quinta-feira, 31 de outubro de 2019

O poeta analfabeto

Leonardo Bastião, poeta do sertão do Pajeú,
pernambucano, 74 anos


A sombra que me acompanha
Não é a que me socorre
Se eu andar, ela anda
Se eu correr, ela corre
E é mais feliz do que eu
Não adoece nem morre.

*****

Tudo o que o homem estudou
pra natureza foi pouco
Ele não faz um coqueiro
Se inventar fica louco
Caçando a encanação
Que leva a água do chão
Pra botar dentro do coco.



quarta-feira, 30 de outubro de 2019

Bola de borracha*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos em 30 de Outubro de 2009 


A crise sistémica global fez desaparecer entre 20 a 30 triliões de dólares de activos. Isso mesmo: um número com dezassete algarismos. Esta destruição brutal de riqueza ainda não é percebível na sua totalidade.

Os estados estão afogados em défice e estão a manipular as estatísticas do desemprego. A situação social vai agravar-se em todas as latitudes.

O epicentro dos problemas reside nos Estados Unidos. Em 2008, o rendimento das famílias americanas sofreu a maior queda desde 1947 (ano em que foi criado esse índice estatístico). Dezenas de milhões de pessoas perderam o emprego, a casa, a reforma, as economias. Tudo o vento do sub-prime levou.

O boletim de Setembro do Laboratório Europeu de Antecipação Política (LEAP) define assim o momento económico que vivemos: “o consumidor americano já não tem mais os meios para comprar tudo o que o resto do mundo se tinha habituado a produzir para ele.”

Percebe-se agora com mais clareza que é a Ásia e a eurolândia que estão relativamente mais abrigados deste vendaval.

Nos últimos meses, ouviu-se em todo o lado a mesma conversa: a “velocidade da queda” da economia diminuiu, já estamos no “princípio do fim” da crise.

Daqui
Foi no boletim do LEAP onde li a analogia que melhor explica o que se está a passar: a economia mundial é uma bola de borracha a cair numa escada. Quando ressalta num degrau, a bola sobe um pouco e logo o marfim dos dentes dos políticos aparece nas televisões a sorrir benignidades. Só que, depois, a bola retoma a queda escada abaixo.

De ressalto em ressalto, a bola de borracha ainda está a descer a escada. Vai ser o ponta de lança asiático - a China - que lhe há-de dar o chuto escada acima.

Esse chuto ainda não aconteceu.

Àqueles que vingam em lume brando

Fotografia de Elena Gaidenko


Àqueles que vingam em lume brando,
com ódios de surdina improvisados,
e seguem pela calada da vingança
até ao cume dos seus próprios tremores,
eu digo: olha que coisa mais linda, mais
cheia de graça; ou, em alternativa,
faço voz grossa e canto: I see skies of blue
and clouds of white, The bright blessed day,
the dark sacred night. Se não entenderem,
então sim, ocupo-me das feridas,
limpo docilmente o corte, sopro no ardor
a ver se faz chama e brasa suficientes
para grelhar no corpo a alminha sem sal.
Henrique Manuel Bento Fialho







terça-feira, 29 de outubro de 2019

Alcance eficaz

Fotografia de Kristaps Ungurs



Alcance eficaz: distância à qual uma bala ainda é mortal.
Manual do graduado de infantaria


Não falo para os consolados, os satisfeitos de si, os que nem riem
porque o riso ainda é sinal de alguma coisa que falta.
Ah vida! alguns te cantam para sentir-te nos lábios,
mas outros pedem-te a si próprios, não contentes contigo,
e as suas palavras terão apenas o obscuro nexo dos abismos sem nome
e a estranha música das mãos cortando o vazio intratável.
A minha voz é misteriosa de mais para que me compreendam.
Seria preciso ter uma alegria de pássaro para com as migalhas da vida
e a mágoa de não ser um pássaro a contentar-se com elas...
Seria preciso saber que não há palavras que cheguem onde não há conversa,
onde o silêncio é um vai-vem de moscas sobre um prato servido.
Jorge de Sena



segunda-feira, 28 de outubro de 2019

“Ne Me Quitte Pas”: ‘I Put A Spell On You’: Nina Simone: 1965

Daqui


A single pant leg dangles from the chair.
Mud from the hem leaves graves on the floor.

Crescent moon: the last button
                of your shirt caught
                          between my teeth.

Cricket: a record player cracks
                          its skipped obsessions.

A single pant leg dangles from the chair.

Stars: dust from your ankles climbs
the slats of streetlight.

              Où l’amour sera roi: only the pits
                          behind bent knees are kingdom.

Mud from the hem leaves graves on the floor.

Your underarm holds a nest of burned leaves
I rub my face against. I smolder in the key of animal.

A single pant leg dangles from the chair,

a cougar unrolling the cologne
of a doe from its tongue.

              Où l’amour sera roi: only the pits
                          behind bent knees are kingdom.

Mud from the hem leaves graves on the floor.
A single pant leg dangles from the chair.
Phillip B. Williams







domingo, 27 de outubro de 2019

Chilena cantilena

Fotografia daqui



Amigos, quero apponctar a actualidade de Arlo Guthrie que, no album AMIGO, tinha feito uma canção para o Victor Jara, da qual transcrevo uns versos antes de mostrar meu novo poema.

[...]
He sang about the copper miners
And those who worked the land
He sang about the factory workers
And they knew he was their man
His hands were gentle, his hands were strong

He campaigned for Allende
Working night and day
He sang, "take hold of your brother's hand
You know the future begins today"
His hands were gentle, his hands were strong
[...]


{Paresce-me, Glaucão, ser opportuno
fallarmos do que rolla alli no Chile.
Não achas que isso lembra aquelles dias
saudosos, anteriores ao estado
milico, de excepção, la nos septenta?
Refiro-me aos protestos, mesmo appós
ter dado o Pinochet aquelle insano,
sangrento golpe. E então? Te lembras quando
o Victor Jara, preso num estadio
no meio de centenas, protestou
cantando? Que fizeram os milicos?
Lesaram suas mãos, as mesmas mãos
que tanto na guitarra dedilhavam!
Mactaram-n'o, depois! Te lembras? Tudo
por causa das canções que, por Allende,
fez elle, incentivando um operario,
um medico, um mineiro, um professor
a serem mais participes do seu
paiz, Glauco! Te lembras? Por signal,
não era só no Chile: ca tambem
soffremos repressão e sempre fora
algum compositor mais censurado,
embora sem perder as mãos, a vida...}

-- Sim, claro que me lembro. Fui alumno,
então, da USP e as lettras nem vacille
você em pensar que nunca foram frias
alli naquelle campus tão visado
por nossa dictadura violenta.
Mas quero recordar, ja que entre nós
rockeiros são heroes, que esse paizano,
o Jara, virou thema do nefando
regime, na canção que, não no radio,
mas sim num elepê, como num show,
ouvi bastante, então. Nem nossos Chicos
cantaram o que Guthrie a seus irmãos
latinos bem cantou. Claro, cantavam
tambem outros Caetanos, nenhum mudo
ficou, nem Gil, nem Milton. Reaccende
agora a atroz questão esse scenario
chileno, ou argentino, ou de suppor
que seja, brazileiro, ou europeu,
até, si ja global se torna a tal
questão dessa direita, alhures, em
crescente expansão, sempre repressora.
Esteve esse Arlo Guthrie mais do lado
de baixo que de cyma. Alguem duvida?
Glauco Mattoso











sábado, 26 de outubro de 2019

Outono de 2003

Fotografia de Kate Williams


Caem as folhas. Devagar. Aplicadas.
Mas isso nem é o pior.
Caem, também, os livros dos amigos
na caixa do correio.

Trazem um abraço, às vezes beijos,
e mesmo algum (sim, nunca fiando)
protesto de amizade.
Depois, pelas entrelinhas,
a lembrança de quão agradável leitor vou ser.

Gosto do Outono. Mas não assim.
Para ler os amigos, roubo no cinema,
roubo no sono, roubo na preguiça.
Chego à Primavera lido mas definhado.
Houve momentos de suave aperto, de doce amargura.
Mas pouco ri, muito pouco, não é mal lembrá-lo.

Os amigos não têm piedade.
E, hão-de ver, para o ano voltarão,
os sacanas,
como se nada tivessem conseguido.


sexta-feira, 25 de outubro de 2019

Tintol & Traçadinho*

* Hoje no Jornal do Centro

1. António Costa acabou com parentelas no governo. Espera-se igual escrúpulo na restante cadeia alimentar. Incluindo na nomeação de boys e girls de Viseu.

Em Março e Abril, o caso das famílias no governo português foi tratado na comunicação social global. Escreveu o Politico: “o mundo talvez já se tenha habituado a Ivanka e Jared na Casa Branca mas os laços familiares estão a causar comoção na política portuguesa (...) o governo conta agora com um casal e um par pai-filha, provocando alegações de nepotismo (...)”. Esta sobredose marido-mulher-pai-filha num conselho de ministros foi tratada pela Bloomberg, pelo El Pais, pela Reuters, foi notícia em todo o lado, e foi um desastre reputacional que António Costa agora não quer repetir.

Quanto às pessoas em causa: Vieira da Silva fez bem em ter ido embora, a sua filha Mariana parece ter a energia que já ia faltando ao velho lobo socialista.

Já a opção pelo ministro Cabrita é incompreensível. Ana Paula Vitorino é competente, o marido é uma espécie de gola inflamável numa aldeia insegura.

2. Os viseenses João Paulo Rebelo e Rosa Monteiro continuam nas secretarias de estado que já tutelavam.

Na Juventude e Desporto, João Paulo Rebelo vai ter os mesmos problemas e o mesmo contexto político dos últimos anos.

Já na Cidadania e Igualdade, Rosa Monteiro vai estar no meio de um vulcão. Em matéria de biopolítica, o panorama mudou à direita e à esquerda. Para além do Chega!, tanto o CDS como o PSD estão muito mais combativos nestas matérias, como se viu na reacção à lei da identidade de género nas escolas. E, à esquerda, o Bloco tem agora um concorrente, o Livre, a necessitar de fazer prova de vida no mercado do tribalismo identitário.

3. A página de humor deste jornal decidiu brincar comigo e “atribuir-me” o “prémio Pacheco Pereira” por estar sempre a malhar no meu partido. Para a minha felicidade ser maior, o prémio foi-me “entregue” pela admirável Ana Gomes.
Muito obrigado, Tintol & Traçadinho!

Gostei muito de te conhecer

Fotografia Olho de Gato

gostei muito de te conhecer,
de não te conhecer, de
qualquer coisa, desde que
fosse contigo. o pôr do sol
acontece a um canto
da minha janela, enquanto
tento descobrir o outro nome
do branco. percebo que o dia
é algo que arde sempre
de modo diferente: o laranja
deita-se ao lado das palavras.
era inevitável. vejo-o
a morrer e também a esperança
me morre: dizes que
o meu rosto era apenas um pretexto
para o verão se rir.
eu sei demasiado bem como o outono
se debruça, friamente, sobre o tempo.
Rui Tinoco



quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Último desejo

Fotografia de Elias Arias

Nosso amor que eu não me esqueço
E que teve o seu começo
Numa festa de S. João
Morre hoje sem foguete
Sem retrato, sem bilhete
Sem luar, sem violão

Perto de você me calo
Tudo o penso e nada falo
Tenho medo de chorar
Nunca mais quero o seu beijo
Mas meu último desejo
Você não pode negar

Se alguma pessoa amiga
Pedir que você lhe diga
Se você me quer ou não
Diga que você me adora,
Que você lamenta e chora
A nossa separação

E às pessoas que eu detesto
Diga sempre que eu não presto
Que meu lar é o botequim
E que eu arruinei sua vida,
Que eu não mereço a comida
Que você pagou para mim
Noel Rosa


quarta-feira, 23 de outubro de 2019

No we can’t*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 23 de Outubro de 2009 


1 Quando, em Janeiro de 2001, George W. Bush tomou posse como presidente, queria virar os Estados Unidos para o umbigo. Ele desejava fazer um corte com o cosmopolitismo de Bill Clinton e diminuir a presença da América no mundo.

Isso não era nada de novo: ciclicamente, a doutrina unilateralista ganha força em Washington.

Como é sabido, meses depois, a 11 de Setembro, Osama bin Laden estilhaçou a estratégia isolacionista de Bush. Foi a partir dessa data que os neo-conservadores e o sr. Dick Cheney ganharam influência e fizeram embarcar George W. Bush na aventura da guerra preventiva contra o “eixo do mal”. As consequências são conhecidas.

2. Barack Obama percebeu que, perdidos os anéis no Iraque, para salvar os dedos precisava de ir directo à fonte dos sarilhos: ao Afeganistão e ao Paquistão. Perante este objectivo estratégico, toda a comunidade internacional assobiou para o lado e deixou-o sozinho. O costume. Depois da queda do muro de Berlim, são deixadas aos americanos todas as chatices. Até na Europa, nos anos de 1990, tiveram que ser eles a virem resolver a confusão na ex-Jugoslávia.

Metido num molho de bróculos interno, com todos os indicadores económicos no vermelho, com o dólar a colapsar, Obama precisa de se virar para casa.

No Pentágono desenha-se uma nova estratégia, a que se pode chamar: “No, we can’t!”. “Nós não podemos!” Os americanos já não podem nem querem ser os polícias do mundo.

3. Obama ainda não fez nada que se visse para merecer o prémio Nobel da Paz. É absurdo, depois da “guerra preventiva” de Bush, vir-se agora com a “paz preventiva” de Obama.

De qualquer forma, este prémio estúpido não muda nada: a política externa americana vai passar a ser menos intervencionista.

Witches

Fotografia de Bee Felten-Leidel


Somebody takes a photo
of the little girl in a witch's suit
and it stays in the corner of a mirror
yellowing out. Ten years later
her brother goes trick-or-treating
dressed as Superman.
She lies on her bed
listening to her parents
rustle in the house below.
The soft clack of dishes
reminds her of the hag
riding a broomstick over her mother's soapy arms,
always turning on her black thread,
refusing to fly straight.
Amanda Pecor







terça-feira, 22 de outubro de 2019

Bird

Fotografia Olho de Gato


The secret is
not to be afraid, to
pour the salt, letting your wrist
be free—there is almost
never too much; it sits on top of the skin like a
little crystal casket. Under, the bird might
imagine another life, one in which it is grateful
for pleasing, can smell
itself cooking—the taste
of carrots, onions, potatoes stewed
in its own juice—and forget
the dreams of blood
coursing out of its throat like a river.
Toi Derricotte



segunda-feira, 21 de outubro de 2019

Hoje és menos

Fotografia de Ali Yahya



Alguém que esteve a tentar esquecer-te,
E a cuja memória, por isso mesmo,
Regressavas como à melodia de uma canção da moda
Que toda a gente trauteia sem querer,
Ou como a frase de um anúncio ou de um lema;
Alguém assim, agora
Provavelmente
(Certamente) sem o saber,
Começou, por fim, a esquecer-te.

Hoje és menos.
Roberto Fernández Retamar
Trad.: Vasco Gato




domingo, 20 de outubro de 2019

As coisas mais simples

Fotografia de Ham Kris



Belo belo belo
Tenho tudo quanto quero,
Tenho o fogo de constelações extintas há milénios,
E o risco brevíssimo — que foi? Passou — de tantas estrelas cadentes.
A aurora apaga-se,
E eu guardo as mais puras lágrimas da aurora.
O dia vem, e dia a dentro
Continuo a possuir o segredo grande da noite.
Belo belo belo,
Tenho tudo quanto quero.
Não quero o êxtase nem os tormentos,
Não quero o que a terra só dá com trabalho.
As dádivas dos anjos são inaproveitáveis:
Os anjos não compreendem os homens.
Não quero amar,
Não quero ser amado.
Não quero combater,
Não quero ser soldado.
— Quero a delicia de poder sentir as coisas mais simples.
Manuel Bandeira


sábado, 19 de outubro de 2019

Poema feminino

"O Capuchinho Vermelho e o Lobo Mau (que comeu a Avozinha)", litografia de Paula Rego


vim para a cidade servir
servir o amor
e não uma feijoada fria
mas menina e moça
temerária
afastei-me das palavras sábias da avó
que não me desaconselhavam nem a floresta, nem os lobos
mas a cidade e os homens
e na cesta acumulou a dissimulação
que eu utilizaria como uma capa
mas enchi a cesta de morangos silvestres
queria servir com as palavras claras
do tempo dos reis e das princesas
mas o homem a quem amei
com as palavras, os cozinhados, o sexo
achou-os pesados, indigestos
como aquelas que encheram a barriga do lobo
da história que me tem servido de atalho
ai avozinha sempre deveria ter usado a capa
o homem sente a serva como rainha
e as palavras balas certeiras contra a caixa torácica.
novidades, novidades, é que não há caçador.
Ana Paula Inácio




sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Obrigação e devoção*

* Hoje no Jornal do Centro

“Primeiro a obrigação, depois a devoção” é um provérbio antigo que nos diz para primeiro fazermos o que temos de fazer e só depois o resto (seja esse resto as coisas de Deus ou as coisas do curtir).

Tenha sido por causa do radão emitido pela Laje Gorda de Cepões, esse maciço de granito admirável onde está erigida a Ermida da Santa Eufémia, tenha sido pelas emoções da romaria que ali ocorre todos os anos em Setembro, o facto é que a peregrinação àquela santa pôs o presidente da câmara de Viseu e dois vereadores socialistas às voltas com o velho conflito entre a “obrigação” e a “devoção”.

Este jornal contou tudo numa notícia online que tem uns áudios hilariantes e o seguinte título: “Missa de Santa Eufémia em dia de reunião da câmara de Viseu origina críticas”.

Aquela nada laica discussão e o humor involuntário de António Almeida Henriques, Lúcia Silva e Pedro Baila Antunes, são de “gente que não sabe estar”.

Pelo que se percebe, o presidente da câmara e o vereador socialista naquele dia foram multitarefas: primeiro fizeram a obrigação (estiveram numa sessão da câmara a tratar de assuntos municipais em Viseu) e depois foram à devoção (à romaria e respectiva missa em Cepões). Já a vereadora socialista é monotarefa, só consegue fazer uma coisa de cada vez: por isso, tratou da devoção e baldou-se à obrigação.

Dias depois, António Almeida Henriques, malhou no estranho sentido de prioridades da vereadora. Mas é o delírio entre o presidente da câmara e o vereador, ...
Fotografia Olho de Gato
... acontecido na presença do crucifixo do salão nobre da câmara de Viseu, que merece especial destaque.

Atirou António Almeida Henriques: «quero dizer ao senhor vereador que fiquei muito incomodado, mesmo muito incomodado, por o ver na Santa Eufémia sem estar no lugar em que devia estar...»

Respondeu Pedro Baila Antunes: «tenho sérias dúvidas que o protocolo “exigisse” que eu estivesse ali no altar da Santa Eufémia...»

Sou tua

Fotografia de Frank Mckenna



[Reneguei tuas promessas

E juras de amor ardente
Até com certo rancor
Disse-te assim, não sou dessas
Que se embalam cegamente
Em juramentos de amor
Meu Deus, como a boca mente
Pois se te amo loucamente
Eu digo seja a quem fôr]

Sou tua
Como o luar é da lua
Como as pedras são da rua
E p'ra ser tua nasci

Sou tua
Tão tua que me convenço
Que já nem a mim pertenço
Que sou um pouco de ti

Sou tua
Deixai-me gritar ao vento
P'ra que o vento num lamento
Diga ao mar, à terra, ao céu

Sou tua
E deixa que os olhos meus
Só vejam p'ra ver os teus
Embora não sejas meu
Domingos Gonçalves


quinta-feira, 17 de outubro de 2019

Ao meu cão

Fotografia de Sander Weeteling

Deixei-te só, à hora de morrer.
Não percebi o desabrigado apelo dos teus olhos
Humaníssimos, suaves, sábios, cheios de aceitação
De tudo... e apesar disso, sem o pedir, tentando
Insinuar que eu ficasse perto,
Que, se me fosse, a mesma era a tua gratidão.

Não percebi a evidência de que ias morrer
E gostavas da minha companhia por uma noite,
Que te seria tão doce a minha simples presença
Só umas horas, poucas.
Não percebi, por minha grosseira incompreensão,
Não percebi, por tua mansidão e humildade,
Que já tinhas perdoado tudo à vida
E começavas a debater-te na maior angústia, a debater-te com a morte.
E deixei-te só, à beira da agonia, tão aflito, tão só e sossegado.
Cristovam Pavia


quarta-feira, 16 de outubro de 2019

Eleições 2009 (IX)*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 16 de Outubro de 2009

1. No distrito de Viseu, nas europeias e legislativas a abstenção foi bem acima da média nacional. Agora nas autárquicas aconteceu o contrário e a abstenção no distrito ficou 3,4% abaixo da média nacional. Excelente!

Este ciclo eleitoral foi bom para José Junqueiro. Nas legislativas esteve no centro do furacão, ao aproveitar os tiros de pólvora seca do PSD sobre a “asfixia democrática” e ao suscitar a fúria de Cavaco. Junqueiro passou incólume e ajudou nos bons resultados do PS.

Nas autárquicas, era necessário ao PS ganhar pelo menos 8 câmaras, tantas como tinha antes de 2005. Esse objectivo foi superado e conseguiu 9.

2. Eleições após eleições, o PSD tenta ganhar todas as 34 juntas de freguesia do concelho de Viseu. Politicamente, essa era a “cereja em cima do bolo” para Fernando Ruas. Mais uma vez tal não aconteceu – o PSD perdeu as juntas de Bodiosa e de S. Pedro de France.

Nem em 2001, no fim do guterrismo, quando o PS estava com dinâmica de derrota, com os vips socialistas entretidos a esfaquearem-se nas costas uns dos outros, nem dessa vez isso aconteceu. O PS, no concelho de Viseu, mesmo nesse ano de vacas esqueléticas, ganhou as freguesias de Fragosela, Santos Evos e Mundão.

3. Nestas autárquicas, Miguel Ginestal teve um mau resultado. Deixou-se enrodilhar até à 25ª hora no episódio da bi-candidatura. O eleitorado percebeu que ele estava com a cabeça noutro lugar.

A capital do distrito precisa de uma oposição eficaz. O PS não pode dar mais quatro anos de remanso ao PSD.

Quando Fernando Ruas vem, como lhe compete, dizer que “Lisboa prejudica Viseu”, é necessário aos socialistas engolirem sempre o anzol, a linha e a cana?

José Junqueiro, há que tomar este dossier em mãos.

Fragment

Fotografia de Jude Beck

I would like this poem
to be a machine.
Concise, metallic,
a counting apparatus.
A means to keep each moment
contained and fixed, akin
to a series of Polaroids,
photographed and fixed
to cardboard or some other
paper-panel backing.
Then photographed and affixed
with Scotch tape to the wall.
Or, a vitrine, a glass case,
within which to gather and collect
each moment, each object
representing each moment.
A bundle, assemblage, or archive
constructed of letters and notes,
diary entries and fragments,
articles and photographs
torn from books.
A machine that measures
the space between
the body and the mind,
the dissonance that exists
inside that moment. And there,
in that static, in the rip,
the mar, the error
between, is where,
when it begins, it will
begin.
Cynthia Cruz


terça-feira, 15 de outubro de 2019

A mulher que me deu mais prazer

Fotografia de Luke Braswell


a mulher que me deu mais prazer
perdi-a um dia.

às vezes via a sua magreza
através da elegância das saias.

eu conhecia os relicários dos santos
os seus ossos distribuídos por
gavetas de prata
e sabia que um relógio
cria no cão pequeno
a ilusão do bater do coração da mãe.

o que eu beijava nessa mulher
era a sua respiração
o ar da sua santidade
que lhe impulsionava as ancas.

e ao seu lado eu dormia
como um cão enrolado
ouvindo o bater do coração.
Carlos Saraiva Pinto



segunda-feira, 14 de outubro de 2019

Insomnia





Too brief to be called
A song, yet so distinctive:
What bird can it be?

Shapes of furniture
Emerge, one limb at a time
From the dark's deep sea

Another squirrel caught!
Rattle it! Rattle the trap!
The walnut's all yours

Windows un-Windexed
Sheets not laundered, itchy crotch
I've myself to blame

One gray becomes two
Blue above, olive below
The day's new Rothko

Unexpectedly
I got some sleep between six
And what is it now
Tom Disch




domingo, 13 de outubro de 2019

Ophidiophobia



Because:

     a garter snake slid over my bare foot

     a copperhead played dead on Spooks Branch Road

     a yellow python hugged a heavy scarf around my neck

     a cottonmouth came charging through a creek I was canoeing

     a black racer at the Nature Center teased a mouse for half an hour then swallowed it

     in the Temple of Doom, the belly of a snake split open, spilling snake-shaped babies

     I used to dream in snakes—I couldn’t move for stepping on them

    a snake exists that wears a fish’s body

    a man I shouldn’t love wore snakeskin boots
Jessica Reed




This is a snakeskin jacket! And for me it's a symbol of my individuality, and my belief... in personal freedom.














sábado, 12 de outubro de 2019

The difference

Fotografia de Rifky Nur Setyadi


They talk oil in heavy jackets and plaid over
their coffee, they talk Texas and the north cold,

but mostly oil and Obama, voices dipping
vexed and then they talk Egypt failing,

Greece broken and it takes cash for France not
charity and I rather speak Russia than Ukraine

one says in rubles than whatever, whatever
the trouble, because there is sea and gold,

a tunnel, wherever right now, an-anyhow-Belarus,
oh, I will show you something, conspiring

coins, this one, China, and they marvel,
their minds hatched crosses, a frontier

zeroed not by voyage or pipeline nor the milk
foam of God, no, not the gutsy weather they talk

frizzled, the abomination worsening
opulence to squalor, never the inverse.
Ishion Hutchinson








sexta-feira, 11 de outubro de 2019

Os três émes*

* Hoje no Jornal do Centro

Moisés Naím, no seu livro “O fim do poder”, descreve as três revoluções que estão a a acontecer à frente dos nossos olhos:

a revolução do mais (“que se caracteriza por aumentos em tudo” - número de países, populações, níveis de vida, literacia, produtos no mercado, …);

a revolução da mobilidade (pessoas, bens, dinheiro, ideias, valores, a “movimentarem-se de forma nunca antes vista por todo o planeta”); e

a revolução da mentalidade (o “mais” e a “mobilidade” causam “grandes mudanças nas mentalidades, expectativas e aspirações” das pessoas).

Na nossa política, estes três émes “revolucionários” receberam um impulso muito grande durante o longo caminho que nos levou às eleições legislativas do passado domingo.

Agora há mais forças partidárias, mais ideias, mais candidatos. Nunca o boletim de voto foi tão grande. Depois da cruzinha feita, já não chega dobrar o voto em quatro, aquele lençol tem que levar mais uma dobra.

E, apesar de todos os travões colocados na engrenagem pelos donos do regime, ...


Daqui
... o eleitorado moveu-se. E esta “mobilidade” pode ser quantificada: foram 550 mil votos (11%) nos dezasseis partidos mais pequenos que não pertencem ao cartel partidário instalado. De uma só vez, entraram no parlamento três partidos novos e o PAN quadriplicou a sua presença.

Este “mais” da oferta partidária, somado a esta “mobilidade” dos eleitores, vai ter consequências na “mentalidade” do próximo parlamento.

A seguir a uma legislatura sem partidos de protesto (a domesticação do BE e do PCP fez-lhes perder, respectivamente, 57 mil e 116 mil votos), vamos passar a ter uma voz anti-sistema (o Chega) e, de novo, vozes de protesto (a Iniciativa Liberal e o PCP).

Por sua vez, o Bloco, depois da sua campanha demagógica e errática, vai ter no Livre um concorrente directo no mercado do tribalismo identitário, um mercado sempre indignado com qualquer coisa e que vai dando assunto aos papagaios das televisões e aos viciados em likes das redes sociais.

A drinking song

Fotografia de Alfonso Scarpa


Wine comes in at the mouth
And love comes in at the eye;
That’s all we shall know for truth
Before we grow old and die.
I lift the glass to my mouth,
I look at you, and I sigh.
W. B. Yeats







quinta-feira, 10 de outubro de 2019

Não à pena de morte!*

10 de Outubro — Dia Mundial Contra a Pena de Morte, criado em 2003 por iniciativa conjunta de organizações não governamentais, governos e organizações jurídicas


...
And the mercy seat is waiting
And I think my head is burning
And in a way I'm yearning
To be done with all this measuring of truth.
An eye for an eye
A tooth for a tooth
...






I began to warm and chill
To objects and their fields,
A ragged cup, a twisted mop
The face of Jesus in my soup
Those sinister dinner deals
The meal trolley's wicked wheels
A hooked bone rising from my food
All things either good or ungood.

And the mercy seat is waiting
And I think my head is burning
And in a way I'm yearning
To be done with all this measuring of proof.
An eye for an eye
A tooth for a tooth
And anyway I told the truth
And I'm not afraid to die.

Interpret sign and catalogue
A blackened tooth, a scarlet fog.
The walls are bad. Black. Bottom kind.
They are the sick breath at my hind

I hear stories from the chamber
How Christ was born into a manger
And like some ragged stranger
Died upon the cross
And might I say, it seems so fitting in its way
He was a carpenter by trade
Or at least that's what I'm told

My kill-hand is E.V.I.L.
Across his brother's fist
That filthy five! That did nothing to challenge or resist.

In Heaven His throne is made of gold
And ark of his Testament is stowed
A throne from which I'm told
All history does unfold.
Down here it's made of wood and wire
And my body is on fire
And God is never far away.

My kill-hand is called E.V.I.L.
Wears a wedding band that's G.O.O.D.
'Tis a long-suffering shackle
Collaring all that rebel blood.

And the mercy seat is waiting
And I think my head is burning
And in a way I'm yearning
To be done with all this weighing of the truth.
An eye for an eye
And a tooth for a tooth
And, anyway I told the truth
And I'm not afraid to die.

And the mercy seat is burning
And I think my head is glowing
And in a way I'm hoping
To be done with with all this weighing of the truth.
An eye for an eye
And a tooth for a tooth
And Ive got nothing left to lose
And I'm not afraid to die.

And the mercy seat is smoking
And I think my head is boiling
In a way its spoiling all the fun with all this truth and consequence
To be done with all this measuring of proof.
An eye for an eye
And a tooth for a tooth
Anyway I told the truth
But I'm afraid I told a lie.