segunda-feira, 23 de julho de 2018

Carcará*

*CYZ interpretou a canção mais forte que ouvi este ano no Tom de Festa: Carcará (original de Maria Bethânia, 1965)


Daqui


Carcará!
Pega, mata e come
Carcará!
Num vai morrer de fome
Carcará!
Mais coragem do que homem
Carcará!
Pega, mata e come
Carcará!

Lá no sertão...
É um bicho que avoa que nem avião
É um pássaro malvado
Tem o bico volteado que nem gavião

Carcará....
Quando vê roça queimada
Sai voando, cantando
Carcará...
Vai fazer sua caçada
Carcará...
Come inté cobra queimada

Mas quando chega o tempo da invernada
No sertão não tem mais roça queimada
Carcará mesmo assim num passa fome
Os burrego que nasce na baixada

Carcará!
Pega, mata e come
Carcará!
Num vai morrer de fome
Carcará!
Mais coragem do que homem
Carcará!
Pega, mata e come

Carcará é malvado, é valentão
É a águia de lá do meu sertão
Os burrego novinho num pode andá
Ele puxa no bico inté matá

Carcará!
Pega, mata e come
Carcará!
Num vai morrer de fome
Carcará!
Mais coragem do que homem
Carcará!
Pega, mata e come
Carcará!

Em 1950 mais de dois milhões de nordestinos viviam fora dos seus estados natais.
10% da população do Ceará emigrou.
13% do Piauí! 15% da Bahia!! 17% de Alagoas!!!

(Carcará...)
Pega, mata e come
Carcará!
Num vai morrer de fome
Carcará!
Mais coragem do que homem
Carcará!
Pega, mata e come!!!
Música de protesto escrita por 
João do Vale e José Cândido













domingo, 22 de julho de 2018

As musas cegas

Fotografia de Joe Keating


Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira
e a eternidade das mãos.
Esta linguagem é colocada e extrema e cobre, com suas
lâmpadas, todas as coisas.
As coisas que são uma só no plural dos nomes.
— E nós estamos dentro, subtis, e tensos
na música.
Esta linguagem era o disposto verão das musas,
o meu único verão.
A profundidade das águas onde uma mulher
mergulha os dedos, e morre.
Onde ela ressuscita indefinidamente.
— Porque uma mulher toma-me
em suas mãos livres e faz de mim
um dardo que atira. — Sou amado,
multiplicado, difundido. Estou secreto, secreto-
e doado às coisas mínimas.
Na treva de uma carne batida como um búzio
pelas cítaras, sou uma onda.
Escorre minha vida imemorial pelos meandros
cegos. Sou esperado contra essas veias soturnas, no meio
dos ossos quentes. Dizem o meu nome: Torre.
E de repente eu sou uma torre queimada
pelos relâmpagos. Dizem: ele é uma palavra.
E chega o verão, e eu sou exactamente uma Palavra.
— Porque me amam até se despedaçarem todas as portas,
e por detrás de tudo, num lugar muito puro,
todas as coisas se unirem numa espécie de forte silêncio.
Essa mulher cercou-me com as duas mãos.
Vou entrando no seu tempo com essa cor de sangue,
acendo-lhe as falangetas,
faço um ruído tombado na harmonia das vísceras.
Seu rosto indica que vou brilhar perpetuamente.
Sou eterno, amado, análogo.
Destruo as coisas.
Toda a água descendo é fria, fria.
Os veios que escorrem são a imensa lembrança. Os velozes
sóis que se quebram entre os dedos,
as pedras caídas sobre as partes mais trêmulas
da carne,
tudo o que é úmido, e quente, e fecundo,
e terrivelmente belo
— não é nada que se diga com um nome.
Sou eu, uma ardente confusão de estrela e musgo.
E eu, que levo uma cegueira completa e perfeita, acendo
lírio a lírio todo o sangue interior,
e a vida que se toca de uma escoada
recordação.
Toda a juventude é vingativa.
Deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura.
Um dia acorda com toda a ciência, e canta
ou o mês antigo dos mitos, ou a cor que sobe
pelos frutos,
ou a lenta iluminação da morte como espírito
nas paisagens de uma inspiração.
A mulher pega nessa pedra tão jovem,
e atira-a para o espaço.
Sou amado. — E é uma pedra celeste.
Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia
de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se
desse quente silêncio.
Há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive.
Depois levanta-se com os olhos imensos
e incendeia as casas, grita abertamente as giestas,
aniquila o mundo com o seu silêncio apaixonado.
Amam-me; multiplicam-me.
Só assim eu sou eterno.
Herberto Helder


sábado, 21 de julho de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#203)

O homem das crises: a história de Harvey Wallinger
Um comicamentário de Woody Allen de 1971 a gozar Rixard Nixon e em que Woody Allen personifica Harvey Wallinger, um Henry Kissinger ainda com cabelo.

Esteve para ser emitido na PBS em Fevereiro de 1972 mas a direcção daquela televisão não teve tomates para o passar.



Woody, por causa disso, felizmente dedicou-se ao cinema.

*****

Men of Crisis: The Harvey Wallinger Story 
Is a short film directed by Woody Allen in 1971. The film was a satirization of the Richard Nixon administration made in mockumentary style.

Allen plays Harvey Wallinger, a thinly disguised version of Henry Kissinger.

The short was produced as a television special for PBS and was scheduled to air in February 1972, but it was pulled from the schedule shortly before the airdate. Reportedly, PBS officials feared losing its government support and decided not to air it.


Allen, who previously had sworn off doing television work, cited this as an example of why he should "stick to movies".[2] The special never aired and can now be viewed in The Paley Center for Media.

Two of Allen's regular leading ladies, Louise Lasser and Diane Keaton, make appearances, as does the Richard Nixon-lookalike Richard M. Dixon. The fictional characters are interspersed with newsreel footage of Hubert Humphrey, Spiro Agnew, and Nixon in embarrassing public moments. Allen would later explore this style again in Zelig.


Síndrome

Fotografia de Tom Pumford

Tenho ainda os dentes quase todos
o cabelo também e pouquíssimas cãs
posso fazer amor e desfazer
subir degraus dois a dois
e correr quarenta metros atrás do eléctrico
Quer dizer, não devia sentir-me velho
o problema é que dantes
não reparava nestes detalhes.
Mario Benedetti


Tears of the Black Tiger is a 2000 Thai western film written and directed by Wisit Sasanatieng

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Mornices tépidas*

* Hoje no Jornal do Centro


1. O teatro do IP3 não pára. Depois das prestações inesquecíveis de José Sócrates e Pedro Passos Coelho, foi agora a vez de António Costa. No início do mês, o actual primeiro-ministro fez uma performance tépida como este Verão no palco erguido junto ao nó de Raiva.

A raiva ficará para quando, na próxima bancarrota, forem instalar pórticos nos troços que venham eventualmente a ser duplicados. Não é o caso das obras agora lançadas que já estavam projectadas há muito tempo e que vão manter as duas vias.

2. O impacto conseguido pelo “Movimento pelo Interior”, onde não figurava nenhum político viseense, fez ressaltar a mornice irrelevante dos deputados e das cúpulas distritais dos partidos.

Num jogo de soma nula a que ninguém dá atenção, eles vão-se marcando uns aos outros como se tem visto nos problemas do hospital de Viseu. À falta de melhor, o deputado social-democrata Pedro Alves até já se mete com... os voluntários do hospital.

3. No concelho de Viseu, a omnipresença de Jorge Sobrado leva ao eclipse parcial do presidente da câmara e ao eclipse total dos outros vereadores.

Para deseclipsar a situação, António Almeida Henriques tem duas hipóteses: ou dilui Xanax nas bebidas do seu vereador da cultura ou contrata uma equipa alargada para a comunicação da câmara. 

Claro que a primeira hipótese não é defensável por ninguém e a segunda — que, ao que consta, está a ser cozinhada — é cara e de eficácia duvidosa.

4. Pelo que se leu na imprensa e nas redes sociais, os Jardins Efémeros foram tão tépidos como o Verão e a cidade não repetiu a chuva de críticas do ano passado ao evento. Ainda bem.

Foi bom também que, ao contrário dos anos anteriores, os JE não se tenham sobreposto ao Tom de Festa que precisa de bilheteira mais do que nunca, depois do corte de 24% feito pela geringonça à Acert. A pulseira custa cinco euros e a 28ª edição daquele festival de músicas do mundo prossegue hoje e amanhã em Tondela.

O que seria e não foi

Fotografia Olho de Gato


Percebo a sobra de minhas expectativas
sobrevoando o espaço que existe entre nós.
Das que se realizaram nem me lembro.
De nada me serviriam agora.


Tampouco me servem essas sobras
de expectativas diluídas no não agir.
Marcela Sperandio



quinta-feira, 19 de julho de 2018

como se o vento trouxesse recados

Fotografia de Roger Ballen

como se o vento trouxesse
recados
que pudesse abandonar
ao serviço do mensageiro

como se o vento te pudesse levar
e as palavras transformar
no milagre da cerejeira

não descuides o vento
que quem uiva
é lobo faminto

rodeia-te antes do essencial
faz-te cozinheira, semeia o teu quintal

o que por natureza rola
há-de rolar
e tu sozinha
o que podes contra o vento?
Ana Paula Inácio


quarta-feira, 18 de julho de 2018

Liberdade*

* Publicado no Jornal do Centro em 18 de Julho de 2008


Em Abril de 2007, critiquei aqui a criação de uma super base de dados destinada ao combate à fuga fiscal dos funcionários públicos. Para além do perigo da informação recolhida poder cair em mão erradas, é iníquo segmentar a sociedade em funcionários públicos (os “maus”) e não funcionários públicos (os “bons”).

Também nesta legislatura, foi aprovada uma lei em que se um cidadão reclamasse ao fisco perdia imediatamente direito ao sigilo bancário. Na assembleia da república só o actual líder parlamentar do PSD, Paulo Rangel, levantou a voz contra esse abuso. Só ele. Felizmente, essa aberração foi travada por Cavaco Silva e o tribunal constitucional.

Agora, querem pôr um chip em todos os carros. A última edição do Expresso dizia que o chip vai ser uma maravilha, que vai facilitar nos engarrafamentos e nas operações stop e que nos vai colocar na vanguarda da telemática mundial. Enfim: balões de ensaio e marketing.

Esta ideia é má. Tecnologia “big brother”, não, obrigado!



Não está a ser fácil a Mário Lino colocar praças de portagens nas SCUTs e, por isso, quer pôr-nos a pagar as portagens electronicamente.

Ora, eu quero chegar a uma portagem e poder pagar com cartão, ou com via verde, ou com notas ou moedas. Como me apetecer. Ninguém tem nada que saber se estou em Espinho ou na Guarda.

Sei que dizer isto não é popular. As pessoas acham que “quem não deve não teme”. É por causa desse “quem não deve não teme” que deixamos os governos espreitarem cada vez mais as nossas vidas. E, como se vê, a curiosidade dos governos é insaciável.

Se o chip for posto à venda, as pessoas vão correr para as filas para o comprarem. Os portugueses gostam muito de modernices. E pouco da liberdade.

O tempo não pára

Fotografia de Talles Alves



Disparo contra o sol
Sou forte, sou por acaso
Minha metralhadora cheia de mágoas
Eu sou um cara
Cansado de correr
Na direção contrária
Sem pódio de chegada ou beijo de namorada
Eu sou mais um cara

Mas se você achar
Que eu tô derrotado
Saiba que ainda estão rolando os dados
Porque o tempo, o tempo não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos factos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

Eu não tenho data pra comemorar
Às vezes os meus dias são de par em par
Procurando uma agulha num palheiro

Nas noites de frio é melhor nem nascer
Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer
E assim nos tornamos brasileiros
Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro
Transformam o país inteiro num puteiro
Pois assim se ganha mais dinheiro

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas ideias não correspondem aos factos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára

Dias sim, dias não
Eu vou sobrevivendo sem um arranhão
Da caridade de quem me detesta

A tua piscina tá cheia de ratos
Tuas idéias não correspondem aos fatos
O tempo não pára

Eu vejo o futuro repetir o passado
Eu vejo um museu de grandes novidades
O tempo não pára
Não pára, não, não pára
Cazuza e Arnaldo Brandão








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Nota: post corrigido em 20/7, 11:12, na atribuição da autoria da letra e acrescentado com a versão dos Bersuit Vergarabat

terça-feira, 17 de julho de 2018

Rilke shake

Fotografia Olho de Gato

salta um rilke shake
com amor & ovomaltine
quando passo a noite insone
e não há nada que ilumine
eu peço um rilke shake
e como um toasted Blake
sunny side pra cima
quando estou triste
& sozinha enquanto
o amor não cega
eu bebo um rilke shake
e roço um toasted Blake
na epiderme da manteiga
nada bate um rilke shake
no quesito anti-heartache
nada supera a batida
de um rilke com sorvete
por mais que você se deite
se deleite e se divirta
tem noites que a lua é fraca
as estrelas somem no piche
e aí quando não há cigarro
não há cerveja que preste
eu peço um rilke shake
engulo um toasted blake
e danço que nem dervixe
Angélica Freitas


segunda-feira, 16 de julho de 2018

Cantata para professores… — por JB*

* Comentário de JB deixado hoje por JB no post Cantata do café — JS Bach


Fotografia daqui
— Porque este governo de socialista só tem o nome; após mais de um mês de greve, o que certamente se transformará num recorde de luta laboral e num péssimo chip de memória para um Partido Socialista (socialista? Vão estudar a etimologia do termo, por favor).

— Porque começa a ser uma péssima tradição do Partido Socialista o desconsiderar a Educação e os seus profissionais. A linha destruidora começa em Lurdes Rodrigues e continua com o Tiago.

— Porque é uma dor de alma ter que escrever que, provavelmente, o PPD consegue (des)tratar os professores de uma forma menos acintosa…

— Porque ao fim de um mês de greve, o que os “representantes” dos professores conseguem é a criação “de uma Comissão de estudo”??? É pá, vão-se federar!

— Porque uns lavaram a face dos outros e quem continua no batente, no terreno, na luta é que se lixa, SEMPRE!

— Porque “o carro” só conhece uma mudança: marcha atrás! Entra um qualquer governo, uma nova equipa e não muda a mentalidade: tudo para o lixo, que nós é que somos os donos da verdade!

Desiludidos, desanimados e irritados!

“Fantasmas de todos os planetas, vinde salvar-nos!” – José Gomes Ferreira

Cantata do café — JS Bach

Zimmermannsches Caffeehaus, 1700s


No libreto, escrito por Christian Friedrich Henrici, conhecido por Picander), lê-se:

"Se não pudesse, três vezes por dia, tomar a minha chávena de café, na minha angústia tornava-me numa cabra assada toda encarquilhada."

Bach não escreveu óperas: esta cantata ao café foi escrita para concerto, mas é frequentemente representada em palco com os cantores ataviados a concluirem que tomar café é natural.

Detalhes sobre os dez movimentos — aqui.