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sexta-feira, 12 de abril de 2019

Não se sentiu...*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Há um mês, num texto intitulado “Quem não se sente...”, alertei aqui o presidente da câmara de Viseu que lhe ficava muito mal estar a dar gás ao coreógrafo Paulo Ribeiro depois de este ter abandonado, em 2016, por sua única e exclusiva vontade, a direcção do Teatro Viriato, e ter vindo agora, anos depois, alegar que foi vítima de um “despedimento ilícito” e tentar sacar, em tribunal, 50 mil euros àquela entidade municipal.

Como é evidente, um bom líder “sente-se” e, por isso, põe-se ao lado do que é seu e está a ser atacado, não se põe ao lado do atacante.

O facto é que António Almeida Henriques, mesmo depois de avisado, “não se sentiu...” E fez pior: para além de ter mantido a encomenda de um espectáculo ao litigante, ...
Fotografia de José Ricardo Ferreira
(editada)
... sentou-se ao seu lado numa conferência de imprensa no exacto teatro demandado em tribunal. E, apesar de ter ouvido o homem confirmar aos jornalistas que ia continuar a exigir os 50 mil euros, mesmo assim, afirmou que aquilo ia ser “um grande momento das comemorações dos 20 anos do Teatro Viriato”.

Este episódio, do princípio ao fim, foi tudo menos “um grande momento” do que quer que seja.

A esta deserção do autarca de Viseu na defesa do seu teatro municipal some-se o seu défice de rigor gestionário: acaba de saber-se que a câmara de Viseu, em 2018, teve um resultado líquido negativo de 3.573.148,97 euros.

2. As eleições europeias de Maio são feitas num quadro político inédito: a UE tem dois inimigos declarados, Trump e Putin.

O presidente norte-americano e o presidente russo estão a apoiar partidos soberanistas de direita e de esquerda, hostis à “Europa”. Enquanto Putin faz as coisas mais na sombra, Trump é menos subtil. O seu estratega, Steve Bannon, não sai do velho continente a organizar uma internacional de ultra-direita.

É um sinal dos tempos: os vários nacionalismos europeus sempre foram historicamente hostis aos norte-americanos e aos russos. Agora, são lacaios deles.

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Gê Dois*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 10 de Abril de 2009 


1. A última cimeira dos G20 serviu para se atirar uma montanha de dinheiro para cima da crise e para se perceber que Barack Obama consegue moderar o fogo que lavra na economia mundial mas não é capaz de o apagar.

E a Europa?

A Europa mostrou-se como de costume: umas bravatas de Sarkozy, umas gaffes de Berlusconi e uma irrelevância chamada Durão Barroso.

Valha-nos a sensatez de Angela Merkel que não vai em keynesianismos de 25ª hora e, ao menos, tem uma ideia na cabeça para esta tempestade: apostar na solidez do euro.

Este G20 foi o décor londrino para mais um capítulo do drama a dois entre os Estados Unidos e a China.



Obama e Hu Jintao prosseguiram o seu G2 particular que está no epicentro desta crise global. O maior devedor mundial e o seu maior credor necessitam ambos que o valor do dólar não caia. Pelo menos muito depressa.

2. Recebi um mail de Lisa A. Saleh, senhora de quem nunca tinha ouvido falar.

Ela apresenta-se como “uma viúva de idade que sofre de doença prolongada” que herdou do seu “último marido” 3,5 milhões de dólares e que “precisa de uma pessoa honesta e temente a Deus que possa usar os fundos no trabalho de Deus a ajudar os menos privilegiados”.

Lisa A. Saleh reserva 1,2 milhões de dólares “para meu uso pessoal” neste trabalho misericordioso.

Depois pede-me dados pessoais bastante intrusivos e está à espera da minha resposta para o e-mail: mrslisa52@yahoo.co.th.

Pode esperar sentada numa cadeira confortável pela minha resposta. Deixo o e-mail da senhora para alguém interessado…

3. Está na fase de acabamentos uma nova rotunda no centro de Viseu que merece um especial carinho.

É um círculo perfeito.

À volta, bordejando toda a circunferência, tremeluzem dezenas de “olhos de gato”.

Esta coluna agradece a homenagem.

quarta-feira, 3 de abril de 2019

Isto está bravo*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 3 de Abril de 2009 

1. Os anos de capital abundante e acessível já lá vão. Os bancos centrais estão a tipografar doses maciças de liquidez mas o dinheiro não chega às famílias nem às empresas. O motor da economia mundial gripou.

Desde Fevereiro de 2006, o think tank europeu LEAP/Europe2020, nos seus trabalhos de prospectiva, descreve a economia mundial a caminho de uma “crise sistémica global”. Os seus boletins mensais têm acertado no essencial, o que significa que os políticos — que têm acesso a todo o tipo de informação privilegiada — andaram anos a dormir na forma.

Em 24 de Março, o LEAP escreveu uma carta aberta dirigida aos líderes mundiais presentes na cimeira dos G20, em Londres.

Nessa carta aberta, facilmente encontrável na internet, os líderes mundiais são colocados perante a seguinte escolha: ou resolvem de uma forma concertada “uma crise de 3 a 5 anos” ou não evitamos “uma longa crise de pelo menos uma década “. É que isto está mesmo bravo!

O LEAP dá três conselhos aos G20:

i) Criação de uma nova divisa internacional a partir de um cabaz das principais moedas mundiais;

ii) Controle global do sistema bancário com eliminação dos “buracos negros” (offshóricos e não só…);

Daqui
iii) Avaliação independente e rápida, o mais tardar até Julho deste ano, dos sistemas financeiros americano, britânico e suíço (os mais infectados).

Esta é a primeira crise económica global. São precisas soluções globais. Uma política de “cada um por si” é a receita certa para o desastre.

É de lembrar a velha ideia de Montesquieu: comércio entre os povos é igual a paz. O contrário já se sabe a que é igual.

2. Esta crónica tuíta em twitter.com/olhodegato.
Com o lema de sempre: “Olhos e, se necessário, unhas”.

quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

DREN*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 27 de Fevereiro de 2009


1. Continuam as anedotas da DREN. Desta vez não é uma história de bufaria. Desta vez Margarida Moreira impôs que fosse feito um desfile de carnaval em Paredes de Coura, actividade que o agrupamento de escolas do concelho tinha decidido não fazer.
Eis, ipsis verbis, o último ponto do documento que Margarida Moreira enviou a desautorizar o conselho pedagógico de Paredes de Coura:

"Sendo certo que muitos professores não se aceitam o uso dos alunos nesta atitude inaceitável, acompanharemos de muito perto a defesa do bom nome da escola, dos professores e de toda uma população que muito tem orgulhado o nosso país pela valorização que à escola tem dado."

É evidente que quem escreve com esta qualidade pensa com esta qualidade.

Os professores de Paredes de Coura foram humilhados até ao que há de mais fundo na sua dignidade profissional.

Como se costuma dizer no Minho, perante tal desaforo, aqueles professores ou mandavam a DREN abaixo de Braga (e não compareciam ao desfile) ou mandavam a DREN abaixo de Braga (e aproveitavam o desfile para mostrarem a sua indignação).
Escolheram a segunda opção. 
Daqui
As imagens em todos os media de professores vestidos de preto e de boca amordaçada foram bem eloquentes.

2. Antigamente, em várias comunidades piscatórias, quando morriam pescadores no mar, as viúvas e os outros familiares apedrejavam as capelas. Com o desespero, pegavam nos santos, lapidavam-nos, insultavam-nos e enterravam-nos na areia. Eram os santos, que não tinham culpa nenhuma das inclemências do mar, que pagavam.

A economia mundial afundou-se por causa da ganância do capital especulativo. Cresce o desespero e o desespero não é bom conselheiro. Quem é que vai ser apedrejado?

quarta-feira, 30 de janeiro de 2019

A ventoinha*

* Texto publicado no Jornal do Centro há dez anos, em 30.1.2009


1. Ano de eleições é ano de fervenças em pouca água.

Mal se acabaram de cantar as janeiras logo apareceu José Cesário, líder distrital do PSD, de kalasnhikov na mão, a exigir a demissão da directora do centro de emprego de Lamego.
        
Como é óbvio, na resposta, José Junqueiro lembrou-lhe casos complicados nas câmaras de Lamego, de Castro Daire e de Mangualde. 

Já se sabe: quando se atira lama para a frente da ventoinha, sai lama em todas as direcções.



2. Filmados nos anos de 1970, os 68 episódios da multi-premiada Família Bellamy contaram as aventuras e desventuras duma família aristocrática e dos seus empregados. O título original desta excelente série televisiva — Upstairs, Downstairs, ou o usado em Espanha — Arriba y Abajo explicavam melhor aquele mundo: os andares no cimo da escada eram para os senhores, os de baixo para os criados.
     
Depois da queda do muro de Berlim e da vitória do capitalismo, a divisão de tarefas entre o poder económico e o poder político passou-se a parecer muito com a Família Bellamy. No andar de cima, os donos do dinheiro mandavam; no andar de baixo, os políticos tratavam-lhes da intendência.
     
O resultado, depois de anos de ganância e irresponsabilidade, é a crise gravíssima que estamos a viver. Os do andar de cima começaram a pedir ajuda aos políticos. Para já, a resposta tem vindo em planos de recuperação e avales de milhares de milhões de euros.
     
A coisa não vai ficar por aqui. Em tempos de crise, uns ganham e outros perdem, uns sobem e outros descem. Vai haver um engarrafamento upstairs, downstairs na escadaria social.
     
E muitos dos de cima vão descer a escada aos trambolhões empurrados exactamente por aqueles que eram, até há não muito tempo, seus criados.

sexta-feira, 25 de janeiro de 2019

Vetocracia*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Em Washington, os pesos e os contra-pesos constitucionais estão a anular-se uns aos outros. Francis Fukuyama descreve assim este fenómeno: “os Americanos têm muito orgulho numa constituição que limita o poder executivo numa série de controlos. No entanto, esses controlos metastizaram-se. E agora a América é uma vetocracia.”

Daqui
O sectarismo dos dois partidos do poder impede que eles cheguem a compromissos. O actual fecho do governo federal está a bater todos os recordes mas não é nada de novo, é só mais um momento em que a paralisia vetocrática já nem finge que se mexe e, por isso, entra pelos olhos dentro, até dos mais distraídos.

Obama foi torneando com ordens executivas alguns dos bloqueios que lhe eram impostos pelo poder legislativo dominado pelos republicanos, Trump, que acaba de perder a maioria no Congresso, mais tosco e mais preguiçoso, vai tweetando e tenta levar a água ao seu moinho usando as ferramentas aperfeiçoadas por Obama.

Entretanto, já há milhares de funcionários federais sem salário a acorrerem aos bancos alimentares. É mais um sinal da crescente precarização da classe média, fenómeno ocidental que se acentuou a partir da crise sistémica global de 2008 e que é uma bomba-relógio política a causar instabilidade em todas as latitudes.

2. As primeiras semanas deste ano tiveram uns dias gloriosos, ensolarados, bons para passear. Na paisagem, o sol oblíquo de Janeiro iluminava farrapos de névoa, num ou noutro vale, e fumo proveniente das queimadas.

Como é sabido, fogos no inverno são vacinas para os fogos no verão.

Essa profilaxia devia ser mais sistemática, devia usar mais conhecimento do terreno e da meteorologia, e, acima de tudo, devia ser feita com acompanhamento técnico para não acontecerem tragédias como a do dia 14, em Oliveira do Conde, em que morreu uma pessoa de 86 anos.

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

2008*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 26 de Dezembro de 2008

1. Este ano, durante a greve dos camionistas, houve uma corrida aos combustíveis e aos supermercados. Esteve-se a milímetros do caos.

As gerações mais novas, habituadas ao “leve 3 e pague 2”, ficaram a saber o que é açambarcamento de produtos. Os cotas recordaram tempos maus.

2. Foi metido muito dinheiro debaixo dos colchões no período mais agudo da crise dos bancos. Quando, num sábado à tarde, o Multibanco avariou durante uma horas, sentiu-se um calafrio. Ups!

Bismarck disse uma vez que, para sossego social, é melhor as pessoas não saberem como são feitas as leis ou as salsichas. Pelo que se tem visto, é melhor desconhecermos também como é feita a gestão dos bancos. Até para ficarmos tão informados como Vítor Constâncio.

3. Ao longo de 2008 foi aumentando o fosso entre o que diz Maria de Lurdes Rodrigues e a realidade nas escolas. Esse fosso é já um delírio.

A avaliação de professores, de remendo em remendo, de simplex em simplex, ficou só um faz-de-conta irritante.

Muito mais grave: a avaliação dos alunos é agora uma estatística cor-de-rosa sem credibilidade.

4. Neste ano de todos os perigos viu-se bem que o governo tem quatro políticos excepcionais: José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Teixeira dos Santos e Vieira da Silva. É graças a eles que o PS resiste nas sondagens.



5. Uma imagem especular só existe quando há algo à frente do espelho. 

Num espelho não há uma imagem. Num espelho acontece uma imagem.

Até 18 de Janeiro, na ACERT, em Tondela, há uma exposição de fotografias (e espelhos) de Alberto Plácido

Se for lá, e entrar no poliedro que está no meio da galeria, nunca mais esquece a experiência…

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Frankensteins*

* Hoje no Jornal do Centro

O think tank LEAP - Laboratório Europeu de Antecipação Política acaba de publicar um texto merecedor de muita atenção intitulado “Geopolítica das religiões: 2020, o choque dos monstros de Frankenstein”.


Daqui
É que o recente sucesso político dos evangélicos no Brasil, a oitava economia mundial, está longe de ser um fenómeno isolado. Eles já controlam parte dos eleitos nos Estados Unidos da América e estão a alastrar em força em África (especialmente os pentecostalistas).

A igreja católica brasileira ainda é a maior do mundo mas está a perder para os evangélicos meio milhão de fiéis por ano: no virar do milénio, representava 73,6% da população, agora, menos de 50%. Moisés Naím, em O fim do poder, explica esta hemorragia: “as ovelhas não foram roubadas. As ovelhas já não são ovelhas: são consumidoras e encontraram um produto melhor no mercado da salvação.”

Os evangélicos têm algumas regras e valores comuns e o seu sucesso advém-lhes da extrema agilidade com que se podem organizar, já que não têm de prestar contas a nenhuma “hierarquia pré-existente”, nem “lições a receber, instruções a esperar ou ordenações a obter do Vaticano, do Arcebispo de Cantuária ou de qualquer outra autoridade central.”

Entretanto, lembra o texto do LEAP, não são só eles a causarem sarilhos com as suas actividades não-espirituais: hindus extremistas perseguem diariamente cristãos e muçulmanos na Índia, budistas radicais cometem atrocidades contra os rohingya na Birmânia, o bolso sem fundo saudita financia o Daesh, a Al-Qaeda, o Boko Haram, os bolsos menos recheados iranianos pagam outro mostrengo, o Hezbollah, integristas judeus colonizam territórios palestinianos, a lista de horrores não tem fim.

Alguns destes frankensteins foram criados por serviços secretos mas escaparam ao controlo dos seus criadores. Misturam identitarismos religiosos, nacionalistas e étnicos e são um evidente perigo para estes tempos fascinantes que estamos a viver.

sábado, 3 de novembro de 2018

As intercalares dos EUA

A estratégia eleitoral de Trump para as intercalares de terça-feira é clara: malhar nos migrantes, fazer deles uma "ameaça" para os EUA.

A táctica também é clara: aproveitar o novo fenómeno de migração continental, as caravanas, para dramatizar o máximo possível; para além disso que já não era pouco, Trump está também a ameaçar que retira, através de uma "ordem executiva", o ancestral "direito de solo", que dá automaticamente cidadania a qualquer bebé nascido nos EUA.

O público-alvo de Trump também é conhecido — os "deserdados" da globalização (que se percepcionam como tal, mesmo que não o sejam).

Tudo isto é trivial e está a ser dito em todo o lado.

O que não está a ser dito e eu não consigo apanhar informação do terreno é o que está a acontecer com um segmento desse público-alvo que — como planeou Stephen K. Bannon — ia ser especialmente focado: os ex-eleitores de Bernie Sanders e da sua retórica anti-mundialista. 


Steve Bannon, fotografia de Brendan Smialowski/
(daqui)

Se estes eleitores forem apanhados pelas fake-news trumpistas e pelo algoritmo — mais um imigrante = menos um emprego —, e não tenho nenhum indicador sobre isso porque é assunto fora dos radares dos media, as eleições de terça-feira podem ser, tal como aconteceu com as presidenciais de há dois anos, um banho de água gelada para os democratas e o fim da possibilidade de impeachment, apesar da conexão russa e do nepotismo do clã Trump.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

A sangria*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Nas últimas semanas, tem havido más notícias para as estações dos CTT no distrito. Já encerrou a de Armamar (os serviços mínimos agora fazem-se na Junta de Freguesia) e também a de Penedono (o expediente agora é num café).

Daqui


Estão também em risco as de Sernancelhe, de Tabuaço, de S. João da Pesqueira e de Oliveira de Frades. Os presidentes da câmara estão a fazer tudo o que podem para evitar o encerramento. Exasperado, o presidente da câmara de Tabuaço, Carlos Carvalho, propõe-se “fazer com que nenhuma entidade privada aceite ficar à frente do serviço.”

Foram as urgências, os tribunais, a CGD, agora são os CTT. A sangria do interior não pára. Os autarcas bem a tentam anular, atrasar, bloquear, sabotar, estancar, reverter, num esforço muitas vezes inglório mas que merece todo o nosso apoio e solidariedade.

Esta saudação a quem luta o melhor que pode e sabe contra o centralismo não se estende ao presidente da câmara de Penedono. Há uns meses, fartou-se de gastar energia num responso ridículo ao Tintol & Traçadinho, a página de brincadeira e bom-humor deste jornal. Agora, perante o encerramento dos correios da sua terra, não se viu nada.

2. No domingo, um apoiante de Haddad que acabara de votar em Faro sentiu necessidade de afirmar à SIC: «eu sou da esquerda, mas não sou ladrão». Claro que não é. Já o mesmo não se pode dizer do lulopetismo que, só no caso Odebrecht, derreteu entre três a quatro mil milhões de euros (!) em subornos em doze (!) países. Esta cleptocracia levou ao resultado desgraçado que se viu.

O Brasil, agora, fica nas mãos de Jair Bolsonaro que, como é costume nos populistas, vai tentar controlar os tribunais e os media. O que se vai passar com os tribunais é uma incógnita, mas os media têm boas condições para resistir: têm bom jornalismo e têm leitores e anunciantes suficientes para poderem sobreviver aos ataques do poder.

quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Desobras*

* No Jornal do Centro ha exactamente dez anos, em 31 de Outubro de 2008


1. Na Expotec, um robô jogava o jogo do galo com o público. Não sei se jogava bem se jogava mal. Quando passei lá, estava uma pessoa a carregar nos botões e ele respondia com uns braços articulados enormes.



Era um robô excessivo, grande demais, a gastar energia demais, num jogo burro. O jogo do galo, bem jogado, dá sempre empate. É um jogo burro.

Ao ver aquilo, lembrei-me do filme “War Games” (1983), em que o sistema informático do Pentágono toma o freio nos dentes e se prepara para começar uma guerra nuclear. Há um relógio em contagem decrescente para o fim do mundo. Ninguém o consegue parar.

Então, o herói põe a máquina a jogar o jogo do galo. Empata. O computador procura mais recursos. Empata outra vez. Mais energia. Novo empate. Mais energia e mais capacidade de processamento. Empates, mais empates. O sistema concentra-se cada vez mais no jogo do galo. Ziliões de empates em cada segundo. Até que a máquina percebe e diz: “Jogo engraçado: a única maneira de ganhar é não jogar!” E, então, pára a contagem decrescente para o apocalipse. Uffff…




2. Foi numa edição do Público que conheci as ideias de poupança e frugalidade do arquitecto Jean-Philippe Vassal.

Uma das suas coroas de glória é a resposta que o seu atelier deu, em 1996, a uma encomenda da câmara de Bordéus para o embelezamento de uma praça. Quando foram estudar o local, viram uma praça bonita, onde as pessoas se sentiam bem. Em consequência, decidiram não mexer no que estava bem. O projecto que apresentaram à câmara foi não fazer projecto. Em vez de uma obra, fizeram uma desobra.

3. “Envelhecem virgens” tantas casas novas! Não há quem as compre. Estão prontas. Foram obras. Já não podem ser desobras. Quanto tempo vão ficar elas a ganharem teias de aranha?

quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Compasso 331*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 17 de Outubro de 2008 

     
1. No prefácio do seu livro Bem-vindo ao Deserto do Real, Slavoj Žižek chama a atenção para o compasso 331 do último andamento da nona sinfonia de Beethoven. No que é o hino oficioso da União Europeia há um antes e um depois do compasso 331. 


    
Cito Žižek: “depois de ter escutado o tema da alegria nas suas três variações orquestrais e vocais, acontece algo inesperado” e “tudo se degrada e não mais voltamos a encontrar a dignidade simples e solene”.
     
Nesta perspectiva, no compasso 331 do Hino à Alegria há um ponto de viragem mau.

     
2. Portugal também teve o seu compasso 331. Há um antes e um depois do dia 4 de Março de 2001, o dia em que caiu a ponte de Entre-os-Rios. 
Desde esse dia estamos a marcar passo.




O blogue Blasfémias fez as contas: de 2001 a 2007, Portugal cresceu em média 1,1% ao ano. No mesmo período de tempo, Espanha cresceu 3,4% ao ano; a Polónia 4; a Grécia 4,3; a República Checa 4,9. Os países bálticos cresceram quase a 10% ao ano.
     
Vamos no sétimo ano seguido de subida de impostos e de empobrecimento da classe média e dos funcionários públicos. O resultado não é bom: desde 2001, já fomos ultrapassados pela Eslovénia e pela República Checa. Este ano a Eslováquia e a Estónia já ligaram o pisca e vão-nos passar. A Polónia aproxima-se.
     
Com o dinheiro fácil dos fundos comunitários o país ficou menos frugal e mais corrupto. A última história de ganhuça que aparece nos media serve só para fazer esquecer a penúltima. Nunca acontece nada. É justo dizer que têm aparecido políticos influentes a quererem lutar contra a corrupção mas acabam por se ir embora. Perante o polvo, acabam por desistir. Os últimos foram João Cravinho e Marques Mendes.

sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Classe média*

* Hoje no Jornal do Centro


1. O World Data Lab, dirigido por Kristofer Hamel, está há anos a aperfeiçoar a caracterização de quatro grupos sociais — pobres, vulneráveis, classe média, ricos — usando bases de dados de 188 países.

Hamel e Homi Kharas acabam de publicar o estudo “Um ponto de inflexão global: metade do mundo é agora da classe média ou rica”, cujos resultados não devem admirar os leitores habituais desta coluna. Bastas vezes tenho feito notar aqui que as narrativas dos media e das nossas universidades sobre a globalização não descrevem o que está a acontecer no mundo.

A verdade é que “pela primeira vez desde que começou a civilização baseada na agricultura, há dez mil anos, a maioria da humanidade já não é pobre nem está em risco de cair na pobreza.” Três mil e oitocentos milhões de pessoas vivem em casas de classe média ou rica e um número ligeiramente inferior em casas pobres ou vulneráveis à pobreza.

E este processo está a ser rápido: “no mundo de hoje, há uma pessoa a escapar da pobreza extrema em cada segundo, enquanto, no mesmo segundo, cinco pessoas entram na classe média. Os ricos estão a aumentar também, mas a um ritmo menor (um em cada dois segundos).”

Campeão de bilheteiras este ano, não vai estrear em Portugal 

 A nova classe média é, sem surpresa, predominantemente asiática (nove em cada dez) e, a continuar esta tendência, este grupo vai ter 4 mil milhões daqui a dois anos e 5,3 mil milhões em 2030.

Ora, como se sabe, a classe média é sempre um sarilho para os governos: onde está a crescer exige mais infra-estruturas e serviços do estado, onde está a recuar protesta e vota anti-sistema. Aconteceu no último domingo no Brasil.



2. Eclodem eucaliptos por tudo quanto é terreno ardido há um ano.

O governo, claro, não quer saber. Os autarcas é mais festas e festinhas. Nem para o problema da água se mobilizam. Temos água com fartura nos nossos rios mas os boys socialistas da Águas de Portugal e os capitalistas da Águas do Planalto vão mexendo os cordelinhos. Para depois nos vampirarem nas contas mensais.

quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Inflação*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 10 de Outubro de 2008



A inflação é o mais injusto dos impostos porque corrói o rendimento dos mais pobres e dos mais fracos. Quando se transforma em hiperinflação, então, é uma tragédia social. Essa tragédia aconteceu na Alemanha depois da I Guerra Mundial, tendo sido uma das causas que levou ao nazismo e a Adolf Hitler.

O que aconteceu é muito bem contado em “O Obelisco Negro”, um divertido livro de Erich Maria Remarque que conta as aventuras de uns cangalheiros durante a República de Weimar.


Entre Janeiro de 1922 e Dezembro de 1923, os preços aumentaram mil milhões de vezes. A cavalgada dos preços era de tal forma que até a “cotação” de uma refeição num restaurante não parava quieta. Era conveniente comer depressa. Quanto mais se demorava, mais a conta final podia ser multiplicada por cem ou por mil.

Havia uma pausa nesta desgraça: a subida dos preços parava nos fins-de-semana porque a bolsa estava fechava.

Na crise actual acontece algo parecido. Ao fim-de-semana, a cotação do petróleo e das outras commodities não inquieta. Ao fim-de-semana, o Dow Jones e a Euribor estão parados. Ao fim-de-semana, não precisamos de ter medo do subprime nem dos ainda mais tóxicos credit default swaps.

Os bancos centrais têm injectado doses obscenas de dinheiro no sistema bancário. Como se sabe, mais massa monetária significa mais inflação.

O cidadão alemão comum não gosta do euro e ainda tem saudades do velho marco. Não surpreende, portanto, que Angela Merkel ligue pouco ao que diz o sr. Sarkozy. A chanceler alemã prefere verificar se o sr. Trichet no BCE mantém o euro forte e a inflação controlada.

Como é a Alemanha que paga a “Europa”, tenhamos alguma esperança.

sexta-feira, 5 de outubro de 2018

O faqueiro*

* Hoje no Jornal do Centro

1. O prémio Escolha do Consumidor deu a Viseu “sete das 30 categorias que estiveram em análise”, noticiava, num cantito de uma página, a última edição deste jornal.

O sr. Google, que sabe tudo, explica-nos que esse prémio, em 2018, já foi atribuído à Caras, ao Global Media Group, à WiZynk, à Huawei, ao Dinheiro Vivo, ao Millennium BCP, à Glassdrive, à Fidelidade, à Multicare, à Samsung, à Repsol, à..., ao...

Dá para perceber: há mais vips a receberem o prémio Escolha do Consumidor do que velhinhos, em hotéis, a comprarem a prestações faqueiros, serviços de loiça e colchões ortopédicos.

No Facebook, há um vídeo patusco deste evento que decorreu numa embarcação de cruzeiros em Lisboa. Na cerimónia pingam dezenas e dezenas de prémios, alguns delirantes: “Cascais é o melhor concelho para se ter vida social”, “Sintra, o melhor para namorar”, “Portimão para fazer praia”, “Viseu para ser feliz”.

Um solitário conhece uma tia de Cascais, acende-se uma paixão ali ao lado em Sintra e, depois de um bronzeamento na praia da Rocha, vão ser felizes para sempre em Viseu.

Seja como for, o dr. Sobrado e o dr. Almeida Henriques lá subiram a bordo e...
... tiraram uma fotografia com o faqueiro, perdão, com o prémio. Depois, fizeram-na chegar aos jornais.


2. Os “vencidos da globalização” que deram a vitória a Trump, aqueles a quem, num momento infeliz, Hillary Clinton chamou “deploráveis”, continuam a sobressaltar as democracias. Agora é a vez do Brasil.

Como explicou o sociólogo Vinicius Mota no Folha de S. Paulo, os eleitores de Bolsonaro são pequenos proprietários e empresários, empregados mal pagos, polícias e militares de baixa patente, reformados, povo que “não tem a pele clara e está mais próximo do cotidiano violento das cidades”, que despreza os políticos e as elites bem pagas, odeia jornalistas e intelectuais, e deseja a “restauração da ordem corrompida”.

Segundo as sondagens, no domingo, essa gente vai valer um terço dos votos.

sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Contas de cabeça*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Há quatro semanas, espalhei-me ao comprido quando previ aqui cheio de certezas: “António Costa e Rui Rio não querem a recondução de Joana Marques Vidal. Paciência. Vão ter que a gramar.”


Editada a partir daqui
Contra o expectável, Marcelo Rebelo de Sousa não quis tirar uma selfie com a popularíssima procuradora, a primeira que começou de facto a incomodar gente importante. Marcelo, o poderoso Marcelo, borregou. Porque terá sido?

Há teorias conspirativas e teorias psi para este falhanço presidencial: que Marcelo não perdoa a JMV ter indiciado o seu amigo Ricardo Salgado, que se irritou com aquele “irritante” processo ao ex-vice angolano, que ele é mais fraco psicologicamente do que Costa.

Não creio que tenha sido nada disso. Marcelo está nos primeiros cinco anos de uma presidência de dez. Nos primeiros cinco, os presidentes só pensam na sua reeleição e fazem tudo o que os primeiros-ministros querem. Soares deixou o PM Cavaco fazer tudo, Cavaco deixou o PM Sócrates fazer tudo (até uma bancarrota), Marcelo está a deixar o PM Costa fazer tudo.

Marcelo, o popular Marcelo, tem uma meta para a sua reeleição — ultrapassar os 70,35% de Mário Soares em 1991. Para tal conseguir, precisa que Costa o apoie e não apresente nenhum candidato socialista em 2021, da mesma maneira como Cavaco, então, prescindiu de um candidato laranja e apoiou Soares.

Foram estas contas de cabeça que despediram Joana Marques Vidal. Nos primeiros cinco anos, tem havido sempre em Belém um sacristão do primeiro-ministro e só nos segundos cinco um presidente. Para evitarmos a fase sacristã, há que constitucionalizar um mandato presidencial único de sete anos.

2. Em Singapura, a Huawei chegou junto de uma fila de compradores para o ultimíssimo iPhone e deu-lhes uma caixa com uma bateria externa onde se podia ler: “Aqui está um powerbank. Você vai precisar dele.”

Um dia destes, Xi Jinping, num gesto magnânimo, entrega uma caixa destas a Donald Trump.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Encomendas*

* Hoje no Jornal do Centro


1. No dia 27 de Setembro de 2010, o secretário-geral da OCDE, sr. Ángel Gurría, apareceu em todos os media portugueses a recomendar um aumento vigoroso dos impostos sobre o imobiliário. Para além do IMI, a criatura queria também um aumento no IMT, o imposto que, quando ainda se chamava sisa, foi carimbado por Guterres como “o imposto mais estúpido do mundo”.
Durante dias a comunicação social não falou de outra coisa. Aquela conversa sintonizava-se tanto com a conversa do governo Sócrates que até parecia uma encomenda.

No dia 14 de Maio de 2013, o secretário-geral da OCDE, sr. Ángel Gurría, recomendou a Portugal que aumentasse impostos, tesourasse pensões, cortasse nos subsídios e indemnizações dos desempregados e carregasse nos combustíveis.
Durante dias a comunicação social não falou de outra coisa. Aquela conversa sintonizava-se tanto com a conversa do governo Passos que até parecia uma encomenda.

No passado dia 11 de Setembro de 2018, foi publicado um relatório da OCDE do eterno senhor Gurría, relatório esse que fez com que os nossos media desatassem a “informar” que os professores portugueses ganham dinheiro que nunca mais acaba.
Durante dias a comunicação social não falou de outra coisa. Aquela conversa sintonizava-se tanto com a conversa que o governo Costa gostaria de ter se tivesse coragem que até parecia uma encomenda.

Em 2010, a OCDE acarinhou Sócrates. Em 2013, mimou Passos. Agora quis fazer o mesmo a Costa mas as coisas não correram bem. Nem a perorar nove anos, quatro meses e dois dias seguidos, o sr. Ángel Gurría conseguiria convencer os portugueses que os seus professores são uns nababos.

2. Em vez de fazer como Bill Murray no filme “Os Caça-Fantasmas”, o bloco de esquerda, para tentar exterminar o fantasma Robles, propôs um “adicional ao IMT”, propôs um aumento da velhinha sisa.

Isto é, se o deixassem, o bloco adicionava ainda mais estupidez ao “imposto mais estúpido do mundo”.

quarta-feira, 5 de setembro de 2018

Porque será?*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 5 de Setembro de 2008



1. Em Agosto, o preço do barril do petróleo aliviou ligeiramente mas ninguém sabe o que vai acontecer no futuro. Para o caso, as previsões dos economistas têm-se mostrado tão úteis como os horóscopos da Maya.

Num ponto de vista ecológico, o fim do crude barato não é mau. Os consumidores vão poupar mais, vão procurar alternativas mais eficientes e as energias renováveis vão ganhar mercado.

Daqui
Há quatro meses atrás, todos os partidos da oposição culpavam o governo pela subida dos combustíveis. Evidentemente, não tinham razão. Portugal não tem poços de petróleo. José Sócrates esteve bem durante a crise: deixou o mercado funcionar, acudiu aos sectores mais fragilizados e correu a apertar a mão aos Chavez, Kadhaffis e Eduardos dos Santos deste mundo, essa fauna peculiar que tem petróleo.

Este último choque petrolífero revelou que o nosso mercado precisa de muito mais concorrência. Há que aproveitar esta pequena acalmia para tomar medidas. Porque não licenciar mais postos de abastecimento nos hipermercados?

2. Jorge Coelho, Manuel Maria Carrilho e Correia de Campos têm muita coisa em comum: (i) os três são de Viseu; (ii) os três são militantes do PS; (iii) os três foram ministros de governos do PS; (iv) os três fizeram a sua militância partidária longe, bem longe, da federação distrital de Viseu.

De facto, por mais dedicado ao interesse público e mais competente que seja, nenhum socialista do distrito tem conseguido chegar a um lugar de relevo na política portuguesa. Para que tal aconteça, é necessário fazer vida partidária longe, bem longe, da Rua 5 de Outubro de Viseu.

Porque será?

sexta-feira, 24 de agosto de 2018

Um pesadelo*

* Hoje no Jornal do Centro


1. A constituição democrática do Brasil foi promulgada em Outubro de 1988, um ano antes da queda do muro de Berlim. Na altura, o Partido dos Trabalhadores (PT) era anti-sistema e não quis participar no processo de passagem da ditadura militar para a democracia. Não estava de acordo com as regras da “democracia-burguesa” mas depois usou-as impecavelmente e conseguiu eleger Lula da Silva, alcandorando o Brasil a uma posição de destaque e respeito no mundo.


Fotografia de Marcelo Sayao
Lula foi um bom presidente e chegou ao fim do seu último mandato com taxas de aprovação de 90%. Na altura muita gente queria que ele mudasse a limitação constitucional de mandatos de forma a poder continuar, mas Lula recusou. Fez bem. Lula foi, então, um democrata, contrastando, por exemplo, com o que estava a fazer o funesto Chavez na Venezuela.

2. Entretanto, Lula mudou. Para pior. Escrevo este texto no dia em que o PT o registou como seu candidato oficial a presidente, ao mesmo tempo que candidatava a vice-presidente Fernando Haddad, ex-prefeito de S. Paulo.

Estamos perante um padrão comportamental: mal começou a ter sarilhos no Lava Jato, Lula arrastou Dilma até ao chão e está agora a fazer o mesmo ao PT, levando-o a desrespeitar uma lei que a cidadania brasileira impôs à sua corrupta classe política.

Recorde-se: a lei da ficha limpa, que proíbe um condenado em segunda instância de ir a votos, foi aprovada pelo Congresso, após uma petição de 1,6 milhões de brasileiros, e foi promulgada por Lula, no seu último ano de presidência.

Lula, em 2010, respeitou as regras. Em 2018, a criatura não respeita nem tão pouco uma das leis que promulgou. Lula é agora um projecto de autocrata. Uma ameaça à democracia.

Se Haddad fosse eleito, trataria logo de conceder perdão a seu superior hierárquico. O Brasil virava uma Venezuela ou uma Nicarágua. Um pesadelo. Não pode acontecer.

Tal como em 1988, a democracia brasileira vai ter que avançar sem o PT.

sexta-feira, 29 de junho de 2018

Coragem*

* Hoje no Jonal do Centro



1. Há exactamente duas semanas e dois dias, a polícia iraniana irrompeu pela casa de Nasrin Soutoudeh e levou para a prisão aquela advogada defensora dos direitos humanos. Não foi a primeira vez que tal aconteceu a esta Mulher corajosa - já tinha estado presa pelo regime teocrático do Irão de 2010 a 2013. Foi durante esses amargos anos que ela recebeu, e muito bem, o Prémio Sakharov.

Desta vez, a advogada estava em casa com sua filha de 18 anos que preparava os exames para a entrada na universidade. Foi dito a Nasrin que ela tinha sido condenada à revelia a cinco anos de prisão. Foi-lhe dito isso e mais nada do que isso. Ela não faz ideia do que se passou no julgamento. Não sabia, tão pouco, que o mesmo estava a acontecer.

Sabe-se que, nas semanas que precederam a sua prisão, Nasrin Soutoudeh tinha tomado uma posição firme contra uma norma do código de processo penal iraniano de 2015 que, em determinados "crimes", proibe os acusados de terem acesso a advogados independentes, só podem ser "defendidos" por advogados autorizados pelo regime.

Por exemplo, em Teerão, dos sessenta mil advogados activos só há vinte a poderem "representar" as mulheres que cometem o "crime" de aparecerem sem hijab em público. E, como se sabe, muitas têm sido as Mulheres que têm lutado contra a obrigatoriedade dos véus. Cheias de coragem, destapam a cabeça, sobem às caixas de electricidade espalhadas pelas ruas e publicam esses actos de liberdade nas redes sociais. Muitas têm sido presas pela sinistra polícia moral dos aiatolas.


Fotografia AFP/Getty Images
2. Durante o jogo Portugal-Irão, duas mulheres lindas, de cabelo negro ao vento, uma delas a sorrir, a outra a gargalhar, ambas com o verde, o branco e o vermelho da bandeira iraniana pintados nas suas caras, apareceram, sem véu nenhum, nos écrãs de todo o mundo. Nos do Irão também.

Tão belas. Tão belas como a trivela de Ricardo Quaresma.