segunda-feira, 1 de junho de 2020

Uma criança disse

Fotografia de Larm Rmah


Uma criança disse:
"um anjo é uma gaivota."
"Um anjo é um homem como os outros: o que é tem asas."

E outras:
"Um anjo é um pássaro cantador."
"Um anjo é uma andorinha. Tem uma coroa."
"Um anjo é um homem que tem o sol pendurado atrás da cabeça."
E uma outra sonhou que tinha engolido o sol.

Crianças trespassadas pela sua própria exactidão.

Crianças são as letras antigas com que se escreve a única palavra insuportavelmente viva.

Crianças são o instante onde
as liras e os dedos são uma única rosa.
Herberto Helder

domingo, 31 de maio de 2020

White lies

Fotografia de Maurice Harris


The lies I could tell,
when I was growing up
light-bright, near-white,
high-yellow, red-boned
in a black place,
were just white lies.

I could easily tell the white folks
that we lived uptown,
not in that pink and green
shanty-fied shotgun section
along the tracks. I could act
like my homemade dresses
came straight out the window
of Maison Blanch. I could even
keep quiet, quiet as kept,
like the time a white girl said
(squeezing my hand), Now
we have three of us in this class.

But I paid for it every time
Mama found out.
She laid her hands on me,
then washed out my mouth
with Ivory soap. This
is to purify, she said,
and cleanse your lying tongue.
Believing her, I swallowed suds
thinking they'd work
from the inside out.
Natasha Trethewey



* Natasha Trethewey nasceu em 1966 em Gulfport, Mississippi, numa época em que o casamento interracial de seus pais era considerado crime naquele estado. No certificado de nascimento, no espaço destinado a ser preenchido com a raça da mãe, surge a expressão "colored", e no do pai, um americano branco nascido na Nova Escócia, surge a expressão "Canadian".

O poema "White Lies", de Natasha Trethewey - escritora que pertence à mais jovem geração de poetas norte-americanos, - plasma num tom inocente a atitude adolescente de uma rapariga mestiça, filha de pai branco e mãe negra, portanto, mas suficientemente clara para conseguir "passar por branca" numa sociedade subjugada pelo enorme peso do racismo.

sábado, 30 de maio de 2020

Monotarefas*

* Hoje no Jornal do Centro
Podcast aqui

1. Ainda Sócrates era primeiro-ministro, escrevi aqui um texto intitulado “Multitarefas”, em que defendi esta coisa muito simples — nós somos capazes de fazer várias coisas ao mesmo tempo.

Dei até exemplos: um homem apanhado no IP3 a 160 à hora e a fazer a barba; uma mulher a levantar dinheiro num multibanco, a comer um croissant e a falar ao telemóvel.

Naquele texto, a minha tese era que os eleitores não se baralhavam se tivessem de votar no mesmo dia várias eleições ou vários referendos (infelizmente a lei continua a não deixar que isso aconteça) e que os deputados, numa manhã, eram capazes de aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo (felizmente pouco depois foi legalizado) e ainda lhes sobrava o resto do dia para tratarem de outros assuntos.

Relido onze anos depois, percebo que aquele texto bem-humorado tinha alguns pés-de-barro. A capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo não é universal: as mulheres são multitarefas, os homens nem por isso. Pior: debaixo de muita pressão, viramos todos monotarefas, só conseguimos dar atenção a um, e só um, problema.

A peste é um bom exemplo desse afunilamento: os serviços de saúde em todo o mundo mobilizaram-se para o combate à Covid-19 e descuraram tudo o resto, o tratamento das doenças crónicas, até a vacinação das crianças.

Esta semana, na TVI, Pedro Santos Guerreiro lembrou mais um exemplo deste só-uma-coisa-de-cada-vez: em 15 e 16 de Outubro de 2017, o país foi varrido por um incêndio devastador; dois dias depois, foi consumada a venda do Novo Banco à Lone Star. O primeiro desastre, de tão violento, não deixou que déssemos a devida atenção ao segundo.


Fotografia daqui
2. Em Viseu, na Quinta da Cruz, está patente ao público uma exposição minimalista de Pedro Cabrita Reis, com néons e fios ao pendurão, designada I Dreamt Your House Was a Line.

Antes de a ter ido visitar, fiz uma navegação prévia na internet pelo universo mental que deu origem àquilo: pus-me a ver os tubos fluorescentes do genial artista norte-americano Dan Flavin.

Fiz mal. Devia ter trocado a ordem. Primeiro avia-se o mau e deixa-se o bom para o fim.

"And Now For Something Completely Different" (#264)

Norman Fucking Rockwell*

“Now that Doja Cat, Ariana, Camila, Cardi B, Kehlani and Nicki Minaj and Beyoncé have had number ones with songs about being sexy, wearing no clothes, fucking, cheating etc – can I please go back to singing about being embodied, feeling beautiful by being in love even if the relationship is not perfect, or dancing for money – or whatever I want – without being crucified or saying that I’m glamorising abuse??????”


Daqui

Goddamn, man-child
You fucked me so good that I almost said: I love you
You're fun, and you're wild
But you don't know the half of the shit that you put me through
Your poetry's bad, and you blame the news
But I can't change that, and I can't change your mood
Ah-ah

'Cause you're just a man
It's just what you do
Your head in your hands
As you color me blue
Yeah, you're just a man
All through and through
Your head in your hands
As you color me blue
Blue, blue, blue

Goddamn, man-child
You act like a kid even though you stand six foot two
Self-loathing poet, resident Laurel Canyon, know-it-all
You talk to the walls when the party gets bored of you
But I don't get bored, I just see you through
Why wait for the best when I could have you?
You

'Cause you’re just a man
It’s just what you do
Your head in your hands
As you color me blue
Yeah, you're just a man
All through and through
Your head in your hands
As you color me blue
Blue, blue
You make me blue

Blue, blue
Blue, blue, blue
Blue, blue, blue
Lana Del Rey



sexta-feira, 29 de maio de 2020

Comer a chuva



comer a chuva
com o estômago vazio
mais uma vez

pingo
a pingo
até sentir sede

correr ao relento
desafiando os resfriados
que chegam mais fácil
com o avanço dos anos

sentir o solo nu
nas solas nuas dos pés
plantar-se
sem deixar raízes

se acostumar com o silêncio
jamais acender as velas
ou os lampiões
não sorrir à toa
gastar as horas
contemplando o
pasto árido

o dia de amanhã
vai ser inédito
igual a todos os outros
que já vivemos
Camila Assad



quinta-feira, 28 de maio de 2020

Festas e bolos *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 28 de Maio de 2010


1. Em 30 de Novembro de 2001, o ministro da economia da Argentina, Domingo Cavallo, decretou o “corralito”, o congelamento das contas bancárias, o que fez alastrar o descontentamento a todo o país.


Fotografia e detalhes sobre o corralito aqui 
Multidões manifestaram-se batendo em panelas – protesto a que se chamou “cacerolazo”. Houve pilhagens e mortes. Cavallo foi o alvo de todas as fúrias. Nas manifestações havia sempre muitas pessoas com a máscara do ministro, máscara que na altura se vendia na Argentina tão bem como agora se vende a vuvuzela na Covilhã.

A 19 de Dezembro foi decretado o estado de sítio. Mal o presidente acabou de o anunciar, milhares de argentinos pegaram nas caçarolas e arrancaram para as ruas. Um dos alvos foi a casa do ministro que foi cercada. Conta-se que Domingo Cavallo conseguiu fugir de casa sem ser molestado pela multidão porque levava posta uma das populares máscaras de si próprio.

Lembrei-me desta história ao ouvir esta semana Vítor Constâncio nas televisões a falar de cortes nos salários. Falava, falava, e eu via Constâncio com a sua máscara posta - a máscara “Vítor-Constâncio-não-acerta-uma”.

2. Uma criatura de mãos ágeis apropria-se de uns gravadores que não são seus mas – atenção! – isso não é roubo, isso é "acção directa".

Durante quatro dias os aparelhos ficam na posse da criatura que, depois, os entrega num tribunal mas – atenção! - isso não é arrependimento, isso é "providência cautelar".

Passaram três semanas e o tribunal não devolve os gravadores aos legítimos donos mas – atenção! - isso não é "receptação", é a justiça portuguesa a funcionar.

3. É claro que é preciso urgentemente escrutínio democrático e oposição à câmara de Viseu.

Mas, pelos modos, tem que se dar mais um tempo à nova concelhia do PS para continuar com as suas “festas e bolos”.

One fine day

Detalhes aqui

Saw the wanderin’ eye, inside my heart
Shouts and battle cries, from every part
I can see those tears, every one is true
When the door appears, I’ll go right through, oh
I stand in liquid light, like everyone

I built my life with rhymes, to carry on
And it gives me hope, to see you there
The things I used to know, that one fine

One fine day

In a small dark room, where I will wait
Face to face I find, I contemplate
Even though a man is made of clay
Everything can change that one fine —

One fine day

Then before my eyes, is standing still
I beheld it there, a city on a hill
I complete my tasks, one by one
I remove my masks, when I am done

Then a peace of mind fell over me —
In these troubled times, I still can see
We can use the stars, to guide the way
It is not that far, the one fine —

One fine day
David Byrne and Brian Eno




quarta-feira, 27 de maio de 2020

Transformações

Daqui



Somos folhas breves onde dormem
aves de silêncio e solidão.

Somos só folhas ou o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.

Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.
Eugénio de Andrade


terça-feira, 26 de maio de 2020

Ó alegria! Outra via encontrei!



Não copiei nem pastei.
Falta-me o elemento ruminante
para digerir o pensamento,
a certeza intoxicante,
pronta a todo o momento
a fazer a sua lei.

Por vezes partilhei
o que lera de interessante.
Respondem-me num tormento,
ao título impressionante
acrescentando bom fermento
mas sem lerem o que comentei!

É verdade que me cansei
de responder a algo semelhante
a algorítmico jumento
produzindo a ritmo entediante
mal escrito excremento.
Para isso já dei...

Ó alegria! Outra via encontrei!
Descarreguei com desplante
o gatinho fofo e pulguento,
pompom de olhar rutilante!
Tão importante documento
copiei, pastei e o mundo responde: amei!
Artur Silva



segunda-feira, 25 de maio de 2020

É preciso não esquecer nada

Fotografia de  Michael Walk 

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de actos,
a ideia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos connosco, pois o resto não nos pertence.
Cecília Meireles


domingo, 24 de maio de 2020

"Cidade eu to chegando verônica"

Fotografia de Dave Goudreau 


​pode uma casa sentir ciúmes? pra sapho ter ciúmes é se aproximar de DEUS, o grande
ciumento, que quando vai ocupar o coração de alguém odeia quando já tem gente e expulsa
a própria pessoa como se ordenasse SAIA DE SI. uma casa finge barulhos pra fazer ciúmes
o porteiro do condomínio diz quando passamos de carro: escuto às vezes quando vocês
ficam um tempo sem aparecer um bebê chorando ou um jantar feliz em fa corto o porteiro,
preciso embarcar as 03:80 pra portugal não tenho tempo de lidar com uma casa ciumenta.
não mesmo. na edícula ninguém grita com ninguém, é só a casa exagerando de novo.
um menino com corte coco chanel não vai sair dali pra me ajudar com o casaco de meia
estaçao que é preciso para enfrentar a primavera portuguesa. eu to sozinha nessa. o que são
todos esses snacks enfiados nos compartimentos menores das malas? a casa voltou a
cozinhar? jogo tudo no chão, já disse que não gosto de picles no meu sanduíche. não
encontro o desodorante roll-on, vou sem mesmo. zelos em grego antigo significa: quero
empobrecer ao seu lado. o amor divino de uma casa te desafia a deixar tudo para trás