quarta-feira, 2 de dezembro de 2020

Tractatus: Caliban Reads Wittgenstein

Fotografia Olho de Gato

 
(1.1)            The world's the total sum of all the facts,
                        which means a poor account of human
                           acts:
(1.2)            into lone atoms logic will divide
                        the world, cool as a parent who has lied.
(2.0131)   To make out rouge from sanguine is to
                           see.
                        This thing of darkness I acknowledge me.
(3.144)      As speech provides us with scant means to
                           name
                     our situations, whom are we to blame
(5.632)    for our estrangement from the lives we
                           live,
                     the soundwaves, odors, weight, the face
                           you love?
(6.43)         Only the line between good luck and bad
                     sunders the bitter outlook from the glad.
(7.01)       The words you lately left me to rehearse
                     taught me to make a playground of a curse.
Chris Yu


terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Autumn movement

Fotografia Olho de Gato


I cried over beautiful things knowing no beautiful thing lasts.

The field of cornflower yellow is a scarf at the neck of the copper sunburned woman, 
       the mother of the year, the taker of seeds.

The northwest wind comes and the yellow is torn full of holes, new beautiful things 
       come in the first spit of snow on the northwest wind, and the old things go, 
       not one lasts.
Carl Sandburg 





 

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Las poetas

Nosotras no somos malditas
somos desgraciadas
depresivas, putas
suicidas, locas
reprimidas
alcohólicas
ignoradas

Nosotras no somos malditas
— que tiene un matiz heroico, romántico
que rima con rebelde y con elegido.

Nosotras no somos malditas
tampoco podremos ser benditas

Nosotras somos la excepción
de la excepción
y todos los adjetivos
se quedan cortos
o pasan de largo
Ana Perez Cañamares



domingo, 29 de novembro de 2020

History

Fotografia de Vicky Hladynets


It’s late. History promises you a kiss

When she comes to bed. So you say good night.

You’re tired and can’t keep your eyes open,

So you called it surprisingly early.


She, like every night this summer, stays up

To watch her shows. Later, she woke you,

Accidentally, with a light you thought was

Dawn but was just the white haze of her cell.


You stayed half awake in the lit darkness

Thinking she owed you something, a mere kiss,

Waiting, one eye half open, like the flesh

In a shell sensing a swimmer pass by.


The light turned off like it never happened.

And nothing came to you because you were

Owed absolutely nothing. Not even

The growing indifference in her voice. 

Rowan Ricardo Phillips




sábado, 28 de novembro de 2020

Serendipidade*

* Hoje no Jornal do Centro aqui
Podcast aqui

Daqui

1. Quando estava na banheira, Arquimedes sentiu uma força a puxar a sua perna para cima e, já se sabe, fez-se luz dentro da sua cabeça. 

Quando estava na sorna debaixo de uma macieira, Isaac Newton levou com uma maçã em cima do cocuruto e, já se sabe, fez-se luz dentro da sua cabeça.

Quando regressou de férias, Alexander Fleming deu conta que um bolor chamado 'Penicillium notatum' exterminara os estafilococos que tinha deixado numa bandeja e, já se sabe, fez-se luz dentro da sua cabeça.

Quando se esqueceram de milho dentro do forno durante toda uma santa noite, os irmãos Kellog foram de manhãzinha abrir-lhe a porta e, já se sabe, fez-se luz nas suas cabeças e corn-flakes no seu pequeno-almoço.

Em todas estas histórias, e mais outras tantas que facilmente se acham na Wikipédia, há algo em comum: olhos bem abertos, eurekas, descobertas, avanço de saber.

Estes “acasos felizes” têm um nome — Serendipidade, do inglês 'Serendipity'. É um termo cunhado pelo escritor britânico Horace Walpole, a partir do conto persa infantil 'Os três príncipes de Serendip', príncipes do Ceilão que eram muito espertos e estavam sempre a fazer descobertas inesperadas. 


2. Depois do anúncio, em Agosto, da vacina Sputnik V russa, nas últimas semanas temos assistido a uma potente operação de relações públicas de mais três fabricantes de vacinas anti-covid. 

Primeiro foram a Pfizer e a Moderna que, ao anunciarem eficácias próximas dos 95%, viram, imediatamente, as suas acções disparar na bolsa. 

A seguir foi a vez da AstraZeneca que, como não pode apresentar valores de eficácia iguais aos das suas concorrentes, preferiu acentuar as suas vantagens comparativas — preço baixo e distribuição fácil porque pode ser conservada em frigoríficos normais. 

Para além disso, passou para os media uma história de serendipidade: que aos voluntários a quem deram duas doses a eficácia tinha sido de 62%, mas num sub-grupo deles, a quem deram por engano primeiro meia-dose e depois uma dose inteira, a eficácia foi de 90%. 

Ora, infelizmente, tudo indica que estes dados são pouco consistentes e vão resistir com dificuldade ao escrutínio científico entre pares.

As acções da AstraZeneca já deram um forte trambolhão. Pior, muito pior: os covidiotas e os antivacinas vão aproveitar a desconfiança naquela vacina para porem as pessoas a desconfiar também de todas as outras. 

sexta-feira, 27 de novembro de 2020

Sentimento

Fotografia de Chris Neumann


 

Quero escrever até encontrar onde segregas tanto sentimento

Adélia Prado


quinta-feira, 26 de novembro de 2020

NATO *

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 26 de Novembro de 2010 
    
A NATO e o Pacto de Varsóvia eram duas faces da mesma moeda a que se chamava Guerra Fria. Já passaram duas décadas sobre o desmoronamento do império soviético. Agora que a poeira assentou, é interessante olhar-se para o que aconteceu.
     
É verdade que o regime comunista estava tão senil como os velhos que mandavam no comité central. Mas foi o descontentamento do povo que verdadeiramente fez cair o império soviético?
     
David Kotz e Fred Weir, dois peritos em assuntos russos, defendem que não. Na ex-URSS as coisas não aconteceram por nenhuma movimentação popular pró-democracia.
     
A tese deles é a seguinte: as elites que controlavam a URSS perceberam que era melhor para os seus interesses que o império soviético caísse, pois eram essas elites que iam ficar com os despojos. 

Daqui

     
E foi isso que, de facto, aconteceu: os políticos mais poderosos e os oligarcas multimilionários que emergiram na nova Rússia era tudo gente que pertencia à classe dirigente comunista, a começar por Putin e Ieltsin que foram do topo do KGB para o topo do estado. 
     
As teorias do triunfo imparável da democracia que nos animaram a seguir à queda do muro de Berlim têm que ser temperadas com a observação destes factos.
     
E, infelizmente, há ainda mais más notícias para as democracias liberais. A somar à pressão dos fundamentalismos, os efeitos da crise sistémica global estão a minar todos os dias os sistemas de protecção social em que assentam a moderação e a paz social das sociedades abertas.
     
Depois do colapso soviético, a NATO tem feito sucessivas revisões estratégicas — em 1991, em 1999 e, agora, em 2010 em Lisboa. A sua crise de identidade continua.
     
Para já, a NATO vai retirar do Afeganistão. Com o rabo entre as pernas. Tal como fez Mikhail Gorbatchev, em 1989, na véspera da implosão soviética.

quarta-feira, 25 de novembro de 2020

Chama

Daqui



Todas as tempestades
Cobrem a terra.
A vela arde em cima da mesa
A vela arde.

Como no Verão, as traças são empurradas
Para a chama,
Os flocos de neve batem
Contra a janela.

No vidro, anéis brilhantes de neve
E fios de água escorrem.
A vela arde em cima da mesa
A vela arde.

No tecto iluminado
As sombras oscilam.
Braços e pernas,
Cruzados pelo destino.

Duas botas caem no chão
Fazendo barulho,
E lágrimas de cera
Tombam no vestido.

O nevoeiro de neve
Não nos deixa ver.
A vela arde em cima da mesa
A vela arde.

Um sopro vindo do canto
Faz tremer a vela,
Duas asas cruzam-se
Como num anjo.

Nevou muito durante Fevereiro
Como é costume.
A vela arde em cima da mesa
A vela arde.
Boris Pasternak




terça-feira, 24 de novembro de 2020

Chamo-me tu

Fotografia de Catarina Mamede



chamo-me tu porque se desfaz assim 
a distância entre nós como pele
contra pele não somos
para distinguir para separar um
e o outro a fronteira é
o golpe a passagem
tu chamas-me ferida aberta
eu que de entre os dois digo
aqui tens uma faca
faz o meu corte.
Barbara Köhler
Trad.: Vasco Gato


segunda-feira, 23 de novembro de 2020

Democracy


Fotografia de Brandi Ibrao



It's coming through a hole in the air

From those nights in Tiananmen Square

It's coming from the feel

That this ain't exactly real

Or it's real, but it ain't exactly there

From the wars against disorder

From the sirens night and day

From the fires of the homeless

From the ashes of the gay

Democracy is coming to the USA


It's coming through a crack in the wall

On a visionary flood of alcohol

From the staggering account

Of the Sermon on the Mount

Which I don't pretend to understand at all

It's coming from the silence

On the dock of the bay,

From the brave, the bold, the battered

Heart of Chevrolet

Democracy is coming to the USA


It's coming from the sorrow in the street

The holy places where the races meet

From the homicidal bitchin'

That goes down in every kitchen

To determine who will serve and who will eat

From the wells of disappointment

Where the women kneel to pray

For the grace of God in the desert here

And the desert far away:

Democracy is coming to the USA


Sail on, sail on

O mighty Ship of State

To the Shores of Need

Past the Reefs of Greed

Through the Squalls of Hate

Sail on, sail on, sail on, sail on


It's coming to America first

The cradle of the best or the worst

It's here they got the range

And the machinery for change

And it's here they got the spiritual thirst

It's here the family's broken

And it's here the lonely say

That the heart has got to open

In a fundamental way

Democracy is coming to the USA


It's coming from the women and the men

O baby, we'll be making love again

We'll be going down so deep

The river's going to weep,

And the mountain's going to shout Amen

It's coming like the tidal flood

Beneath the lunar sway

Imperial, mysterious

In amorous array

Democracy is coming to the USA


Sail on, sail on

O mighty Ship of State

To the Shores of Need

Past the Reefs of Greed

Through the Squalls of Hate

Sail on, sail on, sail on, sail on


I'm sentimental, if you know what I mean

I love the country but I can't stand the scene

And I'm neither left or right

I'm just staying home tonight

Getting lost in that hopeless little screen

But I'm stubborn as those garbage bags

That Time cannot decay

I'm junk but I'm still holding up

This little wild bouquet

Democracy is coming to the USA

Leonard Cohen (1992)




domingo, 22 de novembro de 2020

Longe

Fotografia de Svetlana Pochatun



Há uma gramática aberta
no teu corpo, e soletro cada palavra
que o teu olhar me oferece.

Limpo as sílabas que te
escorrem pelo rosto com um lenço de
vidro, descobrindo a tua transparência.

E sais de dentro de um pó de
advérbios, para que eu te dê um nome,
e a vida volte a correr por ti.
Nuno Júdice



sábado, 21 de novembro de 2020

Memes para covidiotas*

* Hoje no Jornal do Centro 


O combate à pandemia tem um impacto devastador nas actividades que precisam da mobilidade e do gregarismo das pessoas, como, por exemplo, o turismo, a “noite”, os espectáculos. Mas será que acontece o mesmo na economia vista como um todo? Os países que descuraram a frente sanitária saíram-se melhor na frente económica? 

Os números do segundo trimestre deste ano, período em que aconteceu a primeira vaga da Covid-19, respondem a estas duas perguntas com um rotundo não. Espanha, Reino Unido e Peru, os três países com maiores trambolhões no PIB, estão também nos lugares cimeiros na mortalidade; pelo contrário, Lituânia, Coreia do Sul e Taiwan, os três países com menores quedas na economia, tiveram baixa mortalidade.


O Peru é uma desgraça. Acaba de conhecer três presidentes numa semana. E, já se sabe, quando a cabeça não tem juízo o corpo é que paga: tem a terceira maior mortalidade do mundo e a maior queda do PIB.

Taiwan é o país com melhor performance, com bons indicadores económicos e indicadores sanitários excelentes: desde o início da pandemia só teve, ao todo, 609 infecções e sete mortos, numa população de 23,8 milhões de pessoas. 


Uma das grandes responsáveis pelo sucesso de Taiwan é a sua ministra digital, Audrey Tang, de 39 anos, “hacker cívica, anarquista conservadora e transgénero”, há quatro anos no governo a aplicar uma política de transparência absoluta da informação. Ela contou tudo o que está a ser feito numa entrevista ao Folha de S. Paulo:

— tecnologias tradicionais (sabão, álcool-gel em todo o lado, controlos de temperatura, higienização);

— testes gratuitos de acesso livre, quer nos operadores públicos como nos privados;

— hotéis de isolamento para visitantes ou para quem não tem condições em casa;

— rastreamentos de casos pelos telemóveis, deslocações monitorizadas e cercas sanitárias electrónicas aos quarentenados;

— mapas online de todas as farmácias com os respectivos stocks de máscaras; em cada quinzena, cada adulto pode recolher nove máscaras e cada criança dez a preços subsidiados; 

— vouchers de estímulo económico (600 euros mensais a quem perdeu rendimentos por causa da peste) geridos com a mesma tecnologia;

— muita atenção e rigor na comunicação.

Uma curiosidade: Taiwan tem uma rede de cem pessoas para responder, em poucas horas, a qualquer boato ou lixo anti-científico que esteja a viralizar nas redes sociais. E isso é feito com memes engraçados.

Era bom termos cá algo parecido. A ver se diminuía a reprodução de covidiotas.