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quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Compasso 331*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 17 de Outubro de 2008 

     
1. No prefácio do seu livro Bem-vindo ao Deserto do Real, Slavoj Žižek chama a atenção para o compasso 331 do último andamento da nona sinfonia de Beethoven. No que é o hino oficioso da União Europeia há um antes e um depois do compasso 331. 


    
Cito Žižek: “depois de ter escutado o tema da alegria nas suas três variações orquestrais e vocais, acontece algo inesperado” e “tudo se degrada e não mais voltamos a encontrar a dignidade simples e solene”.
     
Nesta perspectiva, no compasso 331 do Hino à Alegria há um ponto de viragem mau.

     
2. Portugal também teve o seu compasso 331. Há um antes e um depois do dia 4 de Março de 2001, o dia em que caiu a ponte de Entre-os-Rios. 
Desde esse dia estamos a marcar passo.




O blogue Blasfémias fez as contas: de 2001 a 2007, Portugal cresceu em média 1,1% ao ano. No mesmo período de tempo, Espanha cresceu 3,4% ao ano; a Polónia 4; a Grécia 4,3; a República Checa 4,9. Os países bálticos cresceram quase a 10% ao ano.
     
Vamos no sétimo ano seguido de subida de impostos e de empobrecimento da classe média e dos funcionários públicos. O resultado não é bom: desde 2001, já fomos ultrapassados pela Eslovénia e pela República Checa. Este ano a Eslováquia e a Estónia já ligaram o pisca e vão-nos passar. A Polónia aproxima-se.
     
Com o dinheiro fácil dos fundos comunitários o país ficou menos frugal e mais corrupto. A última história de ganhuça que aparece nos media serve só para fazer esquecer a penúltima. Nunca acontece nada. É justo dizer que têm aparecido políticos influentes a quererem lutar contra a corrupção mas acabam por se ir embora. Perante o polvo, acabam por desistir. Os últimos foram João Cravinho e Marques Mendes.

sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Encomendas*

* Hoje no Jornal do Centro


1. No dia 27 de Setembro de 2010, o secretário-geral da OCDE, sr. Ángel Gurría, apareceu em todos os media portugueses a recomendar um aumento vigoroso dos impostos sobre o imobiliário. Para além do IMI, a criatura queria também um aumento no IMT, o imposto que, quando ainda se chamava sisa, foi carimbado por Guterres como “o imposto mais estúpido do mundo”.
Durante dias a comunicação social não falou de outra coisa. Aquela conversa sintonizava-se tanto com a conversa do governo Sócrates que até parecia uma encomenda.

No dia 14 de Maio de 2013, o secretário-geral da OCDE, sr. Ángel Gurría, recomendou a Portugal que aumentasse impostos, tesourasse pensões, cortasse nos subsídios e indemnizações dos desempregados e carregasse nos combustíveis.
Durante dias a comunicação social não falou de outra coisa. Aquela conversa sintonizava-se tanto com a conversa do governo Passos que até parecia uma encomenda.

No passado dia 11 de Setembro de 2018, foi publicado um relatório da OCDE do eterno senhor Gurría, relatório esse que fez com que os nossos media desatassem a “informar” que os professores portugueses ganham dinheiro que nunca mais acaba.
Durante dias a comunicação social não falou de outra coisa. Aquela conversa sintonizava-se tanto com a conversa que o governo Costa gostaria de ter se tivesse coragem que até parecia uma encomenda.

Em 2010, a OCDE acarinhou Sócrates. Em 2013, mimou Passos. Agora quis fazer o mesmo a Costa mas as coisas não correram bem. Nem a perorar nove anos, quatro meses e dois dias seguidos, o sr. Ángel Gurría conseguiria convencer os portugueses que os seus professores são uns nababos.

2. Em vez de fazer como Bill Murray no filme “Os Caça-Fantasmas”, o bloco de esquerda, para tentar exterminar o fantasma Robles, propôs um “adicional ao IMT”, propôs um aumento da velhinha sisa.

Isto é, se o deixassem, o bloco adicionava ainda mais estupidez ao “imposto mais estúpido do mundo”.

quarta-feira, 28 de outubro de 2015

Pássaros*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 28 de Outubro de 2005


1. Duma varanda da minha casa observo um bando de aves a voltejar em torno do prédio. Olho para elas. Vão e vêm. Não param de voar.

A minha memória de filmes leva-me até Bodega Bay, a baía da Califórnia onde Alfred Hitchcok pôs os seus pássaros a atacarem Tippi Hedren e a furarem as cabines telefónicas com os bicos. Pássaros maus, de maldade má, pior que o vírus H5N1. “Birds”. “Pássaros”. Um dia destes, um programador de televisão sádico vai passar o filme do velho Hitch para assombrar, ainda mais, o nosso serão.


Olho para a passarada. Continua o seu esvoaçar pelo meu bairro fora. Serão migrantes? Terão vindo da Croácia? Da Roménia?
De hora a hora, as notícias sobre a gripe das aves aumentam o receio das pessoas e monopolizam a atenção do público. 

Veterinários e virologistas são as estrelas do momento. Até a festa de anos de casado do Dr. Cavaco acabou por não ter o impacto devido.

No país há mais inquietação que Tamiflu.

2. O Teatro Viriato pôs um objecto grande e misterioso no Claustro do Lar-Escola de Santo António. É uma caixa de madeira que está cheia de histórias para as nossas crianças inventarem. As escolas podem e devem marcar visita a esta “Caixa Para Guardar o Vazio”.


Imagem daqui
Fernanda Fragateiro, a responsável por este projecto, disse aqui, no Jornal do Centro: “Enchemos demasiado o espaço. É preciso deixarmos um património de vazio para os nossos filhos (…)”

É verdade: falta-nos “espaço vital”. Precisamos também de “vazio de som”. Não há silêncio em lado nenhum.


3. Os pássaros continuam às voltas no meu bairro. Não cantam nem chilreiam. Voam em silêncio. Ao menos eles.

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Mordomos*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Em 2010, o supremo tribunal americano, no caso "Citizens United versus Federal Election Commision", decidiu que qualquer empresa, sindicato ou associação pode contribuir sem limites para as campanhas políticas, com o fundamento absurdo de que as entidades colectivas devem ter os mesmos direitos que os indivíduos. Onde havia "um-homem-um-voto" passa a haver uma espécie de "um-dólar-um-voto".

Como explica Guy Standing, em "O Precariado A Nova Classe Perigosa", este "acontecimento retrógado" vai chegar a "todo o lado" já que as decisões do supremo americano tornam-se "precedentes globais".




2. Durão Barroso e José Sócrates não precisaram de esperar por este "precedente global" americano para misturarem política com negócios. Eles fizeram o papel de "mordomos" políticos de Ricardo Salgado e a coisa correu mal. Levou-nos à bancarrota de 2011 e tudo quanto é grande empresa, seja ela rentista ou produtiva, foi sendo adquirida por capital estrangeiro.

No trambolhão foram-se os dois mastodontes do regime — a EDP e a PT. Décadas de acumulação patrimonial, proveniente de preços protegidos, estão agora ao serviço de estratégias não portuguesas.

Lembro um negócio de energia e outro de media que ajudaram a esta descida ao inferno:

— a concessão em 2008 das novas barragens à EDP por 700 milhões de euros para "compor" o défice daquele ano foi uma irracionalidade económica e ecológica; ainda por cima, destruiu a beleza única do vale do Tua; poucos anos depois, aquela operação desastrosa — feita por um terço do seu valor de mercado — escorregou pelas três gargantas chinesas abaixo;

— a migração da televisão analógica para a TDT, levada a cabo pela PT, mais bem dito, levada a cabo pelo divino espírito santo que era quem mandava na PT, obrigou os portugueses a gastar dinheiro para ficarem com... os mesmos quatro canais que já tinham. Até a TDT grega tem 17 canais. Foi um golpe inqualificável nos portugueses mais pobres, mais sós e mais velhos.


sábado, 16 de agosto de 2014

A RTP?!



A partir de uma fotografia de
Enric Vives-Rubio para o Público

António José Seguro apresentou esta semana o seu programa para as primárias de 28 de Setembro. 

É mais um documento solipsista do ainda líder socialista. 

Tudo naquelas sete páginas é eu, eu, eu...

É caso para perguntar: 
Seguro julga que o PS é ele, ele, ele...?


O eu, eu, eu de António José Seguro, no subcapítulo "condições de governabilidade", em que são definidas as condições para a participação socialista num eventual governo de coligação, escreve o seguinte:

«Excluem-se dos acordos de incidência governamental os partidos que defendam a destruição do Estado Social, a saída de Portugal da União Europeia e do Euro e que advoguem uma política de privatização de empresas públicas em sectores-chave para o país, como as águas, a CGD ou a RTP.»


Embora Seguro mude mais vezes de opinião do que de camisa — recorde-se o que ele dizia das primárias abertas até há dois meses — mesmo assim, parta-se do princípio do que o aqui está dito é para levar a sério e pergunte-se: será que as águas, a CGD e a RTP estão no mesmo plano político? Todos os três são mesmo "sectores-chave para os país"? 

Vejamos:
— A água é um bem de primeira necessidade, desperta um enorme apetite aos rentistas, que se querem apropriar desse bem comum. 
Nenhuma dúvida. Há que dizer: não à privatização das águas! 

— A CGD, depois do acontecido com o BPN e agora o BES, é um refúgio e uma segurança. É um porto de abrigo perante um negócio imprescindível mas que anda a ser feito com práticas delinquentes. Precisamos de uma CGD pública, que não seja um coito de boys e que seja gerida com prudência.
Nenhuma dúvida. Há que dizer: não à privatização da CGD! 

— Quanto à RTP importa perguntar: ela faz mais serviço público que a SIC ou a TVI? Em quê? O eu, eu, eu de António José Seguro já ouviu falar da net de banda larga e das centenas de canais no cabo?
A RTP é assim tão importante para o futuro do país que possa impedir a formação de um governo?

Pôr as águas, a CGD e a RTP no mesmo plano, é como uma família pôr no mesmo plano a casa, o carro e o leitor de CDs. O leitor de CDs toca, há lá por casa uns CDs maravilhosos, mas...

O eu, eu, eu de António José Seguro parece que não vive neste mundo: em Maio, enquanto o país andava focado nas políticas europeias, decidiu apresentar 80 compromissos para... o governo do país.

Pior: dos tais 80 compromissos, 32 aumentavam o défice, 44 talvez-sim-talvez-não, e só 4 o diminuíam.

Este tipo de propostas, logo a seguir ao trauma da bancarrota de 2011, são eleitoralmente tóxicas e um susto para o futuro. A classe média que nestes três anos foi tão fustigada não vota neste tipo de delírios.

O PS, com o eu, eu, eu de António José Seguro, repete em legislativas os 31% das europeias. Mais coisa menos coisa.

O eu, eu, eu de António José Seguro é candidato a vice-primeiro-ministro de Pedro Passos Coelho. E só.

sexta-feira, 3 de janeiro de 2014

O soporífero Sócrates


José Sócrates está na televisão para malhar em Cavaco e em Passos e ignorar Seguro. Domingo após domingo, é sempre a mesma narrativa previsível e chata.

Uma coisa é certa: Sócrates continua a ser ouvido religiosamente por Paulo Campos, pelos corporativos e por Pedro Silva Pereira, enquanto António José Seguro se aquece no madeiro de Penamacor. 

A RTP, que acaba de mudar de director de informação, tem agora um dilema: continua ou descontinua o antigo primeiro-ministro?

 Esta capa de hoje do semanário SOL é, muito provavelmente, um balão-de-ensaio, um rascunho do que vai acontecer.

«Asneira!», disse António Costa quando soube da ida de Sócrates para o comentário político. Foi, de facto, asneira. Da grossa.

quarta-feira, 18 de dezembro de 2013

Cenários*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente quatro anos, em 18 de Dezembro de 2009



Imagem daqui
No próximo ano, o governo vai aprovar o orçamento com a direita e o casamento homossexual com a esquerda. O resto, que para aí se fala, é treta.

Faltam treze meses para as presidenciais.

Tudo indica que Cavaco Silva se vai recandidatar e vai ter o apoio de toda a direita. Cavaco tem feito um mau mandato e pode ser o primeiro presidente não reconduzido pelo voto dos portugueses. É derrotável pela esquerda, embora não seja fácil.

Neste tipo de eleições, na primeira volta escolhe-se e na segunda rejeita-se. Explico: na primeira volta o eleitor escolhe o candidato mais do seu agrado e na segunda volta rejeita o finalista que mais lhe desagrada (na hipótese, bem entendido, do seu favorito ter ficado pelo caminho).

O pior que pode fazer a esquerda é ir com um candidato único. Há três partidos à esquerda e cada um deve apresentar o seu candidato. Depois, o melhor deles disputa a segunda volta com Cavaco Silva.

O país está metido num sarilho. É necessária clareza na política. O PS não pode ir às presidenciais de braço dado com a agenda estéril da extrema-esquerda.

Eis os candidatos ideais e mais fortes para umas presidenciais clarificadoras:
- à direita, (i) Cavaco Silva;
- à esquerda: (ii) Carvalho da Silva, apoiado pelo PCP; (iii) Manuel Alegre, apoiado pelo bloco de esquerda; e (iv) Jaime Gama, apoiado pelo PS (é sabido que Guterres não deixa a ONU e Vitorino não desgruda dos negócios).

Parece certo o apoio do bloco a Manuel Alegre.

O PCP receia a independência de Manuel Carvalho da Silva e, por isso, vai preferir um geronte qualquer do comité central.

Por sua vez, o PS se se misturar numa campanha alegre com o bloco, vai perder o eleitorado central, e oferecer numa bandeja o segundo mandato a Cavaco Silva.

quinta-feira, 7 de novembro de 2013

Pobres *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

Como lembram Tony Judt e Timothy Snyder em “Pensar o Século XX”, sem as almofadas sociais do welfare state (estado-providência) viveríamos num warfare state (estado-conflito).

De uma maneira ou outra, as sociedades dão a mão aos excluídos, aos derrotados, aos que vão ficando de fora ou para trás — e os valores que impelem para isso vêm da religião, da ética e da decência. São práticas mais antigas do que julgamos, muito mais do que nos dizem os media e os políticos.

Aqueles dois historiadores lembram que a primeira “Lei dos Pobres” da Inglaterra é de 1597. Essa lei determinava um apoio aos indigentes, pago através de taxas locais, assegurando-lhes subsistência sem os obrigar a trabalhar ou a entrar num albergue.

Só em 1834, com a dita “Nova Lei dos Pobres”, se lhes impôs a obrigatoriedade de trabalho para poderem receber apoio. Essa nova lei fechava os pobres na pobreza — “tinham que primeiro esgotar os seus recursos antes de se tornarem elegíveis para a assistência” — e foi “uma mancha no rosto da sociedade inglesa”, conforme explica Tony Judt.


Em Portugal, só com a chegada de António Guterres ao poder é que se conseguiu instituir uma espécie de “lei dos pobres”, a que se chamou “rendimento mínimo garantido”.
E com o atraso secular do costume.

sexta-feira, 19 de julho de 2013

Cimento cultural (#2) — em quatro partes

Caro Miguel Fernandes,

O meu amigo começou aqui, eu repliquei aqui, depois treplicou aqui, e agora retreplico eu. 

«É da vida...», como dizia o saudoso engenheiro Guterres, neste caso, vida boa já que trocar ideias com quem tem ideias é bom.


1. Hélder Amaral
No mesmo dia em que me referi aqui ao cimento cultural do "empreiteiro Hélder Amaral", estive com o candidato do CDS que me disse que não quer uma obra nova para albergar a Casa da Cultura que defende para Viseu — o que está em causa é o recheio de ideias para a dita casa que terá que ser uma já existente.


Nesse sentido, o dilema do voto do Miguel Fernandes que me preocupava fica mais aliviado. Na sua resposta abriu o leque de opções a todo o leque partidário, não o restringindo à direita, o que me parece bem, e não se esqueceu de referir o voto nulo e branco, e mesmo a abstenção. 

Quanto mais opções melhor, concordo consigo, meu caro.


2. Manuel Maria Carrilho
Caríssimo Miguel Fernandes, é evidente que a política cultural não fugiu à dinâmica da "execução" de fundos comunitários, isto é, literalmente: o "homicídio" do dinheiro da "europa" feito à descarada e que ajudou a levar o país à bancarrota.

Esse rio largo de dinheiros europeus que deu ferreiras-dos-amarais e pontes-vasco-da-gama-mais-que-repagas e deu jamés e aeromoscas-de-beja e auto-estradas-redundantes e paulos-campos e outros figurões que Nosso Senhor os benza na sua divina graça, esse rio largo, no que à cultura diz respeito, nem um regato foi, nem uma levada, foi um regozito com alguma água para regar de cine-teatros e centros culturais o país. Em muitos os autarcas não sabem o que lá meter dentro, é verdade, muitos outros funcionam bem e são, usando uma velha fórmula, "sinais exteriores de riqueza de espírito" imprescindíveis a uma comunidade.

Doideiras de fidalgo falido, como o Museu dos Coches que não era preciso para nada, são coisas que não têm nada a ver com MMC cuja política cultural foi virada muito mais para o software que para o hardware e é por isso que o seu algoritmo MMC=cimento cultural não faz sentido nenhum nem se escora nos factos. 


3. Rede de leitura
Li com muita atenção a troca de argumentos que travou no Facebook com alguns dos nossos preciosos amigos e amigas feicebuqueiros acerca do assunto. O Miguel pensa que em vez de ser a biblioteca a preceder o gosto pela leitura, deve ser ao contrário; acha que, como temos "um povo que pura e simples está-se nas tintas para livros ou qualquer tipo de leitura que implique o mínimo de esforço intelectual", uma biblioteca é um "telhado", que não tem "fundações". 

Assunto de pescadinha-de-rabo-na-boca. Ou saindo dos mares para a capoeira: assunto do ovo-e-da-galinha. Nessa zoologia circular e insolúvel não me apanha, prefiro contar uma história.

Era uma vez um melómano com pouco dinheiro e, que sempre que tinha algum, tratava de o derreter em cêdês e em equipamentos audio. Era no tempo do analógico, gravar música fazia-se em cassetes. Não havia Youtube nem iTunes, estava-se a meados nos anos 90 do século passado. O nosso melómano já tinha um computador, claro, mas não ouvia música no computador, música ouvia-a no seu sistema de som comprado a prestações sofridas e a que só faltava uma peça: um deck de cassetes da Yamaha topo de gama que gravava cassetes de metal com a mesma qualidade audio de cêdê, quase noventa contos. Depois de muita ginástica lá o conseguiu comprar. Na mesma semana, numa revista de informática, viu um gravador de cêdês para computador por dezassete contos. No deck Yamaha, nem meia dúzia de cassetes chegou a gravar. 

E agora copio para aqui o início de "The Bookless Library", um artigo de Davis A. Bell, na New Republic:

They are, in their very different ways, monuments of American civilization. The first is a building: a grand, beautiful Beaux-Arts structure of marble and stone occupying two blocks’ worth of Fifth Avenue in midtown Manhattan. The second is a delicate concoction of metal, plastic, and glass, just four and a half inches long, barely a third of an inch thick, and weighing five ounces. The first is the Stephen A. Schwarzman Building, the main branch of the New York Public Library (NYPL). The second is an iPhone. Yet despite their obvious differences, for many people today they serve the same purpose: to read books. And in a development that even just thirty years ago would have seemed like the most absurd science fiction, there are now far more books available, far more quickly, on the iPhone than in the New York Public Library.

É isso, meu caro, a rede de leitura portuguesa, impulsionada pela visão de MMC, pode acabar por vir a ser uma espécie de deck de cassetes Yamaha topo-de-gama comprada quando já é tarde, quando a tecnologia de acesso aos livros mudou: no meu tablet tenho acesso a muitíssimos mais livros dos que há na biblioteca municipal de Viseu.

Não se perturbe, meu caro, não acho que estejamos perante o funeral das bibliotecas, aquilo que diz que é um "telhado" sem "fundações". Quanto mais não seja, as bibliotecas são dos poucos espaços públicos centrais nas cidades ainda acessíveis a toda a gente, onde um cidadão mesmo sem dinheiro pode estar num sítio sossegado, limpo e climatizado. Provavelmente não estará é a ler um livro de papel.

Coisas para pensar —  como vai ser uma biblioteca daqui a dez anos? Não vejo ninguém pensar sobre isso, nem os bibliotecários (o que é natural, são técnicos, podem influenciar decisões, mas não as podem tomar) nem os políticos como se está a ver nestas autárquicas (
o que se vê aí à solta nesta pré-campanha, meu caro, é achismo, impreparação engravatada, e metapolítica a declinar tretas sobre "cidadania" e "orçamentos-participativos").


4. O encontro em Setembro 
A minha réplica terminava com um singelo: "Vai uma conversa em Setembro sobre o assunto?" 

Na sua tréplica, aumenta a parada e propõe: "Um debate moderado, pela simpática Ana Paula Santana - em jeito de despedida-, no Lugar do Capitão, com os três programas - CDS, PSD, PS-  à frente, seria positivo."

No Facebook recebemos muitos sinais que o Lugar do Capitão estaria bem composto para esse eventual debate.

Mas, devo-lhe lembrar, meu caro: em Setembro o ruído eleitoral vai estar no máximo. É necessário e bom que assim seja. Será o tempo para os candidatos fazerem pesca de arrasto, até ao dia de S. Miguel, 29 de Setembro, dia de pagar as rendas anuais na antiga ordem agrícola.


Fiquemo-nos por uma singela conversa. Que caiba numa e só numa mesa do Lugar do Capitão. Para coisa mais formal ou alargada, não conte comigo.

quarta-feira, 12 de junho de 2013

Boomerang *

*Texto publicado no Jornal do Centro, há exactamente quatro anos, em 12 de Junho de 2009, e que fez o balanço da maioria absoluta socrática e das eleições europeias daquele ano

1. No dia 8 de Dezembro de 2006, escrevi aqui no Olho de Gato:
“O desgaste da imagem dos professores junto da opinião pública feito pela Ministra da Educação é um boomerang que vai cair na cabeça do PS e do governo. É só deixar passar a água debaixo das pontes.”
A água passou debaixo das pontes. 
O boomerang caiu na cabeça do PS e do governo.
Foi nas eleições do domingo passado.



2. O código genético do PS é a liberdade.
A liberdade de as pessoas poderem pôr sal no pão sem o estado estar a meter o nariz no assunto.
A liberdade das pessoas poderem circular sem serem chipadas.
A liberdade de se poder dizer que a barbárie marilurdista gosta de bufos e delatores.
A liberdade de se poder dizer que nem tudo o que é bom para o senhor António Mota Coelho Engil é bom para o país.
A liberdade de se poder dizer que o secretário de estado que disse querer trucidar os funcionários públicos devia arranjar outro emprego.
A liberdade de se poder lembrar aos militantes do PS que congressos “albaneses” – como os de Mangualde e de Espinho - são o cemitério da política.
A liberdade de se poder dizer que é um erro moral fazer política a promover a inveja e a schadenfreude, atirando as pessoas umas contra as outras.
A liberdade de se poder dizer que Portugal precisa de um estado honrado e frugal que deixe as pessoas tratarem da sua vida e tentarem ser felizes.

3. O boomerang das europeias vai doer durante semanas.
Boys intranquilos. “Ai que ainda perco o tacho…”
Depois, os negócios do costume vão ser acelerados.
Na minha freguesia - Coração de Jesus, Viseu - o PS teve 18,5%.
A classe média está atenta.
Não é seguro que já tenha descarregado a bílis toda.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Compasso 331*

* Texto publicado no Jornal do Centro em 17 de Outubro de 2008 

     
1. No prefácio do seu livro Bem-vindo ao Deserto do Real, Slavoj Žižek chama a atenção para o compasso 331 do último andamento da nona sinfonia de Beethoven. No que é o hino oficioso da União Europeia há um antes e um depois do compasso 331. 


    
Cito Žižek: “depois de ter escutado o tema da alegria nas suas três variações orquestrais e vocais, acontece algo inesperado” e “tudo se degrada e não mais voltamos a encontrar a dignidade simples e solene”.
     
Nesta perspectiva, no compasso 331 do Hino à Alegria há um ponto de viragem mau.

     
2. Portugal também teve o seu compasso 331. Há um antes e um depois do dia 4 de Março de 2001, o dia em que caiu a ponte de Entre-os-Rios. 
Desde esse dia estamos a marcar passo.




O blogue Blasfémias fez as contas: de 2001 a 2007, Portugal cresceu em média 1,1% ao ano. No mesmo período de tempo, Espanha cresceu 3,4% ao ano; a Polónia 4; a Grécia 4,3; a República Checa 4,9. Os países bálticos cresceram quase a 10% ao ano.
     
Vamos no sétimo ano seguido de subida de impostos e de empobrecimento da classe média e dos funcionários públicos. O resultado não é bom: desde 2001, já fomos ultrapassados pela Eslovénia e pela República Checa. Este ano a Eslováquia e a Estónia já ligaram o pisca e vão-nos passar. A Polónia aproxima-se.
     
Com o dinheiro fácil dos fundos comunitários o país ficou menos frugal e mais corrupto. A última história de ganhuça que aparece nos media serve só para fazer esquecer a penúltima. Nunca acontece nada. É justo dizer que têm aparecido políticos influentes a quererem lutar contra a corrupção mas acabam por se ir embora. Perante o polvo, acabam por desistir. Os últimos foram João Cravinho e Marques Mendes.

terça-feira, 8 de maio de 2012

Saudades do engenheiro Guterres

     Diz o presidente do ACP, Carlos Barbosa, hoje ao I.:
     — "não era possível que algo que foi bem pensado por Cravinho e Guterres, que eram as Scut, pudesse passar de um custo anual de 200 milhões para mais de 700 milhões";
     — "as Scut têm 93 entradas e saídas, nunca foram pensadas para ter portagens".
     De facto, há dois tipos de auto-estradas:
     1 — as que são uma espécie de "túnel na paisagem", com poucos nós rodoviários, desenhadas para dar respostas rápidas a uma procura pré-existente;
     2 — e as como as SCUT, de concepção menos performativa e para menores velocidades, pensadas como instrumentos de desenvolvimento das regiões que atravessam, e por isso com muita porosidade com a envolvente, muitos nós rodoviários, e que pretendem criar procura.
     Para o financimento das SCUT, para além da taxa de 2 cêntimos em cada litro de combustível criada em 2006, podia ter sido criado o "selo das SCUT" como sugeri a Sócrates em Fevereiro de 2009 na presença de mais de mil militantes socialistas. 
     O "selo das SCUT" respeitava o princípio do utilizador-pagador, evitava as portagens e o big-brother dos pórticos e tornava muito mais fácil a vida ao trânsito internacional.
     Há três anos, Sócrates fez uma profissão de fé na tecnologia celerada do senhor Paulo Campos e do seu ex-assessor e fez muito mal. O engenheiro Guterres nunca embarcaria num big-brother destes e é por isso que tenho saudades do engenheiro Guterres e nenhuma do engenheiro Sócrates.

     O interesse público foi atingido muito negativamente ao ter-se avançado para as portagens nas SCUT. Ainda por cima, o Álvaro, perdão!, o dr. Vítor Gaspar, pôs as portagens nas ex-SCUT mais caras que nas auto-estradas das regiões ricas. 
     Já para os rentistas das PPPPP-Parcerias Prejuízos Públicos Proveitos Privados, todo este traumático processo revelou-se um jackpot.

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Uma boa notícia para o PS


 
Seguro e Assis reuniram-se e decidiram: 
 
     A confirmar-se, este é o primeiro sinal que o PS dá ao país de que quer ultrapassar o monolitismo socrático que o deixou com 28,05% dos votos e num buraco político sem fundo.

terça-feira, 7 de junho de 2011

Guterres e Sócrates: seis anos e alguns meses





António Guterres 

Primeiro-ministro 
 6 anos e 6 meses
 de Out/95 a Abril/02

O PS obteve, na sua saída, nas eleições de 17/3/2002:
2 068 584 votos (37,79%)









José Sócrates

Primeiro-ministro  
6 anos e 4 meses
 de Fev/2005 a Jun/2011


O PS obteve, na sua saída, nas eleições de 5/6/2011:
1 557 931 votos (28,05%)*



* Por apurar ainda os votos da diáspora.