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sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Sindicatos dos tempos modernos*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Charles Chaplin interpretou pela última vez a sua personagem de chapéu de coco, bengala e andar à pinguim, no filme “Tempos modernos”, de 1936. Nele, Charlot faz de operário fabril a fazer gestos repetitivos numa linha de montagem implacável.

Oitenta anos depois, nos actuais “tempos modernos”, muito trabalho penoso foi substituído por maquinaria, mas ainda há muita gente extenuada e cheia de tendinites nas estufas da agricultura intensiva, ao volante de camiões com ou sem matérias perigosas, em call-centers, nas fábricas, nas caixas dos hipermercados, nas obras, nas cozinhas dos restaurantes, nas limpezas.

2. Nos anos da primeira geringonça, as únicas lutas laborais com impacto foram impulsionadas por sindicatos independentes e críticos da CGTP e UGT.

A formação de um novo sindicato de professores, o STOP, obrigou Mário Nogueira a deixar-se de frescuras com o ministro da educação. As novas formas de financiamento das greves dos enfermeiros e a eficácia dos motoristas de matérias perigosas protagonizaram conflitos muito duros, diferentes do ramerrame dos sindicatos tradicionais.

A resposta do poder, como de costume, foi à bruta: auditorias manhosas à Ordem dos Enfermeiros, tropas a guiar camiões privados, ameaças de extinção do sindicato de motoristas, campanhas negras nos media e nas redes sociais...
Editada a partir de uma fotografia de Tatiana Costa e outra de Rui Gaudêncio
... contra a bastonária dos enfermeiros e o advogado do sindicato dos motoristas.

3. E agora, nos anos da segunda geringonça, o que é que vai ser feito pelos políticos para tentarem neutralizar estes sindicalismos modernos mais combativos?

A direita, claro, quer uma nova lei que restrinja o direito à greve. O CDS já manifestou essa vontade e Rui Rio não fechou a porta a essa hipótese. Mas a esquerda, apesar de estar com alguns tiques autoritários, vai ter vergonha de fazer isso. Vai optar por medidas legislativas e burocráticas que tornem mais difícil e labiríntica a criação e a vida destes sindicatos independentes.

quinta-feira, 7 de novembro de 2019

Cantiga da Ermida de São Escorpião

Os sapatos vermelhos, de Michael Powell e Emeric Pressburger (1948)
Gif daqui




Bailando na ermida de São Escorpião
Veio-me o sangue no último verão
               Vou escorrendo pelo caminho
               Vou escorrendo pelo caminho

Serrando na ermida a minha toada
Assim me vi em meu sangue encharcada
               Vou escorrendo pelo caminho
               Vou escorrendo pelo caminho

Veio-me o sangue e comigo bailou
Não apareceu o deus que me cortou
               Vou escorrendo pelo caminho
               Vou escorrendo pelo caminho

Desde o último verão bailo sangrada
E sou do meu sangue a estátua sagrada
               Vou escorrendo pelo caminho
               Vou escorrendo pelo caminho


quarta-feira, 6 de novembro de 2019

Os Substitutos*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 6 de Novembro de 2009


1. «Sem tempo para que o rosto viesse a ser lavrado pelo vento.» É desta maneira sublime que Eugénio de Andrade nos diz que a sua mãe morreu nova.

Não deixar o rosto ser “lavrado pelo vento”.

Este assunto é tratado num filme em exibição: Os Substitutos (Surrogates), um filme de ficção científica de Jonathan Mostow, com Bruce Willis como protagonista.

A história passa-se algures em meados do século XXI. As pessoas vivem as suas vidas por “controle remoto”, fechadas em casa, fazendo todas as interacções sociais através de robôs que são a réplica de si próprios. Os robôs são os tais “substitutos - surrogates”. É um mundo de eterna juventude, sexy, energético, em que os rostos não são “lavrados pelo vento”, em que não há dor, nem desordem.

Trata-se de uma distopia de “gente” de pele esticadinha. Até temos a oportunidade de ver Bruce Willis outra vez com cabelo.

A atmosfera de Os Substitutos remete-nos para a internet e para os avatares da Second Life. O mundo asséptico destes “surrogates” é diferente do universo sujo e miasmático dos “replicants” de Blade Runner (1982), o clássico de Ridley Scott, que teve relançamento em 2007 com nova montagem.

Como se sabe, é através das narrativas que melhor se percebe o mundo. Ver estes dois filmes de seguida é uma maneira rápida de percebermos o quanto mudámos numa geração.

Éramos analógicos. Agora somos digitais.

Somos todos digitais, mesmo os que – como eu – não querem ser obrigados a terem chips das matrículas.

2. Vi Os Substitutos esta semana em cópia digital.

Já se falou aqui desta tecnologia que, por razões ecológicas e imposição da UE, vai substituir as cópias de filmes em celulóide. Tecnologia que é necessária no futuro Centro de Artes do Espectáculo de Viseu.

domingo, 13 de outubro de 2019

Ophidiophobia



Because:

     a garter snake slid over my bare foot

     a copperhead played dead on Spooks Branch Road

     a yellow python hugged a heavy scarf around my neck

     a cottonmouth came charging through a creek I was canoeing

     a black racer at the Nature Center teased a mouse for half an hour then swallowed it

     in the Temple of Doom, the belly of a snake split open, spilling snake-shaped babies

     I used to dream in snakes—I couldn’t move for stepping on them

    a snake exists that wears a fish’s body

    a man I shouldn’t love wore snakeskin boots
Jessica Reed




This is a snakeskin jacket! And for me it's a symbol of my individuality, and my belief... in personal freedom.














segunda-feira, 2 de setembro de 2019

Carlos Paredes

 Movimentos Perpétuos: Cine-Tributo a Carlos Paredes,
de Edgar Pêra (2006)



Inevitável a resignação às cordas
Para não evocar os dedos ou sequer
Os olhos. Mover o corpo, apenas o mínimo
Necessário à intenção de tanger,

Ao modo de gerir pequenas tensões
Conexas, retidas para suster o som
Interior necessário. Não os olhos ou
O alcance da visão: a liberdade, outra

Possibilidade de recolher alegria
No ouvido, na parte côncava da própria
Percepção. Não os dedos: o contentamento,

Outra maneira de arrumar imagens vistas
À transparência, movimento repetido
Por dentro, pelo lado do que não é sombra.
Rui Almeida



domingo, 23 de junho de 2019

Sex machine

The Excessive Machine – Barbarella, Jane Fonda (1968)


Fellas, I'm ready to get up and do my thing
I wanna get into it, man, you know
Like a, like a sex machine, man,
Movin', doin' it, you know
Can I count it off? (Go ahead)

Get up, (get on up)
Get up, (get on up)
Stay on the scene, (get on up), like a sex machine, (get on up)




quarta-feira, 29 de maio de 2019

Tempo*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 29 de Maio de 2009 


O tempo leva os corpos de novos para velhos.

O tempo põe musgo nas pedras e depois ele - o tempo - seca o musgo. Pode-se lutar contra o tempo mas ele acaba sempre por ganhar.

O tempo põe o ontem antes do hoje, e põe o hoje antes do amanhã. Depois de amanhã logo se há-de ver…

Só a imaginação dos homens consegue fugir a estas implacáveis leis e é capaz de colocar os relógios a andarem para trás. Vê-se isso em dois filmes recentes:

1. A história de “O Estranho Caso de Benjamin Button” é bem conhecida. Benjamin Button nasceu num corpo velho e fez a viagem da vida de trás para a frente.




Os anos tiraram-lhe a artrite e o reumatismo e deram-lhe vigor. Morreu com corpo de bebé, pequenino, consolado, ao colo do seu amor.

Foi a imaginação de F. Scott Fritzgerald que escreveu o conto “The Curious Case Of Benjamin Button”, nos anos de 1920, agora adaptado ao cinema por David Fincher.

2. Em “Uma Segunda Juventude”, o professor de linguística Dominic Matei, já com mais de 70 anos, sente-se incapaz de terminar a obra da sua vida sobre a origem da linguagem humana.

No dia em que se ia suicidar, foi atingido por um raio e acordou no hospital 30 anos mais novo e capaz de falar todas as línguas do mundo. Aquela faísca deu a Dominic uma nova vida para poder partilhar com a mulher da sua vida (também “abençoada” por um relâmpago).

Esta história, adaptada ao cinema por Francis Ford Coppola, saiu da imaginação de Mircea Eliade.

Este filósofo das religiões romeno esteve em Viseu, no Outono de 1941, a estudar os quadros de Grão Vasco. Será que foi ao olhar para aqueles quadros mágicos que Mircea Eliade foi atingido pela faísca da ideia para esta história extraordinária?

quarta-feira, 17 de abril de 2019

A culpa

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 17 de Abril de 2009 



1. Está em exibição nos cinemas O Leitor, de Stephen Daldry. Este filme conta a história de Michael, um adolescente que conhece e ama com as hormonas aos saltos uma mulher com mais do dobro da sua idade. Essa mulher é Hanna, interpretada por Kate Winslet (merecidíssimo óscar de melhor actriz). É uma mulher enigmática que se relaciona com Michael, que o quer, fazendo parte desse querer ouvir a voz dele horas e horas a ler-lhe livros. Daí o título deste excelente filme – O Leitor.


Um amor de verão, um amor de uma vida.

Hanna tinha sido guarda num campo de concentração e é levada a tribunal. Centenas de prisioneiros tinham morrido fechados num lugar em chamas e Hanna assume essa culpa. Disse ela ao tribunal: “se as portas fossem abertas, dava-se o caos e os prisioneiros fugiam”. Ao fim e ao cabo, foi esse baixar de braços perante regulamentos e leis iníquas que oleou a máquina nazi.

O Leitor trata também da culpa de Michael que calou informação importante para o julgamento e para a sorte de Hanna.

Essa culpa individual e colectiva não é um exclusivo alemão, mas a Alemanha pagou-a bem caro, com o país retalhado durante décadas, e feridas que demoram a cicatrizar.

Como parte desse processo de exorcização da culpa, foram feitos na Alemanha milhares de filmes, séries de televisão e romances sobre Hitler e o Holocausto.

2. Portugal também tem duas páginas muito negras na sua história mas, estranhamente, não há grandes narrativas sobre a nossa culpa quer durante a inquisição quer durante o salazarismo.

Quanto a Salazar, o que tem aparecido são histórias que glamourizam o ditador, tornando-o uma espécie de arrasa-corações de botas, com direito a Soraia Chaves e tudo.

terça-feira, 16 de abril de 2019

Transístores

Basic Instinct (Instinto Fatal)
de Paul Verhoeven (1992) 


e estamos livres

inspiro o ar divino de sua boca
e o crime está consumado        hoc crimen est        ninguém vai fugir
como numa catástrofe onde todos
perecem
     sob deus que aprecia nossa humana
persistência

saias sopradas saltos estalam
sapatos com presilha no tornozelo
     um império de lindos tornozelos

seu momento amargo seus sentidos invadindo a bastilha enfim
14 juillet soprem as trombetas para a invasão;

não?

nos entretemos com uma conversa jogo-de-xadrez
enquanto você cruza e descruza as pernas trapaceando
para ver quem se perturba primeiro

madrugada
onde a trapaça deixou suas saias?
talvez na tv e nunca mais precisaremos
de velhos transístores: sempre indecisos
como sinapses sob propaganda de bebida onde flutuam
uns idiotas suados que sorriem

sorria também,
você está sendo informado do despejo
de suas belas ideias sujas
Dirceu Villa

quinta-feira, 11 de abril de 2019

terça-feira, 2 de abril de 2019

Se quereis ser fino amante

Buffalo 66

Se quereis ser fino amante
e dessa Senhora amado
o que tendes de picado,
haveis de ter de picante.
Este é remédio importante;
se ela a versos se aplica,
fazei-lhe uma canção rica
se a quereis namorar.
Porém, se a quereis picar,
usai com ela de pica.
Dom Tomás de Noronha





sábado, 30 de março de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#230)

As criaturas da tesoura, agora, são os chuis da linguagem, os chibos politicamente correctos sempre prontos a acharem em tudo "discurso do ódio"


quarta-feira, 27 de março de 2019

Hanami*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 27 de Março de 2009

Fotografia Olho de Gato
1. Hanami é uma tradição milenar japonesa que leva multidões para debaixo das cerejeiras a admirarem a beleza das suas flores. 

Ainda pode fazer hanami este fim-de-semana no vale do Douro, entre a Régua e Resende, onde há milhares de cerejeiras floridas à sua espera.
     
2. “A tendência do homens (…) a imporem aos outros como regra de conduta a sua opinião e os seus gostos, está tão energicamente sustentada por alguns dos melhores e alguns dos piores sentimentos inerentes à natureza humana que quase nunca se detém a não ser por lhe faltar poder.”
     
Quando escreveu isto há 150 anos, Stuart Mill estava longe de imaginar deputados, no século XXI, a parirem leis sobre o sal no pão nosso de cada dia.
     
3. Começo este ponto com uma declaração de interesses: integro um órgão não executivo do Cine Clube de Viseu (CCV).
     
Apesar disso, é com objectividade que afirmo: o CCV tem uma actividade cultural competente e consistente. O seu trabalho com as escolas já envolveu mais de 20 mil alunos. O Ministério da Cultura acaba de o colocar, pelo terceiro ano consecutivo, em primeiro lugar na rede nacional de exibição não comercial de cinema.
     
O CCV está bem mas há nuvens no horizonte. A evolução tecnológica vai fazer desaparecer as cópias de filmes em celulóide e a cidade ainda não tem uma sala não comercial com projecção digital.
     
Era importante que o futuro Centro de Artes do Espectáculo de Viseu (CAEV) tivesse uma sala com essa funcionalidade. Quanto mais modular, flexível e multidisciplinar o CAEV for, melhor.
     
É necessário evitar que o CAEV se transforme em mais um elefante branco. É agora na fase de concepção que se pode evitar esse risco bem real.

sábado, 9 de março de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#229)

Mr. Hitchcock, what is your definition of happiness?

A clear horizon — nothing to worry about on your plate, only things that are creative and not destructive and that's withing yourself. Within me I can’t bear quarreling, I can’t bear feelings between people. I think hatred is ... ... ... ...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Multitarefas*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 20 de Fevereiro de 2009

1. Nós conseguimos fazer várias coisas ao mesmo tempo.

Há uns anos no IP3 foi apanhado pela GNR um condutor que ia a conduzir a 160 à hora e a fazer a barba. O facto é que o homem não se esbarrou.


Daqui
Já vi num multibanco uma mulher a levantar dinheiro da máquina enquanto falava ao telemóvel e comia um croissant. Ela não se enganou. Não falou para o multibanco nem comeu o telemóvel nem levantou o croissant.

Dizia-se que o presidente americano Gerald Ford não era capaz de caminhar e mascar chiclet ao mesmo tempo mas isso era só uma maldade dos seus inimigos políticos.

Nós somos multitarefas.

Portanto, por favor, não me digam que os portugueses não são capazes de votar para as autárquicas e para as legislativas no mesmo dia. Então as pessoas são capazes de votar em três papelinhos diferentes mas em quatro já não?

Ultimamente tenho ouvido muito o argumento que o que é preciso é atacar a crise económica em vez de se estar a pensar em problemas de minorias como o casamento gay. Ora, este argumento não tem em conta que os políticos também são multitarefas. Numa manhã de trabalho e sem madrugarem muito, os deputados podem perfeitamente resolver o problema do casamento entre homossexuais e ainda ficam com a tarde toda para lutarem contra a recessão.

2. Às vezes, na cabeça das pessoas, forma-se a ideia que a felicidade está sempre noutro lugar ou noutra circunstância, nunca no lugar ou na circunstância em que se está.

É disso que trata Revolutionary Road, de Sam Mendes, um filme amargo que vai aumentar a taxa de divórcios do mundo.

3. No último sábado foi lançado o primeiro número da Viseu.M. É uma revista excelente e imperdível.

Parabéns ao Grupo de Missão do Museu Municipal de Viseu.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2019

Perdono


Por olores de perfumes baratos
Por tantas mujeres con risa burlona
Por lagrimas que perdieron su sabor

Por noches llenas de soledad
En las que mis manos acariciaron mi cuerpo
Mi cuerpo lloraba
Por el tiempo que no volvera

Perdono, solo para ti
Perdono, solo por tu bien
Perdono, aunque no me lo pediste

Por la compasion del alluido del lobo
Por los momentos de piedad del viento
Que me acaricio

Por los rallos de mi amor ardiente
Que cegaron mis ojos y me hicieron tu sombra
Y por no escuchar el lobo que me mando a irme

Perdono, solo para mi
Perdono, solo por mi bien
Perdono, a pesar que ya estas lejos ...
Frida (2002)


quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Monólitos*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 2 de Janeiro de 2009

     
1. O monólito que aparece em 2001, Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, é um enigma. Aquele paralelepípedo negro é Deus? É a Energia? O que é?
  
A sequência inicial do filme chama-se A Aurora do Homem. Nela vêem-se uns macacos que, nas suas macaquices, descobrem um monólito negro. A partir desse instante, o líder deles consegue fazer o seu primeiro acto inteligente: usar um osso como arma. Fica capaz de matar presas e conquistar território.
     
Na alegria da vitória, o macaco, que afinal é o primeiro homem, atira o osso-arma ao ar. 


     

Milhares de anos de conquistas da inteligência humana são condensados naqueles cinco segundos em que, na subida, o osso dá voltas e voltas sobre si mesmo até se transformar numa nave espacial.

Fotografia Olho de Gato
2. O edifício da segurança social é o maior monólito de Viseu. 

É mal amado; muita gente chama-o mamarracho.

Nos tempos em que se julgava que éramos um país rico, falou-se em implodi-lo ou em amputá-lo de cinco andares.

Agora já ninguém fala disso. 

A arquitectura deixou-se de ornamentices pós-modernas. As construções são outra vez minimais, despojadas, funcionalistas. Basta ver as casas da classe média feitas nos últimos anos.
     
O nosso monólito da segurança social é um digno exemplar arquitectónico do estilo internacional. É a marca em Viseu daquela época da história da arquitectura mundial. Além disso, a sua geometria sintoniza-se com os tempos austeros que vivemos.

     
3. Caminhar em cima da passadeira de monólitos de granito que puseram na Cava de Viriato é um perigo. Cuidado! Muito cuidado!
     
Eis como começam todos os diálogos entre as pessoas que por lá passeiam:
     «Viva! Então que acha disto?»
     «Fizeram aqui uma boa trampa...»

quarta-feira, 12 de dezembro de 2018

Sardas*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 12 de Dezembro de 2008
     
1. Há coisa de uns vinte anos, li Jangada de Pedra, de José Saramago. A jangada de pedra de que fala o livro é a Península Ibérica que se separa do resto da Europa e se põe a navegar no Oceano Atlântico para cima, para baixo e para os lados, acabando por rumar ao terceiro mundo.
     
Jangada de Pedra é um livro com muita imaginação mas, infelizmente, de escrita baça e ideologia repulsiva. Com provável prejuízo meu, mas devo confessar que nem a posterior nobelização de Saramago me fez ler mais nada dele.
     
2. Está em exibição o filme Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles, baseado na novela homónima de José Saramago.
     
Ensaio Sobre a Cegueira é a mesma parábola que Jangada de Pedra. É Saramago a citar Saramago. Conta-nos que o homem, em condições limite, fica mau como as cobras.
     
O enredo é conhecido. De súbito, as pessoas começam a ficar cegas. Não há nenhum sintoma anterior ou explicação médica. Essa cegueira é infecciosa e contagia cada vez mais gente...
     
No desespero, as pessoas ficam lobas umas das outras e juntam-se em alcateias, enquanto os santos nas igrejas vendam os olhos (ou alguém lhos venda, o que dá no mesmo). Na luta pela sobrevivência, a dignidade humana vaporiza-se, e a vacilação moral torna-se uma arma de destruição maciça. No fim, até os que resistem justos e bons acabam por perceber que o poder é a ponta de uma arma.


Ensaio Sobre a Cegueira é um bom filme e a protagonista, a fabulosa Julianne Moore, tem um talento ainda mais lindo do que as suas sardas.
   
3. Uma velha anedota:    
Duas cabras encontram um filme à porta de um estúdio de Hollywood e fazem da película o seu almoço. 
«Então?», pergunta uma.   
«Muito melhor que o livro!», responde a outra.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2018

As lágrimas do poeta

Daqui

Um poeta barroco disse:
As palavras são
As línguas dos olhos
Mas o que é um poema
Senão
Um telescópio do desejo
Fixado pela língua?
O voo sinuoso das aves
As altas ondas do mar
A calmaria do vento:
Tudo
Tudo cabe dentro das palavras
E o poeta que vê
Chora lágrimas de tinta
Ana Hatherly