terça-feira, 24 de maio de 2022

Três meses de barbárie — Slava Ukraini!

 “Oi u luzi chervona kalyna” *
“The Red Viburnum in the Meadow” 



Detalhes aqui

* Written in 1914 by Stepan Charnetsky, this new arrangement by Mykola Deychakiwsky - Oy U Luzi Chervona Kalyna is deemed as Ukraine's 2nd National Anthem - everyone knows and sings it throughout the world.  

From the beginning of Ukraine's modern day fight for freedom as the young Sitchovy Striltsty (Ukraine's soldiers) sang this very song in 1917.  


Blues for a cat

Fotografia Olho de Gato



Ter nas pessoas
a confiança dos gatos,
que fecham os olhos
e esticam o pescoço,
na certeza do carinho.
Leila Miccolis


segunda-feira, 23 de maio de 2022

Não adianta estar no mais alto degrau da fama com a moral toda enterrada na lama


Lama

Pelo curto tempo que você sumiu
Nota-se aparentemente que você subiu
Mas o que eu soube a seu respeito
Me entristeceu, ouvi dizer
Que pra subir você desceu
Você desceu

Todo mundo quer subir
A concepção da vida admite
Ainda mais quando a subida
Tem o céu como limite

Por isso não adianta estar
No mais alto degrau da fama
Com a moral toda enterrada na lama
Mauro Duarte



sábado, 21 de maio de 2022

Lei de Godwin

* No Jornal do Centro — aqui

1. Foi já no longínquo ano de 1990 que o advogado Mike Godwin cunhou a seguinte lei da internet: “À medida que cresce uma discussão online, a probabilidade de surgir uma comparação envolvendo Adolf Hitler ou nazismo aproxima-se de um (100%).”

Deva-se acrescentar que, nos primeiros chats de discussão da internet e nos primórdios das redes sociais, era tudo menos bom ser apanhado a tropeçar na “lei de Godwin”, também conhecida como “lei das analogias nazis”. Quando alguém argumentava com um “ad-hitlerum”...

Daqui

... era como se tivesse atirado ao chão para um combate na lama — tinha perdido a discussão.


2. Ora, a partir de 2014, as coisas começaram a mudar. Fazer uma analogia nazi deixou de ser uma ferramenta de perdedores e o responsável disso foi o guru da comunicação de Putin, um génio chamado Vladislav Surkov.

Quando, na revolução de Maidan, a Ucrânia se decidiu aproximar do Ocidente e correr com Viktor Yanukovych, um pau-mandado dos russos, todas as plataformas comunicacionais do Kremlin passaram a espalhar o algoritmo “ucranianos = nazis”.

Isto é, passaram a usar a lei de Godwin e com sucesso. Apesar daquele carimbo ser uma mentirola flagrante — nas últimas legislativas, a Ucrânia só elegeu um deputado de extrema-direita num total de 450 —, essa mancha sobre aquele martirizado país espalhou-se no mundo e teve muito impacto nas direitas e nas esquerdas soberanistas do ocidente: veja-se o caso do partido de Marine Le Pen ou do nosso PCP, que Jerónimo de Sousa e os seus rapazes estão a transformar num repulsivo PZP.


3. Entretanto, a água correu debaixo das pontes do rio Dniepre durante oito anos e, como o cada vez mais sozinho Putin despediu Surkov, agora já não há ninguém capaz de refrescar a retórica russa. Aquilo, por lá, ficou parado no tempo. Aquela conversa tosca do “nazi-nazi-nazi” já não se fica só pelo país invadido e é aplicada a tudo o que mexe:

— “suecos nazis”, prantam eles em cartazes nas ruas de Moscovo;

— “a seguir à Ucrânia vamos desnazificar a Polónia”, ameaçam na televisão em horário nobre.

Em 2014, a Rússia venceu a batalha da comunicação. Agora, em 2022, é a Ucrânia que a está a ganhar.


sexta-feira, 20 de maio de 2022

O do amor

Fotografia Olho de Gato




Espaço sem portas, sem estradas, o do amor.
O primeiro desejo dos amantes é serem velhos amantes. 
 E começarem assim o amor pelo fim. 
Regina Guimarães


 

quinta-feira, 19 de maio de 2022

Quem viu morrer Catarina não perdoa a quem matou


 

Catarina Eufémia


Assassinada no Monte do Olival, em Baleizão, 

em 19 de Maio de 1954


O primeiro tema da reflexão grega é a justiça

E eu penso nesse instante em que ficaste exposta

Estavas grávida porém não recuaste

Porque a tua lição é esta: fazer frente

Pois não deste homem por ti

E não ficaste em casa a cozinhar intrigas

Segundo o antiquíssimo método oblíquo das mulheres

Nem usaste de manobra ou de calúnia

E não serviste apenas para chorar os mortos

Tinha chegado o tempo

Em que era preciso que alguém não recuasse

E a terra bebeu um sangue duas vezes puro

Porque eras a mulher e não somente a fêmea

Eras a inocência frontal que não recua

Antígona poisou a sua mão sobre o teu ombro no instante em que morreste

E a busca da justiça continua

Sophia de Mello Breyner Andresen



quarta-feira, 18 de maio de 2022

Merkollande*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 18 de Maio de 2012

     

1. François Hollande foi eleito a 6 e tomou posse a 15 de Maio. Cá, no ano passado, Cavaco Silva foi eleito a 23 de Janeiro e tomou posse a 9 de Março. Em França, 9 dias; em Portugal, 45. A terceira república portuguesa é muito mais nova do que a quinta república francesa mas está com um grau muito mais avançado de esclerose.    

O sistema político português tem prazos gongóricos que eternizam situações de bloqueio e de pântano, não permite várias eleições ou eleições e referendos no mesmo dia, é cada vez menos representativo, o voto em listas fechadas faz com que, no meio delas, sejam eleitas criaturas a quem nem os próprios vizinhos confiavam o condomínio.     

Caros António José Seguro e Pedro Passos Coelho, é agora o tempo de reformar a terceira república. É que pode não haver outra oportunidade — é muito provável que, nas próximas eleições, o bloco central deixe de ter os dois terços necessários para uma revisão constitucional.  

Podia-se começar, para já, pelas autarquias: há que acabar com os chamados “vereadores da oposição” — o trabalho mais absurdo da democracia portuguesa; há que acabar com o voto dos presidentes das juntas nas assembleias municipais; e há que transformar estas em verdadeiros órgãos de fiscalização do executivo municipal.

     

2. A eleição de Hollande não alterou nada de significativo. O novo presidente regressa ao gaullismo/miterrandismo, ao tradicional nariz empinado da política externa francesa, deixando de ser seguidista dos Estados Unidos como foi Sarko. Isso vai agradar aos BRICs, mas não vai fazer com que os países emergentes se tornem nem mais nem menos generosos ou complacentes com a dívida da “Europa”.    

No exacto dia em que tomou posse, o senhor Hollande lá foi, rápido como um raio, à senhora Merkel.

Adieu, Merkozy! 

Bienvenue, Merkollande!





terça-feira, 17 de maio de 2022

segunda-feira, 16 de maio de 2022

Outro mundo

Fotografia Olho de Gato

Grande descanso viera ao mundo se todos nos contentáramos com o possível, mas isto é querer outro mundo. 
D. Francisco Manuel de Melo, 
in Carta de Guia dos Casados


 

sábado, 14 de maio de 2022

Uma ideia cavernícola e Roe versus Wade*

* No Jornal do Centro — aqui

1. Esta semana, o país ficou espantado quando soube da intenção de penalizar a avaliação dos médicos de família cujas utentes fizessem interrupções voluntárias da gravidez (IVG). Perante a indignação geral, e ao retardador como é seu costume, a ministra da saúde lá acabou por perceber que tinha que abortar aquela ideia cavernícola. Antes assim. 

Esperemos que este episódio — cujas verdadeiras motivações não são, por enquanto, fáceis de perceber — não vá reabrir uma ferida que já estava mais do que sarada. 

É que, depois do referendo de 2007, a IVG passou a ser um não-assunto. Nos últimos quinze anos, nenhuma controvérsia, nenhum problema. As mulheres podem interromper uma gravidez não desejada até às dez semanas sem terem que dar satisfações a ninguém. Assim está a ser feito, assim deve continuar. 

2. Bem basta o que se passa no mundo. 

Há meio ano, em 6 de Novembro, contei aqui o martírio de Izabel, uma cabeleireira polaca, que morreu porque os médicos daquele país não lhe puderam fazer um aborto apesar do feto apresentar anomalias evidentes, porque se o fizessem arriscavam três anos de prisão. 

Na semana seguinte, foi a vez de escrever sobre o azar de Juliana, uma trabalhadora precária de uma cidadezinha do interior de S. Paulo, mãe de dois filhos, que, quando se viu grávida outra vez, tentou um aborto caseiro que correu mal e teve de acorrer ao hospital com dores horríveis e a perder sangue. Aí, Juliana foi denunciada por uma médica e a polícia entrou pela urgência dentro a ameaçá-la, sem respeito nenhum pelo sofrimento daquela desgraçada.

Daqui

Mesmo em países com boas políticas de saúde sexual e reprodutiva há sempre alguém a querer andar para trás, há sempre políticos a quererem mandar no corpo das mulheres. 

Um caso flagrante é os EUA, onde a direita conservadora, agora em  maioria no Supremo Tribunal, se prepara para anular a célebre decisão Roe versus Wade, de 22 de Janeiro de 1973, que legalizou o aborto.
Esta decisão de há meio século teve um enorme impacto demográfico, social, económico, sanitário, e ajudou a melhorar a vida de muitas milhões de mulheres no mundo. 

Um dos seus “efeitos colaterais” mais inesperados foi ter contribuído para a enormíssima queda da criminalidade que aconteceu nos Estados Unidos nos anos de 1990. Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner explicam isso em trinta bem fundamentadas páginas do seu Freakonomics, o Estranho Mundo da Economia. 

Escreveram eles: “nos princípio dos anos 90, ao mesmo tempo que a primeira coorte de crianças nascidas depois da sentença Roe versus Wade atingia o final da sua adolescência — a idade em que os jovens enveredam em pleno pelo crime — a taxa de criminalidade começou a cair. O que esta coorte não tinha no seu seio, porque não tinham chegado a nascer, eram, é claro, as crianças que tinham a maior probabilidade de se vir a tornar criminosas.” 

E mais directos ainda ao ponto: “a legalização do aborto conduziu a menos filhos não-desejados; e os filhos não-desejados levam a taxas de criminalidade elevada; foi desta forma que a legalização do aborto conduziu à existência de menos crimes.”