terça-feira, 25 de setembro de 2018

Senhora

Fotografia de Mike Fox


Senhora, há demasiados pássaros
No vosso piano
Que atrai o Outono sobre uma selva
Espessa de nervos palpitantes e libélulas

As árvores em arpejos insuspeitados
Às vezes perdem a orientação do globo

Senhora, suporto isso tudo. Sem clorofórmio,
Descendo ao fundo da madrugada,
O rouxinol, rei de Setembro, informa-me
Que a noite se deixa cair entre a chuva
Burlando a vigilância dos vossos olhares
E que uma voz canta longe da vida
Para suster o espaço despregado
O espaço tão cheio de estrelas que está quase a cair

Senhora, às dez cheira a tabaco de artista
Amais o aroma a corpo de pássaro
Sois um fenómeno ligeiro
Vou-me, solitário, até ao ocaso dos turistas:
É muito mais belo
Vicente Huidobro
Trad.: Ricardo Marques


segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Serralvilhos*

* Cadê das vinte fotografias de Robert Mapplethorpe que censurasteis, Serralvilhos?

Fotografia de Robert Mapplethorpe 


O Sena não se vende


Dizem alguns directores literários
(e accionistas da própria propaganda)
que «o Sena não se vende». E é verdade:
Não vende. Só as putas se vendem.
E em Portugal são tantas que não há
bolsas bastantes para comprá-las,
nem caralhos bastantes
para fodê-las como mereciam.
Jorge de Sena


domingo, 23 de setembro de 2018

Soneto para uma estação

Fotografia Olho de Gato



Estas sombras antigas de poente
guardam arcos de sol — dias de outono —
desfolhados na noite, nunca ausente,
quando as horas bocejam voz de sono.

São instantes maduros de nascente
na surpresa incessante do mês nono,
concebidos em gestos, mão silente,
quando as horas bocejam cor de sono.

Entre os cílios, o mundo em movimento,
sob as asas dos olhos morre um vento
para não ser sequer restos de sono.

Mas ao leste dos lábios pousa a aurora
fogem sombras antigas, vão-se embora...
surgem arcos de sol — dias de outono.
Majela Colares


Violência urbana (#39)

Fotografia Olho de Gato

sábado, 22 de setembro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#212)


Há 10% de homens que estudaram, folhearam as enciclopédias, consultaram os sites da especialidade...

Há 10% que sabem o que é um colibri...




Este texto "Os homens e os minetes", de Ana Anes, teve resposta de Miguel Sousa Tavares.

Um e outro podem ser lidos aqui.

Aqueço-me com isto

Fotografia de Giulia Bertelli



Aqueço-me com isto. Ao seu calor
O nosso sangue é um e amadurece
Boa-noite meu amor.
Boa-noite, que amanhece.
Pedro Tamen


sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Encomendas*

* Hoje no Jornal do Centro


1. No dia 27 de Setembro de 2010, o secretário-geral da OCDE, sr. Ángel Gurría, apareceu em todos os media portugueses a recomendar um aumento vigoroso dos impostos sobre o imobiliário. Para além do IMI, a criatura queria também um aumento no IMT, o imposto que, quando ainda se chamava sisa, foi carimbado por Guterres como “o imposto mais estúpido do mundo”.
Durante dias a comunicação social não falou de outra coisa. Aquela conversa sintonizava-se tanto com a conversa do governo Sócrates que até parecia uma encomenda.

No dia 14 de Maio de 2013, o secretário-geral da OCDE, sr. Ángel Gurría, recomendou a Portugal que aumentasse impostos, tesourasse pensões, cortasse nos subsídios e indemnizações dos desempregados e carregasse nos combustíveis.
Durante dias a comunicação social não falou de outra coisa. Aquela conversa sintonizava-se tanto com a conversa do governo Passos que até parecia uma encomenda.

No passado dia 11 de Setembro de 2018, foi publicado um relatório da OCDE do eterno senhor Gurría, relatório esse que fez com que os nossos media desatassem a “informar” que os professores portugueses ganham dinheiro que nunca mais acaba.
Durante dias a comunicação social não falou de outra coisa. Aquela conversa sintonizava-se tanto com a conversa que o governo Costa gostaria de ter se tivesse coragem que até parecia uma encomenda.

Em 2010, a OCDE acarinhou Sócrates. Em 2013, mimou Passos. Agora quis fazer o mesmo a Costa mas as coisas não correram bem. Nem a perorar nove anos, quatro meses e dois dias seguidos, o sr. Ángel Gurría conseguiria convencer os portugueses que os seus professores são uns nababos.

2. Em vez de fazer como Bill Murray no filme “Os Caça-Fantasmas”, o bloco de esquerda, para tentar exterminar o fantasma Robles, propôs um “adicional ao IMT”, propôs um aumento da velhinha sisa.

Isto é, se o deixassem, o bloco adicionava ainda mais estupidez ao “imposto mais estúpido do mundo”.

Days

Fotografia de Alexander Popov

What are days for?
Days are where we live.
They come, they wake us
Time and time over.
They are to be happy in:
Where can we live but days?

Ah, solving that question
Brings the priest and the doctor
In their long coats
Running over the fields.
Philip Larkin


quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Tempo

Fotografia de Daiga Ellaby


Tempo — definição da angústia.
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
Ao coração pulsátil dum poema!
Era o devir eterno em harmonia.
Mas foges das vogais, como a frescura
Da tinta com que escrevo.
Fica apenas a tua negra sombra:
— O passado,
Amargura maior, fotografada.

Tempo...
E não haver nada,
Ninguém,
Uma alma penada
Que estrangule a ampulheta duma vez!

Que realize o crime e a perfeição
De cortar aquele fio movediço
De areia
Que nenhum tecelão
É capaz de tecer na sua teia!
Miguel Torga


quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Regressos*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 19 de Setembro de 2008



1. Herman José regressou com a Roda da Sorte. Eu fui fã da primeira edição deste concurso que passou na RTP. Desta nova aposta da SIC ainda é cedo para dizer.

Há uns bons anos, Herman José, Cândido Mota e Ruth Rita conseguiram transformar um insosso e bocejante concurso televisivo numa desbunda inesquecível.

Duvida? Basta ir ao YouTube. Acha-se com facilidade a última sessão da anterior Roda da Sorte, emitida em 1993. É a meia hora mais louca que conheço de um concurso televisivo.



Cândido Mota, impecável como sempre, anunciou Herman com a voz off mais in da nossa televisão. Este adentrou no estúdio de óculos escuros e caçadeira nas mãos, tal qual um Schwarzenegger.

Plácida como uma madona renascentista, Ruth Rita sorria enquanto virava as letras. Os três concorrentes, sem pestanejar, iam dando à roda e jogando em piloto automático. Herman José mal lhes ligava. O trabalho dele naquele dia era desfazer, a tiro de zagalotes, os adereços e o cenário. Assim fez com impecável pontaria.

No final, aquele estúdio ficou com um cheiro a pólvora mais intenso que o de uma oficina de pirotecnia na época alta.

2. Depois das férias de Verão, o Cine Clube de Viseu regressou com a versão final cut de Blade Runner lançada para assinalar os 25 anos deste clássico da ficção científica. Esta remontagem de Blade Runner é ainda mais sombria que a de 1982. Visto com olhos actuais, estranha-se aquele mundo analógico criado por Ridley Scott. A obra falhou a antevisão dos aparatos do nosso mundo digital mas continua a ser um filme de culto.

Foi feita edição especial, cheia de extras, em DVD e em Blu-Ray.

Gostei

Fotografia Olho de Gato


Gostei de saber que não estamos sós
gostei de sonhar
gostei que não dissesses o segredo
gostei de saber que ainda existes
que algures respiras o mesmo ar que eu respiro
gostei ter esquecido o teu nome
mas ter ainda o teu perfume na memória
gostei de saber que ainda há o jardim
e o banco e o lago
e que os peixes ainda lá estão

Gostei
gostei muito de saber que estás bem
e bem esquecido
no cotão do passado que não volta
Henrique Risques Pereira


terça-feira, 18 de setembro de 2018

Eu era quase um anjo

Fotografia Olho de Gato


Eu era quase um anjo
e escrevi relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios

Isso foi antes
de aprender a álgebra
José Tolentino de Mendonça