É que o recente sucesso político dos evangélicos no Brasil, a oitava economia mundial, está longe de ser um fenómeno isolado. Eles já controlam parte dos eleitos nos Estados Unidos da América e estão a alastrar em força em África (especialmente os pentecostalistas). A igreja católica brasileira ainda é a maior do mundo mas está a perder para os evangélicos meio milhão de fiéis por ano: no virar do milénio, representava 73,6% da população, agora, menos de 50%. Moisés Naím, em O fim do poder, explica esta hemorragia: “as ovelhas não foram roubadas. As ovelhas já não são ovelhas: são consumidoras e encontraram um produto melhor no mercado da salvação.” Os evangélicos têm algumas regras e valores comuns e o seu sucesso advém-lhes da extrema agilidade com que se podem organizar, já que não têm de prestar contas a nenhuma “hierarquia pré-existente”, nem “lições a receber, instruções a esperar ou ordenações a obter do Vaticano, do Arcebispo de Cantuária ou de qualquer outra autoridade central.” Entretanto, lembra o texto do LEAP, não são só eles a causarem sarilhos com as suas actividades não-espirituais: hindus extremistas perseguem diariamente cristãos e muçulmanos na Índia, budistas radicais cometem atrocidades contra os rohingya na Birmânia, o bolso sem fundo saudita financia o Daesh, a Al-Qaeda, o Boko Haram, os bolsos menos recheados iranianos pagam outro mostrengo, o Hezbollah, integristas judeus colonizam territórios palestinianos, a lista de horrores não tem fim. Alguns destes frankensteins foram criados por serviços secretos mas escaparam ao controlo dos seus criadores. Misturam identitarismos religiosos, nacionalistas e étnicos e são um evidente perigo para estes tempos fascinantes que estamos a viver.
He's back: porque todas as crianças são iguais
mas há umas que são mais iguais do que outras
Os manuais escolares não são gratuitos, são pagos pelos impostos nas escolas públicas e pelas famílias nas escolas privadas. Como não há condição de recursos, nas escolas públicas a borla é para as famílias ricas, para as famílias remediadas e para as famílias pobres. Como não há condição de recursos, nas escolas privadas não há borla nem para as famílias ricas, nem para as famílias remediadas e nem para as famílias pobres. Esta diferença de tratamento entre escolas públicas e privadas tem um nome — é uma filha-da-putice. Quem defende esta filha-da-putice costuma vir com o argumento "mas-nas-escolas-privadas-não-há-famílias-pobres" a que se poderá contrapor o argumento simétrico: "mas-nas-escolas-públicas-há-famílias-ricas". Tanto um argumento como o outro são uma lateralidade em relação ao essencial: em matéria de manuais escolares, para o estado há portugueses de primeira e portugueses de segunda, uns são filhos, outros enteados. Uma filha-da-putice.
Em Janeiro de 2017, no Jornal do Centro, fiz um apelo aos senhores presidentes da câmara para evitarem, com os seus orçamentos, este "apartheid". Renovo aqui o apelo. -------------------- Adenda no dia 1 de Dezembro, às 11:35 A publicação deste texto no FB teve dezenas de comentários, a maioria a reprovarem o seu conteúdo, a discordarem deste meu argumento e a concordarem com esta discriminação. Permito-me, com bonomia, ironizar com a personagem que encima este post a partir de agora.
O que foi dito no FB lá está, o conteúdo é público.
Entretanto, ocorreu-me durante o debate que há mais um grupo de crianças a ser discriminado injustamente, crianças a serem também tratadas como cidadãos de segunda — os alunos que, nos termos da lei, estudam em casa, não frequentam nem escolas públicas nem privadas.
Esses também deviam receber manuais escolares pagos pelos impostos de todos os portugueses. Dos vários contributos que recebi no FB, recordo um óbvio: esta divisão das crianças portuguesas em filhos e enteados, em matéria de manuais escolares, é provavelmente inconstitucional.
A despigmentação da tua palavra me incita, me entristece Acho que atrai alguma sombra minha algum elo da nossa fraqueza Essa despigmentação irregular que nos atiça é antes uma sombra recriada uma forma ainda de esperar Quando não esperarmos mais — e nem ainda — escondo a tua sombra nesta mão
* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 28 de Novembro de 2008 1. Em 2001, a minha candidatura à câmara de Viseu não conseguiu arranjar dinheiro para contratar um “escritor fantasma”. Tive que ser eu a escrever os meus discursos. [Glup! Lembrei-me agora do que aconteceu à líder do PSD... Atenção! Este ponto do Olho de Gato é só uma pequena ironia…]
2. Em Setembro de 2001, fiz uma intervenção numa iniciativa da JS. Eis um pequeníssimo excerto do que disse então aos jovens socialistas: “Vou falar-vos duma teoria de um senhor chamado Olson. Ele afirma que as grandes organizações sociais, como os partidos políticos e os sindicatos, têm baixas taxas de filiação porque os seus serviços beneficiam igualmente todos, independentemente da participação de cada um. A participação de cada um nas decisões sobre a produção destes serviços é muito baixa, muito diluída, e o custo dessa participação é elevado.” Depois o meu discurso deu umas voltas até chegar ao algoritmo: esperança = desejo + tempo. 3. A Federação de Viseu da JS apresentou, no último congresso distrital do PS, uma moção onde descreve as razões do desencanto dos cidadãos com os políticos e apresenta boas propostas para sintonizar a política com a sociedade. Destaco três: (i) não à mistura entre a política e os negócios; (ii) não à acumulação de candidaturas em eleições locais e nacionais; (iii) primárias no partido para escolha de candidatos às câmaras e ao parlamento. As ideias da JS enfureceram os carreiristas do partido. Não faz mal. São boas ideias. Hão-de fazer o seu caminho. A JS-Viseu e a sua líder distrital, Patrícia Monteiro, estão a pagar todos os “custos de participação” na política e não querem saber da teoria do senhor Olson para nada. Haja esperança…
Não precisa nem casar Tiro dele tudo o que preciso Não saio mais daqui Duvido muito Esse assunto de mulher já terminou O gato comeu e regalou-se Ele dança que nem um realejo Escritor não existe mais Mas também não precisava virar deus Tem alguém na casa Você acha que ele aguenta? Sr. ternura está batendo Eu não estava nem aí Conchavando: eu faço a tréplica Armadilha: louca pra saber Ela é esquisita Também você mente demais Ele está me patrulhando Para quem você vendeu seu tempo? Não sei dizer: fiquei com o gauche Não tem a menor lógica Mas e o trampo? Ele está bonzinho Acho que é mentira Não começa
SE NÃO SABE PORQUE É QUE PERGUNTA? JOÃO FIADEIRO e JOAQUIM ALEXANDRE RODRIGUES Se não sabe, porque é que pergunta? é uma frase que aparece no livro Silence, de John Cage onde ele relata uma conversa entre o pianista David Tudor e um aluno que faz um conjunto de perguntas insistentes. Após uma pausa, David Tudor responde “If you don’t know why do you ask?”. Esta frase foi ainda usada como título de um livro do pedopsiquiatra português João dos Santos, onde este transcreve um conjunto de conversas que manteve com crianças na sua prática clinica. Um pergunta que é acima de tudo uma provocação e uma afirmação de que nem sempre, para se aceder ao mundo e às suas manifestações, a resposta é a melhor conselheira. O mesmo acontece nas artes. O saber, sobretudo quando servido em modo de resposta pronta, mata a imaginação. A partir de um convite do Teatro Viriato, João Fiadeiro e Joaquim Alexandre Rodrigues conversam abertamente sobre a relação da dança (e da arte) contemporânea e o público.
Tu queres sono: despe-te dos ruídos, e dos restos do dia, tira da tua boca o punhal e o trânsito, sombras de teus gritos, e roupas, choros, cordas e também as faces que assomam sobre a tua sonora forma de dar, e os outros corpos que se deitam e se pisam, e as moscas que sobrevoam o cadáver do teu pai, e a dor (não ouças) que se prepara para carpir tua vigília, e os cantos que esqueceram teus braços e tantos movimentos que perdem teus silêncios, o os ventos altos que não dormem, que te olham da janela e em tua porta penetram como loucos pois nada te abandona nem tu ao sono..
1. O dichote “Portugal é Lisboa e o resto é paisagem” descreve coisa muito antiga. Já Eça de Queirós, no seu Os Maias, depois de entalar um vidro no olho de João da Ega, fê-lo bradar deslembrado do seu Minho natal: «Portugal é Lisboa. Fora de Lisboa não há nada.» Novo, novo, é o nível de centralismo que atingimos. Virado o milénio, todos os governos passaram a usar o mesmo pretexto e a mesma ferramenta para meterem tudo na capital. O pretexto foi a necessidade de controlo do défice, a ferramenta foi a informática. Esta tornou possível processar nos gabinetes ministeriais aquilo que, antes, as burocracias descentralizadas decidiam nos distritos e nos concelhos. Agora é Lisboa que coloca um professor numa escola de Portalegre ou um médico num centro de saúde de Chaves, é Lisboa que compra uma carga de um extintor do tribunal de Viseu e que paga uma factura do hospital de Portimão. Ora, como é óbvio, Lisboa, como parte e reparte, não precisa de muita arte para ficar com a melhor parte, como todas as estatísticas mostram. Já não será tão óbvio perceber que isto faz aumentar a corrupção. Como a decisão está toda no mesmo sítio, os lóbis que precisam de a comprar têm a vida facilitada. Não surpreende que as “centrais de compras” do estado sejam coutada privativa de grandes empresas rentistas, como demonstrou um estudo da Universidade do Minho que acaba de ser tornado público. 2. Para além de meio ano de “assessoria de programação” ao vereador da cultura, o encenador Nuno Cardoso está, por estes dias, também em Viseu a fazer um evento sem especial novidade ou atenção pública. Por estes dois serviços, o futuro director artístico do Teatro Nacional S. João cobra, e muito bem, 112 mil euros ao município. O mesmo não se poderá dizer da câmara que, ao aceitar pagar-lhos, se esquece da frugalidade que impõe, e muito bem, a outras iniciativas culturais com muitíssimo mais impacto na cidade, na região e no país.
Abri curiosa o céu. Assim, afastando de leve as cortinas. Eu queria entrar, coração ante coração, inteiriça ou pelo menos mover-me um pouco, com aquela parcimónia que caracterizava as agitações me chamando Eu queria até mesmo saber ver, e num movimento redondo como as ondas que me circundavam, invisíveis, abraçar com as retinas cada pedacinho de matéria viva. Eu queria (só) perceber o invislumbrável no levíssimo que sobrevoava. Eu queria apanhar uma braçada do infinito em luz que a mim se misturava. Eu queria captar o impercebido nos momentos mínimos do espaço nu e cheio Eu queria ao menos manter descerradas as cortinas na impossibilidade de tangê-las Eu não sabia que virar pelo avesso era uma experiência mortal.
umas coisas atrás de outras fixou na parede a tabuleta e lê-se proibida a afixação quem plantou aquela nespereira sabia o que fazia agora há mais pássaros atrás das nêsperas muito para além dos frutos alguém escreveu numa parede do cais do sodré a fatinha tem sida aviso enorme de enormidade e ali perto outra inscrição num prédio do corpo santo paredes brancas povo mudo
* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 21 de Novembro de 2008 O eduquês é a desgraça da escola portuguesa. O eduquês fala uma língua de trapo a que chama “ciências da educação”. O eduquês é uma ideologia instalada há décadas no ministério da educação e na administração escolar. O eduquês acha que as meninas e os meninos só precisam de “aprender a aprender” e de “progredir” sem esforço. O eduquês é acientífico e, portanto, não se preocupa com conteúdos. Termos agora professores de alhos a avaliar professores de bugalhos não deve admirar ninguém. Faz parte do delírio do eduquês.
Há um livro de Nuno Crato que explica bem o que é o eduquês. Maria de Lurdes Rodrigues (MLR) é adepta ferrenha do eduquês. Desde que entrou para o governo, ainda não parou de tentar fazer das escolas um ATL facilitista. O facilitismo é uma traição às famílias, principalmente às mais pobres que não têm dinheiro para propinas privadas. Um balanço sereno e objectivo do consulado de MLR mostra claramente as escolas públicas a perder e os colégios privados a ganhar. Basta analisar os rankings. Basta ouvir o que dizem o Executivo e a Associação de Pais da melhor escola pública do país, a Escola Secundária Infanta Dona Maria de Coimbra. Em Novembro de 2006, na Livraria da Praça, Guilherme Valente fez uma previsão muito ajustada do que está a acontecer. O raciocínio prospectivo do editor da Gradiva foi o seguinte: (i) MLR não vai olhar a meios para obter resultados estatísticos cor-de-rosa; (ii) as pessoas vão perceber o truque; (iii) a imagem da escola pública vai bater no fundo; (iv) como resultado do desastre, vai surgir uma política séria para salvar a escola pública e fazer o funeral do eduquês. O país está atolado na fase iii. Falta passar depressa à fase iv.
No folclore mexicano, La Llorona é o fantasma de uma mulher que perdeu os seus filhos e chora e procura-os no rio, causando o azar e a desgraça a quem está perto ou a ouve.
Amada, por que eu tive a tua voz Depois que o Nada teve a tua boca? A lua, em sua palidez de louca, Brilha igual sobre mim, e sobre nós!... Porém como estás longe, como o algoz De um só golpe sem fim — a Morte — apouca Os gritos dos que esperam, a ânsia rouca Dos que atrás têm seu sonho, os grandes sós! Aqui não brilha o mundo que engendraste Como o manto de um deus, e astros sangrentos Não nos rolam nas mãos da imensa haste. E só estes olhos meus, que nunca viste, Se incendeiam, vitrais na noite atentos, Voltados para o chão aonde fugiste!