terça-feira, 16 de julho de 2019

Ó César

Fotografia de Priscilla Du Preez


não sou uma mulher moderna
não me ligo à net
gosto de compras ao vivo
cujas listas faço em cadernos de argolas
que depois esqueço
e só me lembro de elixir para aclarar a voz,
tenho tantas embalagens
como Warhol de Tomato Soap
ou de detergente Brillo,
para que ao chegares a casa
te envolva, te abrace e te queira
mas nem só de voz vive o homem
dizes tu,
e então a minha saúda-te
como a daqueles que vão morrer
Ana Paula Inácio

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Chega de saudade

Fotografia de Elias Domsch


Vai, minha tristeza, e diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer

Chega de saudade, a realidade é que
Sem ela não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia que não sai de mim
Não sai de mim, não sai

Mas se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca

Dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de viver longe de mim

Vai, minha tristeza, e diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer

Chega de saudade, a realidade é que
Sem ela não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia que não sai de mim
Não sai de mim, não sai

Mas se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca

Dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de viver longe de mim
Não quero mais esse negócio de você viver assim
Vamos deixar desse negócio de você viver sem mim
Vinicius de Moraes


domingo, 14 de julho de 2019

Memória

Fotografia de Rich Smith

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Carlos Drummond de Andrade


sábado, 13 de julho de 2019

Intercidades

Fotografia de Amine Rock Hoovr

galopamos pelas costas dos montes no interior
da terra a comer eucaliptos a comer os entulhos de feno
a cuspir o vento a cuspir o tempo a cuspir
o tempo
o tempo que os comboios do sentido contrário engolem
do sentido contrário roubam-nos o tempo meu amor

preciso de ti que vens voando
até mim
mas voas à vela sobre o mar
e tens espaço asas por isso vogas à deriva enquanto eu
vou rastejando ao teu encontro sobre os carris faiscando
ocasionalmente e escrevo para ti meu amor
a enganar a tua ausência a claustrofobia de cortinas
cor de mostarda tu caminhas sobre a água e agora
eu sei
as palavras valem menos do que os barcos

preciso de ti meu amor nesta solidão neste desamparo
de cortinas espessas que impedem o sol que me impedem
de voar e ainda assim do outro lado
o céu exibe nuvens pequeninas carneirinhos a trotar
a trotar sobre searas de aveia e trigais aqui não há
comemos eucaliptos eucaliptos e igrejas caiadas
debruçadas sobre os apeadeiros igrejas caiadas
meu amor
eu fumo um cigarro entre duas paragens leio
o Lobo Antunes e penso as pessoas são tristes as
as pessoas são tão tristes as pessoas são patéticas meu
amor ainda bem que tu me escondes do mundo me escondes
dos sorrisos condescendentes do mundo da comiseração
do mundo
à noite no teu corpo meu amor eu
também sou um barco sentada sobre o teu ventre
sou um mastro

preciso de ti meu amor estou cansada dói-me
em volta dos olhos tenho vontade de chorar mesmo assim
desejo-te mas antes antes de me tocares de dizeres quero-te
meu amor hás-de deixar-me dormir cem anos
depois de cem anos voltaremos a ser barcos
eu estou só
Portugal nunca mais acaba comemos eucaliptos
eucaliptos intermináveis longos e verdes
comemos eucaliptos entremeados de arbustos
comemos eucaliptos a dor da tua ausência meu amor
comemos este calor e os caminhos de ferro e a angústia
a deflagrar combustão no livro do Lobo Antunes
comemos eucaliptos e Portugal nunca mais acaba Portugal
é enorme eu preciso de ti e em sentido contrário roubam-nos
o tempo roubam-nos o tempo meu amor tempo
o tempo para sermos barcos e atravessar paredes dentro dos quartos

meu amor para sermos barcos à noite
à noite a soprar docemente sobre as velas acesas

barcos.
Margarida Vale de Gato


sexta-feira, 12 de julho de 2019

O íman centralista*

* Hoje no Jornal do Centro



Daqui
Depois de 38 mil milhões de euros de receita global das privatizações, depois do aumento doido da dívida pública em 165 mil milhões de euros a seguir a Guterres ter abandonado o pântano, depois da transferência global de 130 milhões de euros de fundos comunitários que era suposto servirem para desenvolver as regiões mais pobres, o país está mais desigual do que nunca, com a riqueza e a população empilhadas no litoral.

Barroso e Sócrates fingiram que controlavam o défice, com truques contabilísticos e receitas extraordinárias. Passos e Costa, depois da bancarrota de 2011, controlaram-no mesmo. Numa coisa não houve diferença nenhuma entre estes quatro primeiros-ministros: todos eles usaram o pretexto do controlo do défice para centralizar, cada vez mais, todo o poder em Lisboa.

O ex-secretário de estado do ensino superior e professor de economia José Reis, aqui no Jornal do Centro, quantificou o que nos está a acontecer: de "2001 a 2017, o país perdeu 1% da sua população, mas na Área Metropolitana de Lisboa aumentou 5,8%. A própria Área Metropolitana do Porto perdeu 1%. O Norte, o Centro e o Alentejo perderam respectivamente 3,2%, 5,1% e 8,3%."

Lisboa é um íman que despovoa já não só o interior, mas todo o país. José Reis faz o diagnóstico exacto do que é agora Portugal: "um país unipolar, unicamente centrado e concentrado em Lisboa, com uma forte deslocação interna de recursos e uma desestruturação dos demais lugares".

Como o actual poder socialista é comandado por gente que gastou os fundilhos das calças na câmara de Lisboa, por gente que se casou e se nomeia para os gabinetes entre si, por gente que vai ganhar as próximas eleições, este panorama centralista dificilmente mudará.

O interior precisa de uma fiscalidade substancialmente mais baixa em IRC, IRS e IMI, que atraia investimento e gente. Partidos que forem omissos nestas propostas não merecem o nosso voto.

Amansar

Fotografia de Bruno do Val



Amansar a ideia de vê-lo
é o tecido dos meus dias
e eu me recubro totalmente

com este selo — esta companhia
podemos nos amar na distância
transcender o espírito largo

é o fosso que nos separa
e contigo estou — sempre — a um passo
do abismo escuto o eco dum graveto

quebrando lá embaixo o clique
pros meus ouvidos tão abertos é tão nítido
quanto o teu desejo de ficar comigo.
Júlia de Carvalho Hansen


quinta-feira, 11 de julho de 2019

Caixa de velocidades

Fotografia de Alexandre Godreau

O carro arde, é
verão, falha-me
a embraiagem
(confesso que
tenho medo).

É por Monsanto que
sigo para recuperar
no opifício do comercial
centro a celeridade e
beijar as montras do
auto-conhecimento.

Faço aquisições, toco
na pele do pêssego.

Posso porque conheço
tão bem o curso que
me transporta para o
nível menos um
como a família
de feudatários
da qual descendo.
Respiro o condicionado
ar e a consolação de
um austero estacionamento.

Está escuro
está fresco
reina o silêncio.

Regresso ao vermelho
lugar e espera-me
aí — ar gasoso e suspenso

o garagista com olhos de Cristo
e é com mãos nos bolsos
que me aponta
o dedo.

De mão dada com
o meu saco plástico,
não me mexo.

De olhos fechados
conto até três
(como Ele pode)
mas é ponto
assente:
Pulverizados podem
seguir outros corpos
em nuvens isentas
financeiros túneis ou
vias rápidas mas
face ao ultimato
não concedo

Penso em nós —
súbditos amantes
no fundo do
saco de polietileno —
e simplesmente

não desapareço.
Susana Araújo



quarta-feira, 10 de julho de 2019

Gestos*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 10 de Julho de 2009


1. Num dos seus textos em Para Acabar de Vez Com a Cultura, Woody Allen conta como lhe é difícil seguir espectáculos de mímica: “O mimo começou então a estender um cobertor e, instantaneamente, a minha velha confusão instalou-se. Tanto podia estar a estender um cobertor como a ordenhar uma cabra.”

A expressão “o gesto é tudo” para muita gente quer dizer “o gesto diz tudo”. Ora, pelo menos a mim e a Woody Allen, falta ao gesto o GPS do sentido, falta-lhe a bendita palavra bem dita.

Quando o coreógrafo Paulo Ribeiro, no seu excelente Maiorca, esconde um bailarino e uma bailarina no meio do palco, num aparato construído com quatro tábuas altas e opacas...



... eu elaboro uma ideia do que ele e ela foram lá para dentro fazer. Mas será que uma vendedora da Zara está a pensar o mesmo que eu? E um técnico de radiologia?

Que quero dizer com isto? Eu gosto de histórias mas se me derem umas pistazinhas para compreender o enredo, agradeço.


2. Correu mundo uma fotografia de uma iraniana a fazer um pirete a Mahmoud Ahmadinejad, o presidente não eleito do Irão. 

Neste caso, é bom que este dedo médio esticado ao barbudo não propicie demasiadas segundas leituras.

3. Manuel Pinho, no parlamento, levantou as mãos com os indicadores esticados, num gesto a que normalmente se associa à ideia de “chifres”, de “cornos”, de “chavelhos”.


O gesto foi dirigido a um deputado comunista, Bernardino de sua graça, que é um apreciador das virtudes democráticas da Coreia do Norte.

Não percebi o Pinho mas vi explicado no twitter o que ele quis verdadeiramente dizer com aquela mímica:
«Bernardino, está combinado, pá! Em Agosto lá nos encontramos nas festas de Barrancos!»

Poem not to be read at your wedding

Fotografia de Denny Müller

You ask me for a poem about love
in lieu of a wedding present, trying to save me
money. For three nights I’ve lain under
glow-in-the-dark stars I’ve stuck to the ceiling
over my bed. I’ve listened to the songs
of the galaxy. Well, Carmen, I would rather
give you your third set of steak knives
than tell you what I know. Let me find you
some other store-bought present. Don’t
make me warn you of stars, how they see us
from that distance as miniature and breakable,
from the bride who tops the wedding cake
to the Mary on Pinto dashboards
holding her ripe red heart in her hands.
Beth Ann Fennelly


terça-feira, 9 de julho de 2019

O poema sai barato

Fotografia de Allie Smith

O poema
sai barato
já não se escreve
com pena de pato

Um poema
é um poema
é um poema

Uma rosa
não é uma rosa
não é uma rosa

O rabo
é abstracto?
o poema
sobre o poema
(este poema)
engonha
mas não envergonha
Adília Lopes


segunda-feira, 8 de julho de 2019

Dorme cá hoje

Fotografia de Daniel Adesina

Dorme cá hoje. Tenho uma almofada a mais
feita de memory foam das televendas
onde a curvatura do meu crânio
já foi adivinhada.

Praticamos o modo bed and breakfast,
aceito dinheiro ou cartões
mas não te dou crédito,
em troca levo-te o café à cama.

Não estranhes este meu hábito
de deixar a luz acesa
para fingir que está alguém em casa
ou o outro de deixar
pernas e portas entreabertas
esperando que o último a sair
se lembre de as fechar.

Não espreites o quartinho dos arrumos,
onde guardo a esfregona,
os homens que corroem
e o óleo de cedro para móveis.

O meu chão irá ranger
quando o privares do teu peso;
por hoje, torna-te o homem-a-dias
que vem arejar este quarto alugado.

Descansa se ouvires o som de ossos
a estalar durante a noite;
são só os meus esqueletos
a dançar vitoriosos no armário.
Ana Bessa de Carvalho



domingo, 7 de julho de 2019

Preferia não saber das ruas

Fotografia de Austin Chan

Preferia não saber das ruas
onde posso desfazer-me do desejo.
Ir ao encontro das estátuas
para me refazer do medo.

A noite é pequena e cabe
num gesto atirado ao ar
quando se parte sem olhar para trás,
nem necessidade de confirmar amor algum.

Tirei tudo dos bolsos.
Toquei o rosto para sentir a temperatura.
Não estou morta nem vou morrer.

De regresso a casa, a única certeza:
que a manhã virá para reflectir a palidez,
a habitual dificuldade em existir cedo.
Marta Chaves