The branches shake, Jimmy, it rains in that trance; Tuxedo in the colonnades asks after your breakfast. A fire rises and falls in the house of Cadmus, light on your bare neck, your voice almost washed out in memory's reel. Rapt in that flood I heard the night away through Ovid, through mauve firs thrashing. Your voice like a bellrope dangles in sterile heat amid these unspooled metaphors. Today the dry sun annuls the slide into la terra trema, but through sweet parallax I watch you, sixteen, climb like Phaethon the too-large chariot, the pitcher's mound in Griffiths Stadium. A fire in the house of Cadmus, a fire, and hard rain in that trance. Tuxedo in the scullery, the nails of your thick fingers flash in the night-light. Still as a deer I smell you through the monogrammed cloth. The milk on your breath tarries the years. "Verbose and hard" the Times once wrote, and even now I stiffen, but strangely, as a battered word reforms, anagrammatic. A fire rises and falls, another trance but no rain any more, no mansion. Only the newsprint-brittle bacchanals of the sea. The sun depilates boughs and dries the cliffside veins of sediment and clay. Your Hesperidian form gone, still I imagine you poised on a cot dark-faced over your mother's Leaves of Grass: Cushion me soft, rock me in billowy drowse, dash me with amorous wet, I can repay you, awake, not noticing the roan morning or the locust calls on Iwo Jima.
* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 18 de Setembro de 2009 Na Hispânia, as coisas continuavam acesas entre os romanos e os lusitanos. Guerras, saques, fome, miséria. Roma desesperava. Faltavam ainda 150 anos para Jesus Cristo nascer quando o pretor Sérvio Sulpício Galba fez saber por toda a Lusitânia que iria distribuir terras novas e férteis. Juntaram trinta mil lusitanos em idade de pegar em armas e Galba, hábil tribuno, fez-lhes um discurso a anunciar leite e mel, jurando desejar respeitá-los e viver em paz com eles. A seguir, Galba dividiu os lusitanos em três grupos a pretexto de assim ser mais fácil a distribuição das terras. Depois, chegou-se ao primeiro grupo e pediu-lhes que entregassem as armas. «Entre amigos não há lugar para armas», disse. A seguir, encurralou-os numa cerca e mandou-os matar. Os lusitanos em vão lhe recordaram as juras de amizade e desesperaram daquela traição. Galba, implacável, fez também o mesmo ao segundo e ao terceiro grupo. Foram assassinados nove mil lusitanos, vinte mil foram vendidos como escravos e mil escaparam. Um dos que escapou foi Viriato que nunca mais se esqueceria ou perdoaria a desonrosa conduta de Galba. Viriato, a seguir, assumiu o comando da resistência dos lusitanos, instalando o seu refúgio no Monte de Vénus, actual Sierra de San Pedro, na província de Cáceres. Esta é a principal tese de “Lusitanos no Tempo de Viriato”, de João Luís Inês Vaz, livro escrito com excelente sentido da narrativa e que se lê de um fôlego. A pesquisa histórica de Inês Vaz desconecta Viriato de Viseu. É assim: enquanto Almeida Fernandes “põe” D. Afonso Henriques em Viseu, Inês Vaz “tira” Viriato de Viseu. Não me canso de repetir: não há nada mais instável que o passado.
Vermeer é um grande pintor da atenção. A sua pintura dá atenção a todos os 'esses' do mundo: ao silêncio, ao segredo, à solidão, à serenidade, à sedução, à sombra, ao sol, ao sublime, ao sensual, ao suspenso, ao suspiro, ao sussurro, ao sobressalto, ao sorriso, ao sossego, à sorte. Naqueles interiores holandeses, a voz da atenção canta a sua ária mais absorta e assombrada.
2. No último sábado, no lançamento do romance “A Revolução de António e Oriana”, de Joaquim Sarmento, houve intervenções de qualidade. Numa delas, José Mário Ferreira de Almeida, presidente da assembleia municipal, disse que via rostos de Lamego em quase todas as personagens do romance. Ao ouvir aquilo, pensei logo: «Pronto! O Sarmento está ainda mais ensarilhado que eu. Eu é só o Chico. Ele tem um romance cheio de criaturas a cirandarem e a fazerem cócegas aos lamecenses…» Sorri e esperei. Sábio, Joaquim Sarmento, na intervenção final, vincou bem vincado que as personagens do romance tinham saído em exclusivo da sua imaginação e do seu sonho. Portanto, aquelas personagens são só o que se espera que sejam: personhagens. 3. Setembro e Outubro são meses de eleições. Há que olhar para “o que se passa” e, infelizmente, “o que se passa” não anda bom de ver. Vemos partidos ricos num país pobre, partidos que vão gastar 13 milhões de euros nas legislativas e 78 milhões nas autárquicas. Ao todo 91 milhões de euros. “Ostentação pornográfica” chamou-lhe Henrique Monteiro, o director do Expresso. Já aqui o escrevi – as eleições legislativas e autárquicas deviam ser no mesmo dia. Poupava-se tempo e dinheiro. E evitava-se muita abstenção.
Inevitável a resignação às cordas Para não evocar os dedos ou sequer Os olhos. Mover o corpo, apenas o mínimo Necessário à intenção de tanger, Ao modo de gerir pequenas tensões Conexas, retidas para suster o som Interior necessário. Não os olhos ou O alcance da visão: a liberdade, outra Possibilidade de recolher alegria No ouvido, na parte côncava da própria Percepção. Não os dedos: o contentamento, Outra maneira de arrumar imagens vistas À transparência, movimento repetido Por dentro, pelo lado do que não é sombra.
A cassete emperrada após o azul sangrento do boulevard, falando de guitarras em celulóides e heróis no deserto e outras carícias passadas no comboio que te levava para LA. Novas feridas na tua alma, talvez dia e noite, neo-pop melodia ainda golpe na linha apagada e tímida. Chama-me ao rendez-vous no prédio de chamas pintadas e sexo no vão de escadas. E contudo, lamento o ego alienado do escancarado vampiro.
Oh! Love now or never.
* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 26 de Junho de 2009 1. Por causa da entrevista na SIC, José Sócrates foi acusado de ser um “lobo com pele de cordeiro” e de estar a “fazer teatro” depois do desastre das europeias em que, pela primeira vez numas eleições nacionais, o PS ficou abaixo de um milhão de votos.
Acabo de ver a entrevista na internet.
Não vi nela nada de muito diferente: o primeiro-ministro esteve na forma do costume e Ana Lourenço foi o habitual glaciar perguntador.
No seu decote, a jornalista tinha uma jóia triangular que captava toda a luz do estúdio que, de tão pouco iluminado, parecia um pub irlandês. Tudo ali era bruma do norte, nada ali era latino.
Sócrates bem tentou vitaminar a conversa. Não conseguiu.
“Rogério Casanova”, uma das estrelas da nossa blogosfera (pastoralportuguesa.blogspot.com), explicou o acontecido:
2. Gostei muito de ler “Juventude”, de Joseph Conrad, numa notável tradução de Bárbara Pinto Coelho (ed. Quasi).
Neste livro contam-se as aventuras de Marlow, jovem segundo-piloto de um cargueiro já muito gasto, a meter água, e que tem que levar uma carga de carvão a Banguecoque. Antes do barco desacostar, as ratazanas abandonaram o navio. Elas não quiseram fazer aquela viagem.
Depois do temporal das europeias, nota-se já uma mudança no fluxo mediático. Há já ratazanas a abandonarem o PS. Elas lá sabem... Mas Sócrates ainda pode calafetar o barco, substituir os muitos marinheiros incompetentes que tem, e chegar a bom porto.
* Hoje no Jornal do Centro Em Julho de 1985, Bernie Sanders, então presidente de uma câmara nos EUA, fez uma visita à Nicarágua a convite dos sandinistas, visita que agora está a ser usada contra ele no debate das primárias democratas que hão-de escolher o próximo adversário de Trump. Ora, a visita de Sanders naquele ano merece aplauso. Depois de terem derrubado a ditadura sanguinária de Somoza, os sandinistas de Daniel Ortega estavam no poder através de eleições justas e livres, tinham reduzido metade da mortalidade infantil e baixado o analfabetismo de 50 para 15%. Além disso, tinham devolvido ao controlo público 40% da riqueza do país roubada pela dinastia Somoza e seus apaniguados. Só que, quatro anos depois, os sandinistas, em risco de perderem as eleições, fizeram um golpe que ficou conhecido por “la piñata” (nome de um jogo em que os putos partem um pote para chegarem às gulodices). Foi mesmo isso: a cúpula sandinista sacou para si própria centenas de empresas públicas. Ficaram riquíssimos, a começar pelo seu líder. O sandinismo começou com preocupações com o povo mas transformou-se numa nódoa cleptocrática em que Daniel Ortega é o presidente e a mulher dele... vice-presidente. Se agora Sanders aceitasse um convite desta gente, merecia um banho de alcatrão e penas. O que aconteceu na Nicarágua é a regra não é a excepção. Uma elite que chega ao poder, normalmente, acaba a fazer o mesmo que a que substituiu. Daron Acemoglu e James A. Robinson, no seu obrigatório “Porque Falham as Nações”, explicam estes mecanismos. Uma nação pode prosperar se tiver instituições inclusivas, com elites que aceitem limites ao seu poder. Uma nação falha se, pelo contrário, tiver elites extractivas que não aceitam limites ao seu poder. A Angola de João Lourenço tem agora acesa a mesma luz de esperança que tinha a Nicarágua quando foi visitada por Sanders.
* Hoje no Jornal do Centro 1. Quando morre um artista importante, os media e as redes sociais ficam monotemáticos e entram em modo RIP (“requiescat in pace”, “rest in peace”, “riposi in pace”). Não há descanso nem paz enquanto não contarem tudo sobre o falecido e a transcendência da sua obra. Este RIPismo, feito por especialistas mais ou menos instantâneos, divide-se em dois grandes grupos: — o RIPismo que se foca nos feitos do génio que nos acabou de deixar e nos ajuda a compreender a sua obra; — o RIPismo em que o vivo usa o óbito como pretexto para falar de si próprio (o dia em que encontrou o falecido, ou jantou na mesa dele, ou teve uma epifania com um seu poema, …); este RIPismo narcísico qualquer dia começa a tirar selfies junto aos caixões e publica-as no Instagram.
2. O RIPismo desta semana foi sobre Agustina Bessa-Luís. Li textos muito bons sobre a romancista e o melhor deles foi de Rui Catalão que, no Facebook, lembrou que Agustina foi “a maior escritora de mão quente de todos os tempos: tudo o que dela conhecemos foi escrito ao primeiro rascunho, sem trabalho de edição nem reescrita”. Ela escrevia à mão, numa letra pequenina, ao “first take”, quase sem emendas nem rasuras. É claro que nenhuma obra é feita “à primeira”, Agustina não fazia rascunhos no papel, fazia-os dentro da sua cabeça. Aquilo que é o histórico de edições, as encruzilhadas narrativas, as hesitações, as personagens expulsas da história, as versões abandonadas, os esboços, aquilo a que Leibniz chamou «o grande mistério do que podia ter acontecido», tudo isso ficava-se pela cogitação interior de Agustina. 3. Paulo Ribeiro desistiu de tentar sacar em tribunal 53 mil euros ao Teatro Viriato por “despedimento ilícito” e o teatro municipal não vai pedir uma indemnização por aquele ataque ao seu bom nome. RIP! Este caso faleceu quando ainda era só um esquisso esquisito, um esboço, um rascunho. Se nunca tivesse saído da cabeça do coreógrafo teria sido muito melhor. Especialmente para ele.
* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 22 de Maio de 2009 1. Alegre decidiu ficar no PS, o que é bom para Sócrates mas ainda melhor para Louçã. Um partido alegrista fazia muito mais estragos eleitorais ao Bloco que ao PS. Foi importante Manuel Alegre ter lutado contra o autoritarismo e a insensatez marilurdista na educação. Teve a coragem que faltou ao rebanho de deputados do PS que também são professores. 2. Bob Geldof, em 12 de Maio, entrou em vídeo numa conferência de imprensa em Portugal. Foi uma incursão na política portuguesa que pode ser vista em www.gdaie.pt. Em causa está o seguinte: o parlamento europeu aprovou a extensão dos direitos de autor das gravações sonoras de 50 para 70 anos (nos Estados Unidos a protecção é de 95 anos). Essa directiva precisa de ser ainda aprovada no conselho da UE e o ministro da cultura português era um dos seis a bloqueá-la. Nesse notável vídeo, Bob Geldof lembra que falar da arte ou falar da alma de um país é a mesma coisa. Por isso, o músico irlandês termina o vídeo a “bombardear” o ministro José António Pinto Ribeiro: “Portugal precisa de apoiar os seus artistas, precisa de apoiar a sua cultura e, se não o fizer, deve livrar-se do seu ministro da cultura.” Não vai ser preciso. Cinco dias depois deste “raide irlandês”, o ministro mudou de ideias e Portugal, agora, já aceita o novo limite dos 70 anos.
3. Ouvi esta história numa entrevista a Miriam Gómez, viúva do premiado escritor cubano Guillermo Cabrera Infante. A ditadura castrista perseguiu o mais que pôde o autor de “Três Tristes Tigres” mas declarou-o “património nacional de Cuba”. Esse cinismo serviu para o poder cubano publicar sem autorização toda a sua obra e, ainda por cima, não pagar direitos de autor.
* Hoje no Jornal do Centro 1. Há uns dias, um amigo do Facebook escreveu um post melancólico intitulado “Polícia de Costumes” onde confessou que não ia repetir uma publicação de 2012 de um cartoon com “uma fantasia sexual comum entre homens e mulheres”. É que, há sete anos, aquela brincadeira teve muitos likes e “meia dúzia de comentários” bem-humorados, mas, se a republicasse agora, ia ter que perder tempo com as “cabeças púdicas e policiais que andam por aí a voar aos círculos”. É verdade: em poucos anos ficámos assim, a medir o que se pode dizer e o que não se pode dizer. As nossas sociedades estão mais crispadas, mais sectárias, mais puritanas, e o primeiro alvo dessa fúria intolerante é a liberdade de expressão em geral e o humor em particular.
Não é por acaso que a maioria do tráfego de haters no FB do Jornal do Centro acontece nos comentários às peças da sua página de paródia, o Centro Leaks - Tintol & Traçadinho. E essa censura não vem, como diz Nassim Nicholas Taleb, “do Estado em si” mas de “uma monocultura intelectual” imposta “por uma polícia do pensamento hiper-activa nos meios de comunicação social e na vida cultural.” Eu tenho chamado aqui “chuis da linguagem” à malta dessa “polícia do pensamento”, sempre a ver “discursos de ódio” em tudo, sempre a censurar tudo, até o capuchinho vermelho. E essa repressão é feita nos dois mundos em que nós agora habitamos: o mundo real e o mundo virtual. 2. Há um texto de Jesse Weaver, intitulado “Uma teoria unificada de tudo o que está errado na internet”, que descreve muito bem o conflito entre esses dois mundos e a forma como o nosso cérebro actua num e no outro. De facto, a nossa lua-de-mel com a internet acabou. O fascínio já lá vai. Agora é só problemas: fake-news, trolls, cyber-bullying, pop-ups chatos, viciação tecnológica e as malditas bolhas de filtro — os algoritmos que usam os históricos de navegação para darem às pessoas sempre coisas semelhantes, fechando-as nas suas certezas, até as tribalizar.
* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 12 de Dezembro de 2008
1. Há coisa de uns vinte anos, li Jangada de Pedra, de José Saramago. A jangada de pedra de que fala o livro é a Península Ibérica que se separa do resto da Europa e se põe a navegar no Oceano Atlântico para cima, para baixo e para os lados, acabando por rumar ao terceiro mundo.
Jangada de Pedra é um livro com muita imaginação mas, infelizmente, de escrita baça e ideologia repulsiva. Com provável prejuízo meu, mas devo confessar que nem a posterior nobelização de Saramago me fez ler mais nada dele.
2. Está em exibição o filme Ensaio Sobre a Cegueira, de Fernando Meirelles, baseado na novela homónima de José Saramago.
Ensaio Sobre a Cegueira é a mesma parábola que Jangada de Pedra. É Saramago a citar Saramago. Conta-nos que o homem, em condições limite, fica mau como as cobras.
O enredo é conhecido. De súbito, as pessoas começam a ficar cegas. Não há nenhum sintoma anterior ou explicação médica. Essa cegueira é infecciosa e contagia cada vez mais gente...
No desespero, as pessoas ficam lobas umas das outras e juntam-se em alcateias, enquanto os santos nas igrejas vendam os olhos (ou alguém lhos venda, o que dá no mesmo). Na luta pela sobrevivência, a dignidade humana vaporiza-se, e a vacilação moral torna-se uma arma de destruição maciça. No fim, até os que resistem justos e bons acabam por perceber que o poder é a ponta de uma arma.
Ensaio Sobre a Cegueira é um bom filme e a protagonista, a fabulosa Julianne Moore, tem um talento ainda mais lindo do que as suas sardas.
3. Uma velha anedota:
Duas cabras encontram um filme à porta de um estúdio de Hollywood e fazem da película o seu almoço.
SE NÃO SABE PORQUE É QUE PERGUNTA? JOÃO FIADEIRO e JOAQUIM ALEXANDRE RODRIGUES Se não sabe, porque é que pergunta? é uma frase que aparece no livro Silence, de John Cage onde ele relata uma conversa entre o pianista David Tudor e um aluno que faz um conjunto de perguntas insistentes. Após uma pausa, David Tudor responde “If you don’t know why do you ask?”. Esta frase foi ainda usada como título de um livro do pedopsiquiatra português João dos Santos, onde este transcreve um conjunto de conversas que manteve com crianças na sua prática clinica. Um pergunta que é acima de tudo uma provocação e uma afirmação de que nem sempre, para se aceder ao mundo e às suas manifestações, a resposta é a melhor conselheira. O mesmo acontece nas artes. O saber, sobretudo quando servido em modo de resposta pronta, mata a imaginação. A partir de um convite do Teatro Viriato, João Fiadeiro e Joaquim Alexandre Rodrigues conversam abertamente sobre a relação da dança (e da arte) contemporânea e o público.
* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 21 de Novembro de 2008 O eduquês é a desgraça da escola portuguesa. O eduquês fala uma língua de trapo a que chama “ciências da educação”. O eduquês é uma ideologia instalada há décadas no ministério da educação e na administração escolar. O eduquês acha que as meninas e os meninos só precisam de “aprender a aprender” e de “progredir” sem esforço. O eduquês é acientífico e, portanto, não se preocupa com conteúdos. Termos agora professores de alhos a avaliar professores de bugalhos não deve admirar ninguém. Faz parte do delírio do eduquês.
Há um livro de Nuno Crato que explica bem o que é o eduquês. Maria de Lurdes Rodrigues (MLR) é adepta ferrenha do eduquês. Desde que entrou para o governo, ainda não parou de tentar fazer das escolas um ATL facilitista. O facilitismo é uma traição às famílias, principalmente às mais pobres que não têm dinheiro para propinas privadas. Um balanço sereno e objectivo do consulado de MLR mostra claramente as escolas públicas a perder e os colégios privados a ganhar. Basta analisar os rankings. Basta ouvir o que dizem o Executivo e a Associação de Pais da melhor escola pública do país, a Escola Secundária Infanta Dona Maria de Coimbra. Em Novembro de 2006, na Livraria da Praça, Guilherme Valente fez uma previsão muito ajustada do que está a acontecer. O raciocínio prospectivo do editor da Gradiva foi o seguinte: (i) MLR não vai olhar a meios para obter resultados estatísticos cor-de-rosa; (ii) as pessoas vão perceber o truque; (iii) a imagem da escola pública vai bater no fundo; (iv) como resultado do desastre, vai surgir uma política séria para salvar a escola pública e fazer o funeral do eduquês. O país está atolado na fase iii. Falta passar depressa à fase iv.
* Hoje no Jornal do Centro 1. A detenção do presidente do turismo do Norte, Melchior Moreira, teve um estilhaço mediático que atingiu o presidente da câmara de Viseu. António Almeida Henriques (AAH) afirmou logo a sua disponibilidade para colaborar com os tribunais e assegurou aos viseenses que não deve nem teme. Não há movimentações da justiça que levem a pensar o contrário e ainda bem que assim é. Contudo, militantes do PSD-Viseu, em declarações a este jornal sob anonimato, já põem em causa a candidatura de AAH ao terceiro e último mandato. O autarca responde-lhes: «eu estou de pedra e cal.» No PS, João Paulo Rebelo e Rosa Monteiro, que sempre fizeram as suas contas para uma eventual candidatura à câmara de Viseu só em 2025, fazem figas para que não haja nenhuma antecipação de calendário. E oxalá que sim, oxalá que as nuvens sobre o município de Viseu se dissipem e AAH recupere energia para tratar da nova barragem. Precisamos de uma câmara de Viseu forte capaz de impedir que os boys socialistas da Águas de Portugal ou os capitalistas da Águas do Planalto nos imponham transvases e nos salguem as facturas mensais do precioso líquido.
Os presidentes das câmaras de Mangualde, de Penalva do Castelo e de Nelas inviabilizaram uma solução intermunicipal, com oito municípios, que nos resolvia a todos o problema sem interferências exteriores. Como não é crível que algum deles queira ser no futuro boy da Águas de Portugal, deixo aos três aqui um apelo: regressem às negociações, promovam uma solução nossa, pública, capaz de nos abastecer sem problemas nos próximos cinquenta anos. Ao trabalho? 2. Mal Graça Fonseca, a nova ministra da cultura, desafiou a Gulbenkian a recriar uma “biblioteca móvel adaptada ao século XXI”, logo alguém muito divertido no Facebook lembrou que tal já existe: chama-se internet. O que não existe é uma biblioteca online e de acesso gratuito a toda a nossa literatura sob domínio público. Cara ministra, ao trabalho?
A mim, a imagem dos meus pecados me comove muito mais que essa imagem do Cristo crucificado.
Diante dessa imagem do Cristo crucificado eu sou levado a ensoberbecer-me por ver o preço pelo qual Deus me comprou. Diante da imagem dos meus pecados é que eu me apequeno por ver o preço pelo qual eu me vendi.
Por ver que Deus me compra com todo o seu sangue, eu sou levado a pensar que eu sou muito, que eu valho muito. Mas quando noto que eu me vendo pelos nadas do mundo, aí eu vejo que eu sou nada.
* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 28 de Março de 2008
1. Conta José Cardoso Pires em “Lavagante”: o lavagante alimenta o safio “levando-lhe comida a todas as horas (…) a essa serpente estúpida de grandes sonos, vendo-a a engordar, engordar, até saber que a tem bloqueada, incapaz de sair do buraco porque o corpo cresceu de mais, enovelou-se, e não cabe na abertura por onde podia libertar-se. Nesse momento (…) o lavagante servil aparece à boca da toca do safio mas já não traz comida. Vem de garras afiadas devorar o grande prisioneiro que alimentou durante tanto tempo.” Se procurar bem ainda encontra nas livrarias a primeira edição deste livro. [Edições Nelson de Matos, Fevereiro de 2008] 2. Uma empresa de informática, a Chip7, lançou o seguinte slogan para promover a venda de um computador: “Se o Sporting ganhar a Taça UEFA… Devolvemos-lhe o dinheiro!!!” Não gostei nada desta ideia… Declaração de interesses: sou do Sporting. Ser do Sporting dá uma grande resistência psicológica: o Sporting sabe ganhar, sabe empatar e sabe perder. Só não sabe é marcar penáltis. Há uns tempos, o Inimigo Público explicou tudo: quando o árbitro assinala um penálti a favor do Sporting isso é uma reles cabala, é um truque para instabilizar o leão. Já se sabe e o árbitro é o primeiro a sabê-lo: qualquer que seja o jogador sportinguista escolhido, ele falha o penálti, fica amarfanhado psicologicamente e nas semanas seguintes não joga nada de jeito. Quando chegaram os penáltis, no passado sábado, na final da Taça da Liga, ninguém se admirou com o colapso dos leões. Apesar de tudo, penso que a Chip7 vai ter um desgosto e o Sporting vai ganhar a Taça UEFA. Não vai acontecer nenhum penálti mal intencionado a nosso favor. Nem todos os árbitros são como os portugueses…
Escrevo este Olho de Gato na tarde de terça-feira de carnaval. Está um griso áspero que põe roxas as peles à mostra dos nossos carnavais. Em Lazarim, no momento em que teclo estas palavras, os compadres estão a “divulgar” as “fressureirices” das comadres e estas as “paneleirices” deles.
Fotografia Olho de Gato 2008
Se não forem estas designações, que já lá ouvi, serão outras parecidas. É que os chuis da linguagem ainda não entram naquele genuíno e libérrimo entrudo. Mas vão querer entrar. E quem defende a liberdade de expressão vai ter que os parar. Nos três dias de carnaval. E nos restantes 362. Não há dia em que não se saiba de mais um caso de censura. Ou são uns “ofendidinhos da silva” que se sentem “agredidos” por um quadro num museu, ou é um livro que “estereotipa” e é subtraído do mercado ou tirado dos programas escolares. Acaba de acontecer isso a “Aventuras de Huckleberry Finn” num distrito escolar do Minnesota. Os alunos vão deixar de estudar o livro de Mark Twain porque, apesar de ser um livro anti-racista, os censores acham que, como repete várias vezes a palavra “nigger”, os alunos podem sentir-se “humilhados e marginalizados”. Estamos nisto: agora lêem-se e julgam-se os clássicos à luz das vivências contemporâneas. Nuns rascunhos de há quarenta anos, Woody Allen riscou idades de personagens femininas na casa dos vinte e escreveu por cima nuns casos dezassete, noutros dezoito anos. A partir desses esboços amarelecidos pelo tempo, arquivados na Universidade de Princeton, justiceiros à procura de cinco minutos de fama concluem que o realizador tem “uma obsessão vívida por mulheres jovens e raparigas”. Raparigas de dezassete anos. Desvergonhado. Merece fogueira. Há que pôr as obras dele no “index filmorum proibitorum”. Todas. Não esquecer de queimar todas as cópias de “Annie Hall” ou do sublime “Stardust Memories”. O politicamente correcto está a pôr uma burca na liberdade de expressão. Há que lhe resistir. Sem medo.