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sexta-feira, 1 de novembro de 2019

Filme de terror*

* Hoje no Jornal do Centro


Há sete anos, Jeff Younger e Anne Georgulas tiveram dois rapazes gémeos nascidos com recurso a uma barriga de aluguer. Agora estão divorciados e num litígio judicial muito duro por causa de um dos filhos — o James.

O advogado de Jeff descreve assim o ambiente entre os dois: “já ouvimos falar de gente que não se consegue pôr de acordo nem sobre se o céu está azul, estes pais nem sequer conseguem concordar se a criança é menino ou menina”.

James / Luna

O pai trata-o por James, a mãe por Luna. Quando James vai para o pai, este corta-lhe o cabelo e veste-lhe roupa masculina. Quando Luna vai para a mãe, esta pranta-lhe um vestido, bandoletes no cabelo e pinta-lhe as unhas.

Isto é péssimo mas há pior: a mãe quer acelerar o processo de transição de James para Luna e começar já a dar-lhe medicamentos bloqueadores da puberdade, enquanto o pai se desespera e defende que haja, ao menos, um “esperar para ver”.

A 21 de Outubro, um júri texano decidiu dar o exclusivo decisional à mãe, mas, três dias depois, um juiz reexaminou o caso e impôs a tutela conjunta. Os pais têm que se pôr de acordo, incluindo em matéria de tratamentos médicos.

Para além disso, o mesmo juiz impôs a lei da rolha aos dois, o que vai obrigar Jeff a encerrar o muito visitado site “Save James”, onde havia vídeos que expunham a criança. Um deles com o seguinte diálogo entre o pai e o filho:
«Tu és um rapaz, certo?»
«Não, eu sou uma rapariga.»
«Quem te disse que és uma rapariga?»
«A mamã.»

Claro que tudo isto, como se costuma dizer, “incendiou” as redes sociais e fez ferver tuítes furiosos de políticos conservadores com o previsível: “this transgender fad has gone too far — esta moda transgénero foi longe demais”.

Ainda há-de ir mais longe. E chegar a Portugal. Uma coisa tem que se dizer: arrepia ver alguém a querer, desta maneira, encharcar de químicos uma criança de sete anos.

Esta história contém matéria mais do que suficiente para um filme. De terror.

sexta-feira, 28 de junho de 2019

Quem manda*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Para o Serviço Nacional de Saúde, uma putativa nova lei de bases é como o Melhoral, não faz bem nem faz mal. Nada nela tirará um dia que seja a uma lista de espera por uma cirurgia ou uma consulta.

Qual então a razão para os políticos estarem às voltas com um assunto tão exotérico, ainda por cima em fim de legislatura? Há uma razão táctica e uma razão estratégica para este gasto de energia.

A primeira é óbvia: há que desviar a atenção dos portugueses dos problemas do SNS, embora eles sejam tantos que não está fácil varrê-los para debaixo do tapete.

A segunda, muito mais importante, é que a esquerda, depois de quatro anos de matrimónio, até 6 de Outubro vai fingir que está em processo de divórcio.

Para o bloco, este gambozino na saúde é uma boa trincheira, diaboliza as PPP, mesmo as que funcionam bem como a do hospital de Braga.

Para o PCP, muito abalado depois das derrotas nas autárquicas e europeias, é bom tudo o que lhe permita pôr-se a milhas do, como está sempre a dizer, "governo minoritário do PS".

Mas é o PS que mais beneficia com esta demarcação com os demais partidos da geringonça. Para além de desviar os holofotes dos inconseguimentos da ministra da saúde, tem aqui uma oportunidade para mostrar aos eleitores moderados que "não é o bloco que manda no país". Assim o explicou o patriarca César, em Viseu, esta semana.

Carlos César será mais explícito do que António Costa, mas ambos estão sintonizados na estratégia: criar condições para que o eleitorado central dê ao PS a maioria absoluta. E, com a falta de comparência de Rui Rio, está mais para isso do que para outra coisa.


Fotografia Olho de Gato
2. A introdução dos autocarros amarelos em Viseu modificou a paisagem urbana e está a alterar, lentamente, a mobilidade das pessoas.

Nos últimos seis anos, a câmara, no essencial, derreteu os nossos impostos em festas e festinhas borliantes, para minorias. O novo sistema de transportes é a primeira medida estrutural feita depois de Fernando Ruas. Muito bem, vereador João Paulo Gouveia.

quarta-feira, 12 de junho de 2019

Dupla SORTE a dos moradores em Marzovelos — por JB*

Primeiro: têm “Jardins Efémeros” privado e há mais de 365 dias.



Segundo: têm água verde e não essa tal de amarela…



E vamos lá montar o palco para outra FESTA!


* Fotografias, legendas e selecção musical de JB

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Fachada A e Fachada B — texto e fotografias de JB

A Primavera passa no Rossio.
Gostei do Fachada, dos… e de…, foi tudo bom!
Boa festa, pá!





A Primavera não passa no lago de Marzovelos.
Há mais de 365 dias que só temos o coaxar das rãs.
Por aqui a música é “Fachada”!

sexta-feira, 29 de março de 2019

O último a saber*

* Hoje no Jornal do Centro

1. A nova ministra da Saúde, Marta Temido, é uma espécie de trigémea das manas Mortágua. Interessa-se muito com a ideologia e as abstracções que quer pôr na lei de bases, mas pouco com os problemas das pessoas. Resultado: a classe média, assustada com o estado do SNS, vai arranjando seguros de saúde.

Uma delegação de autarcas da CIM Viseu Dão Lafões acaba de ir em peregrinação à ministra mas regressou de mãos a abanar. As obras nas urgências do Hospital de S. Teotónio não avançam, apesar de já aprovadas e com comparticipação comunitária de 85%, mas a culpa não é dela... é das finanças. O Centro Oncológico não mexe mas a culpa não é dela... é da administração do hospital.

Volta, por favor, Adalberto Campos Fernandes!

Jardins Efémeros, 2017
Fotografia Olho de Gato

2. A última sessão da câmara de Viseu ficou marcada pela situação dos jardins Efémeros (JE): este ano não há, para o ano logo se vê.


O presidente da câmara confessou que “não estava a contar” (sic) e que só no dia 18 de Março, numa reunião com o vereador Jorge Sobrado e a organizadora dos JE, Sandra Oliveira, foi “confrontado” (sic) com aquele facto.

Ora, como António Almeida Henriques não ia mentir em sessão de câmara, isso significa que não foi avisado em devido tempo pelo seu vereador da cultura. Isso é um problema.

Qualquer vereador da cultura tem que estar atento ao “ecossistema” cultural do seu concelho. Sobrado tinha que saber que os JE fazem, logo em Janeiro, a chamada aos artistas para projectos integrados no tema do festival. Desta vez, nem em Janeiro, nem em Fevereiro, nem em meio Março houve tema dos JE/2019 nem “call-for-artists”.

Eu, que não sou vereador da cultura e, portanto, não recebi os e-mails aflitos da organizadora (não é preciso ser nenhum adivinho para imaginar que foram vários), sabia que os JE deste ano não iam acontecer.

Como é possível Jorge Sobrado não saber? Como é possível ele ter deixado que o seu presidente da câmara fosse o último a saber esta péssima notícia para a cidade e para o país?

sexta-feira, 22 de março de 2019

O estrado*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Junto ao bairro de Marzovelos em Viseu foi feito um lago artificial que, de tão belo e inesperado naquele sítio, deve ter ajudado a vender os apartamentos dos prédios vizinhos. Tinha patos, tinha até uma grácil garça que por lá poisava para alegria de pequenos e graúdos.

Entretanto, aquela beleza virou pesadelo. Aquilo está transformado num charco de águas pútridas, numa fábrica de mosquitos e melgas, numa ameaça à saúde pública.

Aquele desmazelo feito de telas rasgadas e lixo é o retrato chapado do presidente da câmara e da sua equipa.

Em matéria de obras novas, já se sabe, António Almeida Henriques é só inconseguimentos. O mesmo na manutenção das que recebeu: basta espreitar o lago que virou charco em Marzovelos.

2. Numa cativante cerimónia acontecida em 2017, no Hospital de S. Teotónio, foi tirada uma fotografia a nove cidadãos, cinco deles em cima de um estrado vermelho, onde se reconhecem o então secretário de estado da saúde, Manuel Delgado, o director do hospital, Cílio Correia, e os presidentes da câmara de Viseu e de Tondela. A fotografia, publicada na última edição deste jornal, mostra os homens da saúde de gravata, os autarcas sem, todos à frente de uma placa a anunciar: “Aqui vai ser instalado o Centro Oncológico”.
Anúncio do Centro Oncológico do Hospital Tondela-Viseu, 6 de Maio de 2017
Fotografia do Jornal do Centro (editada) 
Na altura, Manuel Delgado, naquele estrado erguido acima do chão, deixou tudo prometido e calendarizado: iam ser seis milhões de euros de investimento num bunker com capacidade para dois aceleradores lineares, mas, avisou o governante, só um é que ia ser instalado e ia estar a funcionar dois anos depois. Isto é: agora, em 2019.

Foi, repito, uma cativante cerimónia. Só que, logo a seguir, o cativante Mário Centeno, o nosso CR7 das finanças, puxou o travão do acelerador linear. Não há lá nada a não ser a placa.

Mas tenhamos calma: estamos em ano eleitoral, a coisa é capaz de ser reprometida. Em nova cativante cerimónia. Caro Cílio Correia, é melhor ir preparando, de novo, o estrado.

quinta-feira, 1 de fevereiro de 2018

S. Pedro do Sul*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 1 de Fevereiro de 2008


1. A Câmara de S. Pedro do Sul não tem dinheiro nem para mandar cantar um cego.
Daqui
É tanta a “falta de ar” do Presidente da Câmara, António Carlos Figueiredo, que até já tentou antecipar quinze anos de rendimentos das eólicas e tentou passar a patacos, num negócio muito complicado, os Balneários das Termas.

Já se sabe: quando falham a disciplina financeira e o rigor, o interesse público fica em risco. Tem valido a S. Pedro do Sul a sensatez de Fátima Pinho e José Duque, os vereadores socialistas. Fátima Pinho assumiu a liderança da oposição com coragem e tem-se afirmado como um rosto para quem os sampedrenses podem olhar com esperança no futuro.

A meio deste mandato autárquico, em S. Pedro do Sul, as coisas estavam assim: António Carlos Figueiredo em baixa; Fátima Pinho em alta.

2. Eis senão quando José Junqueiro resolveu adentrar em Lafões. Ele foi requerimentos. Ele foi declarações pasmosas à Rádio Vouzela. Ele foi comunicados. Dezanove ambulâncias, escreveu ele num comunicado. Dezanove ambulâncias a tinoninarem na N16, a subirem de S. Pedro para Viseu, movidas a diesel aditivado. Para felicidade dos sampedrenses, escreveu o sempiterno líder distrital do PS. Dezanove ambulâncias.

Muitas noites deve ter perdido Fátima Pinho. É que estas coisas fazem mossa. Teve que lutar muito, assim como os socialistas do concelho, mas valeu a pena. Sempre vai haver um serviço de urgência básica, em S. Pedro do Sul. As pessoas vão ser bem servidas. E isso é que é importante.

O Presidente da Câmara está agora a retirar dividendos políticos do caso. Só precisou de assistir, sentado e com as mãos nos bolsos, à cada vez menos discreta ciumeira entre José Junqueiro e Correia de Campos.

sexta-feira, 13 de outubro de 2017

Fêmeas e machos*

* Publicado hoje no Jornal do Centro

Catarina Gomes e Luísa Pinto
(daqui)

A primeira vez que ouvi o termo microglia foi numa entrevista às investigadoras Catarina Gomes, da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, e Luísa Pinto, do Instituto de Ciências da Vida e da Saúde da Universidade do Minho. Com o que ouvi delas e o que li no verbete da Wikipédia tornei-me um “especialista instantâneo” no assunto, pronto a brilhar no Facebook.

Estou a ironizar, como é lógico. Sei muito pouco sobre a microglia, o conjunto de “células especializadas do sistema imunitário” que defende o “normal funcionamento” do nosso cérebro e medula, o conjunto de células guardiãs dos nossos preciosos neurónios.

Quem sabe muito daquelas células são aquelas investigadoras e as suas equipas que acabam de ver um seu trabalho sobre a ansiedade crónica publicado na Molecular Psychiatry, uma publicação de referência mundial.

Elas apuraram, em experiências feitas com animais, que a alteração do sistema imunitário da grávida produzia alterações permanentes na microglia dos filhos, que essa anomalia era diferente no sexo feminino e no sexo masculino, que essa diferença persistia até na idade adulta, e que terapias desenhadas para o combate à ansiedade tinham muito piores resultados nas fêmeas do que nos machos.

Depois deste estudo, estas cientistas ficaram com uma certeza — para tratar a ansiedade crónica, um dos principais gatilhos da depressão e outras doenças psiquiátricas, são necessários “fármacos que tenham por alvo outras células que não os neurónios” e esses fármacos têm que ser “diferenciados para homens e mulheres.”

Para chatear a CIG (a comissão para a igualdade de género) e o ministro Eduardo Cabrita que, em Agosto, meteram a pata na poça no caso dos livrinhos para meninas e meninos, sintetizo assim as conclusões desta investigação: para um tratamento eficaz da ansiedade crónica, a indústria farmacêutica vai ter que arranjar pílulas cor-de-rosa e pílulas azuis.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Tubos tirados*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Em 2009 e 2010, Portugal teve os dois maiores défices públicos consecutivos em tempo de paz da sua história. Foi coisa em grande — a dívida pública só naqueles dois anos pulou 21% do PIB, quase quarenta mil milhões de euros. Uma tal hemorragia fez com que, em 2011, o país tivesse quer ser levado ao bloco operatório pelos credores.


Fotografia daqui

Como se sabe, uma cirurgia começa por tirar a uma pessoa toda a autonomia, quando a põe a dormir. Depois, o regresso do doente a si, à inteireza de si, não é imediato. Ele está entubado, algaliado, há uma conversa tubular, química, de dentro para fora e de fora para dentro, monitorada, feita de insegurança e dor, dor que é a fala do corpo doente.

Depois, com o passar do tempo, os tubos vão sendo tirados, as funções corporais recuperadas, e isso, a retirada de cada tubo, mais do que um alívio, é sentida como uma libertação.

Portugal, em 2011, viu o seu corpo invadido por tubos estranhos postos pelos cirurgiões da troika, tubos que têm vindo, ao longo destes negros anos, a ser retirados um a um. Esta semana foi tirado o último: o do procedimento por défices excessivos. O país está agora completamente autónomo. Pode escolher o seu caminho.

A terceira república já teve três idas ao bloco operatório: em 1977 levou uma transfusão de 1% do PIB; em 1983, transfusão de 2,8%; e, em 2011, foi uma brutalidade: 45,5% do PIB. Haja agora juízo para se evitar a quarta.

2. Manuel Delgado, secretário de estado da saúde, chegou-se junto de Cílio Correia, director do hospital, e disse-lhe na presença das forças vivas da cidade: saiba o meu amigo que, em vez de um centro oncológico em Viseu, vamos ter uma extensão do de Coimbra, saiba o meu amigo que vamos fazer um bunker no hospital de Viseu para dois aceleradores lineares, mas não há dinheiro, saiba o meu amigo que vamos começar por instalar um só acelerador para poupar 30% do dinheiro que não temos.

O tão badalado anúncio da radioterapia em Viseu foi este nada.

quinta-feira, 27 de abril de 2017

Ferro*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 27 de Abril de 2007


1. Depois da demissão de António Guterres, a política portuguesa passou dum ciclo de doçura “maternal” (o tempo da Expo, do diálogo e da distensão guterrista) para um ciclo “paternal”, crispado, em que já tivemos a “secura” de Manuela Ferreira Leite e agora temos a “determinação” de Sócrates.


Em 2002 acabou a festa. Ferro Rodrigues, que pegara no PS em condições muito difíceis, foi, na altura, muito criticado por causa de um seu cartaz que falava na “Mão de Ferro”. Ele tinha percebido o ”zeitgeist” e o cartaz sintonizava-se com o “ar dos tempos”. Os portugueses queriam então políticos duros. A avaliar pelas sondagens, parece continuarem a querer.


2. No nosso país é mais fácil abrir uma clínica que uma farmácia. Os governos dos últimos 40 anos, todos eles, têm-se “encolhido” perante este condicionamento comercial absurdo. É conhecida a anedota: «O melhor negócio em Portugal é uma farmácia bem gerida e o segundo melhor é uma farmácia mal gerida.» Não admira que o trespasse de uma farmácia atinja valores “pornográficos”.

Em 1997, o deputado socialista Strech Monteiro tentou enfrentar este cartel mas o seu Grupo Parlamentar não deixou.

Ferro Rodrigues, em 2002, defendeu a abertura de cem farmácias sociais e, por isso, sofreu uma campanha miserável feita pela Associação Nacional de Farmácias.

Em Maio de 2006, José Sócrates anunciou a intenção de liberalizar a propriedade das farmácias. A Assembleia da República acaba agora de autorizar o governo a legislar sobre o assunto. Vai deixar de ser preciso ter um canudo em farmácia para se poder ter uma.

É um passo no caminho certo mas que pede o passo seguinte: abrir o sector ao mercado e à concorrência. Isso é que era força perante os fortes. E defesa do interesse público.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Paciente zero*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Chama-se “paciente zero” ao iniciador de uma epidemia. No caso da sida nos EUA, essa maldição foi atribuída erradamente ao comissário de bordo Gaëtan Dugas, falecido em 1984. Embora ele tivesse sido um espalhador do HIV nas saunas gay das cidades onde aeroportava, a verdade é que não foi o primeiro: recentes análises a amostras de sangue recolhidas nos anos de 1970 mostram que o HIV já circulava antes em Nova York.

Acrescente-se: o nome de Gaëtan constava de um estudo científico mas nunca devia ter vindo a público, foi um jornalista inescrupuloso que, para se best-sellar, o prantou num livro sobre a sida.

Num artigo de 29 de Outubro no New York Times, Donald G. McNeil Jr interroga-se sobre se, eticamente, é correcta esta procura científica pelo “paciente zero”. A resposta é afirmativa, é importante saber-se a origem de uma epidemia e, ainda mais, identificar os super-espalhadores, alguns deles assintomáticos, a quem o “bicho” não mata mas mata quem eles contagiam.

2. O festival “Tinto no Branco” trouxe, a Viseu, Bruno Vieira do Amaral e Fernando Pinto do Amaral para indagarem “que mestres restam à literatura”.


 Fernando Pinto do Amaral, Maria João Costa (moderadora) e Bruno Vieira do Amaral
Fotografia Olho de Gato

Os dois escritores foram excelentes: não se ficaram pelas historiecas usuais dos festivais literários, muito menos pelo exercício de atirar nomes para o Olimpo.

Bruno Vieira do Amaral sublinhou que onde há mestres há discípulos, tensão entre eles e necessidade dos segundos se rebelarem contra os primeiros.

Já Fernando Pinto do Amaral definiu mestre como aquele que “cria um território novo”, como é o caso de Aquilino que até “inventou uma língua nova”. Para ele, agora já não há tensão nenhuma, os discípulos glosam, todos prazerosos, os mestres. E acrescentou: um mestre é o “paciente zero”, o “inaugurador de uma epidemia”.

3. Duas magníficas notícias: a Itália disse não ao sinistro plano do sr. Renzi de concentração de poderes no governo e a Áustria não se tornou no “paciente zero” da Europa.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

Impaciência*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. O presidente da câmara de Castro Daire, o socialista Fernando Carneiro, acaba de afirmar que o #1 da Segurança Social no distrito, o social-democrata Telmo Antunes, “devia abandonar o cargo” por estar a pôr “em causa a imagem do organismo”. Razão da fúria: uma multa aplicada pela segurança social a uma IPSS de Mamouros por servir refeições a mais pessoas do que as autorizadas.

Adelaide Modesto
Por sua vez, a presidente da concelhia de Viseu do PS, Adelaide Modesto, em comunicado, perguntou directamente ao #1 do Centro Hospitalar Tondela-Viseu, Ermida Rebelo (PSD), “se se continua a sentir confortável no cargo que está a desempenhar”. Razão da fúria: um prazo queimado para a candidatura do hospital a “centro de referência” no tratamento de vários tipos de cancro abdominal.

O primeiro caso está resolvido: multa paga e a IPSS já pode servir todos os utentes. O segundo não está resolvido: houve 82 “centros de referência" aprovados e o de Viseu não o foi porque falhou o prazo (o feriado municipal de Viseu foi contado como nacional). Que S. Mateus interceda por nós no “processo de reapreciação” em curso.

2. Não surpreende nada que este par de casos tenha feito borbulhar a impaciência socialista. Telmo Antunes e Ermida Rebelo estão nos dois “lugares de nomeação” mais apetecíveis no distrito. Enquanto não os “despedem”, eles vão tentando passar entre os pingos da chuva sem se molharem muito.

Como a “geringonça” é só um acordo de incidência parlamentar que não dá lugares nem ao bloco nem ao PCP, estamos a assistir mais uma vez ao costumeiro “alterne” entre o PS e o PSD.

A doutrina sobre boys é fácil de enunciar: os lugares de nomeação política deviam estar listados em lei e deviam cessar automaticamente com a queda do governo nomeante.

Enquanto não houver essa lei, fica mal aos “nomeados” não porem sempre os seus lugares à disposição do ministro chegante.

quarta-feira, 9 de dezembro de 2015

Caras*

* Texto publicado no Jornal do Centro ha exactamente dez anos, em 9 de Dezembro de 2005


Isabel Dinoire, numa conferência de imprensa, 
em Fevereiro de 2006fotografia de Pascal Rossignol
1. No final de Novembro, foi feito, em Amiens, cidade do norte de França, o primeiro transplante de cara. Foi um transplante parcial, com a substituição do queixo, da boca e do nariz duma mulher de 38 anos que tinha sido completamente desfigurada pelo seu cão.

A mulher, depois do ataque do cão, ficou também com graves dificuldades em comer, beber e falar. 
A operação durou 15 horas e correu bem. Foi usada a cara duma dadora que estava ligada às máquinas, em morte cerebral. A família da dadora, que vai ficar anónima, deu o seu assentimento.

Já correu mundo a fotografia do novo rosto da doente, publicada no Daily Telegraph, em 3 de Dezembro. O seu nome também já foi revelado em alguns jornais. Foram conhecidos ainda pormenores da sua vida privada e das circunstâncias do ataque do cão. Há sempre alguém a falar demais.

2. Ter uma cara nova não é o mesmo que ter um rim novo. A nossa cara não é só o somatório das suas funções orgânicas. É a nossa imagem, é a nossa identidade. A nossa cara é o nosso “eu”, como nós o vemos e como os outros o vêem.

É por isso que, para além do risco de rejeição dos tecidos, também há, neste transplante, um grande risco de rejeição psicológica.

3. Mudar de cara, neste caso, foi necessário. Muitas vezes não o é mas as pessoas querem outra cara à força. Nos tempos que correm, ninguém parece estar satisfeito com o corpo que tem.

As pessoas gostam, e sempre gostaram, de criar novas personagens. Não é preciso lembrar que persona quer dizer máscara. É por isso que as máscaras são muito procuradas. E o botox e as plásticas.

Uma cara conta uma história. A de Michael Jackson, por exemplo, é uma história de racismo desvariado. Já esta nova cara híbrida de Amiens conta-nos uma história de tragédia e de esperança.

sexta-feira, 3 de abril de 2015

Condição de recursos*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Fotografia Olho de Gato
No início de 2011, um viseense viu a sua pensão de invalidez cortada de 189 para 91 euros por ter uma poupança no banco de vinte mil euros. O caso na altura foi muito falado nos media.

Ele queixou-se, e com razão, daquela injustiça. É que se tivesse espatifado a herança do pai não lhe tesouravam a pensão.

Para terem direito a certas prestações, as pessoas passam por um calvário burocrático e têm de autorizar o acesso à sua informação bancária. Depois, se o seu património ou rendimentos exceder um determinado valor, vêem as suas prestações diminuídas ou recusadas.

Isto, a que se chama “condição de recursos”, tem um duplo efeito negativo:

(i) esburaca a rede de segurança da classe média — por exemplo, o abono de família já foi universal, agora não é, e fomos convencidos que assim é que está bem; na saúde e na educação está a trilhar-se o mesmo caminho;

(ii) é a bem conhecida “armadilha da pobreza” — só depois de completamente pobre a pessoa poderá, então, receber um apoio que a mantém pobre.

Há quem vá ainda mais longe: Lawrence Mead, conselheiro do governo britânico, pôs o governo de David Cameron a persuadir os candidatos às prestações sociais a culparem-se a si próprios.

As portas deste deslaçamento social foram abertas pela esquerda. Bill Clinton foi o pioneiro, usou-o para diminuir o custo da mão-de-obra. A terceira-via de Blair aprofundou-o. Entre nós entrou em velocidade de cruzeiro durante o autoritarismo negocista socrático.

Correia de Campos chegou a anunciar para o SNS pagamentos diferenciados conforme o rendimento mas não chegou a concretizar isso. Felizmente, o homem foi ejectado do governo a tempo.

A direita aproveitou estes instrumentos fornecidos pela social-democracia, misturou-os com o preconceito contra a “preguiça” e o “vício” nos subsídios, e nunca mais parou.

E está difícil de parar. Vejam-se os resultados nas eleições na Madeira e na França do último domingo.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

Em Viseu, não sabemos quem somos, nem para onde vamos — um texto de JB *

* Comentário de JB ao post "Mentiras infladas":


"O silêncio pode ser muito barulhento"
José Mourinho
(esse mesmo, o treinador)

1. O Paulo Macedo vem defender que conseguiu um acordo melhor do que os outros países europeus, é o mesmo tipo que ficou indiferente à morte de portugueses (durante meses), gélido no olhar para quem o acusou de “deixar morrer as pessoas”. É o mesmo que considerou que o caos nas urgências foi porque: ”se reformaram muitos médicos”.

O silêncio do PS em relação a este senhor é tão conveniente!!!

“If I Had A Hammer” cantavam Peter, Paul e Mary, com um “hammer of justice” o que eu faria….






2. George Steiner é um dos mais importantes pensadores actuais, ponto!

Steiner tem refletido sobre a Europa e a sua definição. E é curioso que uma das característas que nos distingue, enquanto europeus, são os cafés: “A Europa é feita de cafetarias, de cafés. Desenha-se o mapa das cafetarias e obter-se-á um dos marcadores essenciais da «ideia de Europa». Como eu me identifico com esta ideia!

Mas há horizontes negros na Europa e avisa-nos que «Se o silêncio acabasse por chegar de novo a uma civilização em ruínas, seria um silêncio duplo, clamoroso e desesperado pela recordação da Palavra.»

Silêncio que eu tenho medo se precipite sobre o projecto europeu.
Fotografia de Alexander Zemlianichenko/AP/Guardian

A Europa (com a Alemanha à cabeça) não sabe no que se está a meter. Mas os Russos vão ser bons explicadores. Esta estratégia suicida da Europa vai conduzir a implosão da União Europa. O regresso às pátrias está à beira de acontecer.

E continuo sem entender qual é a posição dos socialistas europeus neste problema da Grécia. Será que continuam a ser socialistas às 2ª 4ª e 6ª e depois não sei o quê às 3ª 5ª e sábados? Enquanto os socialistas não tomarem uma posição digna, clara, não haverá uma solução capaz de servir condignamente o povo grego. Muitos dos problemas que hoje estamos a viver devem-se, infelizmente, à falta de coragem dos governos socialistas europeus em serem fiéis aos seus princípios ideológicos, e a muitos líderes ditos socialistas que se renderam (outros venderam-se) ao capitalismo, verdadeiro vencedor na queda do muro de Berlim. Entregaram-se, muitos criminosamente, ao chamado capitalismo de rosto humano. Agora estamos à espera que o capitalismo se regenere?

Os nãos podem não ser definitivos, quando há força para os contestar.

"The times, they are a-changing," como cantava o Dylan.





3. Neste momento em Viseu, não sabemos quem somos, nem para onde vamos.
E não é a tristeza da cidade, pois esta continua belíssima...

sexta-feira, 9 de janeiro de 2015

Gente má *

* Texto publicado no Jornal do Centro


1. O padre João Pedro Cardoso, capelão do Hospital de Viseu, contou a este jornal que um filho “ao deixar o pai doente num hospital disse aos enfermeiros que na carteira estava um cartão com os contactos de quem trataria do que fosse necessário. Esse cartão era de uma funerária.”

Uma crueza destas faz-nos lembrar que as pessoas têm dias, umas vezes são boas outras vezes são más. E que há gente mesmo reles.

2. Ricardo Raimundo acaba de publicar um livro sobre “reis cruéis, traidores, mulheres fatais, assassinos e gente de má rês” intitulado “Os Maus da História de Portugal”. Qualquer admirador de cinema negro começa a ler o livro no terceiro capítulo dedicado a "mulheres fatais causadoras de desgraça".

Uma delas foi D. Mécia Lopes de Haro, acusada de «artes diabólicas» para manter «enfeitiçado» o seu esposo, D. Sancho II. A rainha era forte, o rei fraco, o reino, esse, estava dividido no partido de D. Sancho e no do seu irmão D. Afonso.

Os partidários de D. Afonso acabaram por conseguir que o papa Inocêncio IV, em 1245, depusesse D. Sancho e reconhecesse D. Afonso como rei. Deu guerra civil, claro.

No verão de 1246, um grupo de cavaleiros entrou na guardadíssima fortaleza de Coimbra, conseguiu, estranhamente, adentrar-se nos aposentos de D. Mécia e raptá-la. A seguir, mais estranhamente ainda, levou-a para o Castelo de Ourém, propriedade dela. D. Sancho, desarvorado, arrancou com os seus melhores homens para libertar a sua amada. Mas ela recusou-se a regressar. Aquele rapto afinal tinha sido fita. Para manter os seus bens, D. Mécia bandeou-se para D. Afonso. O fraco D. Sancho, esmurchido pela traição da mulher, partiu para o exílio e morreu dois anos depois.

3. José Sócrates vai, como disse António Costa, poder defender em tribunal a “verdade em que acredita”.

E convém lembrar: os problemas de “liquidez” do ex-primeiro-ministro não fizeram dele um preso político. Em democracia não há disso.

quarta-feira, 4 de setembro de 2013

Amnésia



Depois disto e disto que, em 2002, este senhor fez a Ferro Rodrigues, como é que esta criatura é candidata socialista?