Vejo um rio Vejo destroço de metal a flutuar Vejo um rio— provavelmente o Tejo Desejo de me afundar O Sado a sede sinos sinetas — ao acordar Vejo um istmo — isco com ritmo Paro de martelar Vejo os meus dedos metálicos frios Vontade de enferrujar Vejo limalhas de ferro macio Volumes por carregar Vejo estas veias estalando — artérias por soldar Vejo nuvens ricas de carbono — diáfanas D'envenenar As naves que eu construo Não são feitas para navegar Aguentam a violência de um beijo Mas nunca a do mar As vagas onde elas vogam Fundem-se com o ar Vão e vêm[-se]... ... voltam-se devagar ... se se voltam devagar
Quando eu, senhora, em vós os olhos ponho, e vejo o que não vi nunca, nem cri que houvesse cá, recolhe-se a alma a si e vou tresvaliando, como em sonho. Isto passado, quando me desponho, e me quero afirmar se foi assi, pasmado e duvidoso do que vi, m'espanto às vezes, outras m'avergonho. Que, tornando ante vós, senhora, tal, Quando m'era mister tant' outr' ajuda, de que me valerei, se alma não val? Esperando por ela que me acuda, e não me acode, e está cuidando em al, afronta o coração, a língua é muda.
1. A última edição deste jornal informou-nos que o tribunal de Viseu tem extintores sem manutenção, fora do prazo e rejeitados por empresas de segurança. Esmiuçados os detalhes, chega-se à conclusão do costume: os responsáveis locais não têm autonomia nem para resolver este problema tão pequenino. “Não podemos fazer nada localmente”, assume Maria José Guerra, juiz presidente do Tribunal de Viseu. A coisa, para avançar, tem que percorrer a via-sacra dos pedidos de autorização a uma direcção-geral qualquer. Com o pretexto do controlo do défice, o centralismo alargou o seu poder o mais que pôde. Lisboa agora manda em tudo. Em Setembro de 2016, o ministro Cabrita anunciou “155 medidas concretas”para valorizar o interior. Dois anos depois, na Pampilhosa, o ministro Siza acaba de anunciar mais uma pilha de medidas tão “concretas” como as do seu colega Cabrita. Só que o interior, até para carregar a porcaria de uns extintores, vai continuar a ter de pedir autorização a Lisboa. 2. Foram recuperadas casas em Pedrógão que não eram primeira habitação. Gente oportunista a gozar com a solidariedade dos portugueses. Depois de devidamente comprovadas as vigarices, das duas uma: ou os espertalhões devolvem os apoios ou as novas casinhas devem pura e simplesmente ser terraplanadas. Entretanto, nas redes sociais e não só, o caso foi visto e comentado pelas pessoas assim: casinhas de Pedrógão, casinhas dos deputados, os mesmos truques. Já se sabe que os senhores deputados tratam de arredondar o seu fim do mês, que o parlamento vai encomendando pareceres jurídicos que lixiviam tudo e, quando um ou outro deputado é apanhado pelos media, faz-se de morto durante uns tempos até as coisas arrefecerem, e os 36 cêntimos por quilómetro continuam a pingar-lhe na sua conta. Mas, pela reacção das pessoas esta semana, a coisa arrefece mas nunca esquece. As casinhas de Pedrógão trouxeram para a actualidade, mais uma vez, as casinhas dos deputados.
Esta linguagem é pura. No meio está uma fogueira e a eternidade das mãos. Esta linguagem é colocada e extrema e cobre, com suas lâmpadas, todas as coisas. As coisas que são uma só no plural dos nomes. — E nós estamos dentro, subtis, e tensos na música. Esta linguagem era o disposto verão das musas, o meu único verão. A profundidade das águas onde uma mulher mergulha os dedos, e morre. Onde ela ressuscita indefinidamente. — Porque uma mulher toma-me em suas mãos livres e faz de mim um dardo que atira. — Sou amado, multiplicado, difundido. Estou secreto, secreto- e doado às coisas mínimas. Na treva de uma carne batida como um búzio pelas cítaras, sou uma onda. Escorre minha vida imemorial pelos meandros cegos. Sou esperado contra essas veias soturnas, no meio dos ossos quentes. Dizem o meu nome: Torre. E de repente eu sou uma torre queimada pelos relâmpagos. Dizem: ele é uma palavra. E chega o verão, e eu sou exactamente uma Palavra. — Porque me amam até se despedaçarem todas as portas, e por detrás de tudo, num lugar muito puro, todas as coisas se unirem numa espécie de forte silêncio. Essa mulher cercou-me com as duas mãos. Vou entrando no seu tempo com essa cor de sangue, acendo-lhe as falangetas, faço um ruído tombado na harmonia das vísceras. Seu rosto indica que vou brilhar perpetuamente. Sou eterno, amado, análogo. Destruo as coisas. Toda a água descendo é fria, fria. Os veios que escorrem são a imensa lembrança. Os velozes sóis que se quebram entre os dedos, as pedras caídas sobre as partes mais trêmulas da carne, tudo o que é úmido, e quente, e fecundo, e terrivelmente belo — não é nada que se diga com um nome. Sou eu, uma ardente confusão de estrela e musgo. E eu, que levo uma cegueira completa e perfeita, acendo lírio a lírio todo o sangue interior, e a vida que se toca de uma escoada recordação. Toda a juventude é vingativa. Deita-se, adormece, sonha alto as coisas da loucura. Um dia acorda com toda a ciência, e canta ou o mês antigo dos mitos, ou a cor que sobe pelos frutos, ou a lenta iluminação da morte como espírito nas paisagens de uma inspiração. A mulher pega nessa pedra tão jovem, e atira-a para o espaço. Sou amado. — E é uma pedra celeste. Há gente assim, tão pura. Recolhe-se com a candeia de uma pessoa. Pensa, esgota-se, nutre-se desse quente silêncio. Há gente que se apossa da loucura, e morre, e vive. Depois levanta-se com os olhos imensos e incendeia as casas, grita abertamente as giestas, aniquila o mundo com o seu silêncio apaixonado. Amam-me; multiplicam-me. Só assim eu sou eterno.
O homem das crises: a história de Harvey Wallinger
Um comicamentário de Woody Allen de 1971 a gozar Rixard Nixon e em que Woody Allen personifica Harvey Wallinger, um Henry Kissinger ainda com cabelo.
Esteve para ser emitido na PBS em Fevereiro de 1972 mas a direcção daquela televisão não teve tomates para o passar.
Woody, por causa disso, felizmente dedicou-se ao cinema.
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Men of Crisis: The Harvey Wallinger Story Is a short film directed by Woody Allen in 1971. The film was a satirization of the Richard Nixon administration made in mockumentary style.
Allen plays Harvey Wallinger, a thinly disguised version of Henry Kissinger.
The short was produced as a television special for PBS and was scheduled to air in February 1972, but it was pulled from the schedule shortly before the airdate. Reportedly, PBS officials feared losing its government support and decided not to air it.
Allen, who previously had sworn off doing television work, cited this as an example of why he should "stick to movies".[2] The special never aired and can now be viewed in The Paley Center for Media.
Two of Allen's regular leading ladies, Louise Lasser and Diane Keaton, make appearances, as does the Richard Nixon-lookalike Richard M. Dixon. The fictional characters are interspersed with newsreel footage of Hubert Humphrey, Spiro Agnew, and Nixon in embarrassing public moments. Allen would later explore this style again in Zelig.
Tenho ainda os dentes quase todos o cabelo também e pouquíssimas cãs posso fazer amor e desfazer subir degraus dois a dois e correr quarenta metros atrás do eléctrico Quer dizer, não devia sentir-me velho o problema é que dantes não reparava nestes detalhes.
Mario Benedetti
Tears of the Black Tiger is a 2000 Thai western film written and directed by Wisit Sasanatieng
* Hoje no Jornal do Centro 1.O teatro do IP3 não pára. Depois das prestações inesquecíveis de José Sócrates e Pedro Passos Coelho, foi agora a vez de António Costa. No início do mês, o actual primeiro-ministro fez uma performance tépida como este Verão no palco erguido junto ao nó de Raiva. A raiva ficará para quando, na próxima bancarrota, forem instalar pórticos nos troços que venham eventualmente a ser duplicados. Não é o caso das obras agora lançadas que já estavam projectadas há muito tempo e que vão manter as duas vias. 2. O impacto conseguido pelo “Movimento pelo Interior”, onde não figurava nenhum político viseense, fez ressaltar a mornice irrelevante dos deputados e das cúpulas distritais dos partidos. Num jogo de soma nula a que ninguém dá atenção, eles vão-se marcando uns aos outros como se tem visto nos problemas do hospital de Viseu. À falta de melhor, o deputado social-democrata Pedro Alves até já se mete com... os voluntários do hospital.
3. No concelho de Viseu, a omnipresença de Jorge Sobrado leva ao eclipse parcial do presidente da câmara e ao eclipse total dos outros vereadores. Para deseclipsar a situação, António Almeida Henriques tem duas hipóteses: ou dilui Xanax nas bebidas do seu vereador da cultura ou contrata uma equipa alargada para a comunicação da câmara. Claro que a primeira hipótese não é defensável por ninguém e a segunda — que, ao que consta, está a ser cozinhada — é cara e de eficácia duvidosa. 4. Pelo que se leu na imprensa e nas redes sociais, os Jardins Efémeros foram tão tépidos como o Verão e a cidade não repetiu a chuva de críticas do ano passado ao evento. Ainda bem. Foi bom também que, ao contrário dos anos anteriores, os JE não se tenham sobreposto ao Tom de Festa que precisa de bilheteira mais do que nunca, depois do corte de 24% feito pela geringonça à Acert. A pulseira custa cinco euros e a 28ª edição daquele festival de músicas do mundo prossegue hoje e amanhã em Tondela.
* Publicado no Jornal do Centro em 18 de Julho de 2008 Em Abril de 2007, critiquei aqui a criação de uma super base de dados destinada ao combate à fuga fiscal dos funcionários públicos. Para além do perigo da informação recolhida poder cair em mão erradas, é iníquo segmentar a sociedade em funcionários públicos (os “maus”) e não funcionários públicos (os “bons”). Também nesta legislatura, foi aprovada uma lei em que se um cidadão reclamasse ao fisco perdia imediatamente direito ao sigilo bancário. Na assembleia da república só o actual líder parlamentar do PSD, Paulo Rangel, levantou a voz contra esse abuso. Só ele. Felizmente, essa aberração foi travada por Cavaco Silva e o tribunal constitucional. Agora, querem pôr um chip em todos os carros. A última edição do Expresso dizia que o chip vai ser uma maravilha, que vai facilitar nos engarrafamentos e nas operações stop e que nos vai colocar na vanguarda da telemática mundial. Enfim: balões de ensaio e marketing. Esta ideia é má. Tecnologia “big brother”, não, obrigado!
Não está a ser fácil a Mário Lino colocar praças de portagens nas SCUTs e, por isso, quer pôr-nos a pagar as portagens electronicamente. Ora, eu quero chegar a uma portagem e poder pagar com cartão, ou com via verde, ou com notas ou moedas. Como me apetecer. Ninguém tem nada que saber se estou em Espinho ou na Guarda. Sei que dizer isto não é popular. As pessoas acham que “quem não deve não teme”. É por causa desse “quem não deve não teme” que deixamos os governos espreitarem cada vez mais as nossas vidas. E, como se vê, a curiosidade dos governos é insaciável. Se o chip for posto à venda, as pessoas vão correr para as filas para o comprarem. Os portugueses gostam muito de modernices. E pouco da liberdade.
Disparo contra o sol Sou forte, sou por acaso Minha metralhadora cheia de mágoas Eu sou um cara Cansado de correr Na direção contrária Sem pódio de chegada ou beijo de namorada Eu sou mais um cara Mas se você achar Que eu tô derrotado Saiba que ainda estão rolando os dados Porque o tempo, o tempo não pára Dias sim, dias não Eu vou sobrevivendo sem um arranhão Da caridade de quem me detesta A tua piscina tá cheia de ratos Tuas idéias não correspondem aos factos O tempo não pára Eu vejo o futuro repetir o passado Eu vejo um museu de grandes novidades O tempo não pára Não pára, não, não pára Eu não tenho data pra comemorar Às vezes os meus dias são de par em par Procurando uma agulha num palheiro Nas noites de frio é melhor nem nascer Nas de calor, se escolhe: é matar ou morrer E assim nos tornamos brasileiros Te chamam de ladrão, de bicha, maconheiro Transformam o país inteiro num puteiro Pois assim se ganha mais dinheiro A tua piscina tá cheia de ratos Tuas ideias não correspondem aos factos O tempo não pára Eu vejo o futuro repetir o passado Eu vejo um museu de grandes novidades O tempo não pára Não pára, não, não pára Dias sim, dias não Eu vou sobrevivendo sem um arranhão Da caridade de quem me detesta A tua piscina tá cheia de ratos Tuas idéias não correspondem aos fatos O tempo não pára Eu vejo o futuro repetir o passado Eu vejo um museu de grandes novidades O tempo não pára Não pára, não, não pára
Cazuza e Arnaldo Brandão
---- Nota: post corrigido em 20/7, 11:12, na atribuição da autoria da letra e acrescentado com a versão dos Bersuit Vergarabat
— Porque este governo de socialista só tem o nome; após mais de um mês de greve, o que certamente se transformará num recorde de luta laboral e num péssimo chip de memória para um Partido Socialista (socialista? Vão estudar a etimologia do termo, por favor). — Porque começa a ser uma péssima tradição do Partido Socialista o desconsiderar a Educação e os seus profissionais. A linha destruidora começa em Lurdes Rodrigues e continua com o Tiago. — Porque é uma dor de alma ter que escrever que, provavelmente, o PPD consegue (des)tratar os professores de uma forma menos acintosa… — Porque ao fim de um mês de greve, o que os “representantes” dos professores conseguem é a criação “de uma Comissão de estudo”??? É pá, vão-se federar! — Porque uns lavaram a face dos outros e quem continua no batente, no terreno, na luta é que se lixa, SEMPRE! — Porque “o carro” só conhece uma mudança: marcha atrás! Entra um qualquer governo, uma nova equipa e não muda a mentalidade: tudo para o lixo, que nós é que somos os donos da verdade! Desiludidos, desanimados e irritados! “Fantasmas de todos os planetas, vinde salvar-nos!” – José Gomes Ferreira
No libreto, escrito por Christian Friedrich Henrici, conhecido por Picander), lê-se:
"Se não pudesse, três vezes por dia, tomar a minha chávena de café, na minha angústia tornava-me numa cabra assada toda encarquilhada."
Bach não escreveu óperas: esta cantata ao café foi escrita para concerto, mas é frequentemente representada em palco com os cantores ataviados a concluirem que tomar café é natural.
Continuar aos saltos até ultrapassar a Lua continuar deitado até se destruir a cama permanecer de pé até a polícia vir permanecer sentado até que o pai morra Arrancar os cabelos e não morrer numa rua solitária amar continuamente a posição vertical e continuamente fazer ângulos rectos Gritar da janela até que a vizinha ponha as mamas de fora pôr-se nu em casa até a escultora dar o sexo fazer gestos no café até espantar a clientela pregar sustos nas esquinas até que uma velhinha caia contar histórias obscenas uma noite em família narrar um crime perfeito a um adolescente loiro beber um copo de leite e misturar-lhe nitro-glicerina deixar fumar um cigarro só até meio Abrirem-se covas e esquecerem-se os dias beber-se por um copo de oiro e sonharem-se Índias.
Fantasmas de todos os planetas! Fantasmas de todos os planetas! Saltai em pára-quedas no silêncio que há por dentro do silêncio e vinde salvar-nos! Vinde salvar os homens para aqui abandonados ao pesadelo de si mesmos, só a serem homens, homens apenas, homens sempre, de manhã até à noite, semi-homens, infra-homens, super-homens, ex-homens... E fartos, fartos, fartos, fartos, fartos, desta desistência de já nem quererem ser deuses! Nem de transformarem os cavalos em relâmpagos!
— Olá, querido, finalmente juntos e ao vivo. — Tens razão, foi uma noite inesquecível aquela em que te conheci... mas no dia seguinte começava aquele curso de empreendedorismo em Londres... — Foi boa, sim, mas soube a pouco e ainda não sei nada de ti. Durante estes meses, a tua conversa na net foi sempre a mesma: start-ups, unicórnios, janelas de oportunidade, candidaturas ao vinte-vinte, ou lá o que é isso... — Chateia-te eu querer ser rico? — Chateia-me não saber nada de ti, nem da tua família. — Sou de uma família de falhados. O meu avô, um triste, montou uma fábrica de máquinas a petróleo em 1960... — Máquinas a petróleo? — Sim, eram muito usadas nas cozinhas antes de aparecerem os fogões a gás. O meu avô fez a fábrica quando estavam a chegar as botijas ao mercado. Um nabo. Faliu... — Coitado, foi azar... — Azar nada, o meu avô não percebia nada de empreeendedorismo, destratar a minha avó sabia ele, investir, não. Mas o meu pai fez pior... — Então?! — Em 1983, aquela besta enterrou uma fortuna numa fábrica de máquinas de escrever... — Não correu bem? — Claro que não. A IBM tinha lançado o primeiro PC dois anos antes. Estava-se mesmo a ver que o futuro ia ser das impressoras. O meu pai para tratar mal a minha querida mamã tinha muito jeito, para o empreendedorismo, nenhum... — Empreendedorismo, empreendedorismo, estás sempre com isso na boca... — Foi para isso que fui para Londres... — Foi por isso que só tivemos aquela noite. — ... e, enquanto estava lá, tive uma ideia para um negócio infalível... — Infalível? — Claro, não vou ser um falhado como o meu avô e o meu pai... — Que vais fazer? — Vou fazer um franchise de escolas tauromáquicas. * Todas as crónicas desta série podem ser lidas no blogue Olho de Gato, na etiqueta "Ele e ela"