Mostrar mensagens com a etiqueta Europa. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Europa. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 12 de abril de 2019

Não se sentiu...*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Há um mês, num texto intitulado “Quem não se sente...”, alertei aqui o presidente da câmara de Viseu que lhe ficava muito mal estar a dar gás ao coreógrafo Paulo Ribeiro depois de este ter abandonado, em 2016, por sua única e exclusiva vontade, a direcção do Teatro Viriato, e ter vindo agora, anos depois, alegar que foi vítima de um “despedimento ilícito” e tentar sacar, em tribunal, 50 mil euros àquela entidade municipal.

Como é evidente, um bom líder “sente-se” e, por isso, põe-se ao lado do que é seu e está a ser atacado, não se põe ao lado do atacante.

O facto é que António Almeida Henriques, mesmo depois de avisado, “não se sentiu...” E fez pior: para além de ter mantido a encomenda de um espectáculo ao litigante, ...
Fotografia de José Ricardo Ferreira
(editada)
... sentou-se ao seu lado numa conferência de imprensa no exacto teatro demandado em tribunal. E, apesar de ter ouvido o homem confirmar aos jornalistas que ia continuar a exigir os 50 mil euros, mesmo assim, afirmou que aquilo ia ser “um grande momento das comemorações dos 20 anos do Teatro Viriato”.

Este episódio, do princípio ao fim, foi tudo menos “um grande momento” do que quer que seja.

A esta deserção do autarca de Viseu na defesa do seu teatro municipal some-se o seu défice de rigor gestionário: acaba de saber-se que a câmara de Viseu, em 2018, teve um resultado líquido negativo de 3.573.148,97 euros.

2. As eleições europeias de Maio são feitas num quadro político inédito: a UE tem dois inimigos declarados, Trump e Putin.

O presidente norte-americano e o presidente russo estão a apoiar partidos soberanistas de direita e de esquerda, hostis à “Europa”. Enquanto Putin faz as coisas mais na sombra, Trump é menos subtil. O seu estratega, Steve Bannon, não sai do velho continente a organizar uma internacional de ultra-direita.

É um sinal dos tempos: os vários nacionalismos europeus sempre foram historicamente hostis aos norte-americanos e aos russos. Agora, são lacaios deles.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2018

Glotofobia*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Cada vez há mais chuis da linguagem a quererem prescrever quais são as palavras certas e quais são as palavras erradas, quais as obrigatórias, quais as proibidas.

Esta sanha começou nas universidades norte-americanas e espalhou-se como uma praga. Por cá, é o livrinho que tem “estereótipos de género” e é retirado do mercado, é a dita “linguagem inclusiva” que já saúda “as camaradas e os camarados”, é a “melga” que quer impedir que se chame “burro” a um bípede porque isso é ofender o quadrúpede, é...

O politicamente correcto é uma fábrica de ressentimento que produz flores de estufa, gente sempre ofendidinha, que não pode ouvir nada. Acaba de abrir mais uma frente censórica: inventou uma putativa “linguagem anti-animal”. A resposta nas redes sociais foi hilariante. Já há muito tempo que não se via tantos e tão inspirados textos e memes a cascar nestes chuis da linguagem.
Encontrada no Facebook sem indicação de autoria
Esta reacção foi muito boa. Quem ama a liberdade de expressão tem que meter juízo na cabeça destes censores que, com as suas manias, estão a saturar as pessoas e a criar o caldo de cultura em que medram boçais como Trump e Bolsonaro.

2. Há dois meses, em França, houve uma querela que passou das palavras para os sotaques. Uma jornalista de Toulouse fez uma pergunta a Jean-Luc Mélenchon e este, em vez de lhe responder, pôs-se a imitar o sotaque toulousiano dela.

Foi o bom e o bonito. O homem foi acusado de glotofobia, um conceito cunhado pelo professor Philippe Blanchet, em 2016, e que designa actos de “xenofobia” contra outras línguas ou contra determinados sotaques. Uma deputada de Macron quis logo acrescentar a glotofobia aos vinte e quatro casos de discriminação já listados no código penal. Foi ridicularizada em todos os sotaques franceses.

Portanto, já sabe, caro viseense: se um alfacinha o gozar por falar “achim”, não se amofine, ria-se dele, lembre-lhe que ele diz “abalha” e, na brincadeira, chame-o “glotofóbico”.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Inflação*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 10 de Outubro de 2008



A inflação é o mais injusto dos impostos porque corrói o rendimento dos mais pobres e dos mais fracos. Quando se transforma em hiperinflação, então, é uma tragédia social. Essa tragédia aconteceu na Alemanha depois da I Guerra Mundial, tendo sido uma das causas que levou ao nazismo e a Adolf Hitler.

O que aconteceu é muito bem contado em “O Obelisco Negro”, um divertido livro de Erich Maria Remarque que conta as aventuras de uns cangalheiros durante a República de Weimar.


Entre Janeiro de 1922 e Dezembro de 1923, os preços aumentaram mil milhões de vezes. A cavalgada dos preços era de tal forma que até a “cotação” de uma refeição num restaurante não parava quieta. Era conveniente comer depressa. Quanto mais se demorava, mais a conta final podia ser multiplicada por cem ou por mil.

Havia uma pausa nesta desgraça: a subida dos preços parava nos fins-de-semana porque a bolsa estava fechava.

Na crise actual acontece algo parecido. Ao fim-de-semana, a cotação do petróleo e das outras commodities não inquieta. Ao fim-de-semana, o Dow Jones e a Euribor estão parados. Ao fim-de-semana, não precisamos de ter medo do subprime nem dos ainda mais tóxicos credit default swaps.

Os bancos centrais têm injectado doses obscenas de dinheiro no sistema bancário. Como se sabe, mais massa monetária significa mais inflação.

O cidadão alemão comum não gosta do euro e ainda tem saudades do velho marco. Não surpreende, portanto, que Angela Merkel ligue pouco ao que diz o sr. Sarkozy. A chanceler alemã prefere verificar se o sr. Trichet no BCE mantém o euro forte e a inflação controlada.

Como é a Alemanha que paga a “Europa”, tenhamos alguma esperança.

sexta-feira, 13 de abril de 2018

Fungo*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Hannah Harendt, no seu livro “Eichmann em Jerusalém”, lembra-nos que o mal “pode invadir tudo e assolar o mundo inteiro (...) porque se espalha como um fungo.”

Está a ser difícil achar um fungicida que atalhe o mal populista. As eleições na Hungria foram uma decepção. As denúncias sobre a corrupção do “Viktador” Orbán e da sua clique não lhe causaram estragos eleitorais nenhuns, antes pelo contrário.

A chegada de um partido populista ao poder não é, em si, uma tragédia. Por vezes, é até bom que as suas receitas simplistas choquem com a realidade. Veja-se o caso do Syriza. Depois de meio ano de desvario que culminou na vigarice do referendo OXI, Tsipras ganhou juízo. O mesmo há-de acontecer em Itália se chegar a haver um governo do Cinco Estrelas.

O populismo só se torna um fungo letal quando, chegado ao poder, tem força para anular os contra-pesos de uma democracia — a independência dos media e dos tribunais. Quando tal acontece, alapam-se, pelo voto não saem, só através da força.

As instituições democráticas norte-americanas parecem estar a resistir bem ao populismo trumpista. Mas na Hungria elas soçobraram ao fungo orbánista. O bando que manda no país está agora a fazer compras sistemáticas de terras, está a virar latifundiário. Os fundos europeus são mafiados assim perante o silêncio cobarde da “Europa”.


Fotografia Olho de Gato
2. António Costa, depois do bruaá feito pelos agentes culturais e da sonsice de Catarina Martins e Jerónimo de Sousa, foi rapar mais algum pilim no fundo das gavetas de Mário Centeno para apoiar as artes. A pergunta que se impõe agora é: como evitar que a parte de leão desse “mais algum” vá ficar, também ela, em Lisboa?

Para que se saiba: a geringonça aumentou as verbas nacionais para apoio à cultura mas cá diminuiu-as fortemente. O ministério quer tirar 130 mil euros por ano à Acert e 93 mil ao Teatro Viriato.

Onde estão os eleitos com os nossos votos capazes de evitar que tal aconteça?

sexta-feira, 6 de abril de 2018

O Viktador*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Paul Lendvai, no seu livro “Orbán: Hungary's Strongman”, chama “Viktator” ao primeiro-ministro húngaro, Viktor Orbán, e designa o seu regime como uma “fürher democracy” — uma “democracia do chefe”.

Daqui
Orbán, o inaugurador da vaga iliberal que varre a “Europa”, vai a votos no próximo domingo. Foi eleito chefe do governo pela primeira vez em 1998, com 35 anos, mas perdeu o lugar quatro anos depois para um tecnocrata de centro-esquerda. Tal não era suposto e, quando o poder lhe caiu no regaço de novo em 2010, tratou de nunca mais o largar.

Para isso, terraplanou todos as instituições que lhe podiam fazer sombra: retirou quase todos os poderes ao tribunal constitucional e assumiu o controlo da maioria dos media privados e públicos.

Mais: Orbán fez também engenharia eleitoral. Deu cidadania a um milhão de pessoas de etnia húngara que as vicissitudes da história tinha posto a viver nos estados vizinhos (quase todos votaram no seu partido, o Fidesz, nas eleições seguintes) ao mesmo tempo que meio milhão de húngaros, entretanto emigrados, viam a sua participação nas eleições deliberadamente dificultada pelas burocracias consulares.

É certo que, durante esta campanha de 2018, as coisas não correram como o “Viktador” Orbán pretendia. Um dos seus mais chegados amigos, o oligarca Lajos Simicska, virou-se contra ele e tem posto a boca no trombone sobre os milhares de milhões de euros comunitários autoclismados pela corrupção. Este lavar de roupa suja deve enfraquecer o Fidesz mas não derrotá-lo.

2. Ricardo Alves, o director artístico da companhia Ovo Alado, fez as contas aos muito contestados apoios às artes do ministério da cultura.

Em Lisboa e Vale do Tejo, as actividades culturais vão receber €1.75 por habitante. A capitação desce para €1.08 na região centro, no norte fica-se por €0.95 e na Madeira afunda-se para €0.78, menos de metade do subsídio por alfacinha.
Lisboa parte e reparte e abarbata sempre a melhor parte.

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

Bicicleta*

* Publicado há exactamente dez anos, em 26 de Outubro de 2007

1. Jacques Delors, o último presidente a sério da União Europeia, dizia que a “Europa” é como uma bicicleta – é preciso pedalar sempre em frente. Parar de pedalar significa trambolhão.

A “Europa”, de facto, tem pedalado muito. Lembremos os últimos 15 anos, com a ajuda do artigo de João César das Neves “A saga da Constituição Europeia”:
i) 7Fev1992, assinatura do “Tratado de Maastricht”; entrou em vigor em 1Nov1993;
ii) 2Out1997, assinatura do “Tratado de Amsterdão”; vigorou a partir de 1Maio1999;
iii) 26Fev2001, “Tratado de Nice”; em vigor a 1Fev2003;
iv) 29Out2004, assinatura da «Constituição para a Europa»;
v) 29Maio2005, chumbo da Constituição, pelos franceses, em referendo; uma semana depois os holandeses fizeram o mesmo;
vi) Em 13 de Dezembro de 2007, os líderes europeus vão assinar o “Tratado de Lisboa”. Seguir-se-ão as ratificações nos vários países.

2. Assim mesmo: 15 anos, 5 tratados. Delors foi ouvido. Em cima da bicicleta, os líderes europeus não têm parado de pedalar. Boa parte deles até está com medo de ir ao controle anti-doping, que é como quem diz: não quer ouvir os seus cidadãos em referendo.

Apesar de preferir o jogging, José Sócrates mostrou também ter jeito para pedalar a bicicleta europeia. Acaba de ter uma grande vitória diplomática. Sócrates esteve igualmente bem ao não dizer nada quanto à forma de ratificação do Tratado antes da sua assinatura, em Dezembro. O carro nunca antes dos bois.

Penso que o PS deve defender o referendo ao “Tratado de Lisboa”. O PS prometeu isso em campanha eleitoral e os compromissos eleitorais devem ser respeitados.

sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Metáforas avariadas*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. As eleições autárquicas destaparam um elefante que estava escondido na sala de estar da geringonça — o acordo de incidência parlamentar que sustenta o governo é bom para o PS mas é mau para o PCP.

Este acaba de perder dez câmaras, nove delas directamente para os socialistas. Só restaram vinte e quatro municípios comunistas, é o menor número de sempre.

A propósito desta hecatombe, tem sido recordado o “abraço de urso” de François Mitterrand aos comunistas franceses, coligou-se com eles em 1981 e levou-os ao desaparecimento. O eleitorado comunista, depois, foi cair nas mãos da Frente Nacional do clã Le Pen, mas isso são contas de outro rosário.

Em vez da metáfora do “abraço de urso”, no Facebook descrevi o caso assim: “Jerónimo de Sousa foi a panela de barro e António Costa a panela de ferro.”

Daqui
Aludi a uma fábula de La Fontaine mas receio que o sentido dela escape às gerações mais novas. Aliás, cada vez é mais difícil encontrar uma metáfora que tenha um funcionamento universal, que seja entendida por toda a gente.

Lembrar que não são bons os chegamentos das panelas de barro às panelas de ferro tem pelo menos uma vantagem: imita muito bem a maneira simpática e expressiva como o líder comunista costuma descrever aos seus camaradas as encruzilhadas e as dificuldades da política.

2. Cada vez há mais metáforas avariadas. Por exemplo, dizer “vira o disco e toca o mesmo” já não funciona, a música agora já não é gravada nos dois lados de uma bolacha negra a rodar a trinta e três rotações por minuto.

Dizer que alguém “é um disco riscado” também não resulta, só os muito cotas é que sabem que esse alguém é um chato que está sempre a dizer o mesmo.

A mesma dificuldade se lembrarmos que a CIG tentou “usar o lápis azul” nos livrinhos azuis e cor-de-rosa da Porto Editora. É que cada vez menos gente sabe que os coronéis da censura salazarista cortavam os textos a azul.

sexta-feira, 28 de julho de 2017

Tirar a voz*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Os estados de direito têm pesos e contra-pesos para que a força gravitacional dos governos não funcione como um buraco negro que suga tudo. Os países precisam de oposições fortes, órgãos de comunicação social actuantes e tribunais independentes para que sejam travadas as tentativas de abuso. Quando um partido populista chega ao governo, o nível de alerta tem que aumentar.

Na Polónia, o partido nacionalista no poder — o Partido da Lei e da Justiça — aprovou no final da semana passada três leis que pretendiam acabar com a independência dos tribunais colocando debaixo do controlo governamental o Supremo Tribunal, o Conselho Nacional Judiciário (um órgão independente de escolha dos juízes nacionais) e a escolha dos juízes dos tribunais menores.

A reacção dos polacos contra este ataque sem precedentes ao alicerces da sua democracia foi memorável. Milhares e milhares vieram para a rua com um slogan poderoso “3xNie” — “três vezes não”, ... 
... escrito com as letras vermelhas usadas, há 30 anos, pelo Solidariedade, o movimento que derrubou a ditadura comunista.

Foi por isso que o presidente polaco, Andrzej Duda, militante do partido governamental, acabou por vetar duas daquelas três leis: o Supremo Tribunal e o Conselho Nacional Judiciário vão continuar independentes.

2. O governo populista polaco foi parado, o centralismo lisboeta é que ninguém consegue parar.

Estive a ouvir um “briefing (é assim que diz o linguajar oficial) sobre o teatro de operações (idem, idem) em que um porta-voz da protecção civil em Lisboa falava do fogo que estava a acontecer, para os lados de Mação, a duzentos quilómetros. É que agora nenhum operacional no terreno pode falar aos media, o governo arrolhou-lhes a boca.

Perante aquele “teatro comunicativo”, escrevi nas redes sociais: “finalmente há respeito pelos costumes pátrios: temos Lisboa a explicar o país ao país.” A Lisboa já não chega mandar em tudo, agora até já tira a voz ao país.

sexta-feira, 7 de julho de 2017

Nascidos no século XXI*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Como diria La Palice, quanto mais tarde se nasce, mais novo se é. E, como é melhor ser novo do que ser velho, a “graça do nascimento tardio” é sempre boa, embora o implacável tempo nunca pare. Já não falta muito para os primeiros bebés do século XXI chegarem à maioridade e começarem a guiar nas rotundas e a votar.

Eles sabem pouco da história do século XX, não imaginam sequer como era o horror do fascismo e do comunismo. Os bebés do século XXI nascidos na Europa tiveram a “graça do nascimento tardio” de que falou Helmut Kohl, recentemente falecido. O arquitecto da reunificação alemã referia-se aos alemães nascidos depois da morte de Hitler que já não tinham nada a ver com os crimes nazis. Helmut Kohl quis sempre “uma Alemanha europeia e não uma Europa alemã”, porque sofreu na pele a maldade dos nacionalismos beligerantes.

O veneno do populismo nacionalista, que quer outra vez levantar a grimpa à esquerda e à direita, tem que ser derrotado. Para isso, é preciso passar a memória destes pesadelos aos nascidos no século XXI.

Ana Catarina Mendes e Ângelo Moura
Fotografia do FB do candidato socialista à câmara de Lamego
(editada) 
2. Por volta de 1917, mais ano menos ano, uma comissão de melhoramentos para a Messejana chegou-se junto de Brito Camacho, um influente político da primeira república, com uma lista de reivindicações para aquela simpática terra do interior alentejano. Brito Camacho perguntou-lhes, impassível, se eles não queriam também uma praia, ao que os alentejanos responderam: «arranje o sr. doutor a água, que a areia arranjamos nós.»

Um século depois, uma comissão de melhoramentos para Lamego acaba de chegar junto de Ana Catarina Mendes, uma influente política da terceira república, com uma lista de reivindicações para aquela simpática cidade do interior duriense. Ana Catarina Mendes perguntou-lhes, impassível, se eles não queriam também uma maternidade, ao que os lamecenses responderam: «arranje a sra. doutora a sala de partos, que os bebés arranjamos nós.»

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Pata de galinha*

* Hoje no Jornal do Centro

1. O referendo do brexit foi há exactamente um ano, em 23 de Junho.

Dois dias depois, o congresso do bloco de esquerda quis aproveitar a maré e debateu a hipótese de um referendo similar cá. Pela primeira vez, um partido com representação parlamentar punha em cima da mesa o “sim ou não” à UE. Catarina Martins não percebeu a natureza do voto brexit, um voto nacionalista e anti-imigração, um voto do passado contra o futuro — 64% dos eleitores britânicos com menos de 25 anos votaram para ficar na “Europa”.

O bloco não o percebeu mas o eleitorado espanhol percebeu-o muito bem, e, três dias depois do brexit, retirou um milhão de votos a Pablo Iglesias. Todas as eleições seguintes na UE puseram no poder partidos europeístas e foram tirando fôlego aos populistas. Em França, os populistas de esquerda e de direita acabam de ser reduzidos à insignificância no parlamento. Em Setembro, Angela Merkel vai ser reeleita pelos alemães para um quarto mandato.

Passou um ano, o panorama mudou: o eixo franco-alemão está forte outra vez, a “Europa”, viva e a crescer. Por sua vez, o Reino Unido e os EUA estão nas mãos de dois aprendizes de feiticeiro: Theresa May e Donald Trump.

Passou um ano, o “brexit-means-brexit” de May não sai do sítio. Tanto Londres, a poderosa “cidade-estado” sede da City, como o eleitorado cosmopolita e jovem tudo farão para que ele fique mesmo assim. Parado e quedo.



2. O Jornal do Centro fez uma infografia sobre a auto-estrada Viseu-Coimbra que parecia a pata de uma galinha. A sul de Santa Comba Dão, um dos três “dedos” da pata do bicho apontava para a A1 em Trouxemil, o “dedo” meeiro apontava para Coimbra e o outro para a A13.

Confesso que antes da pata de galinha vi naquele desenho o símbolo da paz. A paz com que Sócrates lançou a obra em cerimónia luzidia em 2008, a paz com que Passos fez o mesmo em 2015, a paz com que, neste ano de autárquicas, a geringonça se embrulha em estudos empaliantes.

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Um acima*

* Publicado hoje no Jornal do Centro

1. José Manuel Fernandes, na qualidade de director do jornal Público, escreveu, em 2006, um artigo de opinião intitulado “A Estratégia da Aranha” muito crítico para com Noronha de Nascimento, acabadinho de chegar à presidência do Supremo Tribunal de Justiça. O texto é achável na internet e merece leitura porque tem uma contundência que não é comum em Portugal.

O #1 dos juízes não gostou do que leu, sentiu-se atingido no seu bom nome e pôs o jornalista em tribunal. A seguir, nunca mais parou, multiplicou-se em alusões públicas ao caso, chegou a ir assistir, até, a audiências “do julgamento da 1ª instância, condicionando, inevitavelmente, as sessões”, como descreveu, em texto recente, o advogado Francisco Teixeira da Mota.

Depois dos recursos, o Tribunal da Relação de Lisboa condenou o jornalista e a sua mulher, fixando o valor da indemnização em 60.000 euros.

Sim, caro leitor, leu bem: o valor da indemnização foi aquele balúrdio e a mulher do jornalista foi também condenada, por solicitação expressa de Noronha de Nascimento, que argumentou que Gabriela Fernandes teria também responsabilidades já que era casada em regime de comunhão de bens adquiridos.

E assim foi fechado o caso em Portugal. 


Daqui
Só que, onze anos depois, o Tribunal Europeu dos Direitos Humanos (TEDH) veio repor justiça neste caso repugnante onde, mais uma vez, o estado português violou grosseiramente a liberdade de expressão e, por isso, vai ter que devolver os 60.000 euros mais as despesas processuais.

Como é possível uma mulher ser responsabilizada por um texto escrito pelo marido? Que raio de país é este?

2. É por estas e por outras que é bom haver “um acima” das autoridades nacionais. Se não tivéssemos o TEDH, os usos e costumes dos nossos tribunais danificavam a liberdade de expressão, o oxigénio de qualquer democracia.

Se não tivéssemos o tratado orçamental, os governos gastavam sem rei nem roque, roubando, ainda mais, futuro aos nossos filhos e aos nossos netos.

sexta-feira, 2 de junho de 2017

Fazer o jantar*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


A recente cimeira da NATO mostrou um Donald Trump que tanto empurra o primeiro-ministro do Montenegro para ficar melhor nas fotografias como dá caneladas nos países que não investem em forças armadas.



O homem é tudo menos subtil. Contudo, essa casca-grossice deu visibilidade a um grave problema: a Europa habituou-se a viver protegida debaixo do guarda-chuva norte-americano, deixando para os ianques o trabalho e a despesa da sua protecção. Durante a guerra-fria este arranjo fazia algum sentido, depois da queda do muro de Berlim deixou de fazer.

A “Europa”, o maior bloco económico mundial, é um anão militar e isso é mau, já o demonstrei aqui várias vezes, como, por exemplo, em “Loiça” (Novembro de 2006) e “A Pá e a Corda” (Setembro de 2014).

Nos anos de 1990, como não tinha músculo, a Europa passou pela vergonha de ter de pedir a Bill Clinton para vir resolver a barbárie nos Balcãs. Há três anos, a mesma falta de músculo deixou que Putin fizesse, impune, uma anexação de território ucraniano, o que lançou o pânico nos países de leste.

A velha divisão de tarefas descrita pelo neo-conservador Robert Kagan no seu livro “O Paraíso e o Poder, A América e a Europa na Nova Ordem Internacional”, em que o hard-power norte-americano “fazia o jantar” e o soft-power europeu “lavava a loiça”, funcionou na antiga Jugoslávia. Os Estados Unidos fizeram o trabalho duro dos combates e os europeus, depois, trataram de manter a paz com as botas no terreno.

Só que, anos depois, quando em 2011 era imperioso salvar a primavera árabe na Líbia, a cobardia de Sarkozy e de Cameron não deixou que o mesmo se repetisse, a “Europa” já nem para “lavar a loiça” serviu.

Obama nunca mais confiou em nenhum líder europeu a não ser em Angela Merkel. Esta acaba de apelar à mobilização do continente. Vale mais tarde do que nunca.

sexta-feira, 12 de maio de 2017

O carrossel europeu*

* Hoje no Jornal do Centro




1. Nas presidenciais francesas, o voto europeísta passou dos 18,2 milhões na primeira volta para os 20,8 milhões de votos da segunda volta que elegeram o presidente Emmanuel Macron; já os 16,4 milhões de votos anti-europeus da primeira volta mingaram para 10,6 milhões. De nada valeu a Marine Le Pen a ajuda de Jean-Luc Mélenchon que foi incapaz de apelar ao voto em Macron.

Por cá, o nosso bloco de esquerda, apoiante de Mélenchon, andou a chafurdar num “nem-nem” absurdo, como se fosse a mesma coisa a França eleger Macron ou uma xenófoba como Le Pen.

Depois do Brexit, a “Europa” tem conseguido resistir ao populismo. Resistiu em Espanha, três dias depois do referendo britânico, ao retirar um milhão de votos ao Podemos, resistiu na Áustria, na Holanda, agora na França, e vai resistir na Alemanha.

O social-democrata Martin Schulz está a perder gás, como se viu no domingo passado em Schleswig-Holstein, mas, quer venha a ser ele o novo chanceler ou Angela Merkel consiga o seu quarto mandato, nada de fundamental mudará na política do maior país da União Europeia.

É claro que a UE é um carrossel sempre em sobressalto: na Itália, o eurofóbico Movimento 5 Estrelas está à frente nas sondagens e quer eleições antecipadas. Como lembrou Andrea Rizzi numa extraordinária análise à eleição de Macron publicada no El País, não é a visível recuperação económica na “Europa” que parará a “Medusa” populista — se fosse assim, o pleno emprego e o crescimento obtido por Obama tinham eleito Hillary e não Donald Trump.

Trump e Putin puseram as suas fichas em Marine Le Pen (Putin meteu dinheiro também) e perderam. Vão perder mais vezes.

2. A ideia de candidatar António Carlos Figueiredo em S. Pedro do Sul é para o PSD mostrar solidariedade com o PS que, em Tabuaço, leva a votos João Ribeiro também a contas com a justiça?

3. E se, depois de tudo o que aconteceu, Oeiras elege de novo Isaltino Morais?

sexta-feira, 28 de abril de 2017

França*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Na primeira volta das presidenciais, houve 18,2 milhões de franceses a votar em candidatos europeístas e 16,4 milhões em candidatos anti-europeus.


Daqui

Logo que foram conhecidos os resultados, quer o gaullista François Fillon quer o socialista Benoît Hamon foram decentes e recomendaram o voto na segunda volta em Emmanuel Macron. Já os candidatos paroquiais derrotados — quer Jean-Luc Mélenchon (por quem torceu o nosso bloco de esquerda), quer Nicolas Dupont-Aignan (que obteve uns surpreendentes 1,7 milhões de votos com o seu "Debout La France") — hesitam no endosso para a segunda volta. Hesitação que enche de júbilo a Frente Nacional (FN) de Marine Le Pen.


Como se vê, a tradicional linha de fractura que separava a esquerda da direita perdeu capacidade explicativa dos alinhamentos políticos. 

Jean-Luc Mélenchon não tem nada em comum com o pró-europeu Macron mas é farinha do mesmo saco soberanista de Marine Le Pen e esta começou logo, no domingo à noite, a namorar o eleitorado do candidato esquerdista.

2. Nas regionais de 2015, Le Pen teve 32,5% dos votos de casais homossexuais, acima dos 29% de casais heterossexuais. Ainda não achei números desagregados da votação de domingo, mas o voto LBGT na FN deve ter-se solidificado.

Isto só poderá surpreender quem anda distraído. Por um lado, a homofobia do radicalismo islâmico é letal, por outro, a líder da FN tem feito tudo para se distanciar das antigas posições trogloditas de seu pai e tem dado lugares de destaque a activistas homossexuais, a começar pelo seu vice Florian Philippot.

3. O Cine Clube de Viseu exibe a 2 de Maio, na próxima terça-feira, “Esta terra é nossa”, um filme acabado de estrear cuja história pôs Florian Philippot furioso a bradar que era um “filme claramente anti-Frente Nacional”.

Este filme polémico de Lucas Belvaux ...



... pode ajudar-nos a perceber o que vai fazer Marine Le Pen na campanha da segunda volta. As sessões do CCV são abertas a sócios e não sócios.

sexta-feira, 14 de abril de 2017

Stress*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

1. Acabo de receber um telefonema do director do Jornal do Centro a avisar-me que, nesta santa semana, o jornal fecha a edição mais cedo. Fico com um niquinho de tempo para escrever este Olho de Gato. Tenho ideia que uma vez, em igual emergência, titulei uma crónica com o mesmo “stress” desta, mas não dá tempo para ir aos arquivos fazer “verificação de factos”.

2. Esta semana, nas redes sociais, está a malhar-se com brio numa campanha publicitária da câmara de Viseu em que a cidade assume não ser Florença, nem Bordéus, nem a Islândia, nem ..., tudo factos indesmentíveis. Mas todas a imagens deixam subentendido que Viseu, não sendo Florença ou a Broadway, mesmo assim pede meças a elas, o que, no mínimo, é temerário, e, no máximo, é um fateloso “gaba-te, cesto!”




A câmara de Viseu poderá sempre gozar os seus warholianos “cinco minutos de fama” e recorrer aos velhos e relhos argumentos: “não importa que falem mal de ti, o que importa é que falem”, “não há nunca má publicidade”. 




Os viseenses é que prefeririam que António Almeida Henriques lhes devolvesse 5% de IRS em vez de andar a derreter dinheiro em campanhas publicitárias da treta.

Assunto a regressar ainda em Abril, mês de IMI e IRS.

3. Tique-taque-tique-taque. Stress. Há que fechar este texto.

Em entrevista ao El País, o primeiro-ministro António Costa, num castelhano impecável, afirmou que se Luis de Guindos, o competente ministro das finanças espanhol, estiver “disponible” para chefiar o eurogrupo, ele será “nuestro candidato”.

Estás despedido, Jeroen Dijssemlbloem, meu safadote. Daqui a uns meses vais ter muito tempo livre para gastares em gajas e vinho verde. Recomendo-te uma esplanada portuguesa com vista para o mar. Pede um Alvarinho bem fresco a acompanhar um rodovalho.

Infelizmente, Jeroen, como bem sabes, os portugueses gastaram tudo “em mulheres e álcool” e deixaram fechar o Elefante Branco. Mas encontrarás sempre um plano B.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Tempos amáveis*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. A prensa tipográfica com caracteres móveis foi inventada por Gutenberg em 1445 e em poucas décadas espalhou-se pela Europa.

No poderoso império otomano é que aquela modernice não entrou. Em 1485, o sultão Bayezid II proibiu a impressão, proibição só levantada em 1727 quando Ahmed III autorizou Ibrahim Müteferrika a montar uma prensa, mas tudo sujeito ao assentimento prévio de três estudiosos da religião, os cádis. A família Müteferrika, em setenta anos, só foi autorizada a imprimir vinte e quatro livros e acabou por desistir do negócio.

O medo das elites de que o saber e o novo possam pôr em causa o seu poder sempre foi uma desgraça para os povos. Tayyip Erdoğan não tem feito menos mal ao conhecimento turco do que fizeram os sultões otomanos. Desde 15 de Julho, o autocrata já fechou mais de duas mil escolas e universidades, demitiu 7316 académicos, fechou 149 órgãos de comunicação social e prendeu 162 jornalistas.

Erdoğan tentou fazer comícios na Holanda. Com isso, o “sultão” turco quis beneficiar o islamófobo e putinista Geert Wilders. A ajuizar pelas sondagens, pode ter-lhe saído o tiro pela culatra. Oxalá!

2. Vivem-se tempos amáveis e distendidos no Portugal político. Até a crispação dos rebanhos partidários nas redes sociais anda mais branda.

A geringonça lá vai cumprindo com brio o seu “não-há-vida-para-além-do-défice”. Depois de, em 2009 e 2010, termos tido dois buracos sucessivos de uns loucos vinte mil milhões de euros, o país tem vindo a diminuir o défice público ano após ano. Em 2016, ficou abaixo dos quatro mil milhões de euros. Há que continuar este esforço.

A seguir ao “para-além-da-troika” de Passos, temos agora o “para-além-do-tratado-orçamental” de Costa. 


Daqui
O sr. Moscovici e o sr. Dijsselbloem estão contentes com as cativações de António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. E assistem, com bonomia, à retórica anti-europeia, para consumo interno, das lideranças bloquistas e comunistas .

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Vetocracia*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Mário Soares não gostava nada que o chamassem “pai da democracia” e, quando tal ouvia, respondia com a velha tirada de Vasco Santana: “vai chamar pai a outro!”

A verdade é que a nossa democracia, mesmo não sendo irmã de Isabel e João Soares, deve ao pai deles duas coisas inestimáveis: a liberdade e a “Europa”.

Ambas a precisarem de um novo Mário Soares que as defenda. A liberdade é posta em causa todos os dias por um estado pan-óptico que quer saber tudo da nossa vida e que mantém uma justiça disfuncional e um fisco fascista. Já a “Europa” está a ser atacada duramente pelos populismos patrioteiros, entre nós por enquanto mais de esquerda do que de direita.

O último trabalho político que fiz foi na campanha de Mário Soares, nas presidenciais de 2006. Relembro o que escrevi aqui na altura em resposta aos estupores que tanto se alegraram com aquela amarga derrota do velho leão: “só há três nomes que vão ficar na história da república portuguesa: Afonso Costa, Oliveira Salazar e Mário Soares.”

2. Conforme notou Francis Fukuyama, o sistema político dos Estados Unidos da América evoluiu para uma vetocracia: os vários contra-pesos constitucionais “metastizaram-se” e bloqueiam o governo.

Esta “paralisia” de Washington, durante os oito anos de Obama, foi-se tornando cada vez mais evidente. Dois exemplos: apesar de todos os esforços de Barack, o offshore judicial de Guantánamo continua operacional e a venda de armas continua na mesma.

Agora, com Trump, é de esperar que o Congresso e o Senado continuem a fazer valer a sua força vetocrática. A vitória do milionário foi humilhante para os hierarcas do partido republicano. É expectável que estes, agora, não facilitem a vida ao novo inquilino da Casa Branca.

3. Aos 22 anos, Nuno Bico acaba de entrar na Movistar, a melhor equipa ciclista do mundo. Além de atleta de eleição, o jovem viseense, na excelente entrevista que deu a este jornal, mostrou ter uma cabeça bem arrumada.
Força, Nuno Bico!


sexta-feira, 6 de janeiro de 2017

2017*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Ao começar o ano, esta coluna reafirma-se adepta e praticante do método de Norberto Bobbio: devemos escolher uma parte , depois dessa escolha feita, há que exercer o juízo crítico com severidade, especialmente com a nossa parte.

2. Lá mais para o Outono, vamos ter eleições legislativas na Alemanha e autárquicas em Portugal.

Nas primeiras, joga-se o destino da “Europa” e esta coluna “vota” na decência de Angela Merkel, a única política europeia que merece respeito, como se tem visto na crise dos refugiados.

As autárquicas, que o loquaz Marcelo já colocou em Outubro, não têm nada de estrutural, mas, naturalmente, vão ser tratadas aqui ao longo do ano.

3. A última edição deste jornal informou-nos que já há dois pré-candidatos a candidato socialista à câmara de Viseu: Lúcia Silva e João Cruz. Criaturas de aparelho — ela ainda sem um lugarzito de nomeação —, nenhum dos dois tem sequer meia ideia política sobre a cidade e o concelho.

Se o PS-Viseu não arranjar melhor, fica aberta uma “janela de oportunidade”, como se costuma dizer em politiquês, para o bloco de esquerda, com um candidato mobilizador, tentar estrear-se na vereação.


Jorge Sobrado
Fotografia daqui
4. Jorge Sobrado, o omnipresente adjunto de António Almeida Henriques, tem sido posto por este a fazer tudo, até o trabalho que devia ser dos vereadores. E Sobrado começa a não chegar para as encomendas: a segunda edição da Street Art não teve nem metade do brilho da primeira; a sua última intervenção no Teatro Viriato foi um desastre ao defender um nome que acabou por recusar ser directora artística.

Para piorar as coisas, mal Paula Garcia assumiu a direcção do Viriato, logo veio o mal aconselhado presidente da câmara fragilizá-la.

Oxalá este tiro no pé não venha a pôr em causa a continuação do apoio do ministério da cultura ao teatro municipal. Apoio muito invejado por esse país fora que foi conseguido, em 1998, por Fernando Ruas e Paulo Ribeiro e que vai estar em reavaliação pelo actual governo.

sexta-feira, 9 de dezembro de 2016

Paciente zero*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Chama-se “paciente zero” ao iniciador de uma epidemia. No caso da sida nos EUA, essa maldição foi atribuída erradamente ao comissário de bordo Gaëtan Dugas, falecido em 1984. Embora ele tivesse sido um espalhador do HIV nas saunas gay das cidades onde aeroportava, a verdade é que não foi o primeiro: recentes análises a amostras de sangue recolhidas nos anos de 1970 mostram que o HIV já circulava antes em Nova York.

Acrescente-se: o nome de Gaëtan constava de um estudo científico mas nunca devia ter vindo a público, foi um jornalista inescrupuloso que, para se best-sellar, o prantou num livro sobre a sida.

Num artigo de 29 de Outubro no New York Times, Donald G. McNeil Jr interroga-se sobre se, eticamente, é correcta esta procura científica pelo “paciente zero”. A resposta é afirmativa, é importante saber-se a origem de uma epidemia e, ainda mais, identificar os super-espalhadores, alguns deles assintomáticos, a quem o “bicho” não mata mas mata quem eles contagiam.

2. O festival “Tinto no Branco” trouxe, a Viseu, Bruno Vieira do Amaral e Fernando Pinto do Amaral para indagarem “que mestres restam à literatura”.


 Fernando Pinto do Amaral, Maria João Costa (moderadora) e Bruno Vieira do Amaral
Fotografia Olho de Gato

Os dois escritores foram excelentes: não se ficaram pelas historiecas usuais dos festivais literários, muito menos pelo exercício de atirar nomes para o Olimpo.

Bruno Vieira do Amaral sublinhou que onde há mestres há discípulos, tensão entre eles e necessidade dos segundos se rebelarem contra os primeiros.

Já Fernando Pinto do Amaral definiu mestre como aquele que “cria um território novo”, como é o caso de Aquilino que até “inventou uma língua nova”. Para ele, agora já não há tensão nenhuma, os discípulos glosam, todos prazerosos, os mestres. E acrescentou: um mestre é o “paciente zero”, o “inaugurador de uma epidemia”.

3. Duas magníficas notícias: a Itália disse não ao sinistro plano do sr. Renzi de concentração de poderes no governo e a Áustria não se tornou no “paciente zero” da Europa.