domingo, 19 de janeiro de 2020

O amor em visita [Herberto Helder 5]

Fotografia de Rowan Chestnut


Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra
e seu arbusto de sangue. Com ela
encantarei a noite.
Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher.
Seus ombros beijarei, a pedra pequena
do sorriso de um momento.
Mulher quase incriada, mas com a gravidade
de dois seios, com o peso lúbrico e triste
da boca. Seus ombros beijarei.

Cantar? Longamente cantar.
Uma mulher com quem beber e morrer.
Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave
o atravessar trespassada por um grito marítimo
e o pão for invadido pelas ondas -
seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes.
Ele - imagem vertiginosa e alta de um certo pensamento
de alegria e de impudor.
Seu corpo arderá para mim
sobre um lençol mordido por flores com água.

Em cada mulher existe uma morte silenciosa.
E enquanto o dorso imagina, sob os dedos,
os bordões da melodia,
a morte sobe pelos dedos, navega o sangue,
desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto.
- Oh cabra no vento e na urze, mulher nua sob
as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito,
mulher de pés no branco, transportadora
da morte e da alegria.

Dai-me uma mulher tão nova como a resina
e o cheiro da terra.
Com uma flecha em meu flanco, cantarei.
E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue,
cantarei seu sorriso ardendo,
suas mamas de pura substância,
a curva quente dos cabelos.
Beberei sua boca, para depois cantar a morte
e a alegria da morte.

Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro
pescoço de planta,
onde uma chama comece a florir o espírito.
À tona da sua face se moverão as águas,
dentro da sua face estará a pedra da noite.
- Então cantarei a exaltante alegria da morte.

Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela
despenhada de sua órbita viva.
- Porém, tu sempre me incendeias.
Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite
imagem pungente
com seu deus esmagado e ascendido.
- Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura.
Entontece meu hálito com a sombra,
tua boca penetra a minha voz como a espada
se perde no arco.
E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua
estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo
se desfibra - invento para ti a música, a loucura
e o mar.

Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso,
a inspiração.
E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa.
Vou para ti com a beleza oculta,
o corpo iluminado pelas luzes longas.
Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos
transfiguram-se, tuas mãos descobrem
a sombra da minha face. Agarro tua cabeça
áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou
aquilo que se espera para as coisas, para o tempo -
eu sou a beleza.
Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem
teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada
beleza.

Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti
que me vem o fogo.
Não há gesto ou verdade onde não dormissem
tua noite e loucura, não há vindima ou água
em que não estivesses pousando o silêncio criador.
Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos
originais.
Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra
a carne transcendente. E em ti
principiam o mar e o mundo.

Minha memória perde em sua espuma
o sinal e a vinha.
Plantas, bichos, águas cresceram como religião
sobre a vida - e eu nisso demorei
meu frágil instante. Porém
teu silêncio de fogo e leite repõe a força
maternal, e tudo circula entre teu sopro
e teu amor. As coisas nascem de ti
como as luas nascem dos campos fecundos,
os instantes começam da tua oferenda
como as guitarras tiram seu início da música nocturna.


Mais inocente que as árvores, mais vasta
que a pedra e a morte,
a carne cresce em seu espírito cego e abstracto,
tinge a aurora pobre,
insiste de violência a imobilidade aquática.
E os astros quebram-se em luz
sobre as casas, a cidade arrebata-se,
os bichos erguem seus olhos dementes,
arde a madeira - para que tudo cante
pelo teu poder fechado.
Com minha face cheia de teu espanto e beleza,
eu sei quanto és o íntimo pudor
e a água inicial de outros sentidos.

Começa o tempo onde a mulher começa,
é sua carne que do minuto obscuro e morto
se devolve à luz.
Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras
com uma imagem.
Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito
de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade
uma ideia de pedra e de brancura.
És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves,
que te alimentas de desejos puros.
E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola,
a sombra canta baixo.

Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua,
onde a beleza que transportas como um peso árduo
se quebra em glória junto ao meu flanco
martirizado e vivo.
- Para consagração da noite erguerei um violino,
beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada
darei minha voz confundida com a tua.
Oh teoria de instintos, dom de inocência,
taça para beber junto à perturbada intimidade
em que me acolhes.

Começa o tempo na insuportável ternura
com que te adivinho, o tempo onde
a vária dor envolve o barro e a estrela, onde
o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida
ingénua e cara, o que pressente o coração
engasta seu contorno de lume ao longe.
Bom será o tempo, bom será o espírito,
boa será nossa carne presa e morosa.
- Começa o tempo onde se une a vida
à nossa vida breve.

Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna
salina, imagem fechada em sua força e pungência.
E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado
em torno das violas, a morte que não beijo,
a erva incendiada que se derrama na íntima noite
- o que se perde de ti, minha voz o renova
num estilo de prata viva.

Quando o fruto empolga um instante a eternidade
inteira, eu estou no fruto como sol
e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada
matriz de sumo e vivo gosto.
- E as aves morrem para nós, os luminosos cálices
das nuvens florescem, a resina tinge
a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã.
E estás em mim como a flor na ideia
e o livro no espaço triste.

Se te aprendessem minhas mãos, forma do vento
a cevada pura, de ti viriam cheias
minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses
em minha espuma,
que frescura indecisa ficaria no meu sorriso?
- No entanto és tu que te moverás na matéria
da minha boca, e serás uma árvore
dormindo e acordando onde existe o meu sangue.

Beijar teus olhos será morrer pela esperança.
Ver no aro de fogo de uma entrega
tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus
será criar-te para luz dos meus pulsos e instante
do meu perpétuo instante.
- Eu devo rasgar minha face para que a tua face
se encha de um minuto sobrenatural,
devo murmurar cada coisa do mundo
até que sejas o incêndio da minha voz.

As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso
jovem da carne aspiram longamente
a nossa vida. As sombras que rodeiam
o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto
seu bárbaro fulgor, o rosto divino
impresso no lodo, a casa morta, a montanha
inspirada, o mar, os centauros
do crepúsculo
- aspiram longamente a nossa vida.

Por isso é que estamos morrendo na boca
um do outro. Por isso é que
nos desfazemos no arco do verão, no pensamento
da brisa, no sorriso, no peixe,
no cubo, no linho,
no mosto aberto
- no amor mais terrível do que a vida.

Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz
o perfume da tua noite.
Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua
e branca das mulheres. Correm em mim o lacre
e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca
ao círculo de meu ardente pensamento.
Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam
sobre o teu sorriso imenso.
Em cada espasmo eu morrerei contigo.

E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente
das urzes, um silêncio, uma palavra;
traz da montanha um pássaro de resina, uma lua
vermelha.
Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos,
casa de madeira do planalto,
rios imaginados,
espadas, danças, superstições, cânticos, coisas
maravilhosas da noite. Ó meu amor,
em cada espasmo eu morrerei contigo.

De meu recente coração a vida inteira sobe,
o povo renasce,
o tempo ganha a alma. Meu desejo devora
a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma
de crepúsculos e crateras.
Ó pensada corola de linho, mulher que a fome
encanta pela noite equilibrada, imponderável -
em cada espasmo eu morrerei contigo.

E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se
entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro
da tua entrega. Bichos inclinam-se
para dentro do sono, levantam-se rosas respirando
contra o ar. Tua voz canta
o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com
o lento desejo do teu corpo.
Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo
eu morrerei contigo.
Herberto Helder



sábado, 18 de janeiro de 2020

"And Now For Something Completely Different" (#252)

Juricema? Jupilene?
Ai, mas que nome...

A transgredir a linha fixa
Essa linha que era fixa e secular 

Tinha paixão? [Herberto Helder 4]

Fotografia de Patrick Brinksma


li algures que os gregos antigos não escreviam necrológios,
quando alguém morria perguntavam apenas:
tinha paixão?
quando alguém morre também eu quero saber da qualidade da sua paixão:
se tinha paixão pelas coisas gerais,
água,
música,
pelo talento de algumas palavras para se moverem no caos,
pelo corpo salvo dos seus precipícios com destino à glória,
paixão pela paixão,
tinha?
e então indago de mim se eu próprio tenho paixão,
se posso morrer gregamente,
que paixão?
os grandes animais selvagens extinguem-se na terra,
os grandes poemas desaparecem nas grandes línguas que desaparecem,
homens e mulheres perdem a aura
na usura,
na política,
no comércio,
na indústria,
dedos conexos, há dedos que se inspiram nos objectos à espera,
trémulos objectos entrando e saindo
dos dez tão poucos dedos para tantos
objectos do mundo
¿e o que há assim no mundo que responda à pergunta grega,
pode manter-se a paixão com fruta comida ainda viva,
e fazer depois com sal grosso uma canção curtida pelas cicatrizes,
palavra soprada a que forno com que fôlego,
que alguém perguntasse: tinha paixão?
afastem de mim a pimenta-do-reino, o gengibre, o cravo-da-índia,
ponham muito alto a música e que eu dance,
fluido, infindável,
apanhado por toda a luz antiga e moderna,
os cegos, os temperados, ah não, que ao menos me encontrasse a paixão e eu me perdesse nela,
a paixão grega
Herberto Helder




sexta-feira, 17 de janeiro de 2020

Gralhas*

* Hoje no Jornal do Centro

1. O senhor Google, que sabe tudo, informa-nos que a norma internacional ISO 8601 e a norma portuguesa NP EN 28601 mandam que escrevamos a data de hoje assim: 2020/01/17. Isto dizem as normas, mas o hábito e a rotina não querem saber e escrevem 17/01/2020, ou abreviam para 17/1/20.

A escrita de uma data, este quase não-assunto com que inicio este Olho de Gato, tem pelo menos dois “quês”:

— primeiro “quê”: datar 17/1/20 é um risco. Repare neste exemplo: é muito fácil tirar sete anos a 17/1/20, basta escrever um 13 à frente — 17/1/2013. Assim se subverte ou falsifica um documento em que a data seja importante;

— segundo “quê”: na semana passada, deixei passar uma gralha logo no início da crónica, quando escrevi “Durante 2009, começaram a cair 'alegadamentes', primeiro sobre o presidente da câmara de Tondela e, depois, em cima do de Viseu.” Foi uma asneira. Em 2009, José António Jesus e António Almeida Henriques ainda não eram presidentes de câmara. Devia ter escrito 2019. 

Este andar-para-trás dez anos não teve nada a ver com um engano comum nos primeiros dias de Janeiro, em que muitas vezes, distraídos, escrevemos os dígitos do ano anterior, este flashback foi mesmo um falhanço inexplicável.

Enfim, o PAN pode ficar descansado, por mais energia que se gaste a catar gralhas, há sempre alguns deste bichos que sobrevivem.


Fotografia Olho de Gato
2. A plataforma “Já Marchavas”, um dos heterónimos do Bloco de Esquerda de Viseu, informou no seu site que andou a colocar nalgumas estátuas da cidade “mensagens de repúdio à violência que vitimou o [cabo-verdiano] Giovani”.

A “Já Marchavas”, apesar de confessar não saber “se o facto da vítima ser racializada inferiu na brutalidade das agressões”, mesmo assim, pôs um cartaz na estátua de Camões a dizer: “Giovani — Tristes Brancos Costumes”.

Aquela “racializada” é um eufemismo muito usado pelos identitários que vêem cores de pele onde há pessoas. Aquele “inferiu” é uma gralha, acontece a todos. Já aquele cartaz é mesmo um nojo racista.

Aos amigos [Herberto Helder 3]

Fotografia de Papaioannou Kostas

Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
-Temos um talento doloroso e obscuro.
construímos um lugar de silêncio.
De paixão.
Herberto Helder


quinta-feira, 16 de janeiro de 2020

Estende a tua mão contra a minha boca [Herberto Helder 2]

Fotografia de Gabriel Matula

estende a tua mão contra a minha boca,
e sente como respiro contra ela,
e sem que eu nada diga,
sente a trémula, tocada coluna de ar
a sorvo e sopro,
ó
táctil, ininterrupta,
e a tua mão sinta contra mim
quanto aumenta o mundo

*****
sou eu que te abro pela boca,
boca com boca,
metido em ti o sopro até raiar-te a cara,
até que o meu soluço obscuro te cruze toda,
amo-te como se aprendesse desde não sei que morte,
ainda que doa o mundo,
a alegria
Herberto Helder


quarta-feira, 15 de janeiro de 2020

Ou sim ou sopas*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 15 de Janeiro de 2010.

Na última sexta-feira reuniu-se em sessão extraordinária a assembleia municipal de Viseu. Coisa grave e extraordinária.
Assunto em debate: “universidade pública – ou sim ou sopas”.


Fotografia Olho de Gato
Ou “sim” do ministro das universidades ou “sopas” em grandiosa manifestação promovida por Fernando Ruas.

Eis como foi pensada a coisa: ou o ministro diz sim à universidade de Viseu ou o povo manifesta-se com pancartas e palavras de ordem na Praça da República, no ano do centenário da dita. Depois, em sequência e consequência, o ministro Mariano Gago, movido e comovido por toda esta dinâmica conceptual, acabará por abjurar a sua anterior abjuração – e dizer sim à universidade viseense.

Pelo que se percebeu, este foi o plano para aquela extraordinária assembleia municipal extraordinária de 8 de Janeiro.

Nela, depois de horas de debate, depois de laboriosas negociações em que Correia de Campos esvoaçou de nenúfar em nenúfar e António Joaquim Almeida Henriques, já a pensar em 2013, começou a descolar de Fernando Ruas, a assembleia municipal de Viseu lá acertou o texto de uma moção, provavelmente a ducentésima vigésima quarta moção sobre o assunto.

Desta feita, na dita moção pede-se uma “task force” e que essa “task force” faça acontecer num “curto prazo” algo à universidade pública de Viseu.

Saiu, portanto, uma coisa entre o “sim” e as “sopas”: saiu uma “task force”. Porém – espera-se… – uma “task force” extraordinária.

Houve dez deputados municipais que se abstiveram na votação deste manicómio.

Ah!, é verdade!, tudo isto na semana em que o ministro das obras públicas António Mendonça anunciou que todas as SCUTs vão ter portagens. Portanto também as “nossas” auto-estradas, a A24 e a A25.

Se houvesse degraus na terra [Herberto Helder 1]

Fotografia de Tim Marshall


Se houvesse degraus na terra e tivesse anéis o céu,
eu subiria os degraus e aos anéis me prenderia.
No céu podia tecer uma nuvem toda negra.
E que nevasse, e chovesse, e houvesse luz nas montanhas,
e à porta do meu amor o ouro se acumulasse.

Beijei uma boca vermelha e a minha boca tingiu-se,
levei um lenço à boca e o lenço fez-se vermelho.
Fui lavá-lo na ribeira e a água tornou-se rubra,
e a fímbria do mar, e o meio do mar,
e vermelhas se volveram as asas da águia
que desceu para beber,
e metade do sol e a lua inteira se tornaram vermelhas.

Maldito seja quem atirou uma maçã para o outro mundo.
Uma maçã, uma mantilha de ouro e uma espada de prata.
Correram os rapazes à procura da espada,
e as raparigas correram à procura da mantilha,
e correram, correram as crianças à procura da maçã.
Herberto Helder









terça-feira, 14 de janeiro de 2020

January

Fotografia de Mohit Tomar



Children’s fingerprints
On a frozen window
Of a small schoolhouse.

An empire, I read somewhere,
Maintains itself through
The cruelty of its prisons.
Charles Simic



segunda-feira, 13 de janeiro de 2020

Baby, It's Cold Outside*





Every line in the song features a statement from the guest followed by a response from the host. While both the Wolf and the Mouse want the night to continue, the Mouse says they "ought to say no, no, no, sir" and return home, because of what family and neighbors will think.


* Os primeiros 2'27'' do primeiro vídeo podem sobressaltar algum puritanismo politicamente correcto








* Since 2009, the song has faced some criticism for the presumed implications of its lyrics as depicting sexual assault or harassment. 

In 2018, the airing of the song was cancelled by a number of radio stations, such as the Canadian Broadcasting Corporation's streaming service, due to some listeners' concerns about the lyrics, but later reinstated it after public backlash.

domingo, 12 de janeiro de 2020

Sound of the axe




Once a woman went into the woods.
The birds were silent. Why? she said.
Thunder, they told her,
thunder is coming.
She walked on, and the trees were dark
and rustled their leaves. Why? she said.
The great storm, they told her,
the great storm is coming.
She came to the river, it rushed by
without reply, she crossed the bridge,
she began to climb
up to the ridge where grey rocks
bleached themselves, waiting
for crack of doom,
and the hermit
had his hut, the wise man
who had lived since time began.
When she came to the hut
there was no one.
But she heard his axe.
She heard
the listening forest.
She dared not follow the sound
of the axe. Was it
the world-tree he was felling?
Was this the day?
Denise Levertov