sábado, 27 de novembro de 2021

Ética das vacinas + Um psicodrama em três actos

* No Jornal do Centro aqui


Ética das vacinas

Vamos para dois anos de peste. Com o frio, regressaram em força à Europa as infecções, os internamentos, as mortes. As coisas estão menos más do que há um ano graças às vacinas, mas estas não foram a bala de prata capaz de exterminar o “bicho”. 

A variante Delta do SARS-CoV-2 veio desfazer-nos o sonho da “imunidade de grupo”. Não aconteceu quando atingimos os 70% de vacinados, não aconteceu quando chegámos aos 85%. “Não vai acontecer nem aos 100%”, angustiam-se os velhos, enquanto esperam e desesperam pela terceira dose.

Escrevo este Olho de Gato no exacto dia em que a Agência Europeia do Medicamento aprovou o uso da vacina da Pfizer para crianças dos 5 aos 11 anos. 

Esta decisão é perturbante. Estamos perante um dilema cada vez mais recorrente na bioética. Vacinar pode-se. Mas será que se deve? 

Tanto quanto se sabe, as crianças não adoecem com Covid, embora sejam transmissoras do vírus. Se esta vacinação for feita com o propósito de proteger os adultos, ela é eticamente reprovável. Se for para evitar que haja encerramento de escolas e haja evidência científica que isso se consegue com uma vacinação maciça, então esta passa a ser eticamente aceitável, porque estaremos a vacinar os miúdos para seu benefício e não para benefício dos crescidos. 

Como se sabe, o ensino à distância prejudica os alunos, especialmente os mais pobres. Vale a pena tentar tudo para que as aulas “ao vivo” não sejam interrompidas. 

*****

Um psicodrama em três actos

Primeiro acto — 25 de Outubro

Palco: assembleia da república. Protagonistas: Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. Chumbo do orçamento de estado logo na generalidade. Resultado: uma crise política não isenta de riscos para a esquerda em geral e para aqueles dois em particular. 


Segundo acto — 27 de Novembro

Palco: secções de voto do PSD. Protagonistas: Rui Rio e Paulo Rangel. 

Na plateia, André Ventura, Chicão, a esquerda e as empresas de sondagens torcem por Rio. Cotrim faz claque por Rangel. Mas, como se diz nas Beiras, “quem está fora racha lenha”. Hoje é com os militantes laranjas.

Não tenho preferências nesta guerra. É difícil perceber-se para que lado escorrem aqueles pagamentos de quotas a esmo, é difícil avaliar-se o verdadeiro peso eleitoral dos caciques que dominam o aparelho, mas, ...

Imagem do Observador, daqui

... apesar de todo esse nevoeiro, mantenho o palpite que publiquei há um mês nas redes sociais: Paulo Rangel vai derrotar Rui “Tó-Zé Seguro” Rio.


Terceiro e último acto — 30 de Janeiro de 2022 

Palco: secções de voto nas freguesias e consulados. Eleições legislativas. Protagonistas: Costa e Rangel, se a minha previsão estiver certa.   

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Autumn

Fotografia Olho de Gato


In the dreamy silence

Of the afternoon, a

Cloth of gold is woven

Over wood and prairie;

And the jaybird, newly

Fallen from the heaven,

Scatters cordial greetings,

And the air is filled with

Scarlet leaves, that, dropping,

Rise again, as ever,

With a useless sigh for

Rest—and it is Autumn.
Alexander Posey 


 

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

A almofada de Peter Pan *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 25 de novembro de 2011

      

1. Peter Pan, a história do menino que se recusa a crescer, está a ser levado à cena pela Zunzum, numa versão muito divertida que, espera-se, esteja a alegrar as crianças do distrito de Viseu.      

A certa altura no espectáculo — que tem muita interactividade entre os actores e o público —, desata-se uma luta de almofadas das bravas. Vem almofada para cá, vai almofada para lá... Os jovens espectadores que, como se sabe, têm sempre pilhas novas e carregadas, deliram com aquela batalha.      

Infelizmente, nenhuma almofada passou ao meu alcance — e não dá muito jeito ir prevenido com “munições” destas de casa... — pelo que não pude fazer o truque que se impunha naquelas circunstâncias: fingir que apontava à grácil e delicada Wendy e, zás!, acertar em cheio no imenso Capitão Gancho. Fica aqui a táctica para uma futura guerra, perdão!, para uma futura representação deste Peter Pan.      

O debate público entre António José Seguro e Pedro Passos Coelho sobre o orçamento para 2012 pareceu sempre, desde o princípio, a versão da Zunzum do Peter Pan: o que se tem passado é uma luta de almofadas. Há almofada orçamental, diz Seguro, não há, riposta Passos.      

Registe-se que todos os partidos, todos sem excepção, propuseram mais impostos durante a preparação deste orçamento. Os da esquerda querem mais impostos sobre os ricos, os socialistas é o típico nem-carne-nem-peixe-e-tudo-sem-sal segurista e a direita no poder taxa tudo o que mexe. 

Portugal, mais que um Peter Pan, é uma noite na Transilvânia. 

     

2. O fim da Rádio Noar, uma empresa auto-sustentável, pôs a nu uma evidência: Viseu tem umas elites que podem ter algum poder e algum dinheiro mas não têm nenhum sentido comunitário nem cívico. 

Elites assim não vão longe. Como, infelizmente, se tem visto e continuará a ver.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Julga-me a gente toda por perdido

 
Fotografia de Djeneba Aduayom


Julga-me a gente toda por perdido

vendo-me, tão entregue a meu cuidado.

andar sempre dos homens apartado

e dos tratos humanos esquecido.


Mas eu, que tenho o mundo conhecido

e quase que sobre ele ando dobrado,

tenho por baixo, rústico, enganado,

quem não é com meu mal engrandecido.


Vão revolvendo a terra, o mar e o vento,

busque riquezas, honras a outra gente,

vencendo ferro, fogo, frio e calma;


que eu só, em humilde estado, me contento

de trazer esculpido eternamente

vosso fermoso gesto dentro n'alma.

Luis Vaz de Camões



terça-feira, 23 de novembro de 2021

O canto de uma bailarina

A pequena bailarina de 14 anos, Degas
+ detalhes aqui


 

O sol gira na minha cabeça

Sou uma palmeira que arde.

E danço, danço,

à espera da chuva do amor.


A lua gira na minha cabeça.

Sou o silêncio e a noite.

E danço, danço,

embalsamando-me de felicidade

com o perfume do teu corpo.


Tu és a chama e eu sou o fumo.

Tu és a água e eu sou o fogo.

Tu és a faca e eu sou o fruto.


Dou-te o ouro da minha pele,

as pérolas dos meus dentes,

os dois rubis dos meus seios,

os diamantes esguios dos meus olhos.

Em troca, apenas te peço

que te lembres de mim.

Anónimo árabe do século X

Trad.: Fernando Ilharco Morgado


segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Dallas, November 22, 1963, assassination of JFK — a PALINODE by Bob Dylan


 When I asked Yale literature professor David Bromwich about “Murder Most Foul,” he called it a palinode, a poem of retraction, written against the hopes raised by the 1960s and by Dylan himself. I never knew the term but it fits. In the course of a quarter of an hour, Dylan retracts his first thoughts on the subject of who killed JFK, which he uttered when he was just 22 years old, a rising star from Minnesota via the coffee houses of Greenwich Village. 

 The back story of “Murder Most Foul” begins three weeks after the liberal president was shot dead in Dallas under suspicious circumstances. In early December 1963, Dylan appeared at the banquet of a left-liberal group, the Emergency Civil Liberties Committee, at the Waldorf-Astoria Hotel to accept an award for his musical contribution to the civil rights movement, Dylan shocked the respectable crowd by saying he saw something of himself in the man accused of killing Kennedy.

 

Twas a dark day in Dallas, November '63
A day that will live on in infamy
President Kennedy was a-ridin' high
Good day to be livin' and a good day to die
Being led to the slaughter like a sacrificial lamb
He said, "Wait a minute, boys, you know who I am?"
"Of course we do, we know who you are"
Then they blew off his head while he was still in the car
Shot down like a dog in broad daylight
Was a matter of timing and the timing was right
You got unpaid debts, we've come to collect
We're gonna kill you with hatred, without any respect
We'll mock you and shock you and we'll put it in your face
We've already got someone here to take your place
The day they blew out the brains of the king
Thousands were watchin', no one saw a thing
It happened so quickly, so quick, by surprise
Right there in front of everyone's eyes
Greatest magic trick ever under the sun
Perfectly executed, skillfully done
Wolfman, oh Wolfman, oh Wolfman, howl
Rub-a-dub-dub, it's a murder most foul

Hush, little children, you'll understand
The Beatles are comin', they're gonna hold your hand
Slide down the banister, go get your coat
Ferry 'cross the Mersey and go for the throat
There's three bums comin' all dressed in rags
Pick up the pieces and lower the flags
I'm goin' to Woodstock, it's the Aquarian Age
Then I'll go to Altamont and sit near the stage
Put your head out the window, let the good times roll
There's a party goin' on behind the Grassy Knoll
Stack up the bricks, pour the cement
Don't say Dallas don't love you, Mr. President
Put your foot in the tank and step on the gas
Try to make it to the triple underpass
Blackface singer, whiteface clown
Better not show your faces after the sun goes down
I'm in the red-light district, like a cop on the beat
Livin' in a nightmare on Elm Street
When you're down in Deep Ellum, put your money in your shoe
Don't ask what your country can do for you
Cash on the barrelhead, money to burn
Dealey Plaza, make a left-hand turn
I'm goin' down to the crossroads, gonna flag a ride
The place where faith, hope, and charity died
Shoot him while he runs, boy, shoot him while you can
See if you can shoot the invisible man
Goodbye, Charlie, goodbye, Uncle Sam
Frankly, Miss Scarlet, I don't give a damn
What is the truth, and where did it go?
Ask Oswald and Ruby, they oughta know
"Shut your mouth, " said the wise old owl
Business is business, and it's a murder most foul

Tommy, can you hear me? I'm the Acid Queen
I'm riding in a long, black Lincoln limousine
Riding in the backseat next to my wife
Heading straight on in to the afterlife
I'm leaning to the left, I got my head in her lap
Hold on, I've been led into some kind of a trap
Where we ask no quarter, and no quarter do we give
We're right down the street from the street where you live
They mutilated his body and they took out his brain
What more could they do? They piled on the pain
But his soul's not there where it was supposed to be at
For the last fifty years they've been searchin' for that
Freedom, oh freedom, freedom over me
I hate to tell you, mister, but only dead men are free
Send me some lovin', tell me no lies
Throw the gun in the gutter and walk on by
Wake up, little Suzie, let's go for a drive
Cross the Trinity River, let's keep hope alive
Turn the radio on, don't touch the dials
Parkland hospital, only six more miles
You got me dizzy, Miss Lizzy, you filled me with lead
That magic bullet of yours has gone to my head
I'm just a patsy like Patsy Cline
Never shot anyone from in front or behind
Got blood in my eye, got blood in my ear
I'm never gonna make it to the new frontier
Zapruder's film, I've seen that before
Seen it thirty-three times, maybe more
It's vile and deceitful, it's cruel and it's mean
Ugliest thing that you ever have seen
They killed him once and they killed him twice
Killed him like a human sacrifice
The day that they killed him, someone said to me, "Son
The age of the Antichrist has just only begun"
Air Force One comin' in through the gate
Johnson sworn in at 2:38
Let me know when you decide to throw in the towel
It is what it is, and it's murder most foul

What's new, pussycat? What'd I say?
I said the soul of a nation been torn away
And it's beginning to go into a slow decay
And that it's thirty-six hours past Judgment Day
Wolfman Jack, he's speaking in tongues
He's going on and on at the top of his lungs
Play me a song, Mr. Wolfman Jack
Play it for me in my long Cadillac
Play me that, "Only The Good Die Young"
Take me to the place Tom Dooley was hung
Play, "St. James Infirmary" and, "The Port of King James"
If you want to remember, you better write down the names
Play Etta James, too, play "I'd Rather Go Blind"
Play it for the man with the telepathic mind
Play John Lee Hooker, play "Scratch My Back"
Play it for that strip club owner named Jack
Guitar Slim going down slow
Play it for me and for Marilyn Monroe

Play, "Please Don't Let Me Be Misunderstood"
Play it for the First Lady, she ain't feeling any good
Play Don Henley, play Glenn Frey
Take it to the limit and let it go by
Play it for Carl Wilson, too
Looking far, far away down Gower Avenue
Play, "Tragedy" play, "Twilight Time"
Take me back to Tulsa to the scene of the crime
Play another one and, "Another One Bites the Dust"
Play, "The Old Rugged Cross" and, "In God We Trust"
Ride the pink horse down that long, lonesome road
Stand there and wait for his head to explode
Play, "Mystery Train" for Mr. Mystery
The man who fell down dead like a rootless tree
Play it for the Reverend, play it for the Pastor
Play it for the dog that got no master
Play Oscar Peterson, play Stan Getz
Play, "Blue Sky", play Dickey Betts
Play Hot Pepper, Thelonious Monk
Charlie Parker and all that junk
All that junk and, "All That Jazz"
Play something for the Birdman of Alcatraz
Play Buster Keaton, play Harold Lloyd
Play Bugsy Siegel, play Pretty Boy Floyd
Play the numbers , play the odds
Play, "Cry Me A River" for the Lord of the gods
Play Number Nine, play Number Six
Play it for Lindsey and Stevie Nicks
Play Nat King Cole, play, "Nature Boy"
Play, "Down In The Boondocks" for Terry Malloy
Play, "It Happened One Night" and, "One Night of Sin"
There's twelve million souls that are listening in
Play, "Merchant to Venice" play, "Merchants of Death"
Play, "Stella by Starlight" for Lady Macbeth

Don't worry, Mr. President, help's on the way
Your brothers are coming, there'll be hell to pay
Brothers? What brothers? What's this about hell?
Tell them, "We're waiting, keep coming"
We'll get them as well
Love Field is where his plane touched down
But it never did get back up off the ground
Was a hard act to follow, second to none
They killed him on the altar of the rising sun
Play, "Misty" for me and, "That Old Devil Moon"
Play, "Anything Goes" and, "Memphis in June"
Play, "Lonely At the Top" and, "Lonely Are the Brave"
Play it for Houdini spinning around his grave
Play Jelly Roll Morton, play, "Lucille"
Play, "Deep In a Dream" and play "Driving Wheel"
Play, "Moonlight Sonata" in F-sharp
And, "A Key To The Highway" for the king of the harp
Play, "Marching Through Georgia" and, "Dumbaroton's Drums"
Play, "Darkness" and death will come when it comes
Play, "Love Me Or Leave Me" by the great Bud Powell
Play, "The Blood-stained Banner" play, "Murder Most Foul"
Bob Dylan

domingo, 21 de novembro de 2021

Lambe-te o fogo cada ruga e pêlo


Fotografia de Jeanloup Sieff


Lambe-te o fogo cada ruga e pêlo,

e a água onde mergulhas logo encerra

em fresca e fina luva o corpo inteiro

e sem pudor algum te abraça e beija.

Mesmo o vulgar sabão, no tanque absorto,

pela nudez da carne se insinua

e entre as coxas flutua, como um peixe

mais branco, que outra sombra continua.

Mas eu, quando me cubro do teu rosto

e sou somente de água e fogo feito,

melhor ainda te conheço e quero,

e nada no teu corpo me é alheio:

em cada grão de pele te desejo,

em cada ruga leio o meu destino.

António Franco Alexandre 



sábado, 20 de novembro de 2021

€499.999,99*

* No Jornal do Centro aqui


Caso 1 — justiça privada entre privados:

O grupo Altis e o fundo de investimento Explorer, em conflito por causa de um hotel, resolveram a questão através de arbitragem. 

Como manda o figurino, cada uma das partes nomeou um árbitro e foi designado um presidente, o juiz jubilado Luís Vaz das Neves, ex-presidente do Tribunal da Relação de Lisboa, que dirigiu o acto no salão nobre do mesmíssimo tribunal. 

A coisa veio a lume porque, para além de não ser curial fazer-se justiça privada nas instalações de um tribunal, Vaz das Neves recebeu 280 mil euros por este serviço, quando um juiz, aposentado ou no activo, não pode receber dinheiro “por fora”. Foi mais uma mancha no Tribunal da Relação de Lisboa, muito debaixo dos holofotes depois das cavalarias altas do juiz Rui Rangel.


Caso 2 — justiça privada aplicada ao Estado: 

O consórcio Elos (Brisa, Soares das Costa, Lena, …), a quem foi adjudicada a linha de TGV Poceirão-Caia ...

Brincadeirinha numa imagem achada aqui

... de cuja construção o Estado desistiu, pediu uma indemnização de 168 milhões de euros. 

A querela foi entregue a um tribunal arbitral constituído por três professores universitários que tinham direito a €270 mil euros de honorários cada um, mas que aceitaram receber “só” €210 mil, o equivalente a quatro anos de salários nas suas respectivas faculdades de direito. 

Os insignes catedráticos condenaram o Estado em €149 milhões, que este não pagou. Entretanto, a Brisa e demais associados puseram a máquina de contar juros a funcionar e já estão a pedir mais de 200 milhões. O TGV socrático não tem um centímetro construído, nunca saiu do papel, mas vai custar-nos muito papel.


O primeiro caso é entre privados, não há nada a objectar. As duas partes chegaram a uma solução para o litígio, a coisa ficou resolvida de uma forma célere, não foi entupir os nossos tribunais.

Já o segundo foge completamente aos usos e aos costumes da nossa justiça arbitral: é de todo incomum saber-se o “quem”, o “quê” e o “quanto”. E o Estado (ainda) não ter pago é um espanto dos espantos. 

Os nossos “árbitros” mais rodados, pertencentes à grande advocacia de negócios, são gente que só frequenta salas de boas madeiras e melhor climatização, com bons tapetes e melhores quadros, e que odeia confusões como aquela do TGV.  Se tivesse sido com os “Júdices” e os “Proenças” deste mundo, e são eles que tratam da quase totalidade das grandes arbitragens, não se sabiam os nomes dos intervenientes, muito menos quanto é que eles abicharam e em quanto tinha sido condenado o Estado. 

Entre eles é tudo confidencial e a regra é: “na dúvida, racha ao meio”. Se o rentista de uma PPP pede €400 milhões, leva €200 milhões. Um árbitro que levante problemas é desalojado deste círculo, nunca mais sopra nestes apitos dourados.

E o Estado paga de fininho os valores decididos. Sempre. Nestes casos, nem é necessário o visto do Tribunal de Contas. Centenas de milhões de euros dos nossos impostos escorrem todos os anos através desta arbitragem sem VAR. 

Perdão, foi instituído agora um VAR: quando a indemnização for de €500 mil ou superior, passa a haver possibilidade de recurso. Daí, a anedota numérica que serve de título a este Olho de Gato — não vamos passar a ter indemnizações a condenarem o Estado pelo exacto valor lá de cima, mas não se andará longe.


Notas finais:

(i) recomendo muito vivamente a investigação da jornalista Inês Serra Lopes intitulada “O negócio milionário da Justiça Arbitral do Estado”, publicada na revista do Expresso, em 23 de Outubro;

(ii) não tenho nada contra a resolução de litígios entre privados através de mecanismos arbitrais, mais rápidos e desburocratizados;

(iii) tenho tudo contra arbitragem que envolva o Estado que não seja pública, transparente, escrutinável e, claro, recorrível para os tribunais, seja qual for o valor em causa;

(iv) este assunto não vai ser debatido na próxima campanha legislativa mas devia; a grande advocacia de negócios capturou a decisão política, é um dos cancros da terceira república e precisa de ser posta na ordem.

sexta-feira, 19 de novembro de 2021

She’s becoming a lady of a certain age

Fotografia de Eikoh Hosoe

Recomeça se puderes…

em rigor conselho ou aviso de médico,

e tantas as coisas que, percebo, admito,

não quero, não posso, não sou, ainda sou,

não sou a cor, sou os químicos, a química,

da tinta das canetas com que escrevo,

da tinta com que escondo os brancos cabelos,

sou o carvão do lápis,

sou o fio de cabelo que atravessa a agulha,

sou esta boca que ainda te debulha,

sou três dioptrias,

três dentes chumbados,

três amores amados,

se eu soubesse não tinha casado,

sou um triângulo, sou a geometria,

seno, co-seno e tangente, sou trigonometria,

pudesse eu ser a tua sede, a tua alegria,

sou uma janela sem gelosia,

sou vazia, uma garrafa de plástico,

sou todos os plásticos no mar,

nas entranhas de todos os peixes,

sou com folhas secas a solidão de uma piscina,

se eu te der a mão nada mas não me deixes,

sou o trânsito em hora de ponta,

sou um animal perdido no meio do trânsito,

sou poluição,

sou vento de incêndio,

sou uma inundação, uma decepção,

sou o candeeiro de rua

onde urinam todos os cães da rua,

sou o teu cão no dia em que morreu,

sou o miolo do pão, o caroço da cereja,

na Índia monção, na América furacão

e só de poemas tenho inveja,

sou o barulho do apito do amolador de tesouras,

sou das nuvens uma arcaica lavoura,

sou da lavoura uma vinha velha e vindimada,

sou os pedais da bicicleta do carteiro,

sou o cheiro da relva acabada de cortar,

sou o cheiro a pão acabado de cozer,

sou os pontos das tuas cicatrizes,

sou das meretrizes a tua meretriz

e ainda não comecei a dizer-te o que sou,

sou tudo o que faço,

sou o que desfaço,

sou a faca de aço do rapaz do talho,

sou um velho carvalho, o chão do teu soalho,

sou os teus pés quando descalços

e não me vendo nem te vendo a retalho,

sou o avental ensanguentado onde o rapaz do talho limpa as mãos,

sou Verónica, Madalena, Pavia e Maria,

respeitinho que já tenho idade para ser tua tia

mas com esses sonhos tão grandes nos olhos ainda te fazia.

Raquel Serejo Martins

quinta-feira, 18 de novembro de 2021

Formigueiro *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 18 de Novembro de 2011


O descontentamento e o mal-estar decorrentes da crise sistémica global não param de aumentar e é por isso que, por exemplo, todos os políticos americanos de relevo usam a retórica da defesa da Main Street (símbolo do trabalho) contra a ganância da Wall Street (símbolo do capital especulativo).    

Neste outono, segundo as autoridades, 650 mil americanos já tiraram o seu dinheiro dos grandes bancos e depositaram-no em bancos locais e organizações de crédito não lucrativas e esse movimento está a crescer porque, para além das acções de rua iniciadas com a Occupy Wall Street, ...

Imagem daqui

... a contestação está a usar o formigueiro das redes sociais, com o Facebook à cabeça, para “passar-palavra” com eficácia. 

Em Portugal, a CGD tem o seu balanço degradado e a sua imagem muito prejudicada com os casos do socratismo, os mais conhecidos protagonizados por Berardo (um buraco de mais de 300 milhões de euros em acções do BCP) e Manuel Fino (uma cratera de 380 milhões em acções da Cimpor). Para além desta desgraça, infelizmente, o rebanho de boys que Pedro Passos Coelho para lá nomeou não ajuda nada à recuperação da imagem do banco público.  

Concluindo, o formigueiro das redes sociais não tem, para já, condições para causar grande mossa de fuga de depositantes aos banqueiros portugueses que se preparam para empochar baratos 2 em cada 13 dos euros que a Troika emprestou a Portugal.   

Mas há coisas em que o formigueiro pode ajudar o país: corre no Facebook um apelo para que compremos os presentes de Natal a pequenos empreendedores, a artesãos, a artistas, de forma a que o “nosso dinheiro chegue às pessoas comuns e não às grandes multinacionais”.  

É uma boa ideia. Deixei-a no meu Facebook. Deixo-a também aqui.

quarta-feira, 17 de novembro de 2021

O grito

 

Fotografia de Stow Kelly




O grito sinaliza a discórdia

            na alegria exacerbada


            mania trazida de casa

            no gesto adquirido

            pela rua


a névoa encobre o corpo

e abafa o grito


                  o grito silencia.

Pedro Du Bois


terça-feira, 16 de novembro de 2021

Estou intoxicado

Fotografia de Christian Coigny





Estou intoxicado
tenho palavras que não chegam a palavras
tenho camisas e cicatrizes que não me servem
tenho relógios que não chegam a tempo
tenho corpos que não chegam a frontais
tenho ruas milhares de ruas e não tenho roupa para isso

Tenho barba onde não sou delicado

Em suma
espera-me um comboio sinistro
cujo bilhete é uma locomotiva de braços
isto eu posso dizer
calculei mal o salto
eu estava armado e podia tornar-me perigoso
correram avisos em todas as línguas
eu tinha a força de 40.000 escravos
e erguia pirâmides para o meu egipto interior
onde anos mais tarde ninguém saberia
o que dizer

Eu estou intoxicado
é preciso que isto entre no meu currículo
de uma forma soberana
e para isso basta que percebam que
eu nasci para inventar o avião
eu nasci para regar as plantas do meu susto
eu nasci para instalar nervos no vosso tédio
e através deles descarregar a minha raiva
cavalo selvagem magro e descontrolado
apaixonando-se pela própria crina

Eu nasci para a memória de um acontecimento

Narrar-vos o meu crescimento
não seria a construção de uma paisagem
mas a ficção de um sobressalto
eu próprio me encontro longe
o meu coração é um epicentro
e eu apenas as réplicas de algo que se renova no escuro
que se aproxima como a urgência de um crime
na noite mais desesperada

Do outro lado da linha
na noite mais desesperada
a confissão de que se está pobre
na noite mais desesperada
do outro lado da linha
a confissão
estendo a mão e peço-me a mim mesmo
como a esmola possível
a esmola de um dia
de uma tarde
de um minuto sem tímpanos
sim o sino da surdez
e as cordas soltas na garganta
carrilhão da minha loucura

Estou intoxicado
tragam-me uma seringa ou o acto de escrever
o acto de reparar o acto de rasgar
o acto de roer as unhas ao precipício
o acto de me equilibrar o acto de atentar
o acto de sugerir o acto de concretizar uma ameaça
o acto de desmontar o telefone o acto de desmontar a voz
o acto de reclamar-se herdeiro do primeiro poema terrestre
o poema que não falava de outros poemas
o poema-pedra a embater na realidade
o poema estilhaçado na paisagem estilhaçada
( o acto de fazer explodir uma granada na boca)

Concentrei-me ao máximo
para não envenenar o momento
mas a concentração foi - ironia - o meu veneno
senti os pulmões pesarem como leques de mármore
senti que não iria alcançar a lucidez
senti a língua aos trambolhões pelo corpo abaixo
senti a lava e o gelo chegarem a um acordo
leopardo em transe diante do espelho
e eu mexi-me

Para quê o movimento?
é propício o movimento? e o desejo é propício?
é propício saber? é propício não saber?
para quê aqui ou ali? medidas e ajustes?
para quê?

Eu dou-vos as definições
a ignorância é um recém-nascido a morrer de frio
a sorte é uma moeda fora de circulação
o espanto é a mesma coisa que aparecer
a guerra é um método de procriar
o medo é um eixo sem rotação
a ciência é ler várias vezes a primeira página
o rumor é a verdade a piscar-nos o olho
o paradoxo é o paradoxo
o suicídio é um fósforo de fumo
a espera é um degrau abaixo
a idade é uma sala para morrer
o fim da história é o princípio de mim e de ti
a magia é a escala magirus do incendiário
a intoxicação é vir aqui vomitar sangue
sobre o vosso vestido nupcial

A cerimónia não existe
não há protocolo
a cerimónia é exactamente não haver protocolo
eu descobri o truque
eu escondi-me atrás do prestidigitador
e quando o pano subiu
eu era o homem mais velho da terra
e ria
ria de todas as crianças
de todos os pais pela mão
de todos os cães tosquiados
de todos os nós de gravata

Ria com um nó na garganta
e era esse o meu traje de gala
porque este poema sou eu a riscar
e a escrever por cima
com luciferina caligrafia
este poema arde de verso para verso
e não pode ser relido corrigido
repensado conduzido repetido
reprogramado
este poema não pode ser parado à porta
este poema é gasolina e comoção
este poema vai entrar para a história do efémero
este poema já nem existe
este poema não chega a ser um vestígio
este poema ferve e estaca e pisa os dedos
com sola vermelha

Eu não estou vivo
eu estou intoxicado
eu salto da varanda para provar que a gravidade
eu salto
eu exijo
eu manifesto-me no acto de produzir
no acto de emagrecer no acto de defender
eu não estou vivo
eu estou pronto para o que há-de vir
eu sou o acto de me julgar apto
para cada dia do meu século
mas noutra condição
não assim
não de costas
não aos espaços
não por enquanto
não se for possível
não para retratos
não para diários
não para aplausos

Eu sou o acto de sair em silêncio
Vasco Gato