terça-feira, 30 de abril de 2019

segunda-feira, 29 de abril de 2019

Cançoneta para o senhor Cristóvão Colombo

Fotografia de Daniele Levis Pelusi



Genovês ou moicano
a nacionalidade que se foda
puseste de pé um ovo pelo rabo
e já agora moralmente espero
que te enganes de novo
João Rios


domingo, 28 de abril de 2019

A regra do jogo


Adivinham-se tempos difíceis:
a obsessão apoderou-se das tribos;
uma vírgula pode ser um crime,
a ameaça esconde-se numa frase incompleta.
Os jornais encheram-se de notícias peregrinas,
os editoriais ponderam. Murmura-se
nas fileiras, a especulação prospera.
Com um salário que é como mau tecido,
depois da primeira lavagem, o funcionário público
poupa na fruta, no tabaco, no queijo. Amanhã,
de comboio, a História enfrentará o seu destino,
ou, pelo menos, uma cópia que levará tempo
(medido em lustros) a rasurar.
José Alberto Oliveira


sábado, 27 de abril de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#234)

A galinha que dança


Antes do princípio

Daqui

Este é o traidor, o filho
os seus puros olhos param
debaixo da cabeça,
em silêncio percorrem a Morte,

o passado, as palavras omitidas.
Só aquele através de cujo horror
a Literatura escrever
se tornam faladores.

Aqui está a calúnia, o silêncio,
aquilo que não tem nada para dizer,
eu morro debaixo de isto e de tudo
e tudo isto é sabido para mim.
Manuel António Pina


sexta-feira, 26 de abril de 2019

A paisagem*

* Hoje no Jornal do Centro


1. No último Olho de Gato, descrevi que a nossa relação com a internet agora é, como se diz no Facebook, complicada. Isso está a mudar-nos pessoal e colectivamente.

A esperança acendida com a primavera árabe, à excepção da Tunísia, virou pesadelo. As novas formas de participação democrática online ou falharam ou ficaram-se pelos orçamentos participativos da treta com que se entretêm os nossos autarcas e os jotinhas.

Este desencanto das pessoas é uma alegria para os estados. Os governos sempre quiseram controlar a internet e agora, perante o faroeste em que ela se tornou, aproveitam.

No domingo de Páscoa, logo depois dos atentados no Sri Lanka, o governo desligou as redes sociais. Foi só mais um episódio de uma tendência que vai aumentar.


2. Portugal é Lisboa, o resto é paisagem. Todos os governos sem excepção têm sido centralistas, mas o actual abusa.

No dia 1 de Setembro, estava ainda a ser cozinhado o orçamento de estado nos bastidores, já Fernando Medina anunciava 60 milhões de euros para passes fofinhos para os alfacinhas. Depois, perante o clamor do resto do país, o governo lá arranjou mais umas dezenas de milhões de euros para diluir na paisagem.


Posto Galp, Praça Carlos Lopes, Viseu, 17 de Abril
Fotografia Olho de Gato
Agora, no dia 16 de Abril, como havia o risco de a greve dos motoristas secar os postos de combustível, a Resolução do Conselho de Ministros n.º 69-A/2019 prescreveu os seguintes serviços mínimos: “abastecimento de combustíveis aos postos de abastecimento da grande Lisboa e do grande Porto, tendo por referência 40% das operações asseguradas em dias em que não haja greve.”

Foi mesmo em letra de lei. Para o governo, a paisagem que ande a pé. Ou de burro.

Há aqui um padrão que o comportamentalista Ivan Petrovich Pavlov descreveu em laboratório em 1920: quem tem o verdadeiro poder na geringonça, como poliu durante muitos anos as cadeiras da câmara de Lisboa, como casou entre si, como se foi empregando mutuamente, tem um reflexo condicionado — saliva sempre primeiro por Lisboa.

Anda comigo ver os aviões

Fotografia de Anastasia Dulgier

Anda comigo ver os aviões
Levantar voo
A rasgar as nuvens
Rasgar o céu.

Anda comigo ao porto de Leixões
Ver os navios
A levantar ferro
Rasgar o mar.

Um dia eu ganho a lotaria
Ou faço uma magia
E que eu morra aqui.
Mulher tu sabes o quanto eu te amo
quanto eu gosto de ti.

Nem que eu morra aqui
Se um dia não te levo à América
Nem que eu leve a América a-té ti
Anda comigo ver os automóveis
A avenida
A rasgar as curvas
Queimar pneus.

Um dia vamos ver os foguetões levantar voo
A rasgar as nuvens
Rasgar o céu.
Um dia eu ganho o totobola
Ou pego na pistola
E que eu morra aqui.

Mulher tu sabes o quanto eu te amo
Quanto eu gosto de ti.
E que eu morra aqui
Se um dia não te levo à lua
Nem que eu roube a lua só p'ra ti.

Um dia eu vou jogar à bola
Ou ver nesta viola
Nem que eu morra aqui.
Mulher tu sabes o quanto eu... te amo
quanto eu gosto de ti.
E que eu morra aqui
Se um dia não te levo à América
Nem que eu leve a América a-té ti.
Miguel Araújo


quinta-feira, 25 de abril de 2019

Se alguém se engana com o seu ar sisudo

Fotografia de Eduardo Gageiro



Os vampiros

No céu cinzento sob o astro mudo
Batendo as asas pela noite calada
Vêm em bandos com pés de veludo
Chupar o sangue fresco da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhes franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada (2x)

A toda a parte chegam os vampiros
Poisam nos prédios poisam nas calçadas
Trazem no ventre despojos antigos
Mas nada os prende às vidas acabadas

São os mordomos do universo todo
Senhores à força mandadores sem lei
Enchem as tulhas bebem vinho novo
Dançam a ronda no pinhal do rei

Eles comem tudo, eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada (2x)

No chão do medo tombam os vencidos
Ouvem-se os gritos na noite abafada
Jazem nos fossos vítimas dum credo
E não se esgota o sangue da manada

Se alguém se engana com seu ar sisudo
E lhe franqueia as portas à chegada
Eles comem tudo eles comem tudo
Eles comem tudo e não deixam nada (2x)
José Afonso


















quarta-feira, 24 de abril de 2019

Bermudas*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 24 de Abril de 2009 


Daqui



1. A eventual recandidatura de Durão Barroso à presidência da comissão europeia está a dividir o PS e a animar as europeias.
Recordemos três factos:

Facto um: no dia 16 de Março de 2003, George W. Bush, Tony Blair e José María Aznar reuniram-se nos Açores a prepararem a guerra do Iraque. Foi uma cimeira contra o direito internacional, contra a verdade e contra a opinião pública mundial. A servir os cafés, naquela cimeira celerada, José Manuel Durão Barroso.

Facto dois: nas eleições europeias de 2004 os portugueses mostraram a Durão Barroso um severo cartão amarelo (o pior resultado de sempre da direita portuguesa). Poucas semanas depois, Durão Barroso apareceu indigitado para presidente da comissão europeia, deixando o seu partido e o país entregues a Santana Lopes, o “menino guerreiro”.

Facto três: Nos últimos 15 anos, os anos de Santer–Prodi–Barroso, a “Europa” foi capturada por uma elite burocrática arrogante, que vive virada para o seu umbigo, e que despreza os cidadãos europeus. Estes, claro, pagam na mesma moeda aos eurocratas. A “Europa” está cada vez mais distante dos problemas das pessoas.
Durão Barroso fez um mau trabalho. Não defendo a sua recondução.

2. Uma curiosidade:

O El Pais revelou que a cimeira da guerra do Iraque inicialmente estava prevista para as Bermudas mas Aznar disse a Bush: "el solo nombre de esas islas va asociado a una prenda de vestir que no es precisamente la más adecuada para la gravedad del momento en que nos encontramos".

A razão era poderosa: o encontro não podia ser nas Bermudas, pois podiam surgir associações malévolas a umas bermudas.

Foi por isso que a cimeira se fez nos Açores e Barroso apareceu no retrato. Por causa de umas calças arregaçadas…

Assim respira o tempo

Fotografia de Mohammad Metri


a rectidão da água; o crescimento
das avenidas, ao anoitecer, sob a nua
vibração dos faróis;

o laço, mesmo, das portas só
entreabertas, onde a luz
silenciosa se demora;

são memórias, decerto, de um anterior
esquecimento, uma inocente
fadiga das coisas,

como os corpos calados, abandonados
na véspera da guerra, o teu
jeito para

o desalinho branco das palavras,
altas as
asas de nuvens no clarão do céu

em vão rigor abrindo
o destinado enigma: assim
desconhecer-te cada dia mais

ausente de recados e colheitas,
em assustado bosque, em sombra
clareira,

ao risco dos rios frívolos descendo
seixos polidos, desinscritos,
imóveis movendo

a luz do dia;
a margem recortada, aonde vivem
ausentes e seguros, os luminosos

animais do inverno;
assim são na verdade os muros claros;
assim respira o tempo, a terra intensa.
António Franco Alexandre


terça-feira, 23 de abril de 2019

Com um polvo que obriga a quatro horas de cozedura

Fotografia de Milada Vigerova


com um polvo que obriga a quatro horas de cozedura (o peixeiro não o bateu
convenientemente), muda-se uma refeição completamente: tenho a receita de uma maionese
provençal, mas contaminada com alho):
quanto às manchas simétricas dos frutos
desaparecem como se nada fosse, quase, realmente, se os esfrego com força,
apenas, com uma luva de espuma macia, molhada em água quente, e se Sylvie me passa a ferro
as calças para as secar:
sei bem que estou muito apresentável, eu, mesmo se
me apresento em slip de algodão: (mas falemos agora um pouco de Gramsci, que é melhor,
e da revolução cultural italiana):
(e cada palavra que diremos será gravada em fita):
Edoardo Sanguinetti
Trad.: Egito Gonçalves


domingo, 21 de abril de 2019

A impossível sarça

Fotografia de Julian Mora

Que mais fazer
se as palavras queimam
e tanta coisa em fumo em tanta coisa
sarças ardentes do avesso
o fogo em labaredas que mais
fazer

Que mais fazer
se nem a água tantas vezes
descrita abençoada
mas demais e cristã
também castigo

Mas como nem castigo
nem as nuvens de fumo na sarça
do avesso
se tudo no avesso
das palavras

que não chegam
– mas cegam
Ana Luísa Amaral


sábado, 20 de abril de 2019

Cantiga do pobrediabismo de café

Fotografia de Jocelyn Wu


Intelectuais reconhecidos pelo notário
poetas muitos reconhecidos pela família
romancistas traduzidos lá fora cá pra dentro
o dr. bastante burro que faz mal às musas
o escultor que tacteia a senhora escultural
o ensaísta amigo das poetisas lusas
o crítico ficheiral arrumado responsável
irresponsável vespertinamente às quintas-feiras
a viúva abundante devoradora de miúdas
pequenas com muito jeito pró teatro e tudo
mancebos beija aqui beija ali beija acolá e nada
o tatebitatismo do senhor que foi ministro
o fotógrafo de arte que tem dentes postiços
a postiça menina que se atira à dentadura
o profissional contador de anedotas
e a anedota que se conta da esposa
a antiga casta susana entre os velhos
os velhinhos entre a vida e a morte
os artistas suburbanos da amadora
antologistas do verso erótico dos amigos
o declamador nortenho de pronúncia ainda lá
três inventores e meio da filosofia nacional
muitos pintores que chateiam as paredes
muitos senhores que teimam tinta e papel

e se houvesse justiça tinham pena capital
Mendes de Carvalho


"And Now For Something Completely Different" (#233)

Damn bitch!

sexta-feira, 19 de abril de 2019

A lua-de-mel acabou*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Há uns dias, um amigo do Facebook escreveu um post melancólico intitulado “Polícia de Costumes” onde confessou que não ia repetir uma publicação de 2012 de um cartoon com “uma fantasia sexual comum entre homens e mulheres”. É que, há sete anos, aquela brincadeira teve muitos likes e “meia dúzia de comentários” bem-humorados, mas, se a republicasse agora, ia ter que perder tempo com as “cabeças púdicas e policiais que andam por aí a voar aos círculos”.

É verdade: em poucos anos ficámos assim, a medir o que se pode dizer e o que não se pode dizer. As nossas sociedades estão mais crispadas, mais sectárias, mais puritanas, e o primeiro alvo dessa fúria intolerante é a liberdade de expressão em geral e o humor em particular.

Imagem daqui
Não é por acaso que a maioria do tráfego de haters no FB do Jornal do Centro acontece nos comentários às peças da sua página de paródia, o Centro Leaks - Tintol & Traçadinho.

E essa censura não vem, como diz Nassim Nicholas Taleb, “do Estado em si” mas de “uma monocultura intelectual” imposta “por uma polícia do pensamento hiper-activa nos meios de comunicação social e na vida cultural.”

Eu tenho chamado aqui “chuis da linguagem” à malta dessa “polícia do pensamento”, sempre a ver “discursos de ódio” em tudo, sempre a censurar tudo, até o capuchinho vermelho. E essa repressão é feita nos dois mundos em que nós agora habitamos: o mundo real e o mundo virtual.

2. Há um texto de Jesse Weaver, intitulado “Uma teoria unificada de tudo o que está errado na internet”, que descreve muito bem o conflito entre esses dois mundos e a forma como o nosso cérebro actua num e no outro.

De facto, a nossa lua-de-mel com a internet acabou. O fascínio já lá vai. Agora é só problemas: fake-news, trolls, cyber-bullying, pop-ups chatos, viciação tecnológica e as malditas bolhas de filtro — os algoritmos que usam os históricos de navegação para darem às pessoas sempre coisas semelhantes, fechando-as nas suas certezas, até as tribalizar.

Höchster, mache deine Güte

Calvário, de Vasco Fernandes — Grão Vasco
(1530-1535)  

Höchster, mache deine Güte
Ferner alle Morgen neu.
So soll vor die Vatertreu
Auch ein dankbares Gemüte
Durch ein frommes Leben weisen,
Dass wir deine Kinder heißen.

Altíssimo, renova Tua bondade
A cada dia.
Assim, diante de Teu amor paternal,
A consciência agradecida
Mostrará, por meio de uma vida devota,
Que somos Teus filhos.


quinta-feira, 18 de abril de 2019

Busto renascentista



quem vê minha namorada vestida
nem de longe imagina o corpo que ela tem
sua barriga é a praça onde guerreiros se reconciliam
delicadamente seus seios narram façanhas inenarráveis
em versos como estes e quem
diria ser possuidora de tão belas omoplatas?

feliz de mim que frequento amiúde e quanto posso a buceta dela



quarta-feira, 17 de abril de 2019

A culpa

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 17 de Abril de 2009 



1. Está em exibição nos cinemas O Leitor, de Stephen Daldry. Este filme conta a história de Michael, um adolescente que conhece e ama com as hormonas aos saltos uma mulher com mais do dobro da sua idade. Essa mulher é Hanna, interpretada por Kate Winslet (merecidíssimo óscar de melhor actriz). É uma mulher enigmática que se relaciona com Michael, que o quer, fazendo parte desse querer ouvir a voz dele horas e horas a ler-lhe livros. Daí o título deste excelente filme – O Leitor.


Um amor de verão, um amor de uma vida.

Hanna tinha sido guarda num campo de concentração e é levada a tribunal. Centenas de prisioneiros tinham morrido fechados num lugar em chamas e Hanna assume essa culpa. Disse ela ao tribunal: “se as portas fossem abertas, dava-se o caos e os prisioneiros fugiam”. Ao fim e ao cabo, foi esse baixar de braços perante regulamentos e leis iníquas que oleou a máquina nazi.

O Leitor trata também da culpa de Michael que calou informação importante para o julgamento e para a sorte de Hanna.

Essa culpa individual e colectiva não é um exclusivo alemão, mas a Alemanha pagou-a bem caro, com o país retalhado durante décadas, e feridas que demoram a cicatrizar.

Como parte desse processo de exorcização da culpa, foram feitos na Alemanha milhares de filmes, séries de televisão e romances sobre Hitler e o Holocausto.

2. Portugal também tem duas páginas muito negras na sua história mas, estranhamente, não há grandes narrativas sobre a nossa culpa quer durante a inquisição quer durante o salazarismo.

Quanto a Salazar, o que tem aparecido são histórias que glamourizam o ditador, tornando-o uma espécie de arrasa-corações de botas, com direito a Soraia Chaves e tudo.

A supermarket in California

Fotografia de Jordan Madrid


What thoughts I have of you tonight, Walt Whitman, for I walked down the
streets under the trees with a headache self-conscious looking at the full moon.

In my hungry fatigue, and shopping for images, I went into the neon fruit
supermarket, dreaming of your enumerations!
What peaches and what penumbras! Whole families shopping at night! Aisles
full of husbands! Wives in the avocados, babies in the tomatoes! --- and you,
Garcia Lorca, what were you doing down by the watermelons?
I saw you, Walt Whitman, childless, lonely old grubber, poking among the
meats in the refrigerator and eyeing the grocery boys.
I heard you asking questions of each: Who killed the pork chops? What price
bananas? Are you my Angel?
I wandered in and out of the brilliant stacks of cans following you, and
followed in my imagination by the store detective.
We strode down the open corridors together in our solitary fancy tasting
artichokes, possessing every frozen delicacy, and never passing the cashier.
Where are we going, Walt Whitman? The doors close in an hour. Which way does
your beard point tonight?
(I touch your book and dream of our odyssey in the supermarket and feel
absurd.)
Will we walk all night through solitary streets? The trees add shade to
shade, lights out in the houses, we'll both be lonely.
Will we stroll dreaming of the lost America of love past blue automobiles in
driveways, home to our silent cottage?
Ah, dear father, graybeard, lonely old courage-teacher, what America did you
have when Charon quit poling his ferry and you got out on a smoking bank and
stood watching the boat disappear on the black waters of Lethe?
Allen Ginsberg


terça-feira, 16 de abril de 2019

Transístores

Basic Instinct (Instinto Fatal)
de Paul Verhoeven (1992) 


e estamos livres

inspiro o ar divino de sua boca
e o crime está consumado        hoc crimen est        ninguém vai fugir
como numa catástrofe onde todos
perecem
     sob deus que aprecia nossa humana
persistência

saias sopradas saltos estalam
sapatos com presilha no tornozelo
     um império de lindos tornozelos

seu momento amargo seus sentidos invadindo a bastilha enfim
14 juillet soprem as trombetas para a invasão;

não?

nos entretemos com uma conversa jogo-de-xadrez
enquanto você cruza e descruza as pernas trapaceando
para ver quem se perturba primeiro

madrugada
onde a trapaça deixou suas saias?
talvez na tv e nunca mais precisaremos
de velhos transístores: sempre indecisos
como sinapses sob propaganda de bebida onde flutuam
uns idiotas suados que sorriem

sorria também,
você está sendo informado do despejo
de suas belas ideias sujas
Dirceu Villa

segunda-feira, 15 de abril de 2019

Coisas concretas

Fotografia de Noah Baslé



Estou sentada na cozinha, enquanto a massa ferve.

Amo as coisas concretas
descobrir seus nomes ao pequeno-almoço:
despertador, chuva na calçada, supermercado,
beijos na siesta,
um copo de vinho, amigos,
as pequenas mãos de meu filho,
pessoas na praça,
tu...

Elas produzem as mais doces e lânguidas cócegas,
como um banquete após o jejum.
Parece-me impossível afastar-me de tais coisas:
colam-se à minha caneta e parece que não consigo sacudi-las.

No entanto,
as coisas concretas não permitem atrasos,
e a massa já está pronta.
Assim é a vida.
Quando o semear do poema começava a germinar,
eis que o mundano vem intrometer-se.
E lá tenho eu que me levantar da mesa,
enquanto a sombra de um bilioso humor assenta.
Miren Agur Meabe
Trad.: Amaia Gabantxo



domingo, 14 de abril de 2019

Poesia e propaganda

Fotografia de Daniele Salutari



Hei-de mandar arrastar com muito orgulho,
pelo pequeno avião da propaganda
e no céu inocente de Lisboa,
um dos meus versos, um dos meus
mais sonoros e compridos versos:

E será um verso de amor...
Alexandre O'Neill


sábado, 13 de abril de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#232)

O profissional, o ladrão e o sacana


Calibre 24

Fotografia de Edu Lauton




O coração na boca, as pernas trémulas
e o cuzinho na mão, piso o batente.
Que nem moela, o meu vulnerável
à flor de mim exposto, isca de cães.
Não obstante,

acredito piamente no homem, sério!,
mas êta racinha à toa, ordinária!
Todo cuidado é pouco, nunca esqueço
das palavras no coldre e a língua no gatilho.
Waldo Motta


sexta-feira, 12 de abril de 2019

Não se sentiu...*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Há um mês, num texto intitulado “Quem não se sente...”, alertei aqui o presidente da câmara de Viseu que lhe ficava muito mal estar a dar gás ao coreógrafo Paulo Ribeiro depois de este ter abandonado, em 2016, por sua única e exclusiva vontade, a direcção do Teatro Viriato, e ter vindo agora, anos depois, alegar que foi vítima de um “despedimento ilícito” e tentar sacar, em tribunal, 50 mil euros àquela entidade municipal.

Como é evidente, um bom líder “sente-se” e, por isso, põe-se ao lado do que é seu e está a ser atacado, não se põe ao lado do atacante.

O facto é que António Almeida Henriques, mesmo depois de avisado, “não se sentiu...” E fez pior: para além de ter mantido a encomenda de um espectáculo ao litigante, ...
Fotografia de José Ricardo Ferreira
(editada)
... sentou-se ao seu lado numa conferência de imprensa no exacto teatro demandado em tribunal. E, apesar de ter ouvido o homem confirmar aos jornalistas que ia continuar a exigir os 50 mil euros, mesmo assim, afirmou que aquilo ia ser “um grande momento das comemorações dos 20 anos do Teatro Viriato”.

Este episódio, do princípio ao fim, foi tudo menos “um grande momento” do que quer que seja.

A esta deserção do autarca de Viseu na defesa do seu teatro municipal some-se o seu défice de rigor gestionário: acaba de saber-se que a câmara de Viseu, em 2018, teve um resultado líquido negativo de 3.573.148,97 euros.

2. As eleições europeias de Maio são feitas num quadro político inédito: a UE tem dois inimigos declarados, Trump e Putin.

O presidente norte-americano e o presidente russo estão a apoiar partidos soberanistas de direita e de esquerda, hostis à “Europa”. Enquanto Putin faz as coisas mais na sombra, Trump é menos subtil. O seu estratega, Steve Bannon, não sai do velho continente a organizar uma internacional de ultra-direita.

É um sinal dos tempos: os vários nacionalismos europeus sempre foram historicamente hostis aos norte-americanos e aos russos. Agora, são lacaios deles.

Ela tinha uma amiga

Fotografia de Eliott Reyna

Ela tinha uma amiga chamada Maria
Que era quem me atendia quando eu telefonava
Ela tinha uma amiga chamada Maria
A quem ela dizia para dizer que não estava

E quando eu insistia, e não desligava
Era sempre a Maria
Que me mentia e me consolava
E perguntava o que é que eu lhe queria

Ela tinha uma amiga chamada Maria
Que nunca sabia por onde ela andava
Ela tinha uma amiga chamada Maria
De quem se servia quando me enganava

E quando eu lá ia, e não a encontrava
Era sempre a Maria
Que me dizia que ela não tardava
Que me jurava que ela voltaria

Quando eu ia buscá-la, e a gente saía
Era sempre a Maria que nos animava
Quando eu a convidava, e ela não queria
Era com a Maria que eu sempre dançava

E quando eu inventava uma melodia
Era sempre a Maria
Que me aplaudia, e ela não ligava
E eu ficava a cantar prá a Maria

No cinema, no escuro, quando eu a beijava
Ela empalidecia, a Maria corava
Ela não me ligava e adormecia
E era com a Maria
Que eu conversava
E que eu ficava quase até ser dia

Ela tinha uma amiga chamada Maria
A quem ela dizia p’ra dizer que não estava
Até que outro dia ela me telefonou
E eu disse: Maria...
E eu disse: Maria!
E eu disse: “Maria, vai dizer que eu não estou!”
Letra: Manuela de Freitas
Música: José Mário Branco







quinta-feira, 11 de abril de 2019

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Gê Dois*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 10 de Abril de 2009 


1. A última cimeira dos G20 serviu para se atirar uma montanha de dinheiro para cima da crise e para se perceber que Barack Obama consegue moderar o fogo que lavra na economia mundial mas não é capaz de o apagar.

E a Europa?

A Europa mostrou-se como de costume: umas bravatas de Sarkozy, umas gaffes de Berlusconi e uma irrelevância chamada Durão Barroso.

Valha-nos a sensatez de Angela Merkel que não vai em keynesianismos de 25ª hora e, ao menos, tem uma ideia na cabeça para esta tempestade: apostar na solidez do euro.

Este G20 foi o décor londrino para mais um capítulo do drama a dois entre os Estados Unidos e a China.



Obama e Hu Jintao prosseguiram o seu G2 particular que está no epicentro desta crise global. O maior devedor mundial e o seu maior credor necessitam ambos que o valor do dólar não caia. Pelo menos muito depressa.

2. Recebi um mail de Lisa A. Saleh, senhora de quem nunca tinha ouvido falar.

Ela apresenta-se como “uma viúva de idade que sofre de doença prolongada” que herdou do seu “último marido” 3,5 milhões de dólares e que “precisa de uma pessoa honesta e temente a Deus que possa usar os fundos no trabalho de Deus a ajudar os menos privilegiados”.

Lisa A. Saleh reserva 1,2 milhões de dólares “para meu uso pessoal” neste trabalho misericordioso.

Depois pede-me dados pessoais bastante intrusivos e está à espera da minha resposta para o e-mail: mrslisa52@yahoo.co.th.

Pode esperar sentada numa cadeira confortável pela minha resposta. Deixo o e-mail da senhora para alguém interessado…

3. Está na fase de acabamentos uma nova rotunda no centro de Viseu que merece um especial carinho.

É um círculo perfeito.

À volta, bordejando toda a circunferência, tremeluzem dezenas de “olhos de gato”.

Esta coluna agradece a homenagem.

Os maridos das outras

Fotografia de Mariya Georgieva


Toda a gente sabe que os homens são brutos
Que deixam camas por fazer
E coisas por dizer.
São muito pouco astutos, muito pouco astutos.
Toda a gente sabe que os homens são brutos.
Toda a gente sabe que os homens são feios
Deixam conversas por acabar
E roupa por apanhar.
E vêm com rodeios, vêm com rodeios.
Toda a gente sabe que os homens são feios.
(...)

terça-feira, 9 de abril de 2019

El presente

Fotografia de Dinesh Kumar Nanduri



Hoy todo lo que escriba será un plagio
del anónimo verso endecasílabo
que tu aliento derrama por mi espalda
para borrarme el nombre y la conciencia,
las edades, las culpas y los miedos,
el pasado evidente y el futuro
que no quiero soñar por si se rompe.

Sólo soy este instante adormecido
en el cálido abrazo del presente.
Ana Montojo


segunda-feira, 8 de abril de 2019

It's a new dawn

Fotografia de Jessica Felicio



It's a new dawn
It's a new day
It's a new life
For me
And I'm feeling good



domingo, 7 de abril de 2019

Sunday night in Santa Rosa

Fotografia de Conor Samuel


The carnival is over. The high tents,
the palaces of light, are folded flat
and trucked away. A three-time loser yanks
the Wheel of Fortune off the wall. Mice
pick through the garbage by the popcorn stand.
A drunken giant falls asleep beside
the juggler, and the Dog-Faced Boy sneaks off
to join the Serpent Lady for the night.
Wind sweeps ticket stubs along the walk.
The Dead Man loads his coffin on a truck.
Off in a trailer by the parking lot
the radio predicts tomorrow's weather
while a clown stares in a dressing mirror,
takes out a box, and peels away his face.
Dana Gioia


sábado, 6 de abril de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#231)

Anti-stress perfeito

La maldición

Fotografia de Aziz Acharki



Que te pierdas en un bosque.
Que tardes
muchas veces
muchos años
en dar con la salida.
Y que cuando logres escapar,
y me busques,
y no me encuentres,
comprendas al fin
que tú eras el amor,
y yo, el bosque.
Alfonso Brezmes