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Carta

Rei de muitos reis, se um dia, Se uma hora só mal me atrevo Ocupar-vos, mal faria, E ao bem comum não teria Os respeitos que ter devo. Que em outras partes da esfera, Em outros céus diferentes, Que Deus até agora escondera, Tanta multidão de gentes Vossos mandados espera. Que sois vós tal, que eles sós,  justo e poderoso rei, Ou lhe desdais os seus nós, Ou cortais; porque entre nós Vós sois nossa viva lei. Onde há homens há cobiça, Cá e lá, tudo ela empeça, Se a santa, se a igual justiça Não corta, ou não desempena O que a má malícia enliça. Senhor, que é muito atrevida, E onde ela nós cegos deu, Cortar é coisa devida; Exemplo o justo de Mida,  Que el-rei vosso avô fez seu. Ora eu, que respeito havendo Ao tempo, mais que ao estilo, Irei fugindo ao que entendo; Farei como os cãe...

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