Mostrar mensagens com a etiqueta Religiões. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Religiões. Mostrar todas as mensagens

sexta-feira, 18 de outubro de 2019

Obrigação e devoção*

* Hoje no Jornal do Centro

“Primeiro a obrigação, depois a devoção” é um provérbio antigo que nos diz para primeiro fazermos o que temos de fazer e só depois o resto (seja esse resto as coisas de Deus ou as coisas do curtir).

Tenha sido por causa do radão emitido pela Laje Gorda de Cepões, esse maciço de granito admirável onde está erigida a Ermida da Santa Eufémia, tenha sido pelas emoções da romaria que ali ocorre todos os anos em Setembro, o facto é que a peregrinação àquela santa pôs o presidente da câmara de Viseu e dois vereadores socialistas às voltas com o velho conflito entre a “obrigação” e a “devoção”.

Este jornal contou tudo numa notícia online que tem uns áudios hilariantes e o seguinte título: “Missa de Santa Eufémia em dia de reunião da câmara de Viseu origina críticas”.

Aquela nada laica discussão e o humor involuntário de António Almeida Henriques, Lúcia Silva e Pedro Baila Antunes, são de “gente que não sabe estar”.

Pelo que se percebe, o presidente da câmara e o vereador socialista naquele dia foram multitarefas: primeiro fizeram a obrigação (estiveram numa sessão da câmara a tratar de assuntos municipais em Viseu) e depois foram à devoção (à romaria e respectiva missa em Cepões). Já a vereadora socialista é monotarefa, só consegue fazer uma coisa de cada vez: por isso, tratou da devoção e baldou-se à obrigação.

Dias depois, António Almeida Henriques, malhou no estranho sentido de prioridades da vereadora. Mas é o delírio entre o presidente da câmara e o vereador, ...
Fotografia Olho de Gato
... acontecido na presença do crucifixo do salão nobre da câmara de Viseu, que merece especial destaque.

Atirou António Almeida Henriques: «quero dizer ao senhor vereador que fiquei muito incomodado, mesmo muito incomodado, por o ver na Santa Eufémia sem estar no lugar em que devia estar...»

Respondeu Pedro Baila Antunes: «tenho sérias dúvidas que o protocolo “exigisse” que eu estivesse ali no altar da Santa Eufémia...»

sexta-feira, 30 de agosto de 2019

Biopolítica*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Nos tempos que correm, uma boa parte dos assuntos da agenda mediática e política têm a ver com o corpo. São assuntos de biopolítica.

São as imposições alimentares, que tanto passam pela redução do sal e do açúcar como pelo crescente activismo veg que se vai radicalizar e tornar agressivo.

É, até, a construção do corpo dos políticos e a afirmação descomplexada das suas sexualidades: os peitorais de um deputado laranja, a tatuagem de uma deputada rosa que está no Tinder, a saída do armário da ministra da cultura e de um vice-presidente do CDS. E a este panorama só não se junta José Castelo Branco porque ele desistiu de ser candidato.

Atenção: este hedonismo corporal curte metodicamente o presente mas vive cheio de angústias com o futuro. As pessoas esculpem abdominais no ginásio enquanto vigiam o colesterol, fazem selfies à frente de sítios distantes a que chegaram com uma grande pegada de carbono enquanto se afligem com as catástrofes ecológicas, reais ou imaginárias, anunciadas todos os dias nos media e nas redes sociais.

2. Uma boa parte da direita na Europa, inspirada no papa Francisco e com uma pulsão anti-islâmica, assumiu o combate biopolítico contra as elites da globalização. Rejeita a UE, o casamento do mesmo sexo, os migrantes, os mercados desregulados, a austeridade, o consumismo e as GAFA (Google, Amazon, Facebook, Apple).

A direita está cada vez mais desconfortável com os valores cosmopolitas das grandes cidades e vai-se ruralizando. Algumas minorias, em coerência, abandonam as metrópoles e optam por uma agenda ecológica agressiva, instalando-se em pequenas comunidades com famílias e modos de vida tradicionais.

Por cá, a reacção do CDS e do PSD à lei da identidade de género nas escolas parece indicar que acordaram para estas querelas do corpo, onde o bloco e a ala esquerda do PS têm pontificado sem contraditório.

Com o atraso pátrio do costume, também entre nós a biopolítica vai passar a ser muito mais dura.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Höchster, mache deine Güte

Calvário, de Vasco Fernandes — Grão Vasco
(1530-1535)  

Höchster, mache deine Güte
Ferner alle Morgen neu.
So soll vor die Vatertreu
Auch ein dankbares Gemüte
Durch ein frommes Leben weisen,
Dass wir deine Kinder heißen.

Altíssimo, renova Tua bondade
A cada dia.
Assim, diante de Teu amor paternal,
A consciência agradecida
Mostrará, por meio de uma vida devota,
Que somos Teus filhos.


sexta-feira, 18 de janeiro de 2019

Paus — Resende*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Umberto Eco, num texto publicado no L'Espresso em 2005, escreveu que “o fundamentalismo cristão nasce nos ambientes protestantes e caracteriza-se pela decisão de interpretar literalmente as Escrituras” e que “não pode haver fundamentalismo católico” já que, “para os católicos, a interpretação das Escrituras é mediada pela Igreja.”

Nos católicos há uma “hermenêutica mais flexível” que admite que “a Bíblia recorria com frequência a metáforas e a alegorias”, nos protestantes não.

É muito fácil constatar isso agora com os evangélicos no poder no Brasil. A ministra Damares Alves, depois de ter avistado Jesus num pé de goiaba, depois de ter “aberracionado” mulher com mulher e homem com homem, veio lamentar que a teoria da evolução de Darwin seja ensinada nas escolas e exasperar-se por a ciência estar entregue a... cientistas.

2. Ora, nesta quadra do Natal, uma dezena de textos de dignitários católicos publicados no Observador, uns mais violentos, outros menos, todos debruçados sobre a virgindade de Maria, vieram mostrar que aquela regra da flexibilidade católica, enunciada por Eco, tem excepções.

Tudo começou com um artigo que transcrevia declarações do bispo do Porto, D. Manuel Linda, nascido na freguesia de Paus do concelho de Resende, em que ele apostolava que “nunca devemos referir a virgindade física da Virgem Maria”, a que se somavam as declarações de Anselmo Borges, nascido também em Paus, em que aquele padre e professor universitário dizia que Cristo foi concebido por Maria e José “como outra criança qualquer”.

D. Manuel Linda e Anselmo Borges

O que estes dois resendenses foram dizer... Caiu-lhes em cima uma chusma a malhar-lhes e a jurarem pelo hímen de Nossa Senhora. Um delírio literal igualinho ao da ministra Damares.

O bispo, coitado, lá teve de fazer uma espécie de marcha-atrás, Anselmo Borges encolheu os ombros, e eu fiquei com vontade de visitar aquela simpática terra do norte do distrito que deu dois homens bons à Igreja.

sexta-feira, 30 de novembro de 2018

Frankensteins*

* Hoje no Jornal do Centro

O think tank LEAP - Laboratório Europeu de Antecipação Política acaba de publicar um texto merecedor de muita atenção intitulado “Geopolítica das religiões: 2020, o choque dos monstros de Frankenstein”.


Daqui
É que o recente sucesso político dos evangélicos no Brasil, a oitava economia mundial, está longe de ser um fenómeno isolado. Eles já controlam parte dos eleitos nos Estados Unidos da América e estão a alastrar em força em África (especialmente os pentecostalistas).

A igreja católica brasileira ainda é a maior do mundo mas está a perder para os evangélicos meio milhão de fiéis por ano: no virar do milénio, representava 73,6% da população, agora, menos de 50%. Moisés Naím, em O fim do poder, explica esta hemorragia: “as ovelhas não foram roubadas. As ovelhas já não são ovelhas: são consumidoras e encontraram um produto melhor no mercado da salvação.”

Os evangélicos têm algumas regras e valores comuns e o seu sucesso advém-lhes da extrema agilidade com que se podem organizar, já que não têm de prestar contas a nenhuma “hierarquia pré-existente”, nem “lições a receber, instruções a esperar ou ordenações a obter do Vaticano, do Arcebispo de Cantuária ou de qualquer outra autoridade central.”

Entretanto, lembra o texto do LEAP, não são só eles a causarem sarilhos com as suas actividades não-espirituais: hindus extremistas perseguem diariamente cristãos e muçulmanos na Índia, budistas radicais cometem atrocidades contra os rohingya na Birmânia, o bolso sem fundo saudita financia o Daesh, a Al-Qaeda, o Boko Haram, os bolsos menos recheados iranianos pagam outro mostrengo, o Hezbollah, integristas judeus colonizam territórios palestinianos, a lista de horrores não tem fim.

Alguns destes frankensteins foram criados por serviços secretos mas escaparam ao controlo dos seus criadores. Misturam identitarismos religiosos, nacionalistas e étnicos e são um evidente perigo para estes tempos fascinantes que estamos a viver.

sexta-feira, 6 de julho de 2018

O lobo no saco*

* Publicado hoje no Jornal do Centro

Fotografia de Miguel A. Lopes

1. Os pesos pesados da política portuguesa subiram ao palco do Rock in Rio e xutaram a cantiga eterna: «as saudades que eu já tinha da minha alegre casinha, tão modesta como eu.» Por causa destes pontapés, Marcelo e os seus companheiros políticos de performance foram chamados de ridículos ou populistas ou as duas coisas.

Ridículos talvez tenham sido, populistas não. "Populista" é o "vem-aí-lobo!", é o novo nome do "homem-do-saco" que vem levar as criancinhas que não comem a sopa. Houve uma altura em que se chamava a tudo o que não agradava "fassista", agora é "populista".

Escusado será dizer que quando chegarem os lobos populistas, e eles vão mesmo chegar, a palavra já estará gasta, metida no fundo do saco da indiferença.


2. Os deputados da nação têm alegres casinhas, tristes casinhas, modestos primeiros andares, opulentos primeiros andares, é lá com eles.

Já não é com eles a espertalhonice com que arredondam o fim-do-mês ao declararem uma casinha longe do parlamento, mesmo quando pagam IMI alfacinha. 

Enquanto as pessoas andavam distraídas com o futebol, o parlamento excretou um "parecer jurídico" que passa uma esponja nesta espertalhonice. Uma anedota.


3. No domingo passado, a diocese de Viseu despediu-se do bispo D. Ilídio Leandro com uma merecida homenagem.

Homem bom, tolerante, atento, sensível, D. Ilídio foi uma lufada de ar fresco numa cidade e numa diocese enclausuradas demasiados anos no mundo reaccionário e ultramontano do bispo D. António Monteiro.

Para além desta oxigenação vivificadora da diocese, D. Ilídio iniciou uma mais que necessária recuperação patrimonial, muito bem sucedida na vertente dos bens culturais, não muito bem na parte imobiliária por causa da crise pós-2008.

Saneou, ainda, moralmente o Jornal da Beira. Aquele órgão de comunicação da diocese cumpre agora o seu papel, não é mais o pasquim alaranjado que era no virar do milénio.

Obrigado, D. Ilídio!

segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

Natal up-to-date

Presépio Cavalinho, de São Paio de Oleiros,
destruído num incêndio em Julho de 2016


Em vez da consoada há um baile de máscaras
Na filial do Banco erigiu-se um Presépio
Todos estes pastores são jovens tecnocratas
que usarão dominó já na próxima década

Chega o rei do petróleo a fingir de Rei Mago
Chega o rei do barulho e conserva-se mudo
enquanto se não sabe ao certo o resultado
dos que vêm sondar a reacção do público

Nas palhas do curral ocultam microfones
O lajedo em redor é de pedras da Lua
Rainhas de beleza vêm de helicóptero
e é provável até que se apresentem nuas

Eis que surge no céu a estrela prometida
Mas é para apontar mais um supermercado
onde se vende pão já transformado em cinza
para que o ritual seja muito mais rápido

Assim a noite passa E passa tão depressa
que a meia-noite em vós nem se demora um pouco
Só Jesus no entanto é que não comparece
Só Jesus afinal não quer nada convosco
David Mourão-Ferreira


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Atocha*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 7 de Dezembro de 2007

1. Madrid. Chega-se ao Memorial de Atocha através da estação. Uma sala azul, grande, redonda. A luz entra por uma cúpula de vidro. Onze metros de altura de vidro. 11M. No vidro, uma espiral de mensagens. Eis uma delas, só uma: “Maldita mochila maldita por siempre”. 2004. 11 de Março. 191 mortos. 2050 feridos. Mochilas de morte. Malditas.




A lavagem aos cérebros dos futuros mártires nunca pára nas madrassas do Paquistão e nas madrassas electrónicas dos sites fundamentalistas. Um dos países europeus em que esses sites são mais acedidos é Espanha. Milhares de câmaras de vídeo filmam, agora, todas as ruas de Madrid.

2. Merece ser conhecida a defesa que a psicóloga Wafa Sultan tem feito dos valores de uma sociedade aberta e laica. Pode ser vista a sua coragem e desassombro, a falar em árabe para árabes, na Al Jazeera. Basta pesquisar o seu nome no YouTube.

Deixo aqui algumas das suas ideias: “O choque que se vê no mundo é um choque entre uma mentalidade que pertence aos tempos medievais e uma mentalidade que pertence ao séc. XXI; é um choque entre aqueles que tratam as mulheres como animais e aqueles que as tratam como seres humanos.
Eu não sou uma cristã, uma muçulmana ou uma judia. Sou um ser humano laico. Não creio no sobrenatural mas respeito o direito dos outros em acreditar.
Não vimos nem um só judeu a fazer-se explodir num restaurante alemão.
Os muçulmanos transformaram três estátuas de Buda em cascalho. Não vimos nem um só budista a queimar uma mesquita, matar um muçulmano ou incendiar uma embaixada.
Só os muçulmanos defendem as suas crenças a queimar igrejas. Isto não vai dar resultado nenhum.”

---------------------------------------------------------------------------------



“O choque que se vê no mundo não é um choque entre civilizações, é um choque entre dois opostos, um choque entre duas eras, um choque entre uma mentalidade que pertence aos tempos medievais e uma mentalidade que pertence ao Séc. XXI, é um choque entre a civilização e o retrocesso, entre o civilizado e o primitivo, entre a barbárie e a racionalidade, entre a liberdade e a opressão, entre a democracia e a ditadura, é um choque entre os direitos do homem de um lado e a violação desses direitos do outro, é um choque entre aqueles que tratam as mulheres como animais e aqueles que as tratam como seres humanos. O que vemos hoje não é um choque de civilizações. As civilizações não se agridem, elas rivalizam.
Os muçulmanos é que iniciaram o choque de civilizações. O profeta do Islão disse: “Eu recebi a ordem de combater as gentes até elas acreditarem em Alá e no seu mensageiro.” Quando os muçulmanos dividem os povos entre muçulmanos e não muçulmanos, e apelam ao combate até que os outros partilhem das suas crenças, eles declararam este choque, eles começaram esta guerra. Para acabar esta guerra, eles devem reexaminar os seus textos e os seus planos islâmicos, que estão cheios de apelos ao takfir (acusações de descrença)
(…)
Qual a civilização da superfície da terra que se permite chamar os outros por nomes que eles não escolheram para si próprios?
Quem vos disse que eles são a “gente do livro”?
Eles não são gente de um só livro. Eles são gente de muitos livros. Todos os livros científicos que vocês têm são deles, fruto do pensamento livre e criativo.
Quem vos deu o direito de chamá-los “aqueles que incorrem na ira de Alá” e depois virem aqui dizer que a vossa religião vos ordena de vos abster de ofender as crenças dos outros?
Eu não sou uma cristã, uma muçulmana ou uma judia. Sou um ser humano laico. Não creio no sobrenatural mas respeito o direito dos outros em acreditar.
Irmão, tu podes acreditar em pedras [referência aos rituais mécquois [ver http://fr.wikipedia.org/wiki/Abu_Sufyan_ibn_Harb] desde que não me atires com elas. Mas as crenças dos outros não te dizem respeito. Que creiam que o Messias é Deus, filho de Maria. Deixa as pessoas ter as suas crenças.
Os Judeus saíram da tragédia, [o holocausto] e fizeram com que o mundo os respeitasse através do seu conhecimento e não através do terror, através do seu trabalho e não através das lamentações e dos gritos.
A humanidade deve a maior parte das descobertas científicas do séc. XIX e XX a cientistas judeus.
Quinze milhões de pessoas espalhadas pelo mundo uniram-se e asseguraram os seus direitos através do seu trabalho e do seu conhecimento.
Não vimos nem um só judeu a fazer-se explodir num restaurante alemão.
Não vimos nem um só judeu destruir uma igreja.
Não vimos nem um só judeu a protestar matando pessoas.
Os muçulmanos transformaram três estátuas de Buda em cascalho.
Não vimos nem um só budista a queimar uma mesquita, matar um muçulmano ou incendiar uma embaixada.
Só os muçulmanos defendem as suas crenças a queimar igrejas.
Isto não vai dar resultado nenhum.
Os muçulmanos devem perguntar-se o que podem fazer pela humanidade antes de exigirem que a humanidade os respeite.”

sexta-feira, 17 de março de 2017

Tempos amáveis*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. A prensa tipográfica com caracteres móveis foi inventada por Gutenberg em 1445 e em poucas décadas espalhou-se pela Europa.

No poderoso império otomano é que aquela modernice não entrou. Em 1485, o sultão Bayezid II proibiu a impressão, proibição só levantada em 1727 quando Ahmed III autorizou Ibrahim Müteferrika a montar uma prensa, mas tudo sujeito ao assentimento prévio de três estudiosos da religião, os cádis. A família Müteferrika, em setenta anos, só foi autorizada a imprimir vinte e quatro livros e acabou por desistir do negócio.

O medo das elites de que o saber e o novo possam pôr em causa o seu poder sempre foi uma desgraça para os povos. Tayyip Erdoğan não tem feito menos mal ao conhecimento turco do que fizeram os sultões otomanos. Desde 15 de Julho, o autocrata já fechou mais de duas mil escolas e universidades, demitiu 7316 académicos, fechou 149 órgãos de comunicação social e prendeu 162 jornalistas.

Erdoğan tentou fazer comícios na Holanda. Com isso, o “sultão” turco quis beneficiar o islamófobo e putinista Geert Wilders. A ajuizar pelas sondagens, pode ter-lhe saído o tiro pela culatra. Oxalá!

2. Vivem-se tempos amáveis e distendidos no Portugal político. Até a crispação dos rebanhos partidários nas redes sociais anda mais branda.

A geringonça lá vai cumprindo com brio o seu “não-há-vida-para-além-do-défice”. Depois de, em 2009 e 2010, termos tido dois buracos sucessivos de uns loucos vinte mil milhões de euros, o país tem vindo a diminuir o défice público ano após ano. Em 2016, ficou abaixo dos quatro mil milhões de euros. Há que continuar este esforço.

A seguir ao “para-além-da-troika” de Passos, temos agora o “para-além-do-tratado-orçamental” de Costa. 


Daqui
O sr. Moscovici e o sr. Dijsselbloem estão contentes com as cativações de António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. E assistem, com bonomia, à retórica anti-europeia, para consumo interno, das lideranças bloquistas e comunistas .

quinta-feira, 27 de outubro de 2016

Diplomacias*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 27 de Outubro de 2006


A saudosa Livraria da Praça de Viseu 
 Fotografia daqui
1. Paulo Mendo, ex-Ministro da Saúde de Cavaco Silva, esteve na Livraria da Praça, a falar dos 14 séculos de relações entre o Islão e o Ocidente. Paulo Mendo é um apaixonado pela cultura islâmica e luta por uma aproximação entre Portugal e Marrocos (onde tem casa).

Na conversa com o público vieram à baila as palavras do papa Bento XVI, na Universidade de Ratisbona, que incendiaram a “rua árabe” que anda de pavio muito curto, como se sabe. Paulo Mendo não gostou das palavras de Razinger e não as achou inocentes.

Eu penso que elas foram só um tropeção. Bento XVI não vai pôr em causa a aliança estratégica entre o Vaticano e o Islão contra Israel e o Ocidente laico e de costumes “dissolutos”. Poderá haver entre o Vaticano e o Islão um ou outro episódio menos risonho como este, mas a “Santa Aliança” entre eles não me parece estar em perigo.

2. Portugal acaba de se abster, na Comissão de Descolonização da ONU, numa Resolução a favor da autodeterminação do Sahara Ocidental. Esta posição, que certamente agradou a Marrocos, é uma viragem na política externa portuguesa. Com esta doutrina nunca teria havido um Timor independente, já que o Sahara Ocidental está para Marrocos como Timor estava para a Indonésia.

O actual Ministro dos Negócios Estrangeiros, Luís Amado, apoiou George W. Bush e Tony Blair na desgraça iraquiana. No Parlamento, no caso dos voos da CIA, tem tomado as dores que deviam ser do PSD e do CDS/PP, deixando branquear os erros políticos de Barroso e Portas na questão do Iraque e da luta contra o terrorismo. Esta votação de 16 de Outubro, na ONU, sobre o Sahara Ocidental, vem enegrecer ainda mais o panorama.

Volta, Freitas, estás perdoado.

terça-feira, 5 de abril de 2011

1895 — sétimo centenário de Santo António — a sabotagem

«(...) desde logo, os promotores da iniciativa declararam, publicamente que iriam protestar contra o centenário de S. António.
Imagem daqui
     
Sob o impulso da associação secreta Restauração, constituiu-se uma comissão para esse efeito (...) 
    
1. (...) o primeiro acto do grupo consistiu em provocar a confusão nas associações católicas através da publicação de nomes de indivíduos contrários à celebração do centenário, mas apresentados como aderentes à iniciativa, o que suscitou protestos de individualidades que, sem terem sido consultadas, apareciam em listas de apoio à efeméride.
    
2. Propalaram ainda a notícia em que se anunciava a dissolução de comissões de apoio à manifestação, as quais, contudo, nunca se tinham constituído.  
   
3. Promoveram também o apoio de filarmónicas, escolas, bombeiros e, depois, fizeram com que estas faltassem ao cortejo. 
   
4. As virgens dos préstito foram substituídas por prostitutas. 
    
5. Acelerou-se o lançamento da canhoeira D. Luís ao Tejo, englobado nos festejos, antes do rei chegar ao Arsenal.
     
De tudo isto resultou uma grande confusão, sobretudo durante a procissão, o que chegou a provocar pânico e retirou colorido às comemorações. »
in A militância Laica 
e a Descristianização da Morte em Portugal (1865-1911)
de Fernando Catroga 

------------
Nota: o texto original não tem ordinais e toda esta matéria foi transcrita de um só parágrafo da tese de doutoramento de Fernando Catroga (1988).