A lua e Marilyn
Tinha duas faces como a lua Uma que toda a gente conhece e outra (a que nunca se vê, a que não reflecte o sol) e que ninguém (ou quase ninguém) está interessado em conhecer É esse o teu lado que me fascina que sempre me fascinou Pousavas sobre as coisas (uma bicicleta, os lábios de Yves Montand) como uma borboleta e não pesavas mais do que isso e o écran ficava amarelo quando te punhas a sacudir o pólen que trazias agarrado nas mãos Eu que sempre gostei de ir ao fundo de tudo (e acabo por me ficar pela superfície de tudo) custa-me a entender como é que tu ao passares a língua pela casca de um fruto carnudo lhe ficavas logo a conhecer o sabor ácido da polpa 90-60-90… São essas rigorosamente as medidas do universo em que te movias as medidas do pesadelo que faz com que de manhã o céu acorde com olheiras enormes e eu todo partido como se tivesse levado uma grande surra Vejo-te a navegar num mar onde milhares de homens desaguam desesperadamente O mar está encapelado Nem me dou conta que es...

