A mim, a imagem dos meus pecados me comove muito mais que essa imagem do Cristo crucificado.
Diante dessa imagem do Cristo crucificado eu sou levado a ensoberbecer-me por ver o preço pelo qual Deus me comprou. Diante da imagem dos meus pecados é que eu me apequeno por ver o preço pelo qual eu me vendi.
Por ver que Deus me compra com todo o seu sangue, eu sou levado a pensar que eu sou muito, que eu valho muito. Mas quando noto que eu me vendo pelos nadas do mundo, aí eu vejo que eu sou nada.
O Jornal do Centro e o Olho de Gato têm a mesma idade — acabam de fazer dezasseis anos. Nasceram em Março de 2002, estavam as pessoas ainda a aprender a comprar e a vender em euros. O primeiro-ministro ainda era António Guterres mas, duas semanas depois, tomou posse Durão Barroso. Iniciava-se o pântano político de onde ainda não saímos. Este pântano, aqui amplamente tratado, tem duas marcas distintivas: mistura a política com os negócios, o que nos levou à bancarrota, e centraliza tudo, subtraindo gente e força ao interior. Um só exemplo deste negocismo desenfreado: as aqui sempre chamadas PPPPP (Parcerias-Prejuízos-Públicos-Proveitos-Privados). Ainda elas não eram referidas em lado nenhum já aqui se denunciava aquele jackpot dado aos rentistas. Demoremo-nos um pouco mais no centralismo. Nestes dezasseis anos, com o pretexto do controlo do défice, todos os governos trataram de tornar ainda mais real o velho ditado: "Portugal é Lisboa e o resto é paisagem". Na educação, em 2002, havia concursos de professores tramitados no distrito, as escolas compravam os seus consumíveis no comércio local, as direcções regionais construíam escolas. Dezasseis anos depois, é tudo em Lisboa. Na saúde, uma factura atrasada do Hospital de Viseu agora só é paga depois do clique de um computador no Terreiro do Paço. A dinâmica centralista ainda foi mais longe. Até a informação sobre um incêndio numa das nossas serras só pode ser dada por uma girl na capital. Lisboa reserva-se o direito exclusivo de explicar o país... ao país. Todos os partidos acham isto natural e são, também eles, hipercentralizados. Dezasseis anos depois, ninguém quer saber da “paisagem”. É verdade que, a seguir à tragédia dos incêndios, o interior entrou na retórica política. Mas é só blá-blá-blá. Qualquer movimento de defesa do interior que queira obter resultados tem que dar um combate sem tréguas ao centralismo. E obrigar Lisboa a devolver-nos o controlo sobre os nossos destinos.
Erbarme dich, mein Gott, um meiner Zähren willen! Schaue hier, Herz und Auge weint vor dir bitterlich. Have mercy, my God, for the sake of my tears! See here, before you heart and eyes weep bitterly.
Dai-me uma jovem mulher com sua harpa de sombra e seu arbusto de sangue. Com ela encantarei a noite. Dai-me uma folha viva de erva, uma mulher. Seus ombros beijarei, a pedra pequena do sorriso de um momento. Mulher quase incriada, mas com a gravidade de dois seios, com o peso lúbrico e triste da boca. Seus ombros beijarei. Cantar? Longamente cantar, Uma mulher com quem beber e morrer. Quando fora se abrir o instinto da noite e uma ave o atravessar trespassada por um grito marítimo e o pão for invadido pelas ondas, seu corpo arderá mansamente sob os meus olhos palpitantes ele - imagem inacessível e casta de um certo pensamento de alegria e de impudor. Seu corpo arderá para mim sobre um lençol mordido por flores com água. Ah! em cada mulher existe uma morte silenciosa; e enquanto o dorso imagina, sob nossos dedos, os bordões da melodia, a morte sobe pelos dedos, navega o sangue, desfaz-se em embriaguez dentro do coração faminto. - Ó cabra no vento e na urze, mulher nua sob as mãos, mulher de ventre escarlate onde o sal põe o espírito, mulher de pés no branco, transportadora da morte e da alegria. Dai-me uma mulher tão nova como a resina e o cheiro da terra. Com uma flecha em meu flanco, cantarei. E enquanto manar de minha carne uma videira de sangue, cantarei seu sorriso ardendo, suas mamas de pura substância, a curva quente dos cabelos. Beberei sua boca, para depois cantar a morte e a alegria da morte. Dai-me um torso dobrado pela música, um ligeiro pescoço de planta, onde uma chama comece a florir o espírito. À tona da sua face se moverão as águas, dentro da sua face estará a pedra da noite. - Então cantarei a exaltante alegria da morte. Nem sempre me incendeiam o acordar das ervas e a estrela despenhada de sua órbita viva. - Porém, tu sempre me incendeias. Esqueço o arbusto impregnado de silêncio diurno, a noite imagem pungente com seu deus esmagado e ascendido. - Porém, não te esquecem meus corações de sal e de brandura. Entontece meu hálito com a sombra, tua boca penetra a minha voz como a espada se perde no arco. E quando gela a mãe em sua distância amarga, a lua estiola, a paisagem regressa ao ventre, o tempo se desfibra - invento para ti a música, a loucura e o mar. Toco o peso da tua vida: a carne que fulge, o sorriso, a inspiração. E eu sei que cercaste os pensamentos com mesa e harpa. Vou para ti com a beleza oculta, o corpo iluminado pelas luzes longas. Digo: eu sou a beleza, seu rosto e seu durar. Teus olhos transfiguram-se, tuas mãos descobrem a sombra da minha face. Agarro tua cabeça áspera e luminosa, e digo: ouves, meu amor?, eu sou aquilo que se espera para as coisas, para o tempo - eu sou a beleza. Inteira, tua vida o deseja. Para mim se erguem teus olhos de longe. Tu própria me duras em minha velada beleza. Então sento-me à tua mesa. Porque é de ti que me vem o fogo. Não há gesto ou verdade onde não dormissem tua noite e loucura, não há vindima ou água em que não estivesses pousando o silêncio criador. Digo: olha, é o mar e a ilha dos mitos originais. Tu dás-me a tua mesa, descerras na vastidão da terra a carne transcendente. E em ti principiam o mar e o mundo. Minha memória perde em sua espuma o sinal e a vinha. Plantas, bichos, águas cresceram como religião sobre a vida - e eu nisso demorei meu frágil instante. Porém teu silêncio de fogo e leite repõe a força maternal, e tudo circula entre teu sopro e teu amor. As coisas nascem de ti como as luas nascem dos campos fecundos, os instantes começam da tua oferenda como as guitarras tiram seu início da música nocturna. Mais inocente que as árvores, mais vasta que a pedra e a morte, a carne cresce em seu espírito cego e abstracto, tinge a aurora pobre, insiste de violência a imobilidade aquática. E os astros quebram-se em luz sobre as casas, a cidade arrebata-se, os bichos erguem seus olhos dementes, arde a madeira - para que tudo cante pelo teu poder fechado. Com minha face cheia de teu espanto e beleza, eu sei quanto és o íntimo pudor e a água inicial de outros sentidos. Começa o tempo onde a mulher começa, é sua carne que do minuto obscuro e morto se devolve à luz. Na morte referve o vinho, e a promessa tinge as pálpebras com uma imagem. Espero o tempo com a face espantada junto ao teu peito de sal e de silêncio, concebo para minha serenidade uma ideia de pedra e de brancura. És tu que me aceitas em teu sorriso, que ouves, que te alimentas de desejos puros. E une-se ao vento o espírito, rarefaz-se a auréola, a sombra canta baixo. Começa o tempo onde a boca se desfaz na lua, onde a beleza que transportas como um peso árduo se quebra em glória junto ao meu flanco martirizado e vivo. - Para consagração da noite erguerei um violino, beijarei tuas mãos fecundas, e à madrugada darei minha voz confundida com a tua. Oh teoria de instintos, dom de inocência, taça para beber junto à perturbada intimidade em que me acolhes. Começa o tempo na insuportável ternura com que te adivinho, o tempo onde a vária dor envolve o barro e a estrela, onde o encanto liga a ave ao trevo. E em sua medida ingénua e cara, o que pressente o coração engasta seu contorno de lume ao longe. Bom será o tempo, bom será o espírito, boa será nossa carne presa e morosa. - Começa o tempo onde se une a vida à nossa vida breve. Estás profundamente na pedra e a pedra em mim, ó urna salina, imagem fechada em sua força e pungência. E o que se perde de ti, como espírito de música estiolado em torno das violas, a morte que não beijo, a erva incendiada que se derrama na íntima noite - o que se perde de ti, minha voz o renova num estilo de prata viva. Quando o fruto empolga um instante a eternidade inteira, eu estou no fruto como sol e desfeita pedra, e tu és o silêncio, a cerrada matriz de sumo e vivo gosto. - E as aves morrem para nós, os luminosos cálices das nuvens florescem, a resina tinge a estrela, o aroma distancia o barro vermelho da manhã. E estás em mim como a flor na ideia e o livro no espaço triste. Se te apreendessem minhas mãos, forma do vento na cevada pura, de ti viriam cheias minhas mãos sem nada. Se uma vida dormisses em minha espuma, que frescura indecisa ficaria no meu sorriso? - No entanto és tu que te moverás na matéria da minha boca, e serás uma árvore dormindo e acordando onde existe o meu sangue. Beijar teus olhos será morrer pela esperança. Ver no aro de fogo de uma entrega tua carne de vinho roçada pelo espírito de Deus será criar-te para luz dos meus pulsos e instante do meu perpétuo instante. - Eu devo rasgar minha face para que a tua face se encha de um minuto sobrenatural, devo murmurar cada coisa do mundo até que sejas o incêndio da minha voz. As águas que um dia nasceram onde marcaste o peso jovem da carne aspiram longamente a nossa vida. As sombras que rodeiam o êxtase, os bichos que levam ao fim do instinto seu bárbaro fulgor, o rosto divino impresso no lodo, a casa morta, a montanha inspirada, o mar, os centauros do crepúsculo - aspiram longamente a nossa vida. Por isso é que estamos morrendo na boca um do outro. Por isso é que nos desfazemos no arco do verão, no pensamento da brisa, no sorriso, no peixe, no cubo, no linho, no mosto aberto - no amor mais terrível do que a vida. Beijo o degrau e o espaço. O meu desejo traz o perfume da tua noite. Murmuro os teus cabelos e o teu ventre, ó mais nua e branca das mulheres. Correm em mim o lacre e a cânfora, descubro tuas mãos, ergue-se tua boca ao círculo de meu ardente pensamento. Onde está o mar? Aves bêbedas e puras que voam sobre o teu sorriso imenso. Em cada espasmo eu morrerei contigo. E peço ao vento: traz do espaço a luz inocente das urzes, um silêncio, uma palavra; traz da montanha um pássaro de resina, uma lua vermelha. Oh amados cavalos com flor de giesta nos olhos novos, casa de madeira do planalto, rios imaginados, espadas, danças, superstições, cânticos, coisas maravilhosas da noite. Ó meu amor, em cada espasmo eu morrerei contigo. De meu recente coração a vida inteira sobe, o povo renasce, o tempo ganha a alma. Meu desejo devora a flor do vinho, envolve tuas ancas com uma espuma de crepúsculos e crateras. Ó pensada corola de linho, mulher que a fome encanta pela noite equilibrada, imponderável - em cada espasmo eu morrerei contigo. E à alegria diurna descerro as mãos. Perde-se entre a nuvem e o arbusto o cheiro acre e puro da tua entrega. Bichos inclinam-se para dentro do sono, levantam-se rosas respirando contra o ar. Tua voz canta o horto e a água - e eu caminho pelas ruas frias com o lento desejo do teu corpo. Beijarei em ti a vida enorme, e em cada espasmo eu morrerei contigo.
* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 28 de Março de 2008
1. Conta José Cardoso Pires em “Lavagante”: o lavagante alimenta o safio “levando-lhe comida a todas as horas (…) a essa serpente estúpida de grandes sonos, vendo-a a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu de mais, enovelou-se, e não cabe na abertura por onde podia libertar-se. Nesse momento (…) o lavagante servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de garras afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo.” Se procurar bem ainda encontra nas livrarias a primeira edição deste livro. [Edições Nelson de Matos, Fevereiro de 2008] 2. Uma empresa de informática, a Chip7, lançou o seguinte slogan para promover a venda de um computador: “Se o Sporting ganhar a Taça UEFA… Devolvemos-lhe o dinheiro!!!” Não gostei nada desta ideia… Declaração de interesses: sou do Sporting. Ser do Sporting dá uma grande resistência psicológica: o Sporting sabe ganhar, sabe empatar e sabe perder. Só não sabe é marcar penáltis. Há uns tempos, o Inimigo Público explicou tudo: quando o árbitro assinala um penálti a favor do Sporting isso é uma reles cabala, é um truque para instabilizar o leão. Já se sabe e o árbitro é o primeiro a sabê-lo: qualquer que seja o jogador sportinguista escolhido, ele falha o penálti, fica amarfanhado psicologicamente e nas semanas seguintes não joga nada de jeito. Quando chegaram os penáltis, no passado sábado, na final da Taça da Liga, ninguém se admirou com o colapso dos leões. Apesar de tudo, penso que a Chip7 vai ter um desgosto e o Sporting vai ganhar a Taça UEFA. Não vai acontecer nenhum penálti mal intencionado a nosso favor. Nem todos os árbitros são como os portugueses…
imagino que sobre nós virá um céu de espuma e que, de sol em sol, uma nova língua nos fará dizer o que a poeira da nossa boca adiada soterrou já para lá da mão possível onde cinzentos abandonamos a flor. dizes: põe nos meus os teus dedos e passemos os séculos sem rosto, apaguemos de nossas casas o barulho do tempo que ardeu sem luz. sim, cria comigo esse silêncio que nos faz nus e em nós acende o lume das árvores de fruto. diz-me que há ainda versos por escrever, que sobra no mundo um dizer ainda puro.
cotovelo no asfalto em cotovelo cotovela. a fila espera. estou na fila. espero também. a fila dá a volta num quarteirão inteiro que suspeito não ser um quadrado perfeito. não sei o que espero. não sei se a fila sabe. espero. não pergunto. seria ridículo, agora, depois de tantas horas com a mesma cara bovina. sei fazer cara bovina. muito bem. trouxe coisas para me ocupar: um jornal; um lápis para escrever o Tratado para a desinvenção da penicilina, opus magnum romantiquinha; cinco dores (uma moral). esqueci algumas outras coisas. me ocupo com as que ficaram longe: o mínimo necessário (por exemplo) para aterrissar um aeroplano num rio que parece o mar. a fila anda. eu ando atrás. não sei do quê. ouvi dizer que é bom, bonito, barato não sei. ouvi dizer de esquina, assim, canto de boca, assim um sussurro que cotovelou o quarteirão que não é um quadrado perfeito porque aqui é o Rio de Janeiro. aquele é aquele. olharam para mim. meu nome deu a volta no cotovelo dobrei meu rosto. tenho que esperar. espero. não posso ir, agora, bovinamente, falam de mim: aquele que nem chegou a amar aquela ali no espaço daquele dia. o que faz logo aqui. a fila anda. eu ando atrás. não sei do quê.
* Publicado hoje no Jornal do Centro A barragem de Fagilde está cheia, a botar fora, o que dá algum sossego aos banhos dos viseenses. Há quedas de água em todas as encostas, o precioso líquido borbulha a bombordo e a estibordo das estradas nacionais e municipais. O Inverno tardou mas veio. Agora há que preparar o Verão.
Fotografia Olho de Gato
Foram desmatados muitos terrenos antes de 15 de Março. Respeitaram o prazo absurdo de uma má lei centralista, estúpida, que não sabe nem quer saber nada do mundo rural e que não tem em conta nem as diferenças regionais nem as condições meteorológicas. Além disso, obriga a limpar 50 metros em redor de casas, um exagero que impõe custos enormes a proprietários que não foram tidos nem achados sobre as construções junto dos seus terrenos. Entretanto, os sarilhos atirados para as costas dos donos dos terrenos foram atirados também para cima das autarquias. Estas que poupem em festas e gastem em desmate, foi com esta mordidela que o ministro da agricultura sacudiu o capote governamental. Infelizmente, muitas pessoas mal informadas e com medo das multas estão a cortar tudo a eito, o necessário e o desnecessário. O que faltou em informação competente sobrou em ameaças com a GNR. O ministro Cabrita transplantou para a administração interna a mesma incompetência com que dirigiu o dossier da regionalização em 1998, ou tutelou a pulsão censórica da CIG em 2016 e 2017. Depois de tanta asneira, registe-se algo sensato: foi dado um novo prazo limite para as “operações de silvicultura preventiva” — 31 de Maio. Espere-se que quem já fez o que lhe era exigido não vá ser obrigado, lá mais para a frente, a ter de pegar de novo nas roçadeiras por entretanto os fetos, as silvas e as giestas terem crescido outra vez. Quem fez o que era exigido deve poder ir descansado às festas de Verão, tenham elas patrocínio municipal ou não. Ou poder ir tão descansado de férias como foi o governo no ano passado.
Pois sabendo o preço de muitas coisas, o custo de lá chegar e não sair delas, bem se observa que a coisa está decisiva ou decididamente para lá de qualquer certeza, e das dúvidas bem ou mal decididas que a acompanhem (como sucede com as religiosas certezas de qualquer pagão, preze-se o dito, quando ou não); O falar de tudo e tão pouco, em qualquer página que o seja, é parte do mapa mais integral de um ser humano com as suas artérias e esquinas; e quanto ao querer virá-la ou ao virá-la mesmo (a página), vai muito da vontade e paciência que possa haver de ver mundos e ortopedias classificáveis (há várias, muitas delas pouco contentes). Melhor é andar contentinho da Silva, mas isso parece fantasia de filmes da Castelo Lopes, e é um facto que qualquer retrato dos anos quarenta do século vinte (a ser simpático e integral), exige paciência de otorrino e um especial talento para ignorar estatísticas (muitos milhares de pessoas). Em dois mil setecentos e trinta antes de Cristo houve um sujeito chamado João que andava pouco satisfeito com as suas coisas e com o ritmo das estações: A mulher traía-o com muitos vizinhos, os filhos pouco o respeitavam (não só por isso), não via amigos próximos, as perspectivas em geral eram manifestamente fracas. João achou que chegava; Os deuses disponíveis não valem o frio que passo (pensou), e a minha Mãe não me criou para isto. Problema antigo.
* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 21 de Março de 2008 1. No início deste ano, Ferro Rodrigues disse à Visão: "Pedem-se sacrifícios a uma parte importante da classe média e a uma determinada geração, que tem entre 45 e 65 anos. Se esses sacrifícios são pedidos, é indispensável que isso se faça com menos arrogância e mais humildade." 2. Com a elegância de um berbequim, Emídio Rangel chama “hooligans” aos professores. De picareta na mão, Camilo Lourenço pede a Sócrates que faça aos profs o mesmo que Margaret Thatcher fez aos mineiros britânicos. Em delírio, o ubíquo José Miguel Júdice vê semelhanças entre o comício do PS do Porto e a manifestação de apoio a Charles de Gaulle, durante o Maio de 68. A quem irá José Sócrates dar ouvidos? A Ferro Rodrigues ou a esta gente? 3. Ainda bem que já regressou à nossa blogosfera o “Viseu, Senhora da Beira”. Foi lá que soube que o Palácio de Gelo vai ter uma Taberna Bocatín. Comida espanhola “en Viseu, ciudad milenaria y capital del Distrito de Viseu y de la Beira Alta, conocida como la “Cidade do Verde Pinho” por estar rodeada de inmensos bosques.”
4. Durante o boom das subprime nos Estados Unidos, entre 2003 e 2006, muitas hipotecas foram passando de banco em banco, sem serem feitos os devidos registos. Com a crise, muitas instituições financeiras estão agora a tentar executar essas hipotecas mas não conseguem comprovar a titularidade das mesmas. Resultado: há americanos que não pagam as prestações mas ficam tranquilamente a viver nas casas (algumas valem milhões de dólares). São okupas nas “suas” casas.
estamos encostados a uma roulotte bebemos sangria conversamos enquanto queimamos a noite junto ao mar o vento fresco surpreende-nos com as mãos nervosas em redor dos copos embaciados a ternura dum olhar não chega para iludir a embriaguez dos amores imperfeitos sei que possuis ainda alguma juventude nesse sorriso eu já só embebedo os lábios viciados pelas palavras pouco tenho a dizer-te toco-te no ombro faço promessas e tu ris enquanto descobrimos no silêncio cúmplice do vinho treme uma teia de luminoso sal onde a noite cai sobreviveremos ao desgaste do amor bebemos mais para que haja só desejos e não amor entre nós e o rapaz que tem a mania de espetar uma faca loura no ombro do mar La vie est une gare, je vais bientôt partir, je ne dirai pas où. calei-me sabendo que me conduzirias até casa pelo caminho da praia cambaleantes e enquanto eu não conseguir abrir de novo os olhos não partirás tenho a certeza com a tua jaula cheia de luas mansas apaziguadas
* Publicado hoje no Jornal do Centro 1. O congresso do CDS decorreu no Centro Multiusos de Lamego, numa obra que a câmara anterior do PSD/CDS deixou estreitar dez metros em todo o seu comprimento sem ter estreitado o preço de adjudicação inicial. Numa obra que ficou sem a cafetaria prevista no projecto e cujos sistemas de iluminação, climatização, renovação de ar e detecção de incêndios têm dias que sim, têm dias que não. Apesar da engenharia civil daquele pavilhão ter sido tão má como a engenharia financeira, acabou por correr tudo bem no último fim-de-semana. E, como o edifício mingou 13 por cento, os congressistas até estiveram mais aconchegados.
2. No discurso de encerramento do congresso, Assunção Cristas declarou a morte do voto útil. A vontade de crescer da líder do CDS fá-la apostar neste “quem-dera-que” incerto. É claro que o voto útil perdeu força, depois da geringonça ter demonstrado que não é só o partido com mais votos que pode pregar as tábuas de uma canoa governamental. Mas é uma precipitação passar-lhe já a certidão de óbito. Uma coisa é certa: o enfraquecimento do voto útil tanto causará danos ao PSD na direita como ao PS na esquerda. Catarina e Jerónimo vão proclamar, também eles, o fim do voto útil. E têm ainda mais um argumento poderoso contra a concentração de voto no PS — lembrarem o perigo das maiorias absolutas e o que sucedeu durante o autoritarismo negocista de Sócrates. 3. Os eleitores comunistas elegeram Fernando Loureiro para a assembleia municipal de Viseu mas o lugar acabou por ficar para Filomena Pires. Os eleitores socialistas do distrito elegeram deputados Maria Manuel Leitão Marques, António Borges e João Paulo Rebelo mas saíram-lhes na rifa Marisabel Moutela, José Rui Cruz e Lúcia Silva. António Costa e Rui Rio, já que estais virados para “acordos de regime”, aqui está um a sério: é urgente acabar com esta vigarice política que leva as pessoas a votarem em A para depois o lugar ficar para B.
Faster than fairies, faster than witches, Bridges and houses, hedges and ditches; And charging along like troops in a battle, All through the meadows the horses and cattle: All of the sights of the hill and the plain Fly as thick as driving rain; And ever again, in the wink of an eye, Painted stations whistle by. Here is a child who clambers and scrambles, All by himself and gathering brambles; Here is a tramp who stands and gazes; And there is the green for stringing the daisies! Here is a cart run away in the road Lumping along with man and load; And here is a mill and there is a river: Each a glimpse and gone for ever!
* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 14 de Março de 2008
1. Cara leitora, caro leitor: peço-lhe que vá ao Google. Escreva: Pina Moura ética republicana. Não faça essa cara, por favor! Prima no enter. Entretenha-se… 2. Pina Moura afirmou uma vez: "A ética da República é a ética da lei". Na mesma sintonia, os pareceres da Comissão de Ética da Assembleia da República dizem que as eventuais incompatibilidades dos deputados devem “ser aferidas segundo um critério estritamente legal, existindo apenas e só na medida e com os limites previstos na lei.” A “ética republicana” de Pina Moura é, portanto, a seguinte: tudo o que não é proibido pela lei, é permitido. Recentemente, descobri, com pasmo, que os socialistas mais poderosos do distrito de Viseu pensam o mesmo. Em ética, como é sabido, é mais fácil a análise caso a caso. Vejamos quatro casos ficcionais em que, conforme se costuma dizer, qualquer semelhança com a política portuguesa é pura coincidência: Caso 1: Político muda mobília e decoração do gabinete (que tinha só um ano) e adquire viatura topo de gama (a anterior acabara de chegar da primeira revisão). Caso 2: Político arranja um empreguito para um amigo (o amigo tem as habilitações académicas requeridas mas é um bronco). Caso 3: Deputado, apanhado em excesso de velocidade, mostra o seu cartão ao polícia que já estava a pegar na esferográfica. Caso 4: Deputado, um tempinho depois de ser eleito e, sem dar cavaco aos seus eleitores, passa a receber dinheiro de um grupo económico que recebe dinheiros públicos. Bem sei: os três primeiros casos são anedotas e o quarto é inadjectivável. Mas repare bem: nenhum daqueles comportamentos é proibido pela lei; a “ética republicana” de Pina Moura é, em todos eles, respeitada.