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sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Encomendas*

* Hoje no Jornal do Centro


1. No dia 27 de Setembro de 2010, o secretário-geral da OCDE, sr. Ángel Gurría, apareceu em todos os media portugueses a recomendar um aumento vigoroso dos impostos sobre o imobiliário. Para além do IMI, a criatura queria também um aumento no IMT, o imposto que, quando ainda se chamava sisa, foi carimbado por Guterres como “o imposto mais estúpido do mundo”.
Durante dias a comunicação social não falou de outra coisa. Aquela conversa sintonizava-se tanto com a conversa do governo Sócrates que até parecia uma encomenda.

No dia 14 de Maio de 2013, o secretário-geral da OCDE, sr. Ángel Gurría, recomendou a Portugal que aumentasse impostos, tesourasse pensões, cortasse nos subsídios e indemnizações dos desempregados e carregasse nos combustíveis.
Durante dias a comunicação social não falou de outra coisa. Aquela conversa sintonizava-se tanto com a conversa do governo Passos que até parecia uma encomenda.

No passado dia 11 de Setembro de 2018, foi publicado um relatório da OCDE do eterno senhor Gurría, relatório esse que fez com que os nossos media desatassem a “informar” que os professores portugueses ganham dinheiro que nunca mais acaba.
Durante dias a comunicação social não falou de outra coisa. Aquela conversa sintonizava-se tanto com a conversa que o governo Costa gostaria de ter se tivesse coragem que até parecia uma encomenda.

Em 2010, a OCDE acarinhou Sócrates. Em 2013, mimou Passos. Agora quis fazer o mesmo a Costa mas as coisas não correram bem. Nem a perorar nove anos, quatro meses e dois dias seguidos, o sr. Ángel Gurría conseguiria convencer os portugueses que os seus professores são uns nababos.

2. Em vez de fazer como Bill Murray no filme “Os Caça-Fantasmas”, o bloco de esquerda, para tentar exterminar o fantasma Robles, propôs um “adicional ao IMT”, propôs um aumento da velhinha sisa.

Isto é, se o deixassem, o bloco adicionava ainda mais estupidez ao “imposto mais estúpido do mundo”.

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Adjectivos*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. As casas dos políticos vão adquirindo adjectivos cada vez mais delirantes. O deputado bloquista Pedro Soares, apanhado também a arredondar o fim do mês, afirmou-se à RTP com:

— uma “morada estável” (sic) na sede do bloco de esquerda em Braga;

— uma “morada de família” (sic) em Vouzela, nunca registada porque, disse o deputado e escreveu o bloco num comunicado, o custo seria “mais elevado” para o parlamento;

— uma “morada de contacto” (sic) em Lisboa nunca indicada à AR mas registada no tribunal constitucional para “facilidade de contacto” deste.

Há outra telenovela com casinhas de um eleito em Vila Nova de Paiva. O vereador do PSD, Manuel Custódio, alterou a sua morada para Lisboa e quer os 36 cêntimos por quilómetro da praxe. Para já, a coisa empancou num parecer jurídico da CCDRC com dois conceitos intrincados: “domicílio voluntário” (sic) e “domicílio efectivo” (sic).

Saude-se esta adjectivação criativa das casinhas dos políticos. Saude-se também a geografia peculiar do bloco de esquerda que espreita por um canudo Braga e Vouzela e vê a primeira mais perto de Lisboa do que a segunda.

2. No passado fim-de-semana, nas eleições internas do PS no distrito de Viseu, António Costa obteve 96,3% dos votos e o seu opositor Daniel Adrião 3,7%.

Registe-se que, em mais de metade dos concelhos, o voto foi pouco secreto. Com zero votos brancos, zero nulos, zero no Adrião, toda a gente ficou a saber que toda a gente votou Costa.

O aparelho socialista tem esta cultura: elege o líder de turno com votações “norte-coreanas” e faz congressos em que ninguém diz nada fora do guião. 

Libé, aqui
No último congresso de José Sócrates, que podia ter sido filmado por Leni Riefenstahl, todos os vips e todos os não vips repetiram a mesma história da carochinha intitulada PEC4.

Desta vez, o congresso vai parafrasear as ideias de Augusto Santos Silva e celebrar os sucessos de Centeno. E vai fingir que não vê o elefante especado no meio da sala que se chama socratismo.

sexta-feira, 26 de maio de 2017

Tubos tirados*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. Em 2009 e 2010, Portugal teve os dois maiores défices públicos consecutivos em tempo de paz da sua história. Foi coisa em grande — a dívida pública só naqueles dois anos pulou 21% do PIB, quase quarenta mil milhões de euros. Uma tal hemorragia fez com que, em 2011, o país tivesse quer ser levado ao bloco operatório pelos credores.


Fotografia daqui

Como se sabe, uma cirurgia começa por tirar a uma pessoa toda a autonomia, quando a põe a dormir. Depois, o regresso do doente a si, à inteireza de si, não é imediato. Ele está entubado, algaliado, há uma conversa tubular, química, de dentro para fora e de fora para dentro, monitorada, feita de insegurança e dor, dor que é a fala do corpo doente.

Depois, com o passar do tempo, os tubos vão sendo tirados, as funções corporais recuperadas, e isso, a retirada de cada tubo, mais do que um alívio, é sentida como uma libertação.

Portugal, em 2011, viu o seu corpo invadido por tubos estranhos postos pelos cirurgiões da troika, tubos que têm vindo, ao longo destes negros anos, a ser retirados um a um. Esta semana foi tirado o último: o do procedimento por défices excessivos. O país está agora completamente autónomo. Pode escolher o seu caminho.

A terceira república já teve três idas ao bloco operatório: em 1977 levou uma transfusão de 1% do PIB; em 1983, transfusão de 2,8%; e, em 2011, foi uma brutalidade: 45,5% do PIB. Haja agora juízo para se evitar a quarta.

2. Manuel Delgado, secretário de estado da saúde, chegou-se junto de Cílio Correia, director do hospital, e disse-lhe na presença das forças vivas da cidade: saiba o meu amigo que, em vez de um centro oncológico em Viseu, vamos ter uma extensão do de Coimbra, saiba o meu amigo que vamos fazer um bunker no hospital de Viseu para dois aceleradores lineares, mas não há dinheiro, saiba o meu amigo que vamos começar por instalar um só acelerador para poupar 30% do dinheiro que não temos.

O tão badalado anúncio da radioterapia em Viseu foi este nada.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

Coisas boas*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


Em 17 de Maio de 2011, fez seis anos esta semana, a troika entrou por cá dentro com um cheque e uma receita amarga. Três duros anos depois, em 17 de Maio de 2014, ela foi-se embora. Desde então, pelo menos para já, tem havido juízo: o défice está controlado e não têm sido repetidas as loucuras que nos levaram ao buraco.

Portugal agora é só coisas boas:
— ele é a canonização dos pastorinhos após milagre devidamente esmiuçado pela vaticanista Aura Miguel;
— ele é a vitória de Salvador Sobral na piroseira eurovisiva após milagre devidamente presenciado em Kiev por João Carlos Malato;
— ele é o tetra encarnado após milagres de arbitragem devidamente denunciados por Bruno de Carvalho;
— ele é um forte crescimento da economia após milagre turisteiro devidamente calculado pelo INE.

Se continuarmos a crescer a este ritmo, ainda atingimos esta década o nível de riqueza que tínhamos em... 2008.

Os maus sentimentos estão fora de moda. Nas redes sociais, onde abundavam gatinhos e ódios, agora em vez de gatinhos há publicações cutchi-cutchi sobre os manos Sobral, em vez de ódios, a saia bem travada da dra. Assunção Cristas.

O país efectua afectos a um ritmo nunca visto. Não há zangas. Acontece um arrufo aqui ou ali, como nas autárquicas do Porto, nada de especial, nada que não caiba numa selfie de Marcelo com o pessoal, todo pancadinhas nas costas, a mostrar o marfim.

Portugal agora é só coisas boas: Monica Belucci e Michael Fassbender compraram casa em Lisboa. Uma casa cada um. 


Ela, na sua sala com vista para o Tejo, vê ininterruptamente o filme “Vergonha”. Ele, na sua sala com vista para o Tejo, vê ininterruptamente “Irreversível”.

Ainda os vamos ver aos dois dirigidos pelo maior cineasta português vivo: João Pedro Rodrigues.

Só nos falta agora um Óscar e que Fernando Santos, depois do europeu, nos dê o mundial.

sexta-feira, 27 de janeiro de 2017

Oportunidade perdida*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. As PPP rodoviárias (desde sempre aqui chamadas PPPPP — Parcerias-Prejuízos-Públicos-Proveitos-Privados) são um roubo de futuro aos nossos filhos, netos e bisnetos, já que há encargos assumidos até 2083 (!), e são um jackpot para os rentistas (à data da bancarrota socrática, a “nossa” A25 rendia-lhes 17,35% ao ano, enquanto a “nossa” A24 borbulhava 11,23%).


Fotografia Olho de Gato

Estes números pornográficos, apurados pela Ernst & Young, foram conhecidos quando ainda estava cá a Troika. Seguiu-se uma renegociação dos contratos liderada por Sérgio Monteiro de que nada se sabe. Os políticos e os grandes escritórios da advocacia de negócios, com a Troika fora, regressaram à opacidade do costume.

A chegada do PCP e do bloco à área do poder também não trouxe mais transparência. O bloco de esquerda contesta as PPP na saúde que têm funcionado bem e sem desvarios nas taxas internas de rentabilidade, mas, infelizmente, não parece preocupado com as PPPPP rodoviárias. Esta semana o JN revelou que os gastos do estado com elas “dispararam” 77%.


Daqui
No início de 2015, sugeri aqui que Portugal fosse aos mercados buscar dinheiro para resgatar as PPPPP. Na altura tal era possível. Tínhamos acabado de fazer um empréstimo a 30 anos à taxa de 4,1%. Durante 2015 e parte de 2016, as condições de financiamento da república foram muito favoráveis. Agora já não são. Perdeu-se a oportunidade.

Estes três anos de campanha eleitoral — 2015, 2016 e 2017 — vão ficar-nos muito caros.

2. Em Setembro, todos os meninos do 1º ciclo das escolas públicas, quer sejam de famílias ricas, remediadas ou pobres, vão ter livros pagos pelo estado.

Em Setembro, todos os meninos do 1º ciclo das escolas privadas, quer sejam de famílias ricas, remediadas ou pobres, não vão ter livros pagos pelo estado.

Para a geringonça, os primeiros são filhos, os segundos enteados.

Senhores presidentes das câmaras, usem os vossos orçamentos e impeçam esta discriminação vergonhosa.

sexta-feira, 8 de julho de 2016

Fracturas*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. O estado português começou logo no primeirinho dia deste mês de Julho a "rolar" dívida. Fez um "deslizamento", com "alargamento da maturidade", a 547 milhões de euros que eram para pagar em 2017, a 315 milhões que venciam em 2018 e a 150 milhões em 2019.

Traduzido em miúdos, o sr. geringonço chegou junto dos srs. credores (bancos e fundos de investimento) e disse-lhes: 
«caros amigos, preciso de uma folga para os três próximos anos, pode ser? Eu compro-vos 1012 milhões de títulos de dívida emitida e vendo-vos uns títulos novos, 733 milhões a vencerem em 2025 e os restantes 279 milhões em 2037. O novo juro é convosco. Pode ser? Excelente!»

Em 2037, quando esta dívida contraída pela dupla da bancarrota for paga, José Sócrates faz 80 anos e Teixeira dos Santos 86. Espera-se que ambos com muita saúde.

Dirijo-me especialmente aos leitores mais novos, lembrando o aviso de Daniel Innerarity: "dívida é ocupação do futuro", do vosso futuro, dívida é impostos que vocês vão pagar, com o vosso trabalho. Leiam o livro daquele filósofo basco* de esquerda: "O Futuro e os seus Inimigos".

Meus caros, não se esqueçam: quando a "Europa" impõe menos défice aos governos, ela está do vosso lado, está a impedir que políticos egoístas, velhos ou novos, ocupem ainda mais o vosso futuro com dívida.

2. No Reino Unido, 64% dos eleitores com menos de 25 anos votaram pela permanência do país na União Europeia. Por sua vez, os eleitores de 65 ou mais anos votaram maioritariamente Brexit (58%).

Esta fractura geracional é feia de ver.

3. Em Portugal, a fractura entre os interesses dos jovens e dos velhos não é na questão europeia, é na dívida.

E há ainda outra fractura pronta para ser explorada por políticos novos que queiram correr com os instalados: a que se vai agravando entre quem vive do orçamento de estado (com ou sem horário de 35 horas) e quem o paga (com desemprego ou trabalhando 40 ou mais horas).

* Por lapso, na edição de papel chamei-lhe catalão

sexta-feira, 24 de junho de 2016

Banif*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Faltavam apenas onze desluminosos dias para acabar 2015. Esteve frio na Ibéria naquele domingo, 20 de Dezembro, em que, no lado de lá de Vilar Formoso, o eleitorado acabou com décadas de hegemonia do PP e do PSOE e, no lado de cá, o Santander comprou em saldo o Banif.
Fotografia de Guilherme Marques  (daqui)

Daquele negócio sobrou um buraco de 2.255 milhões de euros para tapar: 489 milhões pelo Fundo de Resolução e 1.766 milhões por nós, pagadores de impostos. Esta segunda verba foi logo aviada em Fevereiro através de uma emissão fechada de dívida pública, sem consulta ao mercado, junto do... Santander.

A partir de então, a geringonça tem atirado as culpas para cima da caranguejola e a caranguejola para cima da geringonça. Ambas estão cheias de razão: esta longa campanha eleitoral de 2015, 2016 e 2017 vai custar-nos os olhos da cara. E aqueles 1766 milhões de euros vão ser pagos por nós, os nossos filhos e os nossos netos.

Pedro Passos Coelho podia ter feito melhor? Sim, podia e devia. Cuidou do buraco do estado, descuidou do buraco dos bancos. No Banif, arrastou os pés. Fez mal.

António Costa podia ter feito melhor? Sim, podia e devia. Faltavam só onze desluminosos dias para a entrada em vigor da nova regulamentação europeia para resgates bancários que poupa os contribuintes. Desde 1 de Janeiro, são os depositantes acima de 100 mil euros, os obrigacionistas seniores e o sistema financeiro europeu a tapar os buracos dos bancos.

O governo português diz que foi obrigado a esta solução pela "inquietude e pressão" da Comissão. Esta lava as mãos da asneira dizendo que a operação foi "da total responsabilidade das autoridades portuguesas". Um deles está a mentir.

Ricardo Cabral, bloguista do Público, aconselhou o governo a interpor uma acção no Tribunal Europeu contra a Comissão e o BCE. Só o anúncio desta acção podia aumentar o nosso "poder negocial" na UE. Mas, como muito bem observou a The Economist, a geringonça ladra muito em Lisboa, mas, quando chega a Bruxelas, não morde.

segunda-feira, 23 de maio de 2016

Sem comentários

Público: Então não sente que o país agora está dependente das taxas de juro baixas do BCE e da sua promessa de apoio em caso de necessidade?
Peter Praet (Comissão executiva do BCE): Recentemente, vimos as taxas de juro de Portugal a subir. Isto mostra que a disciplina do mercado está presente, mesmo apesar do facto de o BCE comprar dívida pública do país. Portugal não deve esquecer esta mensagem: a disciplina do mercado ainda está presente. E depois há os ratings. Quando fazemos compras de activos, olhamos para as agências de rating. Há apenas uma com o nível mínimo para Portugal e é de BBB-.


(...)
PúblicoO FMI calcula que, ao actual ritmo, o BCE vai atingir o limite de obrigações portuguesas que pode comprar até ao fim do ano. Irá Portugal ter um problema aqui?


Peter Praet: Não quero fazer comentários a esta questão.

sexta-feira, 29 de abril de 2016

Campanha eleitoral*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Passou mais um 25 de Abril — o quadragésimo segundo.

No parlamento, o PCP deu palco a Rita Rato para mais um discurso “patriótico e de esquerda”; o bloco de esquerda passou o microfone a Jorge Costa que execrou as “ingerências” da “Europa”; o PS deu o púlpito ao “jota” João Torres que se disse na “segunda república” (deve achar que Afonso Costa e Mário Soares foram presidentes, mas que Salazar foi rei); os falantes da direita, Nuno Magalhães e Paula Teixeira da Cruz, lá enfrentaram o sobrolho carregado de Vasco Lourenço.

Valha a verdade, ninguém prestou muita atenção até Marcelo começar a falar. Esta celebração do “dia inicial inteiro e limpo” correu muito bem ao novo PR. Até o poeta Alegre já se alistou na CRPMRS (Comissão de Reeleição do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa).


Fotografia de Bruno Simão para o Jornal de Negócios

O presidente avisou que o país não pode “viver, sistematicamente, em campanha eleitoral”. Não pode, não, mas não tem acontecido outra coisa desde que a Troika se foi embora: Maria Luís Albuquerque desistiu de antecipar pagamentos ao FMI para ter folga em 2015; Mário Centeno acaba de adiar pagamentos previstos ao FMI em 2016 e 2017 e está a aproveitar a folga para tratar bem os táxis, para prover um IVA fofinho aos restaurantes, para fazer carinhos à banca e atestar camiões com diesel “espanhol”, ...

Vamos continuar em campanha eleitoral. Nada vai alterar isso enquanto as sondagens não mexerem.

2. A administração do Centro Hospitalar Tondela-Viseu tomou posse em Novembro de 2013 para um mandato de três anos. Se o presidente daquela empresa pública se “despedisse” agora, o seu substituto seria nomeado só para sete meses até serem completados os tais três anos; é uma imposição legal.

A crítica que fiz aqui ao presidente do conselho de administração do hospital por não ter posto o seu lugar à disposição mal tomou posse o novo governo deve, agora, ser lida à luz desta informação que me foi dada por Ermida Rebelo e que agradeço.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Guitarrada*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Há muito tempo que a política portuguesa não andava tão interessante. Pena é ser por más razões: a situação enfatua os políticos, encafua-os em fila nas televisões, arrecua-os em desassossegos, amua-os em teatreirices.

Escrevo este texto na terça-feira, 16 dias depois das eleições. Só hoje o presidente da república começou a receber os partidos. Não há ainda novo parlamento. Dezasseis dias depois.

Entretanto, a coligação de direita já “dá” mais de mil milhões de euros em concessões ao PS. O que Costa está a conceder ao bloco e à CDU para se manter ao de cima da água não se conhece mas adivinha-se.

É o nosso fado: ir de bancarrota em bancarrota.


2. Declaração de interesses — pertenço aos corpos sociais do Cine Clube de Viseu, o que me leva a falar dele aqui menos do que devia.

O CCV foi fundado em 1955 e está um pujante “sexigenário”. A cidade e a região devem muito a este colectivo que tem sabido sobreviver ao duro teste do tempo sem estrelas nem “mentores”. Um só exemplo: toda a actual “movida” estival no centro histórico começou, em 2009, com as sessões de cinema na Praça D. Duarte.


Fotografia daqui
Aproveito o pretexto de o CCV ter passado esta semana “Verdes Anos”, o clássico do “cinema novo” com a música eterna de Carlos Paredes, para lembrar um concerto do mestre da guitarra em Viseu, no final de 1989, organizado pelo CCV e a Acert para o Auditório Mirita Casimiro, no tempo em que esta sala de espectáculos não tinha as teias de aranha de agora.

Carlos Paredes era um génio modesto e tímido. Ele chegou a Viseu muito constipado e foi levado ao Hotel Avenida para descansar antes do concerto. O José Rui Martins, da Acert, pediu na recepção que levassem um chá ao músico e, quando o foi lá buscar, encontrou um Carlos Paredes muito melhor e entusiasmadíssimo.

«Sabe,» contou ele, «são uma simpatia aqui. Até me trouxeram um chá ao quarto. Mandei entrar a senhora e, como não sabia como lhe agradecer, toquei-lhe uma guitarrada...»

sexta-feira, 28 de agosto de 2015

Elites*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Depois dos milhões e milhões da “Europa” e das privatizações, as nossas elites deram-nos três bancarrotas, um estado disfuncional (só funciona o fisco) e endividado (com défices ano após ano); deram-nos um estado capturado (mal a troika saiu, logo os remédios recomeçaram a aumentar) e injusto (Ricardo Salgado destruiu a PT e as poupanças de milhares de pessoas mas continua a apanhar o sabonete no chuveiro de sua casa).

As nossas elites não criam riqueza, vivem aconichadas ao estado e compram a decisão política. E, com Barroso e Sócrates, habituaram-se a consegui-la barata. Veja-se o caso dos submarinos ou das PPP ou da Parque Escolar.

Em matéria de responsabilidade social, basta lembrar que a Pordata, da fundação do Pingo Doce, é só um oásis no deserto da nossa filantropia privada. Como os nossos ricos sempre foram assim, já ninguém estranha.


2. Já nos EUA o falhanço das elites na guerra do Iraque e na actual crise global acendeu um debate intenso. Um dos livros sobre este assunto com mais impacto foi “O Crepúsculo das Elites: a América depois da Meritocracia”, de Christopher Hayes.

Nele, Hayes defende duas teses. A primeira constata algo que sempre se repetiu ao longo da história: também as elites norte-americanas perderam o contacto com a vida real dos “de baixo” e tornaram-se irresponsáveis.

A segunda tese é inesperada: a “meritocracia”, a escolha dos melhores através de provas duras e objectivas, é um avanço que é consensual à direita e à esquerda, mas que tem dois grandes problemas:

(i) leva à “oligarquia” já que só os ricos podem pagar aos seus filhos as ferramentas cognitivas necessárias para superarem as provas de admissão nas melhores escolas;

(ii) o mérito demonstrado e o trabalho árduo são um pretexto moral poderoso para justificar o aumento da desigualdade, mesmo quando esta é cada vez mais insuportável.

3. O que o PS, PSD e CDS querem fazer às receitas da segurança social diz tudo sobre a irresponsabilidade das nossas elites.

quinta-feira, 20 de agosto de 2015

José Sócrates, o senhor não é um preso político

Daqui

1 - Independentemente da melhor ou pior qualidade da investigação do ministério público — para já, recorde-se, todos os recursos da defesa foram recusados pelos tribunais superiores —, ela, a investigação do ministério público, não vai "condicionar as próximas eleições e impedir a vitória do PS", nem está a ser feita para isso ou por isso;

2 - Independentemente dos longos meses que o ministério público já gastou sem ainda ter formalizado a acusação — prazo longuíssimo que, sendo iníquo, já vem do tempo em que o senhor era primeiro-ministro e não fez nada para alterar — esses longos meses não vão "condicionar as próximas eleições e impedir a vitória do PS", nem estão a ser gastos para isso ou por isso;


3 - O que pode eventualmente "condicionar as próximas eleições e impedir a vitória do PS" é se o partido socialista não deixar claro ao eleitorado que nunca mais repetirá o autoritarismo negocista dos seus governos, movido a PPPs e endividamento insano e que levou o país à bancarrota.

sexta-feira, 10 de julho de 2015

Caixa de remédios*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Em 1945, depois dos anos de guerra, a Grã-Bretanha estava falida. A sua dívida pública era superior a 200% do PIB, pior que a actual dívida grega. A libra segurava-se com dificuldade e só porque havia travões severos à saída de dinheiro do país.


Jardins Efémeros — 2015
Fotografia Olho de Gato
Naquele aperto, Lord John Maynard Keynes foi encarregado de ir pedir assistência aos Estados Unidos. O velho sábio estava optimista, contava conseguir uma doação substancial ou, então, um empréstimo sem juros.

Chegado lá, quanto mais ele lembrava a devastação da guerra, mais os seus interlocutores se mostravam implacáveis. A doutrina dos acordos de Bretton Woods, assinados no ano anterior, impunha a convertibilidade das moedas. Lord Keynes bem o sabia já que tinha também sido ele a chefiar a delegação britânica em 1944. O problema é que a convertibilidade significava fuga de capitais. Um desastre.

Em Bretton Woods, Keynes tinha sido um negociador duro. Desta vez, de uma forma inesperada, ele abriu a porta à “troca” de um empréstimo pelo levantamento dos controles de saída de dinheiro. Os americanos agarraram a “oferta” com as duas mãos, a delegação britânica ainda tentou apear Keynes mas... tarde demais.

A Sky News lembrou este caso em Fevereiro, para meter memória histórica nas negociações que então Varoufakis iniciava em Bruxelas. Aquela cedência de Keynes fez com que o dinheiro escoasse do país à mesma velocidade com que agora a política do Syriza o fez voar dos bancos gregos.

A Sky levanta uma hipótese perturbante: lord Keynes, que tinha tido vários ataques cardíacos, andava a tomar medicamentos pouco convencionais, desde comprimidos de ópio a tiopentato de sódio, um “soro da verdade”, e que aquela asneira negocial terá sido cometida debaixo da influência daquele soro.

Negociações desta amplitude podem ter consequências durante décadas. Depois de ter despedido com justa causa Varoufakis, é melhor que Tsipras espreite também a caixa de remédios de Euclid Tsakalotos.

sábado, 4 de julho de 2015

Atenas não será vencida! — um texto de JB*

* Um comentário de JB ao post "Separar as águas" publicado ontem neste blogue e no Jornal do Centro



«Os gregos podem falhar, mas resistiram contra os tecnocratas que detestam a democracia».

«Deixem-se estar quietinhos porque as consequências serão terríveis. A realidade é muito forte e quem a contestar verá cair-lhe em cima toda a força dos poderosos.» – que atiram à cara dos que discordam a PDR (puta da realidade), Pacheco Pereira.

A crise da Europa é também a crise da esquerda, a crise da Internacional Socialista e daqueles dirigentes que, dizendo-se socialistas, estão a permitir esta vergonha.

Recordo o Discurso de Péricles aos Atenienses – poema de Manuel Alegre:


Deixai-os em treino permanente
Como se a vida fosse apenas exercício
Atenas ama o vinho e a poesia
E Esparta o sacrifício

Que nos acusem de vida fácil e leviandade
Que digam que não sabemos guardar segredo
Nem combater
Em Atenas reina a liberdade
E em Esparta o medo

A nossa força é a diferença

Não são precisas provações nem disciplina
Atenas vive como quer e como gosta
Porque a nossa coragem não se aprende não se ensina
A nossa é de nascença
E não imposta

Deixai-os pois dizer que vão vencer
Eles fogem da vida por temor da morte
Nós vamos para a morte por amor da vida
E enquanto Esparta só combate por dever
Nós iremos lutar com alegria

Por isso Atenas não será vencida

Conclusão:

1 - A mensagem que a UE está a passar é esta: o país que eleger um governo fora dos grupos PPE e Socialists & Democrats (S&D) leva com o cartão vermelho – rua!

2 - E isto não tem pés nem cabeça: Nem “sim” nem “não”. Comunistas apelam a gregos para anular boletim de voto.

3 - O PS votou contra os votos de solidariedade com a Grécia propostos por PCP e BE. Tomando devida nota.

4 - «Quem não é solidário com um vizinho que tem a casa em chamas não é só (também) um solidário de merda para com o mapa-mundi: é acima de tudo um estúpido que escolhe a causa do fogo, estando a sua casa ao lado» - António Gil

E ainda:

Condenar "repressão política em Angola"? Apenas o BE e um deputado do PS.

Voto de condenação pela "repressão em Angola" teve a oposição do PSD, PS, CDS, PCP e Partido Ecologista "Os Verdes" – DN on line

É por estas e por outras que estar ao lado de Albert Camus é sempre a LIBERDADE!

Mesmo a concluir:

Admiro a paciência de quem ainda se preocupa com a “democraticidade” do PS Viseu.

Até podem pôr o Rato Mickey na lista….!

Não perguntes por quem os sinos dobram, eles dobram por ti.


Mil vezes OXI! (Fotografia daqui)

sexta-feira, 12 de junho de 2015

Mordomos*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Em 2010, o supremo tribunal americano, no caso "Citizens United versus Federal Election Commision", decidiu que qualquer empresa, sindicato ou associação pode contribuir sem limites para as campanhas políticas, com o fundamento absurdo de que as entidades colectivas devem ter os mesmos direitos que os indivíduos. Onde havia "um-homem-um-voto" passa a haver uma espécie de "um-dólar-um-voto".

Como explica Guy Standing, em "O Precariado A Nova Classe Perigosa", este "acontecimento retrógado" vai chegar a "todo o lado" já que as decisões do supremo americano tornam-se "precedentes globais".




2. Durão Barroso e José Sócrates não precisaram de esperar por este "precedente global" americano para misturarem política com negócios. Eles fizeram o papel de "mordomos" políticos de Ricardo Salgado e a coisa correu mal. Levou-nos à bancarrota de 2011 e tudo quanto é grande empresa, seja ela rentista ou produtiva, foi sendo adquirida por capital estrangeiro.

No trambolhão foram-se os dois mastodontes do regime — a EDP e a PT. Décadas de acumulação patrimonial, proveniente de preços protegidos, estão agora ao serviço de estratégias não portuguesas.

Lembro um negócio de energia e outro de media que ajudaram a esta descida ao inferno:

— a concessão em 2008 das novas barragens à EDP por 700 milhões de euros para "compor" o défice daquele ano foi uma irracionalidade económica e ecológica; ainda por cima, destruiu a beleza única do vale do Tua; poucos anos depois, aquela operação desastrosa — feita por um terço do seu valor de mercado — escorregou pelas três gargantas chinesas abaixo;

— a migração da televisão analógica para a TDT, levada a cabo pela PT, mais bem dito, levada a cabo pelo divino espírito santo que era quem mandava na PT, obrigou os portugueses a gastar dinheiro para ficarem com... os mesmos quatro canais que já tinham. Até a TDT grega tem 17 canais. Foi um golpe inqualificável nos portugueses mais pobres, mais sós e mais velhos.


quinta-feira, 11 de junho de 2015

Arqueologia da bancarrota de 2011

Ao longo do ano de 2010, a república portuguesa viu o seu acesso aos mercados a ficar cada vez mais caro e difícil. O seu rating foi trambolhando enquanto o então primeiro-ministro, José Sócrates, ia fazendo PECs a seguir a PECS, e ia adjudicando obras-públicas à Mota Coelho Espírito Santo Engil e à Lena.

A conversa dos papagaios das televisões, durante todo aquele ano, não passou nunca de variações em dó menor acerca dos maus fígados das empresas de rating que se tinham mancomunado com os senhores do universo para fazer mal ao país. Isto é, o país não estava informado de que já não havia dinheiro para pagar os défices que, então, atingiam dois dígitos. 

Ao mesmo tempo, e em desespero, o chefe do governo de então corria a pedir dinheiro, em vão, aos kadhafis deste mundo.

O país estava bloqueado politicamente, com um governo minoritário em negação e cheio de pensamento mágico, com o primeiro-ministro, tal qual a Maya, a apelar às "energias positivas" e um presidente da república, sempre timorato, a assistir a toda esta degradação e bloqueio apenas preocupado com a sua reeleição.

Depois de uma das campanhas eleitorais mais lamentáveis da história da terceira república, Cavaco lá foi reeleito no início de 2011.

Fernando Teixeira dos Santos, em Abril, não aguentou mais e pediu o resgate, quando os cofres públicos já só tinham 300 milhões de euros. 

Pela terceira vez em 40 anos,  Portugal ficou sob tutela, uma nada discreta tutela dos credores que nos emprestaram 78 mil milhões, 40% do PIB (!).

Este acto em 25ª hora de Fernando Teixeira dos Santos valeu-lhe ontem, no 10 de Junho comemorado em Lamego, a Grã-Cruz da Ordem Militar de Cristo.

Fotografia de Paulo Novais/Lusa (daqui)


Disse ele ontem aos jornalistas:  “O sr. Presidente veio reconhecer o mérito dessa decisão [de pedir auxílio à troika] que foi um serviço prestado ao país. Teve o privilégio de o reconhecer na minha pessoa o que me deixa muito honrado.” 

Teixeira dos Santos devia ter batido o pé mais cedo a José Sócrates? Claro que sim e ele já o reconheceu.

Mas a responsabilidade não foi só dele. Isso competia, em primeira linha, a Cavaco e ao PS. Cavaco não esteve  à altura das suas responsabilidades e o partido socialista deixou-se anular pelo autoritarismo negocista socrático, tendo-se transformado numa máquina de poder caudilhista e sem valores. 

(Um parêntesis: a última convenção socialista com uma votação "albanesa", com um só voto contra de Maria Rosário Gama , deve inquietar quem julgava que o PS já recuperara dos anos socráticos de demissão cívica dos seus dirigentes e quadros).

Regressando-se ao tópico: o pedido do resgate devia ter sido na segunda metade de 2010. O meio ano de atraso custou ao país mais "suor e lágrimas" do que teria sido necessário. 

Contudo, como já detalhado, esse ónus não pode nem deve ficar só sobre o peito de Teixeira dos Santos. Que lhe fique ao peito antes, porque é justa, esta condecoração.

quinta-feira, 14 de maio de 2015

Ó meu rico Santo Antoninho, tomara cá o dia do voto! — um texto de JB*



Chegados ao fim da legislatura mais violenta de que há memória, os portugueses constatam que os seus sacrifícios não melhoraram a situação do país nem das pessoas.
O ódio aos trabalhadores está patente nos cortes salariais e, sobretudo, nas alterações aos códigos de trabalho e fiscais, modificados em favor das entidades empregadoras. Desde o dia em que tomou posse, este governo pôs em prática um plano de empobrecimento do país publicamente assumido, iniciando em simultâneo a perseguição aos mais fracos, os pensionistas e os idosos em geral. Milhares de pessoas sem emprego. Milhões a viverem abaixo do limiar da pobreza. Centenas de milhares de jovens a emigrar e sem perspectiva de vida.


É verdade que "atrás de tempos vêm tempos e outros tempos hão-de vir", mas vivemos dos momentos mais tristes da nossa história. O caso português é especialmente doloroso, justamente por Abril se ter desmoronado tão completamente e a rendição ser tão grande — sejam organizações, sejam pessoas — que mesmo o cravo, hoje, se tornou uma lágrima de sangue, do sangue da ingenuidade com que se deixou os lobos à solta, como provoca um sentimento dual quando o vejo na lapela de um Pedro Passos Coelho. Por um lado 'irrita-me' o cinismo do acto, por outro acho que está certo! Não fosse o cravo o símbolo maior de uma tão grande generosidade, nunca o Coelho teria sido o primeiro-ministro de Portugal...

“Isto” já só me causa uma revolta tão grande, daquela 'raiva' em que os olhos se molham, com o baixar das próprias armas ideológicas, é a "esquerda" que me dá 'asco' e desgosto. A direita cumpre maravilhosamente o seu papel. A "esquerda" é que se demitiu de o ser.

Quanto o Partido Socialista, todos os dias reafirma ser um “partido de esquerda”. Mas o que é ser um partido de esquerda nos tempos actuais, neste mundo globalizado comandado e controlado pelo capital financeiro, pelos “mercados” financeiros? Quando vemos os partidos europeus da área da social-democracia, partidos ideologicamente irmãos do PS - partidos socialistas, trabalhistas e social-democratas - abandonarem a ideologia que sempre disseram defender e abraçarem a ideologia neoliberal, o liberalismo arcaico ressuscitado do século XIX, será de questionar o Partido Socialista Português sobre qual o seu verdadeiro posicionamento actual.

Desde 2011 que nenhuma sondagem dá maioria absoluta ao Partido Socialista.

“Seguro era um líder fraco e sabia que era fraco. A sua “abstenção violenta” ficará para a história como uma página de vergonha para o PS e a sua colaboração de facto com o governo mais reaccionário de sempre feriu profundamente a imagem do PS.” – cito José Vítor Malheiros.

O estudo encomendado por António Costa a 12 economistas para servir de base a um programa de governo socialista representa uma viragem na política portuguesa. Não porque seja algo de extraordinário ou impensável, pelo contrário, devia ser uma coisa natural e até obrigatória. Mas não. Em Portugal, não é hábito o debate político basear-se em estudos e documentos de especialistas, valendo antes a improvisação e as promessas sem substância. O documento tem falhas e omissões? Ainda bem… Estou farto dos “filhos” do que “nunca tem dúvidas e raramente se engana”.

Agora, há correcções urgentes, caso contrário o Partido Socialista vai “passivamente render-se às inevitabilidades", perdendo espaço e possibilidade de acção transformadora. É hoje preocupante observar que as distâncias programáticas entre a direita e o PS se vão atenuado. E cresce o coro dos que aconselham António Costa a fugir de "radicalismos", a "não estragar" as propostas dos tecnocratas do centrão de interesses cujo trabalho científico é "oferecido" a um ou outro lado, apenas com nuances de forma. (Ler declarações de Catroga e puxar autoclismo...).

Fica claro que com este documento se torna difícil uma aproximação do PS à esquerda. As propostas revelam pouca vontade em levar a cabo uma política de real combate às desigualdades e à pobreza, aos privilégios dos poderosos, à corrupção e aos interesses ilegítimos, de defesa do Estado Social e dos serviços públicos, de defesa do emprego. Se for governo, irá provavelmente adoptar políticas fiscais menos penalizadoras dos trabalhadores e políticas sociais mais generosas que o actual governo PSD-CDS e isso será melhor do que o status quo actual, mas será dramaticamente insuficiente.

Por outro lado, a direita tem razões para estar preocupada, pois apareceu uma alternativa que quer reorganizar a austeridade, cedendo o mínimo possível aos mínimos sociais. O PS move-se para o centro em matérias como o controlo do défice e dá um passo para o liberalismo económico puro e duro nas fórmulas que propõe para os despedimentos ou nos cortes permanentes na TSU para as empresas. É de assinalar o empenho na execução dos fundos europeus, o imposto sobre as heranças ou a reposição de alguns mínimos sociais e do RSI, mas isso não chega. Sobre educação nem vale a pena falar, pois as propostas são tão básicas ou penalizadoras dos professores (exemplo penalizar quem concorrer “várias vezes”) que ainda vão acabar por recuperar a “Senadora” Lurdes Rodrigues. O processo de branqueamento do “período negro” já começou quando vemos o sr. Albino Almeida na primeira fila de eventos do PS/Porto.
Costa é perentório: "Ninguém peça ao PS compromissos com este Governo" – “Expresso”- 25 Abril, mas é interessante ouvir um habitual comentador PPD (Pedro Marques Lopes) dizer: “O PSD subscreveria este documento”.

No essencial, o que está em cima da mesa não é o fim da austeridade, mas apenas o abrandamento do seu ritmo. É a partir daqui que se fazem as escolhas…


"Quando não sabes para onde hás-de ir, 
lembra-te de onde vens"
Roberto Rossellini (realizador italiano)

JB


* JB está desertinho para ir votar

sexta-feira, 8 de maio de 2015

O cartel*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Imagem daqui
1. Todos os partidos, todos numa comovente unanimidade, acabam de “regulamentar” o controle das contas dos grupos parlamentares pelo Tribunal Constitucional, em vez de o entregarem ao Tribunal de Contas.

É este que tem a experiência e a capacidade para verificar e sancionar as contas dos organismos públicos, ainda não há muito ele encontrou irregularidades no próprio Tribunal Constitucional, mas os partidos, todos eles, preferem entregar o serviço a quem não tem os meios para o fazer.

Porque será?

2. Depois da terceira bancarrota, depois da austeridade e do armarfanhamento da nossa soberania, cresceu a insatisfação com o cartel partidário. Há mais abstenção, há mais votos nulos e em branco e há mais votos de protesto, como se viu nas últimas autárquicas com a eleição de muitos independentes e nas europeias com o voto em Marinho e Pinto.

O “arco da corrupção” — PS, PSD e CDS — está capturado pelo negocismo e o rentismo. As nossas elites não produzem riqueza, só sabem viver aconichadas ao estado.

O “arco do protesto” — Bloco e PCP — é formado por virgens que, para não pecarem, são sempre do contra e nunca querem ir para o governo.

Ora, este bloqueio ainda não vai ser resolvido nas próximas legislativas. Em cinco meses, é difícil que apareça um partido como o Ciudadanos espanhol capaz de causar um rombo eleitoral significativo nos partidos do cartel. O PDR de Marinho e Pinto vai entrar no parlamento mas não parece capaz de fazer grandes estragos.

3. A nossa Segurança Social, para além de um fundo de reserva de 11 mil milhões de euros, tem 14 mil milhões de receitas por ano e gasta 13 mil milhões em pensões. Está, portanto, equilibrada e é sustentável.

Entretanto, apareceram uns “macroeconomistas” do PS de António Costa a quererem cortar 1,7 mil milhões de euros de receitas anuais da Segurança Social.


Fotografia daqui

E se fossem antes mexer na herança da vovó deles e deixassem o futuro das pensões em paz?

sábado, 2 de maio de 2015

"Meraki" e "filotimo", dois valores gregos, dois valores universais

Fotografia daqui

We are to highlight whatever best Greece and Hellenism has: ‘meraki’ (dedication to effort), ‘filotimo’, (sense of duty) solidarity, humaneness, hospitality, uprightness, imagination, creativity, alacrity of wit needed for productivity. 
This is our Greece of values.
George Papandreou, 2.5.2010, 
um homem que foi atropelado pela história há exactamente cinco anos,
discurso completo aqui 


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Listas VIP*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



Fotografia editada
a partir daqui
1. Em 2012, publiquei aqui uma lista VIP por boas razões. Hoje vou publicar outra mas as razões não são boas.

Recordemos: há três anos foram cortados os subsídios de férias e de Natal e essa tesourada parecia irreversível. Os papagaios das televisões defendiam a bondade da coisa — havia que assegurar o fluxo regular de doze remunerações da tesouraria das empresas e das instituições.

Cavaco amochou e assinou o orçamento. O líder de então do PS, António José Seguro, fez uma “abstenção violenta”. Isto é, amochou. Jerónimo de Sousa idem, idem.

As coisas só não se consumaram graças ao bloco de esquerda e a um grupo de deputados socialistas que decidiram questionar a constitucionalidade daquele corte no Tribunal Constitucional. Muito mordiscados pelos impostos, mas ainda temos subsídios graças àqueles 25 deputados.

Na altura, fiz aqui uma lista VIP com todos os deputados socialistas que afrontaram Seguro. Nenhum deles de Viseu, registe-se.


2. Os cleptocratas angolanos estão, mais uma vez, a perseguir o jornalista Rafael Marques por este contar o que se passa naquele país.

Há duas semanas, o bloco de esquerda apresentou um texto no nosso parlamento que terminava assim: “[a assembleia da república] condena a perseguição de que Rafael Marques continua a ser vítima em Angola e apela às autoridades e instâncias judiciais angolanas para que velem no sentido de ser anulado o julgamento.”

Ora, mesmo muito moderado, o texto não passou no parlamento. Só o bloco e cinco deputados do PS votaram a favor daquele apelo para que Angola respeite a liberdade de expressão.

Maria Ester Vargas, Teresa Costa Santos, João Figueiredo, Pedro Alves, Arménio Santos (PSD); Hélder Amaral (CDS); Elza Pais, Acácio Pinto, José Junqueiro (PS). Estes são os nove deputados eleitos no distrito de Viseu. Nenhum deles “condena a perseguição a Rafael Marques”. Nem um. Zero em nove. Perante os donos de Angola, esta é uma lista VIP de nove zeros.