Mostrar mensagens com a etiqueta Redes Sociais. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Redes Sociais. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Equidade e desigualdade*

* Hoje no Jornal do Centro


1. O PCP e o Bloco fizeram-se de mortos durante a recente greve dos motoristas de matérias perigosas. Até mesmo depois de serem conhecidos os horários desumanos que são impostos àqueles trabalhadores.



Esta inacção perante esta luta não deve surpreender ninguém. As esquerdas, nas democracias liberais do ocidente, ainda vão entregando alguns resultados aos trabalhadores do sector público, mas já não fazem nada que se veja pelos jovens à procura do primeiro emprego, pelos precários, pelos trabalhadores do sector privado.

Durante a greve, publiquei nas redes sociais uma reflexão sobre este problema estrutural. Partilho-a também aqui no ponto seguinte.

2. O Bloco de Esquerda já se sabia que é para defender as causas identitárias da classe média urbana, cosmopolita e que trabalha no Estado.

O PCP é que era suposto defender quem recebe 630 euros de salário-base e que, para levar 1200 euros para casa, tem que trabalhar 60/65 horas, quase o dobro do horário da função pública.

Julgava-se que o Bloco, inchado de identitarismos, era pela equidade, e o PCP, orgulhoso da sua tradição operária, era pela igualdade.

Como descreveu Guy Standing, em “O Precariado - A Nova Classe Perigosa”, “uma característica da perda de dinamismo da agenda social-democrata (...) foi que a ênfase colocada na igualdade se deslocou para a equidade social. A redução da discriminação e das diferenças salariais com base no género tornaram-se objectivos prioritários, enquanto a redução das desigualdades estruturais foi remetida para segundo plano.”

Em suma, já se sabia que o Bloco de Esquerda é uma espécie de PS fashion, mas ainda se julgava que o PCP era o partido dos que sofrem, dos colarinhos azuis, dos descamisados.

Esta greve dos motoristas de matérias perigosas veio mostrar que afinal já nem o PCP serve para defender os trabalhadores do sector privado, os mais explorados deste país.

Estes, quando surgirem populismos à direita, vão votar neles. Vai ser feio de ver.

sexta-feira, 7 de junho de 2019

RIPismos e rascunhos*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Quando morre um artista importante, os media e as redes sociais ficam monotemáticos e entram em modo RIP (“requiescat in pace”, “rest in peace”, “riposi in pace”). Não há descanso nem paz enquanto não contarem tudo sobre o falecido e a transcendência da sua obra.

Este RIPismo, feito por especialistas mais ou menos instantâneos, divide-se em dois grandes grupos:

— o RIPismo que se foca nos feitos do génio que nos acabou de deixar e nos ajuda a compreender a sua obra;

— o RIPismo em que o vivo usa o óbito como pretexto para falar de si próprio (o dia em que encontrou o falecido, ou jantou na mesa dele, ou teve uma epifania com um seu poema, …); este RIPismo narcísico qualquer dia começa a tirar selfies junto aos caixões e publica-as no Instagram.


Fotografia de Alfredo Cunha — Daqui
2. O RIPismo desta semana foi sobre Agustina Bessa-Luís.

Li textos muito bons sobre a romancista e o melhor deles foi de Rui Catalão que, no Facebook, lembrou que Agustina foi “a maior escritora de mão quente de todos os tempos: tudo o que dela conhecemos foi escrito ao primeiro rascunho, sem trabalho de edição nem reescrita”. Ela escrevia à mão, numa letra pequenina, ao “first take”, quase sem emendas nem rasuras.

É claro que nenhuma obra é feita “à primeira”, Agustina não fazia rascunhos no papel, fazia-os dentro da sua cabeça.

Aquilo que é o histórico de edições, as encruzilhadas narrativas, as hesitações, as personagens expulsas da história, as versões abandonadas, os esboços, aquilo a que Leibniz chamou «o grande mistério do que podia ter acontecido», tudo isso ficava-se pela cogitação interior de Agustina.

3. Paulo Ribeiro desistiu de tentar sacar em tribunal 53 mil euros ao Teatro Viriato por “despedimento ilícito” e o teatro municipal não vai pedir uma indemnização por aquele ataque ao seu bom nome.

RIP! Este caso faleceu quando ainda era só um esquisso esquisito, um esboço, um rascunho. Se nunca tivesse saído da cabeça do coreógrafo teria sido muito melhor. Especialmente para ele.

sexta-feira, 26 de abril de 2019

A paisagem*

* Hoje no Jornal do Centro


1. No último Olho de Gato, descrevi que a nossa relação com a internet agora é, como se diz no Facebook, complicada. Isso está a mudar-nos pessoal e colectivamente.

A esperança acendida com a primavera árabe, à excepção da Tunísia, virou pesadelo. As novas formas de participação democrática online ou falharam ou ficaram-se pelos orçamentos participativos da treta com que se entretêm os nossos autarcas e os jotinhas.

Este desencanto das pessoas é uma alegria para os estados. Os governos sempre quiseram controlar a internet e agora, perante o faroeste em que ela se tornou, aproveitam.

No domingo de Páscoa, logo depois dos atentados no Sri Lanka, o governo desligou as redes sociais. Foi só mais um episódio de uma tendência que vai aumentar.


2. Portugal é Lisboa, o resto é paisagem. Todos os governos sem excepção têm sido centralistas, mas o actual abusa.

No dia 1 de Setembro, estava ainda a ser cozinhado o orçamento de estado nos bastidores, já Fernando Medina anunciava 60 milhões de euros para passes fofinhos para os alfacinhas. Depois, perante o clamor do resto do país, o governo lá arranjou mais umas dezenas de milhões de euros para diluir na paisagem.


Posto Galp, Praça Carlos Lopes, Viseu, 17 de Abril
Fotografia Olho de Gato
Agora, no dia 16 de Abril, como havia o risco de a greve dos motoristas secar os postos de combustível, a Resolução do Conselho de Ministros n.º 69-A/2019 prescreveu os seguintes serviços mínimos: “abastecimento de combustíveis aos postos de abastecimento da grande Lisboa e do grande Porto, tendo por referência 40% das operações asseguradas em dias em que não haja greve.”

Foi mesmo em letra de lei. Para o governo, a paisagem que ande a pé. Ou de burro.

Há aqui um padrão que o comportamentalista Ivan Petrovich Pavlov descreveu em laboratório em 1920: quem tem o verdadeiro poder na geringonça, como poliu durante muitos anos as cadeiras da câmara de Lisboa, como casou entre si, como se foi empregando mutuamente, tem um reflexo condicionado — saliva sempre primeiro por Lisboa.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

A lua-de-mel acabou*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Há uns dias, um amigo do Facebook escreveu um post melancólico intitulado “Polícia de Costumes” onde confessou que não ia repetir uma publicação de 2012 de um cartoon com “uma fantasia sexual comum entre homens e mulheres”. É que, há sete anos, aquela brincadeira teve muitos likes e “meia dúzia de comentários” bem-humorados, mas, se a republicasse agora, ia ter que perder tempo com as “cabeças púdicas e policiais que andam por aí a voar aos círculos”.

É verdade: em poucos anos ficámos assim, a medir o que se pode dizer e o que não se pode dizer. As nossas sociedades estão mais crispadas, mais sectárias, mais puritanas, e o primeiro alvo dessa fúria intolerante é a liberdade de expressão em geral e o humor em particular.

Imagem daqui
Não é por acaso que a maioria do tráfego de haters no FB do Jornal do Centro acontece nos comentários às peças da sua página de paródia, o Centro Leaks - Tintol & Traçadinho.

E essa censura não vem, como diz Nassim Nicholas Taleb, “do Estado em si” mas de “uma monocultura intelectual” imposta “por uma polícia do pensamento hiper-activa nos meios de comunicação social e na vida cultural.”

Eu tenho chamado aqui “chuis da linguagem” à malta dessa “polícia do pensamento”, sempre a ver “discursos de ódio” em tudo, sempre a censurar tudo, até o capuchinho vermelho. E essa repressão é feita nos dois mundos em que nós agora habitamos: o mundo real e o mundo virtual.

2. Há um texto de Jesse Weaver, intitulado “Uma teoria unificada de tudo o que está errado na internet”, que descreve muito bem o conflito entre esses dois mundos e a forma como o nosso cérebro actua num e no outro.

De facto, a nossa lua-de-mel com a internet acabou. O fascínio já lá vai. Agora é só problemas: fake-news, trolls, cyber-bullying, pop-ups chatos, viciação tecnológica e as malditas bolhas de filtro — os algoritmos que usam os históricos de navegação para darem às pessoas sempre coisas semelhantes, fechando-as nas suas certezas, até as tribalizar.

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Obesidade do espírito*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Há uns anos, o Guardian publicou um artigo de Rolf Dobelli intitulado “As notícias são más para si e desistir de as ler vai fazê-lo mais feliz”. Nele, Dobelli afirma que o bombardeio incessante de factóides provenientes dos media e das redes sociais faz ao nosso espírito o que a fast-food faz ao nosso corpo — causa-lhe obesidade.

As “notícias” viciam e fecham-nos num presente que não sai do sítio. O último caso substitui o penúltimo, este, o antepenúltimo. Nunca pára esta máquina de amnésia: a detenção de Bruno Carvalho fez esquecer as passwords e as virgens ofendidas do parlamento, que, por sua vez, já nos tinham apagado a epístola cinegética do poeta Alegre, que, por sua vez, já nos tinha desacertado da cor das unhas de Isabel Moreira, que, por sua vez, nos arquivara o prof poliamoroso e desbeijante dos avós, que, por sua vez...

Este contínuo coabitar com o irrelevante, além de nos enclausurar no presente, causa-nos auto-ilusão. As pessoas julgam-se informadas e, na verdade, cada vez sabem menos do que se passa.

Há truques para tentar evitar ou diminuir essa obesidade do espírito. Sempre que possível, há que desligar do fluxo (dieta do espírito), preferir textos longos e reflexivos (exercício à mente) e alargar o presente tanto para trás (usando a memória) como para a frente (usando a capacidade de previsão).


Manuel Francisco completou 82 anos no dia em que foi capa do jornal Público,
numa fotografia-ícone de Adriano Miranda
"Metafotografia" Olho de Gato

2.
Entra-se num túnel escuro, crepita restolho no chão, de um lado e do outro, nas paredes negras, “ardem” fotografias. Acabámos de imergir na tragédia dos incêndios de 15 e 16 de Outubro de 2017. Estamos na exposição “Dever de Memória”, de Adriano Miranda e Nuno André Ferreira, exposição notável que não deixa esquecer os dias mais negros da história da região.

A não perder. Na Quinta da Cruz, em Viseu, até 15 de Dezembro. As fotografias, todas excepcionais, todas reproduzidas num livro cuja receita da venda reverte para os bombeiros, levam-nos do negrume à esperança.

sexta-feira, 15 de junho de 2018

Atenção*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Quando alguém se foca em algo exterior a si, esse alguém está a aprender. Para aprender é imperativo prestar atenção e tudo indica que a atenção das pessoas é uma matéria-prima em declínio. Há cada vez mais gente a falar e, quanto mais falam os falantes, menos ouvem os ouvintes. E quanto mais falantes há, menos ouvintes há disponíveis.

Os professores sabem bem isso e tratam de, ao mesmo tempo que dão a matéria, manter debaixo de olho os alunos. Eles sabem que é cada vez mais difícil manter os alunos atentos, mesmo na ecologia ideal de uma sala de aulas em que os papéis e os tempos para os vários emissores e receptores estão bem definidos. Vamos lá ver se conseguem recuperar os 9A 4M 2D que a geringonça lhes quer roubar.

Fora das escolas o panorama é pior. Há para aí cada vez mais gente a falar sozinha sem dar conta disso. Muitos dos que dão conta, em desespero por audiências, até fazem o pino em posts no Facebook.

Já o devo ter dito aqui mas repito-o: como a atenção é cada vez mais rara, ela ainda vai ser paga. E, como sempre, quando isso acontecer, os ricos vão receber mais do que os pobres.


Fotografia de Lacie Slezak

2. A professora N. Katherine Hayles identificou dois tipos de atenção:

— a “atenção profunda”, que se concentra num só objecto durante um longo período de tempo, é capaz de ignorar estímulos externos e perseverar em objectivos de longo prazo, como por exemplo na leitura de um livro;

— a “hiperatenção”, sempre “a mudar de foco entre várias tarefas”, a fazer zapping, prefere “fluxos múltiplos de informação”, procura “um nível elevado de estimulação e tem uma tolerância baixa” à seca, ao chato.

É claro que umas vezes funcionamos em “atenção profunda”, outras vezes em “hiperatenção”, e que ambos “estilos cognitivos” têm vantagens e têm inconvenientes. Mas não é arriscado afirmar que a primeira maneira de conhecer o mundo está a perder terreno para a segunda e que essa perda é maior nas novas gerações.

sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

#MeToo*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Num programa do Canal+ francês, um dos animadores, Laurent Bafie, na brincadeira, levantou um pouco a saia de Nowellnn Leroy e repetiu a graça resvalando a mão no joelho dela. A cantora riu-se muito, pegou-lhe na mão, disse que eram amigos há muito tempo e elogiou-o. De nada valeu. As redes sociais chamaram-no de tudo: «machista», «grande porco», «misógino», «grosseiro», por aí fora.

O actor Adam Sandler pôs a mão no joelho de Claire Foy numa entrevista na BBC. 
Daqui
A actriz emitiu um comunicado a dizer que não se sentiu nada ofendida. De nada valeu. Adam foi chamado de tudo nas redes sociais que, como se sabe, estão sempre a arder com uma indignação qualquer.

Só mais um caso. Em 2002, o político britânico Michael Fallon pôs a mão no joelho da jornalista Julia Hartley-Brewer. Esta mandou-o parar e ele parou. A seguir, pediu desculpas pelo incidente e reconheceu publicamente numa conferência que “tinha ultrapassado as marcas”. Só que agora, quinze anos depois, na sequência do movimento #MeToo, o caso borbulhou outra vez, e ele acabou por se demitir de ministro da defesa. A própria dona do joelho achou “doida” aquela demissão.

2. Tantos casos com joelhos fizeram-me lembrar o filme “O Joelho de Claire”, um dos seis contos morais de Eric Rohmer. A ligação é óbvia e deve ter ocorrido a muitos milhares de pessoas por esse mundo fora. Por exemplo, Paulo Almeida Sande já deu também este salto cinéfilo no Observador.

Vi esta obra-prima da nouvelle vague há mais de trinta anos numa sessão do Cine Clube de Viseu, ainda faltava muito para chegarmos ao neo-puritanismo hipócrita que estamos a viver agora. O protagonista do filme, um diplomata trintão chamado Jerome, passa umas férias fixado no joelho de Claire. Todo o filme é construído à volta dessa obsessão.

Ora, no velho Auditório da Feira de S. Mateus, quando Jerome, finalmente, pôs a mão no joelho de Claire, uma boa parte da assistência pôs-se a bater palmas de aplauso. Eu também.

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

FB*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


O Facebook foi criado em 2004 e atingiu o seu primeiro milhar de milhão de utilizadores em 2012, com 55% deles a usarem-no diariamente. E ainda não parou de crescer: agora já há mais de dois milhares de milhões de “feicebuqueiros” e 66% deles vão lá todos os dias.

Nenhum invento, nenhuma realização, nenhuma ideia, nada teve uma propagação tão rápida e avassaladora na história da humanidade como esta rede social.

O FB é um grande negócio que, depois de alguns anos em afinações, se tornou uma máquina de fazer dinheiro. Os lucros depois de impostos têm aumentado brutalmente: 2,9 mil milhões de dólares em 2014; 3,7 em 2015; 10,2 em 2016; e as projecções para 2017 apontam para um lucro líquido acima dos 16 mil milhões de dólares. Nos últimos três anos, os lucros mais que quadriplicaram.

Mas, ao fim e ao cabo, que raio de produto vende o FB? A resposta é curta e grossa e está logo no título de uma longa recensão de John Lancaster no London Review of Books: “You Are The Product”. É mesmo isso: nós somos o produto do FB, Mark Zuckerberg vende-nos aos anunciantes.

E, há uns anos, o New York Times fez as contas. A rede social ainda só tinha metade dos utilizadores que tem agora e, por dia, já lá eram gastos 39757 anos colectivos de trabalho à borla. É informação fornecida por nós que, depois de devidamente tratada pelos algoritmos da rede social, serve para vender aos anunciantes em publicidade personalizada.

Mark Zuckerberg
Ao FB não interessa nada o conteúdo, se se trata de vídeos de gatinhos, memes com corações a sangrar ou notícias falsas. Ele limita-se a fazer o perfil de cada utilizador a partir da sua actividade na rede e a definir o público-alvo para cada anúncio.

Zuckerberg, no início deste ano, disse que ia tentar proteger o FB do “abuso, do ódio e da interferência dos estados” para que o tempo gasto nele “seja bem gasto.”

Ele tem esse poder. Mas será que tem mesmo vontade de perturbar a actividade poedeira desta galinha de ovos de ouro?

terça-feira, 14 de novembro de 2017

Não aos trolls!

Peer Gynt na Gruta do Rei da Montanha
Aguarela de Theodor Kittelsen (1913)


Eles entram juntos no salão do rei da montanha. 
Este promete converter Peer num “troll” se ele casar com a sua filha. 

Ele não aceita e tenta fugir, mas os "trolls" não o permitem...





sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Quem anda à chuva...*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Quem anda à chuva, molha-se... e choveu um pouquito logo a seguir à tragédia de 15 de Outubro, não deu para ninguém se molhar, mas deu para limpar a atmosfera da fuligem, e, segundo o ministro do ambiente, deu para duas horas de consumo de água da cidade de Viseu.
Fotografia olho de Gato

2. Quem anda à chuva, molha-se... e eu molhei-me fortemente quando, em Fevereiro de 2014, decidi criticar uma campanha da Águas de Viseu, em que António Almeida Henriques fez chover cartazes por todo o concelho de Viseu.

Perguntei eu:
“Multiplicados pelo território, dezanove cartazes diferentes, vinte e um simpáticos modelos, todos caucasianos, todos vestidos de branco, todos com letras a branco que dizem: Viseu é de primeira água.
Esta alva campanha publicitária, que foi exsudada pela câmara de Viseu, serve exactamente para quê?”

Por causa disto, trovejou nas redes sociais. Fui chamado de vários nomes por variegada gente, mas, clarinho como a tal “primeira água”, o facto é que ninguém conseguiu explicar para que serviu aquele derramamento de outdoors.


3. Quem anda à chuva, molha-se... e os setenta e cinco mil consumidores do concelho de Viseu agora, para se molharem, deixam uma pegada ecológica do tamanho de vinte e sete camiões-cisterna a gastarem diesel para-cá-e-para-lá, sem parança, a trazerem água de Lamego e de Tondela para os depósitos do Viso Norte.

Uma seca esta seca. Foi uma pena António Almeida Henriques ter aberto a torneira dos euros naquela inutilidade publicitária no chuvoso inverno de 2014. Foi uma pena muito maior o presidente da câmara de Viseu, neste desgraçado ano de 2017, não ter feito, em tempo útil, uma campanha de igual impacto a apelar aos viseenses para pouparem água.

4. Quem anda à chuva, molha-se... oxalá o leitor tenha essa oportunidade quando esta crónica lhe chegar às mãos. No dia em que a escrevo, a seca continua. Apesar das orações do cardeal patriarca.

sexta-feira, 17 de março de 2017

Tempos amáveis*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. A prensa tipográfica com caracteres móveis foi inventada por Gutenberg em 1445 e em poucas décadas espalhou-se pela Europa.

No poderoso império otomano é que aquela modernice não entrou. Em 1485, o sultão Bayezid II proibiu a impressão, proibição só levantada em 1727 quando Ahmed III autorizou Ibrahim Müteferrika a montar uma prensa, mas tudo sujeito ao assentimento prévio de três estudiosos da religião, os cádis. A família Müteferrika, em setenta anos, só foi autorizada a imprimir vinte e quatro livros e acabou por desistir do negócio.

O medo das elites de que o saber e o novo possam pôr em causa o seu poder sempre foi uma desgraça para os povos. Tayyip Erdoğan não tem feito menos mal ao conhecimento turco do que fizeram os sultões otomanos. Desde 15 de Julho, o autocrata já fechou mais de duas mil escolas e universidades, demitiu 7316 académicos, fechou 149 órgãos de comunicação social e prendeu 162 jornalistas.

Erdoğan tentou fazer comícios na Holanda. Com isso, o “sultão” turco quis beneficiar o islamófobo e putinista Geert Wilders. A ajuizar pelas sondagens, pode ter-lhe saído o tiro pela culatra. Oxalá!

2. Vivem-se tempos amáveis e distendidos no Portugal político. Até a crispação dos rebanhos partidários nas redes sociais anda mais branda.

A geringonça lá vai cumprindo com brio o seu “não-há-vida-para-além-do-défice”. Depois de, em 2009 e 2010, termos tido dois buracos sucessivos de uns loucos vinte mil milhões de euros, o país tem vindo a diminuir o défice público ano após ano. Em 2016, ficou abaixo dos quatro mil milhões de euros. Há que continuar este esforço.

A seguir ao “para-além-da-troika” de Passos, temos agora o “para-além-do-tratado-orçamental” de Costa. 


Daqui
O sr. Moscovici e o sr. Dijsselbloem estão contentes com as cativações de António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. E assistem, com bonomia, à retórica anti-europeia, para consumo interno, das lideranças bloquistas e comunistas .

sábado, 21 de janeiro de 2017

Ciumeiras



Ele: «Tu tens o teu Facebook cheio de gajos...»
Ela: «E tu tens o teu Facebook cheio de gajas...»
















sexta-feira, 2 de dezembro de 2016

Idadismo*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Edviges Antunes Ferreira, presidente da Associação de Professores de Português, acaba de ter os seus cinco minutos de fama, ao declarar à Lusa que aceitava uma “revisão ligeira” (sic) do Acordo Ortográfico.

A stora avisa logo que não quer o regresso das consoantes mudas porque, para os alunos, “é muito mais simples escrever conforme falamos do que estarem a perceber ou a decorar, principalmente depois de ter abolido e estar a escrever de uma determinada forma, estar a voltar atrás” (sic). Tentemos perceber esta ideia enrodilhada — a stora quer que os alunos espetem “espetadores” nas frases porque agora seria difícil a eles, que são novos, “voltar atrás”.

Logo a seguir, Edviges derrama: “o nível etário das pessoas é bastante elevado, em média, o que significa que há sempre aquelas vozes, que são os ‘Velhos do Restelo’, que tudo que seja mudança, não a vêem com bons olhos” (sic). Esta “sociologia” da stora tem também, infelizmente, problemas de gramática e de lógica. Tentemos desnevoar a coisa: a mulher acha que os velhadas são mais que muitos e uns imobilistas.

Conclusão: os novos “veem com bons olhos” o espetanço de “espetadores” ou o lúbrico “arquitetas” nas frases, porque foi assim que os acordistas os ensinaram, e eles não podem mudar; já os “velhos do Restelo” que “vÊem com bons olhos” espeCtadores e arquiteCtas nas frases, porque foi assim que lhes ensinaram, são uns atrasos de vida.

2. “Velho-do-Restelo” e “peste-grisalha” são anátemas etários muito usados.


Daqui
É conhecido o infame caso do deputado Carlos Peixoto, do PSD, que chamou “peste grisalha” aos reformados e, depois, exigiu uma indemnização em tribunal por ter sido criticado por isso num jornal.

Já “idadista” é coisa nova. Durante a discussão do orçamento, quem se atreveu nas redes sociais a criticar Mariana Mortágua, para além do trivial carimbo de “machista”, levou também com o de “idadista”.

“Idadismo” equivale, em bloquês, ao direitolas “peste grisalha”.

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Política da pós-verdade*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


Fotografia de Scott Olson
1. As presidenciais norte-americanas são uma duríssima maratona de mais de um ano e as suas campanhas costumam ter processos inovadores, exportados depois para todo o mundo. O “sim, nós podemos” de Obama foi repetido até à náusea, em todas as latitudes e longitudes.

Nesta campanha foi ao contrário, Trump importou de Moscovo os métodos de guerrilha política não-linear de Vadislav Surkov e cilindrou o establishment republicano nas primárias. Depois conseguiu manter Hillary na defensiva e deixou atarantado o poder mediático.

Pela primeira vez nos EUA um candidato de topo esteve-se nas tintas para a comunicação social, os jornalistas foram directamente hostilizados nos seus comícios, e nem por isso a avalanche noticiosa contra a sua candidatura danificou Trump nas sondagens ou fez diminuir o seu rebanho de fiéis.

Trump defendeu ora branco ora preto, ora quente ora frio, ora alto ora baixo, mentiu com toda a tranquilidade do mundo, indiferente à “verificação-de-factos” dos media tradicionais.

Bem-vindos à política da pós-verdade!**

2. A guerra política agora é travada na internet por trolls” (pagos ou não) que desinformam, rebaixam os adversários, publicam notícias falsas, fazem “memes” letais, material que depois é partilhado nas cada vez mais tribalizadas redes sociais.

Basta ver a guerra no Facebook dos dois rebanhos — geringôncicos versus caranguejolos — para perceber que o que faz mexer as pessoas agora é tudo menos a verdade ou a troca racional de argumentos ou a procura de uma descrição ajustada da realidade. Uma maré de bílis leva tudo à frente.

Há quem ganhe muito dinheiro com a política da pós-verdade. Mesmo em Portugal. Entre 2005 e 2015, o autor do blogue socratista Câmara Corporativa recebeu 426 mil euros (3550 euros por mês).

---------
Adenda em 18/11/2016
Na semana seguinte à publicação deste texto,  os dicionários Oxford nomearam "post-truth" como palavra do ano.

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Mordaça*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Eduardo Diaz Coello, morador em Güímar - Tenerife, entrou no Facebook do seu município...

Imagem daqui

... e chamou à polícia local “casta de escaqueados, bien acomodados” (“casta de folgados”, traduziu o jornal Folha de S. Paulo). Horas depois, ele recebeu em casa uma denúncia “por falta de respeito e consideração”. Multa: de 100 a 600 euros.

Eduardo foi a primeira vítima da “Ley de Protección de la Seguridad Ciudadana”, conhecida por "Ley Mordaza", aprovada pelo PP de Rajoy contra a opinião de todos os outros partidos.

Esta lei proíbe manifestações junto ao Congresso e ao Senado, fotografar ou filmar polícias, “alterar gravemente a paz pública” através da internet (seja lá o que isso for), proíbe organizar protestos ou convocar manifestações online, mais alguns actos sejam eles na rede ou não... As multas, de 100 a 600 mil euros, são administrativas sem intervenção judicial.

É uma lei iníqua e desprezível. Um só exemplo: quantas vezes é que imagens de “jornalismo cidadão” permitiram punir ou corrigir violência policial abusiva? Uma coisa é certa: os espanhóis vão acabar com esta mordaça.

2. Pedro Magalhães e Luís de Sousa, num ensaio intitulado “Qualidade da Democracia”, explicam que o enfraquecimento simultâneo do ideal europeu, da classe média e do estado social criou um vazio que está a ser preenchido por formas iliberais de governo.

Agora, a esfera pública é feita de clivagens entre um «nós» e um «eles», sendo este «eles» o que der mais jeito: os “funcionários” no tempo do barrosismo, os “professores” no socratismo, os “alemães” no syrizismo luso, os “grisalhos” no dizer sem cabeça de um cabeça-de-lista do PàF.

Esta “construção do inimigo” (expressão de Umberto Eco) é levada ao extremo nas “democracias populistas”, à moda da Hungria ou da Grécia, em que a maioria arrasa tudo. São políticas avessas ao compromisso e ao consenso, valores primeiros das sociedades liberais e os valores com que se fez a “Europa”.

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Um pau ao gato*

*Texto publicado hoje no Jornal do Centro


As redes sociais estão sempre à-beira-de-um-ataque-de-nervos, com o pessoal indignado a “malhar” em alguém.


O alvo preferido do nosso Facebook é Isabel Jonet, do Banco Alimentar. 

Ela na logística da comida é boa, mas nas televisões é uma desgraça. É razoável pensar que é melhor assim que ao contrário. Mas ai de quem a defenda no Facebook.

Agora, como toda a gente está a falar com toda a gente sobre toda a gente, acontecem cada vez mais “acidentes reputacionais”. Nenhuma pessoa, empresa, produto ou serviço está livre de um. É verdade que o “formigueiro” cruel das redes, passados poucos dias, arranja outro alvo, mas os estragos ficam nas vítimas.

Um problema de física, num manual do 9º ano, que falava em atirar um gato de uma varanda, pôs as redes no seu costume, isto é, a ferver de indignação. Os autores foram chamados de tudo. Um título sobre o caso no blogue Aventar: “Quando os animais escrevem manuais”.

As pessoas que aprenderam no jardim infantil a cantar o «atirei um pau ao gato» agora não aceitam sequer um "supônhamos" num livro de física. Touradas e casacos de peles, por exemplo, são percepcionados como coisa bárbara por cada vez mais pessoas e isso é bom.

Como ensinou o pioneiro dos direitos dos animais Peter Singer, “a dor é má e quantidades similares de dor são igualmente más, seja quem for aquele que sofre” e “os seres humanos não são os únicos seres capazes de sentir dor.”

Peter Singer, quando começou nos anos 70 do século passado a distribuir folhetos no centro de Londres para melhorar a qualidade de vida dos animais, era olhado como um extra-terrestre. Quarenta anos depois o bem-estar animal é um adquirido civilizacional que vê com maus olhos, até, animais nos circos.

Esta última indignação do Facebook sobre o problema de física que “atirava” um gato abaixo de uma varanda quererá dizer que, no próximo parlamento, vamos ter um deputado do PAN — Partido pelos Animais e pela Natureza?

segunda-feira, 11 de maio de 2015

Há três anos, Seguro ainda não sabia mas não era difícil de adivinhar



Já os tiros no pé depois da remoção de Seguro não eram tão fáceis de adivinhar.

1 — António Costa, em vez de fazer um balanço do que correu bem e do que correu mal durante o autoritarismo negocista socrático, decidiu iniciar uma reabilitação de José Sócrates que, se não tivesse sido interrompida pela prisão do ex-primeiro-ministro, teria acabado com este candidato a Belém;  

2 — A seguir, António Costa desrespeitou o tradicional europeísmo do PS e colou-se à política de ressentimento nacionalista do Syriza. O líder do PS não percebeu que a estratégia tosca de Tsipras era tentar arrastar Portugal, Espanha e Itália para uma espécie de segunda liga da eurozona.

Enquanto a asneira 2 está agora a ser composta por António Costa com os "macroeconomistas", a asneira 1 já não tem conserto — depende da roda da justiça.

Há exactamente três anos, como escrevi no Facebook, era "certo" que Pedro Passos Coelho ia ter um sucessor. Agora, depois destas duas asneiras do líder socialista, as coisas não estão tão "trigo-limpo-farinha-Amparo".



Como dizia o outro, "é muito arriscado fazer previsões, especialmente sobre o futuro".

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Taxas e destaxas *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. O parlamento avança para a aprovação da taxa sobre os dispositivos electrónicos com memória (telemóveis, pens, computadores, boxes, ...), taxa que se aplica mesmo a aparelhos onde só vamos ter fotografias e vídeos pessoais.

As receitas obtidas vão ser geridas por uma putativa “Associação para a Gestão da Cópia Privada” que, por sua vez, as vai distribuir pelas associações de gestão de direitos de autor que, por sua vez, dividirão a receita sobrante por autores (40%), intérpretes (30%) e produtores (30% ). O que ultrapassar 15 milhões de euros vai para a fome de fomentar do “Fundo de Fomento Cultural”.

Há sempre um lobby capaz de pôr políticos a tirarem dinheiro aos cidadãos em seu benefício.

Um smartphone novo, com mais esta alcavala, poderá ficar mais caro quinze euros. Isto é uma taxa ou uma taxona, ministro Piiiires de Liiiiima?

Ensaio completo publicado no Guardian aqui
2. Perante isto, há que achar os países sem esta taxa ou com uma menor para fazermos as nossas compras e perceber que a conversa dos “direitos de autor” em tempos de partilha online anda muito mal contada.

Para melhorarmos essa compreensão, nada melhor que procurar na net a notável reflexão feita em 15 de Novembro, no “Melbourne's Face The Music”, por Steve Albini (há décadas músico e engenheiro de som com centenas de discos editados e autor, em 1993, do importante ensaio “The Problem With Music”).

3. Quando um lobby consegue uma isenção, em vez de uma taxa passamos a ter uma destaxa.

Eis um exemplo recente de destaxa: os 1,8 milhões de euros perdoados ao Benfica pela câmara de Lisboa. Isenção que, graças ao alarido público, vai agora ser chumbada na assembleia municipal.

Os políticos não aprenderam nada com a bancarrota de 2011. Não aprenderam eles mas aprendeu a opinião pública que reagiu com violência a esta pouca-vergonha.

O país parece preparado para pregar um susto eleitoral aos partidos do sistema. É só aparecerem protagonistas novos credíveis.

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

#500 *

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro

Este é o quingentésimo "Olho de Gato". Redondo número.


ONG 

Como explica Moisés Naím em "O Fim do Poder", à medida que o activismo político foi perdendo apelo, enredado que está na corrupção, no cinzentismo e na decadência, as Organizações Não Governamentais têm crescido em influência e importância planetária.

Os seus objectivos são mais claros e a sua organização é muito menos hierárquica e mais próxima dos seus membros. Estes sabem se pertencem a uma Ong filantrópica, ou ambiental, ou política, ou sanitária, ou..., e sabem fazer lobby e usar os media e as redes para imporem a sua agenda.

Em Portugal, para dar um exemplo, o Banco Alimentar Contra a Fome mantém uma extraordinária capacidade de mobilização. Apesar das asneiras que pendularmente Isabel Jonet expele pela boca fora, as pessoas percebem que o Banco Alimentar faz o que nunca nenhuma burocracia social do estado fará. E procedem em conformidade.


GONGO

As Gongo são "organizações não governamentais organizadas pelos governos", são um "faz-de-conta" usado pelos governos para tirarem partido da popularidade das Ong.

Um exemplo é a “Chiyoda - Associação Geral dos Residentes Coreanos”, sediada no centro de Tóquio, com 150 mil membros, dona de dezenas de escolas, uma universidade, várias empresas (até bancos), e que também... emite passaportes da Coreia do Norte, país que não tem relações diplomáticas com o Japão.


BONGO

Já o "Centro Português Para a Cooperação — CPPC", fundado por Pedro Passos Coelho em 1996 e pago pela Tecnoforma, não foi uma criação da sociedade civil como é uma Ong, nem uma criação de um governo como é uma Gongo.

O CPPC, que não tinha problemas de dinheiro, era, isso é certo, um "faz-de-conta" interessado no "sabor da selva" africana. 

À falta de melhor, chamemos-lhe uma Bongo.