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segunda-feira, 15 de abril de 2019

Coisas concretas

Fotografia de Noah Baslé



Estou sentada na cozinha, enquanto a massa ferve.

Amo as coisas concretas
descobrir seus nomes ao pequeno-almoço:
despertador, chuva na calçada, supermercado,
beijos na siesta,
um copo de vinho, amigos,
as pequenas mãos de meu filho,
pessoas na praça,
tu...

Elas produzem as mais doces e lânguidas cócegas,
como um banquete após o jejum.
Parece-me impossível afastar-me de tais coisas:
colam-se à minha caneta e parece que não consigo sacudi-las.

No entanto,
as coisas concretas não permitem atrasos,
e a massa já está pronta.
Assim é a vida.
Quando o semear do poema começava a germinar,
eis que o mundano vem intrometer-se.
E lá tenho eu que me levantar da mesa,
enquanto a sombra de um bilioso humor assenta.
Miren Agur Meabe
Trad.: Amaia Gabantxo



domingo, 14 de abril de 2019

Poesia e propaganda

Fotografia de Daniele Salutari



Hei-de mandar arrastar com muito orgulho,
pelo pequeno avião da propaganda
e no céu inocente de Lisboa,
um dos meus versos, um dos meus
mais sonoros e compridos versos:

E será um verso de amor...
Alexandre O'Neill


sábado, 13 de abril de 2019

Calibre 24

Fotografia de Edu Lauton




O coração na boca, as pernas trémulas
e o cuzinho na mão, piso o batente.
Que nem moela, o meu vulnerável
à flor de mim exposto, isca de cães.
Não obstante,

acredito piamente no homem, sério!,
mas êta racinha à toa, ordinária!
Todo cuidado é pouco, nunca esqueço
das palavras no coldre e a língua no gatilho.
Waldo Motta


sexta-feira, 12 de abril de 2019

Ela tinha uma amiga

Fotografia de Eliott Reyna

Ela tinha uma amiga chamada Maria
Que era quem me atendia quando eu telefonava
Ela tinha uma amiga chamada Maria
A quem ela dizia para dizer que não estava

E quando eu insistia, e não desligava
Era sempre a Maria
Que me mentia e me consolava
E perguntava o que é que eu lhe queria

Ela tinha uma amiga chamada Maria
Que nunca sabia por onde ela andava
Ela tinha uma amiga chamada Maria
De quem se servia quando me enganava

E quando eu lá ia, e não a encontrava
Era sempre a Maria
Que me dizia que ela não tardava
Que me jurava que ela voltaria

Quando eu ia buscá-la, e a gente saía
Era sempre a Maria que nos animava
Quando eu a convidava, e ela não queria
Era com a Maria que eu sempre dançava

E quando eu inventava uma melodia
Era sempre a Maria
Que me aplaudia, e ela não ligava
E eu ficava a cantar prá a Maria

No cinema, no escuro, quando eu a beijava
Ela empalidecia, a Maria corava
Ela não me ligava e adormecia
E era com a Maria
Que eu conversava
E que eu ficava quase até ser dia

Ela tinha uma amiga chamada Maria
A quem ela dizia p’ra dizer que não estava
Até que outro dia ela me telefonou
E eu disse: Maria...
E eu disse: Maria!
E eu disse: “Maria, vai dizer que eu não estou!”
Letra: Manuela de Freitas
Música: José Mário Branco







quinta-feira, 11 de abril de 2019

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Os maridos das outras

Fotografia de Mariya Georgieva


Toda a gente sabe que os homens são brutos
Que deixam camas por fazer
E coisas por dizer.
São muito pouco astutos, muito pouco astutos.
Toda a gente sabe que os homens são brutos.
Toda a gente sabe que os homens são feios
Deixam conversas por acabar
E roupa por apanhar.
E vêm com rodeios, vêm com rodeios.
Toda a gente sabe que os homens são feios.
(...)

terça-feira, 9 de abril de 2019

El presente

Fotografia de Dinesh Kumar Nanduri



Hoy todo lo que escriba será un plagio
del anónimo verso endecasílabo
que tu aliento derrama por mi espalda
para borrarme el nombre y la conciencia,
las edades, las culpas y los miedos,
el pasado evidente y el futuro
que no quiero soñar por si se rompe.

Sólo soy este instante adormecido
en el cálido abrazo del presente.
Ana Montojo


segunda-feira, 8 de abril de 2019

It's a new dawn

Fotografia de Jessica Felicio



It's a new dawn
It's a new day
It's a new life
For me
And I'm feeling good



domingo, 7 de abril de 2019

Sunday night in Santa Rosa

Fotografia de Conor Samuel


The carnival is over. The high tents,
the palaces of light, are folded flat
and trucked away. A three-time loser yanks
the Wheel of Fortune off the wall. Mice
pick through the garbage by the popcorn stand.
A drunken giant falls asleep beside
the juggler, and the Dog-Faced Boy sneaks off
to join the Serpent Lady for the night.
Wind sweeps ticket stubs along the walk.
The Dead Man loads his coffin on a truck.
Off in a trailer by the parking lot
the radio predicts tomorrow's weather
while a clown stares in a dressing mirror,
takes out a box, and peels away his face.
Dana Gioia


sábado, 6 de abril de 2019

La maldición

Fotografia de Aziz Acharki



Que te pierdas en un bosque.
Que tardes
muchas veces
muchos años
en dar con la salida.
Y que cuando logres escapar,
y me busques,
y no me encuentres,
comprendas al fin
que tú eras el amor,
y yo, el bosque.
Alfonso Brezmes



sexta-feira, 5 de abril de 2019

The ballad of the lonely masturbator

Fotografia de Yuris Alhumaydy


The end of the affair is always death.
She’s my workshop. Slippery eye,
out of the tribe of myself my breath
finds you gone. I horrify
those who stand by. I am fed.
At night, alone, I marry the bed.

Finger to finger, now she’s mine.
She’s not too far. She’s my encounter.
I beat her like a bell. I recline
in the bower where you used to mount her.
You borrowed me on the flowered spread.
At night, alone, I marry the bed.

Take for instance this night, my love,
that every single couple puts together
with a joint overturning, beneath, above,
the abundant two on sponge and feather,
kneeling and pushing, head to head.
At night alone, I marry the bed.

I break out of my body this way,
an annoying miracle. Could I
put the dream market on display?
I am spread out. I crucify.
My little plum is what you said.
At night, alone, I marry the bed.

Then my black-eyed rival came.
The lady of water, rising on the beach,
a piano at her fingertips, shame
on her lips and a flute’s speech.
And I was the knock-kneed broom instead.
At night, alone, I marry the bed.

She took you the way a woman takes
a bargain dress off the rack
and I broke the way a stone breaks.
I give back your books and fishing tack.
Today’s paper says that you are wed.
At night, alone, I marry the bed.

The boys and girls are one tonight.
They unbutton blouses. They unzip flies.
They take off shoes. They turn off the light.
The glimmering creatures are full of lies.
They are eating each other. They are overfed.
At night, alone, I marry the bed.
Anne Sexton


quinta-feira, 4 de abril de 2019

Amigo aprendiz

Fotografia de Bao Truong


Quero ser o teu amigo.
Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias...
Fernando Pessoa


quarta-feira, 3 de abril de 2019

Tear the fascists down

Daqui
There's a great and a bloody fight
'round this whole world tonight
And the battle, the bombs and shrapnel reign
Hitler told the world around he would tear our union down
But our union's gonna break them slavery chains
Our union's gonna break them slavery chains

I walked up on a mountain in the middle of the sky
Could see every farm and every town
I could see all the people in this whole wide world
That's the union that'll tear the fascists down, down, down
That's the union that'll tear the fascists down

When I think of the men and the ships going down
While the Russians fight on across the Don
There's London in ruins and Paris in chains
Good people, what are we waiting on?
Good people, what are we waiting on?

So, I thank the Soviets and the mighty Chinese vets
The Allies the whole wide world around
To the battling British, thanks, you can have ten million Yanks
If it takes 'em to tear the fascists down, down, down
If it takes 'em to tear the fascists down

But when I think of the ships and the men going down
And the Russians fight on across the Don
There's London in ruins and Paris in chains
Good people, what are we waiting on?
Good people, what are we waiting on?
So I thank the Soviets and the mighty Chinese vets
The Allies the whole wide world around
To the battling British, thanks, you can have ten million Yanks
If it takes 'em to tear the fascists down, down, down
If it takes 'em to tear the fascists down
Woody Guthrie 




terça-feira, 2 de abril de 2019

Se quereis ser fino amante

Buffalo 66

Se quereis ser fino amante
e dessa Senhora amado
o que tendes de picado,
haveis de ter de picante.
Este é remédio importante;
se ela a versos se aplica,
fazei-lhe uma canção rica
se a quereis namorar.
Porém, se a quereis picar,
usai com ela de pica.
Dom Tomás de Noronha





segunda-feira, 1 de abril de 2019

Sistemas de equação tridimensional, dum mistério a desvendar





1 – Variável S:
Tanto tempo são todos os dias de manhã
a tarde e a noite no SUL quando chove.


2 – Variável C:
São todos os tempos no CENTRO de todos
os dias e deste tema por (a)bordar...


3 – Variável N:
(e porque)
são todos os tempos de colheita se a
ironia ancestral da vida troveja sobre
o sempre também a NORTE da humanidade?
Lopito Feijoó



domingo, 31 de março de 2019

A carta

Imagem de Kelly Sikkema

Assim não se esperam cartas.
Assim se espera — a carta.
Pedaço de papel
Com uma borda
De cola. Dentro — uma palavra
Apenas. Isto é tudo.

Assim não se espera o bem.
Assim se espera — o fim:
Salva de soldados,
No peito — três quartos
De chumbo. Céu vermelho.
E só. Isto é tudo.

Felicidade? E a idade?
A flor — floriu.
Quadrado no pátio:
Bocas de fuzil.

(Quadrado da carta:
Tinta, tanto!)
Para o sono da morte
Viver é bastante.

Quadrado da carta.
Marina Tsvetáeva
Trad.: Augusto de Campos

Ana Luísa Amaral e Luís Caetano conversam sobre Marina Tsvetaéva: ouvir aqui


sábado, 30 de março de 2019

Deslealdade






Ora nós, que elogiamos muita coisa em Homero, não louvaremos
uma [...] Nem Ésquilo, quando faz dizer a Tétis que Apolo, ao
cantar nos seus esponsais, exaltara a sua bela progénie,

de vida isenta de doenças e de longa duração,
Depois que anunciou que de tudo, no meu destino,
cuidariam os deuses,
entoou o péan para minha alegria.
Julgara eu que era sem dolo, de Febo
a boca imortal, plena de arte dos oráculos
E ele, o mesmo que cantou este hino[...]
[...]ele mesmo é que o matou,
esse filho que é meu.
Platão, República II (383a -b)


Quando casavam Tétis com Peleu
levantou-se Apolo no esplêndido festim
do casamento, e falou da ventura dos recém-casados
com o rebento que sairia da sua união.
Disse: A este nunca lhe tocará a doença
e terá vida longínqua. - Quando disse isto,
Tétis alegrou-se muito, pois as palavras
de Apolo que conhecia de profecias
lhe pareceram garantia para o seu filho.
E enquanto Aquiles crescia, e era
a sua beleza alarde da Tessália,
Tétis lembrava-se da palavra do deus.
Mas um dia chegaram velhos com notícias
e disseram a chacina de Aquiles em Tróia.
E Tétis rasgava a sua roupa púrpura,
e arrancava de cima de si e atirava
ao chão as pulseiras e os anéis.
E por entre seus prantos lembrou-se do passado;
e perguntou o que fazia o sábio Apolo
por onde andava o poeta que nos festins
maravilhosamente fala, por onde andava o profeta
quando matavam o seu filho na flor da vida.
E responderam-lhe os velhos que Apolo
ele próprio desceu a Tróia
e com os troianos matou Aquiles.
Konstandinos Kavafis
Trad.: Joaquim Manuel Magalhães
e Nikos Pratsinis


sexta-feira, 29 de março de 2019

Nas tuas mãos

Fotografia de Mitch Lensink

Primeiro pegarei
nas tuas mãos
procurando os sinais
de difícil leitura:
cefeidas
supernovas
planetas exteriores
em que pulsa
a memória
em que o destino
quebra
e a morte se introduz
como estrutura.
Yvette Centeno


quinta-feira, 28 de março de 2019

Fado das Horas

Fotografia de Tom Byrom

Chorava por te não ver
Por te ver eu choro agora
Mas choro só por querer
Querer ver-te a toda a hora

Passa o tempo de corrida
Quando falas e eu te escuto
Nas horas da nossa vida
Cada hora é um minuto

Quando estás ao pé de mim
Sinto-me dona do mundo
Mas o tempo é tão ruim
Tem cada hora um segundo

Deixa-te estar a meu lado
E não mais te vás embora
Para meu coração coitado
Viver na vida uma hora









quarta-feira, 27 de março de 2019

Janelas

Fotografia de Kinga Cichewicz

Minha amada me diz: — Mete.
Céus! Me sinto um meteoro —
e vou indo, feito um globo,
feito um bobo, uma vedete,
um luminoso sinistro.
Ela quer, alguém diria
(quem diria?), ela reflete
compenetrada alegria
por me sentir tão minério,
penhascos e companhia:
essa praia e seus mistérios.
A natureza copia
o que inventamos, aéreos.
Minha amada me diz: — Vem.
Um turbilhão nos trabalha.
O mesmo nos atrapalha,
como quem diz: — Eu também.
Palavras giram no avesso
e nelas nos reconheço
alados, entrelaçados
e realçados por essas
sombras de traços,
espaços
de intraduzíveis janelas.
Rubens Rodrigues Torres Filho