quinta-feira, 2 de dezembro de 2021

Duas derrotas *

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 2 de Dezembro de 2011

     

Fotografia Olho de Gato
1. Foi no verão de 2008 que o sr. Paulo Campos começou a propagandear os dispositivos electrónicos de matrícula — era assim que, no início, se chamava aos “chispes” das matrículas.     

Aquele típico homo-socraticus trombeteava que os “chispes” iam proporcionar um “aumento da segurança rodoviária”; que, com eles, se podiam contratar seguros mais baratos; que eles representavam 150 milhões de euros de negócios em novas tecnologias (a empresa de um seu ex-assessor, de facto, ficou com a venda dos pórticos e dos “chispes”).     

Aquela banha-da-cobra atingia o clímax quando o fatal Paulo Campos jurava que os “chispes” não tinham sido criados para cobrar portagens, embora o pudessem fazer. Não era para portagens, dizia ele, os “chispes” tinham sido criados para “potenciar um cluster na área da telemática rodoviária”. Em 2008, esta era a língua de pau do “plano tecnológico” socrático.     

Logo então comecei a alertar para o golpe funesto que se preparava na economia e mobilidade da nossa região. Para mim era claro: se aquele Big Brother avançasse, íamos também ter, mais cedo que tarde, portagens nas “nossas” auto-estradas.     

Assim aconteceu. Foi publicado esta semana o decreto-lei das portagens. Nem se conseguiu sequer evitar que fossem portajados os troços da A25 feitos em cima do velho IP5 e que não têm alternativa nenhuma.     

Hoje vão ouvir-se outra vez as buzinas do Francisco Almeida mas, infelizmente, buzinas não avariam pórticos. 

   

2. O buzinão de hoje já não vai ter reportagem da Rádio Noar. A Rádio Noar foi silenciada na terça-feira pela Rádio Renascença que a tinha comprado.      

A lei da rádio de 2010 do sr. Jorge Lacão foi mesmo feita para isto: para os peixes grandes comerem os peixes pequenos.      

Duas derrotas na mesma semana. Hão-de vir semanas melhores.


quarta-feira, 1 de dezembro de 2021

Ave Maria

Fotografia Olho de Gato

Mães da América
_____________deixem os vossos filhos ir ao cinema!
tirem-nos de casa sem eles saberem o que planeais
é certo que o ar livre é bom para o corpo
______________________________mas quanto à alma
que cresce na escuridão, adornada por imagens prateadas
e quando envelhecerdes como tendes de envelhecer
______________________________não vos hão-de odiar
nem criticar nem hão-de saber
_____________________estarão nalgum país encantador
que viram pela primeira vez numa tarde de Sábado ou de gazeta

talvez até vos agradeçam
_________________pela primeira experiência sexual
que só custou um quarto de dólar
_______________________e não perturbou a paz do lar
saberão de onde vêm os rebuçados
_______________________e os sacos de pipocas gratuitos
tão gratuitos como sair antes de o filme acabar
com um estranho agradável cujo apartamento é no
________________________Céu na Av. Terra
perto da Ponte Williamsburg
____________________ó mães tereis feito tão felizes
os putos porque se ninguém os apanhar no cinema
não aprenderão a diferença
___________________e se isso acontecer será puro gozo
e de qualquer forma ter-se-ão divertido a valer
em vez de vagabundearem no pátio
______________________ou no quarto deles
__________________________________odiando-vos
prematuramente pois que ainda não fizestes nada horrivelmente maldoso
excepto mantê-los afastados das alegrias mais sombrias
__________________________________o que é imperdoável
portanto não me culpem se não seguirem este conselho
__________________________________e a família se desunir
e os vossos filhos ficarem velhos e cegos frente à televisão
________________________________________vendo
filmes que não os deixastes ver quando eram novos
Frank O´Hara
Trad.: José Alberto Oliveira


terça-feira, 30 de novembro de 2021

Que fazes aqui?


Julgava que te tinha dito adeus,
um adeus contundente, ao deitar-me,
quando pude por fim fechar os olhos,
esquecer-me de ti, dessas argúcias,
dessa tua insistência, teu mau génio,
tua capacidade de anular-me.
Julgava que te tinha dito adeus
de todo e para sempre, mas acordo,
encontro-te de novo junto a mim,
dentro de mim, rodeias-me, a meu lado,
invades-me, afogas-me, diante
dos meus olhos, em frente à minha vida,
por sob a minha sombra, nas entranhas,
em cada golpe do meu sangue, entras
por meu nariz quando respiro, vês
pelas minhas pupilas, lanças fogo
nas palavras que minha boca diz.
E agora que faço?, como posso
desterrar-te de mim ou adaptar-me
a conviver contigo? Principie-se
por demonstrar maneiras impecáveis.
Bom dia, tristeza.
Amalia Bautista
Trad.: Joaquim Manuel Magalhães


segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Palmeras

Fotografia Olho de Gato



Nacemos de la sed. Somos palmeras
que van creciendo a fuerza de perder
sus ramas. Y sus troncos son heridas,
cicatrices que el viento y la luz cierran,
cuando el tiempo, el que hace y el que pasa,
ocupa el corazón y lo hace nido
de pérdidas, erige
en él su templo, su áspera columna.
Por eso las palmeras son alegres
como los que han sabido sufrir en soledad
y se mecen al aire, barren nubes
y entregan en sus copas
salomas a la luz, fuentes de fuego,
abanicos a dios, adiós a todo.
Tiemblan como testigos de un milagro
que sólo ellas conocen.
Somos como la sed de las palmeras,
y cada herida abierta hacia la luz
nos va haciendo más altos, más alegres.
Nuestros troncos son pérdidas. Es trono
nuestro dolor. Es malo
sufrir pero es preciso haber sufrido
para sentir, como un nido en la sangre,
el asombro de los supervivientes
al aire agradecidos y estallar
de alta alegría en medio del desierto.
Juan Vicente Piqueras



domingo, 28 de novembro de 2021

I'm a victim of this song — fear of falling in love — wicked game

Pipilotti Rist's installation over Wicked Game of Cris Isaak

   


The world was on fire 
No one could save me but you. 
Strange what desire will make foolish people do 
I never dreamed that I'd meet somebody like you 
And I never dreamed that I'd lose somebody like you 

No, I don't want to fall in love 
[This love is only gonna break your heart] 
No, I don't want to fall in love 
[This love is only gonna break your heart] 
With you 
With you 

What a wicked game you play 
To make me feel this way 
What a wicked thing to do 
To let me dream of you 
What a wicked thing to say 
You never felt this way 
What a wicked thing to do 
To make me dream of you 
And I don't wanna fall in love 
[This love is only gonna break your heart] 
And I don't want to fall in love 
[This love is only gonna break your heart] 

World was on fire 
No one could save me but you 
Strange what desire will make foolish people do 
I never dreamed that I'd love somebody like you 
I never dreamed that I'd lose somebody like you 

No I don't wanna fall in love 
[This love is only gonna break your heart 
No I don't wanna fall in love 
[This love is only gonna break your heart] 
With you 
With you 

Nobody loves no one

  

sábado, 27 de novembro de 2021

Ética das vacinas + Um psicodrama em três actos

* No Jornal do Centro aqui


Ética das vacinas

Vamos para dois anos de peste. Com o frio, regressaram em força à Europa as infecções, os internamentos, as mortes. As coisas estão menos más do que há um ano graças às vacinas, mas estas não foram a bala de prata capaz de exterminar o “bicho”. 

A variante Delta do SARS-CoV-2 veio desfazer-nos o sonho da “imunidade de grupo”. Não aconteceu quando atingimos os 70% de vacinados, não aconteceu quando chegámos aos 85%. “Não vai acontecer nem aos 100%”, angustiam-se os velhos, enquanto esperam e desesperam pela terceira dose.

Escrevo este Olho de Gato no exacto dia em que a Agência Europeia do Medicamento aprovou o uso da vacina da Pfizer para crianças dos 5 aos 11 anos. 

Esta decisão é perturbante. Estamos perante um dilema cada vez mais recorrente na bioética. Vacinar pode-se. Mas será que se deve? 

Tanto quanto se sabe, as crianças não adoecem com Covid, embora sejam transmissoras do vírus. Se esta vacinação for feita com o propósito de proteger os adultos, ela é eticamente reprovável. Se for para evitar que haja encerramento de escolas e haja evidência científica que isso se consegue com uma vacinação maciça, então esta passa a ser eticamente aceitável, porque estaremos a vacinar os miúdos para seu benefício e não para benefício dos crescidos. 

Como se sabe, o ensino à distância prejudica os alunos, especialmente os mais pobres. Vale a pena tentar tudo para que as aulas “ao vivo” não sejam interrompidas. 

*****

Um psicodrama em três actos

Primeiro acto — 25 de Outubro

Palco: assembleia da república. Protagonistas: Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. Chumbo do orçamento de estado logo na generalidade. Resultado: uma crise política não isenta de riscos para a esquerda em geral e para aqueles dois em particular. 


Segundo acto — 27 de Novembro

Palco: secções de voto do PSD. Protagonistas: Rui Rio e Paulo Rangel. 

Na plateia, André Ventura, Chicão, a esquerda e as empresas de sondagens torcem por Rio. Cotrim faz claque por Rangel. Mas, como se diz nas Beiras, “quem está fora racha lenha”. Hoje é com os militantes laranjas.

Não tenho preferências nesta guerra. É difícil perceber-se para que lado escorrem aqueles pagamentos de quotas a esmo, é difícil avaliar-se o verdadeiro peso eleitoral dos caciques que dominam o aparelho, mas, ...

Imagem do Observador, daqui

... apesar de todo esse nevoeiro, mantenho o palpite que publiquei há um mês nas redes sociais: Paulo Rangel vai derrotar Rui “Tó-Zé Seguro” Rio.


Terceiro e último acto — 30 de Janeiro de 2022 

Palco: secções de voto nas freguesias e consulados. Eleições legislativas. Protagonistas: Costa e Rangel, se a minha previsão estiver certa.   

sexta-feira, 26 de novembro de 2021

Autumn

Fotografia Olho de Gato


In the dreamy silence

Of the afternoon, a

Cloth of gold is woven

Over wood and prairie;

And the jaybird, newly

Fallen from the heaven,

Scatters cordial greetings,

And the air is filled with

Scarlet leaves, that, dropping,

Rise again, as ever,

With a useless sigh for

Rest—and it is Autumn.
Alexander Posey 


 

quinta-feira, 25 de novembro de 2021

A almofada de Peter Pan *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 25 de novembro de 2011

      

1. Peter Pan, a história do menino que se recusa a crescer, está a ser levado à cena pela Zunzum, numa versão muito divertida que, espera-se, esteja a alegrar as crianças do distrito de Viseu.      

A certa altura no espectáculo — que tem muita interactividade entre os actores e o público —, desata-se uma luta de almofadas das bravas. Vem almofada para cá, vai almofada para lá... Os jovens espectadores que, como se sabe, têm sempre pilhas novas e carregadas, deliram com aquela batalha.      

Infelizmente, nenhuma almofada passou ao meu alcance — e não dá muito jeito ir prevenido com “munições” destas de casa... — pelo que não pude fazer o truque que se impunha naquelas circunstâncias: fingir que apontava à grácil e delicada Wendy e, zás!, acertar em cheio no imenso Capitão Gancho. Fica aqui a táctica para uma futura guerra, perdão!, para uma futura representação deste Peter Pan.      

O debate público entre António José Seguro e Pedro Passos Coelho sobre o orçamento para 2012 pareceu sempre, desde o princípio, a versão da Zunzum do Peter Pan: o que se tem passado é uma luta de almofadas. Há almofada orçamental, diz Seguro, não há, riposta Passos.      

Registe-se que todos os partidos, todos sem excepção, propuseram mais impostos durante a preparação deste orçamento. Os da esquerda querem mais impostos sobre os ricos, os socialistas é o típico nem-carne-nem-peixe-e-tudo-sem-sal segurista e a direita no poder taxa tudo o que mexe. 

Portugal, mais que um Peter Pan, é uma noite na Transilvânia. 

     

2. O fim da Rádio Noar, uma empresa auto-sustentável, pôs a nu uma evidência: Viseu tem umas elites que podem ter algum poder e algum dinheiro mas não têm nenhum sentido comunitário nem cívico. 

Elites assim não vão longe. Como, infelizmente, se tem visto e continuará a ver.

quarta-feira, 24 de novembro de 2021

Julga-me a gente toda por perdido

 
Fotografia de Djeneba Aduayom


Julga-me a gente toda por perdido

vendo-me, tão entregue a meu cuidado.

andar sempre dos homens apartado

e dos tratos humanos esquecido.


Mas eu, que tenho o mundo conhecido

e quase que sobre ele ando dobrado,

tenho por baixo, rústico, enganado,

quem não é com meu mal engrandecido.


Vão revolvendo a terra, o mar e o vento,

busque riquezas, honras a outra gente,

vencendo ferro, fogo, frio e calma;


que eu só, em humilde estado, me contento

de trazer esculpido eternamente

vosso fermoso gesto dentro n'alma.

Luis Vaz de Camões



terça-feira, 23 de novembro de 2021

O canto de uma bailarina

A pequena bailarina de 14 anos, Degas
+ detalhes aqui


 

O sol gira na minha cabeça

Sou uma palmeira que arde.

E danço, danço,

à espera da chuva do amor.


A lua gira na minha cabeça.

Sou o silêncio e a noite.

E danço, danço,

embalsamando-me de felicidade

com o perfume do teu corpo.


Tu és a chama e eu sou o fumo.

Tu és a água e eu sou o fogo.

Tu és a faca e eu sou o fruto.


Dou-te o ouro da minha pele,

as pérolas dos meus dentes,

os dois rubis dos meus seios,

os diamantes esguios dos meus olhos.

Em troca, apenas te peço

que te lembres de mim.

Anónimo árabe do século X

Trad.: Fernando Ilharco Morgado


segunda-feira, 22 de novembro de 2021

Dallas, November 22, 1963, assassination of JFK — a PALINODE by Bob Dylan


 When I asked Yale literature professor David Bromwich about “Murder Most Foul,” he called it a palinode, a poem of retraction, written against the hopes raised by the 1960s and by Dylan himself. I never knew the term but it fits. In the course of a quarter of an hour, Dylan retracts his first thoughts on the subject of who killed JFK, which he uttered when he was just 22 years old, a rising star from Minnesota via the coffee houses of Greenwich Village. 

 The back story of “Murder Most Foul” begins three weeks after the liberal president was shot dead in Dallas under suspicious circumstances. In early December 1963, Dylan appeared at the banquet of a left-liberal group, the Emergency Civil Liberties Committee, at the Waldorf-Astoria Hotel to accept an award for his musical contribution to the civil rights movement, Dylan shocked the respectable crowd by saying he saw something of himself in the man accused of killing Kennedy.

 

Twas a dark day in Dallas, November '63
A day that will live on in infamy
President Kennedy was a-ridin' high
Good day to be livin' and a good day to die
Being led to the slaughter like a sacrificial lamb
He said, "Wait a minute, boys, you know who I am?"
"Of course we do, we know who you are"
Then they blew off his head while he was still in the car
Shot down like a dog in broad daylight
Was a matter of timing and the timing was right
You got unpaid debts, we've come to collect
We're gonna kill you with hatred, without any respect
We'll mock you and shock you and we'll put it in your face
We've already got someone here to take your place
The day they blew out the brains of the king
Thousands were watchin', no one saw a thing
It happened so quickly, so quick, by surprise
Right there in front of everyone's eyes
Greatest magic trick ever under the sun
Perfectly executed, skillfully done
Wolfman, oh Wolfman, oh Wolfman, howl
Rub-a-dub-dub, it's a murder most foul

Hush, little children, you'll understand
The Beatles are comin', they're gonna hold your hand
Slide down the banister, go get your coat
Ferry 'cross the Mersey and go for the throat
There's three bums comin' all dressed in rags
Pick up the pieces and lower the flags
I'm goin' to Woodstock, it's the Aquarian Age
Then I'll go to Altamont and sit near the stage
Put your head out the window, let the good times roll
There's a party goin' on behind the Grassy Knoll
Stack up the bricks, pour the cement
Don't say Dallas don't love you, Mr. President
Put your foot in the tank and step on the gas
Try to make it to the triple underpass
Blackface singer, whiteface clown
Better not show your faces after the sun goes down
I'm in the red-light district, like a cop on the beat
Livin' in a nightmare on Elm Street
When you're down in Deep Ellum, put your money in your shoe
Don't ask what your country can do for you
Cash on the barrelhead, money to burn
Dealey Plaza, make a left-hand turn
I'm goin' down to the crossroads, gonna flag a ride
The place where faith, hope, and charity died
Shoot him while he runs, boy, shoot him while you can
See if you can shoot the invisible man
Goodbye, Charlie, goodbye, Uncle Sam
Frankly, Miss Scarlet, I don't give a damn
What is the truth, and where did it go?
Ask Oswald and Ruby, they oughta know
"Shut your mouth, " said the wise old owl
Business is business, and it's a murder most foul

Tommy, can you hear me? I'm the Acid Queen
I'm riding in a long, black Lincoln limousine
Riding in the backseat next to my wife
Heading straight on in to the afterlife
I'm leaning to the left, I got my head in her lap
Hold on, I've been led into some kind of a trap
Where we ask no quarter, and no quarter do we give
We're right down the street from the street where you live
They mutilated his body and they took out his brain
What more could they do? They piled on the pain
But his soul's not there where it was supposed to be at
For the last fifty years they've been searchin' for that
Freedom, oh freedom, freedom over me
I hate to tell you, mister, but only dead men are free
Send me some lovin', tell me no lies
Throw the gun in the gutter and walk on by
Wake up, little Suzie, let's go for a drive
Cross the Trinity River, let's keep hope alive
Turn the radio on, don't touch the dials
Parkland hospital, only six more miles
You got me dizzy, Miss Lizzy, you filled me with lead
That magic bullet of yours has gone to my head
I'm just a patsy like Patsy Cline
Never shot anyone from in front or behind
Got blood in my eye, got blood in my ear
I'm never gonna make it to the new frontier
Zapruder's film, I've seen that before
Seen it thirty-three times, maybe more
It's vile and deceitful, it's cruel and it's mean
Ugliest thing that you ever have seen
They killed him once and they killed him twice
Killed him like a human sacrifice
The day that they killed him, someone said to me, "Son
The age of the Antichrist has just only begun"
Air Force One comin' in through the gate
Johnson sworn in at 2:38
Let me know when you decide to throw in the towel
It is what it is, and it's murder most foul

What's new, pussycat? What'd I say?
I said the soul of a nation been torn away
And it's beginning to go into a slow decay
And that it's thirty-six hours past Judgment Day
Wolfman Jack, he's speaking in tongues
He's going on and on at the top of his lungs
Play me a song, Mr. Wolfman Jack
Play it for me in my long Cadillac
Play me that, "Only The Good Die Young"
Take me to the place Tom Dooley was hung
Play, "St. James Infirmary" and, "The Port of King James"
If you want to remember, you better write down the names
Play Etta James, too, play "I'd Rather Go Blind"
Play it for the man with the telepathic mind
Play John Lee Hooker, play "Scratch My Back"
Play it for that strip club owner named Jack
Guitar Slim going down slow
Play it for me and for Marilyn Monroe

Play, "Please Don't Let Me Be Misunderstood"
Play it for the First Lady, she ain't feeling any good
Play Don Henley, play Glenn Frey
Take it to the limit and let it go by
Play it for Carl Wilson, too
Looking far, far away down Gower Avenue
Play, "Tragedy" play, "Twilight Time"
Take me back to Tulsa to the scene of the crime
Play another one and, "Another One Bites the Dust"
Play, "The Old Rugged Cross" and, "In God We Trust"
Ride the pink horse down that long, lonesome road
Stand there and wait for his head to explode
Play, "Mystery Train" for Mr. Mystery
The man who fell down dead like a rootless tree
Play it for the Reverend, play it for the Pastor
Play it for the dog that got no master
Play Oscar Peterson, play Stan Getz
Play, "Blue Sky", play Dickey Betts
Play Hot Pepper, Thelonious Monk
Charlie Parker and all that junk
All that junk and, "All That Jazz"
Play something for the Birdman of Alcatraz
Play Buster Keaton, play Harold Lloyd
Play Bugsy Siegel, play Pretty Boy Floyd
Play the numbers , play the odds
Play, "Cry Me A River" for the Lord of the gods
Play Number Nine, play Number Six
Play it for Lindsey and Stevie Nicks
Play Nat King Cole, play, "Nature Boy"
Play, "Down In The Boondocks" for Terry Malloy
Play, "It Happened One Night" and, "One Night of Sin"
There's twelve million souls that are listening in
Play, "Merchant to Venice" play, "Merchants of Death"
Play, "Stella by Starlight" for Lady Macbeth

Don't worry, Mr. President, help's on the way
Your brothers are coming, there'll be hell to pay
Brothers? What brothers? What's this about hell?
Tell them, "We're waiting, keep coming"
We'll get them as well
Love Field is where his plane touched down
But it never did get back up off the ground
Was a hard act to follow, second to none
They killed him on the altar of the rising sun
Play, "Misty" for me and, "That Old Devil Moon"
Play, "Anything Goes" and, "Memphis in June"
Play, "Lonely At the Top" and, "Lonely Are the Brave"
Play it for Houdini spinning around his grave
Play Jelly Roll Morton, play, "Lucille"
Play, "Deep In a Dream" and play "Driving Wheel"
Play, "Moonlight Sonata" in F-sharp
And, "A Key To The Highway" for the king of the harp
Play, "Marching Through Georgia" and, "Dumbaroton's Drums"
Play, "Darkness" and death will come when it comes
Play, "Love Me Or Leave Me" by the great Bud Powell
Play, "The Blood-stained Banner" play, "Murder Most Foul"
Bob Dylan

domingo, 21 de novembro de 2021

Lambe-te o fogo cada ruga e pêlo


Fotografia de Jeanloup Sieff


Lambe-te o fogo cada ruga e pêlo,

e a água onde mergulhas logo encerra

em fresca e fina luva o corpo inteiro

e sem pudor algum te abraça e beija.

Mesmo o vulgar sabão, no tanque absorto,

pela nudez da carne se insinua

e entre as coxas flutua, como um peixe

mais branco, que outra sombra continua.

Mas eu, quando me cubro do teu rosto

e sou somente de água e fogo feito,

melhor ainda te conheço e quero,

e nada no teu corpo me é alheio:

em cada grão de pele te desejo,

em cada ruga leio o meu destino.

António Franco Alexandre