua pele, morena

como é azul o oceano
e a lagoa, serena

como um tempo de alegria
por trás do terror me acena

e a noite carrega o dia
no seu colo de açucena

- sei que dois e dois são quatro
sei que a vida vale a pena

mesmo que o pão seja caro
e a liberdade, pequena.
Ferreira Gullar



sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Sexta-feira 13*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Esta não é a primeira nem a segunda vez que brinco aqui com a sexta-feira-treze, dia do azar em que ninguém acredita, assim como ninguém acredita em bruxas, pero que las hay, las hay...

Os media e as redes sociais em dias como os de hoje enchem-se com as recomendações desazarosas do costume: não passar debaixo de uma escada, não abrir o guarda-chuva dentro de casa, pregar uma ferradura na porta, dar três pancadas na madeira, evitar os olhos amarelos dos gatos pretos. Pobres felinos tão lindos, os gatos pretos, difamados desta maneira.

Mas não há azar, é para nos rirmos uns com os outros, enquanto vão passando estes amáveis dias de Setembro.

2. Hoje, dia de azar, conforme bamboleiam os cartazes espalhados no Minho, o palco do Multiusos de Guimarães tem a sorte de contar com “Gipsy Kings BY Andre Reyes”. Traduzindo: “Gipsy Kings POR Andre Reyes”.

Amanhã, dia sem azar, conforme bailam os cartazes espalhados nas Beiras, o palco da Feira de S. Mateus vai ter a sorte de contar com “Gipsy Kings FEAT Andre Reyes”. Traduzindo: “Gipsy Kings COM A PARTICIPAÇÃO DE Andre Reyes”.

Esta publicidade diferente fez com que este jornal tivesse que fazer uma notícia a traduzir os cartazes. Deve dizer-se que o BY de Guimarães percebe-se melhor do que o FEAT de Viseu.

Enfim, importante mesmo é que os ritmos ciganos do “Bamboleo” façam “Volare” pessoas felizes pela feira fora. E que, com a participação de todos, haja muita diversão e alegria, ...
Fotografia Olho de Gato
... mesmo naqueles a quem a barraca da Sumol tapar a visão do palco. 

3. A câmara de Viseu já anunciou que, em 2020, a sua feira franca vai começar mais cedo, a 6 de Agosto, e, portanto, vai acabar também mais cedo, muito antes de 21 de Setembro, dia de S. Mateus, dia do santo que foi despejado da feira que foi sua durante mais de seiscentos e vinte anos.

Fica uma sugestão para o director daquele certame, o anglófono Jorge Sobrado — o melhor é, nos cartazes do próximo ano, escrever “Feira WITHOUT FEAT S. Mateus”.