terça-feira, 26 de março de 2019

A namoradinha de um amigo meu

Fotografia de Tony Clark


Estou amando loucamente
A namoradinha de um amigo meu
Sei que estou errado
Mas nem mesmo sei como isso aconteceu

Um dia sem querer olhei em seu olhar
E disfarcei até pra ninguém notar.
Não sei mais o que faço
Pra ninguém saber que estou gamado assim

Se os dois souberem
Nem mesmo sei o que eles vão pensar de mim
Eu sei que vou sofrer mas tenho que esquecer
O que é dos outros não se deve ter

Vou procurar alguém que não tenha ninguém
Pois comigo aconteceu
Gostar da namorada de um amigo meu.





segunda-feira, 25 de março de 2019

A minha saia

Fotografia de Sean Kong



A minha saia é debruada de
dentes brancos
— saia rodada com pregas
e esconderijos que se abrem
sobre os precipícios da infância

É uma saia alta como janelas
remendada pelas mãos cuidadosas dos amantes

Debaixo da minha saia há
uma caixa com botões e olhos
que encontrei no leito seco dos caminhos
há um girassol que me aquece
o farelo e o sal dos ossos
há uma colmeia e o crescente negro
da sombra a roçar os joelhos

Há o riso dos velhos

Som de cordas, velas de moinho,
fábulas e exércitos balançam
dentro da minha saia
quando danço

Debaixo da minha saia há também casas
onde recolho o vento, e delas se avista
o pescoço curvo de dois bois mansos
alisando o pasto

Rodo o corpo e a minha saia aponta para o sul
baixo-a para desenhar círculos na poeira
ergo-a para atravessar o rio
na hora em que
a maré sobe
sobe
sobe
sobe
Ana Duarte


domingo, 24 de março de 2019

Abriu no colchão as valas possíveis

Fotografia de Jonathan Borba



Abriu no colchão as valas possíveis
e enterrou por ordem alfabética
cada parte do corpo: os pêlos
os pântanos as unhas encravadas
e as unhas que outros cravaram pelas coxas.
Estudou cuidadosamente as ondas as horas
para que não restassem dúvidas
sobre os caminhos marítimos
para a noite. Por fim
podou as janelas do quarto,
bebeu o vinho;
roeu a carne do quarto
até não sobrar nenhum coração.
Catarina Nunes de Almeida


sábado, 23 de março de 2019

Por que me falas nesse idioma?

Fotografia de Ryoji Iwata


Por que me falas nesse idioma? perguntei-lhe, sonhando.
Em qualquer língua se entende essa palavra.
Sem qualquer língua.
O sangue sabe-o.
Uma inteligência esparsa aprende
esse convite inadiável.
Búzios somos, moendo a vida
inteira essa música incessante.
Morte, morte.
Levamos toda a vida morrendo em surdina.
No trabalho, no amor, acordados, em sonho.
A vida é a vigilância da morte,
até que o seu fogo veemente nos consuma
sem a consumir.
Cecília Meireles


sexta-feira, 22 de março de 2019

O estrado*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Junto ao bairro de Marzovelos em Viseu foi feito um lago artificial que, de tão belo e inesperado naquele sítio, deve ter ajudado a vender os apartamentos dos prédios vizinhos. Tinha patos, tinha até uma grácil garça que por lá poisava para alegria de pequenos e graúdos.

Entretanto, aquela beleza virou pesadelo. Aquilo está transformado num charco de águas pútridas, numa fábrica de mosquitos e melgas, numa ameaça à saúde pública.

Aquele desmazelo feito de telas rasgadas e lixo é o retrato chapado do presidente da câmara e da sua equipa.

Em matéria de obras novas, já se sabe, António Almeida Henriques é só inconseguimentos. O mesmo na manutenção das que recebeu: basta espreitar o lago que virou charco em Marzovelos.

2. Numa cativante cerimónia acontecida em 2017, no Hospital de S. Teotónio, foi tirada uma fotografia a nove cidadãos, cinco deles em cima de um estrado vermelho, onde se reconhecem o então secretário de estado da saúde, Manuel Delgado, o director do hospital, Cílio Correia, e os presidentes da câmara de Viseu e de Tondela. A fotografia, publicada na última edição deste jornal, mostra os homens da saúde de gravata, os autarcas sem, todos à frente de uma placa a anunciar: “Aqui vai ser instalado o Centro Oncológico”.
Anúncio do Centro Oncológico do Hospital Tondela-Viseu, 6 de Maio de 2017
Fotografia do Jornal do Centro (editada) 
Na altura, Manuel Delgado, naquele estrado erguido acima do chão, deixou tudo prometido e calendarizado: iam ser seis milhões de euros de investimento num bunker com capacidade para dois aceleradores lineares, mas, avisou o governante, só um é que ia ser instalado e ia estar a funcionar dois anos depois. Isto é: agora, em 2019.

Foi, repito, uma cativante cerimónia. Só que, logo a seguir, o cativante Mário Centeno, o nosso CR7 das finanças, puxou o travão do acelerador linear. Não há lá nada a não ser a placa.

Mas tenhamos calma: estamos em ano eleitoral, a coisa é capaz de ser reprometida. Em nova cativante cerimónia. Caro Cílio Correia, é melhor ir preparando, de novo, o estrado.

Nuvens

Fotografia Olho de Gato

Para descrever as nuvens
muito teria de apressar-me,
pois numa fracção de segundo
deixam de ser estas e começam a ser outras.

É sua propriedade
não se repetir
nas formas, tonalidades, poses e configurações.

Sem o peso de qualquer lembrança,
pairam sem dificuldade sobre os factos.

Mas nem testemunhá-los podem,
pois logo se dissipam em todas as direcções.

Comparada com as nuvens,
a vida afigura-se firme,
quase duradoura, eterna.

Perante as nuvens
até uma pedra parece nossa irmã,
na qual se confia,
mas elas, enfim, umas levianas primas afastadas.

As pessoas que existam, caso queiram,
e depois morram uma por uma,
as nuvens não têm nada a ver com
coisas
tão estranhas.

Sobre toda a tua vida
e sobre a minha, ainda não toda,
desfilam com pompa, como desfilavam.

Não têm obrigação de morrer connosco.
Não precisam do nosso olhar para navegar.
Wislawa Szymborska
Trad.: Elzbieta Milewska e Sérgio Neves


quinta-feira, 21 de março de 2019

Entre os meus amigos o amor é uma grande tristeza

Fotografia de Mitchell Orr

Entre os meus amigos o amor é uma grande tristeza.
Tornou-se um fardo diário, um festim,
uma guloseima para loucos, uma fome para o coração.
Visitamo-nos uns aos outros perguntando, dizendo uns aos outros.
Não ardemos intensamente, questionamos o fogo.
Não caímos para a frente com os nossos rostos vivos
e ardentes a olhar para dentro do fogo.
Fixamente olhamos para dentro dos nossos próprios rostos.
Tornámo-nos as nossas próprias realidades.
Procuramos esgotar a nossa absoluta incapacidade de amor.

Entre os meus amigos o amor é uma questão dolorosa.
Procuramos entre os rostos que passam
a face da esfinge que apresentará o enigma.
Entre os meus amigos o amor é uma resposta a uma questão
que não chegou a ser colocada.
Por isso coloquemo-la.

Entre os meus amigos o amor é um pagamento.
É uma dívida antiga cujo valor foi gasto de uma forma idiota.
E continuamos a pedir emprestado uns aos outros.
Entre os meus amigos o amor é um salário
que qualquer um pode receber para ter uma vida honesta.
Robert Duncan
Trad.: Luís Parrado






quarta-feira, 20 de março de 2019

É a primavera cercada pelas vozes *

* Reedição

Fotografia de Olho de Gato


Apagaram-se as luzes. É a primavera cercada
pelas vozes.
E enquanto dorme o leite, a minha casa
pousa no silêncio e arde pouco a pouco.
No círculo de pétalas veementes cai a cabeça —
e as palavras nascem.
— Límpidas e amargas.





Eis um tempo que começa: este é o tempo.
E se alguém morre num lugar de searas imperfeitas,
é o pensamento que verga de flores actuais e frias.
A confusão espalha sobre a carne o recôndito peso do ouro.
E as estrelas algures aniquilam-se para um campo sublevado
de seivas, para a noite que estremece
fundamente.

Melancolia com sua forma severa e arguta,
com maçãs dobradas à sombra do rubor.
Aqui está a primavera entre luas excepcionais e pedras soando
com a primeira música de água.
Apagaram-se as luzes. E eu sorrio, leve e destruído,
com esta coroa recente de ideias, esta mão
que na treva procura o vinho dos mortos, a mesa
onde o coração se consome devagar.

Algumas noites amei enquanto rodavam ribeiras
antigas, degrau a degrau subi o corpo daquela que se enchera
de minúsculas folhas eternas como uma árvore.
Degrau a degrau devorei a alegria —
eu, de garganta aberta como quem vai morrer entre águas
desvairadas, entre jarros transbordando
húmidos astros.

Algumas vezes amei lentamente porque havia de morrer
com os olhos queimados pelo poder da lua.
Por isso é de noite, é primavera de noite, e ao longe
procuro no meu silêncio uma outra forma
dos séculos. Esta é a alegria coberta de pólen, é
a casa ligeira colocada num espaço
de profundo fogo.
E apagaram-se as luzes.

— Onde aguardas por mim, espécie de ar transparente
para levantar as mãos? Onde te pões sobre a minha palavra,
espécie de boca recolhida no começo?
E é tão certo o dia que se elabora.
Então eu beijo, degrau a degrau, a escadaria daquele corpo.
E não chames mais por mim,
pensamento agachado nas ogivas da noite.

É primavera. Arde além rodeada pelo sal,
por inúmeras laranjas.
Hoje descubro as grandes razões da loucura,
os dias que nunca se cortarão como hastes sazonadas.
Há lugares onde esperar a primavera
como tendo na alma o corpo todo nu.
Apagaram-se as luzes: é o tempo sôfrego
que principia. — É preciso cantar como se alguém
soubesse como cantar.
Herberto Helder



Autocitações*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 20 de Março de 2009

1. “Cito-me muitas vezes. Isso apimenta a minha conversa.”, disse uma vez Bernard Shaw, numa blague que não deve ser levada a sério já que a autocitação é só um sinal de preguicite aguda. É o principal defeito desta crónica.

2. Em 2005, Maria de Lurdes Rodrigues começou o seu mandato a desaconselhar os trabalhos de casa. Agora acabou a dizer sim à confederação de pais que quer as escolas abertas 12 horas por dia.

Escrevi aqui no Olho de Gato de 13.10.2006: “Maria de Lurdes Rodrigues, a Ministra da Educação, tem sido autoritária com as escolas, despesista com as autarquias, facilitista com os alunos e titilante com as famílias.”

Este entre aspas a mim próprio não é, como dizia Bernard Shaw, para apimentar esta crónica. É só o balanço do marilurdismo.

3. Escrevi na última semana: «A quase primavera é a voz de Ney Matogrosso a cantar a epiderme "por debaixo dos pano".»

Um leitor atento chamou-me a atenção que aquele “por debaixo dos pano” não tem nada a ver com epidermes, nem amores da primavera, mas sim com corrupção, com dinheiros por “debaixo das mesa”.

Transcrevo o refrão:
O que a gente faz
É por debaixo dos pano
Prá ninguém saber
É por debaixo dos pano
Se eu ganho mais
É por debaixo dos pano
Ou se vou perder
É por debaixo dos pano

Provou-se em tribunal que o dono da Bragaparques quis comprar o vereador José Sá Fernandes. Pena aplicada a Domingos Névoa: 5000 euros de multa.

Esta pena é uma anedota mas o tribunal aplicou as leis anti-corrupção que temos.

Entretanto, no parlamento, insossa-se o pão. Dos tentáculos do polvo ninguém trata.

terça-feira, 19 de março de 2019

Do fim dos segredos

Fotografia de Ben White


Quando se conta a outrem um segredo este
desmaia: a palavra
torna-se pele
sem leão lá dentro.

Não é mais segredo e não o sendo
finge ser lembrança
de fabrico imperfeito:
um cliqueti no silêncio escancara

a dantes inamovível porta
e virada a página acha-se apenas
uma moeda
que não corre já.
Júlio Pomar


segunda-feira, 18 de março de 2019

[ Falo. ]

Fotografia de Skyler King


De joelhos tocas
a lâmpada púrpura
De leve a envolves
nem sei com que luva

que lume ... que lágrima
que sumo ... que soma
de trémulas asas
e roxas papoulas

Ó líquido sol
tanto mais agudo
quanto hesita agora
entre mel e cuspo

O cerco retomas
à roda e ao longo
Toda te absorves
toda enfim te encontras

a mim me encontrando
mais perto que nunca
do lúcido âmago
da tua ternura

Deglutes ... Derretes
Derrapas ... Devoras
insistes sem pressa

porém pressurosa

O céu tem de súbito
a forma de uns lábios
também de um túmulo
Tu tão muda ... Eu falo

para que me acudas
pois já se derrama
em gotas de lua
a púrpura lâmpada
David Mourão-Ferreira


domingo, 17 de março de 2019

Crítico

Fotografia Olho de Gato

Eis que me veio uma visita
do tipo – achei – que não me irrita.
O meu jantar não era chique,
mas ele comeu tanto, ali, que
não sobrou nada em casa; e quando
notei-o quase arrebentando,
o Demo o fez sair só para
cuspir no prato em que jantara:
“A sopa estava um arremedo;
a carne, crua; o vinho, azedo”.
Que morra paralítico!
Com mil demónios! Era um crítico.
Goethe
Trad.: Nelson Ascher