How my heart behaves
Porque falta meia hora antes de tomar o comprimido para dormir, porque mesmo depois de tanto tempo fazes de mim o filho com síndroma de Down de Arthur Miller, porque escrever não é só abrir cabeças com o bisturi de Lacan, e porque um poema não é a Isabella Rossellini a chorar todos os sábados à noite, nem o casal encontrado abraçado na paralisia bucal do Vesúvio. Porque a poesia não é a ponte Mirabeau num cartaz de néon da adolescência, porque hoje, quando ligaste, era apenas porque te tinhas enganado no número, porque estou cansado, voilà, e não consigo evitar a noite, penso agora em ti, Juliana, heroína no sentido naturalista do termo, penso sobretudo no teu arzinho de provocação e de ataque. Podias ter sido a Maria Eduarda do cinema norte-americano, a rapariga que ajudou a pôr fim à guerra em Vietname, a Frida Kahlo e o Kofi Annan, a estátua de Notre Dame. O teu sentido reformista, o teu olhar de Eça socialista, cá está, tinhas cabeças para embaixadora da boa vontade, pés para andar...


