domingo, 30 de junho de 2019

Das bancadas

Fotografia Olho de Gato

muito bem
serei a barata tonta
não quero dum-dum
ao menos matem-me
com pancadas de molière
Rosalina Marshall

sábado, 29 de junho de 2019

Uma bailarina curva





Uma bailarina curva. Vagamente inclinada sobre a sua presença. Fecha os olhos como se. Estica os braços. Abre as mãos para nada. Quer suicidar-se no espanto.

As coisas caem naturalmente. Cair é natural.

Em pontas, o desespero da gravidade é o cenário do palco. O sangue atingindo vermelho os dedos exaustos.

Há muito que deixou de dançar. Naturalmente. Demente mulher de sal.

O movimento é apenas o comércio da música com o corpo. Uma troca de elementos insolúveis em si. Diluição do corpo na matéria-prima do álcool. Desfazer-se dentro.

Ela precisa de si e si não é nada. Si é um erro. Si é uma pobre ilusão num teatro assombrado. Um fantasma. É uma réplica mal executada de uma estátua divina. Si morre.

E num ponto ridículo do palco, a bailarina desaparece lentamente. Desaparece a partir do cabelo onde nunca foi colocada a flor da glória. Desaparece nua, sem nada, sem sequer a morte que lhe podia ter permitido a existência.

Poro a poro, irrisória, a bailarina deixou de viver.

As coisas morrem naturalmente. Morrer é natural.
Patrícia Baltazar






sexta-feira, 28 de junho de 2019

Quem manda*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Para o Serviço Nacional de Saúde, uma putativa nova lei de bases é como o Melhoral, não faz bem nem faz mal. Nada nela tirará um dia que seja a uma lista de espera por uma cirurgia ou uma consulta.

Qual então a razão para os políticos estarem às voltas com um assunto tão exotérico, ainda por cima em fim de legislatura? Há uma razão táctica e uma razão estratégica para este gasto de energia.

A primeira é óbvia: há que desviar a atenção dos portugueses dos problemas do SNS, embora eles sejam tantos que não está fácil varrê-los para debaixo do tapete.

A segunda, muito mais importante, é que a esquerda, depois de quatro anos de matrimónio, até 6 de Outubro vai fingir que está em processo de divórcio.

Para o bloco, este gambozino na saúde é uma boa trincheira, diaboliza as PPP, mesmo as que funcionam bem como a do hospital de Braga.

Para o PCP, muito abalado depois das derrotas nas autárquicas e europeias, é bom tudo o que lhe permita pôr-se a milhas do, como está sempre a dizer, "governo minoritário do PS".

Mas é o PS que mais beneficia com esta demarcação com os demais partidos da geringonça. Para além de desviar os holofotes dos inconseguimentos da ministra da saúde, tem aqui uma oportunidade para mostrar aos eleitores moderados que "não é o bloco que manda no país". Assim o explicou o patriarca César, em Viseu, esta semana.

Carlos César será mais explícito do que António Costa, mas ambos estão sintonizados na estratégia: criar condições para que o eleitorado central dê ao PS a maioria absoluta. E, com a falta de comparência de Rui Rio, está mais para isso do que para outra coisa.


Fotografia Olho de Gato
2. A introdução dos autocarros amarelos em Viseu modificou a paisagem urbana e está a alterar, lentamente, a mobilidade das pessoas.

Nos últimos seis anos, a câmara, no essencial, derreteu os nossos impostos em festas e festinhas borliantes, para minorias. O novo sistema de transportes é a primeira medida estrutural feita depois de Fernando Ruas. Muito bem, vereador João Paulo Gouveia.

04:04 a.m.

Fotografia de Noah Buscher


04:04 a.m.

Não vai doer. É bater de frente com a morte. Olhar a silhueta das asas de um anjo.

Ácido na língua. Mãos apertadas nos joelhos à espera da solução para os vícios.

Não dói nada. Sou uma fada de botas da tropa.

É o meu delírio sempre a horas certas dentro de um aquário híbrido. Estranhar ser pessoa. Estranhar ter crescido. Ter de ser crescida. Sem pele. Coleccionadora de vestidos que não posso vestir.

É incrível como a torre pode cair.

Devia, antes de saber se caio, demolir um assunto grande. Só para assistir à cadência. Como com as estrelas, mas sem desejar.

Não vai doer. É só uma luz muito aguda.
Patrícia Baltazar




quinta-feira, 27 de junho de 2019

Programa de estabilidade e crescimento

Fotografia de Charlie Deets

Tu vacilas, não queres ouvir e eu
não vou ter contigo a meio caminho
deposta, abandonada e irrisória
a ponte de ferro quebra-se
assim que o FMI avança

Um casal ainda criança
já refinancia
os seus juros

Não há compensação
para quem sonha severamente
enquanto espera pelo autocarro
durante o horário de Inverno

Vê agora, lá fora: uma
família que forja falsetes
tenta agarrar-se à rede,
frívolos esforços em que
os nossos filhos falham

O estímulo ao investimento
de iniciativa privada promove
a utilização proveitosa dos nossos
recursos: como esta faca de cozinha
que avança para nós com serrilha, sorrindo
combinação certeira entre a ergonomia
o melhor design e a qualidade

Todas as domésticas suturas serão
submetidas a uma rigorosa
análise de sensibilidade

Dorme bem, meu amor e
deixa a manhã reestruturar
a nossa dívida.
Susana Araújo


quarta-feira, 26 de junho de 2019

A entrevista*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 26 de Junho de 2009

1. Por causa da entrevista na SIC, José Sócrates foi acusado de ser um “lobo com pele de cordeiro” e de estar a “fazer teatro” depois do desastre das europeias em que, pela primeira vez numas eleições nacionais, o PS ficou abaixo de um milhão de votos.

Acabo de ver a entrevista na internet. 



Não vi nela nada de muito diferente: o primeiro-ministro esteve na forma do costume e Ana Lourenço foi o habitual glaciar perguntador.

No seu decote, a jornalista tinha uma jóia triangular que captava toda a luz do estúdio que, de tão pouco iluminado, parecia um pub irlandês. Tudo ali era bruma do norte, nada ali era latino.

Sócrates bem tentou vitaminar a conversa. Não conseguiu.

“Rogério Casanova”, uma das estrelas da nossa blogosfera (pastoralportuguesa.blogspot.com), explicou o acontecido:

“Pelo pouco que ouvi, a noite de hoje marcou o momento em que passámos a ter um primeiro-ministro em compasso normal, o que provavelmente explica as dificuldades sentidas por Ana Lourenço em disfarçar aquele ar de quem se enganou a contar os sedativos.”

2. Gostei muito de ler “Juventude”, de Joseph Conrad, numa notável tradução de Bárbara Pinto Coelho (ed. Quasi).

Neste livro contam-se as aventuras de Marlow, jovem segundo-piloto de um cargueiro já muito gasto, a meter água, e que tem que levar uma carga de carvão a Banguecoque. Antes do barco desacostar, as ratazanas abandonaram o navio. Elas não quiseram fazer aquela viagem.

Depois do temporal das europeias, nota-se já uma mudança no fluxo mediático. Há já ratazanas a abandonarem o PS. Elas lá sabem... Mas Sócrates ainda pode calafetar o barco, substituir os muitos marinheiros incompetentes que tem, e chegar a bom porto.

O mistério dos homens adormecidos

Fotografia de Drew Graham

alguns jazem no plaino abandonado
que a morna brisa aquece
no bolso direito das calças a cigarrilha breve
o peito exposto ao ar os braços cruzados
debaixo da nuca
na vulnerabilidade de um gesto
para lá da farda regimental
do fato e gravata de todos os dias
e depois da poeira sobre os sapatos
a respiração tão regular do corpo
é de repente um acidente da sorte
uma dádiva improvável e oportuna
trazendo de volta a desaceleração do quotidiano

alguns nem estão à espera de ver o mundo arder
cumprem os dias como se tudo
o que alguma vez lhes tivesse sido dado viver
fosse um dia só
e apenas uma só versão desse dia existisse
a profundidade existe apenas
quando jazem sem cuidado
ao comprido num sofá num vigésimo segundo andar
num apartamento de vinte cinco metros quadrados
rodeados por um marulhar de barulhos
por todos os lados e sem que o nada os acosse
um leve sorriso cai sobre os lábios
e um cigarro arde no cinzeiro
enquanto eles deslizam pelo aqueronte do sono adentro
sem espadas e sem escudos que lancem a agulha
da resistência ao desconhecido
noite adentro a confiança ou uma promessa
de amantes pode ser algo como isto

alguns regam as plantas cinco minutos antes
e desfazem os nós dos atacadores
e tiram ordeiramente os sapatos
e reconhecem até mesmo a proximidade da morte
mesmo agora enquanto comem uma refeição enlatada

enquanto me dou conta de que alguns são
ainda até atléticos e musculares e necessários
e mesmo a sua extrema necessidade
alimenta o desejo de todas as coisas
a precisão de alguns instantes quando
rapazes jogam à bola debaixo dos olhares de leões
e as cidades são imponentes e inteligentes e sem perdão
como os aborrecidamente espertos quartetos de mozart

alguns fecham os olhos e inadvertidamente
deitam abaixo a última parede do mito
aquela que postulava que a inteligência que permite
ler os dias é uma espera posta à destruição

adormecendo alguns entrelaçam as mãos sobre o peito
como guerreiros medievais sepultados em túmulos de pedra
no coração das cidades
e é estelar o seu abandono como um fragmento
de vidro que se ilumina de repente na escuridão do ar
e mergulhados profundamente no sono
intuem a profundidade do azul na obscuridade da noite
as chamas que marcam as amuradas da noite
as coordenadas do sal na pele
para lá das horas em que escreveram
linhas em que declararam conhecer bem o sal
que se cola à pele vinda das orlas de certas praias no atlântico

e no entanto alguns persistem e aceleram
para lá do sono em carros que cortam pela noite
demasiado cansados e um pouco decadentes
na fronteira com a extrema incoerência
um pouco para lá do cansaço
para lá do facilmente evidente
Tatiana Faia


terça-feira, 25 de junho de 2019

Still life with cat

Fotografia de Adam Kuylenstierna


Passa uma musiquinha triste
na rádio. A gata dorme — o aconchego
da melodia casa vazia
uma cesta e o girassol amarelo
é quanto lhe basta para ser feliz.
Eu não me contento com tão pouco,
um girassol amarelo a musiquinha
uma cesta, tem mais do que eu
a gata, não espera nada e tem
me a mim também.
Sara M. Felício


segunda-feira, 24 de junho de 2019

São João

Daqui



Lembro-me que o Miguel saiu com o manjerico
debaixo do braço.
O manjerico pertencia ao restaurante Batalha,
como os cães pertencem aos seus donos
e os humanos aos seus amantes.
O Miguel roubou o manjerico, é certo,
mas o dono do restaurante devia ter estado mais atento.
O dono do restaurante já devia ter idade para saber amar
as suas plantas.
Filipa Leal


domingo, 23 de junho de 2019

Sex machine

The Excessive Machine – Barbarella, Jane Fonda (1968)


Fellas, I'm ready to get up and do my thing
I wanna get into it, man, you know
Like a, like a sex machine, man,
Movin', doin' it, you know
Can I count it off? (Go ahead)

Get up, (get on up)
Get up, (get on up)
Stay on the scene, (get on up), like a sex machine, (get on up)




sábado, 22 de junho de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#240)

O coração duma mulher perdida

Fotografia de Dmitry Yakovlev


O coração duma mulher perdida
é qual uma gaivota sobre o mar;
nem a gaivota pousa sobre as ondas,
nem as ondas a deixam lá pousar!

O coração duma mulher perdida
é qual uma gaivota sobre o mar!
Ladislau Patrício


sexta-feira, 21 de junho de 2019

Verão

Fotografia de Guilherme Stecanella




As árvores carinhosas,
o dia duradouro.
A lágrima do seio,
as gotas de coceira.
As sobrancelhas apertadas,
o pulso nas têmporas.
A canção dos pernilongos,
a invisibilidade brava.
O subsolo ao chão,
a autoafirmação das baratas.
Mangas e mamões,
o podre feito doce.
A fome de goles,
a água benta.
A pele carregada,
a distância do fôlego.
O visco do amor
evaporado até a irrelevância.
A febre das paredes,
o sono de uma demente.
A misericórdia dos trovões,
peço uma destruição –
é bela a tempestade.
Isabela Sancho



Identitarismos e tílias*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Na madrugada de 30 de Maio, num autocarro londrino, Chris e Melanie foram atacadas por um grupo de cinco grunhos, que lhes ordenaram que se beijassem, chamaram-nas lésbicas e, pior do que isso, agrediram-nas e roubaram-nas.

Foi um ataque homofóbico que despertou uma onda de solidariedade enorme. A fotografia de Chris e Melanie a sangrarem correu mundo e viralizou.

As cinco alimárias já estão identificadas e presas mas a sua prisão não encerrou o caso. Duas semanas depois, no The Guardian, Chris escreveu um texto a mostrar que viu oportunismo naquela onda de solidariedade para com ela e a sua namorada.

O seu “raciocínio” é mais ou menos assim: quando partilham a nossa fotografia, o que vos faz mexer é o “voyeurismo”, é a “titilância” dos títulos nos media, é a imagem “de duas mulheres cisgéneras, brancas e atraentes”.

Ora, isto é típico dos tempos que vivemos. Os identitários já não são capazes de conceber uma comunidade constituída por pessoas com um chão comum e um projecto de convivência colectiva capaz de conjugar as diferenças em paz e solidariedade.

Os identitários já só conseguem ver grupos, subgrupos e sub-subgrupos de indivíduos ressentidos, em conflito e com características tribais cada vez mais intrincadas. Chris, além de cisgénera (vá ver ao dicionário, caro leitor), quis identificar-se ainda como uma bissexual que recusa a “hipocrisia” das “boas vibrações” que lhes endereçou o “sistema capitalista, supremacista branco e patriarcal”.

Para quem vive neste universo mental, um homem branco e heterossexual tem sempre culpa. Se ele partilhou a fotografia de Chris e Melanie não o fez por solidariedade com elas e repulsa pelos grunhos. Fê-lo porque é um voyeur supremacista e patriarcal.

2. Apesar de as câmaras agora preferirem o choupo, esse “eucalipto urbano” de crescimento rápido, ainda há algumas velhas tílias nas avenidas e nas praças. Por exemplo, no Rossio de Viseu.
Fotografia Olho de Gato
Snife o seu perfume. Está na potência máxima.

quinta-feira, 20 de junho de 2019

Mudança




À força de me mudar
aprendi a não encostar
os móveis às paredes,
a não pregar muito fundo,
a aparafusar apenas o necessário.
Aprendi a respeitar os rastos
dos antigos inquilinos:
um prego, uma moldura,
uma pequena poleia,
que ficou no seu lugar
embora me estorvem.
Há manchas que herdo
sem as limpar,
entro na nova casa
procurando entender,
mais do que isso,
vendo por onde haverei de me ir embora.
Deixo que a mudança
se dissolva como uma febre,
como uma crosta que cai,
não quero fazer barulho.
Porque os antigos inquilinos
nunca morrem.
Quando vamos embora,
quando deixamos outra vez
as paredes como as encontrámos,
fica sempre um prego deles
nalgum canto
ou um estrago
que não soubemos resolver.
Fabio Morábito
Trad.: Vasco Gato

quarta-feira, 19 de junho de 2019

Rossio*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 19 de Junho de 2009

1. Os Estados Unidos (o maior devedor mundial) e a China (o seu maior credor) estão obrigados a cooperarem e tentarem segurar a cotação do dólar. Isso foi acordado em Londres, em Abril, entre Obama e Hu Jintao.

Desde então, o corrupio entre Pequim e Washington não pára.

No início do mês, o secretário do tesouro Timothy Geithner descreveu esta estratégia bilateral num notável discurso na universidade de Pequim que teve grande destaque noticioso em todo o mundo. Em Portugal os media ignoraram-no.

No período de debate, um dos estudantes fez a pergunta óbvia:
«Os investimentos chineses na dívida americana estão seguros?»

«Muito seguros» - respondeu Timothy Geithner.

A audiência riu-se-lhe na cara.

Fotografia Olho de Gato
2. As obras no Rossio foram, globalmente, positivas.

Merece aplauso a forma como a praça ficou amiga dos invisuais.

Os novos candeeiros são adequados. Espera-se a internet sem fios. Música ambiente não, por favor. É uma parolice. Quem quiser que traga som de casa e use auscultadores.

A iluminação do edifício da câmara trata diferentemente as paredes brancas e o granito. Contudo, os focos de luz em contra-picado não estão a resultar. Demasiadas sombras parasitas.

Agora é preciso:

i) Fazer um pequeno café com uma boa esplanada no sítio onde está o carrossel e demolir o actual café deixando o Rossio respirar, abrindo-o a sul para a Avenida 25 de Abril.

ii) Pedonalizar o troço à frente do Banco de Portugal e do painel de azulejos, criando um contínuo livre de carros entre o Rossio, a Rua da Paz e a Rua Formosa. Ganha-se sossego e espaço.

3. Atenção! As tílias do Rossio estão quase, quase no máximo do seu perfume…

Scarborough Fair (#2/2)




Are you going to Scarborough Fair:
Parsley, sage, rosemary and thyme.
Remember me to one who lives there.
She once was a true love of mine.

On the side of a hill in the deep forest green.
Tracing of sparrow on snow-crested brown.
Blankets and bedclothes the child of the mountain
Sleeps unaware of the clarion call.

Tell her to make me a cambric shirt:
Parsley, sage, rosemary and thyme;
Without no seams nor needle work,
Then she'll be a true love of mine.

On the side of a hill in the sprinkling of leaves.
Washes the grave with silvery tears.
A soldier cleans and polishes a gun.
Sleeps unaware of the clarion call.

Tell her to find me an acre of land:
Parsley, sage, rosemary and thyme;
Between the salt water and the sea strands,
Then she'll be a true love of mine.

War bellows blazing in scarlet battalions.
Generals order their soldiers to kill.
And to fight for a cause they have long ago forgotten.

Tell her to reap it with a sickle of leather:
Parsley, sage, rosemary and thyme;
And gather it all in a bunch of heather,
Then she'll be a true love of mine.

Are you going to Scarborough Fair:
Parsley, sage, rosemary and thyme.
Remember me to one who lives there.
She once was a true love of mine.






"Scarborough Fair" is a traditional English ballad (existing in more than one version) that hangs, in some versions at least, upon a possible visit by an unidentified person (the "third party") to the Yorkshire town of Scarborough. The song implies the tale of a man who instructs the third party to tell his former love, who lives in said fair town, to perform for him a series of impossible tasks, such as making for him a shirt without a seam and no needlework and then washing it in a dry empty well, adding that if she were to complete these tasks he would take her back into his affections. Often the song is sung as a duet, with the woman then giving her sometime lover a series of equally impossible tasks, promising to give him his seamless shirt and her heart once he has finished.

As the versions of the ballad known under the title "Scarborough Fair" are usually limited to the exchange of these impossible tasks, many suggestions concerning the plot have been proposed, including the hypothesis that it is about the Great Plague of the late Middle Ages. The lyrics of "Scarborough Fair" appear to have something in common with an obscure Scottish ballad, "The Elfin Knight" (Child Ballad #2) by Francis James Child,[1] which has been traced as far back as 1670 and may well be earlier. In this ballad, an elf threatens to abduct a young woman to be his lover unless she can perform an impossible task ("For thou must shape a sark to me / Without any cut or heme, quoth he"); she responds with a list of tasks that he must first perform ("I have an aiker of good ley-land / Which lyeth low by yon sea-strand").

The melody is in Dorian mode and is very typical of the middle English period.

terça-feira, 18 de junho de 2019

Romeiro hei de ir lonxe ao San Andrés (#1/2)




Romeiro hei de ir lonxe ao San Andrés
con herbiñas de namorar,
dareille a quen alén mar está
o aloumiño do meu amor.

Hei de vestir a camisa de liño
que ela teceo para min
con herbiñas de namorar;
anda o lagarto azul e souril
a acaroar mapoulas bermellas,
nacidas de fusís,
co aloumiño do meu amor,
alleo á guerra e ao seu tambor.

Morto ou vivo hei volver á terra
que ela andou canda min
con herbiñas de namorar;
chouta o mascato polo cantil
a vela-lo adro familiar,
ala lonxe, na fin,
co aloumiño do meu amor.

Cabo do mundo, ó pé dun aguillón
doeme a guerra ruín
entre herbiñas de namorar;
corvo mariño voa xentil
o amilladoiro a levantar
e pan santo a colorir
co aloumiño do meu amor.

Romeiro hei de ir lonxe ao San Andrés
con herbiñas de namorar,
dareille a quen alén mar está
o aloumiño do meu amor.




segunda-feira, 17 de junho de 2019

domingo, 16 de junho de 2019

De que são feitos os dias?


De que são feitos os dias?
– De pequenos desejos,
vagarosas saudades,
silenciosas lembranças.

Entre mágoas sombrias,
momentâneos lampejos:
vagas felicidades,
inatuais esperanças.

De loucuras, de crimes,
de pecados, de glórias,
– do medo que encadeia
todas essas mudanças.

Dentro deles vivemos,
dentro deles choramos,
em duros desenlaces
e em sinistras alianças…
Cecília Meireles


David Byrne & Brian Eno's "One Fine Day",
performed by Brooklyn Youth Chorus, David Byrne, and Mauro Refosco.
at the National Sawdust 2019 Spring Gala on May 7, 2019


sábado, 15 de junho de 2019

Desolation row

Fotografia de Navneet Mahajan

They're selling postcards of the hanging, they're painting the passports brown
The beauty parlor is filled with sailors, the circus is in town
Here comes the blind commissioner, they've got him in a trance
One hand is tied to the tight-rope walker, the other is in his pants
And the riot squad they're restless, they need somewhere to go
As Lady and I look out tonight, from Desolation Row

Cinderella, she seems so easy, "It takes one to know one, " she smiles
And puts her hands in her back pockets Bette Davis style
And in comes Romeo, he's moaning. "You Belong to Me I Believe"
And someone says, "You're in the wrong place, my friend, you'd better leave"
And the only sound that's left after the ambulances go
Is Cinderella sweeping up on Desolation Row

Now the moon is almost hidden, the stars are beginning to hide
The fortune telling lady has even taken all her things inside
All except for Cain and Abel and the hunchback of Notre Dame
Everybody is making love or else expecting rain
And the Good Samaritan, he's dressing, he's getting ready for the show
He's going to the carnival tonight on Desolation Row

Ophelia, she's 'neath the window for her I feel so afraid
On her twenty-second birthday she already is an old maid
To her, death is quite romantic she wears an iron vest
Her profession's her religion, her sin is her lifelessness
And though her eyes are fixed upon Noah's great rainbow
She spends her time peeking into Desolation Row

Einstein, disguised as Robin Hood with his memories in a trunk
Passed this way an hour ago with his friend, a jealous monk
Now he looked so immaculately frightful as he bummed a cigarette
And he when off sniffing drainpipes and reciting the alphabet
You would not think to look at him, but he was famous long ago
For playing the electric violin on Desolation Row

Dr. Filth, he keeps his world inside of a leather cup
But all his sexless patients, they're trying to blow it up
Now his nurse, some local loser, she's in charge of the cyanide hole
And she also keeps the cards that read, "Have Mercy on His Soul"
They all play on the penny whistles, you can hear them blow
If you lean your head out far enough from Desolation Row

Across the street they've nailed the curtains, they're getting ready for the feast
The Phantom of the Opera in a perfect image of a priest
They are spoon feeding Casanova to get him to feel more assured
Then they'll kill him with self-confidence after poisoning him with words
And the Phantom's shouting to skinny girls, "Get outta here if you don't know"
Casanova is just being punished for going to Desolation Row"

At midnight all the agents and the superhuman crew
Come out and round up everyone that knows more than they do
Then they bring them to the factory where the heart-attack machine
Is strapped across their shoulders and then the kerosene
Is brought down from the castles by insurance men who go
Check to see that nobody escapes to Desolation Row

Praise be to Nero's Neptune, the Titanic sails at dawn
Everybody's shouting, "Which side are you on?!"
And Ezra Pound and T. S. Eliot fighting in the captain's tower
While calypso singers laugh at them and fishermen hold flowers
Between the windows of the sea where lovely mermaids flow
And nobody has to think too much about Desolation Row

Yes, I received your letter yesterday, about the time the doorknob broke
When you asked me how I was doing, was that some kind of joke
All these people that you mention, yes, I know them, they're quite lame
I had to rearrange their faces and give them all another name
Right now, I can't read too good, don't send me no more letters no
Not unless you mail them from Desolation Row
Bob Dylan



sexta-feira, 14 de junho de 2019

Porque falham as nações*

* Hoje no Jornal do Centro


Em Julho de 1985, Bernie Sanders, então presidente de uma câmara nos EUA, fez uma visita à Nicarágua a convite dos sandinistas, visita que agora está a ser usada contra ele no debate das primárias democratas que hão-de escolher o próximo adversário de Trump.

Ora, a visita de Sanders naquele ano merece aplauso. Depois de terem derrubado a ditadura sanguinária de Somoza, os sandinistas de Daniel Ortega estavam no poder através de eleições justas e livres, tinham reduzido metade da mortalidade infantil e baixado o analfabetismo de 50 para 15%. Além disso, tinham devolvido ao controlo público 40% da riqueza do país roubada pela dinastia Somoza e seus apaniguados.

Só que, quatro anos depois, os sandinistas, em risco de perderem as eleições, fizeram um golpe que ficou conhecido por “la piñata” (nome de um jogo em que os putos partem um pote para chegarem às gulodices). Foi mesmo isso: a cúpula sandinista sacou para si própria centenas de empresas públicas. Ficaram riquíssimos, a começar pelo seu líder.

O sandinismo começou com preocupações com o povo mas transformou-se numa nódoa cleptocrática em que Daniel Ortega é o presidente e a mulher dele... vice-presidente. Se agora Sanders aceitasse um convite desta gente, merecia um banho de alcatrão e penas.

O que aconteceu na Nicarágua é a regra não é a excepção. Uma elite que chega ao poder, normalmente, acaba a fazer o mesmo que a que substituiu.

Daron Acemoglu e James A. Robinson, no seu obrigatório “Porque Falham as Nações”, explicam estes mecanismos. Uma nação pode prosperar se tiver instituições inclusivas, com elites que aceitem limites ao seu poder. Uma nação falha se, pelo contrário, tiver elites extractivas que não aceitam limites ao seu poder.

A Angola de João Lourenço tem agora acesa a mesma luz de esperança que tinha a Nicarágua quando foi visitada por Sanders. 
Fotografia daqui
Irá o novo presidente angolano recusar ser um Eduardo dos Santos II? 
Só o tempo nos dirá se acontece esse milagre.

The naming of cats

Pussy — a razão deste blogue
Fotografia Olho de Gato



The Naming of Cats is a difficult matter,
It isn't just one of your holiday games;
You may think at first I'm as mad as a hatter
When I tell you, a cat must have THREE DIFFERENT NAMES.
First of all, there's the name that the family use daily,
Such as Peter, Augustus, Alonzo or James,
Such as Victor or Jonathan, George or Bill Bailey--
All of them sensible everyday names.
There are fancier names if you think they sound sweeter,
Some for the gentlemen, some for the dames:
Such as Plato, Admetus, Electra, Demeter--
But all of them sensible everyday names.
But I tell you, a cat needs a name that's particular,
A name that's peculiar, and more dignified,
Else how can he keep up his tail perpendicular,
Or spread out his whiskers, or cherish his pride?
Of names of this kind, I can give you a quorum,
Such as Munkustrap, Quaxo, or Coricopat,
Such as Bombalurina, or else Jellylorum-
Names that never belong to more than one cat.
But above and beyond there's still one name left over,
And that is the name that you never will guess;
The name that no human research can discover--
But THE CAT HIMSELF KNOWS, and will never confess.
When you notice a cat in profound meditation,
The reason, I tell you, is always the same:
His mind is engaged in a rapt contemplation
Of the thought, of the thought, of the thought of his name:
His ineffable effable
Effanineffable
Deep and inscrutable singular Name.
T. S. Eliot












quinta-feira, 13 de junho de 2019

Canção de amor da jovem louca

Fotografia de Tamarcus Brown

Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro
Ergo as pálpebras e tudo volta a renascer
(Acho que te criei no interior da minha mente)

Saem valsando as estrelas, vermelhas e azuis,
Entra a galope a arbitrária escuridão:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Enfeitiçaste-me, em sonhos, para a cama,
Cantaste-me para a loucura; beijaste-me para a insanidade.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Tomba Deus das alturas; abranda-se o fogo do inferno:
Retiram-se os serafins e os homens de Satã:
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro.

Imaginei que voltarias como prometeste
Envelheço, porém, e esqueço-me do teu nome.
(Acho que te criei no interior de minha mente)

Deveria, em teu lugar, ter amado um falcão
Pelo menos, com a primavera, retornam com estrondo
Cerro os olhos e cai morto o mundo inteiro:
(Acho que te criei no interior de minha mente.)
Sylvia Plath
Trad.: Maria Luí­za Nogueira


quarta-feira, 12 de junho de 2019

Dupla SORTE a dos moradores em Marzovelos — por JB*

Primeiro: têm “Jardins Efémeros” privado e há mais de 365 dias.



Segundo: têm água verde e não essa tal de amarela…



E vamos lá montar o palco para outra FESTA!


* Fotografias, legendas e selecção musical de JB

Boomerang*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos,  em 12 de Junho de 2009 


1. No dia 8 de Dezembro de 2006, escrevi aqui no Olho de Gato:
“O desgaste da imagem dos professores junto da opinião pública feito pela Ministra da Educação é um boomerang que vai cair na cabeça do PS e do governo. É só deixar passar a água debaixo das pontes.”



A água passou debaixo das pontes. O boomerang caiu na cabeça do PS e do governo.

Foi nas eleições do domingo passado.

2. O código genético do PS é a liberdade.

A liberdade de as pessoas poderem pôr sal no pão sem o estado estar a meter o nariz no assunto.

A liberdade das pessoas poderem circular sem serem chipadas.

A liberdade de se poder dizer que a barbárie marilurdista gosta de bufos e delatores.

A liberdade de se poder dizer que nem tudo o que é bom para o senhor António Mota Coelho Engil é bom para o país.

A liberdade de se poder dizer que o secretário de estado que disse querer trucidar os funcionários públicos devia arranjar outro emprego.

A liberdade de se poder lembrar aos militantes do PS que congressos “albaneses” – como os de Mangualde e de Espinho - são o cemitério da política.

A liberdade de se poder dizer que é um erro moral fazer política a promover a inveja e a schadenfreude, atirando as pessoas umas contra as outras.

A liberdade de se poder dizer que Portugal precisa de um estado honrado e frugal que deixe as pessoas tratarem da sua vida e tentarem ser felizes.

3. O boomerang das europeias vai doer durante semanas.

Boys intranquilos. “Ai que ainda perco o tacho…”

Depois, os negócios do costume vão ser acelerados.

Na minha freguesia — Coração de Jesus, Viseu — o PS teve 18,5%.

A classe média está atenta.

Não é seguro que já tenha descarregado a bílis toda.

A orquídea solitária

Fotografia de Kelly Kiernan

Uma orquídea solitária
desabrochou um dia num jardim vazio,
rodeada de ervas e tristeza.
Outrora a Primavera tépida,
agora o Outono frio.
A geada embranquece a terra,
murcham as folhas verdes,
extingue-se a flor.
Se não soprar a brisa
quem aspirará as résteas de perfume?
Li Bai
Trad.: António Graça de Abreu