quinta-feira, 31 de maio de 2018

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Da Séria - “No tempo em que” havia músicos a fazer intervenção política — por JB*

José Mário Branco
Fotografia de Reinaldo Rodrigues — daqui


Hoje: José Mário Branco – “Eh! Companheiro” e curioso coincidência que os recentes posts do Sr Gato se intitulam: “Moral” (o que falta) E “A casa do caralho” (para onde apetece mandar muita boa gente…). Nestes tempos de políticos manhosos que “esquecem as regras da transparência” (mero engano) ou confundem a sua morada oficial com a do partido…

Recordo a canção “Eh! Companheiro” e a sua mensagem anti-regime e reconheço que foi das músicas que mais me marcou no antes 25 Abril. Chamo a atenção para o brilhante poema de Sérgio Godinho e para o ritmo sequenciado dos instrumentos (violinos) / coro e sobretudo o “matraquear” forte, ritmado e lutador do piano.

José Mário Branco vai para o exílio em 1963 e escolhe viver em Paris onde toma contacto com os bidonville e as duras condições dos emigrantes. Foi membro do Partido Comunista, fundador do GAC, da Comuna e do Bloco de Esquerda, é vulto incontornável da música nacional mas também do activismo político dando um renovado significado à “máxima resistir é vencer”.

Ao longo da carreira, um princípio fundamental norteou sempre as posições de José Mário Branco: a defesa intransigente da música portuguesa; factor aliado ao colocar a canção ao serviço da luta dos trabalhadores, mas nunca aceitou que os critérios políticos ultrapassem os critérios estéticos. Como se verifica, na sua qualidade de produtor, de Camané.

Serve ainda este texto para recordar que conheci as palavras (entrevista) do Zé Mário através da revista “Mundo da Canção”, fundada em 1969, no Porto, pelo Avelino Tavares. Revista pioneira e de grande qualidade na divulgação da música popular nacional e estrangeira. Como dizia no seu editorial: “A música é a expressão mais importante da reivindicação da juventude de todo o mundo e tu, Jovem de Portugal, tens uma palavra a dizer”.

“Eh! Companheiro”, enquanto houver memória cá estaremos para te cantar e divulgar:
“Só tem medo desses muros / quem tem muros no pensar”.
JB





Eh! Companheiro aqui estou

aqui estou pra te falar
Estas paredes me tolhem
os passos que quero dar
uma é feita de granito
não se pode rebentar
outra de vidro rachado
p'ras duas pernas cortar


Eh! Companheiro resposta

resposta te quero dar
Só tem medo desses muros
quem tem muros no pensar
todos sabemos do pássaro
cá dentro a qu'rer voar
se o pensamento for livre
todos vamos libertar


Eh! Companheiro eu falo

eu falo do coração
Já me acostumei à cor
desta negra solidão
já o preto que vai bem
já o branco ainda não
não sei quando vem o vento
pra me levar de avião


Eh! Companheiro respondo

respondo do coração
ser sozinho não é sina
nem de rato de porão
faz também soprar o vento
não esperes o tufão
põe sementes do teu peito
nos bolsos do teu irmão


Eh! Companheiro vou falar

vou falar do meu parecer
Vira o vento muda a sorte
toda a vida ouvi dizer
soprou muita ventania
não vi a sorte crescer
meu destino e sempre o mesmo
desde moço até morrer


Eh! Companheiro aqui estou

aqui estou p'ra responder
Sorte assim não cresce a toa
como urtiga por colher
cresce nas vinhas do povo
leva tempo a amadur'cer
quando mudar seu destino
está ao alcance de um viver


Eh! Companheiro aqui estou

aqui estou pra te falar
De toda a parte me chamam
não sei p'ra onde me virar
uns que trazem fechadura
com portas para espreitar
outros que em nome da paz
não me deixam nem olhar


Eh! Companheiro resposta

resposta te quero dar
Portas assim foram feitas
p'ra se abrir de par em par
não confundas duas coisas
cada paz em seu lugar
pela paz que nos recusam
muito temos de lutar.

Guiné-Bissau*

* Publicado no Jornal do Centro ha exactamente dez anos, em 30 de Maio de 2008


A edição do último domingo do Washington Post trazia uma reportagem sobre a Guiné-Bissau intitulada a “Rota do Mal”. Conforme conta Kevin Sullivan, a situação daquele país lusófono é catastrófica. A Guiné está à beira de se tornar um narco-estado dominado pelos cartéis colombianos.

A cocaína “viaja” cada vez mais para a Europa por causa da valorização da libra e do euro. Há muita procura em Inglaterra, Espanha e Itália. Em Londres, Madrid ou Milão os preços do “pó branco” são o dobro dos praticados em Nova York ou San Francisco. Sem surpresa, percebe-se que o comércio dos estupefacientes segue as regras da economia global.
     
A Guiné ocupa o antepenúltimo lugar do Índice de Desenvolvimento Humano da ONU. A maioria das pessoas não tem água nem electricidade. O país tem 63 agentes de investigação mas mais de metade nem arma tem. Os prisioneiros dormem num edifício decrépito a que se chama prisão; sair ou ficar depende deles.
     
Apesar deste cenário, na rua vêem-se Porshes e BMWs luzidios. Os carros são pagos nos stands com dinheiro vivo. Quando um traficante é incomodado, o juiz liberta-o. Os jornalistas ou se calam ou levam um tiro. É a economia da cocaína a funcionar.
     
A droga é largada nas várias ilhas da Guiné-Bissau. Depois, pequenos aviões e “mulas” transportam o produto para a Europa. Em Amsterdão, só num voo proveniente de Bissau, foram apanhadas 32 pessoas com cocaína escondida no corpo.
     
Não há que errar: Portugal vai ser afectado pela existência deste entreposto de cocaína a funcionar num PALOP. É preciso ajudar a Guiné-Bissau a construir a autoridade do estado. Para já, ainda deve ser só um caso de polícia. No futuro, se nada for feito, pode vir a ser um caso militar.

[Viste o cavalo varado a uma varanda?]

Fotografia de Gül Kurtaran

Viste o cavalo varado a uma varanda?
Era verde, azul e negro e sobretudo negro.
Sem assombro, vivo da cor, arco-irís quase.
E o aroma do estábulo penetrando a noite.

Do outro lado da margem ascendia outro astro
como uma lua nua ou como um sol suave
e o cavalo varado abria a noite inteira
ao aroma de Junho, aos cravos e aos dentes.

Uma língua de sabor para ficar na sombra
de todo um verão feliz e de uma sombra de água.
Viste o cavalo varado e toda a noite ouviste
o tambor do silêncio marcar a tua força

e tudo em ti jazia na noite do cavalo.
António Ramos Rosa



terça-feira, 29 de maio de 2018

A casa do caralho



Por que será que o Judas perdeu la
as botas? Antes: onde ficará?
Questões não respondidas: quem seria
o Judas, neste caso? Elle descalço
ficou, a procurar onde as enfia?
Quem sabe eu as encontro, ou si fui eu
aquelle que as roubou? E como são
taes botas? De amarrar ou sem chordão?
Serão das de playboy ou de plebeu?
Surradas, como estão, no dia-a-dia,
apposto (e o raciocinio não é falso)
que devam ter chulé... Ninguem sentia?
Não sendo pessimista, ainda dá
p'ra achal-as, elle incluso, aonde eu va.
Glauco Mattoso
[11/04/2010]


segunda-feira, 28 de maio de 2018

Moral

Fotografia de Tommy Tong

Nas vezes em que procuro
nas fábulas
a moral: amoral a fábula
recorre ao desgosto
das circunstâncias
para provar do improvável
o restante. Revistado na entrada
descubro preconceitos dúvidas
e inverdades. A moralidade diz
o verdugo – lâmina afiada –
sustenta meu trabalho
e o povo satisfeito
na plateia.
Pedro Du Bois


domingo, 27 de maio de 2018

Xerazade

Fotografia de Roberto Nickson



Levo já quase mil noites com fábulas
e a cabeça dói-me e tenho seca
a língua e esgotados os recursos,
a imaginação. E nem sequer
sei se me salvarei com as mentiras.
Amalia Bautista
Trad.: Joaquim Manuel Magalhães


sábado, 26 de maio de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#196)

Animação de Michael Trent, aluno da Vancouver Film School

Alla breve loving




Three people drinking out of the bottle
in the living room.
A cold rain. Quiet as a mirror.

One of the men
stuffs his handkerchief in his coat,
climbs the stairs with the girl.
The other man is left sitting

at the desk with the wine and the headache,
turning an old Ellington side
over in his mind. And over.

He held her like a saxophone
when she was his girl.
Her tongue trembling at the reed.

The man lying next to her now
thinks of another woman.
Her white breath idling

before he drove off.
He said something about a spell,
watching the snow fall on her shoulders.

The musician
crawls back into his horn,
ancient terrapin
at the approach of the wheel.
C. D. Wright



sexta-feira, 25 de maio de 2018

Centralismo*

* Hoje no Jornal do Centro



Daqui
1. É preciso repensar a ligação Viseu-Coimbra. Para já, ainda não há nenhum compromisso novo calendarizado. O que foi anunciado foi só o lançamento de um concurso de 15 milhões de euros para obras já projectadas e que têm que ser feitas no perigoso troço do IP3 entre o nó de Penacova e da Lagoa Azul.

A verdade é que, das três alternativas estudadas pela Infraestruturas de Portugal, o governo quer escolher a pior só porque é a mais baratinha. E a região não pode deixar que se repita no IP3 a asneira que foi feita no IP5. É que depois, na próxima bancarrota, não vai haver força para impedir portagens nos troços que venham, eventualmente, a ser duplicados.

2. O movimento pelo interior acaba de apresentar um conjunto de boas propostas. Mas já se sabe: Lisboa tudo fará para manter o seu poder sobre as nossas vidas e para sabotar qualquer tentativa de discriminação positiva do interior.

O centralismo tem duas peles muito ásperas:
— a pele política, manhosa, cheia de retórica na defesa do interior mas que aplica todos os recursos no litoral onde estão os votos;
— a pele tecnocrática, untuosa, que já começou a levantar espantalhos nos media contra a “província”.

Por exemplo, o economista televisivo Ricardo Paes Mamede já vê nos “supostos defensores do interior” uma nova encarnação populista do antigo “nortismo pinto-costista”. Caro Jorge Coelho, precate-se, estes académicos alfacinhas ainda atiçam os No Name Boys e a Juve Leo contra si.

Outro exemplo: mal o ministro do ensino superior esboçou um eventual aumento de vagas no interior e cortes em Lisboa e no Porto, logo um texto da esquerda.net bloquista lhe malhou com força: que há “falta de confiança em muitas” escolas do interior, que coitadas das “famílias de rendimentos baixos ou médios das grandes cidades”, que isto, que aquilo, ...

A luta contra o centralismo vai ser dura. Mas, com determinação e firmeza, podemos obter bons resultados. Incluindo no IP3.

Código

Fotografia de Darran Shen


Perdoe-me por não saber amar em outra língua.
estes versos, que me atravessam como uma rua
acidentada, não os explicito.

perdoe-me por não saber cantar em outra língua.
estes versos, que me iluminam como as pedras que flatam na rua
acidentada, não os traduzo.

perdoe-me por não saber beijar em outra língua.

estes versos que se soltam e me encharcam.
Adriana Versiani dos Anjos


quinta-feira, 24 de maio de 2018

Lenço

Fotografia de Joseph Casey


De manhã
dobrado com as suas flores silvestres
lavado e engomado
ocupa pouco espaço na gaveta.

Sacudindo-o para o abrir
ela ata-o à volta da cabeça.

À noite arranca-o
e deixa-o cair,
ainda com o nó, ao chão.

Num lenço de algodão
por entre flores estampadas
um dia de trabalho
escreveu o seu sonho.
John Berger
Trad. Vasco Gato


quarta-feira, 23 de maio de 2018

Underground*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 23 de Maio de 2008

1. Belgrado. Segunda Guerra Mundial. Marko e Blacky, amigos inseparáveis, vão tratando do canastro aos alemães que ocupam o seu país. Blacky é perseguido pelos nazis. Esconde-se numa cave acompanhado por um grupo grande. Aí ficam todos literalmente soterrados, com um único contacto com o exterior: Marko. À superfície, prossegue a guerra de libertação; no subterrâneo, aquela gente, dirigida com mão de ferro por Blacky, produz armas.




Quando os alemães são expulsos da Jugoslávia, Marko não diz nada aos de baixo. Ano após ano mantém o grupo na cave. Nem de seu irmão Ivan, que também lá está, tem pena. Eles julgam que a guerra continua. Ficam assim no escuro, como na Alegoria da Caverna de Platão, num mundo paralelo, em que o “real” e a “ficção” trocaram de lugar.

Esta é a história de Underground, um filme de Emir Kusturica, que ganhou uma mais que merecida Palma de Ouro em Cannes, em 1995.

É muito provável que Elisabeth Fritzl, que foi enclausurada numa cave pelo seu próprio pai durante 24 anos, tenha visto Underground. A cave tinha televisão e Elisabeth tinha muito tempo para gastar.

Daqui

Que terá pensado ela enquanto via Underground?

2. Barack Obama: “Não podemos guiar os nossos SUV, comer tanto quanto nos apetece, manter as nossas casas sempre, a todas as horas, nos 22ºC… e depois esperar que os outros países venham dizer ok.”

John Edwards: “Temos que ser contra a ganância das multinacionais.” Para mim, era este o “ticket” ideal: Obama, a presidente; Edwards a vice.

De qualquer forma, quer ganhe Obama, quer ganhe McCain, uma coisa boa vai acontecer: sai da Casa Branca o pior presidente da história dos Estados Unidos.

The cure for what ails you

Fotografia de Taylor Hernandez



The cure for what ails you

is a good run, at least according to my mother,
which has seemed, all my life, like cruelty —

when I had a fever, for example, or a heart,
shipwrecked & taking on the flood. But now,

of course, this is what I tell my friend whose eye
has been twitching since last Tuesday, what I

tell my student who can’t seem to focus
her arguments, who believes, still,

that it’s possible to save the world
in 10-12 pages, double-spaced & without irony

I’m asking Have you tried going for a run?
You know, to clear your head? this mother-voice

drowning out what I once thought
to be my own. I’ll admit that when that man

became the president, before terrified I felt
relief — finally, here was the bald face

of the country & now everyone had to look
at it. Everyone had to see what my loves

for their lives, could not unsee. Cruelty
after all is made of distance —

sign here & the world ends
somewhere else. The world. The literal

world. I hold my face close to the blue
light of the screen until my head aches.

Until I’m sick & like a child I just want
someone to touch me with cool hands

& say yes, you’re right, something is wrong
stay here in bed until the pain stops & Oh

mother, remember the night
when, convinced that you were dying,

you raced to the hospital clutching
your heart & by the time you arrived

you were fine. You were sharp
as a blade. Five miles in & I can’t stop

thinking about that video. There’s a man
with his arms raised

in surrender. He was driving
his car. His own car & they’re charging him

bellowing like bulls I didn’t shoot you, motherfucker,
you should feel lucky for that. Yes. Ok.

Fine. My body too can be drawn
like any weapon.
Cameron Awkward-Rich


terça-feira, 22 de maio de 2018

Ceremony after a fire raid

Daqui



I

Myselves
The grievers
Grieve
Among the street burned to tireless death
A child of a few hours
With its kneading mouth
Charred on the black breast of the grave
The mother dug, and its arms full of fires.

Begin
With singing
Sing
Darkness kindled back into beginning
When the caught tongue nodded blind,
A star was broken
Into the centuries of the child
Myselves grieve now, and miracles cannot atone.

Forgive
Us forgive
Us your death that myselves the believers
May hold it in a great flood
Till the blood shall spurt,
And the dust shall sing like a bird
As the grains blow, as your death grows, through our heart.

Crying
Your dying
Cry,
Child beyond cockcrow, by the fire-dwarfed
Street we chant the flying sea
In the body bereft.
Love is the last light spoken. Oh
Seed of sons in the loin of the black husk left.





II

I know not whether
Adam or Eve, the adorned holy bullock
Or the white ewe lamb
Or the chosen virgin
Laid in her snow
On the altar of London,
Was the first to die
In the cinder of the little skull,
O bride and bride groom
O Adam and Eve together
Lying in the lull
Under the sad breast of the head stone
White as the skeleton
Of the garden of Eden.

I know the legend
Of Adam and Eve is never for a second
Silent in my service
Over the dead infants
Over the one
Child who was priest and servants,
Word, singers, and tongue
In the cinder of the little skull,
Who was the serpent's
Night fall and the fruit like a sun,
Man and woman undone,
Beginning crumbled back to darkness
Bare as nurseries
Of the garden of wilderness.





III

Into the organpipes and steeples
Of the luminous cathedrals,
Into the weathercocks' molten mouths
Rippling in twelve-winded circles,
Into the dead clock burning the hour
Over the urn of sabbaths
Over the whirling ditch of daybreak
Over the sun's hovel and the slum of fire
And the golden pavements laid in requiems,
Into the bread in a wheatfield of flames,
Into the wine burning like brandy,
The masses of the sea
The masses of the sea under
The masses of the infant-bearing sea
Erupt, fountain, and enter to utter for ever
Glory glory glory
The sundering ultimate kingdom of genesis' thunder.
Dylan Thomas


segunda-feira, 21 de maio de 2018

As noites eram aquele enxame desperto

Fotografia de Nick Fewings


As noites eram aquele enxame desperto as noites
eram noites bem bebidas
a elevação dos lábios interiores dos cálices
o pôr das mãos nos caminhos.
Catarina Nunes de Almeida




sábado, 19 de maio de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#195)

Eu lavo a amêijoa para o meu amor comer
Eu lavo a amêijoa para ele se lambuzar
Eu lavo a amêijoa e tenho que lavar
Para lhe poder tirar todo aquele gostinho a mar

Vai o rio de monte a monte

Fotografia Olho de Gato


Vai o rio de monte a monte,
Como passarei sem ponte?

É o vao mui arriscado,
Só nele é certo o perigo;
O tempo como inimigo
Tem-me o caminho tomado.
Num monte está meu cuidado,
E eu, posto aqui noutro monte,
Como passarei sem ponte?

Tudo quanto a vista alcança
Coberto de males vejo:
D’aquém fica meu desejo
E d’além minha esperança.
Esta, contínua, me cansa
Porque está sempre defronte:
Como passarei sem ponte?
Francisco Rodrigues Lobo



sexta-feira, 18 de maio de 2018

Adjectivos*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. As casas dos políticos vão adquirindo adjectivos cada vez mais delirantes. O deputado bloquista Pedro Soares, apanhado também a arredondar o fim do mês, afirmou-se à RTP com:

— uma “morada estável” (sic) na sede do bloco de esquerda em Braga;

— uma “morada de família” (sic) em Vouzela, nunca registada porque, disse o deputado e escreveu o bloco num comunicado, o custo seria “mais elevado” para o parlamento;

— uma “morada de contacto” (sic) em Lisboa nunca indicada à AR mas registada no tribunal constitucional para “facilidade de contacto” deste.

Há outra telenovela com casinhas de um eleito em Vila Nova de Paiva. O vereador do PSD, Manuel Custódio, alterou a sua morada para Lisboa e quer os 36 cêntimos por quilómetro da praxe. Para já, a coisa empancou num parecer jurídico da CCDRC com dois conceitos intrincados: “domicílio voluntário” (sic) e “domicílio efectivo” (sic).

Saude-se esta adjectivação criativa das casinhas dos políticos. Saude-se também a geografia peculiar do bloco de esquerda que espreita por um canudo Braga e Vouzela e vê a primeira mais perto de Lisboa do que a segunda.

2. No passado fim-de-semana, nas eleições internas do PS no distrito de Viseu, António Costa obteve 96,3% dos votos e o seu opositor Daniel Adrião 3,7%.

Registe-se que, em mais de metade dos concelhos, o voto foi pouco secreto. Com zero votos brancos, zero nulos, zero no Adrião, toda a gente ficou a saber que toda a gente votou Costa.

O aparelho socialista tem esta cultura: elege o líder de turno com votações “norte-coreanas” e faz congressos em que ninguém diz nada fora do guião. 

Libé, aqui
No último congresso de José Sócrates, que podia ter sido filmado por Leni Riefenstahl, todos os vips e todos os não vips repetiram a mesma história da carochinha intitulada PEC4.

Desta vez, o congresso vai parafrasear as ideias de Augusto Santos Silva e celebrar os sucessos de Centeno. E vai fingir que não vê o elefante especado no meio da sala que se chama socratismo.

Cânone

Fotografia de Andrei Ianovskii


A arrogância dos poetas nesses dias
passava pelo modo como nos cafés
se dispunham nas mesas: líricos
à esquerda próximos do balcão

épicos à direita alguns com chapéu
dramáticos em pé
na barra
modernos sentados mais ao fundo

despejando sobre brancos papéis de guardanapo
versos livres brancos de poemas em prosa
ou olhando avidamente para Rosa
a empregada mulata de vinte e tantos anos.

Tudo tão admiravelmente posto em ordem
segundo preceitos decerto muito antigos
dava àquela geração de vates surpreendidos
a aparência vaga de um conjunto de amigos.

Mas eis que Baudelaire
Mallarmé Pound Eliot
Wallace Stevens
chegavam a ser termos pronunciados

todos se disputavam
a recitar um verso de O'Hara
um terceto de cummings
uma melopeia à Charles Olson

um simples dito de Tzara.
Eu sentava-me nesse café
numa mesa próxima da porta
e pedia uma bica

folheava o jornal
entre dois goles de meia notícia
evitando sempre olhar para eles
mais que um instante breve

o suficiente para que quase alarmado
me inteirasse do estado
da poesia.
Mas se acaso pela rua distraído

um gato
corria atrás de um outro
ou um cão passava
tão-só um par de pernas na calçada

já de jornal na mão
passada apressada
saltava para fora do cân-
one two three four
Bernardo Pinto de Almeida


quinta-feira, 17 de maio de 2018

Dies irae

Fotografia de Sandeep Swarnkar



Apetece cantar, mas ninguém canta.
Apetece chorar, mas ninguém chora.
Um fantasma levanta
A mão do medo sobre a nossa hora.

Apetece gritar, mas ninguém grita.
Apetece fugir, mas ninguém foge.
Um fantasma limita
Todo o futuro a este dia de hoje.

Apetece morrer, mas ninguém morre.
Apetece matar, mas ninguém mata.
Um fantasma percorre
Os motins onde a alma se arrebata.

Oh! maldição do tempo em que vivemos,
Sepultura de grades cinzeladas,
Que deixam ver a vida que não temos
E as angústias paradas!
Miguel Torga


quarta-feira, 16 de maio de 2018

Centro histórico*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 16 de Maio de 2008


1. Maria de Lurdes Rodrigues (MLR) tem aparecido na comunicação social dia sim, dia sim, a dizer que não quer chumbos.

MLR não quer nada que impeça a progressão automática dos alunos. MLR não quer mais exames e, nos que há, a palavra de ordem é “tolerância”. MLR quer estatísticas cor-de-rosa. A mês e meio do fim do ano-lectivo, com medo que o recado ainda não tenha sido bem percebido, o ministério fala agora de uma quota maior de “excelentes” e “muito bons” na avaliação dos professores que trabalhem nas “melhores” escolas (seja lá o que isso for…).

Ao som de trombetas, quando chegar a altura, há-de ser feito um número com os números do “sucesso” educativo.

Fica mais uma tarefa para o “dia a seguir” a Maria de Lurdes Rodrigues: recuperar a credibilidade das estatísticas do ministério.

Fotografia Olho de Gato
2. Não esperava muito do estudo sobre o Centro Histórico de Viseu encomendado à Parque Expo. Felizmente enganei-me. A Parque Expo fez um bom trabalho. Era bom que as pessoas o pudessem conhecer. A informação produzida devia estar disponível na página da câmara na internet. O filme, que tão bem nos permite visualizar o que se pretende, devia ser colocado no YouTube também. Que diabo! Quando é que a Câmara de Viseu chega ao século XXI?

Agora é o tempo de debate e dos contributos da sociedade civil. É bom que apareçam muitas opiniões sobre o assunto. Quanto mais controvérsia melhor.

Convém lembrar: os cidadãos têm poder de influência e os eleitos poder de decisão. É assim numa democracia.

João Paulo Rebelo, na última Assembleia Municipal, lembrou que é preciso fazer-se a “recuperação social” do centro histórico. É mesmo isso. O problema do centro histórico não é de pedras, é de pessoas.

O peso dos outros





Fotografia de Jack Finnigan




Ao Homem tanto faz a natureza
se anda abismado, com outros
às cavalitas
quando chega à meta
já os perdeu a todos
e depois é que olha o céu
e sente a chuva, tão nova

ao Homem tanto faz o verbo
se se multiplica pelos actos
quando dá por ele, já são muitos
e depois a terra abala-se
e é a cabeça que inventa deus

a mim, tanto me faz o Homem
sou espuma na onda
desfaço-me mas volto
e só existo de vez em quando.
Cláudia R. Sampaio


terça-feira, 15 de maio de 2018

Quando foi isso?

Fotografia Olho de Gato



Na minha juventude antes de ter saído
Da casa de meus pais disposto a viajar
Eu conhecia já o rebentar do mar
Das páginas dos livros que já tinha lido

Chegava o mês de Maio era tudo florido
O rolo das manhãs punha-se a circular
E era só ouvir o sonhador falar
Da vida como se ela houvesse acontecido

E tudo se passava numa outra vida
E havia para as coisas sempre uma saída
Quando foi isso? Eu próprio não o sei dizer

Só sei que tinha o poder duma criança
Entre as coisas e mim havia vizinhança
E tudo era possível era só querer
Ruy Belo


segunda-feira, 14 de maio de 2018

Barbara Hannigan



Much discretion — diz ela antes de tirar o casaco...





Le Grand Macabre (1974–77, revised version 1996) is the only opera by Hungarian composer György Ligeti

domingo, 13 de maio de 2018

The road not taken

Fotografia Olho de Gato


Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I—
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.
Robert Frost


sexta-feira, 11 de maio de 2018

Deputados em part-time*

* Hoje no Jornal do Centro




Há três semanas, afirmei aqui que o infeliz deputado Feliciano, literalmente apanhado na casa dos pais para alegrar um pouco mais o seu fim do mês, não era caso único. Bingo! Entretanto, também já foi apanhada uma deputada em casa da mãezinha (Elza Pais, PS) e um em casa da filhinha (Matos Rosa, PSD). Há mais.

Para além destes pequenos casos ridículos, há problemas estruturais no parlamento que precisam de conserto urgente. Hoje vou tratar de um deles, partilhando com os leitores do Jornal do Centro um texto que publiquei no blogue Olho Gato, em 7 de Abril de 2011, no dia a seguir à bancarrota socrática:

Uma boa parte dos deputados não se dedica em exclusivo ao cargo para que foi eleito pelos portugueses. Temos muitos deputados em part-time que arredondam o seu orçamento com outras actividades, figurando na folha de pagamentos de empresas e grupos económicos, empresas e grupos económicos que recebem fundos públicos e têm negócios com o estado.

Esta acumulação de funções públicas e privadas é defendida pelos deputados usufrutuários com dois argumentos, um subjectivo e outro objectivo.

O argumento subjectivo é o seguinte: “só assim o parlamento pode recrutar os melhores”. Este argumento, sendo matéria de opinião, deve ser respeitado. Mas não é imprudente contrapor-lhe que os eleitores, não podendo ter os melhores deputados, poderiam querer conformar-se com um paraíso não tão perfeito e terem uns deputados “menos melhores” que defendessem o interesse público “mais melhor” do que tem acontecido.

Já o segundo argumento — “ser deputado em part-time é legal” — é, de facto, objectivo: o actual estatuto não obriga os deputados à exclusividade.

Só que esse argumento não deve ser usado por membros da casa que tem o poder de mudar as leis. É que poderá parecer ao eleitorado que os deputados em part-time mantêm o seu estatuto legal porque pensam mais no seu benefício próprio e menos no interesse público.

Listen the wind

Daqui


Mojique sees his village from a nearby hill
Mojique thinks of days before Americans came
He sees the foreigners in growing numbers
He sees the foreigners in fancy houses
He thinks of days that he can still remember...now.
Mojique holds a package in his quivering hands
Mojique sends the package to the American man
Softly he glides along the streets and alleys
Up comes the wind that makes them run for cover
He feels the time is surely now or never...more.
The wind in my heart
The wind in my heart
The dust in my head
The dust in my head
The wind in my heart
The wind in my heart
(Come to)
Drive them away
Drive them away.
Mojique buys equipment in the market place
Mojique plants devices in the free trade zone
He feels the wind is lifting up his people
He calls the wind to guide him on his mission
He knows his friend the wind is always standing...by.
Mojique smells the wind that comes from far away
Mojique waits for news in a quiet place
He feels the presence of the wind around him
He feels the power of the past behind him
He has the knowledge of the wind to guide him...on.
The wind in my heart
The wind in my heart
The dust in my head
The dust in my head
The wind in my heart
The wind in my heart
(Come to)
Drive them away
Drive them away.
Talking Heads