sábado, 30 de setembro de 2017
A day like any other
Such insignificance: a glance
at your record on the doctor's desk
or a letter not meant for you.
How could you have known? It's not true
that your life passes before you
in rapid motion, but your watch
suddenly ticks like an amplified heart,
the hands freezing against a white
that is a judgment. Otherwise nothing.
The face in the mirror is still yours.
Two men pass on the sidewalk
and do not stare at your window.
Your room is silent, the plants
locked inside their mysterious lives
as always. The queen-of-the-night
refuses to bloom, does not
accept
your definition. It makes no sense,
your scanning the street for a traffic snarl,
a new crack in the pavement,
a flag at half-mast -- signs
of some disturbance in the world
because your friend, the morning sun,
has turned its dark side toward you.
Lisel Mueller
sexta-feira, 29 de setembro de 2017
Bonança*
* Texto publicado hoje no Jornal do Centro
1. O nosso actual optimismo económico tem três causas directas: o crescimento em toda a “Europa”, o turismo de “escapadinhas” e a forma como a geringonça se “cativou” pelos lindos olhos do tratado orçamental.
Este tripé é, todo ele, magnífico:
— é bom a “Europa” estar a crescer e a criar emprego, isso tem um impacto positivo na vida das pessoas e retira oxigénio aos soberanismos populistas de esquerda e direita;
— é excelente termos as nossas cidades cada vez mais cosmopolitas, e haver gente a ganhar dinheiro e a criar empregos no turismo;
— é uma ironia e um alívio termos um governo apoiado pelo bloco e pelo PCP a esforçar-se por um défice ainda mais “eurogrupista” do que pedia o eurogrupo.
Será que aprendemos com o trauma da última bancarrota? Será que nunca mais vamos ter os credores a mandar neste desgraçado país?
Como a preparação para as tempestades deve ser feita na bonança, agora devíamos aplicar a folga orçamental na diminuição da dívida pública. Devemos isso ao futuro dos nossos filhos e dos nossos netos. Este assunto ficará para outra crónica.
2. Esta campanha das autárquicas decorreu num clima social muito diferente do de há quatro anos. Então as pessoas estavam zangadas com os partidos e, onde puderam, votaram em independentes, umas vezes bem como no Porto, outras vezes mal como em Oeiras (onde a asneira, desgraçadamente, parece que se vai repetir).
Além daquele voto massivo em candidaturas independentes, nunca houve tantos brancos e nulos como em 2013. Estes votos de protesto duplicaram nos vinte e quatro concelhos do distrito de Viseu, tendo crescido ainda mais nas freguesias urbanas. Nas freguesias mais citadinas de Viseu, por exemplo, a soma dos nulos com os brancos chegou aos 12%, dava à vontade para eleger um vereador.
Na campanha que acaba hoje, nenhuma candidatura se preocupou com esta multidão que estava zangada em 2013. Onde irá votar este eleitorado quatro anos depois?
1. O nosso actual optimismo económico tem três causas directas: o crescimento em toda a “Europa”, o turismo de “escapadinhas” e a forma como a geringonça se “cativou” pelos lindos olhos do tratado orçamental.
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| Daqui |
— é bom a “Europa” estar a crescer e a criar emprego, isso tem um impacto positivo na vida das pessoas e retira oxigénio aos soberanismos populistas de esquerda e direita;
— é excelente termos as nossas cidades cada vez mais cosmopolitas, e haver gente a ganhar dinheiro e a criar empregos no turismo;
— é uma ironia e um alívio termos um governo apoiado pelo bloco e pelo PCP a esforçar-se por um défice ainda mais “eurogrupista” do que pedia o eurogrupo.
Será que aprendemos com o trauma da última bancarrota? Será que nunca mais vamos ter os credores a mandar neste desgraçado país?
Como a preparação para as tempestades deve ser feita na bonança, agora devíamos aplicar a folga orçamental na diminuição da dívida pública. Devemos isso ao futuro dos nossos filhos e dos nossos netos. Este assunto ficará para outra crónica.
2. Esta campanha das autárquicas decorreu num clima social muito diferente do de há quatro anos. Então as pessoas estavam zangadas com os partidos e, onde puderam, votaram em independentes, umas vezes bem como no Porto, outras vezes mal como em Oeiras (onde a asneira, desgraçadamente, parece que se vai repetir).
Além daquele voto massivo em candidaturas independentes, nunca houve tantos brancos e nulos como em 2013. Estes votos de protesto duplicaram nos vinte e quatro concelhos do distrito de Viseu, tendo crescido ainda mais nas freguesias urbanas. Nas freguesias mais citadinas de Viseu, por exemplo, a soma dos nulos com os brancos chegou aos 12%, dava à vontade para eleger um vereador.
Na campanha que acaba hoje, nenhuma candidatura se preocupou com esta multidão que estava zangada em 2013. Onde irá votar este eleitorado quatro anos depois?
quinta-feira, 28 de setembro de 2017
Caçadeira*
* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, de 28 de Setembro de 2007
1. Na Assembleia Municipal de Fevereiro, António Neves, Presidente da Junta de Freguesia de Boaldeia, sintetizou assim a “doutrina” da Carta Educativa de Viseu: «Posso admitir a concentração dos alunos numa escola por freguesia, não posso é aceitar uma freguesia sem escola.»
António Neves tem defendido com energia a “sua” escola. Só que, infelizmente, na Boaldeia há apenas 12 alunos. Não há escala para poder haver uma boa escola.
Quando foi eleito, há seis anos, António Borges, Presidente da Câmara de Resende, percebeu que o insucesso escolar no seu concelho tinha uma causa primeira: as micro-escolas do 1º ciclo. Começou logo a tratar de fazer Centros Escolares. Com Durão Barroso o dossier empancou. Com Sócrates as obras puderam avançar. Já está em funcionamento o excelente Centro Escolar de S. Martinho de Mouros. Se houvesse um de igual qualidade na zona oeste do concelho de Viseu, com refeitório, mediateca, auditório, quadros interactivos, ..., o Presidente da Junta de Boaldeia e as famílias eram os primeiros a quererem lá as suas crianças.
2. Enquanto ouvia a Ministra da Educação, Maria de Lurdes Rodrigues, no programa Prós e Contras da RTP1, fria como um icebergue, incapaz de mostrar um sorriso ou de dizer uma palavra de ânimo para quem ensina ou quem aprende, lembrei-me das palavras de Daniel Faria:
Espero que, em 2008, nas nossas escolas, as asas feridas se comecem a curar e, claro!, que José Sócrates chegue junto da ministra e lhe tire a “caçadeira” das mãos.
1. Na Assembleia Municipal de Fevereiro, António Neves, Presidente da Junta de Freguesia de Boaldeia, sintetizou assim a “doutrina” da Carta Educativa de Viseu: «Posso admitir a concentração dos alunos numa escola por freguesia, não posso é aceitar uma freguesia sem escola.»
António Neves tem defendido com energia a “sua” escola. Só que, infelizmente, na Boaldeia há apenas 12 alunos. Não há escala para poder haver uma boa escola.
Quando foi eleito, há seis anos, António Borges, Presidente da Câmara de Resende, percebeu que o insucesso escolar no seu concelho tinha uma causa primeira: as micro-escolas do 1º ciclo. Começou logo a tratar de fazer Centros Escolares. Com Durão Barroso o dossier empancou. Com Sócrates as obras puderam avançar. Já está em funcionamento o excelente Centro Escolar de S. Martinho de Mouros. Se houvesse um de igual qualidade na zona oeste do concelho de Viseu, com refeitório, mediateca, auditório, quadros interactivos, ..., o Presidente da Junta de Boaldeia e as famílias eram os primeiros a quererem lá as suas crianças.
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| Daqui |
(…) o que dói às aves
Não é o serem atingidas, mas que,
Uma vez atingidas,
O caçador não repare na sua queda.
Notas da campanha (antes que esqueça…) — um texto de JB*
* Comentário de JB deixado ontem no post "Não há guarda-chuva contra o amor":
"Não há guarda-chuva" ou faltaram as prendas dos guarda-chuvas nas autárquicas. Ora bolas!
Tivemos no palco um Almeida Henriques (PSD) que não ganhou os debates, mas soube gerir bem o tempo, as intervenções, as simpatias e as “ferroadas”.
Fernando Figueiredo (BE) que começou titubeante, ganhou força e embalagem e demonstrou ser um bom reforço.
Filomena Pires (CDU) que tem a difícil missão de acrescentar os 2.500 votos necessários (à votação de 2013) para ser vereadora, revelou estar técnica e politicamente bem preparada.
Acutilante no que vou recordar desta campanha: a denúncia de “2017 – ano oficial para visitar Viseu” e não haver um parque de campismo ou de auto-caravanas !!! E ainda a proposta de Vale de Cavalos – muito bonito – para instalar esses equipamentos.
Paula Amaral (CDS) começou nervosa e pouco assertiva, melhorou no debate da rádio e ficou por aí.
Houve uma nítida picardia com Almeida Henriques e a candidata do PS, o que lhe retirou espaço na apresentação de propostas (apoio ao pequeno e médio comerciante, por exemplo).
Lúcia Silva (PS), a candidata com a difícil tarefa de fazer subir a votação do PS, sem o apoio dos peso-pesados de Viseu (que não apareceram na campanha), procurou apresentar uma equipa “certinha” e de segundas linhas.
Nos debates revelou erros — por exemplo, o ataque a “eventuais problemas” na carreira empresarial do candidato Almeida Henriques criou um momento constrangedor e escusado. Há alguma pena judicial? Não! Então, julgamentos na praça pública nunca!
Não teve a acutilância para explorar as fragilidades do poder – por exemplo, a questão do preço dos terrenos nas zonas industriais. Pouco clara no explanar das suas ideias e propostas, e no tanto que havia para explorar de um poder festivaleiro.
Do PAN (Carolina Almeida) ficou a ideia de quer ser feliz!
No fim:
Factor comum a quase todos: foram incapazes de referir propostas que os seus partidos tenham apresentado (durante quatro anos) na Câmara ou na Assembleia Municipal. Revelador de falta de ligação ou preparação nos debates?
A excepção foi a CDU, que encontrou em Filomena Pires uma “Voz do Povo”, pois várias vezes referiu que “apresentou a proposta da srª X; o problema do sr. Y ou fez o requerimento Z”.
Ainda que continue deslumbrado, e "prognósticos só no fim do jogo", ...
"Não há guarda-chuva" ou faltaram as prendas dos guarda-chuvas nas autárquicas. Ora bolas!
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| Daqui |
Tivemos no palco um Almeida Henriques (PSD) que não ganhou os debates, mas soube gerir bem o tempo, as intervenções, as simpatias e as “ferroadas”.
Fernando Figueiredo (BE) que começou titubeante, ganhou força e embalagem e demonstrou ser um bom reforço.
Filomena Pires (CDU) que tem a difícil missão de acrescentar os 2.500 votos necessários (à votação de 2013) para ser vereadora, revelou estar técnica e politicamente bem preparada.
Acutilante no que vou recordar desta campanha: a denúncia de “2017 – ano oficial para visitar Viseu” e não haver um parque de campismo ou de auto-caravanas !!! E ainda a proposta de Vale de Cavalos – muito bonito – para instalar esses equipamentos.
Paula Amaral (CDS) começou nervosa e pouco assertiva, melhorou no debate da rádio e ficou por aí.
Houve uma nítida picardia com Almeida Henriques e a candidata do PS, o que lhe retirou espaço na apresentação de propostas (apoio ao pequeno e médio comerciante, por exemplo).
Lúcia Silva (PS), a candidata com a difícil tarefa de fazer subir a votação do PS, sem o apoio dos peso-pesados de Viseu (que não apareceram na campanha), procurou apresentar uma equipa “certinha” e de segundas linhas.
Nos debates revelou erros — por exemplo, o ataque a “eventuais problemas” na carreira empresarial do candidato Almeida Henriques criou um momento constrangedor e escusado. Há alguma pena judicial? Não! Então, julgamentos na praça pública nunca!
Não teve a acutilância para explorar as fragilidades do poder – por exemplo, a questão do preço dos terrenos nas zonas industriais. Pouco clara no explanar das suas ideias e propostas, e no tanto que havia para explorar de um poder festivaleiro.
Do PAN (Carolina Almeida) ficou a ideia de quer ser feliz!
No fim:
Factor comum a quase todos: foram incapazes de referir propostas que os seus partidos tenham apresentado (durante quatro anos) na Câmara ou na Assembleia Municipal. Revelador de falta de ligação ou preparação nos debates?
A excepção foi a CDU, que encontrou em Filomena Pires uma “Voz do Povo”, pois várias vezes referiu que “apresentou a proposta da srª X; o problema do sr. Y ou fez o requerimento Z”.
Ainda que continue deslumbrado, e "prognósticos só no fim do jogo", ...
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| ... o candidato Almeida Henriques bem pode comprar o champanhe para o dia 1 de Outubro.
JB
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Filhos da mãe
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| Émile Bechard, Subida à grande pirâmide, Egipto, 1875 |
Há por certo os poetas, os santos, e gente semelhante
(os heróis, que os leve o diabo)
- mas desde sempre, em qualquer língua,
qualquer das religiões (ilustres ou do manipanso),
fizeram o mesmo, disseram o mesmo, morreram igual,
e os outros que nascem e vivem e morrem
continuam a ser a mesma maioria triunfal
de filhos da mãe.
Jorge de Sena
quarta-feira, 27 de setembro de 2017
Não há guarda-chuva contra o amor
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| Daqui |
Não há guarda-chuva contra o amor
que mastiga e cospe como qualquer
boca, que tritura como um desastre.
Não há guarda-chuva
João Cabral de Melo Neto
terça-feira, 26 de setembro de 2017
¿Vas a enseñarme a vivir?
Te dejaré tocar mi colección de cáscaras
compartiré contigo las uñas que guardo en los bolsillos.
Las semillas que nos dieron
son pastillas para dormir
y del ombligo dormidos
nos crecen frutales.
Te daré de comer.
Ven.
La tierra prometida es cosa de otros.
Para nosotros la arena:
un paisaje que cambia con el viento.
Miriam Reyes
segunda-feira, 25 de setembro de 2017
Post #5000
Não, não se fala mal
português em portugal
não se diz caralho
a torto e a direito
ou vai sempre a direito
ou só se diz quando
a coisa dá para o torto
não, não se fala mal
o português no Porto
e se um filho da puta
chama a um lisboeta
cabrão
é porque os dois o são
e por isso não é palavrão
não, não se fala mal
português em portugal
e se alguém só pensa
não diz que se foda
é porque você ouviu mal
Joaquim Castro Caldas
domingo, 24 de setembro de 2017
Prova da existência da alma
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| Fotografia Olho de Gato |
Deixaste a ressurreição a meio.
Não me lembro de nada tão incompleto como ela.
O meu director fala de objectivos, fazemos mapas
e somos despedidos se. Ou temos prémios
e corrupção. Haja alguma arte em tudo isto.
Senhor, o teu corpo está seco na gaveta.
Estás no meio de nós coberto de bolor.
Nas palavras de São Paulo a criação teve parto e dores
em relação. Um prelúdio, sabemos hoje, prelúdio
sem mais nada. Os animais não aspiram à eternidade.
Nisto deveria consistir a alma que lhes foi negada.
Por menos despediria eu um empregado.
O meu cão brinca a que eu sou o cão dele.
Atira-me um osso e corro atrás, todos corremos atrás.
Mas é assim que se sobe na vida porque aspiramos.
Prova provada de que temos alma.
Rosa Alice Branco
sábado, 23 de setembro de 2017
Se deste outono
sexta-feira, 22 de setembro de 2017
As folhas tapam tudo
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| Fotografia Olho de Gato |
As folhas tapam tudo, vedam-me o conhecimento do tempo a trabalhar sobre o mundo.
Talvez aconteça um grande milagre nas nossas vidas.
A terra está sempre a dar bons exemplos.
Alguma gente anda atenta a essas coisas.
Outra gente, porém está completamente só, sem exemplos – e então procura realizar o exemplo mais extremo.
Quando se pensa nisso, não há nada a fazer.
Merda, diz-se, isto é um grande exemplo.
E a terra está por baixo, com o outono.
A terra vem em todos os manuais, como um acontecimento histórico.
Mas a mim, realmente, só me interessam os crimes.
Herberto Helder
Identidades*
* Publicado hoje no Jornal do Centro
1. Esta semana o parlamento começou a debater três projectos de lei sobre identidade de género e mudança de sexo. O projecto do bloco prevê que, se houver oposição parental, a criança possa requerer judicialmente a mudança. A sua formulação jurídica parece equilibrada mas está a ser motivo de grossa polémica. Um lado da barricada escandaliza-se porque "agora-os-filhos-vão-poder-processar-os-pais!", a que o outro lado responde com "és-um-homofóbico!"
Estas querelas identitárias - sejam elas de género, de orientação sexual, de origem étnica ou religiosa, ..., - invadiram o espaço público. Em Portugal, a esquerda julgou que ia manter eternamente o monopólio nestes assuntos e ficou muito alarmada quando o candidato do PSD à câmara de Loures lhe invadiu o terreno, com eficácia comunicativa. É um sinal que o populismo identitário vai acelerar também do lado da direita.
Este movimento começou há meio século nas universidades norte-americanas, com a formulação feminista: "todo o pessoal é político". O historiador Tony Judt criticou muito essa ideia porque, de facto, se tudo for político, então, nada é político.
Cheio de razão, ele bem avisou que não há usos honestos do identitário na política. Mas estas dinâmicas são imparáveis porque dão de comer a muita gente nas academias e nos partidos. E há que reconhecer que, muitas vezes, elas põem em evidência problemas que precisam de solução, como é o caso da mudança de sexo.
2. O governo "pondera" incluir uma questão sobre a origem racial da população no Censos 2021. A resposta seria facultativa, tal como acontece na pergunta sobre religião, para tornear as restrições constitucionais.
Ora aqui está um assunto identitário perturbante. Nada justifica a entrada de informação de raça nas estatísticas oficiais. Essa categorização é racista. Devia, isso sim, era desaparecer do Censos a pergunta sobre religião. É assunto que não deve interessar a um estado laico.
1. Esta semana o parlamento começou a debater três projectos de lei sobre identidade de género e mudança de sexo. O projecto do bloco prevê que, se houver oposição parental, a criança possa requerer judicialmente a mudança. A sua formulação jurídica parece equilibrada mas está a ser motivo de grossa polémica. Um lado da barricada escandaliza-se porque "agora-os-filhos-vão-poder-processar-os-pais!", a que o outro lado responde com "és-um-homofóbico!"
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| Tony Judt |
Cheio de razão, ele bem avisou que não há usos honestos do identitário na política. Mas estas dinâmicas são imparáveis porque dão de comer a muita gente nas academias e nos partidos. E há que reconhecer que, muitas vezes, elas põem em evidência problemas que precisam de solução, como é o caso da mudança de sexo.
2. O governo "pondera" incluir uma questão sobre a origem racial da população no Censos 2021. A resposta seria facultativa, tal como acontece na pergunta sobre religião, para tornear as restrições constitucionais.
Ora aqui está um assunto identitário perturbante. Nada justifica a entrada de informação de raça nas estatísticas oficiais. Essa categorização é racista. Devia, isso sim, era desaparecer do Censos a pergunta sobre religião. É assunto que não deve interessar a um estado laico.
quinta-feira, 21 de setembro de 2017
quarta-feira, 20 de setembro de 2017
Na cama
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| Fotografia de Louis Stettner |
quando me chego não percebes
que nada me deixa dormir
senão a proximidade do teu corpo
numa lenta água de barragem
que se encalha como um navio
sobre ondas cada vez maiores
que se fazem da inquietação
de um calor que se orvalha
entre cada pedaço que te toca
ah e pedir-te pedir-te até à exaustão
uma noite repetidamente lenta
Sofia Crespo
terça-feira, 19 de setembro de 2017
Le blouse du dentiste
![]() |
| Daqui |
Ce matin là en me levant
J'avais bien mal aux dents
Oh oh la la
J' sors de chez moi et j'fonce en pleurant
Chez un nommé Durand Mm Mm
Qu'est dentiste de son état
Et qui pourra m'arranger ça
La salle d'attente est bourrée de gens
Et pendant que j'attends
Oh oh la la
Sur un brancard passe un mec tout blanc
Porté par deux mastards Mm Mm
Je m'lève déjà pour fout' le camp
Mais l'infirmier dit: Au suivant!
Je suis debout devant le dentiste
Je lui fais un sourire de crétin
I'm'pouss' dans l'fauteuil et me crie:
En piste il a des tenailles à la main
Oh oh oh oh Maman
J'ai les guiboll's en fromag' blanc
Avant même que j'ai pu faire ouf
Il m'fait déjà sauter trois dents
En moins d'un' plombe
Mes pauvres molaires sont r'tournées
Dans leur tombe
Oh oh la la
Voilà qui m'plombe mes deux plus bell's dents
Cell's que j'ai par devant Mm Mm
I'm grill' la gueul' au chalumeau
Et il me file un bon verre d'eau
Il me dit faut régler votre dette
Je venais d'être payé la veille
Ce salaud me fauche tout mon oseille
Et me refile cinquante ball' net
Oh oh oh oh maman
Et il ajoute en rigolant
J'suis pas dentist' je suis pomblier
Entre voisins faut s'entr'aider oh oh
Et moi je gueul' ce soir
Le blouse du dentiste dans le noir.
Boris Vian
segunda-feira, 18 de setembro de 2017
não quero saber nada de ti
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| De Katie Dunkle — daqui |
não quero saber nada de ti
se lês Bukowski ou telecomandas a chata box
se suspiras por um jantar veg
ou uma viagem na Rynair com couchsurf incluído
não quero saber nada
de ti
A. Khimm
domingo, 17 de setembro de 2017
Carta aberta ao meu gastrenterologista *
* Carta aberta escrita há exactamente treze anos, num dia de muita azia e empaturramento em que — também eu enquanto vereador na câmara municipal de Viseu — fui vítima do dr. Miguel Relvas.
Na altura, esta carta foi publicada e/ou referenciada em vários media locais e nacionais.
Viseu, 17 de Setembro de 2003
Meu caro doutor:
O seu trabalho e especialidade, caro amigo, é melhorar as digestões das pessoas e eu sei que hoje vou ter uma digestão difícil. É por isso que lhe estou a escrever esta carta. Acabo de engolir um sapo dos grandes numa Sessão da Câmara Municipal de Viseu.
Acabo de votar a favor da Grande Área Metropolitana de Viseu (GAMV). Desde que sejam respeitados os parceiros, devo dizer-lhe que sou a favor que Viseu assuma com naturalidade a liderança desta região. Não sou a favor é deste tipo de Associações de Municípios.
Parece complicado, doutor, mas eu explico: preferia que a Assembleia da República não tivesse aprovado estas coisas. Estando previstas na Lei, claro que Viseu deve ter iniciativa política neste assunto.
Como lhe disse, sou o mais possível contra as Leis 10/2003 e 11/2003, ambas de 13 de Maio, dia de Nossa Senhora de Fátima, e que criaram as Grandes Áreas Metropolitanas (GAMs), as Comunidades Urbanas (CUs) e as Comunidades Intermunicipais (CIs).
É que, como sabe, esta regionalização do PSD é feita ao contrário: em vez de ser o Estado Central a passar poder para mais perto dos cidadãos, as GAMs, as CUs e as CIs vão tirar poder aos municípios e subtrair-se do controle democrático dos cidadãos.
Julguei que já tinha visto tudo em matéria de desprestígio da democracia mas enganei-me. Há sempre gente a querer piorar ainda mais as coisas. O governo quer destruir o único poder que verdadeiramente responde aos cidadãos e é respeitado por estes: o poder local. É isso que me causa azia.
As GAMs, as CUs e as CIs têm défice democrático. Tudo vai ser decidido em negociatas de bastidores entre Presidentes da Câmara. É assim que está previsto na lei. Vai ser um processo sem nenhuma transparência. Os cidadãos não vão ser tidos nem achados. Não votam. Nunca. Só cá estarão para, no fim, pagarem a factura.
A Direcção Nacional do PS andou mal ao ter deixado passar esta coisa, ao ter deixado andar para a frente este processo político que está a ser feito com o objectivo cirúrgico de acabar com o que resta do PS autárquico.
Penso que os Presidentes da Câmara socialistas que não forem seus clientes, caro doutor, vão redobrar o consumo de Alka Seltzer e de Água das Pedras, e vão engolir este sapo para poderem vir a ter eventuais contratos programas com a Administração Central. É esta a chantagem que lhes é feita pelo governo.
A organização administrativa e política de Portugal vai ficar com mais uma camada de gordura.
No projecto de regionalização socialista, que foi chumbado em referendo, em 1998, estava previsto acabarem-se com as CCRs e os distritos. Agora mantém-se tudo. É “tudo ao monte e fé em Deus”.
Daqui a uns anos, um empreendedor, por exemplo o doutor se quiser abrir uma Clínica, para além de meter um seu projecto na Câmara, na CCR e na tutela, vai ter ainda que contar com mais um sítio para meter papelada: a sua GAM ou CU.
Vão ser mais jobs for the boys. Mais burocracia.
Ninguém fala em referendo a esta coisa. Nem em referendos locais. Ninguém quer ouvir os cidadãos. Eles que comam e calem. Sapos são para os autarcas socialistas.
Vejamos mais de perto, senhor doutor, a Grande Área Metropolitana de Viseu que se prefigura no horizonte.
Que coerência, que sentido, que unidade, que metrópole é esta que pretende ir dos lameiros de Penedono às encostas onde se apascentam os rebanhos que dão o Queijo da Serra? Será tudo uma carneirada? Anda tudo doido? Não há sentido do ridículo? Quem é que se quer enganar para se chegar aos 350 000 habitantes? A GAM de Viseu vai criar um sistema de transportes coerente? Um sistema de lixos? Uma organização escolar? Há algum denominador comum a estes mais de trinta concelhos que possa dar um projecto intermunicipal? Um que seja?
Dá para ver o filme que se segue. Vão entreter a malta agora com as GAMs, as CUs e as CIs. Vão dar-nos um Big Brother: quem se junta a quem, que câmara com que câmara. Com que arrufos, com que ameaças de divórcio, aproximações e afastamentos de bigode. E vão encher páginas e páginas de jornal com este nada de coisa nenhuma, para entreter o pagode e gastar os nossos impostos e dar emprego aos boys. O que não é mau atendendo ao desemprego que para aí vai...
Saiba, caro doutor, que ao escrever o parágrafo anterior a minha digestão do sapo começou a correr melhor. É bom pensar em empregos. Não é bom é ser neste contexto.
Como sabe, caro doutor, o deputado socialista João Cravinho chamou a isto uma garotada. Foi o único socialista que se ouviu. O Secretário de Estado Miguel Relvas, o pai desta ideia e destas leis, queixou-se do tom de João Cravinho.
Eu antevejo futuro ao Dr. Relvas. Depois do ducentésimo trigésimo sexto Contrato Programa que foi assinar a Tondela, Miguel Relvas ainda chega a ministro. Ministro do pior governo de Portugal depois do 25 de Abril.
Que governo é este que se dá ao luxo de desperdiçar fundos comunitários que são aproveitados por Espanha e quer criar mais despesa pública desta forma?
Que governo é este que vende o património do estado ao desbarato e patrocina esta punção ao Orçamento?
Receba, caro doutor, um abraço deste autarca agora - depois da sua paciência - já menos empaturrado.
Na altura, esta carta foi publicada e/ou referenciada em vários media locais e nacionais.
Viseu, 17 de Setembro de 2003
Meu caro doutor:
O seu trabalho e especialidade, caro amigo, é melhorar as digestões das pessoas e eu sei que hoje vou ter uma digestão difícil. É por isso que lhe estou a escrever esta carta. Acabo de engolir um sapo dos grandes numa Sessão da Câmara Municipal de Viseu.
Acabo de votar a favor da Grande Área Metropolitana de Viseu (GAMV). Desde que sejam respeitados os parceiros, devo dizer-lhe que sou a favor que Viseu assuma com naturalidade a liderança desta região. Não sou a favor é deste tipo de Associações de Municípios.
Parece complicado, doutor, mas eu explico: preferia que a Assembleia da República não tivesse aprovado estas coisas. Estando previstas na Lei, claro que Viseu deve ter iniciativa política neste assunto.
Como lhe disse, sou o mais possível contra as Leis 10/2003 e 11/2003, ambas de 13 de Maio, dia de Nossa Senhora de Fátima, e que criaram as Grandes Áreas Metropolitanas (GAMs), as Comunidades Urbanas (CUs) e as Comunidades Intermunicipais (CIs).
É que, como sabe, esta regionalização do PSD é feita ao contrário: em vez de ser o Estado Central a passar poder para mais perto dos cidadãos, as GAMs, as CUs e as CIs vão tirar poder aos municípios e subtrair-se do controle democrático dos cidadãos.
Julguei que já tinha visto tudo em matéria de desprestígio da democracia mas enganei-me. Há sempre gente a querer piorar ainda mais as coisas. O governo quer destruir o único poder que verdadeiramente responde aos cidadãos e é respeitado por estes: o poder local. É isso que me causa azia.
As GAMs, as CUs e as CIs têm défice democrático. Tudo vai ser decidido em negociatas de bastidores entre Presidentes da Câmara. É assim que está previsto na lei. Vai ser um processo sem nenhuma transparência. Os cidadãos não vão ser tidos nem achados. Não votam. Nunca. Só cá estarão para, no fim, pagarem a factura.
A Direcção Nacional do PS andou mal ao ter deixado passar esta coisa, ao ter deixado andar para a frente este processo político que está a ser feito com o objectivo cirúrgico de acabar com o que resta do PS autárquico.
Penso que os Presidentes da Câmara socialistas que não forem seus clientes, caro doutor, vão redobrar o consumo de Alka Seltzer e de Água das Pedras, e vão engolir este sapo para poderem vir a ter eventuais contratos programas com a Administração Central. É esta a chantagem que lhes é feita pelo governo.
A organização administrativa e política de Portugal vai ficar com mais uma camada de gordura.
No projecto de regionalização socialista, que foi chumbado em referendo, em 1998, estava previsto acabarem-se com as CCRs e os distritos. Agora mantém-se tudo. É “tudo ao monte e fé em Deus”.
Daqui a uns anos, um empreendedor, por exemplo o doutor se quiser abrir uma Clínica, para além de meter um seu projecto na Câmara, na CCR e na tutela, vai ter ainda que contar com mais um sítio para meter papelada: a sua GAM ou CU.
Vão ser mais jobs for the boys. Mais burocracia.
Ninguém fala em referendo a esta coisa. Nem em referendos locais. Ninguém quer ouvir os cidadãos. Eles que comam e calem. Sapos são para os autarcas socialistas.
Vejamos mais de perto, senhor doutor, a Grande Área Metropolitana de Viseu que se prefigura no horizonte.
Que coerência, que sentido, que unidade, que metrópole é esta que pretende ir dos lameiros de Penedono às encostas onde se apascentam os rebanhos que dão o Queijo da Serra? Será tudo uma carneirada? Anda tudo doido? Não há sentido do ridículo? Quem é que se quer enganar para se chegar aos 350 000 habitantes? A GAM de Viseu vai criar um sistema de transportes coerente? Um sistema de lixos? Uma organização escolar? Há algum denominador comum a estes mais de trinta concelhos que possa dar um projecto intermunicipal? Um que seja?
Dá para ver o filme que se segue. Vão entreter a malta agora com as GAMs, as CUs e as CIs. Vão dar-nos um Big Brother: quem se junta a quem, que câmara com que câmara. Com que arrufos, com que ameaças de divórcio, aproximações e afastamentos de bigode. E vão encher páginas e páginas de jornal com este nada de coisa nenhuma, para entreter o pagode e gastar os nossos impostos e dar emprego aos boys. O que não é mau atendendo ao desemprego que para aí vai...
Saiba, caro doutor, que ao escrever o parágrafo anterior a minha digestão do sapo começou a correr melhor. É bom pensar em empregos. Não é bom é ser neste contexto.
Como sabe, caro doutor, o deputado socialista João Cravinho chamou a isto uma garotada. Foi o único socialista que se ouviu. O Secretário de Estado Miguel Relvas, o pai desta ideia e destas leis, queixou-se do tom de João Cravinho.
Eu antevejo futuro ao Dr. Relvas. Depois do ducentésimo trigésimo sexto Contrato Programa que foi assinar a Tondela, Miguel Relvas ainda chega a ministro. Ministro do pior governo de Portugal depois do 25 de Abril.
Que governo é este que se dá ao luxo de desperdiçar fundos comunitários que são aproveitados por Espanha e quer criar mais despesa pública desta forma?
Que governo é este que vende o património do estado ao desbarato e patrocina esta punção ao Orçamento?
Receba, caro doutor, um abraço deste autarca agora - depois da sua paciência - já menos empaturrado.
Joaquim Alexandre Rodrigues
A furtiva alegria
Acumulo
retratos desfocados
viagens dispersas danos
moratórias
Mas também a ciência animal
de lamber as feridas, a furtiva alegria
a caminho da noite para matar
a sede na corrente.
Inês Lourenço
sábado, 16 de setembro de 2017
Let me handle my business, damn
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| Fotografia de Marco Antonio Cruz |
Took me awhile to learn the good words
make the rain on my window grown
and sexy now I’m in the tub holding down
that on-sale Bordeaux pretending
to be well adjusted I am on that real
jazz shit sometimes I run the streets
sometimes they run me I’m the body
of the queen of my hood filled up
with bad wine bad drugs mu shu pork
sick beats what more can I say to you
I open my stylish legs I get my swagger
back let men with gold teeth bow to my tits
and the blisters on my feet I become electric
I’m a patch of grass the stringy roots
you call home or sister if you want
I could scratch your eyes make hip-hop die again
I’m on that grown woman shit before I break
the bottle’s neck I pour a little out: I am fallen
Morgan Parker
sexta-feira, 15 de setembro de 2017
Jardins Efémeros*
* Publicado hoje no Jornal do Centro
1. Está quase a acabar o Verão das festas e dos festivais. Há que fazer os necessários balanços.
À sétima edição, Viseu teve a primeira grande impaciência com os Jardins Efémeros (JE). As pessoas não perceberam a oliveira colocada em frente da estátua de D. Duarte e acharam incipientes os tijolos que foram lá postos a deslado. De facto, aqueles tijolos não tinham ponta por onde se lhe pegasse, mas importa não deitar fora a criança com a água do banho.
Num ensaio de 1981, George Steiner lembra que "um poema reservado para a academia e para o 'explicador' é tão mudo quanto um 'Stradivarius' fechado na estante hermética de um museu."
Os JE têm tratado bem da necessidade de um objecto artístico não ficar hermetizado na academia (entendida como grupo iniciado nos códigos e nos ritos das missas artísticas). Os JE têm um bom currículo na criação de canais para que as artes cheguem ao grande público. O problema é que a peça da oliveira precisava mesmo de um "explicador". Haver essa necessidade já foi mau. Não ter havido um "explicador" conciso e claro piorou as coisas. Daí a impaciência que foi visível na cidade.
2. Depois dos dois anos iniciais a ganharem experiência, os Jardins Efémeros tiveram duas edições dedicadas aos problemas da cidade: em 2013, o ano em que o festival foi mais original e interessante, foi a intervenção na Rua Direita de cima a baixo; em 2014, foi o vinho do Dão. Os dois anos seguintes foram de espuma dos dias: em 2015, os JE viraram-se para os problemas da dívida (o We Are Not a Loan, o OXI grego); em 2016, a "Europa" e as tensões soberanistas.
Este ano, os JE já não tiveram subtexto interventivo nenhum. As suas ideias "socioculturais" perderam o "socio".
Os JE já não tratam, tão pouco, de Viseu. São agora, e só, um excelente festival de artes experimentais, que, ao se ter desterritorializado, criou excepcionais e merecidas condições de exportação.
1. Está quase a acabar o Verão das festas e dos festivais. Há que fazer os necessários balanços.
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| Fotografia Olho de Gato, post Magritte nos Jardins Efemeros, 9-7-2017 |
À sétima edição, Viseu teve a primeira grande impaciência com os Jardins Efémeros (JE). As pessoas não perceberam a oliveira colocada em frente da estátua de D. Duarte e acharam incipientes os tijolos que foram lá postos a deslado. De facto, aqueles tijolos não tinham ponta por onde se lhe pegasse, mas importa não deitar fora a criança com a água do banho.
Num ensaio de 1981, George Steiner lembra que "um poema reservado para a academia e para o 'explicador' é tão mudo quanto um 'Stradivarius' fechado na estante hermética de um museu."
Os JE têm tratado bem da necessidade de um objecto artístico não ficar hermetizado na academia (entendida como grupo iniciado nos códigos e nos ritos das missas artísticas). Os JE têm um bom currículo na criação de canais para que as artes cheguem ao grande público. O problema é que a peça da oliveira precisava mesmo de um "explicador". Haver essa necessidade já foi mau. Não ter havido um "explicador" conciso e claro piorou as coisas. Daí a impaciência que foi visível na cidade.
2. Depois dos dois anos iniciais a ganharem experiência, os Jardins Efémeros tiveram duas edições dedicadas aos problemas da cidade: em 2013, o ano em que o festival foi mais original e interessante, foi a intervenção na Rua Direita de cima a baixo; em 2014, foi o vinho do Dão. Os dois anos seguintes foram de espuma dos dias: em 2015, os JE viraram-se para os problemas da dívida (o We Are Not a Loan, o OXI grego); em 2016, a "Europa" e as tensões soberanistas.
Este ano, os JE já não tiveram subtexto interventivo nenhum. As suas ideias "socioculturais" perderam o "socio".
Os JE já não tratam, tão pouco, de Viseu. São agora, e só, um excelente festival de artes experimentais, que, ao se ter desterritorializado, criou excepcionais e merecidas condições de exportação.
Em todo o acaso
quinta-feira, 14 de setembro de 2017
17 – X - 2003*
* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 14 de Setembro de 2007
1. Entra amanhã em vigor o novo Código de Processo Penal que proíbe a divulgação de escutas telefónicas, sem a autorização dos visados, mesmo que essas escutas já não estejam em segredo de justiça.
É caso para perguntar: porquê esta dureza do legislador?
Talvez seja bom lembrar o que aconteceu em 17 de Outubro de 2003, um dos dias mais negros da história do jornalismo português. Nesse dia, foi tornada pública uma frase dita ao telemóvel por Ferro Rodrigues. A frase escolhida cirurgicamente foi: «Estou-me a cagar para o segredo de justiça.» Quase todos os “fazedores de opinião” criticaram duramente as palavras de Ferro Rodrigues; poucos condenaram a sua divulgação.
Eram os tempos do caso Casa Pia. Contra a histeria justicialista que se vivia nos media, ouviu-se, na altura, a voz corajosa de Miguel Sousa Tavares (MST). Na TVI, teve um diálogo bem vivo com Manuela Moura Guedes (MMG):
MST: «Estava eu a dizer que o meu primeiro trabalho, quando saí da faculdade, foi na Comissão de Extinção da Pide, onde tive ocasião de folhear muitos processos que a Pide tinha instruído aos antigos resistentes…»
MMG: «Ó Miguel, por amor de Deus, não vais comparar o que agora vivemos com a Pide!»
MST: «Não vou comparar porque há uma diferença grande: é que as escutas da Pide não apareciam nos jornais e agora aparecem...»
A conversa continuou azeda. Miguel Sousa Tavares foi firme a explicar que não é nas televisões nem nos jornais que se fazem julgamentos.
Por princípio, um telefonema é entre duas pessoas. E só entre elas.
2. O acesso ao Hotel Ibis, em Viseu, está um desleixo total. Sinalização, piso, envolvente, tudo de meter medo ao susto.
A Câmara Municipal e a Junta de Freguesia do Campo andam muito distraídas.
1. Entra amanhã em vigor o novo Código de Processo Penal que proíbe a divulgação de escutas telefónicas, sem a autorização dos visados, mesmo que essas escutas já não estejam em segredo de justiça.
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| Daqui |
Eram os tempos do caso Casa Pia. Contra a histeria justicialista que se vivia nos media, ouviu-se, na altura, a voz corajosa de Miguel Sousa Tavares (MST). Na TVI, teve um diálogo bem vivo com Manuela Moura Guedes (MMG):
MST: «Estava eu a dizer que o meu primeiro trabalho, quando saí da faculdade, foi na Comissão de Extinção da Pide, onde tive ocasião de folhear muitos processos que a Pide tinha instruído aos antigos resistentes…»
MMG: «Ó Miguel, por amor de Deus, não vais comparar o que agora vivemos com a Pide!»
MST: «Não vou comparar porque há uma diferença grande: é que as escutas da Pide não apareciam nos jornais e agora aparecem...»
A conversa continuou azeda. Miguel Sousa Tavares foi firme a explicar que não é nas televisões nem nos jornais que se fazem julgamentos.
Por princípio, um telefonema é entre duas pessoas. E só entre elas.
2. O acesso ao Hotel Ibis, em Viseu, está um desleixo total. Sinalização, piso, envolvente, tudo de meter medo ao susto.
A Câmara Municipal e a Junta de Freguesia do Campo andam muito distraídas.
quarta-feira, 13 de setembro de 2017
«É nos pulmões que se morre de amor»
terça-feira, 12 de setembro de 2017
Eu sem saber o que fazer comigo
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| Fotografia de Sally Gall |
Havia um tempo em que esperar por ti
era consulta a meteorologia:
preparar coração, achar ali,
na coluna do lado, em geografia
de página, ou écran: coisa parecida
o sol bem desenhado, os raios com
a palavra por baixo, indicativa
de que amanhã o tempo ia ser bom.
Mas não era a palavra, era o ruído,
eu sem saber o que fazer comigo,
e o sol, caracol longo a demorar-
-se — assim era ele oblíquo de rimar;
porque eu sabia que o que ali rimava
estava em saber que vinhas. E ficavas.
Ana Luísa Amaral
segunda-feira, 11 de setembro de 2017
Ouve-hoje-preciso-vem
domingo, 10 de setembro de 2017
Anjo enlouquecido pelo tempo
Esmaga-Te um grande círculo que eram
as ruas. Vi-Te ao longe tactear
e correr. Despedi-me a olhar o Teu pânico.
Da varanda vi as ruas que eram sórdidas.
Naquela luz de verão Tu estavas nítido.
Os despojos das flores roxas emaranhados
nos Teus pés no alcatrão escuro
esvoaçavam. Automóveis esbatiam-Te
a figura. Qualquer eco ao partires
havia de morrer. Pedras tornavam
as ruas uma paisagem onde cabeceavas.
Tu partias arrastado pelo Tempo.
Assim como eu ficava a ver-Te ao longe
entre as folhas. Grandes copas verdes
todas de flores minúsculas escondem
o rosto dos Teus movimentos. Dócil ante
o destino eu imagino-Te. Tu eras frágil
como as minhas sílabas vagarosas.
Fiama Hasse Pais Brandão
sábado, 9 de setembro de 2017
Os Anos Quarenta
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| Daqui |
Amo-te mais quando olho quando
para a torneira do gás quando estou nu à noite quando
e começo a mexer em pânico os ossos da mão direita
há domingos há a infância em que se parou numas escadas altas
ouvia-se a guerra ia-se para a cama por causa do ciclone
e quando o vento vem e decepa e quando
as árvores da rua é a mãe que recorta
uns papéis
brancos para colar nos vidros
ou quando (da capo) esse homem
nu à noite quando olha
e vejo vê-se
o indicador direito
manchado de nicotina
depois uma vez desfila
a vitória! surpreendo-os na sala
que me dão dinheiro e corro a comprar barros
na feira e quando quando coisas assim
partia logo e isso era a tristeza
volto a pensar: que queria eu na infância
o sol? outro nome sobre o meu tão frágil?
amo-te mais à noite portanto
quando dobro as calças e começo
quando esse gesto útil quando
bate numas pernas e vê-se
de trinta e cinco anos
Fernando Assis Pacheco
sexta-feira, 8 de setembro de 2017
Acontecências*
* Publicado hoje no Jornal do Centro
Ora acontece que, no passado sábado, num estabelecimento comercial da minha cidade, uma competentíssima profissional disse-me: «tenho-o lido, mas ultimamente tem escrito demais sobre política.»
Ora acontece que aquela simpática viseense está cheia de razão, que os títulos dos últimos três Olhos de Gato – "As listas", "Cartazes", "O Debate" – dizem tudo sobre os assuntos tratados, que foi mesmo uma overdose de política autárquica.
Ora acontece que estive praqui a reler de fio a pavio as últimas edições deste jornal, que só esta coluna e o "Tintol & Traçadinho" é que têm estado virados para a política, que o pessoal do jornal tem-lhe ligado pouco, que se tem dedicado é ao feirar.
Ora acontece que li neste jornal que há cem anos, em 27 de Agosto de 1917, na formosíssima aldeia de Serrazes, do não menos formoso concelho de S. Pedro do Sul, Augusto Malafaia foi assassinado pelo noivo de uma sua prima, que o nubente acusava Augusto de ter consumado o "quanto-mais-prima-mais-se-lhe-arrima", que era tudo mentira, que o povo ficou muito revoltado.
Ora acontece que li neste jornal que a vespa velutina está a pôr em risco o mel que pomos no pão-nosso-de-cada-dia, que é necessário armadilhar aquelas vespas bestas no início da primavera, que é quando elas fazem ninho.
Ora acontece que li neste jornal que a belíssima freguesia de Pindo, do não menos belo concelho de Castendo, vai requalificar os tanques públicos, que as pessoas ainda os usam para lavar a roupa à mão e "pôr a conversa em dia", que fazem isso em vez de porem as peúgas e as calças nas máquinas de lavar enquanto cuscam no Facebook.
Ora acontece que li neste jornal que, no concelho de Viseu, o quase-quase ex-vereador Guilherme Almeida, reconhecido especialista em marketing das cidades, vai ser colocado por António Almeida Henriques a gerir as aldeias, que disso não vou dizer nada, que hoje esta crónica não trata de política.
Ora acontece que, no passado sábado, num estabelecimento comercial da minha cidade, uma competentíssima profissional disse-me: «tenho-o lido, mas ultimamente tem escrito demais sobre política.»
Ora acontece que aquela simpática viseense está cheia de razão, que os títulos dos últimos três Olhos de Gato – "As listas", "Cartazes", "O Debate" – dizem tudo sobre os assuntos tratados, que foi mesmo uma overdose de política autárquica.
Ora acontece que estive praqui a reler de fio a pavio as últimas edições deste jornal, que só esta coluna e o "Tintol & Traçadinho" é que têm estado virados para a política, que o pessoal do jornal tem-lhe ligado pouco, que se tem dedicado é ao feirar.
Ora acontece que li neste jornal que há cem anos, em 27 de Agosto de 1917, na formosíssima aldeia de Serrazes, do não menos formoso concelho de S. Pedro do Sul, Augusto Malafaia foi assassinado pelo noivo de uma sua prima, que o nubente acusava Augusto de ter consumado o "quanto-mais-prima-mais-se-lhe-arrima", que era tudo mentira, que o povo ficou muito revoltado.
Ora acontece que li neste jornal que a vespa velutina está a pôr em risco o mel que pomos no pão-nosso-de-cada-dia, que é necessário armadilhar aquelas vespas bestas no início da primavera, que é quando elas fazem ninho.
Ora acontece que li neste jornal que a belíssima freguesia de Pindo, do não menos belo concelho de Castendo, vai requalificar os tanques públicos, que as pessoas ainda os usam para lavar a roupa à mão e "pôr a conversa em dia", que fazem isso em vez de porem as peúgas e as calças nas máquinas de lavar enquanto cuscam no Facebook.
Ora acontece que li neste jornal que, no concelho de Viseu, o quase-quase ex-vereador Guilherme Almeida, reconhecido especialista em marketing das cidades, vai ser colocado por António Almeida Henriques a gerir as aldeias, que disso não vou dizer nada, que hoje esta crónica não trata de política.
Dias melhores
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| Fotografia de Bruce Weber |
A mulher espera as noites e também os dias,
esperta o lume enquanto, esperta a espera.
Há umas quantas coisas que a prendem, coisas
que arrecadou para a vida e já não servem.
Quem serve é ela e serve a Deus desfiando o rosário
pelos que já lá estão.
Por aqui vai-se indo, vai-se levando a vida
para o outro lado enquanto se esperam dias melhores,
dias mecânicos, a labuta dos músculos, a cabeça em paz
e a noite cansada, os pensamentos cansados,
o sofrimento cansado só quer estender o corpo
até de manhã. Quando mal nunca pior,
o café quente, o pão acabado de fazer
como se fosse cedo e as mãos na sua azáfama
pudessem fazer os dias gloriosos as noites luminosas
com que sonhou e já não servem. Agora só a espera
e as coisas que foi arrecadando para a morte.
Rosa Alice Branco
quinta-feira, 7 de setembro de 2017
O último poema do último príncipe
quarta-feira, 6 de setembro de 2017
Kosmopolit / Cosmopolite
Von meiner weitesten Reise zurück, anderntags
Wird mir klar, ich verstehe vom Reisen nichts.
Im Flugzeug eingesperrt, stundenlang unbeweglich,
Unter mire Wolken, die aussehn wie Wüsten,
Wüsten, die aussehn wie Meere, und Meere,
Den Schneewehen gleich, durch die man streift
Eeim Erwachen aus der Narkose, sehe ich ein,
Was es heißt, über die Längengrade zu irren.
Dem Körper ist Zeit gestohlen, den Augen Ruhe.
Das genaue Wort verliert seinen Ort. Der Schwindel
Fliegt auf mit dem Taush von Jenseits und Hier
In verschiedenen Religionen, mehreren Sprachen.
Überall sind die Rollfelder gleich grau und gleich
Hell die Krankenzimmer. Dort im Transitraum,
Wo Leerzeit umsonst bei Bewußtsein hält,
Wird ein Sprichwort wahr aus den Bars von Atlantis.
Reisen is ein Vorgeschmack auf die Hölle.
Durs Grünbein
Cosmopolite
The day after getting back from my longest journey,
I realize I had this traveling business badly wrong.
Penned in an airplane, immobilized for hours on end,
Over clouds that bear the appearance of deserts,
Deserts that bear the appearance of seas, and seas
That are like the blizzards you struggle through,
On your way out of your Halcion-induced stupor,
I see what it means to stumble over the dateline.
The body is robbed of time, and the eyes of rest.
The carefully chosen word loses its locus.
Giddily you juggle the here and the hereinafter,
Keeping several languages and religions up in the air.
But runways are the same gray everywhere, and hospital rooms
The same bright. There in the transit lounge,
Where downtime remains conscious to no end.
The proverb from the bars of Atlantis swims into ken:
Travel is a foretaste of Hell.
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