domingo, 31 de maio de 2020

White lies

Fotografia de Maurice Harris


The lies I could tell,
when I was growing up
light-bright, near-white,
high-yellow, red-boned
in a black place,
were just white lies.

I could easily tell the white folks
that we lived uptown,
not in that pink and green
shanty-fied shotgun section
along the tracks. I could act
like my homemade dresses
came straight out the window
of Maison Blanch. I could even
keep quiet, quiet as kept,
like the time a white girl said
(squeezing my hand), Now
we have three of us in this class.

But I paid for it every time
Mama found out.
She laid her hands on me,
then washed out my mouth
with Ivory soap. This
is to purify, she said,
and cleanse your lying tongue.
Believing her, I swallowed suds
thinking they'd work
from the inside out.
Natasha Trethewey



* Natasha Trethewey nasceu em 1966 em Gulfport, Mississippi, numa época em que o casamento interracial de seus pais era considerado crime naquele estado. No certificado de nascimento, no espaço destinado a ser preenchido com a raça da mãe, surge a expressão "colored", e no do pai, um americano branco nascido na Nova Escócia, surge a expressão "Canadian".

O poema "White Lies", de Natasha Trethewey - escritora que pertence à mais jovem geração de poetas norte-americanos, - plasma num tom inocente a atitude adolescente de uma rapariga mestiça, filha de pai branco e mãe negra, portanto, mas suficientemente clara para conseguir "passar por branca" numa sociedade subjugada pelo enorme peso do racismo.

sábado, 30 de maio de 2020

Monotarefas*

* Hoje no Jornal do Centro
Podcast aqui

1. Ainda Sócrates era primeiro-ministro, escrevi aqui um texto intitulado “Multitarefas”, em que defendi esta coisa muito simples — nós somos capazes de fazer várias coisas ao mesmo tempo.

Dei até exemplos: um homem apanhado no IP3 a 160 à hora e a fazer a barba; uma mulher a levantar dinheiro num multibanco, a comer um croissant e a falar ao telemóvel.

Naquele texto, a minha tese era que os eleitores não se baralhavam se tivessem de votar no mesmo dia várias eleições ou vários referendos (infelizmente a lei continua a não deixar que isso aconteça) e que os deputados, numa manhã, eram capazes de aprovar o casamento entre pessoas do mesmo sexo (felizmente pouco depois foi legalizado) e ainda lhes sobrava o resto do dia para tratarem de outros assuntos.

Relido onze anos depois, percebo que aquele texto bem-humorado tinha alguns pés-de-barro. A capacidade de fazer várias coisas ao mesmo tempo não é universal: as mulheres são multitarefas, os homens nem por isso. Pior: debaixo de muita pressão, viramos todos monotarefas, só conseguimos dar atenção a um, e só um, problema.

A peste é um bom exemplo desse afunilamento: os serviços de saúde em todo o mundo mobilizaram-se para o combate à Covid-19 e descuraram tudo o resto, o tratamento das doenças crónicas, até a vacinação das crianças.

Esta semana, na TVI, Pedro Santos Guerreiro lembrou mais um exemplo deste só-uma-coisa-de-cada-vez: em 15 e 16 de Outubro de 2017, o país foi varrido por um incêndio devastador; dois dias depois, foi consumada a venda do Novo Banco à Lone Star. O primeiro desastre, de tão violento, não deixou que déssemos a devida atenção ao segundo.


Fotografia daqui
2. Em Viseu, na Quinta da Cruz, está patente ao público uma exposição minimalista de Pedro Cabrita Reis, com néons e fios ao pendurão, designada I Dreamt Your House Was a Line.

Antes de a ter ido visitar, fiz uma navegação prévia na internet pelo universo mental que deu origem àquilo: pus-me a ver os tubos fluorescentes do genial artista norte-americano Dan Flavin.

Fiz mal. Devia ter trocado a ordem. Primeiro avia-se o mau e deixa-se o bom para o fim.

"And Now For Something Completely Different" (#264)

Norman Fucking Rockwell*

“Now that Doja Cat, Ariana, Camila, Cardi B, Kehlani and Nicki Minaj and Beyoncé have had number ones with songs about being sexy, wearing no clothes, fucking, cheating etc – can I please go back to singing about being embodied, feeling beautiful by being in love even if the relationship is not perfect, or dancing for money – or whatever I want – without being crucified or saying that I’m glamorising abuse??????”


Daqui

Goddamn, man-child
You fucked me so good that I almost said: I love you
You're fun, and you're wild
But you don't know the half of the shit that you put me through
Your poetry's bad, and you blame the news
But I can't change that, and I can't change your mood
Ah-ah

'Cause you're just a man
It's just what you do
Your head in your hands
As you color me blue
Yeah, you're just a man
All through and through
Your head in your hands
As you color me blue
Blue, blue, blue

Goddamn, man-child
You act like a kid even though you stand six foot two
Self-loathing poet, resident Laurel Canyon, know-it-all
You talk to the walls when the party gets bored of you
But I don't get bored, I just see you through
Why wait for the best when I could have you?
You

'Cause you’re just a man
It’s just what you do
Your head in your hands
As you color me blue
Yeah, you're just a man
All through and through
Your head in your hands
As you color me blue
Blue, blue
You make me blue

Blue, blue
Blue, blue, blue
Blue, blue, blue
Lana Del Rey



sexta-feira, 29 de maio de 2020

Comer a chuva



comer a chuva
com o estômago vazio
mais uma vez

pingo
a pingo
até sentir sede

correr ao relento
desafiando os resfriados
que chegam mais fácil
com o avanço dos anos

sentir o solo nu
nas solas nuas dos pés
plantar-se
sem deixar raízes

se acostumar com o silêncio
jamais acender as velas
ou os lampiões
não sorrir à toa
gastar as horas
contemplando o
pasto árido

o dia de amanhã
vai ser inédito
igual a todos os outros
que já vivemos
Camila Assad



quinta-feira, 28 de maio de 2020

Festas e bolos *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 28 de Maio de 2010


1. Em 30 de Novembro de 2001, o ministro da economia da Argentina, Domingo Cavallo, decretou o “corralito”, o congelamento das contas bancárias, o que fez alastrar o descontentamento a todo o país.


Fotografia e detalhes sobre o corralito aqui 
Multidões manifestaram-se batendo em panelas – protesto a que se chamou “cacerolazo”. Houve pilhagens e mortes. Cavallo foi o alvo de todas as fúrias. Nas manifestações havia sempre muitas pessoas com a máscara do ministro, máscara que na altura se vendia na Argentina tão bem como agora se vende a vuvuzela na Covilhã.

A 19 de Dezembro foi decretado o estado de sítio. Mal o presidente acabou de o anunciar, milhares de argentinos pegaram nas caçarolas e arrancaram para as ruas. Um dos alvos foi a casa do ministro que foi cercada. Conta-se que Domingo Cavallo conseguiu fugir de casa sem ser molestado pela multidão porque levava posta uma das populares máscaras de si próprio.

Lembrei-me desta história ao ouvir esta semana Vítor Constâncio nas televisões a falar de cortes nos salários. Falava, falava, e eu via Constâncio com a sua máscara posta - a máscara “Vítor-Constâncio-não-acerta-uma”.

2. Uma criatura de mãos ágeis apropria-se de uns gravadores que não são seus mas – atenção! – isso não é roubo, isso é "acção directa".

Durante quatro dias os aparelhos ficam na posse da criatura que, depois, os entrega num tribunal mas – atenção! - isso não é arrependimento, isso é "providência cautelar".

Passaram três semanas e o tribunal não devolve os gravadores aos legítimos donos mas – atenção! - isso não é "receptação", é a justiça portuguesa a funcionar.

3. É claro que é preciso urgentemente escrutínio democrático e oposição à câmara de Viseu.

Mas, pelos modos, tem que se dar mais um tempo à nova concelhia do PS para continuar com as suas “festas e bolos”.

One fine day

Detalhes aqui

Saw the wanderin’ eye, inside my heart
Shouts and battle cries, from every part
I can see those tears, every one is true
When the door appears, I’ll go right through, oh
I stand in liquid light, like everyone

I built my life with rhymes, to carry on
And it gives me hope, to see you there
The things I used to know, that one fine

One fine day

In a small dark room, where I will wait
Face to face I find, I contemplate
Even though a man is made of clay
Everything can change that one fine —

One fine day

Then before my eyes, is standing still
I beheld it there, a city on a hill
I complete my tasks, one by one
I remove my masks, when I am done

Then a peace of mind fell over me —
In these troubled times, I still can see
We can use the stars, to guide the way
It is not that far, the one fine —

One fine day
David Byrne and Brian Eno




quarta-feira, 27 de maio de 2020

Transformações

Daqui



Somos folhas breves onde dormem
aves de silêncio e solidão.

Somos só folhas ou o seu rumor.
Inseguros, incapazes de ser flor,
até a brisa nos perturba e faz tremer.

Por isso a cada gesto que fazemos
cada ave se transforma noutro ser.
Eugénio de Andrade


terça-feira, 26 de maio de 2020

Ó alegria! Outra via encontrei!



Não copiei nem pastei.
Falta-me o elemento ruminante
para digerir o pensamento,
a certeza intoxicante,
pronta a todo o momento
a fazer a sua lei.

Por vezes partilhei
o que lera de interessante.
Respondem-me num tormento,
ao título impressionante
acrescentando bom fermento
mas sem lerem o que comentei!

É verdade que me cansei
de responder a algo semelhante
a algorítmico jumento
produzindo a ritmo entediante
mal escrito excremento.
Para isso já dei...

Ó alegria! Outra via encontrei!
Descarreguei com desplante
o gatinho fofo e pulguento,
pompom de olhar rutilante!
Tão importante documento
copiei, pastei e o mundo responde: amei!
Artur Silva



segunda-feira, 25 de maio de 2020

É preciso não esquecer nada

Fotografia de  Michael Walk 

É preciso não esquecer nada:
nem a torneira aberta nem o fogo aceso,
nem o sorriso para os infelizes
nem a oração de cada instante.

É preciso não esquecer de ver a nova borboleta
nem o céu de sempre.

O que é preciso é esquecer o nosso rosto,
o nosso nome, o som da nossa voz, o ritmo do nosso pulso.

O que é preciso esquecer é o dia carregado de actos,
a ideia de recompensa e de glória.

O que é preciso é ser como se já não fôssemos,
vigiados pelos próprios olhos
severos connosco, pois o resto não nos pertence.
Cecília Meireles


domingo, 24 de maio de 2020

"Cidade eu to chegando verônica"

Fotografia de Dave Goudreau 


​pode uma casa sentir ciúmes? pra sapho ter ciúmes é se aproximar de DEUS, o grande
ciumento, que quando vai ocupar o coração de alguém odeia quando já tem gente e expulsa
a própria pessoa como se ordenasse SAIA DE SI. uma casa finge barulhos pra fazer ciúmes
o porteiro do condomínio diz quando passamos de carro: escuto às vezes quando vocês
ficam um tempo sem aparecer um bebê chorando ou um jantar feliz em fa corto o porteiro,
preciso embarcar as 03:80 pra portugal não tenho tempo de lidar com uma casa ciumenta.
não mesmo. na edícula ninguém grita com ninguém, é só a casa exagerando de novo.
um menino com corte coco chanel não vai sair dali pra me ajudar com o casaco de meia
estaçao que é preciso para enfrentar a primavera portuguesa. eu to sozinha nessa. o que são
todos esses snacks enfiados nos compartimentos menores das malas? a casa voltou a
cozinhar? jogo tudo no chão, já disse que não gosto de picles no meu sanduíche. não
encontro o desodorante roll-on, vou sem mesmo. zelos em grego antigo significa: quero
empobrecer ao seu lado. o amor divino de uma casa te desafia a deixar tudo para trás



sábado, 23 de maio de 2020

Todo o pelado vira relvado*

* Hoje no Jornal do Centro
Podcast aqui

1. Deambulando pelas nossas lindas e despovoadas terras beiroas, encontramos, ao abandono e em sítios desusados, muitos campos de futebol e parques de merendas.

Os campos de futebol de que falo são antigos, costumam estar prantados na margem de um rio ou num planalto eólico, longe de casas, e percebe-se que há décadas que não são pisoteados por nenhuma chuteira. São de um tempo em que os autarcas ainda não tinham descoberto o cimento dos polidesportivos, com rede altaneira à volta, junto às aldeias ou aos bairros.

Quando reparo nas balizas ferrugentas de um campo destes, agora só útil a rebanhos pastadores, costumo parar para o fotografar. Já publiquei nas redes sociais algumas dessas fotografias com a seguinte legenda: 
Com o tempo, todo o pelado vira relvado

Os parques de merendas são de um tempo posterior. São uma obra pública barata, jeitosa para inaugurar pelos senhores presidentes da junta em ano eleitoral. Já estiveram mais na moda — agora o que está a dar é passadiços e percursos pedestres que dão resposta, pelo menos para já, a uma evidente procura das pessoas.

Já os parques de merendas, alguns equipados até com churrasqueiras, nunca tiveram grande uso público. Passados os primeiros tempos de novidade, naqueles amesendados de granito nunca mais pastéis de bacalhau, nunca mais coxas de frango. E, desgraça das desgraças, nunca mais tintol. Só abandono. Musgo. Líquenes. E, uns senhores presidentes da junta depois, giestas e silvas.

Com o tempo, tudo vira mato.

2. Ora, como os desgraçados incêndios de 2017 nos mostraram, o mato mata. Por isso, o governo impõe que ele seja limpo à volta das casas até 15 de Março.

Problema: este prazo é estúpido. Cortado tão cedo ele torna a crescer outra vez antes que chegue a época dos incêndios.

Este ano, por causa da Covid-19, o prazo foi prolongado até ao fim de Maio. Foi uma decisão sensata. A peste que se vá de vez. E o novo prazo que fique.

"And Now For Something Completely Different" (#263)

:-)

It is the rising that I love

Fotografia de  Velizar Ivanov


As long as I struggle to float above the ground
and fail, there is reason for this poetry.
On the stone back of the Ludovici throne, Venus
is rising from the water. Her face and arms
are raised, and two women trained in the ways
of the world help her rise, covering her
nakedness with a cloth at the same time.
If this continues, she, goddess of beauty
and love will have accomplished the earth
where I stand. She from water to land,
me from earth to air as if I had a soul.
It is the rising I love, in no matter what
element, to the one above. As I ascend, helped
by prayers and not by women, I say in all my
sexual glamor, see my body bathed in light and air.
See me rise like a flame, like the sun, moon,
stars, birds, wind. In light. In dark.
But I never achieve it. I get down on my knees
this grey April to see if open crocuses have a smell.
I must live in the suffering and desire of what
rises and falls. The terrible blind grinding
of gears against our bodies and lives.
Linda Gregg


sexta-feira, 22 de maio de 2020

Quando amo

Fotografia de Jeffery Erhunse 

Quando amo
não amo ligeiro
sigo meu amado feito sombra
converso com o vento e ele barulha
revolta as persianas
que já não estão por si estão por nós
E meu batom batiza sua camisa.
Jussara Santos








quinta-feira, 21 de maio de 2020

Bancarrotas *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 21 de Maio de 2010


1. “Bancarrota” ou “default” são palavras que invadiram as manchetes dos jornais.

Num ensaio recente, os especialistas em história económica Kenneth Rogoff e Carmen Reinhart estabeleceram uma correlação muito forte entre os colapsos bancários e as bancarrotas dos países. 

O que está a acontecer às dívidas soberanas é uma decorrência da crise do sub-prime e tudo indica que a libra e o dólar (que têm sido tipografados furiosamente) vão ter problemas.

Para tornar curta uma história longa – há no mundo um risco elevado de default de países ricos. Não se ponham de fora dos radares a Grã-Bretanha e os Estados Unidos.

Para já, os sarilhos concentram-se no euro e na situação encravada dos países corruptos do sul.

Portugal está na fila da frente dos problemas porque as elites económicas e as elites políticas, em conúbio descarado, derreteram os fundos comunitários e hipotecaram o futuro dos nossos filhos com um endividamento insano.

Fotografia achada aqui
2. Miguel Frasquilho acumula. É, ao mesmo tempo, deputado da nação e quadro do BES, o banco do regime.

Esta semana, o PS criticou-o por ele como deputado dizer preto ao que como empregado do BES chama branco.

Quanto ao grosseiro conflito de interesses do deputado laranja, o PS não disse nada. É que quem tem telhados de vidro…

3. Os campeões de bancarrotas na Europa são a Grécia com 5 bancarrotas (90 anos de impacto); a Espanha, 12 bancarrotas (57 anos) e, sem surpresa, Portugal, 5 bancarrotas (24 anos).

A primeira bancarrota portuguesa foi em 1560, na regência da viúva de D. João III, e as outras quatro aconteceram durante a monarquia constitucional: em 1828; 1837-1841; 1850-1856; 1892-1901.

Com um cadastro financeiro destes no século XIX, não surpreende que a monarquia tenha caído de podre e não tenha deixado saudade.

Tão

Fotografia de Francisco Andreotti



​Nem tão 
Longe 
Que não
Nade
Em mar aberto.

Nem tão 
Perto
Que não
Nada 
Descoberto.

Nem tão 
Distante
Que não 
Se esqueça
Num instante

Maurício Simionato





quarta-feira, 20 de maio de 2020

Fun for One

Fotografia de Vadim Khromov 


Taste wood. Taste stone. Taste glass.
Do you have a preference?

Leave the shape of your face
in every pillow in your apartment.

Listen to the sirens outside rising and falling.
When a thought comes that will lead you
into the past or future, dismiss it.

Sit at first light on a bench in the square
and stay completely still
until you begin to distinguish the calls
of all the different birds.
List those birds in alphabetical—

Lie down for a while on the grass
with your arms wide
so you make the shape of a cross.
Face down the blank sky
and what you feel at your back
is the planet, the whole planet,
bracing itself.

At 4:25 pm make sure you face southwest.

In your kitchen the function of the objects
is to reestablish your aloneness.

Watch the ant crossing the tundra
of your kitchen counter
confront the pool of water you spilled earlier.

Choose a new name for yourself.
I like Sonia Vogel. Or Nana Buttski.
Jonathanathanathan.

Draw the sound of the siren rising outside
with a colored pencil or a biro.
Now draw the noise of a door opening,
now banging shut.

Ink a face on the palm of each hand
and flash them at yourself. Make one happy,
the other full of unspecified regret.

If you find the ant ascending the bread-bin
set your hand on said bread-bin
so that the ant steps onto your hand.
Look. You are become the earth.

Try to look the ant in the eye.
Do ants have eyes?
Think about the ant thinking about you
thinking about it.

Hold your breath: first in air, then in the bath.
Longer, longer, longer.

Try to sleep sitting up. Try to sleep standing.
Try to sleep with one eye open.
Do ants sleep? Try to sleep with ear plugs
and with Super Deep Brown Noise
and with the sirens outside rising and falling
and rising.

Insert the biro like a rose into the buttonhole
of your flannel pajamas. Whisper into it
as if it is a hidden microphone. You need backup,
to be retrieved, you need the team to come
storming in.

At 4:25 AM make sure you face southwest.
No reason.

Listen to the sirens rising and falling
down on Houston or Broadway or Bleecker
and take a stack of magazines and tear out
photographs of all the animals you find
and arrange them on the table
in scenes of peace and harmony.
Now make them eat each other.

Stand beside your desk and touch wood
in order to commune with the forest
that stood once where you stand now,
curls of birdsong, bright coins of sunlight
scattered on the leaf litter.

If the drain glugs in the sink imitate it.

If a dog barks on the street bark back.

If the siren rises and falls, turn on
the bathroom light
and look at your face in the mirror,
and keep on looking at your face
until your face is no longer your face
but the face of a stranger.
Nick Laird




terça-feira, 19 de maio de 2020

Fuck all those perfect people!



To be or not to be,
To free or not to free,
To crawl or not to crawl.
Fuck all those perfect people!

To sleep or not to sleep,
To creep or not to creep.
And some can't remember,
What others recall...
Fuck all those perfect people!

Sleepy eyes, waltzing through,
No, I’m not talking about you...

To stand or not to stand,
To plan or not to plan,
To stall or not ot stall.
Fuck all those perfect people!

To drink or not to drink,
To think or not to think.
Some choose to dismember,
Your rise and your fault...
Fuck all those perfect people!

Sleepy eyes, waltzing through,
Well I'm not talking about you...


segunda-feira, 18 de maio de 2020

How to speak poetry (Leonard Cohen) — Como dizer poesia (versão Vasco Gato)




Take the word butterfly. To use this word it is not necessary to make the voice weigh less than an ounce or equip it with small dusty wings. It is not necessary to invent a sunny day or a field of daffodils. It is not necessary to be in love, or to be in love with butterflies. The word butterfly is not a real butterfly. There is the word and there is the butterfly. If you confuse these two items people have the right to laugh at you. Do not make so much of the word. Are you trying to suggest that you love butterflies more perfectly than anyone else, or really understand their nature? The word butterfly is merely data. It is not an opportunity for you to hover, soar, befriend flowers, symbolize beauty and frailty, or in any way impersonate a butterfly. Do not act out words. Never act out words. Never try to leave the floor when you talk about flying. Never close your eyes and jerk your head to one side when you talk about death. Do not fix your burning eyes on me when you speak about love. If you want to impress me when you speak about love put your hand in your pocket or under your dress and play with yourself. If ambition and the hunger for applause have driven you to speak about love you should learn how to do it without disgracing yourself or the material.

What is the expression which the age demands? The age demands no expression whatever. We have seen photographs of bereaved Asian mothers. We are not interested in the agony of your fumbled organs. There is nothing you can show on your face that can match the horror of this time. Do not even try. You will only hold yourself up to the scorn of those who have felt things deeply. We have seen newsreels of humans in the extremities of pain and dislocation. Everyone knows you are eating well and are even being paid to stand up there. You are playing to people who have experienced a catastrophe. This should make you very quiet. Speak the words, convey the data, step aside. Everyone knows you are in pain. You cannot tell the audience everything you know about love in every line of love you speak. Step aside and they will know what you know because you know it already. You have nothing to teach them. You are not more beautiful than they are. You are not wiser. Do not shout at them. Do not force a dry entry. That is bad sex. If you show the lines of your genitals, then deliver what you promise. And remember that people do not really want an acrobat in bed. What is our need? To be close to the natural man, to be close to the natural woman. Do not pretend that you are a beloved singer with a vast loyal audience which has followed the ups and downs of your life to this very moment. The bombs, flame-throwers, and all the shit have destroyed more than just the trees and villages. They have also destroyed the stage. Did you think that your profession would escape the general destruction? There is no more stage. There are no more footlights. You are among the people. Then be modest. Speak the words, convey the data, step aside. Be by yourself. Be in your own room. Do not put yourself on.

This is an interior landscape. It is inside. It is private. Respect the privacy of the material. These pieces were written in silence. The courage of the play is to speak them. The discipline of the play is not to violate them. Let the audience feel your love of privacy even though there is no privacy. Be good whores. The poem is not a slogan. It cannot advertise you. It cannot promote your reputation for sensitivity. You are not a stud. You are not a killer lady. All this junk about the gangsters of love. You are students of discipline. Do not act out the words. The words die when you act them out, they wither, and we are left with nothing but your ambition.

Speak the words with the exact precision with which you would check out a laundry list. Do not become emotional about the lace blouse. Do not get a hard-on when you say panties. Do not get all shivery just because of the towel. The sheets should not provoke a dreamy expression about the eyes. There is no need to weep into the handkerchief. The socks are not there to remind you of strange and distant voyages. It is just your laundry. It is just your clothes. Don't peep through them. Just wear them.

The poem is nothing but information. It is the Constitution of the inner country. If you declaim it and blow it up with noble intentions then you are no better than the politicians whom you despise. You are just someone waving a flag and making the cheapest kind of appeal to a kind of emotional patriotism. Think of the words as science, not as art. They are a report. You are speaking before a meeting of the Explorers' Club of the National Geographic Society. These people know all the risks of mountain climbing. They honour you by taking this for granted. If you rub their faces in it that is an insult to their hospitality. Tell them about the height of the mountain, the equipment you used, be specific about the surfaces and the time it took to scale it. Do not work the audience for gasps and sighs. If you are worthy of gasps and sighs it will not be from your appreciation of the event but from theirs. It will be in the statistics and not the trembling of the voice or the cutting of the air with your hands. It will be in the data and the quiet organization of your presence.

Avoid the flourish. Do not be afraid to be weak. Do not be ashamed to be tired. You look good when you're tired. You look like you could go on forever. Now come into my arms. You are the image of my beauty.
Leonard Cohen


*****
Vasco Gato — Vídeo daqui


Tomemos a palavra borboleta. Para usar esta palavra não é preciso fazer com que a voz pese menos de um grama nem dotá-la de asinhas poeirentas. Não é preciso inventar um dia de sol nem um campo de narcisos. Não é preciso estar-se apaixonado, nem estar-se apaixonado por borboletas. A palavra borboleta não é uma borboleta real. Existe a palavra e existe a borboleta. Se confundires estas duas coisas darás razão a quem queira rir-se de ti. Não atribuas grande importância à palavra. Estarás a tentar insinuar que amas as borboletas de uma forma mais perfeita do que qualquer outra pessoa, ou que compreendes a sua natureza? A palavra borboleta não passa de informação. Não é uma oportunidade para pairares, levitares, aliares-te às flores, simbolizares a beleza e a fragilidade, nem de modo nenhum personificares uma borboleta. Não representes palavras. Nunca representes palavras. Nunca tentes tirar os pés do chão ao falares de voar. Nunca feches os olhos, tombando a cabeça para um dos lados, ao falares da morte. Não fixes em mim os teus olhos ardentes ao falares de amor. Se quiseres impressionar-me ao falares de amor mete a mão no bolso ou por baixo do vestido e toca-te. Se a ambição e a sede de aplausos te levaram a falar de amor deverás aprender a fazê-lo sem te envergonhares a ti mesmo nem às tuas fontes.
Qual é a expressão exigida pela nossa época? A época não exige expressão nenhuma. Já vimos fotografias de mães asiáticas enlutadas. Não estamos interessados na agonia dos teus órgãos remexidos. Não há nada que possas estampar no teu rosto que se equipare ao horror desta época. Nem sequer tentes. Apenas te sujeitarás ao desdém daqueles que sentiram profundamente as coisas. Já assistimos a películas de seres humanos em pontos extremos de dor e desenraizamento. Toda a gente sabe que andas a comer bem e que estás até a ser pago para estares aí em cima. Estás a actuar diante de pessoas que passaram por uma catástrofe. Tal facto deverá tornar-te bastante discreto. Diz as palavras, transmite a informação, chega-te para o lado. Toda a gente sabe que estás a sofrer. Não poderás contar à plateia tudo o que sabes sobre o amor a cada verso de amor que disseres. Chega-te para o lado e as pessoas saberão o que tu sabes por já o saberes. Nada tens para lhes ensinar. Tu não és mais belo do que elas. Não és mais sábio. Não lhes grites. Não forces uma penetração a seco. É mau sexo. Se revelares o contorno dos teus genitais, então cumpre o que prometes. E lembra-te que as pessoas não desejam propriamente um acrobata na cama. De que é que nós precisamos? De estar perto do homem natural, de estar perto da mulher natural. Não finjas que és um cantor adorado com um público vasto e leal que tem vindo a acompanhar os altos e baixos da tua vida até ao momento presente. As bombas, os lança-chamas e essas merdas todas não destruíram apenas árvores e aldeias. Destruíram igualmente o palco. Achaste que a tua profissão escaparia à destruição geral? Já não há palco. Já não há ribalta. Tu estás no meio das pessoas. Portanto, sê modesto. Diz as palavras, transmite a informação, chega-te para o lado. Fica a sós. Fica no teu canto. Não te insinues.
Trata-se de uma paisagem interior. É por dentro. É privado. Respeita a privacidade do texto. Estas obras foram escritas em silêncio. A coragem da actuação é dizê-las. A disciplina da actuação é não as violar. Deixa que o público sinta o teu amor pela privacidade ainda que não haja privacidade. Sejam boas putas. O poema não é um slogan. Não poderá publicitar-te. Não poderá promover a tua reputação de seres sensível. Tu não és um garanhão. Tu não és uma mulher fatal. Toda essa treta relacionada com os bandidos do amor. Vocês são estudantes da disciplina. Não representes as palavras. As palavras morrem se as representares, murcham, e a única coisa que sobrará será a tua ambição.
Diz as palavras com a exacta precisão com que verificas uma lista de roupa suja. Não te comovas com a blusa de renda. Não fiques de pau feito ao dizer cuecas. Não te arrepies todo só por causa da toalha. Os lençóis não deverão suscitar à volta dos olhos uma expressão sonhadora. Não é preciso chorar agarrado a um lenço. As meias não estão lá para te recordar viagens estranhas e longínquas. É só a tua roupa suja. São só as tuas peças de roupa. Não espreites através delas. Veste-as.
O poema não é senão informação. É a Constituição do país interior. Se o declamares e deres cabo dele com nobres intenções, então não serás melhor do que os políticos que desprezas. Não passarás de uma pessoa a agitar uma bandeira e a realizar o apelo mais reles a uma espécie de patriotismo emocional. Pensa nas palavras como sendo ciência e não arte. Elas são um relatório. Tu estás a falar num encontro do Clube de Exploradores da National Geographic. As pessoas que tens à tua frente conhecem todos os riscos do montanhismo. Honram-te partindo desse princípio. Se lhes esfregares isso na cara, será um insulto à sua hospitalidade. Fala-lhes da altura da montanha, do equipamento que usaste, sê rigoroso em relação às superfícies e ao tempo que demoraste a escalá-la. Não manipules o público à caça de bocas abertas e suspiros. Se mereceres as bocas abertas e os suspiros, isso não se deverá à avaliação que fizeres do acontecimento, mas à que o público fizer. Resultará da estatística e não do tremer da tua voz nem das tuas mãos a cortar o ar. Resultará dos dados e da discreta organização da tua presença.
Evita os floreados. Não tenhas medo da fraqueza. Não tenhas vergonha do cansaço. O cansaço dá-te bom ar. O ar de quem seria capaz de nunca mais parar. Agora, entrega-te aos meus braços. Tu és a imagem da minha beleza.

Leonard Cohen
Versão de Vasco Gato



Pedro Lamares — Vídeo daqui

domingo, 17 de maio de 2020

Este poema chama-se uma casa

Fotografia Olho de Gato


Este poema escrevo-o para ter tempo de habitar uma casa
moldar algum barro tocar algumas palavras
Este poema chama-se uma casa

Tem uma porta grossa para transpor devagar
uma cama antiquíssima e uma hora de calma
algum calor no ar

Este poema escrevo-o para erguer quatro muros espessos
é uma casa com uma mesa imensa e um pão quente
e o tempo de me habituar

Este poema chama-se mágoa e mágoa e uma casa
escreve-se para ter tempo de a morar
Miguel Serras Pereira



sábado, 16 de maio de 2020

O eleitorado de Trump*

Hoje no Jornal do Centro
Podcast e vídeo aqui 

Em 28 de Fevereiro, dediquei aqui um texto às presidenciais norte-americanas em que justifiquei o voto jovem em Bernie Sanders e deixei para um Olho de Gato futuro a descrição da racionalidade do voto que elegeu Donald Trump.

Vai ser hoje. Os entre-aspas que se seguem provêm do livro “Onde Estamos? Uma Outra Visão da História Humana”, de Emmanuel Todd .

A globalização, criada e impulsionada pelos Estados Unidos, tornou-se uma história de sucesso na Ásia, começa a apresentar também alguns bons indicadores na África, mas aumentou a desigualdade económica, a precariedade e a insegurança social no ocidente.

É o caso dos brancos norte-americanos com baixa escolaridade que se viram sujeitos a dois factores de stress simultâneos:
— perderam empregos bem remunerados à medida que as fábricas eram deslocalizadas para países de mão-de-obra mais barata;
— cresceu neles uma “insegurança territorial” à medida que, no seu país, a percentagem de habitantes nascidos no estrangeiro passava de 5 para 16%.

Já se sabe: um caldeirão assim produz ressentimento, remexe directamente na “base primitiva da democracia, a sua necessidade de um Outro e portanto da xenofobia”. Para eles a América não era great, para eles a América só seria great again com as fábricas de volta e o muro de Trump.


Daqui
Mas há pior. Estudos de Anne Case e Angus Deaton, da Universidade de Princeton, mostraram um fenómeno demográfico único. Enquanto a esperança de vida aumenta em todo o lado, nos EUA, entre 1999 e 2013, houve “uma subida da mortalidade no seio da população branca com idades compreendidas entre 45 e 54 anos”, cujas causas “são claramente de ordem psico-social: envenenamentos, alcoolismo e suicídio”. “Os condados directamente afectados pela concorrência chinesa no plano industrial viram a sua taxa de mortalidade aumentar”, sendo “o suicídio mais do que o envenenamento” a causa principal deste aumento de letalidade.

Não admira que estas pessoas — a quem a sobranceria de Hillary Clinton chamou “deploráveis” — tenham votado no isolacionismo de Trump.

O candidato democrata Joe Biden precisa de ter respostas políticas que tragam esperança a estes “vencidos da globalização” se quiser ganhar em Novembro.

Coisas


Porque as coisas são como são, as coisas não vão ficar como são. 
Bertolt Brecht



sexta-feira, 15 de maio de 2020

Alice

Fotografia de Max Kobus    


É do lado de cá do espelho
que corremos perigo.
Do lado de lá
tudo tem solução:
Alice espera por nós,
Alice dá-nos a mão.
Yvette Centeno




quinta-feira, 14 de maio de 2020

Falar pelos pobres *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 14 de Maio de 2010


1. Começo a escrever este Olho de Gato na terça-feira de manhã quando o avião de Bento XVI ainda vem no ar, numa rota ao abrigo das cinzas do vulcão Eyjafjallajokull.

A visita do papa tem impacto no país e cria expectativa. Há uma pergunta no ar: “o que é que Bento XVI vai dizer?”

Pedro da Silva Pereira, em artigo no Expresso da semana passada, depois de descrever as reformas decorrentes da nova concordata, não resistiu e, profilático, escreveu: “A questão social, à luz da maior crise económica dos últimos 80 anos, não deixará de ocupar um lugar importante nas mensagens do papa.”

O ministro, em boa forma apesar destes tempos difíceis e vulcânicos, tentou diluir a crise portuguesa na crise global. Mas a expectativa existe – “o que vai dizer o papa?”

Há uns tempos, quando já se sabia quem iam ser as vítimas principais do PEC, perguntei a um destacado membro da nossa diocese:

«Quando é que a Igreja começa a falar, como é sua obrigação, pelos pobres?»


«Espere pela visita do papa» – foi a resposta que obtive.

2. Como diz Slavoj Žižek em “A Marioneta e o Anão”: 
“hoje há cristãos, muçulmanos e budistas em todos os países do mundo” e estes tempos globalizados que vivemos fazem com que a religião fique secundarizada perante o “funcionamento profano da totalidade social”.



Fotografia da Agência Lusa daqui
Assim, diz Žižek:
“há dois papéis possíveis para ela: terapêutico ou crítico – [a religião] ou ajuda os indivíduos a funcionarem cada vez melhor na ordem existente ou procura afirmar-se como uma instância crítica e dizer o que está errado nessa ordem”.


Faz-nos falta uma voz crítica como a de D. Manuel Martins, o bispo de Setúbal nos anos de 1980.

Desgraçados tempos aqueles.

Desgraçados tempos estes - não é preciso lembrar-lho, D. Ilídio Leandro, bispo de Viseu.

Em carne viva

Fotografia de Wells Chan 


Em carne viva
Cruz, rosa
Dos ventos sem direcção que não seja o centro. Coluna
Sustentada pelos braços como um amigo que chega. Rosa
De orvalho e sangue para o corpo trespassado de sede. Árvore
Que bebe do homem. Árvore
Em silêncio onde escutamos a palavra
Em carne viva. Verbo
Tão inteiro que se fez espelho
Daniel Faria


quarta-feira, 13 de maio de 2020

Musical interlude

Fotografia de Thibault Mokuenko

Through the voice, the soul's work is done.
Janet Baker
Cragflower. Music of the sea.
         The flower still standing
in its tormented place.
Morning full of voices. Mourning too.
         Mahalia singing On My Way
and making it to Cay-nen Land.
On a rock, sit, listen to Bjorling
         sing Only a Rose
over your friend's ashes.
Chaffinch on the clothesline—
         rosy biscuit breast aglow—
will any minute
confirm himself in song.
         And listen,
the thin single note
of the sandpiper in lakedusk:
         beige and bright white,
precise bill opening, closing:
only the one note
         but enough to cut across
the whole valley
as a nightwind shakes
         the stiff green reeds to whispering.
Pain, even a single grain of it
anywhere in the body
         is a kind of stop and focus,
turning us to pure attention,
as may happen
         with some small invisible
winged thing singing in the thick of hedges.
Eamon Grennan