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domingo, 17 de março de 2019

Crítico

Fotografia Olho de Gato

Eis que me veio uma visita
do tipo – achei – que não me irrita.
O meu jantar não era chique,
mas ele comeu tanto, ali, que
não sobrou nada em casa; e quando
notei-o quase arrebentando,
o Demo o fez sair só para
cuspir no prato em que jantara:
“A sopa estava um arremedo;
a carne, crua; o vinho, azedo”.
Que morra paralítico!
Com mil demónios! Era um crítico.
Goethe
Trad.: Nelson Ascher


sexta-feira, 29 de junho de 2018

Coragem*

* Hoje no Jonal do Centro



1. Há exactamente duas semanas e dois dias, a polícia iraniana irrompeu pela casa de Nasrin Soutoudeh e levou para a prisão aquela advogada defensora dos direitos humanos. Não foi a primeira vez que tal aconteceu a esta Mulher corajosa - já tinha estado presa pelo regime teocrático do Irão de 2010 a 2013. Foi durante esses amargos anos que ela recebeu, e muito bem, o Prémio Sakharov.

Desta vez, a advogada estava em casa com sua filha de 18 anos que preparava os exames para a entrada na universidade. Foi dito a Nasrin que ela tinha sido condenada à revelia a cinco anos de prisão. Foi-lhe dito isso e mais nada do que isso. Ela não faz ideia do que se passou no julgamento. Não sabia, tão pouco, que o mesmo estava a acontecer.

Sabe-se que, nas semanas que precederam a sua prisão, Nasrin Soutoudeh tinha tomado uma posição firme contra uma norma do código de processo penal iraniano de 2015 que, em determinados "crimes", proibe os acusados de terem acesso a advogados independentes, só podem ser "defendidos" por advogados autorizados pelo regime.

Por exemplo, em Teerão, dos sessenta mil advogados activos só há vinte a poderem "representar" as mulheres que cometem o "crime" de aparecerem sem hijab em público. E, como se sabe, muitas têm sido as Mulheres que têm lutado contra a obrigatoriedade dos véus. Cheias de coragem, destapam a cabeça, sobem às caixas de electricidade espalhadas pelas ruas e publicam esses actos de liberdade nas redes sociais. Muitas têm sido presas pela sinistra polícia moral dos aiatolas.


Fotografia AFP/Getty Images
2. Durante o jogo Portugal-Irão, duas mulheres lindas, de cabelo negro ao vento, uma delas a sorrir, a outra a gargalhar, ambas com o verde, o branco e o vermelho da bandeira iraniana pintados nas suas caras, apareceram, sem véu nenhum, nos écrãs de todo o mundo. Nos do Irão também.

Tão belas. Tão belas como a trivela de Ricardo Quaresma.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Alemanha — Grécia*

* Publicado há exactamente dez anos, em 27 de Junho de 2008


1. Quando a Alemanha estava a ganhar 2-0, a televisão mostrou a cara top-model de Cristiano Ronaldo; ele estava ensimesmado, parecia em conspiração consigo próprio; pensei eu, então, ao ver o pensar dele: agora, sim, a asa esquerda do nosso ataque vai “ligar o turbo” e deixar os teutões pregados à sua insignificância.

Pouco depois, as televisões mostraram um grande plano de Scolari ensimesmado, perdido em cálculos; pensei eu, então, ao ver o pensar dele: agora, sim, é que Scolari vai dar asas à nossa fantasia e vencer a sensaboria pragmática de Schweinsteiger e companhia.

Pensava eu que a vitória só podia ser um caso de cosa mentale e não dos centímetros germânicos recenseados burocraticamente por Scolari em conferência de imprensa, antes do jogo.

O “tamanho importa” dizia, há uns anos, agoirento, um anúncio do Renault Clio. E importou: Joachim Low usou muitos mais centímetros que Scolari. De inteligência.

2. Vou ao YouTube e escrevo “Monty Python Football” para ver a segunda parte de um jogo Alemanha - Grécia.




Pela Alemanha alinham, entre outros, Leibniz, Kant, Hegel; mais à frente, Jaspers (substituído aos 88’ por Karl Marx) e, claro, Nietzche e Heidegger.

A Grécia tem uma equipa fabulosa, em que se destacam Platão (à baliza), Aristóteles, Sófocles, Epicuro; no miolo, Demócrito e, ao ataque, o trio maravilha: Heraclito, Sócrates e Arquimedes.

Aos 89’, Arquimedes brada: «EURECA!». Arranca com a bola, faz uma tabela com Sócrates e outra com Heraclito, corre pela direita, centra e Sócrates marca. De cabeça, evidentemente. O mais importante golo da sua carreira. Alemanha, 0 – Grécia, 1.

Pois é. A Grécia e a Alemanha têm filósofos…

sexta-feira, 22 de junho de 2018

Adicções*

* Hoje no Jornal do Centro


Adições dão somas, adicções, dependências. Nos tempos que correm, há cada vez mais gente a adicionar adicções. Uma delas é o smartphone.


Corre um meme nas redes que descreve perfeitamente esta agarração — numa fotografia temos sete pessoas sentadas em dois sofás: o pai, a mãe, o tio, a tia, o neto, a neta e a avó; ninguém diz nada; os seis primeiros estão ferrados no telelé, a avó olha o vazio, a legenda ironiza: «oxalá a vovó esteja a gostar da nossa visita».

Isto é mundial. As pessoas estão apanhadas de todo. O norte-americano médio consulta o seu aparato de doze em doze minutos. Para Portugal não há estatísticas, mas um sportinguista médio, como eu, está sempre a passar os dedos na maquineta para saber as últimas de Bruno de Carvalho.

No domingo, o Washington Post trazia um texto de William Wan a descrever esta adicção e a reportar a luta que os Davids do movimento “bem-estar digital” travam contra os Golias: a Apple, a Google, o Facebook e similares.

É que, explica Wan, os utilizadores estão transformados nos pombos de Skinner — um psicólogo comportamentalista que, há sessenta anos, pôs os bichos numa caixa e treinou-os a bicarem num botão para obterem comida; depois, o investigador subverteu as regras; para dar prémio, os pombos tanto tinham que bicar duas vezes, como cinco, ou uma, ou quatro, numa sequência que nunca se repetia; resultado: os pombos endoidaram e passaram a bicar convulsivamente o botão durante horas.

O que está a acontecer às pessoas é um bocado parecido. Haja ou não haja o “plim!” das notificações, pegam no smartphone à procura de um prémio. A maior parte das vezes, é uma irrelevância, é spam, é um video melga, é publicidade; uma vez por outra, aparece algo de interesse.

Amanhã à noite lá estarei eu às voltas com o meu Xiaomi à espera do jackpot — a notificação a informar que os sócios equiparam devidamente Bruno de Carvalho com uns patins debaixo dos pés.

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Selecção*

* Publicado há exactamente dez anos, em 6 de Junho de 2008


Como vi o estágio da selecção:

i) Viseu é uma cidade aberta, bonita e dinâmica e que sabe receber bem. Os viseenses estão de parabéns.

ii) A Câmara Municipal fez bem em alindar a cidade antes da chegada da comitiva; os zunzuns que ouvi a criticar isso foram estúpidos; quando se recebem visitas, prepara-se a casa.


iii) Não se viu grande jornalismo na cobertura destas duas semanas. Pôr repórteres a espetar o microfone à frente dos transeuntes no Rossio não é fazer jornalismo, é encher chouriços.

iv) As mesmas histórias passaram de canal para canal, aquecidas e reaquecidas em micro-ondas. Toda a gente ficou a saber de cor o caso dos patuscos do Renault 5 a “trabalharem” para irem à Suíça e o caso da pasteleira que veio de Quioto para ter um autógrafo do Paulo “Fereira”.

v) Um estágio precisa de sossego e concentração. Quanto mais próximas queriam estar as pessoas, mais longe precisavam de estar os jogadores. Foi impossível evitar alguma frustração dos adeptos.


vi) Não devia ter sido permitida a entrada do empresário de Cristiano Ronaldo no estágio. Ele que trate dos seus 10% noutro sítio. A história da ida ou não ida de Cristiano Ronaldo para o Real Madrid perturbou os trabalhos e a cabeça do nosso melhor jogador.

vii) Sou sócio da selecção desde que nasci. Percebeu, senhor BES?


viii) Gilberto Madaíl pôs-se a falar de um putativo novo contrato com Scolari.

ix) Um jipe estacionou junto ao Hotel Montebelo com um fardo de palha no tejadilho.


x) Durante uns tempos, as varandas dos apartamentos vão ter mais bandeiras nacionais que placas a dizer “vende-se”.

quarta-feira, 2 de maio de 2018

Ressaca*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 2 de Maio de 2008



1. Este ano está a haver uma corrida aos resgates de PPRs; o saldo entre resgates e subscrições, no final de Março, já era de 171 milhões de euros; entre os primeiros trimestres de 2007 e 2008, a situação degradou-se 274 vezes.

A situação económica está brava. Só diz o contrário “alguém que está a olhar através de uma janela fechada e não consegue explicar a si mesmo os estranhos movimentos de um transeunte na rua. Esse alguém desconhece a tempestade que vai lá fora e portanto que essa pessoa está apenas a fazer um grande esforço para se conseguir aguentar em pé” (palavras do filósofo Ludwig Wittgenstein para sua irmã).

Há muita gente sem dinheiro e que está a vender os últimos anéis. Gente desesperada, no meio de uma tempestade, a fazer um grande esforço para se aguentar em pé.

2. Vivemos um clima “escassamente propício à jubilação colectiva”, conforme dizia o texto deste ano da Associação 25 de Abril que foi assinado, entre outros, por Mário Soares, Vieira da Silva, Ferro Rodrigues e António Costa.

O nosso 11 de Setembro foi uns meses antes do americano; foi em 4 de Março de 2001, quando a Ponte de Entre-os-Rios caiu nas águas do Douro. Estamos em ressaca desde então.

Não correu bem a ideia de fazer de Portugal um país de eventos. A Expo 98 e o Euro 2004 não nos ajudaram. Erguer estádios aumentou-nos o IVA e fechou-nos urgências. 

F
Leiria, falência com vista para o castelo — daqui

Ainda por cima, infelizmente, o grego Haristeas marcou-nos aquele golo de cabeça na final… Cristiano Ronaldo e José “special one” Mourinho consolam-nos alguma coisa, mas não chega.


Continuamos de ressaca. Levamos já sete anos deste tempo “escassamente propício à jubilação colectiva.”

quarta-feira, 28 de março de 2018

Penáltis*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 28 de Março de 2008

1. Conta José Cardoso Pires em “Lavagante”: o lavagante alimenta o safio “levando-lhe comida a todas as horas (…) a essa serpente estúpida de grandes sonos, vendo-a a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu de mais, enovelou-se, e não cabe na abertura por onde podia libertar-se. Nesse momento (…) o lavagante servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de garras afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo.”

Se procurar bem ainda encontra nas livrarias a primeira edição deste livro. [Edições Nelson de Matos, Fevereiro de 2008]

2. Uma empresa de informática, a Chip7, lançou o seguinte slogan para promover a venda de um computador: “Se o Sporting ganhar a Taça UEFA… Devolvemos-lhe o dinheiro!!!” Não gostei nada desta ideia…

Declaração de interesses: sou do Sporting. Ser do Sporting dá uma grande resistência psicológica: o Sporting sabe ganhar, sabe empatar e sabe perder. Só não sabe é marcar penáltis.

Há uns tempos, o Inimigo Público explicou tudo: quando o árbitro assinala um penálti a favor do Sporting isso é uma reles cabala, é um truque para instabilizar o leão. Já se sabe e o árbitro é o primeiro a sabê-lo: qualquer que seja o jogador sportinguista escolhido, ele falha o penálti, fica amarfanhado psicologicamente e nas semanas seguintes não joga nada de jeito. Quando chegaram os penáltis, no passado sábado, na final da Taça da Liga, ninguém se admirou com o colapso dos leões.

Apesar de tudo, penso que a Chip7 vai ter um desgosto e o Sporting vai ganhar a Taça UEFA. Não vai acontecer nenhum penálti mal intencionado a nosso favor. Nem todos os árbitros são como os portugueses…

quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

A rábula do dentro e do fora*

* O texto que se segue foi escrito em comentário no Facebook há exactamente dois anos a que acrescentei agora o terceiro parágrafo; aplica-se por inteiro ao PS no concelho de Viseu (onde sou militante com as cotas em dia) e ao Sporting (de que sou só simpatizante sofredor)



Imagem achada no FB de que se perdeu a autoria

Há uma esquizofrenia nos aparelhos cada vez menos operativa — a rábula do "cá dentro" e do "lá fora".

Esta rábula é cada vez menos operativa porque começa a faltar paciência às pessoas menos próximas dos rebanhos.

Essa rábula é típica dos partidos mas não só: vejam-se os muros que o autoritário e incompetente Bruno de Carvalho está a tentar criar entre um "dentro" e um "fora" do Sporting.

As "famiglias" que controlam os aparelhos levantam esse bisnau — dizem "lá dentro" que se deve falar "cá dentro" (expressão típica de aparelho) mas nunca se deve falar "lá fora" (expressão típica de aparelho).

E ostracizam quem fala "lá fora" (quer tenha ou não avisado "lá dentro"). E odeiam e invejam quem tem voz "lá fora".

Normalmente as "famiglias" já nem tentam falar "lá fora" onde ninguém os ouve.

Esta esquizofrenia serve, acima de tudo, para quê?

Resposta simples: para evitar escrutínio "lá dentro", qualquer que seja a merda feita "lá dentro".

As coisas nunca se consertam "lá dentro", embora haja, depois, um concerto afinadinho "cá fora" para desvalorizar ou disfarçar a malcheirosice "lá dentro".

Então, cheirando mal "lá dentro" e não sendo possível abrir as janelas para o "lá fora" arejar o "cá dentro", como ficam as coisas?

Ficam a cheirar mal, claro, mas na paz, com as "famiglias" a mandar e as ovelhas mais microcéfalas e desprovidos de pituitária a balirem todas contentes. A elas toda a merda lhes cheira bem.

segunda-feira, 29 de janeiro de 2018

Da irrelevância política… — por JB

Comentário de JB a Palimpsesto


Ontem houve um jogo de futebol importante. Uma final de taça. A taça – CTT (não sei se será o epitáfio dessa empresa…).

Não falo do jogo; falo do final do mesmo. Habitual entrega da taça com os jogadores, treinadores…, a passarem na tribuna de honra. Cumprimentos, festejos, abraços.


Fotografia José Coelho — daqui


Eis senão quando vislumbro Tiago Rodrigues entre os presentes na fila de individualidades.

Tiago Rodrigues? Não sabe quem é sr leitor?
Não se preocupe, pois nem jogadores, nem treinadores, nem dirigentes, nem massagista, nem roupeiro, nem…., mostraram a mínima empatia, cumplicidade, satisfação, sei lá…., ao cumprimentarem o mais alto responsável governativo, pelo desporto.
Da irrelevância política…, até no desporto. Palimpsesto para ti também, Tiaguinho!

Na educação, vai-se confirmando a sua irrelevância (e sou simpático…).
Irá cumprir a legislatura pois o seu papel é manter o sector educativo: calmo, calado, tranquilo e entretido. Com a conivência de todos os sindicatos, óbvio!

Aqui se falou de irrelevância política e nunca de irrelevância pessoal.

É a diferença entre um espaço limpo, escorreito e livre (Olho de Gato) e um conselho de opinião (ou lá como se chama) na RTP, subjugado, domado e que faz juízos pessoais sobre Nuno Artur Silva e realiza “um auto de fé” público.

A geringonça não fica bem na fotografia e “Limpa o cesto bem limpo”.

Da irrelevância política dos “três compadres Galambas” da Caranguejola!
JB

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

Presuntos*

* Publicado há exactamente dez anos, em 23 de Novembro de 2007

1. A nova Lei das Finanças Locais é positiva embora o grosso dos dinheiros municipais continue a vir da velha fórmula: “quanto mais cimento, mais pilim”.

Uma das boas novidades da nova Lei foi ter tornado as Câmaras responsáveis directas por 5% do IRS dos seus munícipes. As Câmaras, agora, podem encaixar esses 5% ou devolvê-los em parte ou na totalidade aos contribuintes. Resultado: vamos ter concelhos vizinhos com IRS diferentes. É pena as diferenças em causa ainda serem modestas. Podiam e deviam aumentar.

2. Em 25 de Outubro, as dezoito Câmaras da Área Metropolitana de Lisboa decidiram que os seus munícipes pagam o máximo de IRS. Pagam e não bufam. Infelizmente, não é possível mandar a Autoridade da Concorrência àquelas câmaras passar-lhes uma multa por cartelização.

Em contraste, o presidente da Câmara de Loulé, Seruca Emídio, cumprindo compromissos eleitorais, decidiu aliviar a carga fiscal no seu concelho: em 2008, os louletanos vão pagar menos 1,7 milhões de euros em IMI e menos 950 mil euros em IRS.

Loulé é um concelho com mais segunda habitação que primeira. Muita desta segunda habitação é de luxo.

Quantos ricos vão mudar a morada do seu Cartão de Contribuinte para a sua casinha do Algarve, deixando Costa, Isaltino, Capucho e Seara a chuchar no dedo?

3. “Às vezes trocam-se uns presuntos de Lamego, outros trocam queijos de Lafões, mas chamar a isso corrupção não, são apenas encontros de amigos". – Amândio Fonseca, Presidente do Sporting de Lamego e Vice-Presidente da Câmara, ao Diário de Viseu.

Daqui

“Aprender uma língua é aprender como se pensa nessa língua.”-
Roland Barthes.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Coisas boas*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


Em 17 de Maio de 2011, fez seis anos esta semana, a troika entrou por cá dentro com um cheque e uma receita amarga. Três duros anos depois, em 17 de Maio de 2014, ela foi-se embora. Desde então, pelo menos para já, tem havido juízo: o défice está controlado e não têm sido repetidas as loucuras que nos levaram ao buraco.

Portugal agora é só coisas boas:
— ele é a canonização dos pastorinhos após milagre devidamente esmiuçado pela vaticanista Aura Miguel;
— ele é a vitória de Salvador Sobral na piroseira eurovisiva após milagre devidamente presenciado em Kiev por João Carlos Malato;
— ele é o tetra encarnado após milagres de arbitragem devidamente denunciados por Bruno de Carvalho;
— ele é um forte crescimento da economia após milagre turisteiro devidamente calculado pelo INE.

Se continuarmos a crescer a este ritmo, ainda atingimos esta década o nível de riqueza que tínhamos em... 2008.

Os maus sentimentos estão fora de moda. Nas redes sociais, onde abundavam gatinhos e ódios, agora em vez de gatinhos há publicações cutchi-cutchi sobre os manos Sobral, em vez de ódios, a saia bem travada da dra. Assunção Cristas.

O país efectua afectos a um ritmo nunca visto. Não há zangas. Acontece um arrufo aqui ou ali, como nas autárquicas do Porto, nada de especial, nada que não caiba numa selfie de Marcelo com o pessoal, todo pancadinhas nas costas, a mostrar o marfim.

Portugal agora é só coisas boas: Monica Belucci e Michael Fassbender compraram casa em Lisboa. Uma casa cada um. 


Ela, na sua sala com vista para o Tejo, vê ininterruptamente o filme “Vergonha”. Ele, na sua sala com vista para o Tejo, vê ininterruptamente “Irreversível”.

Ainda os vamos ver aos dois dirigidos pelo maior cineasta português vivo: João Pedro Rodrigues.

Só nos falta agora um Óscar e que Fernando Santos, depois do europeu, nos dê o mundial.

sábado, 15 de abril de 2017

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Vetocracia*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Mário Soares não gostava nada que o chamassem “pai da democracia” e, quando tal ouvia, respondia com a velha tirada de Vasco Santana: “vai chamar pai a outro!”

A verdade é que a nossa democracia, mesmo não sendo irmã de Isabel e João Soares, deve ao pai deles duas coisas inestimáveis: a liberdade e a “Europa”.

Ambas a precisarem de um novo Mário Soares que as defenda. A liberdade é posta em causa todos os dias por um estado pan-óptico que quer saber tudo da nossa vida e que mantém uma justiça disfuncional e um fisco fascista. Já a “Europa” está a ser atacada duramente pelos populismos patrioteiros, entre nós por enquanto mais de esquerda do que de direita.

O último trabalho político que fiz foi na campanha de Mário Soares, nas presidenciais de 2006. Relembro o que escrevi aqui na altura em resposta aos estupores que tanto se alegraram com aquela amarga derrota do velho leão: “só há três nomes que vão ficar na história da república portuguesa: Afonso Costa, Oliveira Salazar e Mário Soares.”

2. Conforme notou Francis Fukuyama, o sistema político dos Estados Unidos da América evoluiu para uma vetocracia: os vários contra-pesos constitucionais “metastizaram-se” e bloqueiam o governo.

Esta “paralisia” de Washington, durante os oito anos de Obama, foi-se tornando cada vez mais evidente. Dois exemplos: apesar de todos os esforços de Barack, o offshore judicial de Guantánamo continua operacional e a venda de armas continua na mesma.

Agora, com Trump, é de esperar que o Congresso e o Senado continuem a fazer valer a sua força vetocrática. A vitória do milionário foi humilhante para os hierarcas do partido republicano. É expectável que estes, agora, não facilitem a vida ao novo inquilino da Casa Branca.

3. Aos 22 anos, Nuno Bico acaba de entrar na Movistar, a melhor equipa ciclista do mundo. Além de atleta de eleição, o jovem viseense, na excelente entrevista que deu a este jornal, mostrou ter uma cabeça bem arrumada.
Força, Nuno Bico!


quinta-feira, 5 de janeiro de 2017

Atiçador*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 5 de Janeiro de 2007

1. Lê-se em “O Atiçador de Wittgenstein”, de David Edmonds e John Eidinow, editado pela Temas e Debates, que, no dia 25 de Outubro de 1946, pelas 20H30, se reuniu o Clube de Ciência Moral de Cambridge. Orador convidado: Karl Popper.

Na assistência (que não deveria exceder as 30 pessoas) estavam Ludwig Wittgenstein e Bertrand Russell. Numa sala aquecida com uma lareira de carvão, naquela noite fria, encontraram-se três dos pensadores que mais influenciaram o século XX. Foi a única vez que Wittgenstein e Popper se encontraram, apesar de ambos serem originários de Viena de Áustria.

Todas as testemunhas concordam numa coisa: o debate entre Wittgenstein e Popper foi violentíssimo. Embora exista alguma controvérsia acerca da amplitude dos movimentos do atiçador, parece que, como conta Popper em Unended Quest (1974), Wittgenstein estava a usar o atiçador da lareira ”como se fosse a batuta de uma maestro para enfatizar as suas asserções”. Wittgenstein desafiou Popper a dar exemplo duma regra moral, ao que este respondeu: “Não ameaçar os oradores convidados com atiçadores.” Wittgenstein, furioso com a resposta, atirou o atiçador ao chão e saiu, batendo com a porta.

Terá acontecido mesmo assim como contou Popper? O livro é feito a partir desta pergunta e lê-se com proveito e prazer.

2. Há já uns bons anos, estive na apresentação do Polis de Viseu. “Sem politiquices, Viseu tem um bom projecto” – reconheceu, na altura, José Sócrates. Na cerimónia, em frente ao relógio do Polis, o PSD de Viseu pôs um cartaz a pedir a Guterres e a Sócrates um Estádio do Euro.

Passou o tempo. Estádio, felizmente, não há. Relógio, ao que parece, vai deixar de haver. As obras vão continuar. Com quatro anos de atraso.

domingo, 25 de dezembro de 2016

No ano passado

Rossio — Viseu, Natal de 2015
Fotografia Olho de Gato



No ano passado, tive um Natal dos diabos.
Saíra do emprego uma hora mais cedo
para ter tempo de tomar um bom banho,
para ter tempo de decidir
as recordações que devia evocar em família
e as que não devia.
Os cartões de boas-festas tinham partido a tempo,
a caminho da estação comprei bolos.
Mas fazia um tempo claro, sem gelo,
um tempo que não suporta peso algum,
no elétrico para casa pareceu-me
haver esquecido em qualquer lado a partitura
que devia ter tocado à noite.
Pendurei o sobretudo no vestíbulo
e entrei no salão, onde estava mais quente
mas o serão transtornava-se,
virando para o céu um ventre branco
de uma brancura de estrelas na noite de Natal;
faltava-lhe o ar, não percebia nada.
Algumas velas iluminavam a árvore
mas já não se entendia porquê.
Um mito chegava ao fim
e o outro, novo, continuava à espera debaixo do horizonte.
À entrada, a secar o sobretudo
ia-se retorcendo aos poucos
como a pele arrancada a um animal há muito tempo.
A um canto, o cano da água
entoava cânticos antigos,
a solteira soltava um bramido,
voz do novo povo, o povo de baixo,
das trevas surgido.
Josef Kainar
Trad.: Ernesto Sampaio



Isabel Silvestre e Vozes de Manhouce - "Ao meu menino Jesus" from MPAGDP on Vimeo.

sábado, 23 de julho de 2016

Exorcismos e lampionices

Newslwetter da TSF de hoje

António Costa para "virador da página da austeridade" tem pouco jeito, como se tem visto. Talvez se safe como "exorcista".

Já a TSF anda há meses com "o golo que colocou o Benfica na liderança". Todos os dias. Nem o golo do Eder em Paris, que nos fez campeões da Europa, deslampiona esta newsletter.

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Vilão*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. O domingo passado foi tão longo como o Dia D, o dia da invasão da Normandia. Roer de unhas. Olhos nos relógios. Quanto-tempo-falta-para-o-jogo?

Dias muito raros estes que põem no congelador todas as tribos de um país, sejam elas clubísticas, geográficas, religiosas, políticas, ... Tudo nesses dias é monofónico nas suas mil maneiras de dizer e querer o mesmo.

Onde-estavas-no-25-de-Abril? Onde-estavas-no-10-de-Julho? Fomos campeões, faltavam ainda quatro dias e tomámos a Bastilha! Liberdade-igualdade-fraternidade! 


Chupez! (esta li no Facebook) Campeõõõõõeeesss! Nação-valente-e-imortal, tudo selfizado e filmado, e buzinado, foi-bonita-a-festa-pá, o bem ganhou ao mal (assim o escrevi no FB na hora).

Olhemos para o mal, então.

2. Cristiano Ronaldo é um ícone global. É por isso que nesta semana todos os ecrãs de todos os continentes passam, e tornam a passar, a rude entrada de Dimitri Payet sobre o CR7.

As contas das redes sociais do número 8 francês estão inundadas de raiva. Esse fluxo de indignação vem de todo o lado. Até do Irão, admira-se a imprensa francesa. Payet é, agora, um vilão global.

3. Os aliados travaram a batalha da Normandia contra os nazis entre Junho e Agosto de 1944. O dia inicial da invasão, 6 de Junho, ficou conhecido pelo Dia D. A seguir, até à libertação de Paris, em 25 de Agosto, houve, dos dois lados, mais de seiscentos mil mortos.

Setenta e dois anos depois, o Reino Unido acaba de decidir, em referendo, o brexit. Foi uma decisão democrática e pacífica.

É assim a União Europeia que nos deu estas singulares sete décadas de paz e que é um farol de progresso, justiça social e decência no mundo. Infelizmente, está agora debaixo do fogo da vilania nacionalista de esquerda e de direita.

António Costa, se continuar a deixar como tem deixado o exclusivo da defesa da "Europa" e do euro à direita, além de atraiçoar a matriz europeísta do PS, condena-o a uma pesada derrota nas próximas legislativas.

domingo, 12 de junho de 2016

Trivelas

Lançamento de búzios hoje da TSF

Sua excelência o presidente da república professor doutor Marcelo Rebelo de Sousa está optimista e preocupado, umas vezes mais com o primeiro estado de alma, outras vezes mais com o segundo.

Sua excelência o primeiro-ministro doutor António Costa está hiper-optimista porque confia, tanto confia nos multiplicadores faralhados de Mário Centeno, como confia nas trivelas exactas do Quaresma.*

* Parágrafo reescrito às 14H00, acentuando a hiper-confiança hiper-optimista do PM