quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Perdono


Por olores de perfumes baratos
Por tantas mujeres con risa burlona
Por lagrimas que perdieron su sabor

Por noches llenas de soledad
En las que mis manos acariciaron mi cuerpo
Mi cuerpo lloraba
Por el tiempo que no volvera

Perdono, solo para ti
Perdono, solo por tu bien
Perdono, aunque no me lo pediste

Por la compasion del alluido del lobo
Por los momentos de piedad del viento
Que me acaricio

Por los rallos de mi amor ardiente
Que cegaron mis ojos y me hicieron tu sombra
Y por no escuchar el lobo que me mando a irme

Perdono, solo para mi
Perdono, solo por mi bien
Perdono, a pesar que ya estas lejos ...
Frida (2002)


quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

A ventoinha*

* Texto publicado no Jornal do Centro há dez anos, em 30.1.2009


1. Ano de eleições é ano de fervenças em pouca água.

Mal se acabaram de cantar as janeiras logo apareceu José Cesário, líder distrital do PSD, de kalasnhikov na mão, a exigir a demissão da directora do centro de emprego de Lamego.
        
Como é óbvio, na resposta, José Junqueiro lembrou-lhe casos complicados nas câmaras de Lamego, de Castro Daire e de Mangualde. 

Já se sabe: quando se atira lama para a frente da ventoinha, sai lama em todas as direcções.



2. Filmados nos anos de 1970, os 68 episódios da multi-premiada Família Bellamy contaram as aventuras e desventuras duma família aristocrática e dos seus empregados. O título original desta excelente série televisiva — Upstairs, Downstairs, ou o usado em Espanha — Arriba y Abajo explicavam melhor aquele mundo: os andares no cimo da escada eram para os senhores, os de baixo para os criados.
     
Depois da queda do muro de Berlim e da vitória do capitalismo, a divisão de tarefas entre o poder económico e o poder político passou-se a parecer muito com a Família Bellamy. No andar de cima, os donos do dinheiro mandavam; no andar de baixo, os políticos tratavam-lhes da intendência.
     
O resultado, depois de anos de ganância e irresponsabilidade, é a crise gravíssima que estamos a viver. Os do andar de cima começaram a pedir ajuda aos políticos. Para já, a resposta tem vindo em planos de recuperação e avales de milhares de milhões de euros.
     
A coisa não vai ficar por aqui. Em tempos de crise, uns ganham e outros perdem, uns sobem e outros descem. Vai haver um engarrafamento upstairs, downstairs na escadaria social.
     
E muitos dos de cima vão descer a escada aos trambolhões empurrados exactamente por aqueles que eram, até há não muito tempo, seus criados.

Metafísica

Fotografia de Andre Benz



Todas as árvores apaziguam
o espírito. Debaixo do pinheiro bravo
a sombra torna metafísica
a silhueta de tronco e copa.

Em volta da ameixoeira temporã
vespas ensinam aos meus ouvidos
louvores. As oliveiras não se movem
mas as formas da essência desenham-se
cada dia com o vento.

Na sombra os frémitos
acalentam o pensamento
até ao não pensar. Depois
até sentir a vacuidade
no halo das flores que o envolve.

Sob as oliveiras, por fim,
que não se movem contorcendo-se,
concebe o não conceber.
Fiama Hasse Pais Brandão


terça-feira, 29 de janeiro de 2019

A luva*

Fotografia de Teddy Kelley

I am going to pass around in a minute some lovely, glossy-blue
picture postcards.
Num minuto vou passar para vocês vários cartões postais belos e brilhantes.

Esta é a mala de couro que contém a famosa coleção.
Reparem nas minhas mãos, vazias.
Meus bolsos também estão vazios.
Meu chapéu também está vazio. Vejam. Minhas mangas.
Viro de costas, dou uma volta inteira.
Como todos podem ver, não há nenhum truque, nenhum alçapão
escondido, nem jogos de luz enganadores.
A mala repousa nesta cadeira aqui.
Abro a mala com esta chave mestra em cerimónias
do tipo, se me permitem a brincadeira.
A primeira coisa que encontramos na mala, por cima de tudo,
é — adivinhem — um par de luvas.
Ei-las.
Pelica.
Coisa fina.
Visto as luvas — mão esquerda... mão direita... corte... perfeito.
Isso me lembra...
Um jovem artista perdido na elegante Berlim da Belle
Époque, sozinho, em vão procurando por
prazer. Passa um grupo ruidoso
de patinadores, e uma mulher de branco deixa cair
a sua luva, uma luva com seis botões, branca, longa, perfumada.
O jovem corre, apanha
a luva, mas reluta se deve aceitar ou não o desafio.
Afinal decide ignorá-lo, guarda a luva no bolso e volta caminhando para o seu hotel por ruas
mal iluminadas.
Mas assim me desvio do meu propósito desta noite.
Ana Cristina Cesar




* Título da responsabilidade deste blogue que achou este poema aqui

segunda-feira, 28 de janeiro de 2019

Do amor

Fotografia de Viktor Paris



 I
A névoa disse à árvore:
tu, cedro, perdes a tua forma,
se eu te abraço. Disse
o cedro: o Sol ama-me mais,
toma o meu corpo inteiro
no seu corpo e dá-lhe
ser, figura.

II
Ver o cortejo de cedros
e acreditar que é o cenário.
Depois estender a mão
através da longa perspectiva
oblíqua e poder palpar,
na pele, que também os cedros
têm corpos húmidos, saliva,
à espera do Amor.

III
Se alguém descrevesse
o meu rosto, pálpebra
a pálpebra, aleta a aleta
no nariz, a curva
de lábio a lábio,
a fronte agora, a face depois

eu poderia desdenhar
da solitária alheada
imagem num espelho.


IV
Esta vista de mar, solitariamente,
dói-me. Apenas dois mares,
dois sóis, duas luas
me dariam riso e bálsamo.
A arte da Natureza pede
o amor em dois olhares.
Fiama Hasse Pais Brandão



domingo, 27 de janeiro de 2019

La maldicción

Fotografia de Dayne Topkin


Que te pierdas en un bosque.
Que tardes
muchas veces
muchos años
en dar con la salida.
Y que cuando logres escapar,
y me busques,
y no me encuentres,
comprendas al fin
que tú eras el amor,
y yo, el bosque.
Alfonso Brezmes


sábado, 26 de janeiro de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#227)

A família dos saxofones tem parentes bem estranhos

Stoned immaculate (#2)

Fotografia de Daniel Schaffer




Your home is still here,
inviolate and certain.
Thank you, oh lord, for the white blind light.
Jumped humped, born to suffer...
Made to undress in the wilderness.
All of us have found a safe niche where we can store up our riches and talk to our fellows...
in the same premise of disaster.
Thank you, oh lord, for the white blind light.
Let me tell you about heartache in the loss of god...
wandering, wandering a hopeless night.
Moonshine night, mountain village insane in the woods in the deep trees.
...in the deep trees...
...in the deep trees...
Your home is still here,
inviolate and certain.
Oh, I want to be there, I want us to be there, oh, I want to be there... beside the lake, beneath the moon....
Cool and swollen, dripping its hot liquor...
I want to be there.
Thank you, oh lord, for the white blind light.
A city rises from the sea.
Let me tell you about heartache and the loss of God,
Wandering, wandering a hopeless night.
Let me show you the maiden with wrought iron soul.
Out here in perimeter there are no stars.
Out here we are stoned...
Immaculate...
Jim Morrison



sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Vetocracia*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Em Washington, os pesos e os contra-pesos constitucionais estão a anular-se uns aos outros. Francis Fukuyama descreve assim este fenómeno: “os Americanos têm muito orgulho numa constituição que limita o poder executivo numa série de controlos. No entanto, esses controlos metastizaram-se. E agora a América é uma vetocracia.”

Daqui
O sectarismo dos dois partidos do poder impede que eles cheguem a compromissos. O actual fecho do governo federal está a bater todos os recordes mas não é nada de novo, é só mais um momento em que a paralisia vetocrática já nem finge que se mexe e, por isso, entra pelos olhos dentro, até dos mais distraídos.

Obama foi torneando com ordens executivas alguns dos bloqueios que lhe eram impostos pelo poder legislativo dominado pelos republicanos, Trump, que acaba de perder a maioria no Congresso, mais tosco e mais preguiçoso, vai tweetando e tenta levar a água ao seu moinho usando as ferramentas aperfeiçoadas por Obama.

Entretanto, já há milhares de funcionários federais sem salário a acorrerem aos bancos alimentares. É mais um sinal da crescente precarização da classe média, fenómeno ocidental que se acentuou a partir da crise sistémica global de 2008 e que é uma bomba-relógio política a causar instabilidade em todas as latitudes.

2. As primeiras semanas deste ano tiveram uns dias gloriosos, ensolarados, bons para passear. Na paisagem, o sol oblíquo de Janeiro iluminava farrapos de névoa, num ou noutro vale, e fumo proveniente das queimadas.

Como é sabido, fogos no inverno são vacinas para os fogos no verão.

Essa profilaxia devia ser mais sistemática, devia usar mais conhecimento do terreno e da meteorologia, e, acima de tudo, devia ser feita com acompanhamento técnico para não acontecerem tragédias como a do dia 14, em Oliveira do Conde, em que morreu uma pessoa de 86 anos.

Stoned immaculate (#1)

Fotografia de Prokhor Minin

The white blind light

Your home is still here,
inviolate and certain.
Thank you, oh lord, for the white blind light.
Jumped humped, born to suffer...
Made to undress in the wilderness.
All of us have found a safe niche where we can store up our riches and talk to our fellows...
in the same premise of disaster.
Thank you, oh lord, for the white blind light.
Let me tell you about heartache in the loss of god...
wandering, wandering a hopeless night.
Moonshine night, mountain village insane in the woods in the deep trees.
...in the deep trees...
...in the deep trees...
Your home is still here,
inviolate and certain.
Oh, I want to be there, I want us to be there, oh, I want to be there... beside the lake, beneath the moon....
Cool and swollen, dripping its hot liquor...
I want to be there.
Thank you, oh lord, for the white blind light.
A city rises from the sea.
Let me tell you about heartache and the loss of God,
Wandering, wandering a hopeless night.
Let me show you the maiden with wrought iron soul.
Out here in perimeter there are no stars.
Out here we are stoned...
Immaculate...
Jim Morrison




quinta-feira, 24 de janeiro de 2019

Os remédios do amor

Fotografia Olho de Gato



Ao amor destrói-o a fome;
se não, o tempo.
Se ambos não conseguirem,
a forca.
Crates de Tebas
Trad.: Albano Martins



quarta-feira, 23 de janeiro de 2019

Sem juízo *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 23 de Janeiro de 2009





É a banda sonora oficial do Olho de Gato de hoje: 
Quando a cabeça não tem juízo
E tu não sabes mais do que é preciso
O corpo é que paga
O corpo é que paga
Deixó pagar deixó pagar
Se tu estás a gostar…


     
1. Para não cansar muito os muitos juristas da casa, o ministério de Maria de Lurdes Rodrigues (MLR) adjudicou um trabalho a João Pedroso por 266 mil euros e mais uns trocos e mais o IVA. Pagou logo tudo ao advogado antes deste começar a trabalhar. A coisa deu bronca. O trabalho ficou por fazer. João Pedroso já reconheceu que não vai dar conta do recado. Agora é-lhe pedida a devolução de… metade da massa … em 12 suaves prestações...
     
Vá lá, cante como quando está no duche: “Quando a cabeça não tem juízo…”
     
2. A HP venceu um concurso de fornecimento de computadores às escolas; a ACER protestou porque a sua proposta era mais barata 15 milhões de euros.
     
Será outro caso de “quando a cabeça não tem juízo”? Não se sabe ainda. Ninguém explicou aqueles 15 milhões a mais. Há, para já, uma certeza: “o corpo (leia-se: o erário público) é que paga”…

     
3. MLR, durante todo 2008, não conseguiu aplicar a sua avaliação “chilena” dos professores. Perante aquele labirinto, até os presidentes das escolas arrastaram os pés.
     
Vai daí, MLR entrou em 2009 a ameaçar os “índios” e a atirar dinheiro aos “chefes”. Os directores das escolas acabam de ter um rechonchudo aumento no seu “suplemento remuneratório”. Consoante o tamanho da escola, vão passar a ser 600 ou 650 ou 750 euros.
     
Vá lá, como no duche: “Quando a cabeça não tem juízo…”

Artémis

Fotografia de Panos Sakalakis



La Treizième revient... C'est encor la première ;
Et c'est toujours la Seule, - ou c'est le seul moment :
Car es-tu Reine, ô Toi! la première ou dernière ?
Es-tu Roi, toi le seul ou le dernier amant ? ...

Aimez qui vous aima du berceau dans la bière ;
Celle que j'aimai seul m'aime encor tendrement :
C'est la Mort - ou la Morte... Ô délice ! ô tourment !
La rose qu'elle tient, c'est la Rose trémière.

Sainte napolitaine aux mains pleines de feux,
Rose au coeur violet, fleur de sainte Gudule,
As-tu trouvé ta Croix dans le désert des cieux ?

Roses blanches, tombez ! vous insultez nos Dieux,
Tombez, fantômes blancs, de votre ciel qui brûle :
- La sainte de l'abîme est plus sainte à mes yeux !
Gérard de Nerval






terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Aquí, Madrid, mil novecientos e cincuenta y cuatro: un hombre solo

Fotografia de Bahram Bayat



Un hombre lleno de febrero,
ávido de domingos luminosos,
caminando hacia marzo paso a paso,
hacia el marzo del viento y de los rojos
horizontes - y la reciente primavera
ya en la frontera del abril lluvioso...
Aquí, Madrid, entre tranvías
y reflejos, un hombre: un hombre solo.
- Más tarde vendrá mayo y luego junio,
y después julio y, al final, agosto.
Un hombre con un año para nada
delante de su hastío para todo.
Ángel González


segunda-feira, 21 de janeiro de 2019

Sonho oriental

Fotografia Olho de Gato



Sonho-me às vezes rei, n'alguma ilha,
Muito longe, nos mares do Oriente,
Onde a noite é balsâmica e fulgente
E a lua cheia sobre as águas brilha...

O aroma da magnólia e da baunilha
Paira no ar diáfano e dormente...
Lambe a orla dos bosques, vagamente,
O mar com finas ondas de escumilha...

E enquanto eu na varanda de marfim
Me encosto, absorto n'um cismar sem fim,
Tu, meu amor, divagas ao luar,

Do profundo jardim pelas clareiras,
Ou descansas debaixo das palmeiras,
Tendo aos pés um leão familiar.
Antero Tarquínio de Quental



domingo, 20 de janeiro de 2019

Testamento

Fotografia de Hessam Hojati



Disse: creio na poesia, no amor, na morte,
e por isso creio na imortalidade. Escrevo um verso,
escrevo o mundo, existo; existe o mundo.
Da ponta do meu dedo mínimo corre um rio.
O céu é sete vezes azul. Esta pureza
é de novo a primeira verdade, a minha última vontade.
Giánnis Ritsos
Trad.: Custódio Magueijo


sábado, 19 de janeiro de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#226)

Portugal brexita aos 4'47''

Retrato de escritor

Fotografia de Matthew T. Rader



Insolúvel: na água quente e na fria;
nas de furar a pedra ou nas langues;
nas águas lavadeiras; até nos álcoois
que dissolvem o desdém mais diamante.
Insolúvel: por muito o dissolvente;
igual, nas gotas de um pranto ao lado,
e nas águas do banho que o submerge,
em beatitude, e de que emerge ingasto.
João Cabral de Melo Neto



sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Paus — Resende*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Umberto Eco, num texto publicado no L'Espresso em 2005, escreveu que “o fundamentalismo cristão nasce nos ambientes protestantes e caracteriza-se pela decisão de interpretar literalmente as Escrituras” e que “não pode haver fundamentalismo católico” já que, “para os católicos, a interpretação das Escrituras é mediada pela Igreja.”

Nos católicos há uma “hermenêutica mais flexível” que admite que “a Bíblia recorria com frequência a metáforas e a alegorias”, nos protestantes não.

É muito fácil constatar isso agora com os evangélicos no poder no Brasil. A ministra Damares Alves, depois de ter avistado Jesus num pé de goiaba, depois de ter “aberracionado” mulher com mulher e homem com homem, veio lamentar que a teoria da evolução de Darwin seja ensinada nas escolas e exasperar-se por a ciência estar entregue a... cientistas.

2. Ora, nesta quadra do Natal, uma dezena de textos de dignitários católicos publicados no Observador, uns mais violentos, outros menos, todos debruçados sobre a virgindade de Maria, vieram mostrar que aquela regra da flexibilidade católica, enunciada por Eco, tem excepções.

Tudo começou com um artigo que transcrevia declarações do bispo do Porto, D. Manuel Linda, nascido na freguesia de Paus do concelho de Resende, em que ele apostolava que “nunca devemos referir a virgindade física da Virgem Maria”, a que se somavam as declarações de Anselmo Borges, nascido também em Paus, em que aquele padre e professor universitário dizia que Cristo foi concebido por Maria e José “como outra criança qualquer”.

D. Manuel Linda e Anselmo Borges

O que estes dois resendenses foram dizer... Caiu-lhes em cima uma chusma a malhar-lhes e a jurarem pelo hímen de Nossa Senhora. Um delírio literal igualinho ao da ministra Damares.

O bispo, coitado, lá teve de fazer uma espécie de marcha-atrás, Anselmo Borges encolheu os ombros, e eu fiquei com vontade de visitar aquela simpática terra do norte do distrito que deu dois homens bons à Igreja.

Se fosse pantero era azul*

Daqui





* Olá, ministra Damares Alves!

quinta-feira, 17 de janeiro de 2019

Escrever foi um engano

Fotografia de Kevin Wolf



a mulher que me deu mais prazer
perdi-a um dia.

às vezes via a sua magreza
através da elegância das saias.

eu conhecia os relicários dos santos
os seus ossos distribuídos por
gavetas de prata
e sabia que um relógio
cria no cão pequeno
a ilusão do bater do coração da mãe.

o que eu beijava nessa mulher
era a sua respiração
o ar da sua santidade
que lhe impulsionava as ancas.

e ao seu lado eu dormia
como um cão enrolado
ouvindo o bater do coração.
Carlos Saraiva Pinto



quarta-feira, 16 de janeiro de 2019

Acabou o Natal*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 16 de Janeiro de 2009


1. Acabou o Natal.

Em Viseu, já tiraram a passadeira alaranjada da Rua Formosa e foi-se o Porsche do sorteio do Forum. A neve da última sexta-feira fez da cidade um presépio branco lindo mas atrasado.

É tempo de fazermos uma aterragem na crise. Que seja suave…

2. Há novidades na política de estacionamento em Viseu.

A câmara anunciou uma descida forte nas tarifas dos parquímetros (de 64 cêntimos para 40, na primeira hora). É uma notícia excelente.

Estão a decorrer concursos para a construção e exploração de dois parques de estacionamento no centro histórico. Oxalá esses concursos não fiquem vazios.

Infelizmente, ainda não foi desta vez que a câmara municipal anunciou lugares de estacionamento reservados aos moradores. Foi pena. É uma medida tão necessária para dar vida ao centro histórico como a tão falada loja do cidadão.

3. Depois das votações à tangente no parlamento na semana passada, a avaliação dos professores ficou assim:

i) até 31 de Agosto, continua em vigor a versão simplex (um faz-de-conta desassisado);

ii) a partir de 1 de Setembro, regressa a versão complex (um labirinto sádico infecundo).



4. As eleições autárquicas e legislativas devem ser feitas no mesmo dia. É um 2 em 1 cheio de vantagens: poupa-se tempo e dinheiro.

Dizer-se que as pessoas não sabem distinguir o voto local do voto nacional é um insulto à inteligência dos portugueses.

Uma democracia saudável respeita os calendários eleitorais. Há duas boas datas para irmos a votos e aviarmos logo tudo de uma vez: 27 de Setembro e 11 de Outubro. O domingo 4 de Outubro não é tão bom por causa do fim-de-semana prolongado.

Foi um tempo branco

Fotografia de Wai Siew



Foi um tempo branco, repetidamente lavado nas próprias mãos
Desviando a transparência do rosto para a noite
Um tempo branco muito diferente da verdade
Muito diferente das estrelas que se apagam

Foi um tempo muito branco
Mais doloroso do que os olhos sempre abertos no escuro
Inimaginável quando pus de fora a cabeça, as mãos
— tendo deposto o que trazia nelas —
O corpo todo
E saí como um paralítico depois do milagre
Na forma de quem grita por socorro

Foi um tempo branco porque era mudo
E não havia nenhuma palavra que pudesse apagá-lo
Um tempo tão manso como um lobo que não morde
Um tempo tão branco
Tão raso

Saí como um coxo que caminha sobre o tempo tão liso
Tão branco
Que pensei que era um muro aquele tempo estar ali
E bati contra ele como uma badalada que demora

E era branco, um som que nunca ouvi
Daniel Faria



terça-feira, 15 de janeiro de 2019

Hurt

Fotografia de Azamat Zhanisov



I hurt myself today
To see if I still feel
I focus on the pain
The only thing that's real

The needle tears a hole
The old familiar sting
Try to kill it all away
But I remember everything

What have I become
My sweetest friend?
Everyone I know goes away
In the end

And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt

I wear this crown of thorns
Upon my liar's chair
Full of broken thoughts
I cannot repair

Beneath the stains of time
The feelings disappear
You are someone else
I am still right here

What have I become
My sweetest friend?
Everyone I know goes away
In the end

And you could have it all
My empire of dirt
I will let you down
I will make you hurt

If I could start again
A million miles away
I would keep myself
I would find a way



segunda-feira, 14 de janeiro de 2019

A coisa

Fotografia de Meshkat Ranjbaran


Eu quero inventar uma coisa, uma coisa viva, uma coisa
que se desprenda de mim e se mova pelo resto do mundo
com pernas que ela terá de crescer de si própria;
e que seja ela uma máquina viva, uma máquina
capaz de decidir e de duvidar, capaz de se enganar e de mentir.
Uma coisa que não existe. Uma coisa pela primeira vez.
Uma máquina bastarda feita de dobradiças e enzimas
e metonímias e quarks e transístores e estames
e plasma e fotogramas e roupas e sopa primordial...
Quero apenas que seja uma coisa minha, uma coisa
que eu inventei numa madrugada enquanto vocês dormiam
e quando a vi recuei, e quando a soube pronta duvidei,
e vi a electricidade do relâmpago abrindo seus olhos
e martelei seu joelho temendo-a, e mandando-a falar,
e gritei: "Levanta-te e anda!"- e a coisa era uma galáxia
tremeluzindo no centro da folha branca, me olhando
com meus olhos de homem, me sorrindo
com tantas bocas de mulher, me envolvendo
com sua sintaxe de coisa nova que força o mundo a mover-se,
fincando uma cunha no Real e se instalando naquela fenda,
como um setor a mais invadido um círculo já completo.
Eu quero que essa coisa existisse, assim como
eu quis que eu seja. Quero vê-la brotar desarrumando.
Coisa criada, cobra criante, serpente criança,
criatura sentiente, existente, sente, pensante,
cercada pela linha brusca do seu até-aqui
Essa coisa me conhecerá e não me reconhecerá
como seu Criador. Essa coisa terá poder de me destruir,
e de me recompor, e me mandar pedir-lhe a bênção.
Então pedirei. Sairei pelo mundo. Com minhas próprias pernas.
Finalmente leve e livre, tendo parido algo maior do que eu mesmo,
e disposto a me abraçar ao mundo, como quem desce do ónibus
na rodoviária da cidade onde nasceu. Mas o mundo!
O que é esse mundo onde eu ando agora? Olha a cor das casas,
o rosto do povo, o som da fala, a manchete dos jornais, o cheiro
do vento... que mundo é esse para onde retornarei depois de livre?
Fico parado, o coração pulando, e só daqui a pouco perceberei,
com uma surpresa antiga — que aquilo não é mais meu mundo:
e o mundo da coisa, é o mundo da minha Coisa.
Bráulio Tavares



domingo, 13 de janeiro de 2019

Separados

Fotografia Olho de Gato 


Atraem-nos as beiras, os nossos próprios
parapeitos e paredões: as nossas vidas descobertas
em relevo, nalguma tempestade bifurcada.

No regresso com os nossos dons inimagináveis,
envergando um emblema de sal e sangue,
esquecemo-nos de como se anda.

Pensando no muito mais que queríamos
quando o que tínhamos era tudo o que havia;

olhando tarde de mais para aqueles que amámos,
esticamos as mãos em plena queda.
Robin Robertson
Trad.: Vasco Gato


sábado, 12 de janeiro de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#225)



Cuando te quedas solo

Fotografia de Zulmaury Saavedra

Cuando te quedas solo, eres espejo
de lo que fuiste:
una mañana
contemplada desde el balcón
entornado; unos pasos
armoniosos que no has seguido
para no derramar tu gozo;
unas cuantas palabras
que te cambiaron más que el tiempo;
una mirada que se ahogó
como luz en tus venas;
un viaje que nunca querías
terminar; tu alma ausente
de lo que te esperaba
al quedarte tan solo.
Ángel Crespo


sexta-feira, 11 de janeiro de 2019

Bodes expiatórios*

* Hoje no Jornal do Centro



“O homem é a criatura que não sabe o que desejar e que se vira para os outros para se decidir. Nós desejamos o que os outros desejam porque imitamos o seu desejo.”
Renė Girard

É esta teoria do desejo mimético de René Girard que explica o sucesso das redes sociais. As pessoas desejam o que os outros desejam e odeiam o que os outros odeiam e essa imitação materializa-se em likes e partilhas.

As sociedades ligadas em rede como as nossas, apesar de toda a tecnologia que usam, são comandadas, como explica o filósofo francês, pelas pulsões primitivas de sempre — a alcateia de “haters” a uivar em cada indignação do Facebook parece-se muito com os antigos ritos sacrificiais, em que eram sangrados e queimados em aras os bodes expiatórios (os inimigos, as bruxas, os sacrílegos, ...)

A sociedade foi partida em grupos identitários que criam para si uma história de agravos e de ressentimentos, reais ou imaginários, sempre a querer fazer ajustes de contas. Isso permite à política viver do fabrico de bodes expiatórios que vão sendo entregues para sacrifício ao vampirismo identitário. Enquanto ardem as redes sociais, e elas estão sempre incendiadas, os políticos lá vão tratando das suas vidas.

A criança Trump precisa do “traficante” do lado de fora do muro com o México enquanto o seu clã faz negócios com os sauditas, o boçal Bolsonaro necessita da “petralhada” enquanto os filhos abrem a boca e sai asneira, o sinistro Puigdemont depende da diabolização do “espanhol” para que os catalães não vejam a sua mediocridade, o aflito Macron carece do “casseur” para ver se se safa daquele colete de onze varas em que está metido.


Daqui
Até a nossa pacífica geringonça, pelo que se tem visto com a reacção à ida de um suástico a um programa de televisão, anseia por um “fascista” que possa ocupar o lugar de bode expiatório que está vago desde que saiu de cena Pedro Passos Coelho.

Sustos & sustos

Daqui


de pelo menos um susto
todos nos recuperamos

o que muda é o conteúdo
que fica sobrando no chão

quando espremido o susto de um
esguicha repelente e algodão

o de outro deixa um rastro de fruta
pequeno cachorro sacrificado

mas olha este que engraçado
explodiu orfanato e caco de vidro


quinta-feira, 10 de janeiro de 2019

As sombras existem

Fotografia de Holly Mandarich


Faz-se luz pelo processo
de eliminação de sombras
Ora as sombras existem
as sombras têm exaustiva vida própria
não dum e doutro lado da luz mas no próprio seio dela
intensamente amantes loucamente amadas
e espalham pelo chão braços de luz cinzenta
que se introduzem pelo bico nos olhos do homem

Por outro lado a sombra dita a luz
não ilumina realmente os objectos
os objectos vivem às escuras
numa perpétua aurora surrealista
com a qual não podemos contactar
senão como amantes
de olhos fechados
e lâmpadas nos dedos e na boca
Mário Cesariny


quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

Web 2.0*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 9 de Janeiro de 2009


1. Em 2008, os media tradicionais perderam audiência para a Web 2.0, a internet dos blogues, das redes sociais, do YouTube, da wiki, …
     
É conhecida a diferença entre eles: enquanto nos media tradicionais temos “um a falar para muitos”, na Web 2.0 temos “muitos a falar para muitos”.
     
Na Web 2.0 milhões e milhões de “formigas” produzem e disseminam informação. Isto é novo e tem consequências no “formigueiro”.
     
Obama foi um campeão da Web 2.0. Os seus vídeos no YouTube foram vistos por 50 milhões de pessoas. Os donativos angariados através da net permitiram a Obama dispensar até o uso de fundos públicos.

Paulo Guinote
Em Portugal, o entendimento assinado em Abril entre os sindicatos e o ministério da educação foi estilhaçado pelos blogues dos professores. Foram os blogues que mostraram o labirinto sádico do modelo de avaliação de professores engendrado por Maria de Lurdes Rodrigues. Foi nos blogues que se fez a mobilização total da classe. Antes dos media e, muitas vezes, contra os media, foram os blogues dos professores que deram informação credível a mostrar as escolas à beira de um ataque de nervos.
     
Escusado será dizer que a Web 2.0 vai ter um grande papel nas três eleições que vão acontecer em Portugal este ano.


Uma vénia ao 
2. No nosso regime semipresidencialista, o presidente da república exerce o poder moderador, poder reservado aos reis nas monarquias constitucionais (em Portugal, de 1826 a 1910).
     
Diz Slavoj Žižek, em As Metástases do Gozo: “o direito do rei a dois vetos consecutivos era essencial porque lhe permitia render-se aos desejos da assembleia (…) sem perder a sua dignidade e majestade.”
     
É a esta luz que deve ser vista a acção de Cavaco Silva durante o processo legislativo do estatuto dos Açores.