Entrar de repente pelos olhos adentro
Entrar de repente pelos olhos adentro e escancarar as árvores: mas aquilo que amaste perdura. Junto da água morna os animais aguardam o ruído vegetal da noite, e as luzes bocejam a mansidão das pernas esticadas: o amor não tem tempo, e dura no que amaste. Dura de repente nos olhos abertos e a água que respira no flanco dos animais bocejando devagar a chegada da noite e das redes e os passos mornos dos caçadores, e as luzes escancaradas do silêncio. Dura esticado nas árvores, dura mansamente sem palavras nem coisas, sem tempo para aguardar as mãos do caçador e as redes mornas respirando sobre a água: aquilo que amaste perdura. António Franco Alexandre

