Patos sentados*
* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 21 de Outubro de 2016 1. “Lá vamos, que o sonho é lindo! Torres e torres erguendo. Rasgões, clareiras, abrindo”, cantava-se assim no hino da mocidade portuguesa salazarista, uma cantoria mais tarde aplicada em força à construção civil. Patos bravos rasgaram clareiras e abriram urbanizações de torres e torres nos arredores das cidades. Ao mesmo tempo, nos quarteirões centrais, as rendas congeladas foram deitando casas abaixo e, no seu lugar, patos taveiras ergueram pós-modernices envidraçadas, o metro quadrado sempre upa-upa, um ai-jesus para ricos, emigrantes bem-sucedidos, angolanos, vistos gold, ultimamente airbnbs, malta com pilim, dinheiro da estranja que em Portugal pilim não há desde o reinado do magnânimo D. João V. O estado, a mando do divino espírito santo e seus colegas, foi ajudando os patos bravos e os patos taveiras de três modos: matou o mercado do arrendamento ao manter as rendas congeladas...


