quarta-feira, 5 de agosto de 2020

Para José Afonso (2)

Fotografia Olho de Gato


O canto que se erguia
na tua voz de vento
era de sangue e oiro
e um astro insubmisso
que era menino e homem
fulgurava nas águas
entre fogos silvestres.
Cantavas para todos
os acordes da terra,
os obscuros gritos
e os delírios e as fúrias
de uma revolta justa
contra eternos vampiros.
Que imensa a aventura
da luz por entre as sombras!
A vida convertia-se
num rio incandescente
e num prodígio branco
o canto sobre os barcos!
E o desejo tão fundo
centrava-se num ponto
em que atingia o uno
e a claridade intacta.
O canto era carícia
para uma ferida extrema
que era de todos nós
na angústia insustentável.
Mas ressurgia dela
a mais fina energia
ressuscitando o ser
em plenitude de água
e de um fogo amoroso.
É já manhã cantor
e o teu canto não cessa
onde não há a morte
e o coração começa.
António Ramos Rosa










terça-feira, 4 de agosto de 2020

Para José Afonso (1)

Olhão — Fotografia Olho de Gato


Os censores fascistas, em 1964, acharam que a canção 'Ó Vila de Olhão', de Zeca Afonso, tinha "discurso de ódio" e proibiram-na.


Mais de meio século depois, o identitarismo está a fazer regressar em força a pulsão censória e a mesma sanha contra o dito "discurso de ódio".
(Parágrafo acrescentado em 5.8, às 20:45)

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Despedida




Hão-de erguer-se entre o meu amor e eu
trezentas noites quais trezentos muros
e o mar será magia entre nós dois.

Apenas haverá recordações.
Oh tardes merecidas pela pena,
noites esperançadas ao olhar-te,
campos do meu caminho, firmamento
que vejo e vou perdendo...
Definitiva como um mármore,
a tua ausência irá entristecer as tardes.
Jorge Luís Borges
Trad.: Fernando Pinto do Amaral


domingo, 2 de agosto de 2020

"And Now For Something Completely Different" (#267)

György Ligeti - Poema sinfónico para 100 Metrónomos

A realidade dança

Fotografia de Pagie Page 

Estas são as noites em que florescem lagartos,
ferozes, leves, como mãos verdes agarradas ao
teu pescoço;
a língua perdida, disparada como um raio
contra a pedra branca.

Mantenho-me imóvel,
não evito os movimentos atrozes
que se organizam contra ti.
Imóvel, sinto a electricidade a ser curvada
dentro de um fio, no
canto do quarto.

Uma maçã,
uma colher de merda,
o Diabo, curvado, toca violoncelo.

Ele cortou os meus cabelos,
enterrou-me nos arbustos, sem cigarros.
Ratos com olhos como lazers obser-
vam-me porque eu estou marcado.

Eu sei como a abelha treme
perto do furo;
eu respondo à pergunta que os néons fazem.

Uma maçã,
uma colher de merda,
o Diabo, curvado, toca o violoncelo.

Eles disseram
“Tirem já esse cão das salas brancas”.
Eu fechei-me no meu terror
e não cantei.
Veio a lua iluminar-me.

Estou preso com tesão no espaço.
As mãos chupam,
e puxa e vai e traz,
os salões de relva, a cúpula do céu,
muitos, muitos átomos,
a própria realidade dança.

O Diabo, curvado, toca violoncelo.



sábado, 1 de agosto de 2020

Querido mês*

* Hoje no Jornal do Centro - aqui
Vídeo e podcast - aqui


1. Este é o 800º Olho de Gato, o octingentésimo, e é publicado às primeiras horas do primeiro dia do querido mês de Agosto, deste bissexto ano da peste.

Agosto, mês querido, como lembra o filme de Miguel Gomes, como canta Dino Meira.


Aquele Querido Mês de Agosto, de Miguel Gomes (2008)

Agosto, mês das festas de aldeia, mês dos baptizados e dos casamentos — o Quim Barreiros diz que o melhor dia para casar é a 31 de Julho mas, já se sabe, ele recomenda isso a pensar em Agosto.

Agosto, mês querido, que para os emigrantes é “de banquetes, folias e desvarios; de alianças, prendas e leilões; de competições, invejas e ostentações; de partilhas, desavenças e brigas; de inventários, encenações e reconhecimentos; de negócios, escrituras e consumos; de planos, empreendimentos e acabamentos; de contas, arquivos e documentos; de cartórios, fazendas e bancos; de estradas, caminhos e terreiros; de pressas, excessos e bloqueios”, como enumera o sociólogo Albertino Gonçalves.

Este ano, no querido mês de Agosto que começa hoje, por causa da peste, não vai haver a desbunda nem a catarse do costume, ninguém vai “passar das marcas”.

Este ano, no querido mês de Agosto, por causa da Covid-19, muitos emigrantes vão ficar nos países onde trabalham. Isso é péssimo, uma tristeza, embora possa alegrar alguns urbanitas parolos que os chamam “aveques”.

Este ano, no querido mês de Agosto, por causa do maldito SARS-CoV-2, até nas praias fluviais as pessoas vão estar a fazer contas de cabeça à dita “distância social”.

Este ano, no querido mês de Agosto, por causa do “bicho”, até os beijos dos amores de Verão vão ser dados a medo e quando a dra. Graça Freitas não estiver a ver.

2. Antes de ir de férias, o parlamento aprovou o fim dos debates quinzenais com o primeiro-ministro.

Esta marcha-atrás antidemocrática, cozinhada entre António Costa e Rui Rio, mereceu a oposição de 28 deputados do PS e 7 do PSD. Infelizmente, nenhum deles do distrito de Viseu.

Os oito deputados eleitos pelos viseenses votaram pelo fim dos debates quinzenais. Oito caranguejos. Oito atrasos-de-vida. Fica registado.

Medo

Fotografia de Engin Akyurt 



Quem dorme à noite comigo?
É meu segredo, é meu segredo!
Mas se insistirem, desdigo.
O medo mora comigo,
Mas só o medo, mas só o medo!

E cedo, porque me embala
Num vaivém de solidão,
É com silêncio que fala,
Com voz de móvel que estala
E nos perturba a razão.

Que farei quando, deitado,
Fitando o espaço vazio,
Grita no espaço fitado
Que está dormindo a meu lado,
Lázaro e frio?

Gritar? Quem pode salvar-me
Do que está dentro de mim?
Gostava até de matar-me.
Mas eu sei que ele há-de esperar-me
Ao pé da ponte do fim.
Reinaldo Ferreira


sexta-feira, 31 de julho de 2020

Reencontro

Fotografia de Kyle Johnston

Alguma vez pensaste como será
O nosso reencontro?
Se o sol brilhará
Ou se a chuva baterá
Contra o vidro da janela?
Aparecerás subitamente
Numa esquina,
Como um sonho caindo no meu vazio?
Ou irei esperar-te
Contando ansiosamente as horas no relógio
Até apareceres?
Tu.
Ter-te-á a vida mudado,
Tornando-te estranha?
Iremos saudar-nos rapidamente
Com um sorriso resignado, partindo logo à pressa?
Ou será como era dantes?
Ruth Maier


quinta-feira, 30 de julho de 2020

Patrioteirismos *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 30 de Julho de 2010


1. Esta crónica ri-se do patrioteirismo de pacotilha que anda por aí à volta dos negócios da PT e recomenda a leitura de “O Império”, dos marxistas Michael Hardt e Toni Negri.

A ideia de nação não é uma ideia natural, é uma construção mental que tem evoluído ao longo dos tempos. Como disse Benedict Anderson: a nação é uma “comunidade imaginada” que, depois, “se tornou a única forma de imaginar a comunidade”.

Foi com o absolutismo e, mais tarde, com a burguesia e o capitalismo que a “nação” se organizou nos estados modernos. A nação definiu o “nós” e o “outros”, a nação declarou a guerra e a paz. Foi até a ideia de nação que acabou com as “nações subalternas” a que se chamava colónias.

O enterro do colonialismo e o derrube do muro de Berlim aceleraram a globalização. Os grandes problemas deixaram de ter soluções à escala dos países, por maiores que eles sejam.


Imagem daqui
Instituições supra-nacionais como as Nações Unidas ou o G-20 têm um papel cada vez maior. O processo globalizador criou muita jurisprudência internacional e fez surgir, até, justiça penal internacional.

Tudo isto teve consequências políticas: há cem anos, as esquerdas eram internacionalistas e cosmopolitas e as direitas eram nacionalistas e paroquiais. Agora, perante a globalização, os papéis inverteram-se.


2. José Sócrates, em dificuldades, vai disparando em todas as direcções. Já Jerónimo de Sousa, Francisco Louçã e Manuel Alegre (o mais anacrónico dos três) respondem à actual crise sistémica global com um pensamento nacionalista que só é útil aos nossos grupos económicos que vivem aconichados no estado e são incapazes de criarem riqueza. Ou de pagarem impostos decentes, como se vê na banca.

Infelizmente, ninguém nas próximas presidenciais parece capaz de agitar este pântano. A esquerda desistiu de as tentar ganhar. E Cavaco não tem rasgo.

Saber viver

Fotografia de Alexander Jawfox


Gosto dos que não sabem viver,
dos que se esquecem de comer a sopa
(«Allez-vous bientôt manger votre soupe,
s... b... de marchand de nuages?»)
e embarcam na primeira nuvem
para um reino sem pressa e sem dever.

Gosto dos que sonham enquanto o leite sobe,
transborda e escorre, já rio no chão,
e gosto de quem lhes segue o sonho
e lhes margina o rio com árvores de papel.

Gosto de Ofélia ao sabor da corrente.

Contigo é que me entendo,
piquena que te matas por amor
a cada novo e infeliz amor
e um dia morres mesmo
em «grande parva, que ele há tanto homem!»

(Dá Veloso-o-Frecheiro um grande grito?...)

Gosto do Napoleão-dos-Manicómios,
da Julieta-das-Trapeiras,
do Tenório-dos-Bairros
que passa fomeca mas não perde proa e parlapié...

Passarinheiros, também gosto de vocês!
Será isso viver, vender canários
que mais parecem sabonetes de limão,
vender fuliginosos passarocos implumes?

Não é viver.
É arte, lazeira, briol, poesia pura!

Não faço (quem é parvo?) a apologia do mendigo;
não me bandeio (que eu já vi esse filme...)
com gerações perdidas.

Mas senta aqui, mendigo:
vamos fazer um esparguete dos teus atacadores
e comê-lo como as pessoas educadas,
que não levantam o esparguete acima da cabeça
nem o chupam como você, seu irrecuperável!

E tu, derradeira geração perdida,
confia-me os teus sonhos de pureza
e cai de borco, que eu chamo-te ao meio-dia...

Por que não põem cifrões em vez de cruzes
nos túmulos desses rapazes desembarcados p'ra morrer?

Gosto deles assim, tão sem futuro,
enquanto se anunciam boas perspectivas
para o franco frrrrançais
e os politichiens si habiles, si rusés,
evitam mesmo a tempo a cornada fatal!

Les portugueux...
não pensam noutra coisa
senão no arame, nos carcanhóis, na estilha,
nos pintores, nas aflitas,
no tojé, na grana, no tempero,
nos marcolinos, nas fanfas, no balúrdio e
...sont toujours gueux,
mas gosto deles só porque não querem
apanhar as nozes...

Dize tu: - Já começou, porém, a racionalização do trabalho.
Direi eu: - Todavia o manguito será por muito tempo
o mais económico dos gestos!
Alexandre O'Neill


quarta-feira, 29 de julho de 2020

Nascer do dia

Fotografia de Ahmad Mzoon 


Está bem, é dia — e que importância tem?
Ou, por isso, irás sair do meu lado?
Deveremos levantar-nos só porque está luz?
Deitámo-nos nós porque era de noite?
O Amor, que apesar do escuro nos trouxe aqui,
Deverá, a despeito da luz, manter-nos juntos.

A luz não tem língua, é toda só olhos.
Se pudesse falar tão bem quanto espia,
O pior que diria é que, estando bem,
Eu quero gostosamente continuar
E que amo tanto o meu coração e honra
Que, de quem os guarda, não me apartaria.

São os negócios que daqui te afastam?
Oh, essa é a pior doença do amor:
O pobre, o louco, o falso, podem o amor
Acolher, mas nunca o homem atarefado.
Quem tem negócios e ama erra tanto
Quanto um homem casado que queira namorar.
John Donne (1572 — 1631)
Trad.: Helena Barbas


terça-feira, 28 de julho de 2020

Words

Fotografia de Hannah Tasker

Be careful of words,
even the miraculous ones.
For the miraculous we do our best,
sometimes they swarm like insects
and leave not a sting but a kiss.
They can be as good as fingers.
They can be as trusty as the rock
you stick your bottom on.
But they can be both daisies and bruises.
Yet I am in love with words.
They are doves falling out of the ceiling.
They are six holy oranges sitting in my lap.
They are the trees, the legs of summer,
and the sun, its passionate face.
Yet often they fail me.
I have so much I want to say,
so many stories, images, proverbs, etc.
But the words aren't good enough,
the wrong ones kiss me.
Sometimes I fly like an eagle
but with the wings of a wren.
But I try to take care
and be gentle to them.
Words and eggs must be handled with care.
Once broken they are impossible
things to repair.
Anne Sexton