sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

O comboio*

* Hoje no Jornal do Centro

1. No início deste mês, Lídia Jorge, na sua crónica semanal na Antena 2, contou um episódio observado por ela numa estação de comboios alfacinha. Vou tentar reproduzi-lo aqui de memória, especialmente os signos étnicos que polvilham o seu texto.
Fotografia de Alex Wendpap
Enquanto esperava pelo Alfa, a escritora deu conta que uma rapariga “africana”, com uma grande e pesada mala, andava meio perdida e foi pedir informações a um homem “celta”.

O interpelado, um sexagenário de “pele branca”, ajudou logo a rapariga com um sorriso: «vais para o cais número quatro e esperas que chegue um comboio azul...»

Pouco tempo depois, com o estrépito do costume, chegaram àquela estação, quase em simultâneo, dois comboios e a rapariga “africana”, imediatamente, começou a arrastar a mala para um deles.

Mal o “celta” percebeu que ela ia entrar no comboio errado, abandonou os seus pertences, correu ao seu encontro, alombou ele com a bagagem e foi pô-las, à mala e à rapariga “africana”, no comboio certo para o destino certo.

Depois, o homem entrou no Alfa, para o mesmo compartimento de Lídia Jorge. Esta, testemunha e narradora aos microfones da Antena 2 deste gesto simpático e solidário, em vez de o louvar, preferiu apelidar aquele cidadão de “olhos azuis” de racista porque tratou a rapariga por tu. Em tempos de antanho, lembrou a escritora, os senhores é que faziam questão de tutear as suas escravas.

2. Discursos como este sobre “a culpa do homem branco” são muito comuns agora. Como descreveu o deputado socialista Sérgio Sousa Pinto, neste “país exasperado da sua pobreza ancestral, que atravessa séculos e regimes”, temos agora um coro de intelectuais e políticos a querer “transmutar o povo sofrido em colonizador, racista, privilegiado, preconceituoso, heteropatriarcal e xenófobo”.

Esse coro quer meter à força o nosso desgraçado povo no comboio do ressentimento e do revisionismo histórico. Isso é muito injusto. E estúpido. Pelo menos tão estúpido como chamar racista àquele homem prestável da estação.

Dai-me hũa lei, Senhora, de querer-vos

Fotografia de Klara Kulikova


Dai-me hũa lei, Senhora, de querer-vos,
Porque a guarde sob pena de enojar-vos;
Pois a fé que me obriga a tanto amar-vos
Fara que fique em lei de obedecer-vos.

Tudo me defendei, senão só ver-vos
E dentro na minha alma contemplar-vos;
Que se assi não chegar a contentar-vos,
Ao menos nunca chegue a aborrecer-vos.

E se essa condição cruel e esquiva
Que me deis lei de vida não consente,
Dai-ma, Senhora, ja, seja de morte.

Se nem essa me dais, he bem que viva,
Sem saber como vivo, tristemente;
Mas contente estarei com minha sorte.
Luís Vaz de Camões


quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Íamos com fome para a escola [Maria do Rosário Pedreira 6]

Fotografia de Annie Spratt

Íamos com fome para a escola
onde aprendíamos contas de somar
o meu irmão dizia que somar era coisa de sonho
juntar às gemas açúcar e manteiga
e no fim a farinha e as claras em neve 
e ver crescer o bolo da porta do forno
e desenformá-lo ainda quente
com cheiro a bom
e dar uma fatia a toda a gente
mas depois recusava-se a fazer contas de menos
explicando que à miséria
já não se podia tirar fosse o que fosse
(...)

Leitura integral do poema, 
por Maria do Rosário Pereira, aqui





quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

O ovo da serpente*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 11 de Dezembro de 2009 



1. A eleição de Barack Obama encheu o mundo de esperança. Só que Obama ainda não teve tempo para respirar. São sarilhos e mais sarilhos. A economia americana avariou, o dólar está a afundar-se e o SNS americano é um parto dificílimo.

O ”american way of life” quer pôr-se outra vez nos carris. Não se vê como. Esta semana, Fareed Zakaria no Washington Post sintetizou: 
“Obama está à procura de uma política pós-imperial no meio de uma crise imperial”.

A 1 de Dezembro, na academia de West Point, Barack fez um discurso sobre a situação militar. Aí, mais uma vez, explicou que é no Afeganistão e no Paquistão que está o ovo da serpente fundamentalista e procurá-lo no Iraque foi um desfoque estratégico.

Esse discurso foi ouvido e discutido em todo o mundo. Em Portugal, infelizmente, não se deu conta de nenhum debate sobre o assunto.



Obama anunciou o envio de mais 30 mil soldados e afirmou que as tropas vão começar a regressar à América daqui a 18 meses.

Percebe-se a motivação estratégica que fez Barack ter já triplicado a presença militar americana no Afeganistão. Já este anúncio de prazo de retirada é um erro difícil de perceber.

Os afegãos não se vão pôr ao lado do corrupto presidente Hamid Karzai sabendo que os americanos se vão embora.

Por sua vez, os talibans e a al-Qaeda só têm que fazer como as cobras durante o inverno e meterem-se mais uns tempos debaixo dos calhaus.

2. Pergunta: qual era o pior emprego em Viseu no séc. XVI?

Resposta: carcereiro. Se algum preso fugisse, era o carcereiro que tinha de cumprir a pena.

Aprendi isso em “A Cidade de Viseu no Século XVI”, de Liliana Castilho, um livro acabado de editar pela Arquehoje. Leitura boa, instrutiva e acessível mesmo a não especialistas.

Ao sair esta tarde do teu quarto [Maria do Rosário Pedreira 5]

Fotografia de Sydney Sims



Ao sair esta tarde do teu quarto com a lentidão
de um rio sob a ponte e a boca triste a retalhar-lhe
o rosto, esse homem a quem tu chamas médico
(mas que é, na verdade, um mago que lê nas veias e
adivinha o futuro) encostou a porta devagar; e disse
depois muito depressa — como uma faca que se risse
num corpo ou um ponto de luz que se apagasse
no céu — que afinal já não irias ter tempo para ver
os frutos derramarem-se das árvores deste verão,
nem os barcos que fendem o mar quando se cruzam
com o crepúsculo, nem sequer o mosteiro onde,
se fosses crente, mandavas rezar missa pela tua mãe.

Se as lágrimas não me tivessem então estremecido
nos olhos e um vento glacial não desenhasse de repente
as formas do meu corpo no vestido (e isso, não sei porquê,
me intimidasse), ter-lhe-ia respondido que se enganara:
porque era eu quem não teria já tempo para salvar-te,
era eu quem morrera com a pancada seca da verdade.
Maria do Rosário Pedreira


terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Ainda bem [Maria do Rosário Pedreira 4]

Histórias Que Dão Para Ver, Teatro do Montemuro, texto de João Luís Oliva

Fotografia Olho de Gato
Nelas, 9/11/2019



Ainda bem
que não morri de todas as vezes que
quis morrer — que não saltei da ponte,
nem enchi os pulsos de sangue, nem
me deitei à linha, lá longe. Ainda bem

que não atei a corda à viga do tecto, nem
comprei na farmácia, com receita fingida,
uma dose de sono eterno. Ainda bem

que tive medo: das facas, das alturas, mas
sobretudo de não morrer completamente
e ficar para aí — ainda mais perdida do que
antes — a olhar sem ver. Ainda bem

que o tecto foi sempre demasiado alto e
eu ridiculamente pequena para a morte.

Se tivesse morrido de uma dessas vezes,
não ouviria agora a tua voz a chamar-me,
enquanto escrevo este poema, que pode
não parecer — mas é — um poema de amor.
Maria do Rosário Pedreira




segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Os seus vestidos pretos fechados [Maria do Rosário Pedreira 3]

Fotografia de Ali Gandomi



Os seus vestidos pretos fechados
no armário lançam uma sombra
funesta nos meus dias. A sua voz
eterna na fita do telefone é outro
espinho cravado no meu silêncio.
Roubei-lhe, sem saber, todas as

palavras que te disse — porque,
num beijo meu, são ainda os seus
lábios que procuras, é dela o corpo
que abraças quando me abraças.

Se adormecer ao teu lado mais
esta noite, sei que os seus olhos
hão-de pousar gelados nas minhas
pálpebras, roubando-me a secreta

ilusão desse repouso. E amanhã,
se por acaso saíres antes de mim,
vão esses olhos perseguir-me pelos
corredores, como a expulsar-me

para sempre desta casa. O tempo
é implacável com quem aguarda
em segredo o esquecimento de
uma morte. Deixa-me, por isso,

aguardá-lo contigo; e, entretanto,
basta que me mintas, sim, mente,
mas nunca me digas o seu nome.
Maria do Rosário Pedreira



domingo, 8 de dezembro de 2019

De que me serviu ir correr mundo? [Maria do Rosário Pedreira 2]

Fotografia de Kyle Broad

De que me serviu ir correr mundo,
arrastar, de cidade em cidade, um amor
que pesava mais do que mil malas; mostrar
a mil homens o teu nome escrito em mil
alfabetos e uma estampa do teu rosto
que eu julgava feliz? De que me serviu

recusar esses mil homens, e os outros mil
que fizeram de tudo para eu parar, mil
vezes me penteando as pregas do vestido
cansado de viagens, ou dizendo o seu nome
tão bonito em mil línguas que eu nunca
entenderia? Porque era apenas atrás de ti

que eu corria o mundo, era com a tua voz
nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo
do amor de cidade em cidade, o teu nome
nos meus lábios de cidade em cidade, o teu
rosto nos meus olhos durante toda a viagem,

mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.
Maria do Rosário Pedreira


sábado, 7 de dezembro de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#246)

The testosterone sound

First comment on the video: 
"So that's what 12 testicles sounds like"

Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim [Maria do Rosário Pedreira 1]

Fotografia de Yoann Boyer

Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi
verdade — que não amei ninguém depois de ti nem
o meu corpo procurou nunca mais outro incêndio
que não fosse a memória de um instante junto
do teu corpo; e que deixei de ler quando partiste
por não suportar as palavras maiores longe da tua boca;
e que tranquei os livros na despensa e tranquei a despensa,
acreditando que, se não me alimentasse, acabaria
por sofrer de uma doença menor do que a saudade, mas
a que os outros, pelo menos, não chamariam loucura.

Se alguém me perguntar, direi que foi assim, e não de
outra maneira, como alguns parecem supor — que permiti,
bem sei, que outros homens me amassem e me aquecessem
a cama, mas em troca lhes dei apenas um nome diferente
do que tinham e os vi partir desesperados a meio
da noite sem sentir maior dor que a de saber que, afinal,
também eles não existiam para além de ti; e que no dia
seguinte dava comigo a trautear sem querer essa canção
que amavas (como se ela, sim, se tivesse deitado
no meu ouvido), mas que a sua melodia, em vez
de me alegrar como antes, me escurecia mais a vida.

Se alguém me perguntar, nada desmentirei, nem negarei
que os frutos todos que me deram a provar na tua ausência
me pareceram demasiado azedos ao pé dos que explodiam
em sumo nos teus lábios; e que, por isso, nunca mais quis
um beijo de ninguém, nem sequer inocente, e não voltei
também a aceitar as flores que me traziam por me lembrar
que, em mãos assim, tão grandes para o afecto, o seu
perfume anunciava invariavelmente a chegada do outono.

E contarei por fim, se alguém quiser saber, que o teu silêncio
foi de tal densidade, de tal espessura, que não consegui
escutar nenhuma das vozes que vieram depois de ti e, pior
do que isso, me esqueci com indiferença das mais antigas,
pelo que as minhas noites se tornaram uma tão longa
e solitária travessia que ainda esta manhã acordei ao lado
da tua sombra e respondi baixinho, mesmo sem ninguém
me perguntar, que há coisas que uma mala nunca leva.
Maria do Rosário Pedreira


sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Circo — episódio 2*

* Hoje no Jornal do Centro

1. António Costa acaba de nos confrontar com um “déjà vu”: espalhou três secretarias de estado pelo território, uma em Castelo Branco, outra em Bragança e outra na Guarda.

Ora, no tempo do governo de Pedro Santana Lopes já tinha havido o mesmo filme, ...
Fotografia daqui
... o que motivou um Olho de Gato, em 30 de Julho de 2004, intitulado “Circo”.

Perante a repetição, o melhor é ser ecológico, poupar energia, e transcrever para aqui, no ponto seguinte, exactaqualmente o texto de há quinze anos.

2. Pedro Santana Lopes espalhou seis Secretarias de Estado por seis cidades do país. Alguns tenores da direita chamam a esta medida descentralização, outros chamam-lhe desconcentração. Dizer isto é um erro de palmatória. Não se descentraliza nada quando se alugam uns escritórios em Braga ou em Évora ou em Santarém; anima-se é um bocadinho o mercado imobiliário local.

Descentralizar é passar competências e recursos para quem está mais perto dos problemas das populações, por exemplo para as autarquias. Descentralizar não é mandar uns figurões de fatos e carros escuros para mais perto dos indígenas.

Espalhar membros do governo pelo país não é, tão pouco, desconcentrar. Desconcentrar é passar competências e recursos dos serviços centrais para os serviços periféricos do Estado, por exemplo para direcções regionais ou distritais ou concelhias.

Mandar para a província uns figurões de fatos e carros escuros, mais o seu séquito, não serve para nada: só vai atrapalhar o tráfego.

Mas se isto não é descentralizar, se isto não é desconcentrar, então o que é isto? A resposta é fácil: isto é circo.

Vai haver mais nos próximos tempos.

3. Como se sabe, meses depois, o menino guerreiro e o seu circo foram despedidos, com justa causa, por Jorge Sampaio.

Já a geringonça #2, por mais circo que faça, antes de 2021 não vai ter problemas com o presidente Marcelo. Este quer o apoio do PS para a sua reeleição. E está mais para isso do que outra coisa.

Black coffee

Fotografia de Radu Florin



I'm feeling mighty lonesome
Haven't slept a week
I walk the floor and watch that door
And in between I drink
Black coffee
Love's a hand me down brew
I've never know a Sunday
In this weekday room

I'm talking to the shadows
from 1 o'clock til 4
And lord, how slow the moments go
When all I do is pour
Black coffee
Since the blues caught my eye
I'm hanging out on Monday
My Sunday dreams to dry

Now a man is born to go a lovin'
A woman's born to weep and fret
To stay at home and tend her oven
And drown her past regrets
In coffee and cigarettes

I'm moaning all the morning
and mourning all the night
And in between it's nicotine
And not much heart to fight
Black coffee
Feelin' low as the ground
It's driving me crazy just waiting for my baby
To maybe come around...