* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 4 de Setembro de 2009
1. Em Agosto, publiquei aqui uns Ele e Ela que justificam o velho “precautório”: naquelas histórias qualquer semelhança com a realidade é pura coincidência.
Preciso de ser ainda mais explícito: embora em Viseu haja muitos quebra-corações, não é verdade que me estivesse a referir a alguém em concreto ao ter criado a personagem Chico, no Ele e Ela de 21 de Agosto.
Portanto, por favor, não me perguntem mais quem é o Chico.
2. No último sábado, no lançamento do romance “A Revolução de António e Oriana”, de Joaquim Sarmento, houve intervenções de qualidade. Numa delas, José Mário Ferreira de Almeida, presidente da assembleia municipal, disse que via rostos de Lamego em quase todas as personagens do romance.
Ao ouvir aquilo, pensei logo:
«Pronto! O Sarmento está ainda mais ensarilhado que eu. Eu é só o Chico. Ele tem um romance cheio de criaturas a cirandarem e a fazerem cócegas aos lamecenses…»
Sorri e esperei.
Sábio, Joaquim Sarmento, na intervenção final, vincou bem vincado que as personagens do romance tinham saído em exclusivo da sua imaginação e do seu sonho. Portanto, aquelas personagens são só o que se espera que sejam: personhagens.
3. Setembro e Outubro são meses de eleições. Há que olhar para “o que se passa” e, infelizmente, “o que se passa” não anda bom de ver.
Vemos partidos ricos num país pobre, partidos que vão gastar 13 milhões de euros nas legislativas e 78 milhões nas autárquicas. Ao todo 91 milhões de euros. “Ostentação pornográfica” chamou-lhe Henrique Monteiro, o director do Expresso.
Já aqui o escrevi – as eleições legislativas e autárquicas deviam ser no mesmo dia. Poupava-se tempo e dinheiro. E evitava-se muita abstenção.
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quarta-feira, 4 de setembro de 2019
quarta-feira, 21 de agosto de 2019
Ele e Ela (IX)*
* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008, 2009, 2011 e 2012 no Jornal do Centro.
Este #9 foi publicado há exactamente dez anos, em 21 de Agosto de 2009.
— Olá! Há tanto tempo que não te via… ainda te lembras de mim?
— Claro, fomos da mesma turma no liceu…
— Eras o melhor aluno da turma.
— Sim, mas quem tirava as melhores notas era o Chico.
— Então que fizeste nestes anos todos?
— O trivial: ganhei dinheiro, perdi cabelo.
— Casaste? Tens filhos?
— Eu?! Eu sou um solitário…
— Não acredito!
— Verdade. Estou mais sozinho que a eólica que se vê na A25, junto ao nó de Talhadas. Gosto de chamar aventoinhas às eólicas.
— Aventoinhas? Bonito!
— As aventoinhas são sempre muitas, umas ao pé das outras. Só conheço uma aventoinha solitária, aquela na A25. Aquela aventoinha é como eu, sozinha, a abanar ao vento…
— Então e a tua namorada do liceu? Tu continuaste com ela na faculdade…
— Só que entretanto o Chico comprou um Porsche descapotável…
— …?!
— Depois, aos 35 anos, ainda estive noivo de uma dentista.
— Alguém do nosso tempo do liceu?
— Não. Era lisboeta. As coisas estavam encarreiradas. Data marcada para o casório e tudo…
— Que aconteceu?!
— …o Chico teve um problema num dente e foi lá ao consultório…
— …?!
— A partir daí não quis mais nada a sério com ninguém…
— Fico triste. Se há alguém que merecia ter tido sorte, és tu. Sempre te admirei muito…
— Foi uma surpresa tão boa ver-te ao fim destes anos todos! Tu estás óptima! Podíamos ir jantar…
— Gostava muito, mas não posso. Há bocado encontrei o Chico. Prometi que ia jantar com ele…
quarta-feira, 14 de agosto de 2019
Ele e ela (#8)*
* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008, 2009, 2011 e 2012 no Jornal do Centro.
Este #8 foi publicado há exactamente dez anos, em 14 de Agosto de 2009
— Cuidado, vai devagar!
— É a primeira vez que andas no meu carro. Aviso-te já: eu sou um bom condutor. Guio há muitos, muitos anos, e nunca bati…
— Estou nervosa. Simpatizei contigo logo quando te vi na FNAC. Atenção à curva…
— Foi tão giro! Em milhares de livros que lá havia e ambos a querermos o mesmo livro.
— Sim. Eu tinha lido “na palma da tua mão” num blogue. Queria o livro que tivesse esse poema. Trava! Olha o TIR amarelo…
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| Imagem daqui |
— “E na palma da tua mão
busco ternura
sem contar meses,
anos, dias
sem saber dizer”…
— … “sem saber dizer
se já te chorei
por inteiro
o suficiente
para não voltar a perder-te”.
Tão lindo! Tão triste! Gosto tanto da poesia de Vasco Gato! Estamos a chegar à cidade. Abranda.
— Deixa-me apertar a tua mão. E eles na FNAC foram ver à base de dados e só havia aquele exemplar em todas as lojas da rede.
— Foste tão simpático. Deixaste que eu ficasse com ele. Já o li tanta vez! Devagar! Olha a passadeira…
— … parecia o destino. Estava ali aquela mulher linda, linda, linda, que gostava de poesia… deixa-me sentir a palma da tua mão…
— Gostei de te conhecer ali. Os disparates que dissemos no café da FNAC! Cuidado, devagar!, a rotunda está com água…
— “Voa comigo nos ombros da noite
enlaçados como dedos e dedos
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| Imagem daqui |
na ternura completa das mãos”.
Quero-te desde aquele dia. Sonho com esta noite desde aquele dia. Desejo-te agora. Quero-te tanto!
— Acelera! Rápido! Ainda só está no amarelo…
quarta-feira, 7 de agosto de 2019
Ele e ela (#7) *
* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008, 2009, 2011 e 2012 no Jornal do Centro.
Este #8 foi publicado há exactamente dez anos, em 7 de Agosto de 2009
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| Imagem daqui |
— Hmmmm… bom…
— Estava cheio de saudades.
— Estavas nada, mentiroso…
— Saudades muitas. Tu sabes. Tens lume?
— Não se fuma no quarto.
— Antes não dispensávamos um cigarrinho depois…
— Disseste “antes cigarrinho depois”… lol...
— Lol?! O que é isso?!
— Internet. Esquece…
— Já estás com os teus enigmas outra vez, é? Apetece-me um cigarro…
— Aqui no quarto, já te disse, agora não se fuma.
— Que está a dar na televisão?
— Deixa lá a televisão. Abraça-me.
— Como tem sido este último ano?
— Trabalho muito para me esquecer de tudo. Tomo comprimidos para dormir e tenho ajudado a minha mãe nas doenças dela…
— A tua mãe? Muito do que aconteceu foi por culpa dela…
— A minha mãe ajudou-me sempre nos meus problemas.
— A tua mãe é o teu único problema.
— Não digas isso…
— A tua mãe é uma víbora.
— Não te admito isso…
— É uma víbora. Espalha veneno em todo o lado. Até foi dizer mal de mim para a empresa.
— Isso não é verdade!
— Foi. Teve azar a velhadas, viram-na entrar para o gabinete do meu chefe.
— Se foi lá, foi tratar de algum assunto…
— Foi largar veneno, a víbora.
— Abraça-me. Preciso de carinho.
— Tenho um compromisso. Tenho que me ir embora.
— És sempre o mesmo. Um egoísta! Um merdas! Quero divorciar-me de ti!
— Mas nós estamos divorciados já há um ano…
— Quero o divórcio outra vez!
quarta-feira, 26 de dezembro de 2018
Dois "ele e ela"
Duas canções que o politicamente correcto tem tentado censurar
— 1 —
— 1 —
1944. Ele queria. Ela queria. Estava frio lá fora.
Este vídeo apresenta duas versões da história, na segunda as falas dele passam para ela, nem assim os neo-puritanos aplacarão a sua pulsão censória e, se derem conta, ainda o denunciam ao YouTube.
Setenta e quatro anos depois, é preciso explicar o contexto todo aos neo-puritanos.
A continuarem assim, eles vão acabar por ficar em casa a aliviarem-se sozinhos, ou, então, para poderem acasalar, terão que previamente assinar declarações de permissão cheias de cláusulas em juridiquês cerrado e letrinha pequenina.
Mais detalhes aqui
— 2 —
Neste caso a estupidez dos chuis da linguagem não é menor.
O dispositivo narrativo desta canção de Natal sublime também é um diálogo entre um ele e um ela, em que, a determinada altura, se começam a insultar um ao outro:
You're a bum
You're a punk
You're an old slut on junk
Lying there almost dead on a drip in that bed
You scumbag, you maggot
You cheap lousy faggot
Happy Christmas your arse
I pray God it's our last
Duas personagens zangadas a atirarem palavras más uma à outra.
Os chuis da linguagem não entendem que, na ficção, é normal que o mau use palavras más.
E, acima de tudo, não percebem que o autor tem o direito à sua liberdade de expressão.
Censores estúpidos como uma carroça. O costume.
Mais detalhes aqui
quarta-feira, 29 de agosto de 2018
Ele e ela (VI)*
* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 29 de Agosto de 2008
— Finalmente! Onde estiveste?
— Estou a chegar do trabalho…
— Liguei para o teu escritório. Disseram que já tinhas saído…
— Havia muito trânsito. Passei na lavandaria para buscar o teu fato Armani; o que comprámos em Nova York…
— Às três não estavas no serviço…
— …?
— … não estavas, não… a tua secretária disse-me.
— Já te pedi para não ligares para o telefone da empresa. Liga-me antes para o telemóvel. Tive uma manhã infernal. Estamos a preparar a compra de uns terrenos. Só consegui ir comer qualquer coisa tardíssimo…
— Terrenos? É melhor nem dares pormenores…
— Vamos ter visitas hoje…
— Ai sim? Podias, ao menos, ter-me dito qualquer coisa…
— … convidei o meu sócio e a mulher para jantarem cá …
— Não percebo.
— O quê?!
— Estás sempre a dizer mal dela e agora convida-la cá para casa?
— Não digo nada mal dela… só que ela, antigamente, era muito ciumenta.
— Pois… cada um sabe as linhas com que se cose…
— Era bom que nós os quatro convivêssemos mais. Para nos conhecermos melhor e acabarem os mal-entendidos. Até porque é da empresa que vem quase todo o nosso rendimento…
— Já sei que ganho pouco.
— Não disse nada disso. Estou tão cansada da tua hostilidade…
— Vou pedir à empregada para preparar jantar para quatro.
— Depois, manda-a embora mais cedo. Vou tomar um banho.
— Ok.
— Sabes? O meu sócio deixou de ter problemas com a mulher…
— Ai, sim? Como?
— Agora eles visitam casais amigos e fazem swing…
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| El Angel Exterminador, Luis Buñuel |
— Finalmente! Onde estiveste?
— Estou a chegar do trabalho…
— Liguei para o teu escritório. Disseram que já tinhas saído…
— Havia muito trânsito. Passei na lavandaria para buscar o teu fato Armani; o que comprámos em Nova York…
— Às três não estavas no serviço…
— …?
— … não estavas, não… a tua secretária disse-me.
— Já te pedi para não ligares para o telefone da empresa. Liga-me antes para o telemóvel. Tive uma manhã infernal. Estamos a preparar a compra de uns terrenos. Só consegui ir comer qualquer coisa tardíssimo…
— Terrenos? É melhor nem dares pormenores…
— Vamos ter visitas hoje…
— Ai sim? Podias, ao menos, ter-me dito qualquer coisa…
— … convidei o meu sócio e a mulher para jantarem cá …
— Não percebo.
— O quê?!
— Estás sempre a dizer mal dela e agora convida-la cá para casa?
— Não digo nada mal dela… só que ela, antigamente, era muito ciumenta.
— Pois… cada um sabe as linhas com que se cose…
— Era bom que nós os quatro convivêssemos mais. Para nos conhecermos melhor e acabarem os mal-entendidos. Até porque é da empresa que vem quase todo o nosso rendimento…
— Já sei que ganho pouco.
— Não disse nada disso. Estou tão cansada da tua hostilidade…
— Vou pedir à empregada para preparar jantar para quatro.
— Depois, manda-a embora mais cedo. Vou tomar um banho.
— Ok.
— Sabes? O meu sócio deixou de ter problemas com a mulher…
— Ai, sim? Como?
— Agora eles visitam casais amigos e fazem swing…
quarta-feira, 22 de agosto de 2018
Ele e ela (V)*
* Publicado há exactamente dez anos, em 22 de Agosto de 2008

— Olá! Cheguei!
— «I've got a gal who's always late
Ev'ry time we gota a date
But I love her
Yes, I love her!»
— Desculpa… atrasei-me muito?
— O costume:
«A minha namorada atrasa-se sempre
todas as vezes que temos um encontro
mas eu amo-a
sim eu amo-a!»
— Maluco, olha as pessoas a olharem para nós… Gosto do Joe Jackson a cantar isso: “Is you is or is you ain't my baby…”
— Eu prefiro a Diana Krall.
— Joe Jackson é muito melhor! Tem mais álcool e tabaco na voz…
* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008, 2009, 2011 e 2012 no Jornal do Centro.

Imagem daqui
— Olá! Cheguei!
— «I've got a gal who's always late
Ev'ry time we gota a date
But I love her
Yes, I love her!»
— Desculpa… atrasei-me muito?
— O costume:
«A minha namorada atrasa-se sempre
todas as vezes que temos um encontro
mas eu amo-a
sim eu amo-a!»
— Maluco, olha as pessoas a olharem para nós… Gosto do Joe Jackson a cantar isso: “Is you is or is you ain't my baby…”
— Eu prefiro a Diana Krall.
— Joe Jackson é muito melhor! Tem mais álcool e tabaco na voz…
— Mexe-te. Vamos ver se ainda há bilhetes. Tu e os teus atrasos…
— Que filme queres ver?
— O novo com o Heath Ledger…
— Aquele do filme dos cowboys maricas?
— Sim. Agora faz de Joker no “Cavaleiro das Trevas”. Ainda ganha um Óscar póstumo.
— Este ano vi um filme de seis estrelas: o “Haverá Sangue”. É um filme para gente grande, não uma coisa para putos como as que tu gostas…
— «Is you is or is you ain't my baby?
The way you're actin' lately makes me doubt»
The way you're actin' lately makes me doubt»
— Duvidas? Estás com dúvidas sobre mim, é?
— Vim a ouvir a Diana Krall a cantar isso no carro. Aplica-se a ti. Chegas sempre atrasada. Ultimamente, estás pior…
— Que queres? O Francis Obikwelu também se atrasou e é um dos teus heróis…
— Mas é a ti que eu dou a medalha de ouro…
— Pronto, chatinho, peço desculpa mais uma vez…
— Agora já não há bilhetes para o Batman …
— Deixa lá… vamos mas é passear de carro de mãos dadas… Ouvir o Joe Jackson…
* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008, 2009, 2011 e 2012 no Jornal do Centro.
quarta-feira, 15 de agosto de 2018
Ele e ela (IV)*
* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 15 de Agosto de 2008
— Bom dia!
— Bom dia, minha senhora!
— Este é que é o comboio para o Mindelo?
— É. Esta linha do metro passa no Mindelo.
— Vou lá ver a minha filha. Casou-se muito bem. O meu genro é segurança no Norte Shopping e a minha filha faz lá limpezas.
— É bom ter emprego. O Porto está em crise. Só fazem obras em Lisboa….
— O meu falecido morreu nas obras em França. Foi de salto para lá. Não tinha papéis. O patrão dele nem no seguro o tinha! O meu homem caiu dum andaime. Fiquei viúva…
— Tempos difíceis…
— Tive que criar a minha filha sozinha. Esta estação já é Mindelo?
— Não, minha senhora. É Pedras Rubras.
— O senhor também vai para o Mindelo?
— Não. Continuo até à minha terra, Vila do Conde…
— Eu sou da Queiriga. Acartei muito saco de batatas à cabeça…
— Queiriga? Onde é?
— Em Vila Nova de Paiva. Perto de Viseu. Agora, em Agosto, lá é só franceses! É aqui, Mindelo?
— Ainda não…
— O meu neto anda a estudar para doutor…
— Isso é bom. Que curso é?
— Médico. Só tira vintes. Está sempre a ler…
— Parabéns, minha senhora! Isso é um grande curso!
— A minha neta também quer ir para médica. Mas está com medo que não haja vaga para ela. Os exames este ano foram demasiado fáceis. Até os burros vão ter boas notas!
— Minha senhora, olhe a placa ali a dizer Mindelo…
— É aqui que eu saio! Muito obrigada por tudo. Desculpe, senhor, se o incomodei… é que eu… eu… eu não sei ler…
— Bom dia!
— Bom dia, minha senhora!
— Este é que é o comboio para o Mindelo?
— É. Esta linha do metro passa no Mindelo.
— Vou lá ver a minha filha. Casou-se muito bem. O meu genro é segurança no Norte Shopping e a minha filha faz lá limpezas.
— É bom ter emprego. O Porto está em crise. Só fazem obras em Lisboa….
— O meu falecido morreu nas obras em França. Foi de salto para lá. Não tinha papéis. O patrão dele nem no seguro o tinha! O meu homem caiu dum andaime. Fiquei viúva…
— Tempos difíceis…
— Tive que criar a minha filha sozinha. Esta estação já é Mindelo?
— Não, minha senhora. É Pedras Rubras.
— O senhor também vai para o Mindelo?
— Não. Continuo até à minha terra, Vila do Conde…
— Eu sou da Queiriga. Acartei muito saco de batatas à cabeça…
— Queiriga? Onde é?
— Em Vila Nova de Paiva. Perto de Viseu. Agora, em Agosto, lá é só franceses! É aqui, Mindelo?
— Ainda não…
— O meu neto anda a estudar para doutor…
— Isso é bom. Que curso é?
— Médico. Só tira vintes. Está sempre a ler…
— Parabéns, minha senhora! Isso é um grande curso!
— A minha neta também quer ir para médica. Mas está com medo que não haja vaga para ela. Os exames este ano foram demasiado fáceis. Até os burros vão ter boas notas!
— Minha senhora, olhe a placa ali a dizer Mindelo…
— É aqui que eu saio! Muito obrigada por tudo. Desculpe, senhor, se o incomodei… é que eu… eu… eu não sei ler…
* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008, 2009, 2011 e 2012 no Jornal do Centro.
quarta-feira, 8 de agosto de 2018
Ele e ela (#3)*
* Publicada no Jornal do Centro ha exactamente dez anos, em 8 de Agosto de 2008
— …ainda aparece por aí algum ex-namorado da Elsa Raposo.
— Tem juízo!
— Querida, calmex!
— Está calor aqui dentro. Porcaria de quarto!
— Já liguei o ar condicionado…
— Escusavas de atirar o teu saco à bruta. És sempre o mesmo!
— No banco foram porreiros, pá. Emprestaram-nos a massa para as férias num fósforo.
— Pois. Quantos meses de prestações?
— Dezoito. Não te preocupes.
— Podíamos, ao menos, ter trazido a tua mãe!
— Só faltava mais essa! Ainda se perdia aí na marina com algum milionário grego. Olha, lá em baixo, aquela lasca no bronze. Uau! Aquilo é silicone do melhor!
— Sai da janela! Ainda dás mau jeito ao pescoço.
— Então, linda, quando é que inauguras o teu biquini novo?
— Tem tempo. Que barulho é este?
— Barulho? Não oiço nada…
— Estás mouco? Não ouves este ronco?
— Ronco?
— É a televisão?
— Está desligada.
— É o ar condicionado?
— De facto, há aqui um barulho.
— Assim não vai dar para dormir. Que inferno! Não quero este quarto.
— Espera! Parece que vem daqui…
— Do teu saco?!
— Já descobri! Foi a escova dos dentes que se ligou…
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| Fotografia de Eunice Stahl |
— Que quarto lindo! Vê-se a marina. Tanto iate! Aqui é só gajos cheios de graveto…
— Não gosto do quarto. Os cortinados são pirosos. Azul cueca! Credo!
— …ainda aparece por aí algum ex-namorado da Elsa Raposo.
— Tem juízo!
— Querida, calmex!
— Está calor aqui dentro. Porcaria de quarto!
— Já liguei o ar condicionado…
— Escusavas de atirar o teu saco à bruta. És sempre o mesmo!
— No banco foram porreiros, pá. Emprestaram-nos a massa para as férias num fósforo.
— Pois. Quantos meses de prestações?
— Dezoito. Não te preocupes.
— Podíamos, ao menos, ter trazido a tua mãe!
— Só faltava mais essa! Ainda se perdia aí na marina com algum milionário grego. Olha, lá em baixo, aquela lasca no bronze. Uau! Aquilo é silicone do melhor!
— Sai da janela! Ainda dás mau jeito ao pescoço.
— Então, linda, quando é que inauguras o teu biquini novo?
— Tem tempo. Que barulho é este?
— Barulho? Não oiço nada…
— Estás mouco? Não ouves este ronco?
— Ronco?
— É a televisão?
— Está desligada.
— É o ar condicionado?
— De facto, há aqui um barulho.
— Assim não vai dar para dormir. Que inferno! Não quero este quarto.
— Espera! Parece que vem daqui…
— Do teu saco?!
— Já descobri! Foi a escova dos dentes que se ligou…
* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008, 2009, 2011 e 2012 no Jornal do Centro.
quarta-feira, 1 de agosto de 2018
Ele e ela (#2) *
* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 1 de Agosto de 2008
— É um jantar normal.
— …não vês? É o melhor restaurante da cidade. Abriu na semana passada.
— Almocei cá ontem com o meu chefe…
— Agora andas sempre ocupada. Sempre ao computador. Sempre ao telemóvel. Lá estás tu outra vez. Deixa lá as mensagens! Vamos conversar…
— Podíamos ter ficado em casa. Estou sem apetite.
— …em casa não falamos. Agora nunca falamos.
— Não há nada para dizer.
— Está aqui a ementa. Peixe ou carne?
— Escolhe tu qualquer coisa. Já te disse. Não tenho apetite…
— Uma dose de dourada grelhada, por favor, e um alvarinho branco fresco. Pode ser de Monção. Viste a carta do banco? Vamos pagar mais 12 euros na prestação.
— Estamos a ficar como o país: mais pobres e mais azedos.
— Olha, o indiano das flores! Por favor, uma vermelha… Para ti, querida. A tua cor.
— Escusavas. Nunca pensas no futuro. És sempre o mesmo!
— Tristezas não pagam dívidas.
— Dívidas não apagam tristezas.
— Não sejas assim! Porque andas assim?
— Assim como?!
— Ponha aqui a travessa, por favor. Cuidado com a flor! Posso servir-te?
— Não, eu sirvo-me.
— A dourada está boa.
— Assim-assim.
— A noite ainda é uma criança. Podíamos ir vadiar…
— Não. Quero ir para casa. Tenho que mandar uns mails.
— Guias tu ou guio eu?
— Guia tu.
— Deixaste a tua flor vermelha em cima da mesa…
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Imagem daqui
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— Querida, este jantar é especial…
— É um jantar normal.
— …não vês? É o melhor restaurante da cidade. Abriu na semana passada.
— Almocei cá ontem com o meu chefe…
— Agora andas sempre ocupada. Sempre ao computador. Sempre ao telemóvel. Lá estás tu outra vez. Deixa lá as mensagens! Vamos conversar…
— Podíamos ter ficado em casa. Estou sem apetite.
— …em casa não falamos. Agora nunca falamos.
— Não há nada para dizer.
— Está aqui a ementa. Peixe ou carne?
— Escolhe tu qualquer coisa. Já te disse. Não tenho apetite…
— Uma dose de dourada grelhada, por favor, e um alvarinho branco fresco. Pode ser de Monção. Viste a carta do banco? Vamos pagar mais 12 euros na prestação.
— Estamos a ficar como o país: mais pobres e mais azedos.
— Olha, o indiano das flores! Por favor, uma vermelha… Para ti, querida. A tua cor.
— Escusavas. Nunca pensas no futuro. És sempre o mesmo!
— Tristezas não pagam dívidas.
— Dívidas não apagam tristezas.
— Não sejas assim! Porque andas assim?
— Assim como?!
— Ponha aqui a travessa, por favor. Cuidado com a flor! Posso servir-te?
— Não, eu sirvo-me.
— A dourada está boa.
— Assim-assim.
— A noite ainda é uma criança. Podíamos ir vadiar…
— Não. Quero ir para casa. Tenho que mandar uns mails.
— Guias tu ou guio eu?
— Guia tu.
— Deixaste a tua flor vermelha em cima da mesa…
quarta-feira, 25 de julho de 2018
Ele e ela (#1)*
* Publicado há exactamente dez anos, em 25 de Julho de 2008
— Hello! Que bom ouvir-te!
— Saudades?
— Muitas. Muitas, muitas, muitas…
— Assim, não dá. Precisamos de estar juntos…
— Queria tanto, mas não tenho nota…
— Pede ao teu pai. Ele dá-te sempre.
— Anda à rasca. A prestação da casa subiu bué.
— E a tua mãe?
— Faz cento e setenta quilómetros por dia para ir dar aulas. Gasta o ordenado no gasóleo e ainda tem que aturar a sinistra…
— Isto tá quilhado!
— Tá uma merda! Tenho tantas saudades de ti! Logo à noite quero-te na web. Quero ver-te. Tá?
— Queres, nininha linda?
— Muito! Tanto! Tantas saudades!
— OK. Comprei umas calças baril na Desigual…
— Hmmm…
— Podíamos ir ao Sudoeste. Há aqui um gajo fixe que nos dá boleia. Passamos aí a buscar-te. Levo a tenda. Nós dois na tenda...
— Hmmmmmmm …
— Adoro a Björk!
— Queria tanto encostar-me a ti a ouvir o Jorge Palma!
— Então? Vais ou não?
— Já te disse. Não tenho nota.
— Só precisas de arranjar para o bilhete. O resto é comigo.
— Não tenho.
— Nina, porque não fazes como eu? O teu portátil das Novas Oportunidades está novo?
— Liguei-o só uma vez. Uma seca. Fica muito lento com o Vista…
— Então, tá novo. Tenho aqui um vizinho que dá 200 euros por ele…
— Iupi!
— Tá descansada! Logo combinamos tudo no Messenger. Tchau, nina!
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| Imagem daqui |
— Hello, nina!
— Hello! Que bom ouvir-te!
— Saudades?
— Muitas. Muitas, muitas, muitas…
— Assim, não dá. Precisamos de estar juntos…
— Queria tanto, mas não tenho nota…
— Pede ao teu pai. Ele dá-te sempre.
— Anda à rasca. A prestação da casa subiu bué.
— E a tua mãe?
— Faz cento e setenta quilómetros por dia para ir dar aulas. Gasta o ordenado no gasóleo e ainda tem que aturar a sinistra…
— Isto tá quilhado!
— Tá uma merda! Tenho tantas saudades de ti! Logo à noite quero-te na web. Quero ver-te. Tá?
— Queres, nininha linda?
— Muito! Tanto! Tantas saudades!
— OK. Comprei umas calças baril na Desigual…
— Hmmm…
— Podíamos ir ao Sudoeste. Há aqui um gajo fixe que nos dá boleia. Passamos aí a buscar-te. Levo a tenda. Nós dois na tenda...
— Hmmmmmmm …
— Adoro a Björk!
— Queria tanto encostar-me a ti a ouvir o Jorge Palma!
— Então? Vais ou não?
— Já te disse. Não tenho nota.
— Só precisas de arranjar para o bilhete. O resto é comigo.
— Não tenho.
— Nina, porque não fazes como eu? O teu portátil das Novas Oportunidades está novo?
— Liguei-o só uma vez. Uma seca. Fica muito lento com o Vista…
— Então, tá novo. Tenho aqui um vizinho que dá 200 euros por ele…
— Iupi!
— Tá descansada! Logo combinamos tudo no Messenger. Tchau, nina!
* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008, 2009, 2011 e 2012 no Jornal do Centro.
sexta-feira, 13 de julho de 2018
Ele e ela (XV)*
* Hoje no Jornal do Centro
— Olá, querido, finalmente juntos e ao vivo.
— Tens razão, foi uma noite inesquecível aquela em que te conheci... mas no dia seguinte começava aquele curso de empreendedorismo em Londres...
— Foi boa, sim, mas soube a pouco e ainda não sei nada de ti. Durante estes meses, a tua conversa na net foi sempre a mesma: start-ups, unicórnios, janelas de oportunidade, candidaturas ao vinte-vinte, ou lá o que é isso...
— Chateia-te eu querer ser rico?
— Chateia-me não saber nada de ti, nem da tua família.
— Sou de uma família de falhados. O meu avô, um triste, montou uma fábrica de máquinas a petróleo em 1960...
— Máquinas a petróleo?
— Sim, eram muito usadas nas cozinhas antes de aparecerem os fogões a gás. O meu avô fez a fábrica quando estavam a chegar as botijas ao mercado. Um nabo. Faliu...
— Coitado, foi azar...
— Azar nada, o meu avô não percebia nada de empreeendedorismo, destratar a minha avó sabia ele, investir, não. Mas o meu pai fez pior...
— Então?!
— Em 1983, aquela besta enterrou uma fortuna numa fábrica de máquinas de escrever...
— Não correu bem?
— Claro que não. A IBM tinha lançado o primeiro PC dois anos antes. Estava-se mesmo a ver que o futuro ia ser das impressoras. O meu pai para tratar mal a minha querida mamã tinha muito jeito, para o empreendedorismo, nenhum...
— Empreendedorismo, empreendedorismo, estás sempre com isso na boca...
— Foi para isso que fui para Londres...
— Foi por isso que só tivemos aquela noite.
— ... e, enquanto estava lá, tive uma ideia para um negócio infalível...
— Infalível?
— Claro, não vou ser um falhado como o meu avô e o meu pai...
— Que vais fazer?
— Vou fazer um franchise de escolas tauromáquicas.
* Todas as crónicas desta série podem ser lidas no blogue Olho de Gato, na etiqueta "Ele e ela"
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| Fotografia de Christin Hume |
— Olá, querido, finalmente juntos e ao vivo.
— Tens razão, foi uma noite inesquecível aquela em que te conheci... mas no dia seguinte começava aquele curso de empreendedorismo em Londres...
— Foi boa, sim, mas soube a pouco e ainda não sei nada de ti. Durante estes meses, a tua conversa na net foi sempre a mesma: start-ups, unicórnios, janelas de oportunidade, candidaturas ao vinte-vinte, ou lá o que é isso...
— Chateia-te eu querer ser rico?
— Chateia-me não saber nada de ti, nem da tua família.
— Sou de uma família de falhados. O meu avô, um triste, montou uma fábrica de máquinas a petróleo em 1960...
— Máquinas a petróleo?
— Sim, eram muito usadas nas cozinhas antes de aparecerem os fogões a gás. O meu avô fez a fábrica quando estavam a chegar as botijas ao mercado. Um nabo. Faliu...
— Coitado, foi azar...
— Azar nada, o meu avô não percebia nada de empreeendedorismo, destratar a minha avó sabia ele, investir, não. Mas o meu pai fez pior...
— Então?!
— Em 1983, aquela besta enterrou uma fortuna numa fábrica de máquinas de escrever...
— Não correu bem?
— Claro que não. A IBM tinha lançado o primeiro PC dois anos antes. Estava-se mesmo a ver que o futuro ia ser das impressoras. O meu pai para tratar mal a minha querida mamã tinha muito jeito, para o empreendedorismo, nenhum...
— Empreendedorismo, empreendedorismo, estás sempre com isso na boca...
— Foi para isso que fui para Londres...
— Foi por isso que só tivemos aquela noite.
— ... e, enquanto estava lá, tive uma ideia para um negócio infalível...
— Infalível?
— Claro, não vou ser um falhado como o meu avô e o meu pai...
— Que vais fazer?
— Vou fazer um franchise de escolas tauromáquicas.
* Todas as crónicas desta série podem ser lidas no blogue Olho de Gato, na etiqueta "Ele e ela"
quinta-feira, 7 de julho de 2016
Corta-unhas
Na loja, peço à sorridente chinesa:
— Um corta-unhas, por favor.
— Tem aqui. Glande ou pequeno? [sorrisos]
— Este é bom?
— Pode expelimentale... [risos]
— ...
— Expelimente é em si... [gargalhadas]
Expelimentei. Um euro.
Antes de enferrujar, perco-o.
quinta-feira, 31 de março de 2016
Arco-Íris*
* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 31 de Março de 2006
Chovia como num filme de Andrei Tarkovski. Água, muita água, cântaros de água, caíam dos céus. Finalmente, a tão esperada chuva caía horas seguidas sobre a cidade, limpando o ar.
Eles iam a sorrir. Um com o outro. Um para o outro. Um ele e uma ela. Rua abaixo. Eram donos da vida e do tempo. Nem viam as montras nem as pessoas. Passavam por cima da água que não vencia a estreiteza das sarjetas.
Entre eles era uma raiva brincada. “Maldito sejas!”; “maldita sejas!”; “cala-te!”; “não me calo nem me fico, quem é que julgas que és tu, meu palerma?”. Aquelas palavras soavam, nos ouvidos deles, como um carinho. Instalara-se entre eles aquela ternura estranha. Aquele paradoxo. A chuva ria-se daquela dessintonia entre as palavras deles e o gostar deles.
As pessoas olhavam e desviavam-se. Tinha que ser pois eles, como já se disse, não viam ninguém. Nem das poças de água se desviavam.
Entraram numa pastelaria. Pediram o mesmo chá de tília para duas chávenas. A mesma torrada para dois. Partilharam as fatias de dentro da torrada. As fatias sem côdea, a escorrer manteiga. As melhores. Ele, desajeitado, queimou-se no bule. Deitou chá na chávena dela, na dele e no tampo da mesa. Sorriam enquanto o calor das chávenas lhes aquecia as mãos. Saíram, desatentos do mundo, sem esperarem pelo troco. Regressaram à chuva.
Ele estendeu a mão para ela. Ela para ele. Olharam-se no fundo dos olhos. A chuva fria, agora, já não caía com tanta força. Podia-se dizer (se não fosse um disparate) que a chuva agora tinha clareiras.
Abraçaram-se com faíscas nos olhos. Os lábios aproximaram-se.
Chovia como num filme de Andrei Tarkovski. Água, muita água, cântaros de água, caíam dos céus. Finalmente, a tão esperada chuva caía horas seguidas sobre a cidade, limpando o ar.
Eles iam a sorrir. Um com o outro. Um para o outro. Um ele e uma ela. Rua abaixo. Eram donos da vida e do tempo. Nem viam as montras nem as pessoas. Passavam por cima da água que não vencia a estreiteza das sarjetas.
Entre eles era uma raiva brincada. “Maldito sejas!”; “maldita sejas!”; “cala-te!”; “não me calo nem me fico, quem é que julgas que és tu, meu palerma?”. Aquelas palavras soavam, nos ouvidos deles, como um carinho. Instalara-se entre eles aquela ternura estranha. Aquele paradoxo. A chuva ria-se daquela dessintonia entre as palavras deles e o gostar deles.
As pessoas olhavam e desviavam-se. Tinha que ser pois eles, como já se disse, não viam ninguém. Nem das poças de água se desviavam.
*****
Entraram numa pastelaria. Pediram o mesmo chá de tília para duas chávenas. A mesma torrada para dois. Partilharam as fatias de dentro da torrada. As fatias sem côdea, a escorrer manteiga. As melhores. Ele, desajeitado, queimou-se no bule. Deitou chá na chávena dela, na dele e no tampo da mesa. Sorriam enquanto o calor das chávenas lhes aquecia as mãos. Saíram, desatentos do mundo, sem esperarem pelo troco. Regressaram à chuva.
*****
Ele estendeu a mão para ela. Ela para ele. Olharam-se no fundo dos olhos. A chuva fria, agora, já não caía com tanta força. Podia-se dizer (se não fosse um disparate) que a chuva agora tinha clareiras.
Abraçaram-se com faíscas nos olhos. Os lábios aproximaram-se.
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Fotografia daqui
No céu acendeu-se um arco-íris. |
quarta-feira, 22 de julho de 2015
Verão* — Ele e ela (#0)**
* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 22 de Julho de 2005
** Série que pode ser lida toda nesta etiqueta: Ele e Ela
Estava ainda calor, apesar do sol há muito se ter escondido debaixo do mar, para os lados de Aveiro.
Ele e ela iam na Avenida da Europa, a pé, lado a lado.
Eles tinham-se habituado àquela hora de caminhar. Era diária aquela rotina de Verão. Sem pressa, mas também sem paragens, entendiam aquele passeio como uma terapêutica. Era uma hora a gastar energia; um substituto dos ginásios, cansativos demais, caros demais.
Todas as noites de Verão, aquela era a hora de caminhar. Primeira etapa: de casa até ao relógio do Polis. A seguir, Avenida da Europa para cima e para baixo. Cinco quilómetros, mais coisa menos coisa.
A casa ficava, de janelas abertas, à espera da brisa da meia-noite.
— Afinal, sabes, tudo o que nos está a acontecer é porque Portugal é pobre.
— De espírito.
— Lá estás tu. Sempre a mangar. Sempre são seis vírgula oitenta e três de défice, disse o Constâncio.
— Vírgula setenta e dois. Contas erradas. É um problema, a matemática. A matemática dele, do Constâncio.
— Isto está mal. Nós somos pobres.
— O problema não é sermos pobres. O problema é termos cada vez menos gente nas aldeias.
— Não percebo.
— Pois.
— Explicas?
— Há um livro agora que se vende muito que diz que o mal dos portugueses é a inveja. Eu não li. Ouvi falar nele. É de um filósofo. Qualquer coisa Gil.
— Não conheço. Filósofos só conheço o pai do Dinis.
— Esse? Vai ter uma vitória bárbara. Tem muitas ideias num documento, no computador; mais de trinta mil vezes bateu ele no teclado.
— Achas que ele ganha?
— De Caras.
— Ao menos isso… Mas não percebi a das aldeias.
— Pois.
— Explicas?
— Gosto de caminhar por esta Avenida da Europa abaixo. É a descer. Cansa menos.
— Estás cada vez mais preguiçoso, mais langão.
— Pois. Põe-me defeitos, que eu gosto…
— Olha para a tua barriga…
— Gosto de ver a Sé daqui. Gosto de ver o prédio da caixa.
— Dizem que é para deitar abaixo. Pelo menos cinco andares.
— Vai ser tudo no mesmo ano. Eles prometeram. Em 2015, implodem o prédio e inauguram o TGV. O Barroso e o Aznar vão ser os maquinistas e o Ruas vai ser o pica-bilhetes.
— Pois. Mas ainda não explicaste o problema de haver menos gente nas aldeias.
— É como te digo. Isto é um país de invejosos. É o que diz o qualquer coisa Gil. O filósofo. No tal livro que te falei.
— Já disseste isso. Também acho. Há muita inveja.
— Muita. Há mais inveja que Porsches. Viste aquele? Ia a mais de cem. Lindo!
— Em Viseu há gente com muita guita.
— Deve ser empreiteiro.
— Futebolista, talvez.
— Estás pior da cabeça! Então não sabes que o Académico está de rastos?
— Tá bem. É verdade. Mas podia ser aquele rapaz do Boavista que namora a Marisa Cruz. Ela vem cá muito a Viseu. É de cá. Ouvi dizer.
— Também ouvi dizer que ela é de cá…
— A Marisa podia dar-nos o Euromilhões. Isso é que nos dava jeito.
— Fazíamos uma vivenda na Quinta do Bosque…
— Do Lago…
— Do Bosque. Uma casa com piscina.
— Então não íamos viver para o Algarve?
— Não. Eu gosto da minha terra. Vai tu para o Algarve, se quiseres.
— Mas eu sempre quis uma casa à beira-mar…
— “A minha alegre casinha tão modesta à beira-mar”. Tivesses ido ao IberRock. Ouvir os Xutos.
— Com o bilhete a dezoito euros?
— Pois é. Não dá. A culpa do défice é dos professores…
— Tens razão.
— Foram os professores que puseram o país de tanga. Seis vírgula setenta e dois de défice!
— Mais ou menos isso.
— Depende se as contas estiverem bem. Os professores nem as contas ensinaram a fazer ao Constâncio. Os professores fazem muita sorna e reformam-se cedo. Foram eles que desgraçaram o país.
— Há quem diga que foram os polícias.
— Viste? Não multaram o gajo do Porsche.
— Uns calões! Não explicaste ainda aquela das aldeias…
— Fica para outra vez.
— Menina, dê-me um Cornetto de morango, por favor.
— Para mim um Magnum branco…
** Série que pode ser lida toda nesta etiqueta: Ele e Ela
Verão
Estava ainda calor, apesar do sol há muito se ter escondido debaixo do mar, para os lados de Aveiro.
Ele e ela iam na Avenida da Europa, a pé, lado a lado.
Eles tinham-se habituado àquela hora de caminhar. Era diária aquela rotina de Verão. Sem pressa, mas também sem paragens, entendiam aquele passeio como uma terapêutica. Era uma hora a gastar energia; um substituto dos ginásios, cansativos demais, caros demais.
Todas as noites de Verão, aquela era a hora de caminhar. Primeira etapa: de casa até ao relógio do Polis. A seguir, Avenida da Europa para cima e para baixo. Cinco quilómetros, mais coisa menos coisa.
A casa ficava, de janelas abertas, à espera da brisa da meia-noite.
— Afinal, sabes, tudo o que nos está a acontecer é porque Portugal é pobre.
— De espírito.
— Lá estás tu. Sempre a mangar. Sempre são seis vírgula oitenta e três de défice, disse o Constâncio.
— Vírgula setenta e dois. Contas erradas. É um problema, a matemática. A matemática dele, do Constâncio.
— Isto está mal. Nós somos pobres.
— O problema não é sermos pobres. O problema é termos cada vez menos gente nas aldeias.
— Não percebo.
— Pois.
— Explicas?
— Há um livro agora que se vende muito que diz que o mal dos portugueses é a inveja. Eu não li. Ouvi falar nele. É de um filósofo. Qualquer coisa Gil.
— Não conheço. Filósofos só conheço o pai do Dinis.
— Esse? Vai ter uma vitória bárbara. Tem muitas ideias num documento, no computador; mais de trinta mil vezes bateu ele no teclado.
— Achas que ele ganha?
— De Caras.
— Ao menos isso… Mas não percebi a das aldeias.
— Pois.
— Explicas?
![]() |
| Fotografia Olho de Gato |
— Gosto de caminhar por esta Avenida da Europa abaixo. É a descer. Cansa menos.
— Estás cada vez mais preguiçoso, mais langão.
— Pois. Põe-me defeitos, que eu gosto…
— Olha para a tua barriga…
— Gosto de ver a Sé daqui. Gosto de ver o prédio da caixa.
— Dizem que é para deitar abaixo. Pelo menos cinco andares.
— Vai ser tudo no mesmo ano. Eles prometeram. Em 2015, implodem o prédio e inauguram o TGV. O Barroso e o Aznar vão ser os maquinistas e o Ruas vai ser o pica-bilhetes.
— Pois. Mas ainda não explicaste o problema de haver menos gente nas aldeias.
— É como te digo. Isto é um país de invejosos. É o que diz o qualquer coisa Gil. O filósofo. No tal livro que te falei.
— Já disseste isso. Também acho. Há muita inveja.
— Muita. Há mais inveja que Porsches. Viste aquele? Ia a mais de cem. Lindo!
— Em Viseu há gente com muita guita.
— Deve ser empreiteiro.
— Futebolista, talvez.
— Estás pior da cabeça! Então não sabes que o Académico está de rastos?
— Tá bem. É verdade. Mas podia ser aquele rapaz do Boavista que namora a Marisa Cruz. Ela vem cá muito a Viseu. É de cá. Ouvi dizer.
— Também ouvi dizer que ela é de cá…
— A Marisa podia dar-nos o Euromilhões. Isso é que nos dava jeito.
— Fazíamos uma vivenda na Quinta do Bosque…
— Do Lago…
— Do Bosque. Uma casa com piscina.
— Então não íamos viver para o Algarve?
— Não. Eu gosto da minha terra. Vai tu para o Algarve, se quiseres.
— Mas eu sempre quis uma casa à beira-mar…
— “A minha alegre casinha tão modesta à beira-mar”. Tivesses ido ao IberRock. Ouvir os Xutos.
— Com o bilhete a dezoito euros?
— Pois é. Não dá. A culpa do défice é dos professores…
— Tens razão.
— Foram os professores que puseram o país de tanga. Seis vírgula setenta e dois de défice!
— Mais ou menos isso.
— Depende se as contas estiverem bem. Os professores nem as contas ensinaram a fazer ao Constâncio. Os professores fazem muita sorna e reformam-se cedo. Foram eles que desgraçaram o país.
— Há quem diga que foram os polícias.
— Viste? Não multaram o gajo do Porsche.
— Uns calões! Não explicaste ainda aquela das aldeias…
— Fica para outra vez.
— Menina, dê-me um Cornetto de morango, por favor.
— Para mim um Magnum branco…
sábado, 25 de outubro de 2014
quarta-feira, 21 de agosto de 2013
Ele e ela (#9) *
* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008, 2009, 2011 e 2012 no Jornal do Centro.
Este #9 foi publicado há exactamente quatro anos, em 21 de Agosto de 2009.
— Olá! Há tanto tempo que não te via… ainda te lembras de mim?
— Claro, fomos da mesma turma no liceu…
— Eras o melhor aluno da turma.
— Sim, mas quem tirava as melhores notas era o Chico.
— Então que fizeste nestes anos todos?
— O trivial: ganhei dinheiro, perdi cabelo.
— Casaste? Tens filhos?
— Eu?! Eu sou um solitário…
— Não acredito!
— Verdade. Estou mais sozinho que a eólica que se vê na A25, junto ao nó de Talhadas. Gosto de chamar aventoinhas às eólicas.
— Aventoinhas? Bonito!
— As aventoinhas são sempre muitas, umas ao pé das outras. Só conheço uma aventoinha solitária, aquela na A25. Aquela aventoinha é como eu, sozinha, a abanar ao vento…
— Então e a tua namorada do liceu? Tu continuaste com ela na faculdade…
— Só que entretanto o Chico comprou um Porsche descapotável…
— …?!
— Depois, aos 35 anos, ainda estive noivo de uma dentista.
— Alguém do nosso tempo do liceu?
— Não. Era lisboeta. As coisas estavam encarreiradas. Data marcada para o casório e tudo…
— Que aconteceu?!
— …o Chico teve um problema num dente e foi lá ao consultório…
— …?!
— A partir daí não quis mais nada a sério com ninguém…
— Fico triste. Se há alguém que merecia ter tido sorte, és tu. Sempre te admirei muito…
— Foi uma surpresa tão boa ver-te ao fim destes anos todos! Tu estás óptima! Podíamos ir jantar…
— Gostava muito, mas não posso. Há bocado encontrei o Chico. Prometi que ia jantar com ele…
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