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sexta-feira, 15 de novembro de 2019

Sindicatos dos tempos modernos*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Charles Chaplin interpretou pela última vez a sua personagem de chapéu de coco, bengala e andar à pinguim, no filme “Tempos modernos”, de 1936. Nele, Charlot faz de operário fabril a fazer gestos repetitivos numa linha de montagem implacável.

Oitenta anos depois, nos actuais “tempos modernos”, muito trabalho penoso foi substituído por maquinaria, mas ainda há muita gente extenuada e cheia de tendinites nas estufas da agricultura intensiva, ao volante de camiões com ou sem matérias perigosas, em call-centers, nas fábricas, nas caixas dos hipermercados, nas obras, nas cozinhas dos restaurantes, nas limpezas.

2. Nos anos da primeira geringonça, as únicas lutas laborais com impacto foram impulsionadas por sindicatos independentes e críticos da CGTP e UGT.

A formação de um novo sindicato de professores, o STOP, obrigou Mário Nogueira a deixar-se de frescuras com o ministro da educação. As novas formas de financiamento das greves dos enfermeiros e a eficácia dos motoristas de matérias perigosas protagonizaram conflitos muito duros, diferentes do ramerrame dos sindicatos tradicionais.

A resposta do poder, como de costume, foi à bruta: auditorias manhosas à Ordem dos Enfermeiros, tropas a guiar camiões privados, ameaças de extinção do sindicato de motoristas, campanhas negras nos media e nas redes sociais...
Editada a partir de uma fotografia de Tatiana Costa e outra de Rui Gaudêncio
... contra a bastonária dos enfermeiros e o advogado do sindicato dos motoristas.

3. E agora, nos anos da segunda geringonça, o que é que vai ser feito pelos políticos para tentarem neutralizar estes sindicalismos modernos mais combativos?

A direita, claro, quer uma nova lei que restrinja o direito à greve. O CDS já manifestou essa vontade e Rui Rio não fechou a porta a essa hipótese. Mas a esquerda, apesar de estar com alguns tiques autoritários, vai ter vergonha de fazer isso. Vai optar por medidas legislativas e burocráticas que tornem mais difícil e labiríntica a criação e a vida destes sindicatos independentes.

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Equidade e desigualdade*

* Hoje no Jornal do Centro


1. O PCP e o Bloco fizeram-se de mortos durante a recente greve dos motoristas de matérias perigosas. Até mesmo depois de serem conhecidos os horários desumanos que são impostos àqueles trabalhadores.



Esta inacção perante esta luta não deve surpreender ninguém. As esquerdas, nas democracias liberais do ocidente, ainda vão entregando alguns resultados aos trabalhadores do sector público, mas já não fazem nada que se veja pelos jovens à procura do primeiro emprego, pelos precários, pelos trabalhadores do sector privado.

Durante a greve, publiquei nas redes sociais uma reflexão sobre este problema estrutural. Partilho-a também aqui no ponto seguinte.

2. O Bloco de Esquerda já se sabia que é para defender as causas identitárias da classe média urbana, cosmopolita e que trabalha no Estado.

O PCP é que era suposto defender quem recebe 630 euros de salário-base e que, para levar 1200 euros para casa, tem que trabalhar 60/65 horas, quase o dobro do horário da função pública.

Julgava-se que o Bloco, inchado de identitarismos, era pela equidade, e o PCP, orgulhoso da sua tradição operária, era pela igualdade.

Como descreveu Guy Standing, em “O Precariado - A Nova Classe Perigosa”, “uma característica da perda de dinamismo da agenda social-democrata (...) foi que a ênfase colocada na igualdade se deslocou para a equidade social. A redução da discriminação e das diferenças salariais com base no género tornaram-se objectivos prioritários, enquanto a redução das desigualdades estruturais foi remetida para segundo plano.”

Em suma, já se sabia que o Bloco de Esquerda é uma espécie de PS fashion, mas ainda se julgava que o PCP era o partido dos que sofrem, dos colarinhos azuis, dos descamisados.

Esta greve dos motoristas de matérias perigosas veio mostrar que afinal já nem o PCP serve para defender os trabalhadores do sector privado, os mais explorados deste país.

Estes, quando surgirem populismos à direita, vão votar neles. Vai ser feio de ver.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

2008*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 26 de Dezembro de 2008

1. Este ano, durante a greve dos camionistas, houve uma corrida aos combustíveis e aos supermercados. Esteve-se a milímetros do caos.

As gerações mais novas, habituadas ao “leve 3 e pague 2”, ficaram a saber o que é açambarcamento de produtos. Os cotas recordaram tempos maus.

2. Foi metido muito dinheiro debaixo dos colchões no período mais agudo da crise dos bancos. Quando, num sábado à tarde, o Multibanco avariou durante uma horas, sentiu-se um calafrio. Ups!

Bismarck disse uma vez que, para sossego social, é melhor as pessoas não saberem como são feitas as leis ou as salsichas. Pelo que se tem visto, é melhor desconhecermos também como é feita a gestão dos bancos. Até para ficarmos tão informados como Vítor Constâncio.

3. Ao longo de 2008 foi aumentando o fosso entre o que diz Maria de Lurdes Rodrigues e a realidade nas escolas. Esse fosso é já um delírio.

A avaliação de professores, de remendo em remendo, de simplex em simplex, ficou só um faz-de-conta irritante.

Muito mais grave: a avaliação dos alunos é agora uma estatística cor-de-rosa sem credibilidade.

4. Neste ano de todos os perigos viu-se bem que o governo tem quatro políticos excepcionais: José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Teixeira dos Santos e Vieira da Silva. É graças a eles que o PS resiste nas sondagens.



5. Uma imagem especular só existe quando há algo à frente do espelho. 

Num espelho não há uma imagem. Num espelho acontece uma imagem.

Até 18 de Janeiro, na ACERT, em Tondela, há uma exposição de fotografias (e espelhos) de Alberto Plácido

Se for lá, e entrar no poliedro que está no meio da galeria, nunca mais esquece a experiência…

segunda-feira, 16 de julho de 2018

Cantata para professores… — por JB*

* Comentário de JB deixado hoje por JB no post Cantata do café — JS Bach


Fotografia daqui
— Porque este governo de socialista só tem o nome; após mais de um mês de greve, o que certamente se transformará num recorde de luta laboral e num péssimo chip de memória para um Partido Socialista (socialista? Vão estudar a etimologia do termo, por favor).

— Porque começa a ser uma péssima tradição do Partido Socialista o desconsiderar a Educação e os seus profissionais. A linha destruidora começa em Lurdes Rodrigues e continua com o Tiago.

— Porque é uma dor de alma ter que escrever que, provavelmente, o PPD consegue (des)tratar os professores de uma forma menos acintosa…

— Porque ao fim de um mês de greve, o que os “representantes” dos professores conseguem é a criação “de uma Comissão de estudo”??? É pá, vão-se federar!

— Porque uns lavaram a face dos outros e quem continua no batente, no terreno, na luta é que se lixa, SEMPRE!

— Porque “o carro” só conhece uma mudança: marcha atrás! Entra um qualquer governo, uma nova equipa e não muda a mentalidade: tudo para o lixo, que nós é que somos os donos da verdade!

Desiludidos, desanimados e irritados!

“Fantasmas de todos os planetas, vinde salvar-nos!” – José Gomes Ferreira

terça-feira, 1 de maio de 2018

De que serve a bondade?

Fotografia de Jesse Orrico



1


De que serve a bondade
Quando os bondosos são logo abatidos, ou são abatidos
Aqueles para quem foram bondosos?

De que serve a liberdade
Quando os livres têm que viver entre os não-livres?

De que serve a razão
Quando só a sem-razão arranja a comida de que cada um precisa?




2

Em vez de serdes só bondosos, esforçai-vos
Por criar uma situação que torne possível a bondade, e melhor;
A faça supérflua!

Em vez de serdes só livres, esforçai-vos
Por criar uma situação que a todos liberte
E também o amor da liberdade
Faça supérfluo!

Em vez de serdes só razoáveis, esforçai-vos
Por criar uma situação que faça da sem-razão dos indivíduos
Um mau negócio!
Bertold Brecht




* Reedição

domingo, 4 de março de 2018

"A política educativa da geringonça falhou" — diagnostica o JB*

* Texto enviado pelo JB, por e-mail, para este blogue

No dia 24.02.2018, o Expresso online, noticiava que “O Governo admite conceder ainda este ano um empréstimo adicional ao Fundo de Resolução para intervir no Novo Banco.”

Este é um dos assuntos que puxa pela minha linguagem mais vernácula e a minha aversão aos decisores políticos. No entanto, vou-me coibir por decência e respeito, pelo autor deste blog, de o manifestar. BPN, Novo Banco, BES…., já é passado, pois hoje, os finórios “gestores”, os “patriotas” empresários dos interesses, os praticantes do clientelismo e do tráfico de influências esfregam as mãos com o (previsível) acordo Costa/Rio sobre fundos comunitários e descentralização. 

Rio e Costa parecem ter inaugurado uma nova época de compromissos que prenuncia recuperar as "reformas estruturais" do bloco central dos interesses.

Curioso como a memória do PS é curta quando as políticas violentas do governo Passos Tecnoforma Coelho, e do outro facho que o acompanhava, entregaram as principais empresas públicas aos privados (recordo apenas e só o caso degradante dos CTT), quase esmagaram o Estado Social português, cortaram os rendimentos dos trabalhadores e dos reformados e deram todo o poder nas leis laborais ao patronato.

O que o governo PS/PCP/BE nos trouxe foi uma nova redistribuição da austeridade; a criação de um clima de uma certa paz social e otimismo; interromper a destruição do tecido produtivo e inverter timidamente a perda de rendimentos da maior parte da população. Nunca o PS objectivou uma rutura real com as políticas autoritárias decorrentes das imposições da União Europeia e o repensar da criação de uma nova orientação económica que retire Portugal de uma divisão internacional do trabalho que nos coloca como uma espécie de oásis turístico sem produção própria nem aposta em setores tecnologicamente avançados, com mão-de-obra qualificada e bons salários.

Todas as políticas feitas pelo governo PS não alteraram a redistribuição do poder em Portugal - o capital financeiro continua a dominar, até de uma forma crescente, as economias, as políticas e o poder.

E o PCP e o BE têm-se mostrado incapazes de dinamizar uma frente política e social que permitisse colocar na ordem do dia uma ruptura real com as políticas de austeridade, mas sobretudo a criação de uma correlação de forças que forçasse o governo a atuar em áreas nucleares dos direitos de cidadania: legislação do trabalho que combata a precariedade e proteja quem produz; revitalização da educação pública e do Serviço Nacional de Saúde, fazer qualquer coisa de esquerda, porra!

Neste contexto, constatamos que está agendada uma greve de professores para dia 15 de Março. Mas, o que querem agora os sacanas dos Professores?

No tempo do Pedro Tecnoforma Coelho, e do facho que o acompanhava, não havia “condições políticas” para promover alterações favoráveis na educação. Hoje, com o PS no governo e com o apoio parlamentar do PCP e do BE quais são as condições políticas que faltam para que haja alterações na educação?

Quando se aproxima o fim da legislatura, o que mudou na educação: o estatuto do aluno, no sentido de agilizar, desburocratizar e reforçar a autoridade do professor? O execrável horário ao minuto e o regresso ao horário por tempos, para professores? O sistema de eleição do director? Os professores passaram a ter a maioria no Conselho de Escolas? Foi apresentado e discutido um novo modelo de avaliação de professores? Mudou a gestão das cantinas escolares?..... A tudo, um ZERO!

A greve é a arma do povo e eu apoio sempre o povo! No entanto, há perguntas incómodas: após a greve de Novembro quantos cêntimos colocou o governo no orçamento 2018 para contemplar a progressão na carreira dos professores? Zero!

O que fracassou para que PC e BE não consigam pressionar o PS?

A política educativa da geringonça falhou, mas ganhou o ministro Tiago que conseguiu manter o sector quieto, estático e inerte, durante quatro anos. Bem merece uma prateleira dourada num sucedâneo da UNESCO juntamente com uma prática sindical que não ambiciona ganhar, apenas empatar…

Vocês são um restolho!

E termino com a “expressão favorita”, do léxico político pós-glorioso 25, – “Estou de consciência tranquila”.


PS: Quanto ao “descentralizar”, “regionalizar”, “municipalizar” a educação, estamos conversados. O Bloco Central autárquico, desde o CDS ao BE está de acordo, venha o guito!
JB

sexta-feira, 27 de outubro de 2017

Já não sei fazer as pazes... — por JB*

* Comentário de JB ao texto "Céu azul", em dia de greve nas escolas


HOJE:
O Governo pretende eliminar nove anos de serviço dos professores no descongelamento das carreiras. Nem considera uma recuperação faseada. Excluiu-os. E porquê apenas os professores? Por uma questão técnica, diz o Governo.
Nas outras carreiras as pessoas obtêm um ponto por ano até ao número necessário à mudança de categoria e nos professores, diz o Governo, é por menção qualitativa.

A partir do momento em que Maria de Má Memória Lurdes Rodrigues entrou para o Ministério da Educação, deixou de haver democracia nas escolas e o descontentamento dos professores passou a ser uma constante. E tudo com um objectivo: levar os professores à exaustão.

HOJE:
A vacuidade do ministro da Educação é deprimente.
Os Nogueiras e Cª, que andaram a fazer fazer manifs de apoio ao Tiaguinho, deviam ter vergonha da sua actuação sindical, dos últimos anos. Apenas e só negociar lugares de destacamentos nos sindicatos e “amansar” os professores.

Este Governo devia “arrepiar” caminho e não imitar os anteriores. Mas, tudo é negócio, até a municipalização da educação que interessa a todas as câmaras e a todos os presidentes (assunto para outro dia…).

“Já não sei fazer as pazes
Vão Pó [Trabalho] !”




A contas com o bem que tu me fazes
A contas com o mal por que passei
Com tantas guerras que travei
Já não sei fazer as pazes

JB

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Mentira

Daqui


Menina, me conte uma mentira.
Suas mentiras suaves e delicadas
Adornam a minha vida
Stefano Nardi

sexta-feira, 17 de junho de 2016

Papel higiénico*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Eis duas anedotas que circulavam nos regimes comunistas antes da queda do Muro de Berlim, lembradas por Slavoj Žižek no seu livro “O Ano Em Que Sonhámos Perigosamente”:

(i) Um trabalhador da Alemanha do Leste arranjou emprego na Sibéria e, como sabia que todas as suas cartas iam ser lidas pela censura, combinou com os amigos o seguinte: em carta a azul, tudo verdade; em carta a vermelho, tudo mentira.
Passado um mês, os amigos receberam uma carta com a inconfundível letra do emigrado escrita a azul: «Tudo é bom aqui, as casas são grandes e aquecidas, há muita comida, as lojas estão bem abastecidas, os cinemas passam muitos filmes ocidentais, as mulheres são lindas e gostam de namorar — a única coisa que cá falta é tinta vermelha.»

(ii) Na Polónia, um cliente chega a uma loja e pergunta: «Você não deve ter manteiga, pois não?»
Resposta da empregada: «Desculpe, a loja do lado de lá da rua é que não tem manteiga; nós não temos é papel higiénico...»

2. O papel higiénico é um clássico do desabastecimento comunista. Falha sempre. E, portanto, tinha que falhar no chavismo. Regime que, nos dezasseis anos em que governa a Venezuela, já derreteu mais de um bilião de dólares de proventos do petróleo — um balúrdio que dava para pagar bem mais do que uma dúzia de bancarrotas socráticas.


Imagem daqui
Veja-se o seguinte imbróglio kafkiano que aconteceu a um industrial venezuelano. Uma cláusula do contrato colectivo da fábrica impõe que os sanitários estejam sempre guarnecidos com papel higiénico; mal os rolos lá são postos, logo os “utentes” se apropriam daquela raridade; a seguir, vem o aviso implacável: se o papel higiénico faltar, há greve.

Em desespero, o industrial foi abastecer-se em força ao mercado negro. Azar. Alguém o chibou e ele teve uma visita da polícia chavista a ameaçá-lo de prisão. Lá teve ele de untar os bolsos dos polícias. Com dólares americanos.

É que o bolívar venezuelano nem para papel higiénico.

segunda-feira, 9 de maio de 2016

Educação: duas constatações, duas irritações e dois olhares para o futuro

Sobre o assunto do momento, duas constatações:
— o ensino superior público é percepcionado como melhor do que o ensino superior privado, pelo que o primeiro tem mais procura do que o segundo;
— o ensino não superior público é percepcionado como pior do que o ensino não superior privado, pelo que o primeiro tem menos procura do que o segundo.

Sobre o assunto do momento, duas irritações:
— os professores do ensino público que põem os filhinhos nos colégios (esta irritação triplica quando os protagonistas são apoiantes da geringonça);
— os professores reformados do ensino público a darem aulas nos colégios privados (esta irritação triplica quando os protagonistas são apoiantes da geringonça).

Sobre o assunto do momento, dois olhares para o futuro:
— é evidente que o "ministro" da educação é uma desgraça, um incompetente, o caos que ele criou na avaliação externa dos alunos é razão para despedimento com justa causa;
— é evidente que o assunto do momento fez emergir a substituta natural do, infelizmente ainda, "ministro" da educação: Alexandra Leitão (secretária de estado adjunta e da educação).
O "ministro" da educação e Alexandra Leitão, secretária de estado adjunta e da educação

sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Greves*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Como se sabe, quando o governo é fraco, os lóbis fazem um festim. E isso já se vê: cheios de pressa, os homeopatas do bloco esganiçam-se no parlamento e os sindicalistas do PCP  convocam greves; já os banqueiros, mulas velhas, fazem as coisas com discrição e eficácia. Enquanto a “Europa” fechar os olhos, a todos o governo atenderá cheio de bondade.

Mal se deu a convocatória da greve do metropolitano de Lisboa, o secretário de estado José Mendes declarou logo que estava aberta uma “janela de diálogo” para derrubar o “muro de silêncio” que não deixa o sindicato “passar a sua mensagem”. Isto é: o governo vai derramar mais dinheiro no fim do mês dos maquinistas.


2. No ano 411 a. C., durante uma guerra entre Esparta e Atenas, Aristófanes escreveu a comédia antibélica “Lisístrata”. Nela, as mulheres decidiram fazer uma greve de sexo até os homens ganharem juízo e assinarem a paz.

Em 2002, durante a segunda guerra civil na Libéria, Leymah Gbowee mobilizou as mulheres de todas as etnias e religiões para que recusassem sexo aos homens enquanto durassem os combates.

Na primavera de 2012, o banco central espanhol bem tentava, em vão, que os fluxos de crédito às famílias e aos negócios funcionassem tão bem como os fluxos da libido dos banqueiros madrilenos. Foi então que as “acompanhantes de luxo” decidiram fazer greve dos seus serviços aos homens do dinheiro.

Nos últimos 15 anos, a violência em Chicago matou 7356 norte-americanos, quase o triplo que no Iraque (2579). Esta emergência deu origem a "Chi-Raq", um filme de Spike Lee, inspirado em Aristófanes, que acaba de estrear nos EUA.



Nele, uma portentosa Lisístrata organiza as mulheres contra a violência entre os dois gangs de Chicago, os Trojans e os Spartans. 


“No peace, no pussy!”, determinam elas.



Quatro greves: duas de ficção, duas reais, em todas vitória abençoada das mulheres. E a enorme Leymah Gbowee ganhou o Nobel da Paz em 2011. 


E, pelo que diz a crítica, a enorme Teyonah “Lisístrata” Parris merece um óscar.

quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Tempestade*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 25 de Novembro de 2005

1. Em 19 de Agosto, escrevi aqui no Olho de Gato: “Era bom que chovesse na cabeça da Ministra da Educação a ver se ela refresca. Há risco elevado de tempestade nas nossas escolas, no próximo ano-lectivo.”

Não era difícil de prever. Aí está a tempestade. Na sexta-feira passada houve uma greve de professores com adesão recorde. Infelizmente, as coisas podem não ficar por aqui.

2. A Ministra da Educação tem tido boa imprensa, muito devido à inabilidade dos sindicalistas que falam uma língua estranha, o eduquês, que ninguém percebe.

Contudo, no dia da greve, as coisas não correram bem a Maria de Lurdes Rodrigues. Exactamente naquele dia, ela tirou de debaixo da manga um “estudo” a tentar provar que os professores são uns gazeteiros. Toda a gente percebeu a intenção e o tiro saiu pela culatra. Não foram os professores que ficaram mal no retrato.

3. Ainda no dia da greve, a ministra Maria de Lurdes Rodrigues publicou um artigo no Público, intitulado “O Desafio da Educação” que merece ser lido com atenção, especialmente quando refere um “(…) défice de acompanhamento e supervisão de aulas e do respectivo controlo de qualidade do ensino.” É preciso ajudar os professores a serem melhores professores naquilo que importa: a aula na sala de aula. É na sala de aula que tudo se decide. O resto é burocracia, fogo de artifício e desperdício de recursos.

4. A Associação Nacional de Municípios Portugueses pode mandar fazer uma estátua a Maria de Lurdes Rodrigues. O Ministério da Educação vai pagar as refeições nas Escolas do 1º Ciclo; isto é, o governo vai assumir dores que deviam ser das câmaras. Estas vão poder continuar a gastar alegremente os impostos municipais em rotundas e Pavilhões Multiusos.

sexta-feira, 20 de março de 2015

Entalados *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Imagem daqui
O estado vai reunindo informação de toda a natureza sobre os cidadãos. Uma, legítima e incontornável, outra, nem por isso.

No que toca a impostos, não há volta a dar-lhe. A “autoridade tributária” tem mesmo que recolher informação o mais exacta possível sobre os rendimentos, as despesas e o património dos ditos “sujeitos passivos”. Essa informação é organizada em bases de dados gigantescas que são acedidas por muita gente.

Quando o histórico fiscal de Pedro Passos Coelho chegou aos jornais, percebeu-se que os estados-maiores dos partidos trataram a situação com pinças, cheios de medo.

Um sindicato referiu a existência de uma putativa “lista VIP” de contribuintes, lista negada pelo governo. Soube-se também que foram abertos inquéritos aos trabalhadores do fisco que andaram a espreitar a situação fiscal de figuras públicas.

Há muito nevoeiro e muita “cautela e caldos de galinha” neste caso. O fisco é o segmento do estado que melhor funciona: é uma máquina cada vez mais eficaz, implacável e sequiosa. Este “fascismo” fiscal é usado pelos governos para tudo. Até para cobrar receitas privadas como, por exemplo, as portagens para os rentistas das auto-estradas.

Uma coisa é certa: nesta matéria todos os contribuintes têm que ser “VIP”. O sistema informático do fisco tem que estar preparado para registar o “quem”, o “a quem”, o “quando” e o “quê” de todas as pesquisas. Se um funcionário de Arronches de Baixo, no dia 20 de Março, pelas 11H15, espreitar a situação fiscal do sr. António Costa de Lisboa, ou da sra. Antonieta Francisca de Portimão, esse funcionário tem de estar preparado para explicar porque fez isso.

E, se essa informação for parar a um órgão de comunicação social, o mínimo que se espera é que lhe seja levantado um inquérito e demais arsenal disciplinar da função pública.

Não se ouviu nenhum político falar com clareza nisto, o que quer dizer, em bom português, que há muitos “rabos entalados” por aí.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Nómadas*

* Texto de há exactamente quatro anos, publicado no Jornal do Centro em 3 de Setembro de 2010


1. Neste fim-de-semana, acelera-se na rampa do Caramulo.

Aqueles carros têm um “cantar” asmático, típico dos motores de competição. Debaixo dos capôs, parece que os cavalos se atropelam uns aos outros. É adrenalina pura.

Para além das “bombas” do século XXI, há também as subidas de automóveis clássicos, cheios de história. Entre eles, sem nenhum sinal de reumatismo, um Bugatti 35B, de 1930, da colecção do museu do Caramulo, faz ainda hoje tempos muito interessantes.

A principal novidade, este ano, é um troféu de Ford Transits.



Quando li a notícia fiquei perplexo. Transits? Num campeonato de montanha? Aqueles paquidermes nómadas que aparecem em força em Viseu, às terça-feiras, na feira semanal junto à escola da Ribeira? Transits a acelerar monte acima?

Às tantas, na rampa do Caramulo, este ano e pela primeira vez, vai ser possível mercar barato Lacostes originais, das de marca com crocodilo e tudo, saídos das Transits. É só saber regatear.

2. O repatriamento de ciganos para a Roménia e a Bulgária – que está a ser feito por Sarkozy com luz verde do sr. Barroso – é um exercício errado e fútil.

Errado porque é obrigação dos estados reprimir criminosos mas nunca uma comunidade. Porque a culpa é individual, não é colectiva.

Fútil porque estes ciganos vão regressar à França. Por duas razões singelas, como diz o editorialista búlgaro Svetoslav Terziev: os ciganos “conhecem o caminho e têm a certeza de encontrar ali melhores condições de vida.”

Eles são cidadãos europeus e, portanto, podem viajar livremente na “Europa”.

É útil saber que nesta região há muitas tensões. Por exemplo, este ano, a Roménia já concedeu 100 mil passaportes a cidadãos moldavos. Está a fazer uma espécie de anexação demográfica usando a faculdade de “imprimir” passaportes comunitários.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Um aviso*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos em 18 de Ferereiro de 2010


1. Primeiro ano do QREN: 148 milhões de euros de fundos comunitários aplicados em Lisboa vão ser contabilizados como se tivessem sido investidos no Norte, Centro e Alentejo.

Este é o retrato do país. Nu e cru.

2. O secretário de estado Castilho dos Santos chamou ao discurso sindical “passadista, retrógrado e conservador”. Vê-se que o secretário de estado prefere sindicatos fracos a sindicatos fortes.

Ora isso é um erro. Por duas razões:

(i) O livro “A Consciência de um Liberal”, do prémio Nobel da economia Paul Krugman, tem dados muito sólidos que ligam os 40 anos de ouro de crescimento americano à existência de um sindicalismo forte e prestigiado. Foi só com a hostilização reaganista aos sindicatos, a partir de 1981, que as coisas começaram a piorar.

(ii) Há uma outra razão ainda mais forte: o governo português vai ter que tomar medidas muito duras. A situação social vai-se agravar e a “rua” vai falar cada vez mais alto.

Ora, quem pode tentar moderar e enquadrar o descontentamento das pessoas? Os sindicatos, claro.

3. A última campanha publicitária do Mini Preço à pergunta «tem saudades do escudo?» responde «não!»

Já na Alemanha há muita nostalgia do “velho” marco. Os alemães estão fartos de serem eles a financiar os países do sul, corruptos e esbanjadores de fundos comunitários.

A Grécia, que “vale” 2,5% do PIB da eurolândia, não representa nenhum risco sistémico para o euro. Então porque não veio ninguém de peso acalmar os mercados?

Barroso e Almunia, evidentemente, não contam. Já Angela Merkel - que é quem manda porque é quem paga - ao ficar calada tanto tempo enquanto o fogo da dívida grega se propagava a Espanha e a Portugal...
... quis deixar um aviso.

Desta vez foi só um aviso.

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

Fura-greves e adesivos *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 20 de Novembro de 2009



1. Há 40 anos, Coimbra fervia de agitação estudantil. A ditadura salazarosa, já muito apodrecida, servia-se da polícia política e da censura para se segurar no poder.

Em 17 de Abril de 1969, o então presidente da república, na altura dizia-se “a veneranda figura do chefe de estado”, foi a Coimbra inaugurar o departamento de Matemática. Alberto Martins, líder dos estudantes, pediu a palavra. Américo Tomás não lha deu e terminou a cerimónia de forma abrupta.

Seguiu-se repressão e prisões. Os estudantes resistiram de todas as maneiras. Fizeram greves maciças às aulas que culminaram numa greve aos exames.

Fazer greve aos exames acarretava um grande custo pessoal: para além do atraso no curso significava também poder ser enviado para as piores frentes da guerra em África.

Não é difícil perceber a angústia interior que aqueles jovens viveram e a pressão familiar a que eles estiveram sujeitos. Mesmo assim, foram poucos os que foram fazer exames. Foram poucos os fura-greves. E os fura-greves ficaram muito mal vistos.

Muitas décadas depois do que aconteceu em Coimbra, em cavaqueira de amigos, mal foi referido o nome de uma determinada personalidade, ouvi logo vernáculo do grosso: “essa besta foi um dos que furou a greve aos exames…”


2. Embora não com o dramatismo dos estudantes de há 40 anos, a avaliação engendrada por Maria de Lurdes Rodrigues colocou os professores também perante dilemas éticos: 

“Entrego os objectivos, não entrego os objectivos?” 

“Peço aulas assistidas, não peço aulas assistidas?»

Todo o professor que quis aproveitar o campo livre para obter um “excelente” na avaliação não ficou bem no retrato.

Vai-se ouvir muitas vezes no futuro:

“essa besta foi um dos adesivos da marilú…”

sábado, 10 de novembro de 2012

Sindicalismos

Este vídeo é "de chorar a rir", diz o Panurgo.

Entre o mundo anos setenta do século passado todo "uma-gaivota-voava-voava" da CGTP, 
e o mundo "don't fuck my job" dos estivadores não há sintonia nem empatia possível.

 Esse "conflito estético", que deixa a speaker da CGTP pendurada, é, de facto, hilário.



Adenda em 15.12.2012: para perceber melhor esta luta nos portos, ler o artigo de Nuno Ramos de Almeida no I.: Um dia com os 380 irredutíveis estivadores.