Já estou a ficar velho — António Franco Alexandre #2
Já estou a ficar velho, ainda que tenha esta figura fixa sem idade, e me mantenha em forma o aparelho a que todos aqui somos sujeitos: a correria cega, a suspensão elástica, o salto em trave e trampolim de folhas, e outras altas artes de ginástica. Mas eu bem sei sentir além da aparência, e já me aconteceu, ao visitar o canto onde o mundo se acaba em chão de areia, ali ver o meu fim anunciado. Quando em tranquilo pouso assim medito, peso, e calculo tudo aquilo que não fiz, e não tive, e não alcanço com o rosto extravagante que me deram, já tudo bem pensado considero se não devo encontrar algum consolo na ciência que conduz o feiticeiro, e acreditar também, como me diz, que é, esta vida, emaranhada teia de mal fiado, mal dobado fio, e a morte tão somente um singular casulo de onde sairei transfigurado. Mas não sei de que valha imaginar um outro ser incólume e perfeito que da minha substância seja feito e tome, noutro mundo, o meu lugar; se me não lembra, como serei eu? Se for quem sou, ...

