sábado, 19 de junho de 2021

Algoritmos*

* No Jornal do Centro aqui

1. O filme “Nas Nuvens”, realizado por Jason Reitman e protagonizado por George Clooney, foi lançado nos Estados Unidos nos finais de 2009 e estreou em todo o mundo no início de 2010. 

Clooney faz o papel de um viciado em viagens de avião, um homem que anda literalmente “Up in the air” (o título original do filme) a despedir pessoas. É um despedidor activíssimo. Que poupa aos patrões o melindre de terem de dizer, olhos nos olhos, a um seu empregado: «não preciso mais de si!» 

Clooney é um bom actor. Se o papel é para ser frio como uma pedra, ele vira calhau de gelo, ele usa o catálogo completo dos eufemismos para aquela situação, ele doura por completo aquela pílula amargosa. As várias cenas de despedimento do filme têm uma dose de realismo extra: foram rodadas com pessoas que tinham acabado de viver na pele aquela situação por causa da crise financeira do subprime.

A história dá muitas voltas. A certa altura, aparece uma tecnocrata ainda mais glacial do que Clooney, que vai abanar os fundamentos da vida dele. Ela quer impessoalizar ainda mais os despedimentos, quer que eles passem a ser feitos por vídeo-conferência. A mulher é uma visionária: já sonhava com o “Zoom” muito antes da Covid. 

Vi o filme na altura da estreia, já não me lembro se aquele gelo entre os dois foi derretido na cama, nem importa muito para o caso. Fiquemos neste ponto: o despedidor-mor em risco de ser despedido por causa de um avanço tecnológico.

2. Os despedimentos da TAP foram entregues a uma empresa norte-americana, a Boston Consulting Group, que desenvolveu um algoritmo que “inputa” os parâmetros “produtividade, absentismo, experiência, contributo, custo e habilitações” de cada um dos trabalhadores e “outputa” quem continua a voar e quem é ejectado daquela companhia aérea.

O ministro Pedro Nuno Santos afirma que este “é um método que garante maior imparcialidade na gestão desse processo”. Por sua vez, os sindicalistas vêem nele “uma artimanha inventada pelas consultoras e advogados de turno”.

Dá para perceber a evolução dos tempos. Agora, empregos “nas nuvens” como o de Clooney já não há. Agora, os “algoritmos” fazem esse trabalho sujo. É o chamado “progresso”. Que o ministro prefere. Não o reprovo por isso. Ser ludista não adianta, não é solução.

Contudo, progresso a sério, progresso dos bons será quando houver um “algoritmo” que despeça a chamada “grande advocacia de negócios”, esse cancro rentista que está sempre presente em todos os negócios do estado. Que factura sempre com todos os nossos desastres financeiros e, portanto, também no buraco sem fundo chamado TAP.

3. Como se sabe, o candidato socialista à câmara de Viseu está internado com problemas cardíacos.

Caro João Azevedo, força! As melhores melhoras. Completas e rápidas. Saúde primeiro. Política depois.

"And Now For Something Completely Different" (#273)

Frank Zappa's advice to young musicians


 

sexta-feira, 18 de junho de 2021

Ardem inteiras

Fotografia de Damir Babacic



Ardem inteiras
como um edema metalúrgico
como poços de força

e de compaixão, nada
se sabe do homem que enxugou
a luz sob as artérias
negras do fogo

e os alicerces da pedra.

mas nos dedos
que arrefecem sobre o tear

há-de repousar o sangue
mais antigo de que há memória:

para que ninguém sobreviva ao perdão.
Pedro Gil-Pedro



quinta-feira, 17 de junho de 2021

Primazia e recência*

Texto publicado há exactamente dez anos no Jornal do Centro, em 17 de Junho de 2011

    

Imagine um inquérito em que pergunta às pessoas: “o que mais gosta de Viseu?” e que, a seguir, dá uma lista com dez hipóteses de resposta a essa pergunta tão importante.      

Daqui

Imagine ainda que esse inquérito consegue um número suficiente de respostas de uma amostra bem estratificada por idade, habilitações académicas, sexo, residência, ...

Parabéns! Você é um cientista social, está pronto para ir tirar uma pós-graduação a qualquer lado. Por exemplo, a Paris.     

Passe agora à fase seguinte: estudo das respostas, tratamento matemático e conclusões.     

Ups! Viu o que lhe aconteceu? A grande maioria das pessoas ou escolheu as duas primeiras opções ou as duas últimas. Está admirado? Pois não devia estar: proporcionar uma lista tão grande de respostas possíveis causa efeitos indesejáveis.    

Há inquiridos que lêem as primeiras hipóteses, optam por uma delas, e já não querem saber das seguintes — chama-se a isso “efeito de primazia”.     

Outros lêem as opções todas mas, chegados ao fim, já não se lembram das primeiras, só se lembram das últimas e escolhem uma delas — chama-se a isso “efeito de recência”.

Escrevo este Olho de Gato no início da semana. Pedro Passos Coelho e Paulo Portas andam a tratar-nos da saúde mas dessas conversas, para já, há pouco eco mediático. O que, por enquanto, todos os jornais falam é de Assis e Seguro. Diz o jornal Público desta segunda-feira: “Em três dias, o frenesim disparou no PS”. Isso é verdade.     

Ora, a guerra-relâmpago que António José Seguro está a fazer no aparelho socialista faz lembrar o “efeito de primazia”, pois leva de arrasto as primeiras respostas de um número muito grande de militantes. 

Francisco Assis vai ter dificuldades para inverter as coisas, mais para a frente, quando tentar usar o “efeito de recência”.

Carta da árvore triste (a minha mulher)

Fotografia de Vladislav Bogatkin

quando te levantares e abrires as janelas
a luz espalhar-se-á por toda a casa
cobrirá suavemente os objectos e o mobiliário
devolvendo-lhes os seus pesos formas e volumes
acordá-los-á para as quotidianas utilizações
e as petúnias em plástico na jarra da sala agitar-se-ão
à tua passagem em direcção à cozinha
a cidade entrará repentinamente pela casa adentro
um grito nas traseiras sacode-te para o interior baço da manhã
buzinas sirenes
o telefone do vizinho atravessando as paredes
gritos de crianças derrapagens estridentes
outro telefone
uma porta que se fecha com estrondo
passas o olhar pelo jornal de ontem em cima da mesa
lês: um papagaio valioso com 32 anos
capaz de falar em 3 idiomas
foi morto por um jovem drácula de nome punk
Carlinhos Monóxido
o papagaio foi encontrado morto e de olhos saídos das órbitas
suspeita-se que...
o telefone parou de tocar
atiras o jornal para o caixote do lixo
reparas então que tudo o que permanecera na penumbra do sono
surge subitamente nítido e coberto de luz
como se tivesses encontrado uma fotografia esquecida
no fundo dalguma gaveta forrada a papel-manteiga
o dia instalar-se-á igual aos outros milhares de dias
com a banal crueldade dos acontecimentos
ouves rádio enquanto o café aquece
deixas queimar um pouco as torradas
passas os dedos pelos cabelos atados numa fitinha de chita
ajeitas o roupão para cobrires o peito desarrumado
depois
com a chávena de café na mão mexendo o açúcar
arrastando os chinelos de borracha virás até aqui
onde encontrarás esta carta

serão talvez nove horas
a rádio cospe anúncios de sabonetes e detergentes
o irritante pi do sinal horário
suspiras ao pegar no envelope
e apenas o teu suspiro te parecerá deslocado
de resto há muito que os teus dias são o decalque uns dos outros

escrevo-te enquanto não amanhece
a morte desperta em mim uma planta carnívora
o mundo parece despedaçar-se pelos desertos do delírio
pântano de lodo entre a pele da noite e a manhã
espaço de penumbras e de incertezas
onde podemos perder tudo e nada desejarmos ainda
por isso aproveito o pouco tempo que me sobeja da noite
este vácuo lento este visco dos espelhos
espessa escuridão agarrada à memória debaixo da pele
começa a asfixia o perigo de ter amado
no mais profundo segredo das noites devorávamo-nos
e um barco tremeluzia pelas cortina do quarto
como um presságio
nos objectos e a roupa atirada para cima das cadeiras
revelam-me a pouco e pouco a desolação em que tenho vivido

é-me desconhecida a vida fora dos sonhos e dos espelhos
tu brincavas com o sangue
a noite cola-se-me aos gestos
enquanto balbucio com dificuldade esta carta
onde gostaria de deixar explicadas coisas
não consigo
o silêncio é o único cúmplice das palavras que mentem
eu sei
comemos a lucidez do asfalto
mudámos de morada sempre que foi preciso recomeçar
vivíamos como nómadas sem nunca nos habituarmos à cidade
mas nada disto chegou para nos entendermos
o tempo transformou-se num relógio de argila
tudo esqueci dessas derivas
e pelo corpo de nossos desencontros diluíram-se os sonhos
a verdade é que nunca teria conseguido escrever-te
sob o peso da luz do dia
a excessiva claridade amputar-me-ia todo o desejo
cegar-me-ia tentaria cicatrizar as feridas reabertas pela noite
sou frágil planta nocturna e triste
o sol ter-me-ia sido fatal
conduzir-me-ia ao entorpecimento da memória
e eu quero lembrar-me do teu rosto enquanto puder
o pior é que me falta tempo
sinto a manhã cada segundo mais próxima
ameaçadora e cruel
a luz arrastar-me-á para uma espécie de inércia inexplicável
o silêncio será definitivo
o sangue adormece nas veias e o desejo de permanecer
arremessar-me-ia para o esquecimento sem regresso
poderia até projectar um eventual regresso antes de partir
tenho a certeza de que parto para sempre
não haverá regresso nenhum
creio que se tornaria mais fácil escrever-te de longe
na deambulação por algum país cujo nome ainda não me ocorre
num país com sabor a tamarindos rodeados de mar
onde flores mirrassem ao entardecer e devagar
a paixão nascesse durante o sono
um país um pouco maior que este quarto
fingiria escrever-te para te enviar a minha nova morada
poderia assim queimar os dias no desejo de receber noticias
inventaria mesmo desculpas plausíveis
greves dos correios inexistentes terríveis epidemias
catástrofes
e na espera duma carta acabaria por me embebedar
beber muito e esperar
esperar
digo tudo isto mas já não te amo

não te amo
olho em redor pela última vez demoradamente
sinto-me como uma ilha cuja base se desprendeu do fundo do mar
naufraga algures com todo o seu peso diáfano de praias
uma sensação de limos frios desce às mãos
nunca fizeste caso da minha loucura
nunca vieste visitar-me quando estive internado nunca
o enfermeiro azul-sabonete chegava às cinco em ponto
injectava-me e sorria
atava-me debaixo de fortíssimas lâmpadas e sorria
esperei continuamente a tua visita
nunca vieste
ficava estendido inerte a gritar para dentro do corpo
as unhas abrindo sulcos nos lençóis sujos de mijo
e sabia que lá fora as avenidas esvaziavam-se
enquanto a morte se passeava no rosto despreocupado duma mulher
a carne rasgava-se-me ao simples contacto com os dedos
a dor invadia-me os órgãos do corpo que eu nunca vi
esperava-te
por cima da cama voava um corpo translúcido filiforme
passava rente ao peito agredia-me
quando eu tentava gritar afastava-me embatia
contra as paredes fazia frio e tu não vinhas
era inverno dentro e fora de mim
já não me lembrava de nenhum número de telefone
nenhum nome amigo
as pernas e as mãos eram de geleia fendiam-se
ao contacto de línguas de vidro invisível
nem sequer telefonaste
tentava caminhar e tudo o que conseguia era bater
com a cabeça no lavatório tentava lembrar-me do meu nome
e só um rápido movimento de barbatanas sujas me aflorou a boca
esperei que viesses ao entardecer
abrisses os braços para mim
esperava que surgisses como um osso de luz reconhecível
mesmo durante a noite esperei
que me prendesses de novo para que não se enchesse o quarto
de peixes de enxofre devoradores de paredes
e tu nunca vieste
mais nada me poderia acontecer
teu rosto chegava-me à memória como mancha de fumo
longínqua nódoa de água e sangue
nos pulsos
uma mancha e tu não chegaste

desculpa
o que te queria dizer talvez não fosse isto
a solidão turva-se-me de lágrimas
e nas pálpebras tremem visões do meu delírio
olho as fotografias de antigos desertos
corpos coerentes que fomos
bocas de papel amarelecido
onde a sede nunca encontrou a sua água
e às vezes ainda tenho sede de ti
mas na vertigem da viagem o coração galopa desordenadamente
no écran da memória acende-se a imagem da mulher que amei
quase nítida vejo-te sentada
à porta da rua bordando um pano de linho branco
só esta imagem transportarei comigo
embora nunca tenha conseguido saber o que bordavas
uma colcha? uma toalha? um sudário?
também nunca to perguntei
tinha tempo de sobra para o descobrir
vivíamos longe da cidade espreitavas a nesga de mar
como uma risca de azul cerúleo ao fim da rua

agora tens as traseiras enlameadas dos prédios para olhar o lixo
cães magros ganindo fogem
às vassouradas de porteiras húmidas de gordura e rolos na cabeça
tens carros estacionados
e todas as merdas que atiram fora pelas janelas
furtivamente durante a noite ou de madrugada
de tempos a tempos o som quase limpo da flauta do amola-tesouras
pergunto-me se a memória não será um espaço arquitectado
para abrigar os mais terríveis remorsos e o futuro

a noite corrói
balbucio algarismos nomeio peixes e flores de todos os mares
de todos os continentes os ventos os naufrágios por vir
o estrume humano a seiva viva das plantas os astros
uma a uma as aves
as cidades onde me perco e me reencontro
a esperança e a dúvida
o medo das antárcticas cidades do sonho
ah como me recordo ainda de ti!
a noite é uma teia de sirenes que te acordam
e me esfrangalham os nervos
derrapas na insónia engoles comprimidos coloridos
para escapares ilesa à inquietante desolação do sexo
amávamo-nos
e para que não nos devorasse o silêncio
tartamudeava nomes de barcos: Delfim dos Trópicos Lírio dos Mares Ave do Tirreno Virgem das Maresias Furacão de Delfos Limo de Zanzibar Quilha das Índias

não
não estou a enlouquecer
amávamo-nos mesmo quando bordavas e te ferias com a agulha
o sangue alastrava pelo pano
apressadamente bordavas algumas flores para o esconderes
compreendo hoje como era doloroso o nosso amor
onde terás esquecido o pano bordado?
tudo se perdeu
e na confusão do pouco tempo que me resta duvido
que nos tenhamos amado alguma vez

os dias tornaram-se vertiginosos quando mudámos para a cidade
assim que andavas de metro punhas-te a delirar com viagens
contavas-me aventuras de transiberiano
afinal sou eu que parto
e não irei do Campo Pequeno aos Anjos
por onde andará a paragem do meu transiberiano?
quem sabe se numa praia em que leões cansados de selva
vêm espreguiçar-se no crepúsculo do areal
quem sabe se o sonho ou a morte me conduzirá a algum porto
onde possa embarcar para não sei que outro porto

víamo-mos cada vez menos até que nos perdemos definitivamente
foi quando me assolaram as primeira visões
as nossas noites eram sempre mais longínquas uma da outra
a tua vida encheu-se afazeres mesquinhos
televisão cabeleireiros tricots intermináveis
conversas idiotas ao telefone concursos de rádio
furtivas saídas ao cinema do bairro e à leitaria da esquina
como se eu ligasse alguma coisa ao que fazias
eu já andava atravessando as noites
onde uma navalha oculta talhava um sexo branco no vento
abria nas pedras fulvas da praia um lugar para esconder
o corpo exausto
a febre esmagava-me
recolhia aos quartos de pensão
com as mãos e o peito cheios de pássaros de haxixe e de vinho
tinha medo
medo que certos hálitos fortes me fizessem estremecer
apesar de tudo avançava fascinado
trémulo noite dentro avançava sempre para me afastar
de ti e de mim o mais que pudesse

experimentei breves paixões tristes carícias
cantei com as lágrimas molhando as palavras sussurradas
no escuro do quarto cantava
a cidade de olhos entumecidos a fome entorpecia os gestos
atirando o corpo para o mais terrível abandono
internaram-me e tu nunca vieste visitar-me
não tenho vontade de voltar a falar sobre isto
vou partir sem saudades e sem dinheiro
vou partir sem levar um só objecto que me lembre teu corpo
levo apenas uma espécie de fogo no fundo de mim
uma ânsia que não sei explicar
lembro-me de quando enlaçava os braços em tuas pernas
uma nuvem de aves vinha pousar nos ossos
tua boca deixava na minha um travo de asas estelares
o sexo húmido perfumado
não não julgues que estou de novo a enlouquecer
para lá de meus olhos fechados com força o mundo acorda
cheio de ecos e de venenos
moves-te nesse mundo que eu recuso
aqui donde te escrevo apenas uma parte de mim ainda não partiu
era isto que te queria dizer
poderás começar a preparar a espera
pouco me importa que continues a polir móveis
e a mudares a água das jarras
ou a encerares o soalho dos corredores
podes varrer os quartos
varrer a cozinha vagarosamente
eu nunca mais entrarei em casa com os sapatos enlameados
e tu
gritando coisas que eu já não podia compreender
encontrarás provavelmente um ou uma amante que te ajude
a suportar o vazio e o tédio desta casa
e um dia acabarás por trocar novamente esse amor
pela limpeza maníaca dos móveis
pela máquina de lavar e o seu funcionamento
os electrodomésticos sempre foram mais importantes do que eu
mas não terás que te preocupar mais com as tuas pedradas
nem com as bebedeiras nem com a música em altos berros
talvez consigas arranjar boas razões
para de quando em quando insultares o frigorífico
ou então mete-o de caras na cama
poderás partir um prato do serviço com violência
ou atirares com os cinzeiros à parede
estou-me nas tintas sempre me estive borrifando
para as tuas fúrias electrodomésticas
e agora sozinha nada disto terá sentido
resta-te o tricot o infindável tricot da chatice e do silêncio
os dias quase sem ninguém
arrastar-se-ão contigo colada às vidraças olhando
olhando a chuva ensopar os papéis que se estampam
contra o asfalto imundo do estacionamento das traseiras
e o vento arrastará na primavera o cio
dos animais fechados nos quintais
então lembrar-te-ás de mim
os dias incendiar-se-ão no susto da interminável espera
mas hoje ao acordares
sentirás que te povoo ainda o corpo e a memória

não te deixo o número de telefone de meu amigo
não quero que com ele alguma vez venhas a falar
e tentes saber onde estou
vou partir sem rumo
por isso será inútil perguntar em que direcção fui
por outro lado penso que o meu amigo
não estaria disposto a dividir segredos contigo
achas que deveria explicar esta amizade?
não posso não tenho coragem
ou talvez seja unicamente por pudor

a manhã começou a furar a noite
chega-me pelas frinchas das persianas
cheira a cimento molhado e a bolor
parto dentro de breves instantes
apenas levo a roupa que trago vestida e algum dinheiro
muito pouco
daquele que normalmente se destina às despesas da casa
espero que encontres neste acto um pretexto para me odiares
não levo recordações
a não ser daquelas que por mero acaso mencionei nesta carta
quase nada
poderás deitar fora a minha roupa
e todos os meus objectos pessoais
para onde vou não preciso deles
as fotografias queimei-as ontem à noite enquanto saíste
se telefonarem do emprego diz
que fui ver se ainda existem Índias por descobrir
ou que morri ou que me transformei
diz o que te der mais jeito
pensei deixar-te duas cartas para meteres no correio
mas no último instante eu mesmo as ponho no marco da esquina

quando te levantares e abrires as janelas
a luz espalhar-se-á por toda a casa
sem mim a casa amanhecerá doutra maneira
a ausência que já sou estando ainda aqui e a culpa
impregnar-se-ão em tudo quanto existiu entre nós
tornar-se-á insuportável continuares a viver sozinha
eu estarei longe
nas costas dalguma Etiópia
onde quantidades de lumes se avistam
longe
no cimo lúcido de meu próprio corpo contemplando
o fulgurante sangue dos astros
muito longe
no segredo desse lugar único
em que a escuridão da noite parece eterna claridade
Al Berto


quarta-feira, 16 de junho de 2021

La despedida

Fotografia de Amine Rock Hoovr


Si te despides, hazlo con suavidad,
sin brusquedades.
No me digas: "Estaremos un tiempo sin vernos".
¿Qué es el tiempo?, te respondería.
¿Un puente entre la despedida y el reencuentro?
Si te despides, que tu adiós me reconforte
que sea como el bálsamo a mis heridas,
que tus labios me digan: "hasta luego",
"ya formas parte de mi vida",
que pueda sentir que en cualquier momento
nuestras manos se buscarán en la sala de espera
y hablaremos de amores, de cómo pasa el tiempo,
de lo interesante que te encuentro.
Gloria Bosch



terça-feira, 15 de junho de 2021

Entusiasmos do coração

Fotografia Olho de Gato



Vós olhais as flores no meio das folhas:
Quanto tempo de bom podem elas ter?

Hoje temem que alguém as colha
Amanhã aguardam que alguém as varra

Cativantes os entusiasmos do coração
Após vários anos envelhecem

Comparado com o mundo das flores
O fulgor do vermelho como o conservar?
Han-Shan
Versão de Ana Hatherly


  vv


segunda-feira, 14 de junho de 2021

Castidad, castidad



Yo nunca fui casta

regodearnos con el sexo es una hipocresía riquísima

no lo niego

pero yo nunca pude ser hipócrita yo voy al grano

directa y sin límites

sólo las sosas se las dan de interesantes

yo soy inteligente

por eso cuando quiero un hombre no lo pido con melindres

le voy p'arriba y lo asalto y me le aferro

pero por eso también he tenido poca suerte

porque ellos se cansan rápido de las puticas ladillosas.


Yo nunca fui casta

en cuanto cumplí la edad de la pubertad

cuidé mi cutis restregándome con los machos

ni un granito me salió por exceso de masturbaciones

yo a decir verdad no andaba creyendo en virginidades

yo me crié en la calle al garete

y mi sexo iba conmigo.


Yo nunca fui casta zorra sí

nadie me enseñó la malicia yo nací con ella

muy temprano empecé a latir y no masacré mi ritmo

Yo nunca fui casta ¿para qué sirve ser castos?

Si aunque sea con terror temblando de precauciones

amarnos es lo único que nos queda.

Zoé Valdés


domingo, 13 de junho de 2021

All inclusive





Fue bonito mientras duró,

fue cojonudo vivir como ricos,

pisar a fondo el acelerador,

comer carne tres veces al día,

llenar la piscina, gastar a todo trapo

y echarle la mierda al vecino

por encima del muro,


pero sabíamos que esto no podía durar,

así que ahora que se está acabando

la fiesta en la que nos habíamos colado,

es mejor disimular

y ver con qué se puede aún arramblar

mientras suene la música,

no protestar

porque sabemos que no teníamos ningún derecho

a dejar a nuestros hijos y nietos sin futuro,

y porque a las puertas de la discoteca,

aunque todo está a punto de chapar,

hay mucha gente que aún pretende entrar,

porque el paraíso de neón, aire acondicionado,

vueltos baratos, cruceros todo incluido

y palmeras de cartón

siempre tuvieron su reverso tenebroso

un poco más allá de los resorts,

donde la fiesta siempre fue tragedia

y de nada valen nuestras pulseras amarillas.


Se acaba la fiesta, apenas quedan canapés,

el cazo de la sangría toca fondo, se fundió el hielo,

los músicos se retiran, la temperatura sube,

el diesel escasea, la mina cierra, los despidos aumentan,

el asfalto de las autopistas se llena de maleza,

la discoteca se encoge, los que quieren entrar

se encuentran, perplejos, con los que van siendo expulsados,

mal asunto, broncas, peleas, tiros, sangre,


no hay sitio para todos,

y lo que es peor,

no hay nadie dispuesto a soñar con un bosque

donde quepamos todos.

Antonio Orihuela

sábado, 12 de junho de 2021

As três repúblicas portuguesas: 16 anos + 48 anos + (50-3) anos*

* No Jornal do Centro aqui


Os militares deixaram que a primeira república durasse dezasseis anos e depois acabaram com ela, deixaram que a segunda república se arrastasse por quarenta e oito longos anos e depois, num “dia inicial inteiro e limpo”, acabaram com ela.

Foram também os militares que fizeram o parto da terceira república. Que entretanto cresceu e já é bem adulta. Tem quarenta e sete anos. Está quase a ultrapassar, em duração, os anos salazarosos. O actual regime está para durar. Os tempos são outros. Os militares agora já não fazem golpes de estado. 

A terceira república prepara-se para festejar o seu meio século. E sem olhar a despesas. Já lá vamos a esse boyismo. Antes disso, façamos um scanning rápido, quase esquemático, pelos anos já vividos da nossa democracia.


1974 a 1986 — o tempo dos fundadores

Neste período turbulento, os fundadores do regime — MFA/Eanes, Soares, Cunhal, Sá Carneiro, Freitas — fizeram a descolonização, a desmilitarização do poder e prepararam a entrada na “Europa”. 

Neste período, precisámos de pedir dinheiro duas vezes ao FMI

— em 1977, empréstimo no valor de 1% do PIB, por causa do retorno das colónias; este resgate foi um sucesso, permitiu integrar rapidamente mais de meio milhão de concidadãos vindos de África;

— em 1983, 2,8% do PIB; desta vez foi traumático, houve muita fome e os rendimentos foram engolidos por inflações elevadíssimas; em 1983 o poder de compra caiu 7% e, no ano seguinte, 12,5%.


1986 a 2001 — o tempo dos sucessores

Numa boa parte desta década e meia tranquila, o pai do regime, Mário Soares, pontificou em Belém, mas foram os sucessores — Cavaco e Guterres — que trataram do essencial: infraestruturação do país, consolidação do poder local, aprofundamento do estado social, preparação para a entrada na moeda única.

Não houve nenhuma bancarrota durante este período, o que não admira se nos lembrarmos das receitas das privatizações e do fluxo dos fundos comunitários.


2002 a 2021 — o tempo dos funcionários

Nestas duas décadas, passámos a ser governados por líderes sem vida fora da política. Durão, Santana, Sócrates, Passos e Costa têm óbvias diferenças entre si, mas todos eles fizeram da política a sua profissão.

Nestes anos do pântano, tivemos aumentos de impostos, corrupção descarada e impune, parasitação partidária e degradação dos serviços do estado, centralismo, abandono do interior.

Entre 2011 e 2014, a bancarrota socrática obrigou a um resgate no valor de 45,5% do PIB (!), causando desemprego, emigração e desesperança. 

As últimas gerações no poder pouco mais têm sido do que okupas do futuro. A dívida pública, que os nossos filhos e os nossos netos vão ter de pagar, não pára de aumentar. No virar do milénio, era de 78 mil milhões de euros (57,4% do PIB), agora mais do que triplicou, já ultrapassa os 270 mil milhões de euros (133,7%). 

in DN, 10/6

Levamos duas décadas seguidas de estagnação. Os países de leste — que entraram na UE nos alargamentos de 2004, 2007 e 2013 — ou já nos ultrapassaram ou preparam-se para o fazer.

Notas finais:

— as designações “tempo dos fundadores, dos sucessores, dos funcionários” são de Joaquim Aguiar, as três divisões temporais são minhas;

a comemoração dos 40 anos do 25 de Abril custou ao todo 250 mil euros; agora, esse valor não chega sequer para pagar as mordomias de Pedro Adão e Silva, o comissário executivo para a comemoração dos 50 anos;

— o costume: fora da capital estado mínimo, na capital estado máximo; 

a corte centralista, tanto a política como a mediática, acha que assim é que é natural, assim é que está bem; 

é por isso que ninguém se deve admirar por a melhor e mais completa biografia daquele videirinho ter sido feita pelo Porto Canal e não por nenhum media alfacinha.


Muriel

Fotografia de Thanos Pal


Às vezes se te lembras procurava-te
retinha-te esgotava-te e se te não perdia
era só por haver-te já perdido ao encontrar-te
Nada no fundo tinha que dizer-te
e para ver-te verdadeiramente
e na tua visão me comprazer
indispensável era evitar ter-te
Era tudo tão simples quando te esperava
tão disponível como então eu estava
Mas hoje há os papéis há as voltas dar
há gente à minha volta há a gravata
Misturei muitas coisas com a tua imagem
Tu és a mesma mas nem imaginas
como mudou aquele que te esperava
Tu sabes como era se soubesses como é
Numa vida tão curta mudei tanto
que é com certo espanto que no espelho da manhã
distraído diviso a cara que me resta
depois de tudo quanto o tempo me levou
Eu tinha uma cidade tinha o nome de madrid
havia as ruas as pessoas o anonimato
os bares os cinemas os museus
um dia vi-te e desde então madrid
se porventura tem ainda para mim sentido
é ser solidão que te rodeia a ti
Mas o preço que pago por te ter
é ter-te apenas quanto poder ver-te
e ao ver-te saber que vou deixar de ver-te
Sou muito pobre tenho só por mim
no meio destas ruas e do pão e dos jornais
este sol de Janeiro e alguns amigos mais
Mesmo agora te vejo e mesmo ao ver-te não te vejo
pois sei que dentro em pouco deixarei de ver-te
Eu aprendi a ver a minha infância
vim a saber mais tarde a importância desse verbo para os gregos
e penso que se bach hoje nascesse
em vez de ter composto aquele prelúdio e fuga em ré maior
que esta mesma tarde num concerto ouvi
teria concebido aqueles sweet hunters
que esta noite vi no cinema rosales
Vejo-te agora vi-te ontem e anteontem
E penso que se nunca a bem dizer te vejo
se fosse além de ver-te sem remédio te perdia
Mas eu dizia que te via aqui e acolá
e quando te não via dependia
do momento marcado para ver-te
Eu chegava primeiro e tinha de esperar-te
e antes de chegares já lá estavas
naquele preciso sítio combinado
onde sempre chegavas sempre tarde
ainda que antes mesmo de chegares lá estivesses
se ausente mais presente pela expectativa
por isso mais te via do que ao ter-te à minha frente
Mas sabia e sei que um dia não virás
que até duvidarei se tu estiveste onde estiveste
ou até se exististe ou se eu mesmo existi
pois na dúvida tenho a única certeza
Terá mesmo existido o sítio onde estivemos?
Aquela hora certa aquele lugar?
À força de o pensar penso que não
Na melhor das hipóteses estou longe
qualquer de nós terá talvez morrido
No fundo quem nos visse àquela hora
à saída do metro de serrano
sensivelmente em frente daquele bar
poderia pensar que éramos reais
pontos materiais de referência
como as árvores ou os candeeiros
Talvez pensasse que naqueles encontro
sem que talvez no fundo procurássemos
o encontro profundo com nós mesmos
haveria entre nós um verdadeiro encontro
como o que apenas temos nos encontros
que vemos entre os outros onde só afinal somos felizes
Isso era por exemplo o que me acontecia
quando há anos nas manhãs de roma
entre os pinheiros ainda indecisos
do meu perdido parque de villa borghese
eu via essa mulher e esse homem
que naqueles encontros pontuais
Decerto não seriam tão felizes como neles eu
pois a felicidade para nós possível
é sempre a que sonhamos que há nos outros
Até que certo dia não sei bem
Ou não passei por lá ou eles não foram
nunca mais foram nunca mais passei por lá
Passamos como tudo sem remédio passa
e um dia decerto mesmo duvidamos
dia não tão distante como nós pensamos
se estivemos ali se madrid existiu
Se portanto chegares tu primeiro porventura
alguma vez daqui a alguns anos junto de califórnia vinte e um
que não te admires se olhares e me não vires
Estarei longe talvez tenha envelhecido
Terei até talvez mesmo morrido
Não te deixes ficar sequer à minha espera
não telefones não marques o número
ele terá mudado a casa será outra
Nada penses ou faças vai-te embora
tu serás nessa altura jovem como agora
tu serás sempre a mesma fresca jovem pura
que alaga de luz todos os olhos
que exibe o sossego dos antigos templos
e que resiste ao tempo como a pedra
que vê passar os dias um por um
que contempla a sucessão de escuridão e luz
e assiste ao assalto pelo sol
daquele poder que pertencia à lua
que transfigura em luxo o próprio lixo
que tão de leve vive que nem dão por ela
as parcas implacáveis para os outros
que embora tudo mude nunca muda
ou se mudar que se não lembre de morrer
ou que enfim morra mas que não me desiluda
Dizia que ao chegar se olhares e não me vires
nada penses ou faças vai-te embora
eu não te faço falta e não tem sentido
esperares por quem talvez tenha morrido
ou nem sequer talvez tenha existido
Ruy Belo


sexta-feira, 11 de junho de 2021

Algo más épico

Fotografia Olho de Gato



Las 00.30 y heme aquí
fumando hasta matarme
delante de una pantalla negra
con manchas de verde
embadurnándola.

Ahí fuera, en alguna
parte, en todas,
ensayos de cadáver
se arrastran hacia la mañana
en la estela de otra
noche vacía.

Me pregunto
qué hubiera dicho
Homero.
Roger Wolfe