quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Multitarefas*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 20 de Fevereiro de 2009

1. Nós conseguimos fazer várias coisas ao mesmo tempo.

Há uns anos no IP3 foi apanhado pela GNR um condutor que ia a conduzir a 160 à hora e a fazer a barba. O facto é que o homem não se esbarrou.


Daqui
Já vi num multibanco uma mulher a levantar dinheiro da máquina enquanto falava ao telemóvel e comia um croissant. Ela não se enganou. Não falou para o multibanco nem comeu o telemóvel nem levantou o croissant.

Dizia-se que o presidente americano Gerald Ford não era capaz de caminhar e mascar chiclet ao mesmo tempo mas isso era só uma maldade dos seus inimigos políticos.

Nós somos multitarefas.

Portanto, por favor, não me digam que os portugueses não são capazes de votar para as autárquicas e para as legislativas no mesmo dia. Então as pessoas são capazes de votar em três papelinhos diferentes mas em quatro já não?

Ultimamente tenho ouvido muito o argumento que o que é preciso é atacar a crise económica em vez de se estar a pensar em problemas de minorias como o casamento gay. Ora, este argumento não tem em conta que os políticos também são multitarefas. Numa manhã de trabalho e sem madrugarem muito, os deputados podem perfeitamente resolver o problema do casamento entre homossexuais e ainda ficam com a tarde toda para lutarem contra a recessão.

2. Às vezes, na cabeça das pessoas, forma-se a ideia que a felicidade está sempre noutro lugar ou noutra circunstância, nunca no lugar ou na circunstância em que se está.

É disso que trata Revolutionary Road, de Sam Mendes, um filme amargo que vai aumentar a taxa de divórcios do mundo.

3. No último sábado foi lançado o primeiro número da Viseu.M. É uma revista excelente e imperdível.

Parabéns ao Grupo de Missão do Museu Municipal de Viseu.

O poema ensina a cair

Fotografia de Verne Ho



O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.
Luiza Neto Jorge


terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Música para ouvir




Música para ouvir no trabalho
Música para jogar baralho
Música para arrastar corrente
Música para subir serpente
Música para girar bambolê
Música para querer morrer
Música para escutar no campo
Música para baixar o santo
Música para ouvir
Música para ouvir
Música para ouvir

Música para compor o ambiente
Música para escovar o dente
Música para fazer chover
Música para ninar nenê
Música para tocar novela
Música de passarela
Música para vestir veludo
Música pra surdo-mudo

Música para estar distante
Música para estourar falante
Música para tocar no estádio
Música para escutar rádio
Música para ouvir no dentista
Música para dançar na pista
Música para cantar no chuveiro
Música para ganhar dinheiro

Música para ouvir
Música para ouvir
Música para ouvir

Música pra fazer sexo
Música para fazer sucesso
Música pra funeral
Música para pular carnaval
Música para esquecer de si
Música pra boi dormir
Música para tocar na parada
Música pra dar risada

Música para ouvir
Música para ouvir
Música para ouvir
Arnaldo Antunes






segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Tentação

Fotografia de Steven Wright



Eu não resistirei à tentação,
não quero que de mim possas perder-te,
que só na fonte fria da razão
renasça a minha sede de beber-te.

Eu não resistirei à tentação
de quanto adivinhei nesta amargura:
um sim que só assalta quem diz não,
um corpo que entrevi na selva escura.

Resistirei a te chamar paixão,
a te perder nos versos, nas palavras:
mas não resistirei à tentação
de te dizer que o céu é o que rasa

a luz que nos teus olhos eu perdi
e que na terra toda não mais vi.
Luís Filipe Castro Mendes



domingo, 17 de fevereiro de 2019

Nova passante



1. sobre
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)

2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz

3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
……………..te dedicaria
um concerto
…………………para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteiro de silêncios
………esta salva de arrepios)
Carlito Azevedo


sábado, 16 de fevereiro de 2019

Não quero que vás à monda

Colheita — Ceifeiras
Óleo de Silva Porto (1893) 


Rapazes e raparigas
Pelos campos a cantar
Andam a colher a espiga
Oh meu lindo amor
Para o pão não lhes faltar

Ai não quero que vás à monda
Nem à ribeira lavar
Só quero que me acompanhes
Oh meu lindo amor
No dia em que m'eu casar!

Ai no dia em que m'eu casar
Hás-de ser minha madrinha
Não quero que vás à monda
Oh meu lindo amor
Nem à ribeira sozinha!

Oh luar de meia noite
Não digas à minha amada
Que eu passei à porta dela
Oh meu lindo amor
Às quatro da madrugada

Ai não quero que vás à monda
Nem à ribeira lavar
Só quero que me acompanhes
Oh meu lindo amor
No dia em que m'eu casar!

No dia em que m'eu casar
Hás-de ser minha madrinha
Não quero que vás à monda
Oh meu lindo amor
Nem à ribeira sozinha!














sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Queijo*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Antes de irem de fim-de-semana, os deputados fizeram uma resma de votações sobre portagens: desactivação de um pórtico em Aveiro, embaratecimento de dois troços na zona de Coimbra, abolição de portagens nas A22, A23, A24, A25, A28, A29, A41 e A42.

Ora, tudo aquilo foi um teatro para deixar tudo na mesma. Se os deputados julgam que com este faz-de-conta ficam melhor no retrato, estão muito enganados.

Ainda por cima, pelas votações socialistas desiguais, percebe-se que alguns deputados rosa votaram a “favor” da abolição das portagens nas auto-estradas do seu distrito, mas a “desfavor” nas outras. Uma palhaçada.

2. No sábado e no domingo, realizou-se a Feira do Pastor e do Queijo, de Penalva do Castelo, a primeira, a melhor de todas as feiras do queijo da serra que nos enche o corpo de prazer e de colesterol. Se houvesse justiça, o prazer era para nós e o colesterol para os deputados que nos quiseram tanguear na véspera.

A feira esteve magnífica, acampada numa tenda gigante que protegeu da intempérie Rosinha e as suas coristas, enquanto elas descreviam a pulsão macha para a “coentrada”...



... e a arte de “descascar a banana”, para não falar nos condimentos do “refogado” do Quim Barreiros.

Rezam as crónicas, eu não vi mas li algures, que o ainda-ministro-das-obras-cativadas e futuro eurodeputado Pedro Marques também lá esteve a degustar queijo e, depois, com o coração amanteigado, prometeu que este ano havia um avanço nas muito esperadas obras na rua com trânsito de caracol que liga Viseu ao Sátão.

O problema é que o ainda-ministro Pedro Marques descaiu-se. Afinal, depois de tanto tempo passado e tanta conversa, o projecto ainda está para conclusão. Logo, se está para conclusão, conclui-se que ainda não está concluído. Logo, afinal, ainda não vai acontecer nada este ano naquela rua.

O que vale ao ainda-ministro-das-obras-de-papel é que o que se diz enquanto se mastiga queijo é para esquecer.

De tarde

Fotografia Olho de Gato

Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.
Cesário Verde


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Tacto

Egon Schiele (daqui)

o olho enxerga o que deseja e o que não
ouvido ouve o que deseja e o que não
o pinto duro pulsa forte como um coração
trepar é o melhor remédio pra tesão
um terço é muita penitência pra masturbação
a grávida não tem saudades da menstruação
se não consegue fazer sexo vê televisão
manteiga não se usa apenas pra passar no pão
boceta não é cu mas ambos são palavrão
gozo não significa ejaculação
o tacto mais experiente é a palma da mão

o olho enxerga o que deseja e o que não
ouvido ouve o que deseja e o que não
depois de ejacular espera por outra erecção
o ânus precisa de mais lubrificação
por mais que se reprima nunca seca a secreção
o corpo não é templo, casa nem prisão
uns comem outros fodem uns cometem outros dão
por graça por esporte ou tara por amor ou não
velocidade se controla com respiração
o pau se aprofunda mais conforma a posição
o tato mais experiente é a palma da mão

o pinto duro pulsa forte como um coração
gozo não significa ejaculação
o ânus precisa de mais lubrificação
por graça por amor por tara ou pra reprodução
ouvido ouve o que deseja e o que não
velocidade se controla com respiração
trepar é o melhor remédio pra tesão
o tacto mais experiente é a palma da mão
se não consegue fazer sexo vê televisão
o olho enxerga o que deseja e o que não
uns comem outros fodem uns cometem outros dão
Arnaldo Antunes


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Sexta-feira, dia 13*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 13 de Fevereiro de 2009

Esta edição do Jornal do Centro sai em dia aziago – hoje é sexta-feira, dia 13, um dia de azar.

Cara leitora, caro leitor, hoje não é bom dia para jogar no euromilhões. Devia ter jogado ontem. Até a Maya, de rotundidades tão recentes, lhe contaria o saber antigo que nos diz que uma sexta-feira, dia 13 é um dia impropício, um dia com perigos redobrados mesmo para quem não acredita em bruxas, pero que las hay, hay.

À cautela, cara leitora e caro leitor, não passe debaixo de uma escada, nem abra o guarda-chuva dentro de casa, nem preencha hoje o seu IRS embora se o fizer depressa e o enviar pela internet, o ministro Teixeira dos Santos vai ter isso em especial consideração.

Um conselho: dê três pancadas na madeira mas como deve ser, na parte debaixo do tampo da mesa. Tem uma mesa de vidro?!?! Não devia. Compre uma de madeira. Mas não a compre hoje, hoje é sexta-feira, dia 13.

Se vir uma aranha não rejubile porque não, não é sinal de dinheiro. Aranha dá dinheiro, sim, mas em todos os dias menos neste.

Para aonde vai com essa ferradura e o martelo? Pregá-la na sua porta por causa dos ladrões e dos maus espíritos? Boa ideia, mas guarde essa carpintaria para amanhã.

Ainda bem que o Olho de Gato não é um gato preto mas, mesmo assim, uma crónica neste dia é imprudente.

É que escrever neste dia é impropício, como tão bem explica Maya que nunca faz plásticas redondas numa sexta-feira, dia 13.




Uma coisa pode a cara leitora e o caro leitor fazer este serão, mas – atenção! - só depois da meia-noite. Antes de ir dormir, escreva um poema para o seu amor (ou escolha um de Eugénio ou de Drummond de Andrade).

É que amanhã já não é sexta-feira, dia 13.

Amanhã é dia de namoração.

Uma vez desaparecido o observador todas as coisas se despenham

Fotografia de Alexander Milo

uma vez desaparecido o observador todas as coisas se despenham
em direcção ao buraco na pedra visível imóvel grotesco como uma entranha
aí vão dar os sulcos paralelos na neve e o olhar surdo do falcão
as matilhas de cães na orla do rio o uivo do lobo na beira do penhasco
o pulso impaciente dos corredores deitados na esteira, trocando
minúsculos papéis com destinos a lápis,
voltará não voltará tudo conta e o olhar das mulheres do outro lado do muro
e o passo breve do relâmpago e o futuro a explodir dentro das coisas das
palavras das casas

e o mundo flutua inteiro no ar
o maior cansaço abre-se diante de nós apetecível com ninguém dentro
acabar-se o pequeno engano este mundo não é o nosso mundo, dizes bem mas
do mundo que não é nosso só conheço a brusca pancada quando corta
a pura raiz do ar E o mundo flutua inteiramente só
coisas inexistentes me acordam como portas abertas fechadas
o abraço móvel da carne

Enquanto o mundo, sei, é um inferno descolorido para além das coisas nunca vistas,
uma transparência quando sofremos ou quando desejamos
o inexplicável instante da partida. Os corredores, dispostos
em colunas compactas, olham serenamente
o horizonte flexível, vibrante, soando as súbitas pancadas do trovão longínquo,
percorrendo velozes o silêncio da neve eternamente caindo sobre coisa nenhuma,
a terra respirando inteira, como uma folha pousada do lado de fora da noite,
e o seu bafo impaciente, que a luz azul mistura
António Franco Alexandre


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Poema do homem novo



Niels Armstrong pôs os pés na Lua
e a Humanidade inteira saudou nele
o Homem Novo.
No calendário da História sublinhou-se
com espesso traço o memorável feito.

Tudo nele era novo.
Vestia quinze fatos sobrepostos.
Primeiro, sobre a pele, cobrindo-o de alto a baixo,
um colante poroso de rede tricotada
para ventilação e temperatura próprias.
Logo após, outros fatos, e outros e mais outros,
catorze, no total,
de película de nylon
e borracha sintética.
Envolvendo o conjunto, do tronco até os pés,
na cabeça e nos braços,
confusíssima trama de canais
para circulação dos fluidos necessários,
da água e do oxigénio.
A cobrir tudo, enfim, como um balão de vento,
um envólucro soprado de tela de alumínio.
Capacete de rosca, de especial fibra de vidro,
auscultadores e microfones,
e, nas mãos penduradas, tentáculos programados,
luvas com luz nos dedos.

Numa cama de rede, pendurada
da parede do módulo,
na majestade augusta do silêncio,
dormia o Homem Novo a caminho da Lua.

Cá de longe, na Terra, num burburinho ansioso,
bocas de espanto e olhos de humidade,
todos se interpelavam e falavam
do Homem Novo,
do Homem Novo,
do Homem Novo.

Sobre a Lua, Armstrong pôs finalmente os pés.
Caminhava hesitante e cauteloso,
pé aqui,
pé ali,
as pernas afastadas,
os braços insuflados como balões pneumáticos,
o tronco debruçado sobre o solo.

Lá vai ele.
Lá vai o Homem Novo
medindo e calculando cada passo,
puxando pelo corpo como bloco emperrado.

Mais um passo.
Mais outro.
Num sobrehumano esforço
levanta a mão sapuda e qualquer coisa nela.
Com redobrado alento avança mais um passo,
e a Humanidade inteira,
com o coração pequeno e ressequido,
viu, com os olhos que a terra há-de comer,
o Homem Novo espetar, no chão poeirento da Lua, a bandeira da sua Pátria,
exactamente como faria o Homem Velho.
António Gedeão