terça-feira, 31 de março de 2020

Ao homem que está no fim da fila

Fotografia de Crawford Jolly



Ao homem que está no fim da fila,
timidamente apoiado numa bengala,
sem máscara, sem luvas,
de porta-moedas na mão,

Ao homem, ao velho, que espera pela sua vez
à porta do mini-preço,
a uma distância de segurança,
um esticar de um braço, mais coisa menos coisa,

enquanto todos os outros, caras sem rosto,
cabisbaixos, de luvas, avançam
sem olhar para trás,
sem ceder a vez,

A esse homem que, finalmente,
decide fazer-se ouvir,
romper o silêncio sepulcral
daquele cortejo fúnebre
dos nossos hábitos,
e dizer:
"ora então, bom dia a todos"

A esse homem, que fez estremecer
a dúzia de pessoas que, como se ali tivessem estado toda vida,
mais não souberam que balbuciar o que mal se ouviu,
os pés enraízados no chão, as costas voltadas,
sem lampejo de reconhecimento,

A esse homem, pelo seu resgate do essencial,
pela sua voz límpida e certeira,
e por tê-lo feito com um sorriso,
muito direito, apoiado na sua bengala,

A esse homem, "bom dia",
"um bom dia também para si, senhor",
que foi o que eu devia ter dito,
enquanto esperava, de máscara e luvas,
atenta à distância de segurança,
na fila ao lado, à porta da farmácia.
Teresa Coutinho



segunda-feira, 30 de março de 2020

The diabetic dreams of cake




“Wall Street says that cake sales are low”
Or to put it bluntly
“Cake is fizz”
So why is a diabetic dreaming of cake
Asked to leave a temple
Because he didn’t know that rice cakes
Were sacrament?
(He managed to jam some into his pockets)
He dreamed that Mount Diablo was a Devil’s food cake
He began to munch it down until his path was
Interrupted by his Pancreas
The Pancreas had sticklike arms and legs
It was frowning
It put up a hand and beckoned him to halt
He pushed aside the Pancreas and finished his
Meal

Next, he was attending the Asparagus Festival
In Freiburg
It was held in a great medieval hall and before
Each person there was a plate of asparagus
He started banging on his plate
Asparagus Nicht, Kuchen Ja

Next he was running across Central
Park, juggling a wedding cake without
Losing a single flake
Safely in some Brooklyn room
The news said that he had stolen
The cake from a tony East Side wedding
He didn’t take it all in

He was too busy eating the cake
And watching Julia Child bake
A cake

He was on a plantation doing
What looked like a goose step
He was twirling a cane
He was wearing a monocle
A black top hat
And shiny black boots
The master said, That takes the cake
Some of the slaves applauded
Others grumbled and called him a dandy
You can sleep with my wife and daughter tonight,
The master said
He started running because they were as ugly
Or shall we say beauty challenged as well
As booty challenged

Under an old Southern pine tree
He ate the cake

He was chillin’ with his witch
Not the one with a wart on her nose
And wearing a black cone-shaped hat
But a centerfold witch
You’ve seen her
She was honored at the AVN Awards
In Vegas
She was riding his broomstick
Hard
While feeding him gingerbread

The walls were caked with
Gingerbread, the doors, the

Floor, and the windows were
Gingerbread

Finicky about neatness
She kept sweeping his feet from
The table
But something outside of the window
Got her attention
Holding hands, two blond children were coming down the road
And here he thought that the bones in the fireplace
Were animal bones

She pushed him through the back door
But he persuaded her to give him a piece
For the road

Next he was sitting in on a congressional
Hearing on whether to classify pancakes
As cake. A conservative senator warned of
A slippery slope. What next? he said,
Icing on biscuits?

His mother learned to make chocolate
Cake when working for
A German family
Charlayne, whose mother was German, said
That the Germans used real cocoa
And so he found himself as tiny as a baby fly
Inside of his mother’s favorite cake bowl
He was climbing
The ladle to reach the icing around the
Rim of the bowl
He and Sigmund Freud

He kept falling backward every time
He was about to reach the top
Now they tell him that he has no free will
That bacteria inside his gut have goals
That don’t jibe with his
Or as the scientist says,
“Microbial manipulations might fill in
Some of the puzzling holes
In our understandings about food cravings”
In other words,
For his microbiome he is just a delivery system that
Brings them sugar

For them his body is a bakery
Is there no end to subservience?
He would find the conversation that his cells have
About him hair-raising
They crave cake even though
Cake spikes his sugar
And so as one grows older
While the external adversaries with whom
One had been feuding either die or
Break bread with you
The internal adversaries multiply

They couldn’t give a Twinkie about
Whether you live or die
Ishmael Reed



domingo, 29 de março de 2020

Os últimos guardanapos represos na caruma

Le déjeuner sur l'herbe 
Édouard Manet (1862 - 1863)


Os últimos guardanapos represos na caruma
as caricas espalhadas pelo chão
Tudo se apanha num saco de plástico inutilizado

Mas onde guardar o peito refeito dos
aromas do
mar
queimado do braseiro
abafado

Entra-se em casa Irrespirável
Abrem-se as janelas
de par em par
Abrem-se os braços
a distender o peito
É preciso ar
mais ar

E o ar não chega

O pique-nique por lá ficou
na clareira umbrosa
Fátima Oliveira




sábado, 28 de março de 2020

Contar arroz *

* Hoje no online do Jornal do Centro
Podcast aqui

Hoje trago para aqui uma história que, nestes desgraçados dias que estamos a viver, deve ter vindo à lembrança de muita gente quando começaram a circular nas redes sociais piadolas que nos punham, com a paciência ociosa da quarentena, a “contar” o número de grãos de vários pacotes de arroz.


Uma graçola global que há-de também estar a ser partilhada em força agora na Índia,
cujos 1,3 mil milhões de habitantes estão em quarentena por três semanas

Há 1500 anos, o inventor do xadrez foi apresentar aquele jogo ao Imperador da Índia. Este ficou fascinado com as 32 peças a moverem-se nas 64 casas do tabuleiro e perguntou ao homem:


«O que queres de recompensa por teres inventado uma coisa tão bela?»

«Sua Majestade, peço que mande pôr um único grão de arroz no primeiro quadrado do tabuleiro, dois no segundo, quatro no terceiro, e assim sucessivamente: que cada quadrado receba o dobro de grãos que recebeu o anterior.»

O magnífico Imperador achou que o homem estava a pedir pouco, mas lá ordenou que fossem à tulha buscar o cereal: 1 — 2 — 4 — 8 — 16 — 32 — 64 — … — … — 262144 — 524288 — … — … — 1073741824 — 2147483648 — …

Aquele pedido daquele inteligente homem, afinal, era tudo menos modesto. Antes de ter chegado às 32 casas, correspondentes a metade do tabuleiro, já estavam esgotadas as reservas de arroz do Império.

A nossa lenda, chegada aqui, bifurca em duas versões: numa o Imperador abdica para o inventor do xadrez, noutra o Imperador manda cortar a cabeça que, há um milénio e meio, já sabia o que era um crescimento exponencial. Coisa que a maioria dos humanos só está agora a descobrir com a escalada trágica da Covid-19.

Olhemos agora um modelo partilhado por Ludwig Krippahl no seu Facebook:

— em Portugal, em 16 de Março, as infecções estavam a duplicar a cada 1,9 dias;

— uma semana depois, a 23, duplicavam a cada 2,9 dias;

no dia 26, em que escrevo este Olho de Gato, a duplicação está a acontecer a cada 3,4 dias.

A quarentena parece estar a dar-nos o que mais precisamos agora: tempo. Continuemos, o mais possível, em casa. Por exemplo, a jogar xadrez.

Esta peste há-de passar.

Isolation

Fotografia de Sasha Freemind

People say we've got it made
Don't they know we're so afraid?
Isolation

We're afraid to be alone
Everybody got to have a home
Isolation

Just a boy and a little girl
Tryin' to change the whole wide world
Isolation

The world is just a little town
Everybody trying to put us down
Isolation

I don't expect you
To understand
After you've caused
So much pain
But then again
You're not to blame
You're just a human
A victim of the insane

We're afraid of everyone
Afraid of the sun
Isolation

The sun will never disappear
But the world may not have many years
Isolation
John Lennon










sexta-feira, 27 de março de 2020

Manifesto pela Obviedade

Fotografia de Joseph Gruenthal


Buscamos comunicação integral
doc., text., não completam uma palavra
Já estruturamos o direito ao onírico
ao grito
a um nariz que nos coubesse
e a pretensão de uma humanização em artigos
Revisamos nossas formas
Como se renascer fosse possibilidade
Não é.
Manifestos redigidos por afetação
quem dera fosse paixão
Qualquer obviedade, agora, é sobrevivência
Clamamos, a partir de então:
o Manifesto pela Obviedade.
.
Daqui deste buraco
com algumas plantas, algumas madeiras
repetir os materiais reconhecíveis
O primeiro ato é a toca consciente de nossas mãos
os acertos infantis para o consenso
Precisamos formatar sem exigências
Construir como manuais navais
Todo cuidado com a primeira matéria:
Não repetir o que somos — os restos.
Gabriela Sobral




quinta-feira, 26 de março de 2020

Morcões e javardolas*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 26 de Março de 2010


1. Conforme escrevi aqui, Manuel Alegre tem sido “uma ‘voz em alvo’ sem nada dentro”. Na sexta-feira em Bragança, finalmente, Alegre lá decidiu meter algum sumo no que diz e malhou forte no PEC, para alegria das suas tropas do bloco.

Entretanto, a aspiração alegrista de fazer campanha lado a lado com Sócrates e Louçã não está fácil. No domingo, o Correio da Manhã perguntou a Louçã: «Já se viu, Francisco Louçã, ao lado de José Sócrates na campanha presidencial de Manuel Alegre?»

«Não, não me vou ver nem me vejo.» - respondeu, seco, Louçã.
Portanto, sem misturas, a campanha alegre vai ter um calendário peculiar: às segundas, quartas e sextas, Alegre tem a escolta de Francisco Louçã; às terças, quintas e sábados, Manuel Alegre está a contar com José Sócrates.

Aos domingos, nada de campanha. Manuel Alegre, como se sabe, aos domingos vai à caça. Vai tentar fazer às perdizes e às rolas o que o PEC faz à classe média e aos pobres.

2. Na Alemanha há eleições regionais em 9 de Maio. A Grécia precisa de 53 mil milhões de euros até ao fim de Maio.

Há aqui uma janela de tempo para Angela Merkel passar o cheque. Mas as coisas estão feias. Basta ver a imprensa alemã que, todos os dias, execra os gregos. O menos desagradável que lhes diz é: “levantem-se mais cedo!”

3. O excelente blogue “Viseu, Senhora da Beira” tem publicado fotografias que mostram os problemas causados pelos morcões que deixam o carro estacionado em qualquer lado, até em cima das passadeiras.


Imagem Viseu, Senhora da Beira
Sugiro-lhe que publique também fotografias dos nossos ecopontos. 

Há muitas criaturas que chegam lá e colocam o seu lixo no chão. Era só levantar a tampa e pôr o lixo dentro. Mas não! Deixam-no mesmo no chão, os javardolas. A seguir, os cães e o vento espalham a lixarada.

EN 112

Fotografia de Carlos Ibáñez



De infracção mais grave não sei:
deixar que mãos ausentes me conduzam
a sentidos proibidos
ou que os falsos deuses do amor me desmandem
entre acidente e contingente.

Cumpra a brigada de trânsito a sua missão:
cace-me a carta
onde se obstina a tua fotografia,
reboque-me a carcaça sinistrada
ou de castigo me leve a carripana
e me deixe apeado na valeta, pois
de infracção mais grave não sei:
conduzir fora de mão
conduzir contra o coração.
Rui Lage


quarta-feira, 25 de março de 2020

Solitary animal

Fotografia de Radoslav Bali


The solitary animal walks alone. She has no uterus. She has no bone.
She slithers around dark bars and libraries. She carves
a beautiful girl on the cave wall. She dances with Aurora Borealis,
but goes home alone.

We are 7.5 billion. Thrust onto Earth together, we are not alone.
We shout at the stars, perhaps a Martian is listening, she/he/they
with ten thousand antennae, transversal labia quivering, searching for love.

Your half-drawn monolid eyes are most tantalizing, may I take you home?
Slime you with a green kiss? Breathe magma into your bones? Claw rainbows
onto your lips? Redecorate your home?

Our vertebrae are vibrating, signally: we are not alone. Sacrificed by a greedy
admiralty, we shall live forlornly, and be devoured, headfirst, by reptilian clones.

Inch back into your fern pods, why don’t ya! Baby, I call you, but you are not home. Somewhere in the cosmos, our lies are reverberating. Fake news is sad news. Shrapnel calcifying

into bone. Each day we begin on Earth as a dying person, each breath is one less
than yesterday, we shall die alone.
Marilyn Chin



terça-feira, 24 de março de 2020

A road to nowhere

Serra da Arada

Fotografia Olho de Gato

Well we know where we're going
But we don't know where we've been
And we know what we're knowing
But we can't say what we've seen
And we're not little children
And we know what we want
And the future is certain
Give us time to work it out

Yeah

We're on a road to nowhere
Come on inside
Taking that ride to nowhere
We'll take that ride
I'm feeling okay this morning
And you know
We're on the road to paradise
Here we go, here we go


segunda-feira, 23 de março de 2020

Quinta del Sordo

Francisco Goya, 1820–23

how can I
ask you to

absolve me
my fingers

still greasy
with envy

gaudy oils
still smearing

the dim walls
the quiet

chamber of
my mouth



domingo, 22 de março de 2020

A minha gabardina

Fotografia de Omid Armin


Tal como outros têm por secretária a noite
eu tenho a minha gabardina
de botões desusados e conversas redondas
que vai com os dias de chumbo
e traz filhos ilegítimos como pardais.

Eu e a minha gabardina
formamos uma só e vejam lá que
nos dias de chuva eu molho-me
ela fica enxuta.

A minha gabardina é o meu cão
fiel quando se rasga e mostra um segredo
mapa de meses outros em que nos escondíamos
das luzes excessivamente denunciadoras
na rua patriarcal.

A minha gabardina é o meu gato
sobranceira aos epítetos de arcaica e
inactual.

«A culpa foi da gabardina»
acusou o amor quando abandonou a casa
doente da minha pele impermeável
às imagens negociadas do desejo.

Hei-de morrer com a minha gabardina
Expô-la como o fato de feltro de Joseph Beuys
Ana Paula Inácio



sábado, 21 de março de 2020

Conversation

Fotografia de Dainis Graveris




For Robert Lowell

We smile at each other
and I lean back against the wicker couch.
How does it feel to be dead? I say.
You touch my knees with your blue fingers.
And when you open your mouth,
a ball of yellow light falls to the floor
and burns a hole through it.
Don’t tell me, I say. I don’t want to hear.
Did you ever, you start,
wear a certain kind of silk dress
and just by accident,
so inconsequential you barely notice it,
your fingers graze that dress
and you heat the sound of a knife cutting paper,
you see it too
and you realize how that image
is simply the extension of another image,
that your own life is a chain
of words
that one day will snap.
Words, you say, young girls in a circle, holding hands
and beginning to rise heavenward
like white, helium balloons
in their confirmation dresses,
the wreaths of flowers on their heads spinning
and above all that,
that’s where I’m floating, Florence,
and that’s what it’s like
only ten times clearer,
ten times more horrible.
Could anyone alive survive it?




sexta-feira, 20 de março de 2020

Pestilência*

* Hoje no Jornal do Centro



“Haviam os anos da frutífera Encarnação do Filho de Deus chegado ao número de 1348 quando à egrégia cidade de Florença, nobilíssima mais do que todas as cidades de Itália, chegou a mortífera pestilência. (...) 
Quis a desgraça que ela se estendesse até ao Ocidente alguns anos depois de haver começado nas regiões orientais, roubando um incontável número de vidas e, sem detença, alastrando-se de terra para terra.”
Decameron”, Giovanni Boccaccio

Chegados ao bissexto ano de 2020, nada impediu que a “mortífera pestilência”, depois de “haver começado nas regiões orientais”, chegasse às egrégias cidades de Itália, e fosse “sem detença, alastrando-se de terra para terra”, de país para país, “roubando” um contado “número de vidas”, infectando ricos e pobres, chefes e chefiados, xenófobos e cosmopolitas, estúpidos e espertos.

O nosso “viver habitualmente” foi-se. Enquanto tentamos que vire rotina toda esta desrotina (mantém-a-distância!, lava-as-mãos!, não-toques-na-cara!, desinfecta-te!, desinfecta!), partilhamos nas redes sociais memes e vídeos cheios de rolos de papel higiénico. Porque rir exorciza o medo.




No Decameron, para fugirem à peste, sete donzelas e três jovens amigos levaram para o seu refúgio, longe da cidade, tudo o necessário (na altura, também um exército de criados) para passarem dez dias a contarem histórias uns aos outros, umas pícaras, outras solenes, outras lúbricas, outras hilariantes. Dez contadores, dez dias, cem magníficas novelas.


Agora, seis séculos e meio depois, podemos e devemos confinar-nos nas nossas casas. Agora já não são só os aristocratas que têm criados, nós também temos: as máquinas que nos aspiram os tapetes, nos bimbam o almoço, nos lavam a roupa.

Agora, sem sairmos das nossas casas, podemos contar histórias uns aos outros, ler Boccaccio, ou ver, nos nossos ecrãs, as nove divertidas histórias que, em 1971, Pier Paolo Pasolini seleccionou para o seu deslumbrante filme Decameron.

Esta peste há-de passar.

Pas de deux



A flor e o vento começam o seu pas-de-deux intemporal
Felizes um com o outro e sem sentirem a falta de nada
Enquanto o nosso mundo mortal embarca ainda e outra vez num novo dia
Kalikiano Kalei



Pas de deux, de Norman McClaren (1967), from National Film Board of Canada on Vimeo.


«Para mim, na verdade, num filme abstracto as formas mais agradáveis são aquelas que mais se aproximam da música.
Deve haver equivalência visual.»
Norman McLaren

quinta-feira, 19 de março de 2020

Um grande sarilho*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 19 de Março de 2010

1. Em 18 de Dezembro, escrevi aqui que o pior que a esquerda poderia fazer era ir com um candidato único às presidenciais.

Passaram três meses e houve evolução: (i) Cavaco Silva recuperou alguma da força perdida com o episódio das escutas; (ii) Alegre avançou de braço dado com Louçã; (iii) Jerónimo de Sousa avisou que o PCP vai ter candidato próprio; (iv) Fernando Nobre anunciou uma candidatura independente.

Os discursos de lançamento de Manuel Alegre em Portimão e em Coimbra foram pífios e fracos. Manuel Alegre é uma “voz em alvo” sem nada dentro. Já se percebeu que ele engole os sapos todos que forem precisos para fazer uma descida da Avenida da Liberdade com Louçã à sua esquerda e Sócrates à sua direita. Louçã e Sócrates lado a lado. Mais um sarilho em cima deste grande sarilho em que estamos metidos.

Caro Jaime Gama, vai deixar Cavaco Silva fazer um passeio tão fácil nas próximas presidenciais?


Inês de Medeiros — PS
(imagem daqui)
2. As previsões macroeconómicas do programa de estabilidade e crescimento dizem-nos que, até 2013, vamos ter um crescimento que nos vai permitir alcançar o nível de riqueza de… 2008.

Entretanto, até 2013, mais 300 mil portugueses vão emigrar.

Estamos metidos num grande sarilho.

3. Há uma deputada, eleita pelo círculo de Lisboa, que quer que o parlamento lhe pague os fins-de-semana em Paris, a 1700 quilómetros dos seus eleitores. 

Ela sabe que os deputados não precisam de agradar aos seus eleitores. Ela sabe que os deputados só precisam de agradar a quem os põe na lista.

Estamos metidos num grande sarilho.

4. «Rouba-se muito. O país não tem dimensão para se roubar tanto.» - disse, preto-no-branco, Pedro Ferraz da Costa ao Expresso (15.8.2009).

Estamos metidos num grande sarilho.
Desde 1143.

Ravana

Fotografia Olho de Gato


after Valmiki’s Ramayana (Aranya Kanda, Sarga 46)
                                Dressed simply but not
               without elegance, holding ritual
                     staff and parasol


Radiating gloom, like an asteroid with designs on a star
like night’s curved shadow that swims across the Earth
like the darkness of our Sun in its deepest explosions
like the planet Budhan about to take hold of Rohini
like Saturn advancing on Chitra
like the forests and cities and far ridges of infinity
      each planetary body with its moons each moon that governs
               a forgone set of miserable inhabitants
like the afterglow of a gamma-ray burst
like the coma of gas that covers the nucleus of a comet
like comets, dirty snowballs, signing the skies with their anger
like the coronal holes stirring in solar wind
like clouds obscuring double stars of dwarf galaxies
like the Doppler reading suddenly shifted into the blue
            like the black sphere of the event
like the flare in a field of view
like the imaginary mind on the galactic plane
         already hollow
like halos and brown disks with spiral arms
   like Jupiter’s bloodshot eye
      like a supernova in its galactic host
like the warm-blooded animal’s infrared glow
               like the ionized air
like the untold spheres of the Kuiper Belt
like the light curve of an astral orb diminishing in relation to time
like molecular clouds stanching all light behind them
like the protoplanet revealed in the eclipse
like our own moon in its uncountable rilles
         like the Jovian body
                     with its back to the Sun.
Vivek Narayanan



quarta-feira, 18 de março de 2020

A ordem errática — [POLITÉCNICO DE VISEU 40 ANOS #20]

Fotografia Olho de Gato




Paulo Neto
[Aveiro, 1955]
Vive em Viseu


há um dia que erige o silêncio em sinal e o comum em partilha o gesto final
há um dia em que a alvorada pranteia a insónia da escrita com um trovão
há um dia em que o sino toca e ninguém vem e o toque se atordoa e cai
há um dia em que o sol te ira e só na noite só ofendes a paz e ressumbras raivas
há um dia em que o olhar é opaco e o infinito invisível porque se aproximou de ti
há um dia em que na mão lívida de dar não transparece no espasmo o perdão
há um dia em que a mudez te invade e só no gesto ecoa a agitação do ar suplicante
há um dia que fica marcado pela lua perplexa e mais pálida que no último quarto
há um dia sem horas horizontal e açaimado na penumbra de todas as sombras
há um dia sem afagos nem a quem afagar perdido o gesto o jeito o mimo
há um dia em que estremeces a dor nos poros e a agonia é um enjoo longo que mói
há um dia em que a ave azul te fura o olhar com o bico de ferro mordaz e céptico
há um dia o primeiro dia dos dias em que voas a cremar-te numa estrela o dia


Poetas e pintores e Viseu
Edição Politécnico de Viseu, 2001




terça-feira, 17 de março de 2020

Cruzamentos — [POLITÉCNICO DE VISEU 40 ANOS #19]

Fotografia Olho de Gato





Olinda Beja
[S. Tomé e Príncipe, 1946]
Criança ainda deixou as ilhas e
 passou a viver em terras da Beira Alta


Tenho saudades da chuva
do meu Largo da Carvalha. Uma chuva
cinzenta e mole que abria longos riachos no meu peito de ansiedade
Tenho saudades do vento
do meu Largo da Carvalha. Um vento
agreste e serrano que agitava os plátanos
fazendo estremecer as folhas amarelecidas
no meu quintal de ternuras.
Tenho saudades das noites
do meu Largo da Carvalha. Noites passadas á mingua
de um abraço amigo e forte
noites de antigas vizinhas que me diziam
menina toma cuidado com os outros porque
tu és diferente e eles não gostam dos diferentes
histórias de lobisomem
cantigas do São João
rezas no adro da Sé.
Tenho saudades dos dias do outro lado do mar
dias de areia e de espuma a salpicarem-me o rosto
dias de barco sem cais nos escaleres da vida
dias de longe e de perto
a cruzarem o meu destino mestiço
entre as tílias do Rossio
e a ilha do chocolate.



Poetas e pintores e Viseu
Edição Politécnico de Viseu, 2001



segunda-feira, 16 de março de 2020

Ekphrasis — [POLITÉCNICO DE VISEU 40 ANOS #18]

Fotografia Olho de Gato




Martim de Gouveia e Sousa
[Porto, 1962]
Director da revista Ave Azul
Ensaísta literário


cidade vida e canto - dizes
digo - fractura-se o tempo
contra a memória sólida
dos líquenes e dos fungos

no fundo dela (da evocação)
disse-te jovem e duradoura
e sobre mim falava
e dos corpos arqueados
tensos iluminados
das crianças
dos exercícios gímnicos
encostados ao derruir da catedral

viseu, a tua gramática
é o fogo dos frutos
e o esplendor verde do granito
no calor aceso das sombras
percorro-te ainda no teclado
do sangue
e no rumor surdo
da seiva pacificadora

de novo
aparição do tempo
esta cidade alarme de mim...
e do centro opaco do cérebro
pulsar do corpo ao coração
uma voz eco de orpheu diz
ser eu de viseu e o fora de mim não.



Poetas e pintores e Viseu
Edição Politécnico de Viseu, 2001





domingo, 15 de março de 2020

Virgínia — [POLITÉCNICO DE VISEU 40 ANOS #17]

Fotografia Olho de Gato





Luís Miguel Nava 
[Viseu, 1957-Bruxelas, 1995]
Crítico literário e poeta
"Prémio Revelação de Poesia" da APE, com Películas (1979)



Embora o sol fosse alto ainda, àquela hora
já dali desertara, as sombras iam
saindo aos poucos de debaixo dos armários.
De vez em quando as mãos, completamente absortas,
detinham-se no ferro, sobre a tábua, ao lado
do gigo agora esvaziado e dos pesados
tabuleiros de verga, onde se erguia a roupa.
Tornavam-se mais nítidos, assim, os seus
contornos recortados contra a luz.
Dali podia-se avistar o mundo inteiro.
Ao longo dos telhados, por onde um ou outro gato
corria atrás das pombas, oscilava
ligeiramente a corda, onde a cidade, o céu
e os montes pareciam pendurados.



Poetas e pintores e Viseu
Edição Politécnico de Viseu, 2001






sábado, 14 de março de 2020

"And Now For Something Completely Different" (#257)

A short and brief history of harmonica




Os Deuses vendem quanto dão Luz-Gládio/Marte, Orfeu — [POLITÉCNICO DE VISEU 40 ANOS #16]

Fotografia Olho de Gato

Luís Miguel Cardoso
[Viseu, 1969]
Estudou e viveu em Viseu até aos seus estudos superiores
Docente na Escola Superior de Educação
Instituto Superior Politécnico de Viseu


I

Sibilina Vénus, secular, vieste,
Gotícula etérea de azul celeste,
Translúcida espiral,
Esperança boreal,
Espírito, memória,
Hermínio, história.

Em marulho, o segredo amado:
Sombra vaga - luar ornado,
Grão, de areia futura,
Tempo renascido,
Pórtico fendido,
Milenar alvura.

D'apolínea sede, vitral de luz,
Desceu o arcanjo - o olhar o conduz.
Marte, o ungido,
Gládio erguido,
Missão: cruz.

Brame, branco, o deus belicoso,
Flama em sol, olhar furioso.
De Vénus, as sombras funestas,
Afastou, cerúleo, em pugnas e gestas.
O gládio venceu venturoso.

Nascitura, escrita, do céu, a certeza.
Em monte luzia, a azul beleza:
Gládio-sol e Lua acesa!

II

Mas os Deuses vendem quanto dão.
Esvai-se a Luz: estipêndio atroz.
Risos negros de satisfação
De espectros-sombra em muda voz.

III

Gládio partido,
Estilhaço ferido,
Tempo que morre,
Sonho que escorre.

IV

E Marte fez-se Orfeu.
Carpe Vénus, o sol fendeu
Com raiva à terra, dor sem céu.
Jurou ser Homem, deus só seu.
E rasgou do ser a nova entranha,
Queimou ambrósia em seca lenha,
Verteu no templo o sangue ganho,
E gritou rebelde e estranho:
"Juro vingar o tempo vendido,
A morte da areia, o pórtico fendido,
O horizonte azul, o doce olhar,
Os dois em um, o céu em mar!
Eu canto, telúrico fiel,
Icário humano, palavra em asa,
Sem medo estígio, doçura de fel,
De Sisifo, o castigo, de Ulisses a casa.
Os Deuses vendem quanto dão,
Mas o meu destino serei eu!
Retalho de mim, buscarei união
Do sonho ao futuro, o sangue que é meu.
Nasci de mim mesmo, Homem!
Dos ombros nascem asas
E sombras aduncas se somem.
No estertor vivo, a pele se rompe.
Serei Faetonte, Titã e Narciso,
Serei Ómega e Alfa, deserto e fonte,
Serei Édipo, de olhos vazados,
E cego, terei olhar preciso,
Além dos Deuses já passados.
Depois do Tempo, agora sem Tempo,
Depois da Luz, agora sem Luz,
Buscarei, noutra vida, o vento.
O vento me levará, teu olhar o conduz.

Espírito em espiral, de novo me fito.
Sou eu, de novo, mortal, mas infinito."



Poetas e pintores e Viseu
Edição Politécnico de Viseu, 2001




sexta-feira, 13 de março de 2020

No quiosque*

* Hoje no Jornal do Centro

Este texto sai numa sexta-feira-13 mas dele não vem azar ao mundo. É que pra melhor está bem, está bem, pra pior já basta assim. Entremos num quiosque.




Tanto em dias de sorte como em dias de azar, as viúvas raspadinham muito na payshop do bairro, enquanto o esperto canito de orelhas espetadas espera à porta do estabelecimento autorizado pela santa casa.

«Dê-me-uma-da-Recompensa-senhor-Albino.»
«Vai-ser-desta-dona-Antónia?»
«Deus-o-ouça-senhor-Albino!»
«Correu-bem-dona-Antónia?»
«Senhor-Albino-as-da-Recompensa-estão-furadas-dê-me-uma-do-Pé-de-Meia.»


*****


Um cota, todo Old Spice na cara escanhoada, de calças largonas, blusão de cabedal e uns earbuds espetados nos canais auditivos, trauteia o “Don't panic”, dos Coldplay, enquanto vê as notícias no Correio da Manhã sobre o coronavírus e indaga na Lux sobre o AVC da dona Dolores.

«Senhor-Abílio-dê-me-um-Amesterdamer-e-as-mortalhas-e-os-filtros-do-costume.»
«Ó-homem-tenho-aqui-umas-máquinas-que-fazem-cigarros-perfeitos...»
«Nããã-gosto-de-ser-eu-a-enrolar-os-meus-cigarros...»

Abastecido e feliz, o cota sai e faz uma festa ao caniche da dona Antónia. No carnaval, enquanto a ex dele publicava no Facebook fotografias do seu novo morcão de máscara cirúrgica na Praça de S. Marcos, ele instagramou fotografias da filha ao lado de vários caretos de Lazarim. Tão bom aquele entrudo castiço, os compadres a chamarem fressureiras às comadres e estas a duvidarem da força na verga deles.

Agora, sabido o que é sabido sobre a Itália, a filha não vai regressar para ao pé da ex e do asmático novo dela, a filha fica com ele. É uma quarentena quaresmal.

We live in a beautiful world / Yeah we do / Yeah we do / We live in a beautiful world”, canta-lhe para dentro das orelhas o Chris “don't panic” Martin, enquanto, cheio de competência, ele enrola, com as unhas amarelas da nicotina, o primeiro cigarro da sexta-feita-13.

O poemeto das sombras — [POLITÉCNICO DE VISEU 40 ANOS #15]

Fotografia Olho de Gato




Judith Teixeira
[Viseu, 1880-Lisboa, 1959]
Poetisa de predominância decadentista 
com um halo modernista indesmentível
Directora da revista Europa


Ruge lá fora a ventania
e as árvores vergando, desfolhadas,
vão gemendo, como almas na agonia,
contorcidas, desvairadas.

À meia-noite,
a voz do sino, pesada e densa,
passa estridulando,
como se uma boca cavernosa, imensa,
nos predissesse negramente, malsinando!...

Há lares em festa —
e fome pelos caminhos
da desgraça.
E a minha amargura
vai subindo
na voragem funesta
de clamor que passa!

Meu Deus!
Por que é que os inocentes, pobrezinhos,
não têm pão?
Por que é que nesta noite em que nasceu Jesus
o Céu, não se sorri, cheio de luz?

Quebram-se soluços na rajada...
Exalo-me em tédio! vibra o meu tormento -
eu trago revestida a alma de saudades
nem eu já sei há quanto tempo!...

Sobre a seda vermelha que me envolve.
a luz vai entornando
vagas tonalidades — violetas...
e lá fora batalham peito a peito,
revolvendo as trevas ululando,
longos fantasmas
de negras silhuetas!



Poetas e pintores e Viseu
Edição Politécnico de Viseu, 2001