sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Frankensteins*

* Hoje no Jornal do Centro

O think tank LEAP - Laboratório Europeu de Antecipação Política acaba de publicar um texto merecedor de muita atenção intitulado “Geopolítica das religiões: 2020, o choque dos monstros de Frankenstein”.


Daqui
É que o recente sucesso político dos evangélicos no Brasil, a oitava economia mundial, está longe de ser um fenómeno isolado. Eles já controlam parte dos eleitos nos Estados Unidos da América e estão a alastrar em força em África (especialmente os pentecostalistas).

A igreja católica brasileira ainda é a maior do mundo mas está a perder para os evangélicos meio milhão de fiéis por ano: no virar do milénio, representava 73,6% da população, agora, menos de 50%. Moisés Naím, em O fim do poder, explica esta hemorragia: “as ovelhas não foram roubadas. As ovelhas já não são ovelhas: são consumidoras e encontraram um produto melhor no mercado da salvação.”

Os evangélicos têm algumas regras e valores comuns e o seu sucesso advém-lhes da extrema agilidade com que se podem organizar, já que não têm de prestar contas a nenhuma “hierarquia pré-existente”, nem “lições a receber, instruções a esperar ou ordenações a obter do Vaticano, do Arcebispo de Cantuária ou de qualquer outra autoridade central.”

Entretanto, lembra o texto do LEAP, não são só eles a causarem sarilhos com as suas actividades não-espirituais: hindus extremistas perseguem diariamente cristãos e muçulmanos na Índia, budistas radicais cometem atrocidades contra os rohingya na Birmânia, o bolso sem fundo saudita financia o Daesh, a Al-Qaeda, o Boko Haram, os bolsos menos recheados iranianos pagam outro mostrengo, o Hezbollah, integristas judeus colonizam territórios palestinianos, a lista de horrores não tem fim.

Alguns destes frankensteins foram criados por serviços secretos mas escaparam ao controlo dos seus criadores. Misturam identitarismos religiosos, nacionalistas e étnicos e são um evidente perigo para estes tempos fascinantes que estamos a viver.

Soneto (#8)

Fotografia de Keenan Constance


Pergunto aqui se sou louca
Quem quer saberá dizer
Pergunto mais, se sou sã
E ainda mais, se sou eu

Que uso o viés pra amar
E finjo fingir que finjo
Adorar o fingimento
Fingindo que sou fingida

Pergunto aqui meus senhores
quem é a loura donzela
que se chama Ana Cristina

E que se diz ser alguém
É um fenómeno mor
Ou é um lapso sutil?
Ana Cristina Cesar


quinta-feira, 29 de novembro de 2018

Uma filha-da-putice

He's back:
 porque todas as crianças são iguais
mas há umas que são mais iguais do que outras



Os manuais escolares não são gratuitos, são pagos pelos impostos nas escolas públicas e pelas famílias nas escolas privadas.

Como não há condição de recursos, nas escolas públicas a borla é para as famílias ricas, para as famílias remediadas e para as famílias pobres.

Como não há condição de recursos, nas escolas privadas não há borla nem para as famílias ricas, nem para as famílias remediadas e nem para as famílias pobres.

Esta diferença de tratamento entre escolas públicas e privadas tem um nome — é uma filha-da-putice.

Quem defende esta filha-da-putice costuma vir com o argumento "mas-nas-escolas-privadas-não-há-famílias-pobres" a que se poderá contrapor o argumento simétrico: "mas-nas-escolas-públicas-há-famílias-ricas".

Tanto um argumento como o outro são uma lateralidade em relação ao essencial: em matéria de manuais escolares, para o estado há portugueses de primeira e portugueses de segunda, uns são filhos, outros enteados.

Uma filha-da-putice.

Em Janeiro de 2017, no Jornal do Centro, fiz um apelo aos senhores presidentes da câmara para evitarem, com os seus orçamentos, este "apartheid". Renovo aqui o apelo.


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Adenda no dia 1 de Dezembro, às 11:35

A publicação deste texto no FB teve dezenas de comentários, a maioria a reprovarem o seu conteúdo, a discordarem deste meu argumento e a concordarem com esta discriminação. 


Permito-me, com bonomia, ironizar com a personagem que encima este post a partir de agora.

O que foi dito no FB lá está, o conteúdo é público.

Entretanto, ocorreu-me durante o debate que há mais um grupo de crianças a ser discriminado injustamente, crianças a serem também tratadas como cidadãos de segunda — os alunos que, nos termos da lei, estudam em casa, não frequentam nem escolas públicas nem privadas.

Esses também deviam receber manuais escolares pagos pelos impostos de todos os portugueses.


Dos vários contributos que recebi no FB, recordo um óbvio: esta divisão das crianças portuguesas em filhos e enteados, em matéria de manuais escolares, é provavelmente inconstitucional. 

Mecha branca (#7)

Fotografia de Parker Whitson


A despigmentação da tua palavra
me incita, me entristece

Acho que atrai alguma sombra minha
algum elo da nossa fraqueza

Essa despigmentação irregular
que nos atiça
é antes uma sombra recriada uma forma ainda de esperar

Quando não esperarmos mais — e nem ainda —
escondo a tua sombra nesta mão


quarta-feira, 28 de novembro de 2018

O senhor Olson*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 28 de Novembro de 2008

1. Em 2001, a minha candidatura à câmara de Viseu não conseguiu arranjar dinheiro para contratar um “escritor fantasma”. Tive que ser eu a escrever os meus discursos.

[Glup! Lembrei-me agora do que aconteceu à líder do PSD... Atenção! Este ponto do Olho de Gato é só uma pequena ironia…]


2. Em Setembro de 2001, fiz uma intervenção numa iniciativa da JS. Eis um pequeníssimo excerto do que disse então aos jovens socialistas:

“Vou falar-vos duma teoria de um senhor chamado Olson. Ele afirma que as grandes organizações sociais, como os partidos políticos e os sindicatos, têm baixas taxas de filiação porque os seus serviços beneficiam igualmente todos, independentemente da participação de cada um.

A participação de cada um nas decisões sobre a produção destes serviços é muito baixa, muito diluída, e o custo dessa participação é elevado.”

Depois o meu discurso deu umas voltas até chegar ao algoritmo: esperança = desejo + tempo.

3. A Federação de Viseu da JS apresentou, no último congresso distrital do PS, uma moção onde descreve as razões do desencanto dos cidadãos com os políticos e apresenta boas propostas para sintonizar a política com a sociedade. Destaco três: 
(i) não à mistura entre a política e os negócios; 
(ii) não à acumulação de candidaturas em eleições locais e nacionais; 
(iii) primárias no partido para escolha de candidatos às câmaras e ao parlamento.

As ideias da JS enfureceram os carreiristas do partido. Não faz mal. São boas ideias. Hão-de fazer o seu caminho.

A JS-Viseu e a sua líder distrital, Patrícia Monteiro, estão a pagar todos os “custos de participação” na política e não querem saber da teoria do senhor Olson para nada. Haja esperança…

Conversa de senhoras (#6)

Fotografia de Greg Raines




Não precisa nem casar
Tiro dele tudo o que preciso
Não saio mais daqui
Duvido muito
Esse assunto de mulher já terminou
O gato comeu e regalou-se
Ele dança que nem um realejo
Escritor não existe mais
Mas também não precisava virar deus
Tem alguém na casa
Você acha que ele aguenta?
Sr. ternura está batendo
Eu não estava nem aí
Conchavando: eu faço a tréplica
Armadilha: louca pra saber
Ela é esquisita
Também você mente demais
Ele está me patrulhando
Para quem você vendeu seu tempo?
Não sei dizer: fiquei com o gauche
Não tem a menor lógica
Mas e o trampo?
Ele está bonzinho
Acho que é mentira
Não começa
Ana Cristina César



terça-feira, 27 de novembro de 2018

Protuberância (#5)



Este sorriso que muitos chamam de boca
É antes um chafariz, uma coisa louca
Sou amativa antes de tudo
Embora o mundo me condene
Devo falar em nariz (as pontas rimam por dentro)
Se nos determos amanhã
Pelo menos não haverá necessidades frugais nos espreitando
Quem me emprestar seu peito ma madrugada
E me consolar, talvez tal vez me ensine um assobio
Não sei se me querem, escondo-me sem impasses
E repitamos a amadora sou
Armadora decerto atrás das portas
Não abro para ninguém, e se a pena é lépida, nada me detém
É sem dúvida inútil o chuvisco de meus olhos
O círculo se abre em circunferências concêntricas que se
Fecham sobre si mesmas
No ano 2001 terei (2001-1952=) 49 anos e serei uma rainha
Rainha de quem, quê, não importa
E se eu morrer antes disso
Não verei a lua mais de perto
Talvez me irrite pisar no impisável
E a morte deve ser muito mais gostosa
Recheada com marchemélou
Uma lâmpada queimada me contempla
Eu dentro do templo chuto o tempo
Um palavra me delineia
VORAZ
E em breve a sombra se dilui,
Se perde o anjo.
Ana Cristina Cesar


segunda-feira, 26 de novembro de 2018

Um beijo (#4)

Fotografia de Tim Mossholder


Um beijo
que tivesse um blue.
Isto é
imitasse feliz a delicadeza, a sua,
assim como um tropeço
que mergulha surdamente
no reino expresso
do prazer.
Espio sem um ai
as evoluções do teu confronto
à minha sombra
desde a escolha
debruçada no menu;
um peixe grelhado
um namorado
uma água
sem gás
de decolagem:
leitor embevecido
talvez ensurdecido
“ao sucesso”
diria meu censor
“à escuta”
diria meu amor
Ana Cristina Cesar






domingo, 25 de novembro de 2018

Hoje no Teatro Viriato — 17H00




SE NÃO SABE PORQUE É QUE PERGUNTA?
JOÃO FIADEIRO e JOAQUIM ALEXANDRE RODRIGUES

Se não sabe, porque é que pergunta? é uma frase que aparece no livro 
Silence, de John Cage onde ele relata uma conversa entre o pianista David Tudor e um aluno que faz um conjunto de perguntas insistentes. Após uma pausa, David Tudor responde “If you don’t know why do you ask?”. Esta frase foi ainda usada como título de um livro do pedopsiquiatra português João dos Santos, onde este transcreve um conjunto de conversas que manteve com crianças na sua prática clinica. Um pergunta que é acima de tudo uma provocação e uma afirmação de que nem sempre, para se aceder ao mundo e às suas manifestações, a resposta é a melhor conselheira. O mesmo acontece nas artes. O saber, sobretudo quando servido em modo de resposta pronta, mata a imaginação.

A partir de um convite do Teatro Viriato, João Fiadeiro e Joaquim Alexandre Rodrigues conversam abertamente sobre a relação da dança (e da arte) contemporânea e o público.

Tu queres sono: despe-te dos ruídos (#3)

Fotografia de Dan Gold



Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e
dos restos do dia, tira da tua boca
o punhal e o trânsito, sombras de
teus gritos, e roupas, choros, cordas e
também as faces que assomam sobre a
tua sonora forma de dar, e os outros corpos
que se deitam e se pisam, e as moscas
que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças)
que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que
esqueceram teus braços e tantos movimentos
que perdem teus silêncios, o os ventos altos
que não dormem, que te olham da janela
e em tua porta penetram como loucos
pois nada te abandona nem tu ao sono..
Ana Cristina Cesar


sábado, 24 de novembro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#218)

The ice swim become a symbol for not letting the cold take control of me.

And it's a way of testing myself. It's a strange feeling to do something when my whole body tells me to not do it.

Samba-canção (#2)

Fotografia de Jamie Street

Tantos poemas que perdi.
Tantos que ouvi, de graça,
pelo telefone – taí,
eu fiz tudo pra você gostar,
fui mulher vulgar,
meia-bruxa, meia-fera,
risinho modernista
arranhando na garganta,
malandra, bicha,
bem viada, vândala,
talvez maquiavélica,
e um dia emburrei-me,
vali-me de mesuras
(era comércio, avara,
embora um pouco burra,
porque inteligente me punha
logo rubra, ou ao contrário, cara
pálida que desconhece
o próprio cor-de-rosa,
e tantas fiz, talvez
querendo a glória, a outra
cena à luz de spots,
talvez apenas teu carinho,

mas tantas, tantas fiz…
Ana Cristina Cesar


sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Assessorias*

* Hoje no Jornal do Centro


Imagem daqui
1. O dichote “Portugal é Lisboa e o resto é paisagem” descreve coisa muito antiga. Já Eça de Queirós, no seu Os Maias, depois de entalar um vidro no olho de João da Ega, fê-lo bradar deslembrado do seu Minho natal: «Portugal é Lisboa. Fora de Lisboa não há nada.»

Novo, novo, é o nível de centralismo que atingimos. Virado o milénio, todos os governos passaram a usar o mesmo pretexto e a mesma ferramenta para meterem tudo na capital. O pretexto foi a necessidade de controlo do défice, a ferramenta foi a informática. Esta tornou possível processar nos gabinetes ministeriais aquilo que, antes, as burocracias descentralizadas decidiam nos distritos e nos concelhos. Agora é Lisboa que coloca um professor numa escola de Portalegre ou um médico num centro de saúde de Chaves, é Lisboa que compra uma carga de um extintor do tribunal de Viseu e que paga uma factura do hospital de Portimão.

Ora, como é óbvio, Lisboa, como parte e reparte, não precisa de muita arte para ficar com a melhor parte, como todas as estatísticas mostram. Já não será tão óbvio perceber que isto faz aumentar a corrupção. Como a decisão está toda no mesmo sítio, os lóbis que precisam de a comprar têm a vida facilitada. Não surpreende que as “centrais de compras” do estado sejam coutada privativa de grandes empresas rentistas, como demonstrou um estudo da Universidade do Minho que acaba de ser tornado público.

2. Para além de meio ano de “assessoria de programação” ao vereador da cultura, o encenador Nuno Cardoso está, por estes dias, também em Viseu a fazer um evento sem especial novidade ou atenção pública. Por estes dois serviços, o futuro director artístico do Teatro Nacional S. João cobra, e muito bem, 112 mil euros ao município.

O mesmo não se poderá dizer da câmara que, ao aceitar pagar-lhos, se esquece da frugalidade que impõe, e muito bem, a outras iniciativas culturais com muitíssimo mais impacto na cidade, na região e no país.

Fagulha (#1)

Fotografia de Jay Sadoff



Abri curiosa
o céu.
Assim, afastando de leve as cortinas.

Eu queria entrar,
coração ante coração,
inteiriça
ou pelo menos mover-me um pouco,
com aquela parcimónia que caracterizava
as agitações me chamando

Eu queria até mesmo
saber ver,
e num movimento redondo
como as ondas
que me circundavam, invisíveis,
abraçar com as retinas
cada pedacinho de matéria viva.

Eu queria
(só)
perceber o invislumbrável
no levíssimo que sobrevoava.

Eu queria
apanhar uma braçada
do infinito em luz que a mim se misturava.

Eu queria
captar o impercebido
nos momentos mínimos do espaço
nu e cheio

Eu queria
ao menos manter descerradas as cortinas
na impossibilidade de tangê-las

Eu não sabia
que virar pelo avesso
era uma experiência mortal.
Ana Cristina Cesar


quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Umas coisas atrás de outras

Por Galo de Souza — Daqui




umas coisas atrás de outras
fixou na parede a tabuleta e lê-se
proibida a afixação
quem plantou aquela nespereira sabia o que fazia
agora há mais pássaros atrás das nêsperas
muito para além dos frutos alguém
escreveu numa parede do cais do sodré
a fatinha tem sida
aviso enorme
de enormidade
e ali perto outra inscrição
num prédio do corpo santo
paredes brancas povo mudo
Abel Neves


quarta-feira, 21 de novembro de 2018

O eduquês*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 21 de Novembro de 2008



O eduquês é a desgraça da escola portuguesa. O eduquês fala uma língua de trapo a que chama “ciências da educação”. O eduquês é uma ideologia instalada há décadas no ministério da educação e na administração escolar. O eduquês acha que as meninas e os meninos só precisam de “aprender a aprender” e de “progredir” sem esforço.

O eduquês é acientífico e, portanto, não se preocupa com conteúdos. Termos agora professores de alhos a avaliar professores de bugalhos não deve admirar ninguém. Faz parte do delírio do eduquês.

Há um livro de Nuno Crato que explica bem o que é o eduquês.

Maria de Lurdes Rodrigues (MLR) é adepta ferrenha do eduquês. Desde que entrou para o governo, ainda não parou de tentar fazer das escolas um ATL facilitista.

O facilitismo é uma traição às famílias, principalmente às mais pobres que não têm dinheiro para propinas privadas.

Um balanço sereno e objectivo do consulado de MLR mostra claramente as escolas públicas a perder e os colégios privados a ganhar. Basta analisar os rankings. Basta ouvir o que dizem o Executivo e a Associação de Pais da melhor escola pública do país, a Escola Secundária Infanta Dona Maria de Coimbra.

Em Novembro de 2006, na Livraria da Praça, Guilherme Valente fez uma previsão muito ajustada do que está a acontecer. O raciocínio prospectivo do editor da Gradiva foi o seguinte: 
(i) MLR não vai olhar a meios para obter resultados estatísticos cor-de-rosa; 
(ii) as pessoas vão perceber o truque; 
(iii) a imagem da escola pública vai bater no fundo; 
(iv) como resultado do desastre, vai surgir uma política séria para salvar a escola pública e fazer o funeral do eduquês.

O país está atolado na fase iii. Falta passar depressa à fase iv.

Tu

Fotografia de Roksolana Zasiadko




Tu
que não cabes em casa nenhuma
tu
que vais leve como as nuvens
no outono
habitas em mim e ouço
o teu perfume a tua
respiração
nas rosas que se abrem
e dissipam
no meu poema.
Casimiro de Brito


terça-feira, 20 de novembro de 2018

Ostro

Fotografia de Steve Halama





[…] recorremos aquel lago bermejo,
de condenados sitio doloroso.
Dante, via Roa Bastos

sigo o trilho estreito
entre verdes e pretos
que o escuro confunde
no arvoredo

vejo, entre os tufos
o rio turvo, seu rumor
salobre entre arbustos
o leito fundo
que desce
lento

insectos secos
e gravetos

no veio brusco
em que os juncos
emboscam
ciscos e detritos
de novo encontro
(sono sombrio)
os círculos de lodo
em teus olhos
o contorno tosco
de teu corpo
sem nome

(o rosto
um esboço fosco
de barro e emplastro
de borra e mosto
– hibiscos
murchos
estames
hematomas)
Josely Vianna Baptista


segunda-feira, 19 de novembro de 2018

La Llorona

La Llorona, Picasso, 1937


No folclore mexicano, La Llorona é o fantasma de uma mulher que perdeu os seus filhos e chora e procura-os no rio, causando o azar e a desgraça a quem está perto ou a ouve.

Estátua de madeira de La Llorona, em Xochimilco


(Versão Chavela Vargas)
Todos me dicen el negro, llorona
Negro pero cariñoso
Todos me dicen el negro, llorona
Negro pero cariñoso
Yo soy como el chile verde, llorona
Picante pero sabroso
Yo soy como el chile verde, llorona
Picante pero sabroso

Ay de mí, llorona
Llorona, tú eres mi chunca
Ay de mí, llorona
Llorona, tú eres mi chunca
Me quitarán de quererte, llorona
pero de olvidarte nunca
Salías del templo un día, llorona
Cuando al pasar yo te ví
Salías del templo un día, llorona
Cuando al pasar yo te ví
Hermoso huipil llevabas, llorona
Que la virgen te creí
Hermoso hipil llevabas, llorona
Que la virgen te creí
Si porque te quiero quieres, llorona
Quieres que te quieres más
Si porque…








































domingo, 18 de novembro de 2018

A Florbela Espanca

Daqui



Amada, por que eu tive a tua voz
Depois que o Nada teve a tua boca?
A lua, em sua palidez de louca,
Brilha igual sobre mim, e sobre nós!...

Porém como estás longe, como o algoz
De um só golpe sem fim — a Morte — apouca
Os gritos dos que esperam, a ânsia rouca
Dos que atrás têm seu sonho, os grandes sós!

Aqui não brilha o mundo que engendraste
Como o manto de um deus, e astros sangrentos
Não nos rolam nas mãos da imensa haste.

E só estes olhos meus, que nunca viste,
Se incendeiam, vitrais na noite atentos,
Voltados para o chão aonde fugiste!
Alexei Bueno


sábado, 17 de novembro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#217)

Em cima do palco, abaixo do palco, ninguém pára a grande Eliane Rodrigues

Definição do amor

Fotografia de Kal Loftus

Mandai-me, Senhores, hoje,
que em breves rasgos descreva
do Amor a ilustre prosápia,
e de Cupido as proezas.

Dizem que da clara escuma,
dizem que do mar nascera,
que pegam debaixo d'água
as armas, que Amor carrega.

Outros, que fora ferreiro
seu pai, onde Vênus bela
serviu de bigorna, em que
malhava com grã destreza.

Que a dois assopros lhe fez
o fole inchar de maneira,
que nele o fogo acendia,
nela aguava a ferramenta.

Nada disto é, nem se ignora,
que o Amor é fogo, e bem era
tivesse por berço as chamas
se é raio nas aparências.

Este se chama Monarca,
ou Semideus se nomeia,
cujo céu são esperanças,
cujo inferno são ausências.

Um Rei, que mares domina,
Um Rei, o mundo sopeia,
sem mais tesouro que um arco,
sem mais arma que uma seta.

O arco talvez de pipa,
a seta talvez de esteira,
despido como um maroto,
cego como uma toupeira.

Um maltrapilho, um ninguém,
que anda hoje nestas eras
com o cu à mostra, jogando
com todos a cabra-cega.

Tapando os olhos da cara,
por deixar o outro alerta,
por detrás à italiana,
por diante à portuguesa.

Diz que é cego, porque canta,
ou porque vende gazetas
das vitórias, que alcançou
na conquista das finezas.

Que vende também folhinhas
cremos por coisa mui certa,
pois nos dá os dias santos,
sem dar ao cuidado tréguas;

E porque despido o pintam
é tudo mentira certa,
mas eu tomara ter junto
o que Amor a mim me leva.

Que tem asas com que voa
e num pensamento chega
assistir hoje em Cascais
logo em Coina, e Salvaterra.

Isto faz um arrieiro
com duas porradas tesas:
e é bem, que no Amor se gabe,
o que o vinho só fizera!

E isto é Amor? é um corno.
Isto é Cupido? má peça.
Aconselho que o não comprem
ainda que lhe achem venda.

Isto, que o Amor se chama,
este, que vidas enterra,
este, que alvedrios prostra,
este, que em palácios entra:

Este, que o juízo tira,
este, que roubou a Helena,
este, que queimou a Troia,
e a Grã-Bretanha perdera:

Este, que a Sansão fez fraco,
este, que o ouro despreza,
faz liberal o avarento,
é assunto dos poetas:

Faz o sisudo andar louco,
faz pazes, ateia a guerra,
o frade andar desterrado,
endoidece a triste freira.

Largar a almofada a moça,
ir mil vezes à janela,
abrir portas de cem chaves,
e mais que gata janeira.

Subir muros e telhados,
trepar chaminés e gretas,
chorar lágrimas de punhos,
gastar em escritos resmas.

Gastar cordas em descantes,
perder a vida em pendências,
este, que não faz parar
oficial algum na tenda.

O moço com sua moça,
o negro com sua negra,
este, de quem finalmente
dizem que é glória, e que é pena.

É glória, que martiriza,
uma pena, que receia,
é um fel com mil doçuras,
favo com mil asperezas.

Um antídoto, que mata,
doce veneno, que enleia,
uma discrição, sem siso,
uma loucura discreta.

Uma prisão toda livre,
uma liberdade presa,
desvelo com mil descansos,
descanso com mil desvelos.

Uma esperança, sem posse,
uma posse, que não chega,
desejo, que não se acaba,
ânsia, que sempre começa.

Uma hidropisia d'alma,
da razão uma cegueira,
uma febre da vontade,
uma gostosa doença.

Uma ferida sem cura,
uma chaga, que deleita,
um frenesi dos sentidos,
desacordo das potências.

Um fogo incendido em mina,
faísca emboscada em pedra,
um mal, que não tem remédio,
um bem, que se não enxerga.

Um gosto, que se não conta,
um perigo, que não deixa,
um estrago, que se busca,
ruína, que lisonjeia.

Uma dor, que se não cala,
pena, que sempre atormenta,
manjar, que não enfastia,
um brinco, que sempre enleva.

Um arrojo, que enfeitiça,
um engano, que contenta,
um raio, que rompe a nuvem,
que reconcentra a esfera.

Víbora, que a vida tira
àquelas entranhas mesmas,
que segurou o veneno,
e que o mesmo ser lhe dera.

Um áspide entre boninas,
entre bosques uma fera,
entre chamas salamandra,
pois das chamas se alimenta.

Um basalisco, que mata,
lince, que tudo penetra,
feiticeiro, que adivinha,
marau, que tudo suspeita.

Enfim o Amor é um momo,
uma invenção, uma teima,
um melindre, uma carranca,
uma raiva, uma fineza.

Uma meiguice, um afago,
um arrufo, e uma guerra,
hoje volta, amanhã torna,
hoje solda, amanhã quebra.

Uma vara de esquivanças,
de ciúmes vara e meia,
um sim, que quer dizer não,
não, que por sim se interpreta.

Um queixar de mentirinha,
um folgar muito deveras,
um embasbacar na vista,
um ai, quando a mão se aperta.

Um falar por entre dentes,
dormir a olhos alerta,
que estes dizem mais dormindo,
do que a língua diz discreta.

Uns temores de mal pago,
uns receios de uma ofensa,
um dizer choro contigo,
choramingar nas ausências.

Mandar brinco de sangrias,
passar cabelos por prenda,
das palmitos pelos Ramos,
e dar folar pela festa.

Anal pelo São João,
alcachofras na fogueira,
ele pedir-lhe ciúmes,
ela sapatos e meias.

Leques, fitas e manguitos,
rendas da moda francesa,
sapatos de marroquim,
guarda-pé de primavera.

Livre Deus, a quem encontra,
ou lhe suceder ter freira;
pede-vos por um recado
sermão, cera e caramelas.

Arre lá com tal amor!
isto é amor? é quimera,
que faz de um homem prudente
converter-se logo em besta.

Uma bófia, uma mentira
chamar-lhe-ei, mais depressa,
fogo selvagem nas bolsas,
e uma sarna das moedas.

Uma traça do descanso,
do coração bertoeja,
sarampo da liberdade,
caruncho, rabuge e lepra.

É este, o que chupa, e tira,
vida, saúde e fazenda,
e se hemos falar verdade
é hoje o Amor desta era.

Tudo uma bebedice,
ou tudo uma borracheira,
que se acaba co'o dormir,
e co'o dormir começa.

O Amor é finalmente
um embaraço de pernas,
uma união de barrigas,
um breve tremor de artérias.

Uma confusão de bocas,
uma batalha de veias,
um reboliço de ancas,
quem diz outra coisa, é besta.