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sexta-feira, 12 de abril de 2019

Não se sentiu...*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Há um mês, num texto intitulado “Quem não se sente...”, alertei aqui o presidente da câmara de Viseu que lhe ficava muito mal estar a dar gás ao coreógrafo Paulo Ribeiro depois de este ter abandonado, em 2016, por sua única e exclusiva vontade, a direcção do Teatro Viriato, e ter vindo agora, anos depois, alegar que foi vítima de um “despedimento ilícito” e tentar sacar, em tribunal, 50 mil euros àquela entidade municipal.

Como é evidente, um bom líder “sente-se” e, por isso, põe-se ao lado do que é seu e está a ser atacado, não se põe ao lado do atacante.

O facto é que António Almeida Henriques, mesmo depois de avisado, “não se sentiu...” E fez pior: para além de ter mantido a encomenda de um espectáculo ao litigante, ...
Fotografia de José Ricardo Ferreira
(editada)
... sentou-se ao seu lado numa conferência de imprensa no exacto teatro demandado em tribunal. E, apesar de ter ouvido o homem confirmar aos jornalistas que ia continuar a exigir os 50 mil euros, mesmo assim, afirmou que aquilo ia ser “um grande momento das comemorações dos 20 anos do Teatro Viriato”.

Este episódio, do princípio ao fim, foi tudo menos “um grande momento” do que quer que seja.

A esta deserção do autarca de Viseu na defesa do seu teatro municipal some-se o seu défice de rigor gestionário: acaba de saber-se que a câmara de Viseu, em 2018, teve um resultado líquido negativo de 3.573.148,97 euros.

2. As eleições europeias de Maio são feitas num quadro político inédito: a UE tem dois inimigos declarados, Trump e Putin.

O presidente norte-americano e o presidente russo estão a apoiar partidos soberanistas de direita e de esquerda, hostis à “Europa”. Enquanto Putin faz as coisas mais na sombra, Trump é menos subtil. O seu estratega, Steve Bannon, não sai do velho continente a organizar uma internacional de ultra-direita.

É um sinal dos tempos: os vários nacionalismos europeus sempre foram historicamente hostis aos norte-americanos e aos russos. Agora, são lacaios deles.

sexta-feira, 29 de março de 2019

O último a saber*

* Hoje no Jornal do Centro

1. A nova ministra da Saúde, Marta Temido, é uma espécie de trigémea das manas Mortágua. Interessa-se muito com a ideologia e as abstracções que quer pôr na lei de bases, mas pouco com os problemas das pessoas. Resultado: a classe média, assustada com o estado do SNS, vai arranjando seguros de saúde.

Uma delegação de autarcas da CIM Viseu Dão Lafões acaba de ir em peregrinação à ministra mas regressou de mãos a abanar. As obras nas urgências do Hospital de S. Teotónio não avançam, apesar de já aprovadas e com comparticipação comunitária de 85%, mas a culpa não é dela... é das finanças. O Centro Oncológico não mexe mas a culpa não é dela... é da administração do hospital.

Volta, por favor, Adalberto Campos Fernandes!

Jardins Efémeros, 2017
Fotografia Olho de Gato

2. A última sessão da câmara de Viseu ficou marcada pela situação dos jardins Efémeros (JE): este ano não há, para o ano logo se vê.


O presidente da câmara confessou que “não estava a contar” (sic) e que só no dia 18 de Março, numa reunião com o vereador Jorge Sobrado e a organizadora dos JE, Sandra Oliveira, foi “confrontado” (sic) com aquele facto.

Ora, como António Almeida Henriques não ia mentir em sessão de câmara, isso significa que não foi avisado em devido tempo pelo seu vereador da cultura. Isso é um problema.

Qualquer vereador da cultura tem que estar atento ao “ecossistema” cultural do seu concelho. Sobrado tinha que saber que os JE fazem, logo em Janeiro, a chamada aos artistas para projectos integrados no tema do festival. Desta vez, nem em Janeiro, nem em Fevereiro, nem em meio Março houve tema dos JE/2019 nem “call-for-artists”.

Eu, que não sou vereador da cultura e, portanto, não recebi os e-mails aflitos da organizadora (não é preciso ser nenhum adivinho para imaginar que foram vários), sabia que os JE deste ano não iam acontecer.

Como é possível Jorge Sobrado não saber? Como é possível ele ter deixado que o seu presidente da câmara fosse o último a saber esta péssima notícia para a cidade e para o país?

quarta-feira, 27 de março de 2019

Hanami*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 27 de Março de 2009

Fotografia Olho de Gato
1. Hanami é uma tradição milenar japonesa que leva multidões para debaixo das cerejeiras a admirarem a beleza das suas flores. 

Ainda pode fazer hanami este fim-de-semana no vale do Douro, entre a Régua e Resende, onde há milhares de cerejeiras floridas à sua espera.
     
2. “A tendência do homens (…) a imporem aos outros como regra de conduta a sua opinião e os seus gostos, está tão energicamente sustentada por alguns dos melhores e alguns dos piores sentimentos inerentes à natureza humana que quase nunca se detém a não ser por lhe faltar poder.”
     
Quando escreveu isto há 150 anos, Stuart Mill estava longe de imaginar deputados, no século XXI, a parirem leis sobre o sal no pão nosso de cada dia.
     
3. Começo este ponto com uma declaração de interesses: integro um órgão não executivo do Cine Clube de Viseu (CCV).
     
Apesar disso, é com objectividade que afirmo: o CCV tem uma actividade cultural competente e consistente. O seu trabalho com as escolas já envolveu mais de 20 mil alunos. O Ministério da Cultura acaba de o colocar, pelo terceiro ano consecutivo, em primeiro lugar na rede nacional de exibição não comercial de cinema.
     
O CCV está bem mas há nuvens no horizonte. A evolução tecnológica vai fazer desaparecer as cópias de filmes em celulóide e a cidade ainda não tem uma sala não comercial com projecção digital.
     
Era importante que o futuro Centro de Artes do Espectáculo de Viseu (CAEV) tivesse uma sala com essa funcionalidade. Quanto mais modular, flexível e multidisciplinar o CAEV for, melhor.
     
É necessário evitar que o CAEV se transforme em mais um elefante branco. É agora na fase de concepção que se pode evitar esse risco bem real.

sexta-feira, 8 de março de 2019

Quem não se sente...*

* Hoje no Jornal do Centro


Fotografia Olho de Gato

1. Na edição da semana passada, este jornal dava a novidade na primeira página: “Antigo director coloca Teatro Viriato (TV) em tribunal, quer receber dinheiro dois anos depois de ter saído”. Mais à frente, na página seis, os pormenores: Paulo Ribeiro “alega que houve um despedimento ilícito” e “pede indemnização de 50 mil euros”.

Recordemos: em 2003, Paulo Ribeiro saiu de Viseu para ir dirigir o Ballet Gulbenkian, e, como as coisas não correram bem, acabou por regressar ao mesmo posto.

Uns anos depois, em 2016, Paulo Ribeiro, o número um, decidiu aceitar outro convite, desta vez para dirigir a Companhia Nacional de Bailado. Ninguém lhe pôs uns patins debaixo dos pés, ele, o boss, é que quis ir embora pela segunda vez.

O dr. Ruas, em entrevista publicada neste jornal, avisou Paulo Ribeiro que “nem o teatro, nem nenhuma instituição deste género pode ser utilizada como aeroporto, onde se aterra e descola a seu belo prazer”.

É evidente: o Teatro Viriato não é um aeroporto. Nem é, tão pouco, a santa casa da misericórdia.

2. Tem acontecido tudo a Paula Garcia, a actual directora do TV: quando tomou posse, o presidente da câmara, mal aconselhado, fragilizou-a com declarações estéreis e infelizes à imprensa; a seguir, apesar de a candidatura do TV aos apoios do ministério da cultura ter ficado em primeiro lugar, sofreu um corte enorme nos apoios vindos de Lisboa, só no primeiro ano foram 90 mil euros; agora, esta facada em tribunal do antigo director.

Perante tudo isto, ainda não se viu nenhum gesto solidário de António Almeida Henriques para com o seu teatro municipal. Mas ainda está a tempo.

O vereador da cultura convidou Paulo Ribeiro a fazer, no próximo mês, um espectáculo no exacto palco da exacta instituição a quem o coreógrafo, já depois desse convite, meteu uma acção judicial para tentar sacar 50 mil euros. Um presidente da câmara não pode pactuar com isto. O espectáculo deve ser cancelado.

É que quem não se sente...

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Multitarefas*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 20 de Fevereiro de 2009

1. Nós conseguimos fazer várias coisas ao mesmo tempo.

Há uns anos no IP3 foi apanhado pela GNR um condutor que ia a conduzir a 160 à hora e a fazer a barba. O facto é que o homem não se esbarrou.


Daqui
Já vi num multibanco uma mulher a levantar dinheiro da máquina enquanto falava ao telemóvel e comia um croissant. Ela não se enganou. Não falou para o multibanco nem comeu o telemóvel nem levantou o croissant.

Dizia-se que o presidente americano Gerald Ford não era capaz de caminhar e mascar chiclet ao mesmo tempo mas isso era só uma maldade dos seus inimigos políticos.

Nós somos multitarefas.

Portanto, por favor, não me digam que os portugueses não são capazes de votar para as autárquicas e para as legislativas no mesmo dia. Então as pessoas são capazes de votar em três papelinhos diferentes mas em quatro já não?

Ultimamente tenho ouvido muito o argumento que o que é preciso é atacar a crise económica em vez de se estar a pensar em problemas de minorias como o casamento gay. Ora, este argumento não tem em conta que os políticos também são multitarefas. Numa manhã de trabalho e sem madrugarem muito, os deputados podem perfeitamente resolver o problema do casamento entre homossexuais e ainda ficam com a tarde toda para lutarem contra a recessão.

2. Às vezes, na cabeça das pessoas, forma-se a ideia que a felicidade está sempre noutro lugar ou noutra circunstância, nunca no lugar ou na circunstância em que se está.

É disso que trata Revolutionary Road, de Sam Mendes, um filme amargo que vai aumentar a taxa de divórcios do mundo.

3. No último sábado foi lançado o primeiro número da Viseu.M. É uma revista excelente e imperdível.

Parabéns ao Grupo de Missão do Museu Municipal de Viseu.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Perguntas*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 6 de Fevereiro de 2009

1. Em Novembro foi conhecida a intenção da câmara de Viseu de construir um Centro de Artes do Espectáculo (CAE) ao fundo da Avenida da Europa.

Passaram já três meses e não dei conta de nenhuma tomada de posição política sobre este assunto tão obviamente importante para o concelho e a região.

Politiquice tem-se visto muita. Até já se usa a polícia municipal como arma de arremesso. Infelizmente, sobre o futuro CAE, nada. É pena.

Façamos, então, algumas perguntas:

O CAE incorpora algum pensamento estratégico para Viseu? Quer fazer-se de Viseu uma cidade de eventos? A ideia é tornar Viseu uma cidade criativa?

Porquê o convite a um arquitecto e não o lançamento de um concurso de ideias? Foi feita alguma prospectiva de públicos futuros? Que projecto funcional e com que modularidade? Como se articula o CAE e o Teatro Viriato? Há alguma estimativa de custos?


Fotografia daqui
Que fazer para que o fiasco do Pavilhão Multiusos não se repita no futuro Centro de Artes do Espectáculo de Viseu?

2. Na semana passada ninguém ligou nada à aprovação do orçamento rectificativo no parlamento que deitou ao rio todos os sacrifícios que fizemos nos últimos sete anos na luta contra o défice. Só se pensou e falou do caso Freeport.

O Olho de Gato também não vai fugir ao tema.

Factos: a mãe de José Sócrates vendeu uma casa em Cascais em 1998 e comprou um apartamento em Lisboa no mesmo ano. O licenciamento do Freeport foi em 2002.

Com estes factos, no último sábado, um jornal levantou suspeitas sobre a compra do apartamento da mãe de José Sócrates (recordo: comprado e pago quatro anos antes do licenciamento do outlet).

É isto jornalismo? Claro que não. Não se pode chamar jornalismo a uma pulhice.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Arranjem-me um emprego*

* Hoje no Jornal do Centro


Fotografia Olho de Gato 

No início desta semana, houve uma conversa evocativa dos 20 anos do Teatro Viriato, moderada por Pedro Santos Guerreiro, com Paula Garcia, Manuel Maria Carrilho, Ricardo Pais e Paulo Ribeiro.

Pedro Santos Guerreiro foi de um rigor impecável e, no final, fez uma síntese tão exaustiva e perfeita que deixou a plateia toda de boca aberta.

Paula Garcia esteve bem, descreveu, como lhe competia, o presente e os projectos para o futuro do teatro que dirige e que tem financiamento assegurado até 2021.

Manuel Maria Carrilho lembrou-nos naquele palco uma evidência: ele foi, de facto, o único ministro da Cultura da terceira república com meios e pensamento estratégico para o sector.

Já Ricardo Pais, sempre igual a Ricardo Pais, lá lembrou aquelas coisas dele apenas críveis à luz eléctrica, coisas dos anos 80 em que façanhudos parolos viravam apreciadores de Cole Porter, por sua obra e graça, e dos canapés que servia nos eventos da associação comercial. Enfim, elogio em boca própria não é bonito, mas há pior e houve pior.

E o pior deixo-o aqui mesmo para o fim: o coreógrafo Paulo Ribeiro, ex-director da casa, subiu àquele palco para dizer que o Teatro Viriato precisa de um “director-artista”. Verdade. O homem desenhou no ar uma moldura e pôs a sua cara de artista lá dentro. Transformou aquela evocação histórica numa espécie de “arranjem-me um emprego”.

Será que o mesmo “director-artista” que, logo em 2003, desertou para Lisboa para dirigir o Ballet Gulbenkian, e que, depois do fiasco, regressou a Viseu para uns anos de preguiça e rotina criativa, e que ainda desertou mais uma vez para Lisboa para dirigir a Companhia Nacional de Bailado, quer agora vir, pela terceira vez, tomar conta do Teatro Viriato?

Ou será que o coreógrafo vai ficar, afinal, na Casa da Dança de Almada? No primeiro mandato, António Almeida Henriques prometeu uma Casa da Dança para Viseu, mas o edil, já se sabe, em matéria de obras é só inconseguimentos.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2019

Monólitos*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 2 de Janeiro de 2009

     
1. O monólito que aparece em 2001, Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick, é um enigma. Aquele paralelepípedo negro é Deus? É a Energia? O que é?
  
A sequência inicial do filme chama-se A Aurora do Homem. Nela vêem-se uns macacos que, nas suas macaquices, descobrem um monólito negro. A partir desse instante, o líder deles consegue fazer o seu primeiro acto inteligente: usar um osso como arma. Fica capaz de matar presas e conquistar território.
     
Na alegria da vitória, o macaco, que afinal é o primeiro homem, atira o osso-arma ao ar. 


     

Milhares de anos de conquistas da inteligência humana são condensados naqueles cinco segundos em que, na subida, o osso dá voltas e voltas sobre si mesmo até se transformar numa nave espacial.

Fotografia Olho de Gato
2. O edifício da segurança social é o maior monólito de Viseu. 

É mal amado; muita gente chama-o mamarracho.

Nos tempos em que se julgava que éramos um país rico, falou-se em implodi-lo ou em amputá-lo de cinco andares.

Agora já ninguém fala disso. 

A arquitectura deixou-se de ornamentices pós-modernas. As construções são outra vez minimais, despojadas, funcionalistas. Basta ver as casas da classe média feitas nos últimos anos.
     
O nosso monólito da segurança social é um digno exemplar arquitectónico do estilo internacional. É a marca em Viseu daquela época da história da arquitectura mundial. Além disso, a sua geometria sintoniza-se com os tempos austeros que vivemos.

     
3. Caminhar em cima da passadeira de monólitos de granito que puseram na Cava de Viriato é um perigo. Cuidado! Muito cuidado!
     
Eis como começam todos os diálogos entre as pessoas que por lá passeiam:
     «Viva! Então que acha disto?»
     «Fizeram aqui uma boa trampa...»

quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

2008*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 26 de Dezembro de 2008

1. Este ano, durante a greve dos camionistas, houve uma corrida aos combustíveis e aos supermercados. Esteve-se a milímetros do caos.

As gerações mais novas, habituadas ao “leve 3 e pague 2”, ficaram a saber o que é açambarcamento de produtos. Os cotas recordaram tempos maus.

2. Foi metido muito dinheiro debaixo dos colchões no período mais agudo da crise dos bancos. Quando, num sábado à tarde, o Multibanco avariou durante uma horas, sentiu-se um calafrio. Ups!

Bismarck disse uma vez que, para sossego social, é melhor as pessoas não saberem como são feitas as leis ou as salsichas. Pelo que se tem visto, é melhor desconhecermos também como é feita a gestão dos bancos. Até para ficarmos tão informados como Vítor Constâncio.

3. Ao longo de 2008 foi aumentando o fosso entre o que diz Maria de Lurdes Rodrigues e a realidade nas escolas. Esse fosso é já um delírio.

A avaliação de professores, de remendo em remendo, de simplex em simplex, ficou só um faz-de-conta irritante.

Muito mais grave: a avaliação dos alunos é agora uma estatística cor-de-rosa sem credibilidade.

4. Neste ano de todos os perigos viu-se bem que o governo tem quatro políticos excepcionais: José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Teixeira dos Santos e Vieira da Silva. É graças a eles que o PS resiste nas sondagens.



5. Uma imagem especular só existe quando há algo à frente do espelho. 

Num espelho não há uma imagem. Num espelho acontece uma imagem.

Até 18 de Janeiro, na ACERT, em Tondela, há uma exposição de fotografias (e espelhos) de Alberto Plácido

Se for lá, e entrar no poliedro que está no meio da galeria, nunca mais esquece a experiência…

domingo, 25 de novembro de 2018

Hoje no Teatro Viriato — 17H00




SE NÃO SABE PORQUE É QUE PERGUNTA?
JOÃO FIADEIRO e JOAQUIM ALEXANDRE RODRIGUES

Se não sabe, porque é que pergunta? é uma frase que aparece no livro 
Silence, de John Cage onde ele relata uma conversa entre o pianista David Tudor e um aluno que faz um conjunto de perguntas insistentes. Após uma pausa, David Tudor responde “If you don’t know why do you ask?”. Esta frase foi ainda usada como título de um livro do pedopsiquiatra português João dos Santos, onde este transcreve um conjunto de conversas que manteve com crianças na sua prática clinica. Um pergunta que é acima de tudo uma provocação e uma afirmação de que nem sempre, para se aceder ao mundo e às suas manifestações, a resposta é a melhor conselheira. O mesmo acontece nas artes. O saber, sobretudo quando servido em modo de resposta pronta, mata a imaginação.

A partir de um convite do Teatro Viriato, João Fiadeiro e Joaquim Alexandre Rodrigues conversam abertamente sobre a relação da dança (e da arte) contemporânea e o público.

sexta-feira, 23 de novembro de 2018

Assessorias*

* Hoje no Jornal do Centro


Imagem daqui
1. O dichote “Portugal é Lisboa e o resto é paisagem” descreve coisa muito antiga. Já Eça de Queirós, no seu Os Maias, depois de entalar um vidro no olho de João da Ega, fê-lo bradar deslembrado do seu Minho natal: «Portugal é Lisboa. Fora de Lisboa não há nada.»

Novo, novo, é o nível de centralismo que atingimos. Virado o milénio, todos os governos passaram a usar o mesmo pretexto e a mesma ferramenta para meterem tudo na capital. O pretexto foi a necessidade de controlo do défice, a ferramenta foi a informática. Esta tornou possível processar nos gabinetes ministeriais aquilo que, antes, as burocracias descentralizadas decidiam nos distritos e nos concelhos. Agora é Lisboa que coloca um professor numa escola de Portalegre ou um médico num centro de saúde de Chaves, é Lisboa que compra uma carga de um extintor do tribunal de Viseu e que paga uma factura do hospital de Portimão.

Ora, como é óbvio, Lisboa, como parte e reparte, não precisa de muita arte para ficar com a melhor parte, como todas as estatísticas mostram. Já não será tão óbvio perceber que isto faz aumentar a corrupção. Como a decisão está toda no mesmo sítio, os lóbis que precisam de a comprar têm a vida facilitada. Não surpreende que as “centrais de compras” do estado sejam coutada privativa de grandes empresas rentistas, como demonstrou um estudo da Universidade do Minho que acaba de ser tornado público.

2. Para além de meio ano de “assessoria de programação” ao vereador da cultura, o encenador Nuno Cardoso está, por estes dias, também em Viseu a fazer um evento sem especial novidade ou atenção pública. Por estes dois serviços, o futuro director artístico do Teatro Nacional S. João cobra, e muito bem, 112 mil euros ao município.

O mesmo não se poderá dizer da câmara que, ao aceitar pagar-lhos, se esquece da frugalidade que impõe, e muito bem, a outras iniciativas culturais com muitíssimo mais impacto na cidade, na região e no país.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Obesidade do espírito*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Há uns anos, o Guardian publicou um artigo de Rolf Dobelli intitulado “As notícias são más para si e desistir de as ler vai fazê-lo mais feliz”. Nele, Dobelli afirma que o bombardeio incessante de factóides provenientes dos media e das redes sociais faz ao nosso espírito o que a fast-food faz ao nosso corpo — causa-lhe obesidade.

As “notícias” viciam e fecham-nos num presente que não sai do sítio. O último caso substitui o penúltimo, este, o antepenúltimo. Nunca pára esta máquina de amnésia: a detenção de Bruno Carvalho fez esquecer as passwords e as virgens ofendidas do parlamento, que, por sua vez, já nos tinham apagado a epístola cinegética do poeta Alegre, que, por sua vez, já nos tinha desacertado da cor das unhas de Isabel Moreira, que, por sua vez, nos arquivara o prof poliamoroso e desbeijante dos avós, que, por sua vez...

Este contínuo coabitar com o irrelevante, além de nos enclausurar no presente, causa-nos auto-ilusão. As pessoas julgam-se informadas e, na verdade, cada vez sabem menos do que se passa.

Há truques para tentar evitar ou diminuir essa obesidade do espírito. Sempre que possível, há que desligar do fluxo (dieta do espírito), preferir textos longos e reflexivos (exercício à mente) e alargar o presente tanto para trás (usando a memória) como para a frente (usando a capacidade de previsão).


Manuel Francisco completou 82 anos no dia em que foi capa do jornal Público,
numa fotografia-ícone de Adriano Miranda
"Metafotografia" Olho de Gato

2.
Entra-se num túnel escuro, crepita restolho no chão, de um lado e do outro, nas paredes negras, “ardem” fotografias. Acabámos de imergir na tragédia dos incêndios de 15 e 16 de Outubro de 2017. Estamos na exposição “Dever de Memória”, de Adriano Miranda e Nuno André Ferreira, exposição notável que não deixa esquecer os dias mais negros da história da região.

A não perder. Na Quinta da Cruz, em Viseu, até 15 de Dezembro. As fotografias, todas excepcionais, todas reproduzidas num livro cuja receita da venda reverte para os bombeiros, levam-nos do negrume à esperança.

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

Ao trabalho?*

* Hoje no Jornal do Centro


1. A detenção do presidente do turismo do Norte, Melchior Moreira, teve um estilhaço mediático que atingiu o presidente da câmara de Viseu. António Almeida Henriques (AAH) afirmou logo a sua disponibilidade para colaborar com os tribunais e assegurou aos viseenses que não deve nem teme.

Não há movimentações da justiça que levem a pensar o contrário e ainda bem que assim é. Contudo, militantes do PSD-Viseu, em declarações a este jornal sob anonimato, já põem em causa a candidatura de AAH ao terceiro e último mandato. O autarca responde-lhes: «eu estou de pedra e cal.»

No PS, João Paulo Rebelo e Rosa Monteiro, que sempre fizeram as suas contas para uma eventual candidatura à câmara de Viseu só em 2025, fazem figas para que não haja nenhuma antecipação de calendário.

E oxalá que sim, oxalá que as nuvens sobre o município de Viseu se dissipem e AAH recupere energia para tratar da nova barragem. Precisamos de uma câmara de Viseu forte capaz de impedir que os boys socialistas da Águas de Portugal ou os capitalistas da Águas do Planalto nos imponham transvases e nos salguem as facturas mensais do precioso líquido.

Os presidentes das câmaras de Mangualde, de Penalva do Castelo e de Nelas inviabilizaram uma solução intermunicipal, com oito municípios, que nos resolvia a todos o problema sem interferências exteriores. Como não é crível que algum deles queira ser no futuro boy da Águas de Portugal, deixo aos três aqui um apelo: regressem às negociações, promovam uma solução nossa, pública, capaz de nos abastecer sem problemas nos próximos cinquenta anos. Ao trabalho?

2. Mal Graça Fonseca, a nova ministra da cultura, desafiou a Gulbenkian a recriar uma “biblioteca móvel adaptada ao século XXI”, logo alguém muito divertido no Facebook lembrou que tal já existe: chama-se internet.

O que não existe é uma biblioteca online e de acesso gratuito a toda a nossa literatura sob domínio público. Cara ministra, ao trabalho?

segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Serralvilhos*

* Cadê das vinte fotografias de Robert Mapplethorpe que censurasteis, Serralvilhos?

Fotografia de Robert Mapplethorpe 


O Sena não se vende


Dizem alguns directores literários
(e accionistas da própria propaganda)
que «o Sena não se vende». E é verdade:
Não vende. Só as putas se vendem.
E em Portugal são tantas que não há
bolsas bastantes para comprá-las,
nem caralhos bastantes
para fodê-las como mereciam.
Jorge de Sena


sexta-feira, 17 de agosto de 2018

Cinema*

* Hoje no Jornal do Centro




1. O cinema é a arte que vampiriza todas as outras. Surgiu em França, na passagem do século XIX para o século XX, e logo com as suas duas “escolas” a funcionarem em pleno — a realista/documental, dos irmãos Lumière, e a fantástica/ficcional, de Georges Meliès.

Na noite de 28 de Dezembro de 1895, na primeira sessão de cinema, os manos Louis e Auguste Lumière projectaram numa cave escura de Paris um filme chamado “Chegada de um comboio à estação de la Ciotat”.


É fácil encontrar na internet 
— abençoada rede que alimenta todas as nostalgias! —...

... este genesial documentário de cinquenta segundos que mostra um comboio a chegar a uma estação e a entrada e saída dos passageiros.


Como é sabido, aqueles nossos trisavós, que pagaram bilhete para serem os primeiros espectadores de imagens em movimento, ao verem aquela locomotiva fumarenta a “avançar” para eles na sala escura, entraram em pânico e fugiram. Ainda não estavam equipados mentalmente para aquela forma nova de apresentar o “real”.

Não foi preciso esperar mais do que sete anos para aparecer o primeiro filme de ficção científica. O mágico Georges Méliès filmou, em “Viagem à lua”, a entrada de uns astronautas barbudos para o bojo de um projéctil de canhão que, depois, vai acertar literalmente no olho direito da lua.





Passou bem mais de um século, e a magia da sala escura continua a fazer imergir os espectadores no “real” (obrigado, irmãos Lumière!) e na “fantasia” (obrigado, Méliès!).

2. No saudoso Cinema S. Mateus, de Viseu, o projeccionista gostava de soltar os decibéis quando os filmes o pediam.** Uma vez, num filme de terror, numa daquelas cena de arrepiar, o homem deu gás ao som com tanto brio que uma campânula de coluna se soltou e foi aterrar na cabeça de uma espectadora da última fila.

A senhora, coitada, tinha ido ver um filme à “Méliès” e saiu-lhe uma sensação real, à “Lumière”. Não fugiu como os espectadores de 1895. Porque desmaiou.

________________________

** 
— esta história deliciosa foi contada por José Casimiro, gerente do Cinema S. Mateus, a Fernando Giestas, autor do livro "Cine Cidade — as salas de cinema, os protagonistas e os filmes do Cine Clube de Viseu, 1955-2007", edição Imagens & Letras (2008), p. 95;

— por erro exclusivamente meu, a edição impressa no Jornal do Centro desta crónica termina assim: "Não fugiu como os espectadores de 1895. Mas desmaiou."

sexta-feira, 3 de agosto de 2018

Mochilas e envelopes*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Quase tudo já foi dito na comunicação social e nas redes sociais sobre o caso das três lojas e dos onze apartamentinhos que o bloquista Ricardo Robles arranjou no seu prédio, comprado por tuta-e-meia à segurança social, e que fez dele um milionário instantâneo.

Só ainda não vi em lado nenhum uma reflexão sobre o que terá levado a cúpula do bloco de esquerda a vir com teorias da cabala (olá, Sócrates!) e a atacar os media (olá, Trump!), quando os factos já conhecidos eram evidentes e facilmente verificáveis.

O que terá levado aquelas criaturas a reagirem tão toscamente? Encontro duas razões:

— por desábito: o bloco nunca foi escrutinado nos media, por isso, os seus líderes fizeram uma asneira de principiante;

— por causa da “bolha de filtros”: os políticos, depois de algum tempo, deixam de viver no mundo e passam a viver numa bolha só deles; é que os chefes gostam de viver rodeados por sacristãos, por gente que depende deles, que lhes filtra a realidade e lhes diz só o que eles gostam de ouvir.

2. O Europeade foi excelente. O folclore (leia-se: tradição, costumes locais), aliado à globalização (leia-se: modernidade, ferramentas globais), fez das ruas e praças de Viseu um fascínio de diversidade, um encantamento.

Dito isto, importa saber quanto custou esta festa cosmopolita. A câmara deve, com transparência e verdade, dar essa informação aos cidadãos. Para ver se é possível, realisticamente, tentar repetir no futuro estes dias felizes que vivemos.

3. No último Jornal do Centro, Fernando Ruas lembrou que uma boa descentralização de competências da administração central precisa de vir acompanhada da respectiva “mochila financeira”. Por sua vez, Álvaro Amaro avisou que esse processo só pode avançar acompanhado do respectivo “envelope financeiro”.

Ao que tudo indica, Mário Centeno discorda de Ruas e concorda com Amaro. Em vez de uma mochila de dinheiro, o ministro vai querer é dar aos autarcas um envelope. Tamanho A5.

sexta-feira, 20 de julho de 2018

Mornices tépidas*

* Hoje no Jornal do Centro


1. O teatro do IP3 não pára. Depois das prestações inesquecíveis de José Sócrates e Pedro Passos Coelho, foi agora a vez de António Costa. No início do mês, o actual primeiro-ministro fez uma performance tépida como este Verão no palco erguido junto ao nó de Raiva.

A raiva ficará para quando, na próxima bancarrota, forem instalar pórticos nos troços que venham eventualmente a ser duplicados. Não é o caso das obras agora lançadas que já estavam projectadas há muito tempo e que vão manter as duas vias.

2. O impacto conseguido pelo “Movimento pelo Interior”, onde não figurava nenhum político viseense, fez ressaltar a mornice irrelevante dos deputados e das cúpulas distritais dos partidos.

Num jogo de soma nula a que ninguém dá atenção, eles vão-se marcando uns aos outros como se tem visto nos problemas do hospital de Viseu. À falta de melhor, o deputado social-democrata Pedro Alves até já se mete com... os voluntários do hospital.

3. No concelho de Viseu, a omnipresença de Jorge Sobrado leva ao eclipse parcial do presidente da câmara e ao eclipse total dos outros vereadores.

Para deseclipsar a situação, António Almeida Henriques tem duas hipóteses: ou dilui Xanax nas bebidas do seu vereador da cultura ou contrata uma equipa alargada para a comunicação da câmara. 

Claro que a primeira hipótese não é defensável por ninguém e a segunda — que, ao que consta, está a ser cozinhada — é cara e de eficácia duvidosa.

4. Pelo que se leu na imprensa e nas redes sociais, os Jardins Efémeros foram tão tépidos como o Verão e a cidade não repetiu a chuva de críticas do ano passado ao evento. Ainda bem.

Foi bom também que, ao contrário dos anos anteriores, os JE não se tenham sobreposto ao Tom de Festa que precisa de bilheteira mais do que nunca, depois do corte de 24% feito pela geringonça à Acert. A pulseira custa cinco euros e a 28ª edição daquele festival de músicas do mundo prossegue hoje e amanhã em Tondela.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Alemanha — Grécia*

* Publicado há exactamente dez anos, em 27 de Junho de 2008


1. Quando a Alemanha estava a ganhar 2-0, a televisão mostrou a cara top-model de Cristiano Ronaldo; ele estava ensimesmado, parecia em conspiração consigo próprio; pensei eu, então, ao ver o pensar dele: agora, sim, a asa esquerda do nosso ataque vai “ligar o turbo” e deixar os teutões pregados à sua insignificância.

Pouco depois, as televisões mostraram um grande plano de Scolari ensimesmado, perdido em cálculos; pensei eu, então, ao ver o pensar dele: agora, sim, é que Scolari vai dar asas à nossa fantasia e vencer a sensaboria pragmática de Schweinsteiger e companhia.

Pensava eu que a vitória só podia ser um caso de cosa mentale e não dos centímetros germânicos recenseados burocraticamente por Scolari em conferência de imprensa, antes do jogo.

O “tamanho importa” dizia, há uns anos, agoirento, um anúncio do Renault Clio. E importou: Joachim Low usou muitos mais centímetros que Scolari. De inteligência.

2. Vou ao YouTube e escrevo “Monty Python Football” para ver a segunda parte de um jogo Alemanha - Grécia.




Pela Alemanha alinham, entre outros, Leibniz, Kant, Hegel; mais à frente, Jaspers (substituído aos 88’ por Karl Marx) e, claro, Nietzche e Heidegger.

A Grécia tem uma equipa fabulosa, em que se destacam Platão (à baliza), Aristóteles, Sófocles, Epicuro; no miolo, Demócrito e, ao ataque, o trio maravilha: Heraclito, Sócrates e Arquimedes.

Aos 89’, Arquimedes brada: «EURECA!». Arranca com a bola, faz uma tabela com Sócrates e outra com Heraclito, corre pela direita, centra e Sócrates marca. De cabeça, evidentemente. O mais importante golo da sua carreira. Alemanha, 0 – Grécia, 1.

Pois é. A Grécia e a Alemanha têm filósofos…

sexta-feira, 8 de junho de 2018

A comprativa*

* Hoje no Jornal do Centro


1. No documentário sobre a ocupação durante a reforma agrária da “Torre Bela”, uma das maiores herdades do país, há um diálogo célebre em que o líder tenta convencer um trabalhador que a sua enxada já não é mais dele mas da cooperativa.

Enxuto de carnes e desconfiado, o Zé Quelhas teima: «a farramenta é minha, não é da comprativa»; e prevê: «daqui a nada também o que eu visto e o que eu calço é da comprativa (…) e eu fico nu.»

Karl Marx não percebeu a natureza humana tão bem como o Zé Quelhas.

2. A multiplicação de eventos borliantes, promovidos directa ou indirectamente pelo município de Viseu, descura a medida do impacto dos mesmos e do retorno dos dinheiros públicos envolvidos. Impede também que se gere um mercado, com público habituado a pagar o seu bilhete.

Há que criar esse hábito até porque o concelho tem já muitas pessoas a trabalharem na cultura e que precisam que ela tenha sustentabilidade.

Dessa pecha não pode ser acusada a exemplar “comprativa” Acrítica/Carmo'81. Está a realizar o multidisciplinar e desafiante “Solos & Solidão”, dedicado em Junho ao teatro. Este fim-de-semana leva ao palco, no Carmo'81 (sete euros) e em Mundão (quatro euros), “Um esqueleto de baleia na casa dos avós”, de Leonor Keil, Rui Catalão, Bruno Pernadas e Cristóvão Cunha.


Editada a partir daqui
3. Tramitado o concurso “Viseu Cultura'2018”, deixo duas sugestões de aperfeiçoamento ao vereador da cultura Jorge Sobrado:

— promova só mais um concurso trienal que abranja o resto deste mandato autárquico (2019, 2020, 2021), com calendário decisional até ao fim deste ano;

— reserve os bons milhares de euros que poupa ao fazer este três-em-um para aplicar em projectos que entenda responderem ao interesse público; um eleito não precisa de se esconder atrás de um júri; não repita a tosquice deste ano em que pertenceu a um júri que atribuiu 17 valores, numa escala de 0 a 20, no critério “histórico do promotor”, a um que tinha... dias de existência.

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Amo-te Jéssica*

* Hoje no Jornal do Centro



Quem escreveu “Amo-te Jéssica” numa parede à beira da estrada entre Carregal do Sal e Tondela sabe quem é a Jéssica, talvez ainda a ame, talvez já não. O amor é uma água misteriosa, tanto corre como se esvai nas armadilhas do tempo. Talvez a Jéssica saiba quem foi que escreveu aquilo, talvez não. Talvez haja várias Jéssicas a julgarem saber, talvez uma delas esteja certa e as outras erradas. Talvez estejam todas erradas e a Jéssica amada nunca tenha reparado naquela parede.

Certo, certo, é que, na noite de 15 para 16 de Outubro, a estrada regional 230 entre Carregal do Sal e Tondela foi varrida pelos ventos doidos e crestos da tempestade Ophelia, e o fogo furioso fez fenecer tudo à frente.

Queimou tudo menos aquela declaração de amor naquela parede. Que ainda lá está e que ignizou a imaginação de Cristóvão Cunha para conceber a peça “Amo-te Jéssica”, que estreia esta semana no NACO, em Oliveirinha, feita a partir de “Os Figurantes”, de José Sanchis Sinisterra.

Como disse aquele encenador a este jornal, a peça é uma “homenagem aos bombeiros e às populações” que, naquela noite de todos os perigos, salvaram e salvaram-se. Os figurantes estiveram bem, os figurões não. O Cristóvão fez o balanço exacto: “tivemos populações que, não sabendo o que tinham que fazer porque os responsáveis não estavam, defenderam com coragem tudo o que podiam.”

Os actores principais deste teatro mínimo que é a presença do estado no interior não existiram naquela noite trágica, só existem quando é para cobrarem impostos ou para fazerem leis mal paridas como aquela que obrigava a limpar o mato até 15 de Março, mato que, entretanto, já cresceu outra vez.

Escrevo este Olho de Gato na quarta, vou estar na estreia desta peça na quinta, este jornal sai na sexta. Não posso informar os leitores sobre um passado que ainda não aconteceu. Não posso dizer se a Jéssica estava lá, naquela plateia.