sábado, 26 de novembro de 2022

Conversas discretas*

* No Jornal do Centro aqui

1. O Grupo dos 20 é o órgão principal da globalização. Quando foi formado, em 1999, reunia os ministros das finanças e os governadores dos bancos centrais das 19 maiores economias, a que se juntava a UE. 

Nove anos depois, em 2008, as reuniões anuais do G20 passaram a contar com os chefes de estado e de governo, ganharam peso político, são um utilíssimo fórum onde os líderes mais poderosos do planeta falam olhos nos olhos e, em encontros mediatizados e em encontros discretos, tomam decisões com  impacto nas nossas vidas.


2. A reunião do G20 em Setembro de 2013, em S. Petersburgo, esteve marcada por um acontecimento dramático: o presidente sírio Bashar al-Assad tinha bombardeado, em Ghouta, o seu próprio povo com gás sarin, causando 1400 mortos, muitos deles crianças. Durante os trabalhos, Barack Obama chamou Vladimir Putin de lado e explicou-lhe que só havia um caminho: a Síria tinha que destruir o seu arsenal químico. Assim se fez, todas aquelas armas foram inactivadas com supervisão internacional.

Aquela conversa discreta entre Obama e Putin no G20, que não foi noticiada, trouxe um benefício para o mundo: aquele armamento perigosíssimo não caiu nas mãos dos terroristas do Estado Islâmico. 


3. No G20 da semana passada, na Indonésia, o primeiro depois da peste, foi muito bom Joe Biden e Xi Jinping terem falado um com o outro, diminuindo  tensões, foi bom no que disseram em frente às câmaras e no que acertaram com as câmaras e os microfones desligados.

Para além deste G2 particular Joe/Xi que centralizou as atenções mundiais, houve uma cena muito comentada e que fez as delícias das redes sociais. O líder chinês ficou irritado com Justin Trudeau, o primeiro-ministro canadiano, e interpelou-o.

Xi: «Tudo o que discutimos apareceu nos jornais. Isso não está bem e não foi assim que a nossa conversa foi conduzida, pois não? Se houver sinceridade da sua parte...»

Justin: «No Canadá, acreditamos no diálogo livre, aberto e franco, e é isso que continuaremos a ter, a procurar trabalhar juntos de forma construtiva, mas haverá coisas em que discordamos...»

Xi: «Vamos criar as condições primeiro!»

A seguir, Jinping sorriu, apertou a mão a Trudeau e afastou-se resmungando qualquer coisa. O líder chinês tem razão — é preciso discrição para se obterem resultados.

sexta-feira, 25 de novembro de 2022

uma visão do paraíso terrestre

Fotografia Olho de Gato



entretenho os hábitos dos culpados
como acordar a meio da noite
distrair-me com a chuva contra as janelas
a despontar das árvores
toda a minha atenção no escuro prepara
a inundação de uma visita inesperada

e ninguém em nenhuma destas casas quer saber de espanha
ou vai ser surpreendido por uma morte de sede
ou aceitará um convite para jogar
xadrez às quatro das manhã
nenhum dos habitantes deste bairro
se há-de levantar das suas camas
a meio da noite surpreendido
por coisas que os sonhos sugerem

os meus vizinhos são este tipo de pessoas
cantam na igreja ao domingo
contam as horas de sono que lhes restam a cada noite
acordam alguns minutos antes do despertador tocar
dormem muito e quando sonham
escapa-lhes que se tornaram alheios
a todo um tipo de complicações noturnas

como mulheres solitárias
em estações de comboios desertas
homens que viajam com malas vazias
que chegam a um destino qualquer que não era o seu
e se sentem estranhamente alegres
com a companhia de estranhos
gente que chega a meio
da noite a cidades desconhecidas
e se hospeda numa pensão barata

ninguém aqui alguma vez dirá que das decisões a tomar
muitas serão sempre entre duas coisas erradas
e não é provável que o resultado final seja feliz
dormem tranquilamente nas casas ao longo da estrada
são jovens e bonitos vestem-se com cuidado
gravatas cor de vinho camisas brancas casacos castanhos
as calças um pouco curtas para deixar cintilar
a possibilidade daquela escolha de peúgas ser uma provocação
a mais perigosa provocação de que seriam capazes
nas suas afirmações mais categóricas
dão o dito pelo não dito

e a mim o que me trouxe até aqui
examino as possibilidades deixadas
em aberto por alguns fragmentos
pelo lixo da memória com um cuidado
inútil arquivado em caixas
isto não é nem o melhor nem o pior
de tudo o que podia ter acontecido
é apenas o suportável

e espero pelo poeta que procure
a estátua que se afogou na sua juventude

que amor prendeu estes homens às coisas às casas
tanto que fazem o seu trabalho
e preparam com cuidado
a banalidade de regressos quotidianos
caminhando para dentro e fora de si
como setas procuram os seus alvos

que outro eco ainda podiam
as suas sombras ter prolongado
estendem as mãos para fontes distantes
desconhecem a força da água que delas
corre e de onde emana e não querem saber
desejam beber mas se trazidos até junto delas
se confrontados com o rumor da água
na pedra as suas mãos afrouxam
afinal preferem não beber

como toleraste isto tu?
rodeou-te um cuidado e outro cuidado
seguiste preso à mão que agarrou a tua no escuro
estiveste em jardins que outros
antes de ti ensaiaram
uma maçã e outra e outra
corta o escuro até já não teres
mentira nenhuma a dizer
limpas o suor das mãos à saia
a tua cabeça repousa perto do tronco
raios de luz cortam pela obscuridade das copas
suspendem as aranhas no seu trabalho

o mundo das coisas amadas
não é complicado
mãos construíram muros
e plantaram jardins dentro dos muros e deram-te
as chaves para que pudesses ir e voltar
sem horas certas como e quando quisesses
isto era então o teu poder
e quando te rodearam
em subúrbios fora do limite das cidades
disseste
nas vossas casas
vocês podem dizer-me o que quiserem

os amigos que restam
os que sobrevivem à peste
juntam-se em jardins
pedem que se fechem os portões
as vozes começam por ordem
uma a seguir à outra a seguir à outra
o que se extingue dá lugar
ao que se segue

se levamos uma vida segundo
o que não pode ser dispensado
podia então ser
este jardim fechado no meio do nada
o embalo de vozes familiares
histórias laboriosamente transportadas
de sopro em sopro até se entranharem no sangue
Tatiana Faia


quinta-feira, 24 de novembro de 2022

Jarabi / Beloved

Gif Olho de Gato


The poem in the original Malinke: 

Aw y’afama nalu, wari tè kanu sanna
Wuya tè aw y’afama n’falu, nafolo tè kanu sanna
A tè se mòosi ma guansan
Walay fen bèe bè dòfè,
Nk’o siini miirijan de la,
Ali fosi tè mòo min fè,
Jarabi di na o dusu sumaya
Ne tun ma lòn ko diyanye duman tan
I k’an to kini kini le la
N’tè sanu kò, n’tè wari dun kò
Ka lòn ten ko ne kelen dòrònle duman i ye.

Jarabi, jarabi ye dòlò le di dunya, ne tè se k’a to yen
Jarabi, jarabi ye bana le di dunya, fura tè bana min na
Jarabi, jarabi ye dòlò le di dunya, ne tè se k’a to yen
Jarabi, jarabi ye bana le di dunya, fura tè bana min na abada.

A n’diya, n’bolo mina sa
Kana taa, to n’dafè sa
I ma n’ye hami ni miiri la wa?
Woyiyo, woyiyo n’b’i dari
Kuma n’fè, kuma n’fè, ka miiri bò n’na
Kana n’mina mòo kan ma
Yèlè n’fè, yèlè n’fè, ka hami bò n’na
I ma lòn i diyanye bana le ye n’na.

I kèlen yeelen di ne ma
Sisan ne kòni sèwara
Fo k’a ye ko diyanye min ye
A fanka ka bon ni fèn bèe ye
N’i y’a nènè dòròn sinya kelen
A b’i la dinya latè yèlèma.

Jarabi, jarabi ye dòlò le di dunya, ne tè se k’a to yen
Jarabi, jarabi ye banna le di dunya, fura tè banna min na
Jarabi, jarabi ye dòlò le di dunya, ne tè se k’a to yen
Jarabi, jarabi ye banna le di dunya, fura tè banna min na abada.

Woyiyo woyiyo jarabi, woyiyo woyiyo jarabi



Tradução para inglês por Mar Moza:

Forgive me, mothers, but money cannot buy love
It’s true, forgive me, fathers, no riches can buy love
It doesn’t touch you for no reason.
By God, one who owns everything
May still be lonely and worrying about life
While a poor person with nothing
Can find the happiness that love brings
I didn’t know that love felt so good
You left me wondering in sadness
I don’t want gold, I don’t want money
Just to know that I am the one that you love

Love, love is like an alcoholic drink and I am addicted to it
Love, love is a disease for which there is no cure
Love, love is like an alcoholic drink and I am addicted to it
Love, love is a disease for which there is no cure ever

Oh my love, take my hand
Don’t leave me, please stay with me
Can’t you see that I’m worried and suffering?
I’m hurting, hurting, I beg you, please
Talk to me, talk to me and reassure me
Don’t listen to what people say about me
Smile at me, smile at me and take my worries away
You know, I am just in love

You have lit up my life
Now, my heart is full of joy
The world should realize that love
Is more powerful than everything else
And once you taste it 
It will change your life forever

Love, love is like an alcoholic drink and I am addicted to it
Love, love is a disease for which there is no cure
Love, love is like an alcoholic drink and I am addicted to it
Love, love is a disease for which there is no cure ever

I’m hurting, hurting because of love, I’m hurting, hurting because of love! 

quarta-feira, 23 de novembro de 2022

Resgates*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em  23 de Novembro de 2012

      

Em Maio de 2011, o nosso resgate foi formalizado num memorando de entendimento que passou a ser o programa dos nossos governos e fez do país um protectorado na mão dos credores.     

A seguir, sem surpresa, o resgate à república portuguesa virou fractal, chegando em dominó aos vários níveis de poder.     

Em Janeiro deste ano, a Madeira foi resgatada. Em troca dos 1,5 mil milhões de euros de empréstimo, Vítor Gaspar impôs subidas de impostos e um ramalhete de medidas de austeridade ao dinossauro madeirense.     

Em Agosto foi a vez dos Açores. Com menos espalhafato como aconselha a maneira de ser açoriana, Carlos César teve que fazer concessões políticas em troca de um empréstimo de emergência de 135 milhões de euros. Acabou, por exemplo, a vergonhosa eximição dos funcionários açorianos ao corte salarial feito ao funcionalismo público por Sócrates no PEC3.     

João Lourenço, presidente da câmara
de Santa Comba Dão
Fotografia de Paulo Leitão (editada
Depois do poder regional, este dominó chegou agora ao poder local. Começaram a ser assinados os resgates às câmaras. Em politiquês a operação chama-se “Programa de Apoio à Economia Local (PAEL)” e tem dois níveis de austeridade. As mais falidas vão ser obrigadas a praticarem impostos e taxas máximas, quer queiram quer não queiram.

No distrito de Viseu, já assinaram Armamar, Lamego, Nelas, Oliveira de Frades, S. Pedro do Sul e Vila Nova de Paiva.  

Outras se seguirão e entre elas a mais desgraçada de todas — Santa Comba Dão.     

Falta já menos de um ano para as próximas autárquicas. Nas câmaras resgatadas os eleitos não vão ter margem de manobra, o PAEL vai estar para eles como o memorando de entendimento está para Pedro Passos Coelho.     

Já para as outras câmaras, repito aqui um aviso deixado no blogue Olho de Gato: eleitorado que eleja doidos com a boca cheia de “obra” e outras despesices, será eleitorado condenado ao IMI máximo, IRS máximo e taxas máximas. E será muito bem feito.

terça-feira, 22 de novembro de 2022

La trampa del teléfono

Daqui


Éste es mi contestador automático.
Para herir, simplemente, marque 1.
Para contar mentiras que me crea, marque 2.
Para las confesiones trasnochadas, marque 4.
Para interpretaciones literarias
producto del alcohol, marque 6.
Para poemas, marque almohadilla.
Para cortar definitivamente la comunicación,
no marque nada, pero tampoco cuelgue,
titubee en el teléfono
(a ser posible durante varios meses)
hasta que note que voy abandonando el aparato
a intervalos de tiempo cada vez más largos.
No desespere. Aguante.
Espere a que sea yo la que se rinda.
Le evitará cualquier remordimiento.
Gracias.
 Vanesa Pérez-Sauquillo

 

segunda-feira, 21 de novembro de 2022

Rimbaud


As noites, as pontes de comboio, a má estrela,
Os seus temíveis companheiros não as conheciam;
Mas nessa criança a mentira do retórico
Queimava como uma fornalha: o frio fizera um poeta.

As bebidas que o seu amigo tíbio e lírico
Lhe comprava, perturbavam-lhe os cinco sentidos,
Teimando com todo o nonsense corriqueiro;
Até se alhear dos pecados e da lira.

Os versos eram uma doença específica do ouvido:
a integridade era de menos; parecia
O inferno da infância: devia tentar de novo.

Agora, galopando pela África, ele sonhava
Um novo eu, um filho, um engenheiro,
Cuja verdade mentirosos aceitassem.
W. H. Auden
Trad.: José Alberto Oliveira


 

domingo, 20 de novembro de 2022

The road not taken

Fotografia Olho de Gato


Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I —
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
Robert Frost


 

sábado, 19 de novembro de 2022

O teste do algodão*

* No Jornal do Centro aqui 

O capitalismo financeiro vive cada vez mais das rendas e cada vez menos dos lucros. Está a haver uma espécie de regresso aos tempos pré-capitalistas em que quem era rico vivia das rendas que as terras lhe davam. Só que, na altura, a riqueza era imóvel e agora mexe-se à velocidade da luz e vai tomando conta do comum  — a água, o vento, o sol, os solos, os subsolos, as estradas, os hospitais, …   

Exemplos há muitos e têm sido dados aqui em profusão: as PPP rodoviárias socráticas pingam, durante décadas, rendas de dois dígitos. As eólicas idem-idem-aspas-aspas. As águas do sul do distrito de Viseu são um massacre para os consumidores com as suas generosíssimas remunerações de capital. 

Os rentistas exercem o seu controlo à distância, através de contratos complexos, que tornam difícil perceber-se até quem são os seus titulares. Quem é, de facto, o “dono” dos Centros Escolares de Santa Comba Dão feitos em PêPêPês? Quem é o verdadeiro “proprietário” da A25? Quem é que, no final da cadeia, ia ficar com as rendas do pavilhão transfronteiriço que aquele autarca incauto queria fazer em Caminha?

As coisas são assim e aqui têm sido descritas. Como é sabido, os rentistas têm uma enorme influência junto do poder e, por norma, conseguem levar a água ao seu moinho. A grande advocacia de negócios torna estes contratos deliberadamente opacos e enrodilhados para que os seus titulares e os governos se possam, o mais possível, subtrair ao escrutínio público.


Como vimos, neste universo, a regra é o nevoeiro e a opacidade. Mas não há regra sem excepção: no caso do aumento das portagens das auto-estradas para 2023, que está na ordem do dia, as coisas são muito fáceis de analisar. Vamos ao que está em causa: 

(i) os rentistas querem que as portagens subam 10% (a Ascendi, esta semana, referiu uns especiosos 10,44%);

(ii) o aumento dos salários no próximo ano vai ser à volta de 5,1% (valor acertado em concertação social);

(iii) as pensões mais pequenas sobem 5%, as médias 4,07% e as grandes 3,53%.

Perante estes números, é fácil fazer o teste do algodão ao governo: 

— aumentos das portagens na ordem dos 4 a 5%: algodão limpo;

— aumentos entre 6 a 7%: algodão sujo;

— acima disso: algodão encardido, governo completamente no bolso dos rentistas.

sexta-feira, 18 de novembro de 2022

No creo en la vía pacífica

Fotografia Olho de Gato


no creo en la vía violenta
me gustaría creer en algo - pero no creo
creer es creer en Dios
lo único que yo hago
es encogerme de hombros
perdónenme la franqueza
no creo ni en la Vía Láctea
Nicanor Parra


 

quarta-feira, 16 de novembro de 2022

Seis casos*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 16 de Novembro de 2012

  

(i) Em 2003, a TMN, a Optimus e a Vodafone foram autorizadas pelo governo de Durão Barroso a comprar a quarta rede GSM aprovada para Portugal, rede que tinha atribuído o prefixo 95.

(ii) Em 2006, a Autoridade da Concorrência, dirigida por Abel Mateus, proibiu a aquisição das Auto-Estradas do Atlântico pela Brisa, mas o ministro Manuel Pinho decidiu autorizar o negócio.

Isto é,  a partir de então, a Autoridade da Concorrência passou a ser um verbo de encher, basta lembrar o à-vontade do cartel das gasolineiras.     

(iii) Em 2008, o governo de Sócrates decidiu ajustar directamente a operação Magalhães à JP Sá Couto, numa clássica operação de “escolha dos vencedores”.  

(iv) Em 2011, a versão de 3 de Maio do Memorando de Entendimento com a Troika reservava o leilão das novas frequências de banda larga sem fios (4G) só para novos operadores, mas a versão de 11 de Maio, a que veio a ser assinada pelas partes, já deixou que a TMN, Optimus e Vodafone fossem a jogo (de certeza isso não teve nada a ver com a posição que o sr. António Borges tinha então no quartel-general do FMI).    

(v) Ainda em 2011, mas em Outubro, o Banco de Portugal matou, quase à nascença, uma “guerra” de juros para captação de depósitos que estava então a acontecer, ameaçando os bancos com penalizações.

(vi) Em 2012, no primeiro de Maio, o Pingo Doce decidiu fazer um desconto de 50% aos seus clientes.

À cautela, para que um “desaforo” desses não se repita, as coimas foram subidas de 30 mil para dois milhões e meio de euros.

     

Os cinco primeiros casos mostram manobras de bastidores contra os consumidores e uma cultura do poder opaca e hostil à concorrência.     

Já no último, o do Pingo Doce, a exibição de força é feita às claras para servir de aviso para o futuro — é colocada uma cabeça de cavalo ensanguentada na cama do sr. Alexandre Soares dos Santos.

terça-feira, 15 de novembro de 2022

Chamada não atendida

Fotografia Olho de Gato




Sim, sou mesmo eu a ligar-te
Sei que estabelecemos regras
E eu já não faço parte
Dos teus contactos de emergência
Precisas que alguém te salve
Do meu nome no ecrã
A minha voz soa em ti
Como um alarme

Acabou tudo tão triste
E culpa que eu pus em ti
Hoje eu penso para mim
Pra que é que tu insististe
Mas também nunca foi feliz
Se eu soubesse que me amavas
Só quando eu me despedisse
Tinha feito como tu
Batia com as portas todas
E ai de quem me impedisse

Odiavas roupa larga
E os tops que eu não usava
Já nem era feminista
Tinhas ciúmes das canções
E eu lançada aos leões
Para ti nem era artista
Não dizias que me amavas
Nunca com essas palavras
E eu feita poetisa
Eu devo ser masoquista
Para os amigos pessimista
Mais uma na tua lista

Chamada não atendida
Eu devo ser masoquista
Chamada não atendida
Mais uma na tua lista

Falas bem de mim a toda gente
E eu, eu devia fazer o mesmo
Mas eu não sou boa a mentir
Nem a guardar segredo
Acredito, deve ser chato
As fotos que eu tenho publicado
E as raparigas que dormes
Cantarem as minhas canções no quarto

Chamada não atendida
Vamos ser isso um para o outro
Dei-te um ano da minha vida
Espero que a próxima dês tu

Odiavas roupa larga
E os tops que eu não usava
Já nem era feminista
Tinhas ciúmes das canções
E eu lançada aos leões
Para ti nem era artista
Não dizias que me amavas
Nunca com essas palavras
E eu feita poetisa
Eu devo ser masoquista
Para os amigos pessimista
Mais uma na tua lista

Chamada não atendida
Eu devo ser masoquista
Chamada não atendida
Mais uma na tua lista
Bárbara Tinoco