sexta-feira, 31 de maio de 2019

Europeias*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Com Fernando Ruas fora da lista do PSD, o único protagonista viseense com algum relevo nestas eleições foi João Azevedo.
O competente director do marketing socialista, com a ajuda do CEO António Costa, apesar de ter um produto mau para vender, lá conseguiu que o eleitorado o comprasse.

2. As sondagens estiveram globalmente bem. Conseguiram até rastrear o esvaziamento do PSD após o psicodrama dos professores. Se tivessem detectado o crescimento do PAN, tinham estado perfeitas.

3. Como aqui previsto, os resultados portugueses foram exactamente os mesmos de há cinco anos: foram eleitos dezassete deputados europeístas (PS, PSD, CDS e PAN) e quatro deputados eurocépticos (Bloco e PCP).

Os europeístas do PS vão continuar nos S&D que perderam 39 lugares; os do PSD e do CDS permanecerão no PPE que perdeu 36 lugares. O deputado europeísta do PAN vai enfileirar nos pujantes Verdes, que subiram de 50 para 69 lugares.

Os eurocépticos do Bloco e do PCP vão mesmizar-se na Esquerda Unitária, que murchou de 52 para 38 eurodeputados.

4. Quando há muita abstenção aparece sempre um coro grego a defender o voto obrigatório.

No início desta semana surgiu, até, uma petição pública intitulada “A ditadura da abstenção” (sic), que não acha “admissível que sob o pretexto da libertinagem” (sic), “o desinteresse, o comodismo falem mais alto que o cumprimento das obrigações eleitorais” (sic), e exige “medidas que acabem com o estado de impunidade que gozam atualmente os eleitores faltosos” (sic).

À hora a que escrevo estas linhas, este lixo autoritário já foi subscrito por 220 “anti-libertinos”.

5. Uma boa medida de combate à abstenção foi a novidade do voto antecipado que permitiu a uns milhares de eleitores votarem no domingo anterior, 19 de Maio.

Para eles não houve o tradicional sábado em que pára tudo e os media não podem falar “naquilo” que está na cabeça de toda a gente. Ficou ainda mais evidente quão absurdo é o chamado “dia de reflexão”.

O medo

Fotografia Olho de Gato



O medo vai ter tudo
pernas
ambulâncias
e o luxo blindado
de alguns automóveis
Vai ter olhos onde ninguém o veja
mãozinhas cautelosas
enredos quase inocentes
ouvidos não só nas paredes
mas também no chão
no teto
no murmúrio dos esgotos
e talvez até (cautela!)
ouvidos nos teus ouvidos

O medo vai ter tudo
fantasmas na ópera
sessões contínuas de espiritismo
milagres
cortejos
frases corajosas
meninas exemplares
seguras casas de penhor
maliciosas casas de passe
conferências várias
congressos muitos
ótimos empregos
poemas originais
e poemas como este
projetos altamente porcos
heróis
(o medo vai ter heróis!)
costureiras reais e irreais
operários
(assim assim)
escriturários
(muitos)
intelectuais
(o que se sabe)
a tua voz talvez
talvez a minha
com a certeza a deles

Vai ter capitais
países
suspeitas como toda a gente
muitíssimos amigos
beijos
namorados esverdeados
amantes silenciosos
ardentes
e angustiados

Ah o medo vai ter tudo
tudo
(Penso no que o medo vai ter
e tenho medo
que é justamente
o que o medo quer)

O medo vai ter tudo
quase tudo
e cada um por seu caminho
havemos todos de chegar
quase todos
a ratos Sim
a ratos
Alexandre O'Neill


quinta-feira, 30 de maio de 2019

O objecto

Daqui




Há que dizer-se das coisas
o somenos que elas são.

Se for um copo é um copo
se for um cão é um cão.
Mas quando o copo se parte
e quando o cão faz ão ão?
Então o copo é um caco
e um cão não passa dum cão.
Quatro cacos são um copo
quatro latidos um cão.
Mas se forem de vidraça
e logo forem janela?
Mas se forem de pirraça
e logo forem cadela?
E se o copo for rachado?
E se o cão não tiver dono?
Não é um copo é um gato
não é um cão é um chato
que nos interrompe o sono.
E se o chato não for chato
e apenas cão sem coleira?
E se o copo for de sopa?
Não é um copo é um prato
não é um cão é literato
que anda sem eira nem beira
e não ganha para a roupa.
E se o prato for de merda
e o literato de esquerda?
Parte-se o prato que é caco
mata-se o vate que é cão
e escreveremos então
parte prato sape gato
vai-te vate foge cão

Assim se chamam as coisas
pelos nomes que elas são.
Ary dos Santos


Ary declama o poema em casa de Amália Rodrigues, com a presença de Vinicius de Morais:

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Tempo*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 29 de Maio de 2009 


O tempo leva os corpos de novos para velhos.

O tempo põe musgo nas pedras e depois ele - o tempo - seca o musgo. Pode-se lutar contra o tempo mas ele acaba sempre por ganhar.

O tempo põe o ontem antes do hoje, e põe o hoje antes do amanhã. Depois de amanhã logo se há-de ver…

Só a imaginação dos homens consegue fugir a estas implacáveis leis e é capaz de colocar os relógios a andarem para trás. Vê-se isso em dois filmes recentes:

1. A história de “O Estranho Caso de Benjamin Button” é bem conhecida. Benjamin Button nasceu num corpo velho e fez a viagem da vida de trás para a frente.




Os anos tiraram-lhe a artrite e o reumatismo e deram-lhe vigor. Morreu com corpo de bebé, pequenino, consolado, ao colo do seu amor.

Foi a imaginação de F. Scott Fritzgerald que escreveu o conto “The Curious Case Of Benjamin Button”, nos anos de 1920, agora adaptado ao cinema por David Fincher.

2. Em “Uma Segunda Juventude”, o professor de linguística Dominic Matei, já com mais de 70 anos, sente-se incapaz de terminar a obra da sua vida sobre a origem da linguagem humana.

No dia em que se ia suicidar, foi atingido por um raio e acordou no hospital 30 anos mais novo e capaz de falar todas as línguas do mundo. Aquela faísca deu a Dominic uma nova vida para poder partilhar com a mulher da sua vida (também “abençoada” por um relâmpago).

Esta história, adaptada ao cinema por Francis Ford Coppola, saiu da imaginação de Mircea Eliade.

Este filósofo das religiões romeno esteve em Viseu, no Outono de 1941, a estudar os quadros de Grão Vasco. Será que foi ao olhar para aqueles quadros mágicos que Mircea Eliade foi atingido pela faísca da ideia para esta história extraordinária?

O corpo é um território

Fotografia de Annie Spratt



A palavra portuguesa bairro
tem origem controversa
alguns afirmam derivar de barra
do latim, que significa divisão
outros afirmam derivar de bárri
do árabe, que significa exterior

lugares cercados de terra pensam
em divisões e exteriores
o que vai para fora da terra
o que há para o lado de fora
como dividir espaços e se soltar
uma península agarrada a um continente
com uma palavra que torna todos os seus
pequenos pedaços em exteriores e divisões
soltos
e contraditórios

A aproximação entre os termos
barra e bárri deixa tudo ainda
mais terreno e confuso
se quando dividimos somos
o exterior ou a periferia
de nós mesmos dentro e fora
de uma terra que nos divide
cada vez mais em bairros

isso tudo em português
a língua que minha cabeça
divide e exterioriza aqui
mesmo na sua frente

Na língua tagalog o termo bairro
não existe a língua tagalog é
falada nas Filipinas e não usa
nada parecido com bairro para dissolver
seu território já dissolvido
nas Filipinas o termo usado para
denominar uma divisão administrativa
é Balangay
que significa um tipo de barco

lugares cercados de água pensam
em conexões e interiores
o que vai para dentro da terra
o que há para o lado de dentro
como construir pontes e se prender
um arquipélago solto como um continente
com uma palavra que torna todos os seus
pequenos fragmentos em interiores e conexões
visitados por barcos
e migrações

O termo balangay pode ser abreviado
brgy ou bgy pode ser usado como um pequeno
pedaço de terra que se sente solto e precisa
de um barco para se conectar com outra
parte pendente no mar um único termo
que significa barco e seu interior
carrega a unidade fragmentada
de um arquipélago que dividido
se torna um único

Um corpo é composto
por 60% de água poderia
ser ele um arquipélago
uma ilha, mas também
um continente com suas
partes divididas em bairros
ou então em balangays
mais da metade água
vencendo por pouco
a terra

Uma língua dissipada
em três continentes
Outra em 7107 ilhas
entre bairros ou balangays

Como um corpo em português
poderia nomear seus braços
que não bairros para sempre
invadidos?

Como um corpo em tagalog
poderia nomear seu corpo
que não bangalays para sempre
atravessados?
Estela Rosa



terça-feira, 28 de maio de 2019

Camp fire

Fotografia de Anjana Menon

after the fires come rain
& in the time between
one devastation & another
we delight in the normal
pleasures of a sky weeping
like an adolescent
in a multiplex parking lot—
how unusual for this place
without water to be now
drowned in it, people lift
their heads—tree farms
drinking at the gray tap.
it hasn’t rained since i moved
back & i know after this
comes the mudslides from
the ruined hillsides
& later—wild blooms
of near devastating beauty
which too will die & dry
into food for a new fire
even more terrifying than
the last—where our breathing
masks will laugh at our
efforts to respire here.
& still despite its portent
the rain this morning
is lovely. the sound of it
outside my window
does what it did as a child—
permissions us to stay in
or go out & be wetted along
with everyone who lives
here, who too exists in this
circumstance of weather,
who breathes in the wet
sidewalk. i watch the trees
drink & glisten like old
drag queens—read
an article from my father
on the hatred of jews
in europe. violence & fire
on the rise & on the horizon.
i read the article & then
read the article again
this time only for the names
of cities where statues are
cut from marble into
the shape of men so beautiful
& soft you can’t help
but fall in love. the stone
breathing & hot & when wet
almost dancing.
Sam Sax




segunda-feira, 27 de maio de 2019

Tea

Fotografia de Drew Coffman


I was rooting through tea-chest after tea-chest
as they drifted in along Key West

when I chanced on ‘Pythagoras in America’:
the book had fallen open at a book-mark

of tea; a tassel
of black watered silk from a Missal;

of a tea-bird’s black tail-feather.
All I have in the house is some left-over

squid cooked in its own ink
and this unfortunate cup of tea. Take it. Drink.
Paul Muldoon




domingo, 26 de maio de 2019

Nu integral

Fotografia de Alice Alinari



a pele cobre
a roupa tapa

tua pele de cobre
que a roupa destapa

nem a roupa já cobre
nem a pele se tapa
João Habitualmente


sábado, 25 de maio de 2019

Sábados 

Fotografia de Monika Kozub



Nunca percebi o funcionamento dos Sábados, havia Sol e musgo nas unhas, 
Uma merenda obrigatória que nos chamava com voz de queijo e marmelada 
E lá tínhamos que descer desde as fragas, isto antes dos mundos pixelizados 
E da fome a cuequinhas molhadas, podia ir-se ao pão, o carteiro não deixava 
Nenhum postal do Brasil ou da França, os sinos não tocavam e no quiosque 
A certeza de uma banda-desenhada depois da mesada de mais uma semana 
Acumulada a saliva engolida nos intervalos, a vontade de catequese nenhuma, 
Agora poucos Sábados são no fim-de-semana, continuo a não perceber 
A sua utilidade, mais um dia, para levar todos os irmãos passados ao esquecimento 
Num último, já não vejo televisão, os filmes tornaram-se numa imitação confortável de vida, 
Repetições atrás de repetições, engrossando os contornos dos padrões, 
Nada de novo, se não se derrete manteiga num sofá ressacado, 
Prepara-se um domingo sem deus, como todos os dias, 
Nunca percebi o funcionamento da vida no geral, não só dos Sábados, 
Cheguei aqui por acumular incertezas, agora não passo de um saco cheio, 
Um buraco negro massivo, procurando a alma em mais um copo vazio. 
João Bosco da Silva






sexta-feira, 24 de maio de 2019

Golpe publicitário*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Parecia tão certa a vitória dos trabalhistas nas eleições do último fim-de-semana na Austrália, que a agência de apostas Sportbets decidiu fazer um golpe publicitário: distribuiu, dois dias antes dos votos, prémios aos apostadores no resultado trombeteado por todas as sondagens.

Foi um caso flagrante de foguetes antes da festa. Mais uma vez, as elites urbanas e os media não perceberam a angústia dos “vencidos” da globalização. Estes, como vai sendo costume, calaram-se bem calados, fintaram as empresas de sondagens, e reelegeram um conservador “trumpista”.

A Sportbets, com aquela ejaculação eleitoral precoce, perdeu um milhão e trezentos mil dólares, mas o boss da empresa não perdeu o sentido de humor e informou que, além de ir cortar na qualidade do papel higiénico, ia também ligar o aquecimento só duas horas por dia nos escritórios.

Nada de especial, portanto: o homem, durante uns tempos, vai imitar os directores das escolas portuguesas. As escolas, por cá, mesmo com os professores maltratados pelo governo e os alunos de pés frios no inverno, lá vão sobrevivendo. A Sportbets também há-de sobreviver.

2. Para as europeias que aí vêm, as sondagens prevêem um cenário favorável a uma geringonça entre socialistas e liberais/macronistas, o que fez desenvolver, nas últimas semanas, uma amizade enorme entre o presidente francês e António Costa, especialista nessas coisas.

Fotografia de Philippe Wojazer (Reuters)
Editada a partir daqui
Por cá e no que interessa à UE, as sondagens prevêem o mesmo resultado de 2014: quatro deputados eurocépticos (do PCP e do bloco) e dezassete europeístas (dos outros partidos).

Se as projecções se confirmarem, o golpe publicitário de Costa contra os 9A 4M 2D dos professores parece ter dado um eurodeputado mais ao PS.

Mas lembremo-nos da Sportbets. Domingo se verá se Costa afastou, ou não, o pesadelo da “vitória poucochinha”. Domingo se verá se ele obtém, ou não, substancialmente mais do que os 31,4% que deram, há cinco anos, só oito eurodeputados a António José Seguro.

Sossegue coração



sossegue coração
ainda não é agora
a confusão prossegue
sonhos afora

calma calma
logo mais a gente goza
perto do osso
a carne é mais gostosa
Paulo Leminski


quinta-feira, 23 de maio de 2019

Daqui a uns tempos acho que vou arvoar

Fotografia de Ananda Guimarães

daqui a uns tempos acho que vou arvoar
através dos temas ar e fogo,
a mim já me foram contando umas histórias que me deixaram meio louco furioso:
um bando de bêbados entrou num velório e pôs-se à bofetada no morto,
e riram-se todos muitíssimo,
que lavre então a loucura, disse eu, e toda a gente se ria,
até a família,
tudo tão contra a criatura ali parada em tudo,
equânime, nenhuma, contudo, bem, talvez, quem sabe?
talvez se lhe devesse a honra de uma pergunta imóvel, uma nova inclinação de cabeça
— à bofetada! —
fiquei passado mas, pensando durante duas insónias seguidas,
pedi:
metam-me, mal comece a arvoar,
directo, roupas e tudo, no fogo,
e quem sabe?
talvez assim as mãos violentas se não atrevam por causa da abrasadura,
porém enquanto vim por aqui linhas abaixo:
ora, estou-me nas tintas:
pior que apanhar bofetadas depois de morto é apanhá-las vivo ainda,
e se me entram portas adentro!
¿Eli, Eli?
um tipo de oitentas está fodido,
morto ou vivo,
e os truques: não batam mais no velhinho,
olhem que eu chamo a polícia, etc. — já não faíscam nas abóbadas do mundo:
vou comprar uma pistola,
ou mato-os a eles ou mato-me a mim mesmo,
para resgatar uns poemas que tenho ali na gaveta,
nunca pensei viver tanto, e sempre e tanto
no meio de medos e pesadelos e poemas inacabados,
e sem ter lido todos os livros que, de intuição, teria lido e relido, e treslido num alumbramento,
e é pior que bofetadas, vivo ou morto,
pior que o mundo,
e o pior de tudo é mesmo não ter escrito o poema soberbo acerca do fim da inocência,
da aguda urgência do mal:
em todos os sítios de todos os dias pela idade fora como uma ferida,
arvoar para o nada de nada se faz favor, e muito, e o mais depressa impossível,
e com menos anos, mais nu, mais lavado de biografia e de estudos
da puta que os pariu
Herberto Helder


quarta-feira, 22 de maio de 2019

Direitos de autor*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em  22 de Maio de 2009


1. Alegre decidiu ficar no PS, o que é bom para Sócrates mas ainda melhor para Louçã. Um partido alegrista fazia muito mais estragos eleitorais ao Bloco que ao PS.

Foi importante Manuel Alegre ter lutado contra o autoritarismo e a insensatez marilurdista na educação. Teve a coragem que faltou ao rebanho de deputados do PS que também são professores.

2. Bob Geldof, em 12 de Maio, entrou em vídeo numa conferência de imprensa em Portugal. Foi uma incursão na política portuguesa que pode ser vista em www.gdaie.pt.

Em causa está o seguinte: o parlamento europeu aprovou a extensão dos direitos de autor das gravações sonoras de 50 para 70 anos (nos Estados Unidos a protecção é de 95 anos). Essa directiva precisa de ser ainda aprovada no conselho da UE e o ministro da cultura português era um dos seis a bloqueá-la.

Nesse notável vídeo, Bob Geldof lembra que falar da arte ou falar da alma de um país é a mesma coisa.

Por isso, o músico irlandês termina o vídeo a “bombardear” o ministro José António Pinto Ribeiro: “Portugal precisa de apoiar os seus artistas, precisa de apoiar a sua cultura e, se não o fizer, deve livrar-se do seu ministro da cultura.”

Não vai ser preciso. Cinco dias depois deste “raide irlandês”, o ministro mudou de ideias e Portugal, agora, já aceita o novo limite dos 70 anos.

Guillermo Cabrera Infante
3. Ouvi esta história numa entrevista a Miriam Gómez, viúva do premiado escritor cubano Guillermo Cabrera Infante.

A ditadura castrista perseguiu o mais que pôde o autor de “Três Tristes Tigres” mas declarou-o “património nacional de Cuba”.

Esse cinismo serviu para o poder cubano publicar sem autorização toda a sua obra e, ainda por cima, não pagar direitos de autor.

Levantou-s' a velida / Levantou-se a bela

Fotografia de Dexter Fernandes



Levantou-s' a velida
levantou-s' alva
e vai lavar camisas
eno alto:
vai-las lavar alva.

Levantou-s' a louçana
levantou-s' alva
e vai lavar delgadas
eno alto:
vai-las lavar alva.

(E) vai lavar camisas,
levantou-s' alva;
o vento lhas desvia
eno alto:
vai-las lavar alva.

E vai lavar delgadas,
levantou-s' alva;
o vento lhas levava
eno alto:
vai-las lavar alva.

O vento lh'as desvia;
levantou-s' alva;
meteu-s' alva en ira
eno alto:
vai-las lavar alva.

O vento lh'as levava;
levantou-s' alva;
meteu-s' alva en sanha
eno alto:
vai-las lavar alva.
D. Dinis

Levantou-se a bela;
rompe a alvorada;
vai lavar camisas
no rio:
lava-as, de alvorada.

Levantou-se a alva;
rompe a alvorada:
alvas roupas lava
no rio:
lava-as, de alvorada.

Vai lavar camisas;
rompe a alvorada;
o vento as desvia
no rio:
lava-as, de alvorada.

Alvas roupas lava;
rompe a alvorada;
o vento as levava
no rio:
lava-as, de alvorada.

O vento as desvia;
rompe a alvorada;
fica a alva em ira
no rio:
lava-as, de alvorada.

O vento as levava;
rompe a alvorada;
fica a alva irada
no rio:
lava-as, de alvorada.















terça-feira, 21 de maio de 2019

A aurora dissolve os monstros

Fotografia de Tom Grimbert

Ignoravam
que a beleza do homem é maior do que o homem

Viviam para pensar pensavam para se calarem
Viviam para morrer eram inúteis
Ocultavam a sua inocência na morte

Tinham posto em ordem
sob o nome de riqueza
sua miséria sua bem-amada

Mastigavam flores e sorrisos
Só encontravam um coração na ponta das carabinas

Não percebiam a injúria dos pobres
Dos pobres amanhã sem problemas

Sonhos sem sol tornavam-nos eternos
Mas para que a nuvem se transformasse em lama
Desciam deixavam de fazer frente ao céu

A noite do seu reino a sua morte a sua bela sombra miséria
Miséria para os outros

Esqueceremos estes inimigos indiferentes
Em breve uma multidão
Repetirá baixinho a chama clara
A chama para nós dois unicamente paciência
Para nós dois em toda a parte o beijo dos vivos.
Paul Éluard
Trad.: António Ramos Rosa 
e Luiza Neto Jorge


segunda-feira, 20 de maio de 2019

Porto de abrigo



Na padaria da esquina alguns
poucos clientes bebem meia

de leite e comem regueifa
quente com manteiga... Sais

para a rua ainda deserta
à espera de sentires nos lábios

o primeiro beijo da manhã.
Jorge Sousa Braga



domingo, 19 de maio de 2019

Concubinato

Fotografia de Alexandra Marcu


O abismo da saia afunilada
não nos deixa subir às árvores
e se quisermos visitar o nosso amante
é bom que alcemos a perna com desenvoltura
porque as escadas que dão acesso aos aviões
foram pensados por engenheiros
que pensavam em mulheres de minissaia
e nós não somos concubinas nenhumas

O abismo da stabat mater
não nos deixa comer laranjas à noite
e se quisermos dançar sem espaço para Jesus
é bom que seja com o nosso amante
afinal ele saberá que em princípio
não somos concubinas nenhumas

somos melancólicas não temos minissaias gozos
temos bolores e preguiça não subimos às árvores
estamos sempre potencialmente grávidas
choramos nos aviões nas escadas nos bailes
não somos concubinas nenhumas

temos milhões de abismos
para contar
Mafalda Sofia Gomes


sábado, 18 de maio de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#237)

1'12'' — os músicos metem picante à boca e mastigam-no


Ne me quitte pas

Fotografia de Kristina Tripkovic

Ne me quitte pas
Il faut oublier
Tout peut s'oublier
Qui s'enfuit déjà
Oublier le temps
Des malentendus et le temps perdu
À savoir comment
Oublier ces heures
Qui tuaient parfois à coups de pourquoi
Le cœur du bonheur
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Moi je t'offrirai
Des perles de pluie
Venues de pays où il ne pleut pas
Je creuserai la terre jusqu'après ma mort
Pour couvrir ton corps d'or et de lumière
Je ferai un domaine
Où l'amour sera roi, où l'amour sera loi
Où tu seras reine
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Je t'inventerai
Des mots insensés
Que tu comprendras
Je te parlerai
De ces amants-la
Qui ont vu deux fois leurs cœurs s'embraser
Je te raconterai l'histoire de ce roi mort
De n'avoir pas pu te rencontrer
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
On a vu souvent
Rejaillir le feu
D'un ancien volcan
Qu'on croyait trop vieux
Il est, paraît-il
Des terres brûlées
Donnant plus de blé
Qu'un meilleur avril
Et quand vient le soir
Pour qu'un ciel flamboie
Le rouge et le noir ne s'épousent-ils pas?
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas

Ne me quitte pas
Je ne vais plus pleurer
Je ne vais plus parler
Je me cacherai là
À te regarder danser et sourire et
À t'écouter chanter et puis rire
Laisse-moi devenir l'ombre de ton ombre
L'ombre de ta main
L'ombre de ton chien
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Ne me quitte pas
Jacques Roman Brel











sexta-feira, 17 de maio de 2019

Falsificar o passado*

* Hoje no Jornal do Centro

Não há país europeu em que a memória histórica cause tanta controvérsia como na Polónia, onde políticos e “académicos” estão sempre a reescrever o passado para obterem ganhos no presente.

Christian Davies, na última edição da London Review of Books, conta uma dessas querelas, num texto intitulado “Debaixo da linha de comboio”.

Davies começa por descrever uma cerimónia na capital polaca, em Outubro de 2017, em que, na presença de autoridades civis, militares e religiosas, foi descerrada uma placa que dizia: “Em memória dos 200.000 polacos assassinados em Varsóvia no campo de morte alemão de KL Warschau”.

Daqui
Nunca se tinha avançado com uma cifra de mortes deste tamanho, até Maria Trzcińska, uma juíza que tinha trabalhado na Comissão de Investigação dos Crimes Nazis na Polónia, ter publicado uma monografia em 2002, em que, entre várias fantasias, afirmava que um túnel rodoviário que passa debaixo de uma estação de comboios de Varsóvia tinha sido transformado pelos alemães numa gigantesca câmara de gás onde teriam sido executados os tais duzentos mil polacos, na sua maioria não-judeus (pormenor importante nesta narrativa).

A partir daí, a extrema direita nacionalista e anti-semita e o partido PiS, no poder, nunca mais largaram aquele osso, com a tese de o país ter sido vítima de um “Polocausto” (termo deles).

Ora, a verdade é que não foram assassinados duzentos mil polacos em KL Warschau. O campo existiu de facto no gueto de Varsóvia depois de este ter sido destruído por Himmler, em 1943, e recebeu muitos judeus exactamente para serem usados como mão-de-obra escrava para limpar as ruínas. As estimativas apontam para a morte ali de vinte mil pessoas.

Há evidências fotográficas e testemunhais de que aquele túnel por baixo da estação esteve sempre aberto ao trânsito, que, portanto, nunca foi uma câmara de gás, mas há sempre maluquinhos prontos a acreditar em qualquer patranha e construir, à volta dela, uma teoria da conspiração.

Tanto de meu estado me acho incerto

Fotografia de Branislav Belko


Tanto de meu estado me acho incerto,
Que em vivo ardor tremendo estou de frio;
Sem causa, juntamente choro e rio;
O mundo todo abarco e nada aperto.

É tudo quanto sinto um desconcerto;
Da alma um fogo me sai, da vista um rio;
Agora espero, agora desconfio,
Agora desvario, agora acerto.

Estando em terra, chego ao Céu voando;
Nu~a hora acho mil anos, e é de jeito
Que em mil anos não posso achar u~a hora.

Se me pergunta alguém porque assim ando,
Respondo que não sei; porém suspeito
Que só porque vos vi, minha Senhora.
Luís Vaz de Camões


quinta-feira, 16 de maio de 2019

Queda un hilo

Fotografia de Alessandro Melis


queda un hilo

el que con una línea todo lo separa
el que con una línea lo une todo

el hecho particular y sin importancia de que no lo veas no significa que no exista o que no esté aquí acechándote desde algún lugar de la página en blanco preparado y ansioso de saltar sobre tu ceguera

alguien que cree saber dónde encontrarlo
sigue fingiendo que sabe cómo ahorcarse
Alejandro Céspedes

quarta-feira, 15 de maio de 2019

Fachada A e Fachada B — texto e fotografias de JB

A Primavera passa no Rossio.
Gostei do Fachada, dos… e de…, foi tudo bom!
Boa festa, pá!





A Primavera não passa no lago de Marzovelos.
Há mais de 365 dias que só temos o coaxar das rãs.
Por aqui a música é “Fachada”!

Eleições 2009 (II)*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 15 de Maio de 2009 


1. Este ano vai haver alguma renovação do pessoal político com a eleição de mais mulheres e, em 2013, graças à lei da limitação de mandatos, saem os dinossauros autárquicos.

Este avanço democrático deve-se, em exclusivo, ao PS. Depois de Ferro Rodrigues ter imposto a limitação de mandatos dentro do partido, José Sócrates avançou com a mesma medida para o país e avançou também com a lei da paridade.

Só que agora, em matéria de moralização política, o PS perdeu a iniciativa. Sócrates deixou-se ultrapassar por Manuela Ferreira Leite que proibiu as candidaturas simultâneas no PSD.

O PS está enredado nas candidaturas de Ana Gomes e Elisa Ferreira ao parlamento europeu e a câmaras municipais.

Elisa Ferreira já sentiu isso na pele. Iniciou a sua pré-campanha nos bairros do Porto e isso implicou logo prejuízos para a candidatura às europeias.

2. Vai ser pior no Outono. As legislativas e as autárquicas vão ser quase simultâneas, o que tornará as bicandidaturas ainda mais esquizofrénicas.

Com que cara é que um candidato a uma câmara vai pedir o voto das pessoas se antes – não vá o diabo tecê-las! – tratou de assegurar o lugarzito no aconchego duma lista de deputados?

Esse candidato-de-largo-espectro como é que faz campanha? De manhã, na feira semanal, passeia a sua gravata autárquica e, à tarde, nas ruas da cidade, mostra um fato com deputado dentro?

Está-se mesmo a ver esse político-vai-a-todas a dizer ao povo:

A asneira cometida com as multi-candidaturas de Ana Gomes e Elisa Ferreira já não tem remédio. Que sirva de lição para as eleições do Outono. Ao PS e aos outros partidos.