sábado, 30 de novembro de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#245)

0'23'' order ||||||| 3'20'' caos ||||||| 4'49'' order (sort of)





Convite



A terra abre suas pálpebras
e oceano e céu são um convite ao fim do mundo
os seus cílios são brancos cúmulos na dissolução da tarde
há um incêndio de sombras e sangue púrpuro,
sem qualquer ruído

é apenas o sol deposto e a passagem do dia,
um estremecimento forte da pele, um respiro
mais fundo e as velhas questões acossando
tua consciência irredutível de estar vivo agora
e não depois

então diz adeus, despe a tua condição de forasteiro
deixa que a tua matéria seja a água e o esquecimento
do gosto acre da saliva deglutindo a seco
o contacto incómodo com a existência

os dias que foram, os dias que virão
teu medo mais derradeiro
tua angústia mais inominável
deita-os na coluna de espuma

enquanto o corpo é envolvido pela escuridão,
que não te pede absolutamente nada,
a não ser o silêncio profundo da tua alma
e das tuas obsessões calidamente cultivadas

escuta só o corpo latejando na concha
fria do universo, reverberando abandonos
e o êxtase da solidão

escuta esta canção de muito longe,
que todos os homens, em todas as épocas,
já ouviram, sentindo a escassez infinita
de si ante o pálio frio e espectral das estrelas

este ar, este mar não te saúdam
mas te recebem
se tu deixas a ti mesmo para trás
Laís Aquino


sexta-feira, 29 de novembro de 2019

O chupismo centralista*

* Hoje no Jornal do Centro

Daqui
1. Continuamos atolados no pântano que António Guterres anunciou antes de se ter escapulido, pântano que tem duas características:
— mistura a política com os negócios: os boys têm pressa de enriquecer, fazem ajustes directos por tudo e um par de botas e assinam contratos que são um maná para os rentistas;
— é hiper-centralista: usa a necessidade do controlo do défice como pretexto para concentrar todo o poder de decisão em Lisboa, com consequências nefastas no resto do país, especialmente no interior.

As pessoas ficam indignadas com as negociatas mas encolhem os ombros perante o centralismo. Cada vez mais, o país é Lisboa e o resto é paisagem.

Isso é mau, facilita a vida à corrupção e fica muito caro ao país. Um exemplo: até ao governo do engenheiro Guterres, as escolas e os hospitais compravam os consumíveis localmente, depois este tipo de aquisições passou a ser feito em centrais de compras em Lisboa. Não fica mais barato ao estado, mas serve para passar para as mãos de grandes operadores amigos do poder aquilo que sempre fora para os pequenos e médios negócios locais.

2. Os governos levam para Lisboa todo o poder e todos os recursos que podem. Agora até já só fazem obras da sua responsabilidade nos territórios se as câmaras ajudarem a pagar.

A requalificação da escola Grão Vasco de Viseu foi feita com fundos comunitários mas a comparticipação nacional de 195 mil euros teve que ser paga pelo município. O dono da escola, o ministério da educação, baldou-se.

A saturada e perigosa estrada que liga Viseu ao Sátão, que dá acesso a todo o norte do distrito, precisa de obras urgentes, orçadas em 3,3 milhões de euros, mas o governo, dono da estrada, diz que só as faz depois de chupar um milhão de euros à câmara de Viseu e 400 mil à câmara do Sátão.

E os dois presidentes de câmara estão dispostos a aceitar esta chantagem. E a ANMP, dirigida pelo fraquíssimo presidente da câmara de Coimbra, aceita estas chantagens.

Os cobardes

#kafkaemserralves #joanavasconcelosépirosa
Fotografia Olho de Gato




La belleza no es un lugar donde van a parar los cobardes.
Antonio Gamoneda

Talvez venhas a morrer perto
violentado pela luz, pelo assombro
de uma vida pensada junto ao fogo
mas de onde nunca trouxeste nada

A vida é tanto mais pesada
se te não fere a violência de um deus
se regressas da solidão com o mesmo porte
com as mãos abertas e laceradas

como praças descobertas para a morte
Bruno M. Silva



quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Exército zombie

Fotografia de Nathan Wright

Idealistas sonhadores homens
mulheres
sem cabeça sem alvo ou
ponto a atingir
Poetas escrevendo apontamentos
deixando ora o braço
ora a mão aqui e ali na longa
planície da vida
Do céu tudo o que fazem
é um mero desenho
pontuado por destroços


quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Estilo

Fotografia de Avi Naim

na lapela uma agulha adornada c'um brilhante
na orelha uma argola de pirata petulante
o andar afectado de quem anda nas alturas
espreitando do bolso um folheto com torturas
ou então um volume de cozinha libertária
que ninguém percebia ao fazer a culinária

todo o dia a jogar a um jogo de charadas
entre copos de absinto e mistelas inaladas
recitamos poemas em delírio fonético
inventamos dadá em registo frenético
e depois já cansados vamos todos para a cama
numa orgia colectiva que não vinha no programa

é preciso é estilo! não cansamos de dizer
num verniz de desdém que nos dá muito prazer
assumindo o deboche cada vez mais descarado
insurrectos em graça adorando o acto ousado
somos fãs da desbunda do deleite permanente
e assim passa o tempo e com ele nova gente

é preciso é estilo em delírio fonético
é preciso é estilo adorando o acto ousado
é preciso é estilo de pirata petulante
é preciso é estilo vamos todos para a cama
é preciso é estilo em deleite permanente
é preciso é estilo de quem anda nas alturas
Adolfo Luxúria Canibal


Boris Pasternak *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 27 de Novembro de 2009



1. Em 1937 realizou-se um congresso dos escritores soviéticos onde só se ouviram hinos de louvor ao “pai dos povos”, José Estaline. Era então aquela a partitura oficial em todos os actos públicos naquele país.


Claro que Boris Pasternak, o mais aclamado dos poetas russos, esteve presente no congresso. Ele não queria tocar a música do regime pelo que tinha o seguinte dilema: ou falava e era preso ou não falava e era preso na mesma.

No último dia do congresso, Pasternak levantou-se. Fez-se silêncio. Silêncio sepulcral. Sem sair do lugar, o escritor russo disse um número. Todos perceberam. Era o número que tinha o soneto de Shakespeare “Quando sinto a lembrança das coisas passadas” numa colectânea que Pasternak traduzira para russo. Então, duas mil vozes recitaram aquele soneto em coro.

Foi um momento mágico. Até os esbirros perceberam que podiam entrar em todo o lado menos dentro das cabeças dos homens. Pasternak acabou por não ser preso.

Há momentos assim que são epifanias. Como se cada dilúvio decretado pelos deuses trouxesse já consigo a arca da salvação.

George Steiner já contou várias vezes esta história e referiu-se mais uma vez a ela esta semana no Instituto Piaget de Viseu.

 
2. Miguel Ginestal toma posse hoje como governador civil de Viseu. Esta é uma boa notícia para o distrito. Ginestal vai ser um excelente governador civil. Ele vai prosseguir sem sobressaltos o bom trabalho realizado por Acácio Pinto e sua equipa.

Já para o concelho de Viseu esta é uma notícia péssima. Fernando Ruas está no último mandato. Ora, como é sabido, os últimos mandatos são os que mais precisam de ser escrutinados. Era necessária uma oposição socialista com liderança política forte e competente na câmara de Viseu. E, agora, não há.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

O pau sondava o tambor

Fotografia de Isaiah McClean


O pau sondava o tambor
O tambor seduzia o pau
Com o véu a encobrir o arco-íris
Música vibrante do seu arco
Coxas latejantes
No feitiço de emprenhar som e fantasia
No ritual propósito de gerar
Fecundar
Crescer
Revoltar
Soltar-se

No apelo para a dança
O pau vergava sob a ânsia
Do tambor
A fêmea era a Terra
Alimentadas as mãos do homem
Umbigos arfantes
Aspirando sémen e suor e sangue e música
Nos espasmos
Contracções da terra
Expelindo lava
Sugando o poema primeiro
Continuando nos gestos que iriam renascer
Na ansiedade de novas descobertas.
Daniel Medina


segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Laguna blues

Daqui



It’s Saturday afternoon at the edge of the world.
White pages lift in the wind and fall.
Dust threads, cut loose from the heart, float up and fall.
Something’s off-key in my mind.
Whatever it is, it bothers me all the time.

It’s hot, and the wind blows on what I have had to say.
I’m dancing a little dance.
The crows pick up a thermal that angles away from the sea.
I’m singing a little song.
Whatever it is, it bothers me all the time.

It’s Saturday afternoon and the crows glide down.
Black pages that lift and fall.
The castor beans and the pepper plant trundle their weary heads.
Something’s off-key and unkind.
Whatever it is, it bothers me all the time.
Charles Wright




domingo, 24 de novembro de 2019

Se eu pudesse dormiria abraçada com elas

Fotografia de Oswaldo Ibáñez


se eu pudesse dormiria abraçada com elas
todas as noites
por exemplo
no dia seguinte viraria para o lado e me fingiria de viva
não tenho que lidar com pedras que não são minhas
eu só quero dormir com elas sem ter que recolhê-las
sem ter que dar-lhes um nome um dinheiro para passagem de volta
se eu pudesse eu manteria distância de discursos
que me impõem uma responsabilidade por pedras
que não são minhas
a do peito
a dos rins
a do sapato
essas sim
eu carrego diariamente minhas próprias pedras sem nome
que é para não desenvolver algum vínculo
para não aparecer remorso na hora de jogá-las
de atirá-las
num rio
num rosto
num buraco que precisa ser tapado e só minhas pedras cabem
eu carrego diariamente minhas pedras
por ruas sujas e curiosamente ausentes delas
às vezes algumas me acertam a nuca
num movimento de destreza eu as capturo no meio das minhas costas
e digo: por aí só passa mão língua ou pomada relaxante muscular
se eu pudesse eu daria a algumas pessoas da minha vida
suas próprias pedras para desenvolverem responsabilidade
por algo realmente seu
se eu pudesse eu fingiria que essas mesmas pessoas não existem
nem elas
nem suas pedras
nem seu afazeres que não me dizem respeito
as pedras que às vezes surgem no caminho
não turvam a vista
não cansam os modos
eu as recolho
uma a uma
e dou pro moço que pesa objetos superestimados na esquina
para ver se eu descolo algum dinheiro
às vezes não valem nada
nem sequer pesam
mas alguém diz que pesa
que prende na garganta
que ataca o peito
eu apenas recolho
para evitar bagunça
para ver se eu consigo trocar por algodão doce
feito se fazia com panelas velhas em 1999
se eu pudesse eu comeria tuas pedras para saber o gosto que tem
ser tua pedra
andar no teu bolso
no teu anel
no teu pescoço
mas nunca te pesar o peito.
Ágnes Souza

sábado, 23 de novembro de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#244)

I love you [one exclamation point]

I must have you [two exclamation points]

You are everything to me [three exclamation points]


Quando eu for grande (carta aos meus netos)

Fotografia de Larm Rmah

Quando eu for grande quero ser
Um bichinho pequenino
P'ra me poder aquecer
Na mão de qualquer menino

Quando eu for grande quero ser
Mais pequeno que uma noz
P'ra tudo o que eu sou caber
Na mão de qualquer de vós

Quando eu for grande quero ser
Uma laje de granito
Tudo em mim se pode erguer
Quando me pisam não grito

Quando eu for grande quero ser
Uma pedra do asfalto
O que lá estou a fazer
Só se nota quando falto

Quando eu for grande quero ser
Ponte de uma a outra margem
Para unir sem escolher
E servir só de passagem

Quando eu for grande quero ser
Como o rio dessa ponte
Nunca parar de correr
Sem nunca esquecer a fonte

Quando eu for grande quero ser
Um bichinho pequenino
Quando eu for grande quero ser
Mais pequeno que uma noz

Quando eu for grande quero ser
Uma laje de granito
Quando eu for grande quero ser
Uma pedra do asfalto

Quando eu for grande...
Quando eu for grande...

Quando eu for grande quero ter
O tamanho que não tenho
P'ra nunca deixar de ser
Do meu exacto tamanho
Manuela de Freitas




sexta-feira, 22 de novembro de 2019

Uma rolha*

* Hoje no Jornal do Centro


Há exactamente dois meses, em 22 de Setembro, o grande Bernardo Silva decidiu brincar com o seu colega de ofício Benjamin Mendy e publicou, no Twitter, uma imagem deste em criança ao lado do boneco dos Conguitos. 
Uma brincadeira. Coisa entre amigos. Em tempos idos, haveria uma “retaliação” bem humorada de Mendy e a coisa ficava-se por ali.

Em tempos idos era assim, mas agora não. Uma chusma de ofendidinhos-politicamente-correctos começou logo a acusar o jogador de racismo. Este, perante aquela reacção, ainda retirou o tuíte, mas de nada lhe valeu. Levou com um jogo de castigo, 58 mil euros de multa e, pasmo dos pasmos, ficou obrigado a uma “acção educacional”.

Este caso merece reflexão. Repare-se: ninguém de boa fé poderá ver naquela fotografia mais do que uma brincadeira entre amigos. Mendy riu-se. Os colegas riram-se. Os treinadores riram-se. A própria federação reconheceu que o que ali houve foi uma brincadeira. Como é que tanta unanimidade no mundo do futebol resulta num castigo tão estúpido?

É que as alcateias das redes sociais têm sede de sangue e o presidente da federação inglesa de futebol viu-se compelido a fazer o papel de um sumo sacerdote asteca e ofereceu-lhes Bernardo Silva em sacrifício. É mesmo isso: a esquizofrenia do politicamente correcto está a tornar-nos primitivos, está a roubar-nos o oxigénio da liberdade e a transformar o humor num exercício perigoso.

Achado no FB sem indicação de autoria
Que fazer? Votar na direita identitária é pior a emenda que o soneto. Se os identitários de esquerda não gostam da liberdade de expressão, os identitários de direita gostam ainda menos.

Temos que ser livres. Não nos podemos deixar calar pelos novos “chuis da linguagem”. Perante alguém que nos venha, injustamente, com os agora costumeiros «racista!, homofóbico!, machista!», respondamos-lhe logo no melhor vernáculo. Perante alguém que venha com o agora costumeiro «estou ofendido com o que dizes», respondamos-lhe com um «mete uma rolha!».

The haircut

Fotografia de Jonathan Borba


A woman came down the hill from her farm
with her two little children
to have her neighbor cut
her long, dazzling, strawberry blonde hair.
The center of things
was the round oaken kitchen table.
She sat on a stool
with a sheet up to her neck
while the two year old boy
nestled between her legs
and the baby girl slept
on a friend's shoulder.
The neighbor began to cut
a decade's growth of tresses,
passing the snips to her daughter
who laid them out on the morning paper.
The woman consulted her mirror
from time to time,
smiling with a mild terror.
When the neighbor was finished
the woman beamed with her new short haircut.
I feel like someone else, she said,
gathering up her children,
whereupon the parcel of severed hair
rose from the table
and followed them up the hill.
George Bogin





quinta-feira, 21 de novembro de 2019

A mulher da loja em frente

Fotografia de Victoria Strukovskaya

A mulher da loja em frente traz consigo
algo das antigas deusas. Das possuídas
sibilas. E, com seu olhar flamejante
senta-se num banco esconso, como

quem ordena o mundo: quinquilharia,
pedaços pintados de moluscos, lascas
envernizadas de crustáceos. Depois.
Bem... depois reforça o ódio que nos tem

com epigramas mal amanhados
num enegrecido papel de embrulho.
Reforça a perigosidade dos poetas
sempre a infectar gentes, ilhas, rotas

ancestrais. E que o bem houvera sim,
na ditadura dos generais, onde a ordem
fora ordem, sem abcessos a estorvar
o destino. Nem o jovem e belo rei,

Constantino, tão jovem e tão rei,
abraçara tal imprudência, quanto
mais este viver com laivos
de altivez e foros de demência.
Victor Oliveira Mateus


quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Fura-greves e adesivos*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 20 de Novembro de 2009



1. Há 40 anos, Coimbra fervia de agitação estudantil. A ditadura salazarosa, já muito apodrecida, servia-se da polícia política e da censura para se segurar no poder.

Em 17 de Abril de 1969, o então presidente da república, na altura dizia-se “a veneranda figura do chefe de estado”, foi a Coimbra inaugurar o departamento de Matemática. Alberto Martins, líder dos estudantes, pediu a palavra. Américo Tomás não lha deu e terminou a cerimónia de forma abrupta.

Seguiu-se repressão e prisões. Os estudantes resistiram de todas as maneiras. Fizeram greves maciças às aulas que culminaram numa greve aos exames.

Fazer greve aos exames acarretava um grande custo pessoal: para além do atraso no curso significava também poder ser enviado para as piores frentes da guerra em África.

Não é difícil perceber a angústia interior que aqueles jovens viveram e a pressão familiar a que eles estiveram sujeitos. Mesmo assim, foram poucos os que foram fazer exames. Foram poucos os fura-greves. E os fura-greves ficaram muito mal vistos.

Muitas décadas depois do que aconteceu em Coimbra, em cavaqueira de amigos, mal foi referido o nome de uma determinada personalidade, ouvi logo vernáculo do grosso: “essa besta foi um dos que furou a greve aos exames…”


2. Embora não com o dramatismo dos estudantes de há 40 anos, a avaliação engendrada por Maria de Lurdes Rodrigues colocou os professores também perante dilemas éticos: 

“Entrego os objectivos, não entrego os objectivos?” 

“Peço aulas assistidas, não peço aulas assistidas?»

Todo o professor que quis aproveitar o campo livre para obter um “excelente” na avaliação não ficou bem no retrato.

Vai-se ouvir muitas vezes no futuro:

“essa besta foi um dos adesivos da marilú…”

Rock is dead


Dortmund, fotografia de Robert Anasch


(...)
Now listen, listen, listen, listen, listen
Now I dont want to hear no talk about no revolution
And I swear to God I dont want to hear
No talk about no constitution
And in my frame of mind I am in no mood for
No talk about no cremation
The only thing Im interested in
I wanna have a good time
I dont wanna hear no talk about no riots
No demonstrations, no calcitritions, no impablermations
Theres only one thing I want to see
Thats some dancin, were gonna have some fun
Were gonna have a good time, lets roll
(...)
Jim Morrison




terça-feira, 19 de novembro de 2019

José Mário Branco, 25.5.1942 — 18.11.2019

Se tivesse que escolher uma música de JMB era esta:


Se tivesse que escolher uma homenagem que JMB adoraria, era esta:


ETHNO Portugal Orquestra 2018 - "Nevoeiro" de José Mário Branco e "Baile das Oliveiras" de Roncos do Diabo

Gravado em Castelo de Vide, Portalegre, a 28 de Julho de 2018
Realização e Som: Tiago Pereira e Ana Beatriz de Jesus

segunda-feira, 18 de novembro de 2019

domingo, 17 de novembro de 2019

Homeostasia




É impossível encontrar as palavras quando em retirada.
Esvaziamos os significados quando aceitamos o movimento.
Talvez esse seja o segredo da dança,
Recuperamos o equilíbrio no momento em que abdicamos dele.
Denise Pereira



sábado, 16 de novembro de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#244)

“This non-materialistic lounge suite.”

The poet of ignorance




Perhaps the earth is floating,
I do not know.
Perhaps the stars are little paper cutups
made by some giant scissors,
I do not know.
Perhaps the moon is a frozen tear,
I do not know.
Perhaps God is only a deep voice,
heard by the deaf,
I do not know.

Perhaps I am no one.
True, I have a body
and I cannot escape from it.
I would like to fly out of my head,
but that is out of the question.
It is written on the tablet of destiny
that I am stuck here in this human form.
That being the case
I would like to call attention to my problem.

There is an animal inside me,
clutching fast to my heart,
a huge crab.
The doctors of Boston
have thrown up their hands.
They have tried scalpels,
needles, poison gases and the like.
The crab remains.
It is a great weight.
I try to forget it, go about my business,

cook the broccoli, open and shut books,
brush my teeth and tie my shoes.
I have tried prayer
but as I pray the crab grips harder
and the pain enlarges.

I had a dream once,
perhaps it was a dream,
that the crab was my ignorance of God.
But who am I to believe in dreams?
Anne Sexton



sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Sindicatos dos tempos modernos*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Charles Chaplin interpretou pela última vez a sua personagem de chapéu de coco, bengala e andar à pinguim, no filme “Tempos modernos”, de 1936. Nele, Charlot faz de operário fabril a fazer gestos repetitivos numa linha de montagem implacável.

Oitenta anos depois, nos actuais “tempos modernos”, muito trabalho penoso foi substituído por maquinaria, mas ainda há muita gente extenuada e cheia de tendinites nas estufas da agricultura intensiva, ao volante de camiões com ou sem matérias perigosas, em call-centers, nas fábricas, nas caixas dos hipermercados, nas obras, nas cozinhas dos restaurantes, nas limpezas.

2. Nos anos da primeira geringonça, as únicas lutas laborais com impacto foram impulsionadas por sindicatos independentes e críticos da CGTP e UGT.

A formação de um novo sindicato de professores, o STOP, obrigou Mário Nogueira a deixar-se de frescuras com o ministro da educação. As novas formas de financiamento das greves dos enfermeiros e a eficácia dos motoristas de matérias perigosas protagonizaram conflitos muito duros, diferentes do ramerrame dos sindicatos tradicionais.

A resposta do poder, como de costume, foi à bruta: auditorias manhosas à Ordem dos Enfermeiros, tropas a guiar camiões privados, ameaças de extinção do sindicato de motoristas, campanhas negras nos media e nas redes sociais...
Editada a partir de uma fotografia de Tatiana Costa e outra de Rui Gaudêncio
... contra a bastonária dos enfermeiros e o advogado do sindicato dos motoristas.

3. E agora, nos anos da segunda geringonça, o que é que vai ser feito pelos políticos para tentarem neutralizar estes sindicalismos modernos mais combativos?

A direita, claro, quer uma nova lei que restrinja o direito à greve. O CDS já manifestou essa vontade e Rui Rio não fechou a porta a essa hipótese. Mas a esquerda, apesar de estar com alguns tiques autoritários, vai ter vergonha de fazer isso. Vai optar por medidas legislativas e burocráticas que tornem mais difícil e labiríntica a criação e a vida destes sindicatos independentes.

Uprooting

Fotografia de Pablo Heimplatz



My love, while we talked
They removed the roof. Then
They started on the walls,
Panes of glass uprooting
From timber, like teeth.
But you spoke calmly on,
Your example of courtesy
Compelling me to reply.
When we reached the last
Syllable, nearly accepting
Our positions, I saw that
The floorboards were gone:
It was clay we stood upon.
John Montague


quinta-feira, 14 de novembro de 2019

Janela fechada

Fotografia de Mario Azzi


Não entendo nada desta janela fechada
que me aperta a culpa
Doer não dói mais,
nem sangra —
Consegui o que queria:
ser despedida, ficar perdida
falida & alone
olhando o pale da Comedia.
Sei que me chamam Bel
Mel de paixão
sugado da boca louca
de onde sangra o coração
e chora a hora
do leito vazio
da falta de peito
do jeito do beijo
fácil, difícil, subtil.

A verdade é que vivo a mil
sonhando a morte em azul-anil.
Isabel Câmara



quarta-feira, 13 de novembro de 2019

Os partidos têm opinião?*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 13 de Novembro de 2009

1. Isabel Alçada, a nova Ministra da Educação, vai tentar compor o mal que o marilurdismo causou nas escolas. Está a começar pelo mais urgente e menos difícil - o estatuto e a avaliação dos professores.

Depois virá o tempo para dar atenção ao mais árduo e importante nas nossas escolas que não são os professores mas sim os alunos e os conteúdos que eles têm que aprender. Repito porque sei que isto irrita o eduquês que manda na “educação”: o essencial são os alunos e os conteúdos que eles têm que aprender.

Vai ser necessária uma terapia rigorosa. O resultado é muito incerto. Fizeram-se muitas asneiras. Nas escolas, como muito bem sintetizou António Barreto no Público, o marilurdismo causou um “desastre ecológico”.

Os quadros políticos do PS ligados à educação podiam e deviam ter tido mais coluna vertebral. Deviam ter pensado mais no interesse público e menos nas suas carreiras.

Da parte que me toca, estou de consciência tranquila.

Desejo boa sorte a Isabel Alçada.


2. Em 1992, Karl Popper deu uma conferência em Lisboa a convite de Mário Soares, onde defendeu a personalização dos votos.

Cito Popper: “E se as opiniões dos homens merecem sempre o maior respeito, os partidos políticos, enquanto instrumentos típicos de promoção pessoal e de poder, com todas as possibilidades de intriga que isso implica, não podem de forma alguma ser identificados com opiniões.”

Depois do que aconteceu nos últimos 17 anos, talvez agora se perceba melhor esta tese de Popper. De facto, as pessoas têm opiniões, os partidos não.

As opiniões de Maria de Lurdes Rodrigues sobre a escola eram uma desgraça mas tiveram muita gente atrás delas. Oxalá essa mesma gente vá agora atrás de opiniões boas.

Oxalá, agora, haja ideias boas.

De novo o silêncio

Fotografia de Boba Jovanovic


O silêncio é como se fosse água.
Daquela água pura da montanha
que se bebe directamente
pelo coração.
Jorge de Sousa Braga


terça-feira, 12 de novembro de 2019

A chuva

Fotografia de Matteo Catanese


Está de súbito o dia clareado
Porque já cai a chuva minuciosa.
Cai ou caiu. A chuva é uma coisa
Que sem dúvida ocorre no passado.

Quem a ouve cair vê recuperado
Esse tempo em que a sorte venturosa
Lhe revelou uma flor chamada rosa
E a curiosa cor do encarnado.

Esta chuva que vai cegando os vidros
Alegrará em arredores perdidos
As uvas de uma parra em certo horto

Ou pátio já esquecido. Esta molhada
Tarde me traz a voz, voz desejada
Do meu pai que regressa e não está morto.
Jorge Luís Borges 
Trad.: Fernando Pinto do Amaral



segunda-feira, 11 de novembro de 2019

The French Brexit song

More details here


Oh England, you broke our heart
When you first voted to depart
But before you off and pack, one thing
We want our language back

Oh England, you went your way
But for this exit you will pay
Without French letters you’ll be lost
It’s time for you to count la cost

No you can’t have joie de vivre without le français
You’ll lose yourself without our cul-de-sac
There is no fizz without champagne
Though you can gladly keep your rain
We’re taking all our French words back

No, you cannot drive a car without a chauffeur
There’s no déjà-vu without déjà vu
What’s sex without its lingerie?
Piers Morgan without his toupée
We really feel miserable for you

Oh England, you’re such a fool
Did they teach you nothing at school
With politics you’ve been risqué
For Brexit is just an entrée

Yes England, this is the start
Of picking allies à la carte
Soon the whole world will turn on you
It isn’t nice, but it is true

Cause you cannot rendez-vous without le français
So many things that you will sorely miss
Like etiquette and ambulance
Without us you don’t stand a chance
You’ll die without our life saving French kiss

Key change!

No you can’t have marriage without fiancé
Without us your soufflé will never rise
Don’t bother to RSVP
We’ve buggered off for après ski
You didn’t get an invite, quelle surprise

Your cheeseboard will be blue without
Roquefort and camembert
When you can’t find the menu
You won't, because it isn’t there
When you smell of faint regret
Instead of fine eau de cologne
You only have yourselves to blame
For dining all alone

No you can’t eat à la mode without le français
You’ll have to scoff it all off one big plate
Alas there will be no encore
Now that you’ve bolted your back door
For a referendum you will have to wait

And if you want our bel esprit
I’m sorry darling, c’est la vie
You should have voted stay, it is too late
Yes, you should have voted stay it is too late
Sarah-Louise Young and Maxim Melton


domingo, 10 de novembro de 2019

Hotspot




Sinto-me basáltica.
Concreta, no brilho escuro das profundezas afectivas.
As vísceras cristalizam,
num processo de compressão das memórias.
Movimentam-se em gestos compactos,
activando a justa melodia de uma voz primária,
instrumento de afinação absoluta.

Passo as mãos a seco pela topografia do texto.
É interrompido e fosco. Pungente como um bom vinho.

Não há nada tão revelador como a intensidade da luz,
batendo certeira no vidro de uma janela imaginada.
Todas as tardes são ecos desses diálogos originais.
As palavras tropeçando vertiginosamente na vergonha partilhada,
convertem-se num excesso de saliva difícil de engolir e percutir.

Negociamos um acordo, argumentado com diferentes graus de silêncio.
A ausência de palavras,
não nos liberta da análise inútil das nuances e significados.
Planta-se segura no ventre,
transformando a elasticidade dos tubos digestivos em ímpeto tectónico.

Nasce assim uma história que inverte a sequência natural do processo narrativo.
A distância aumenta durante o ritual de aproximação dos personagens.
A partilha torna-se inversamente proporcional à intimidade.

Procuro conforto na geometria,
nas leis fundamentais da física,
no borbulhar quente e fecundo da geologia.
Calo os psicanalistas e as suas cantigas hipnóticas de adoração à força centrípeta.

Não há nada de errado com a geografia protetora das ilhas.

Já me deitei outrora, em atitude esperançosa,
caindo sôfrega na sua barriga áspera,
tendo acordado saciada, coberta da magma e frutos doces,
dádivas que incham carinhosamente o estômago,
maciando os cabelos da criança que responde pelo nosso nome.
Denise Pereira