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sexta-feira, 29 de janeiro de 2016

Presidenciais — 2011 e 2016*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Em 24 de Janeiro de 2011, no dia a seguir à segunda vitória de Cavaco, José Sócrates, muito bem-disposto, chamou Mário Soares a S. Bento:

«Ó Mário, acabámos com aquele &ß#Ω$§!»

«Eh pá, não gosto disso. Palavra que não gosto disso, não é bonito, não diga isso.»

«Eh pá, mas ele estava na merda, eu nunca o vi assim.»

«Pode ter estado, mas não se esqueça que o Alegre pode ter defeitos mas também tem os seus méritos.»

Mário Soares contou isto numa entrevista a Joaquim Vieira, autor da biografia “Mário Soares, Uma Vida”. Passaram cinco anos. Não precisamos da transcrição de nenhum diálogo entre António Costa e Carlos César ou Ana Catarina Mendes para intuirmos que o primeiro-ministro ficou muito contente com o colapso eleitoral de Maria de Belém.

Portanto: em duas presidenciais seguidas, tivemos dois secretários-gerais socialistas satisfeitos com o afundanço eleitoral de dois seus destacados militantes. Esta esquizofrenia do PS tem-lhe dado derrotas eleitorais nada “poucochinhas”, ora um pouco acima ora um pouco abaixo dos 30%. Nenhuma “geringonça” consegue esconder esta fragilidade política. E ética.

Fotografia daqui
2. Marcelo Rebelo de Sousa ganhou à primeira volta. Sem surpresa. Estas eleições foram civilizadas, ao contrário das de há cinco anos.

Desta vez, até o voto anti-sistema foi para um candidato amável: Vitorino Silva. Tino de Rans ficou em sexto a nível nacional e foi quarto no distrito de Viseu. Em Cinfães e S. João da Pesqueira, o grande Tino arrebatou 8,5% e a medalha de bronze.

A votação de Sampaio da Nóvoa, tal como a de Fernando Nobre de há cinco anos, não vai servir para nada. Os resultados de Marisa Matias (muito bons) e Edgar Silva (péssimos), os outros candidatos da “geringonça”, também não acrescentam nada.

O emprego de António Costa nunca dependeu das presidenciais. Para já, ele depende, acima de tudo, da credibilidade que a “Europa” e os mercados vão dar à folha-de-cálculo de Mário Centeno.

sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Mais dinheiro para menos?*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Fomos a votos há exactamente dois meses. Nada mau. A Alemanha esteve 86 dias sem governo. Cá as coisas resolveram-se em 53. Na Alemanha formou-se uma grande coligação com apoio superior a 70% no Bundestag que mantém os fundamentais da política germânica. Entre nós, não há coligação formal, há três “papéis” em que as esquerdas concordam em aumentar a despesa do estado e diminuir a receita.


Fotografia de Alberto Frias
Editada a partir daqui
 
De qualquer forma Cavaco Silva fez o que tinha a fazer. Cumpriu uma convenção não escrita mas que importava respeitar. Primeiro indigitou o líder do partido mais votado e só depois dele caído é que indicou o líder do segundo partido. Assim deverá ser feito no futuro.

A pressa da esquerda — que até aquela convenção queria atropelar — criou, logo a seguir, um teste muito interessante à natureza do regime: os deputados extinguiram o exame do quarto ano invadindo as competências do ministro da educação.

Se o PR se conformar com esta entorse à separação de poderes, deixa que o parlamento aumente os seus poderes à custa do governo. É um passo em frente para o parlamentarismo. É a sra. dona Catarina a armar-se em dona-disto-tudo à custa do sr. Costa. É as reuniões às terças no parlamento entre os partidos de esquerda serem mais importantes do que os conselhos de ministros às quintas.

2. O “Viseu Terceiro”, o concurso da câmara de Viseu para apoio à cultura em 2016, está a correr melhor que o anterior.

A câmara fez bem em ter feito um concurso para projectos novos e outro para os já consolidados. Além disso, escolheu um bom júri e criou condições para decidir na altura certa: ainda este ano ou no princípio de 2016.

Há agora um problema muito agudo. Este concurso tem muito mais verbas este ano: meio milhão de euros. Uma pipa de massa. O problema é que, como as candidaturas mais bem classificadas têm orçamentos muito altos, há o risco de a mais dinheiro corresponder um menor número de candidaturas contempladas.

sábado, 28 de novembro de 2015

Tempos de suspense — por JB*

* Comentário de JB ao texto de ontem "Zandinguices"


“Por acaso foi uma ideia minha” o título do “jornal” Correio da “Manha” de 26/11/15:
Costa chama cega e cigano para o Governo.

Mas se eu fosse o director do jornal o título deveria ser algo assim:
Título: TUDO INCLUÍDO.
Subtítulo: MONHÉ CHAMA AO GOVERNO UMA ESCARUMBA, UMA ZAROLHA E UM LEL.

Mas no dia seguinte (hoje) continuam os brandos costumes com Miguel Cadete, director-adjunto do Expresso, ao escrever sobre o novo Governo:
É multicultural! O líder, António Costa, tem ascendência goesa; a ministra da Justiça, Francisca Van Dunem, nasceu em Angola e é a primeira negra a ocupar um lugar num Governo de Portugal. Carlos Miguel, secretário de Estado das Autarquias, é filho de pai cigano: também ele o primeiro a chegar ao Governo de Portugal. Isto sucede mais de 41 anos depois do 25 de Abril. Se este Governo for realmente uma orquestra, pode ser de world-music. Mas não é, certamente a banda do eixo Cascais-Restelo.
Esqueceu-se da secretária de Estado cega... Ah, mas depois não encaixava na piada da orquestra da Mouraria e do eixo Cascais-Restelo.

Todos sabemos que este foi o passo mais fácil.
Todos sabemos que vai haver muito diálogo, conversa, debate, discussão, nos gabinetes da AR entre os quatro do entendimento.
Todos sabemos que, caso esta experiência não tenha sucesso (e as pressões internas e externas são diárias e serão diárias), nos esperam 40 anos de uma direita ressabiada e anti-tudo, rigorosamente tudo, o que cheire a Abril.
Todos sabemos que até dentro dos quatro não há unanimidade nesta solução; até no grupo parlamentar do PS está um “iluminado” chamado Ascenso Simões que já veio defender o fim da eleição universal do PR, que passaria a ser escolhido por um colégio eleitoral, qual Américo Tomáz…


Há divergências à esquerda? Claro, é por isso que são partidos díspares. Mas também existe convergência. E existem momentos históricos, como este, em que isso é o mais relevante. Mas pelo menos encerrou-se um ciclo de políticas equivocadas. Não tenho dúvidas que no novo ciclo haverá complicações, crises ou momentos de incompetência, mas depois de hoje o cenário político em Portugal não voltará a ser o mesmo. E isso é uma boa notícia. Cavaco acaba o reinado sem notoriedade e com a povo a desejar vê-lo pelas costas. É muito triste para uma pessoa que jurou cumprir a CONSTITUIÇÃO acabar assim!
Daqui
Todos sabemos que o último acto político relevante que ficou destinado a Cavaco, foi dar posse a um governo PS com apoio da esquerda parlamentar, curioso!
Curioso como tudo começou na diferença entre indicar e "indigitar"…!!!

Curioso como nessa personagem sempre faltou o ADN do contraditório; da síntese e antítese; do eu penso…; da herança grega que se aprendia nos liceus do pensamento filosófico pátrio.

E termino com uma citação do Prof. José Barata: Na minha terra, quando já não há mais para qualificar a falta de carácter, o narcisismo pimba, a convicção de que é chefe sem o ser, parolo, inculto, labrego, parvenue, pouco dotado, manholas, jogador vingativo e sei lá que mais... na minha terra essa pessoa é RELES.

Au revoir, HomusCavacum!

PS.: Os próximos tempos são de suspense? Claro, que sim.
Mas se este governo conseguir fazer uma mudança de paradigma, porque morreu o discurso das alternativas fechadas, e os defensores da TINA (There is no alternative) não voltarão a ter o ensejo de chorar lágrimas de crocodilo pela impossibilidade de convergências à esquerda para justificarem os seus indisfarçáveis apoios à direita.
Se Costa conseguir passar o primeiro ano (fim de Cavaco e início de…..?) teremos um governo de maioria parlamentar com a férrea vontade de se aguentar durante uma legislatura!

sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Zandinguices*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Escrevo este texto no dia em que Cavaco Silva indigitou, perdão, no dia em que o PR decidiu “indicar” António Costa para primeiro-ministro.

Também se acabam de saber os nomes dos ministros socialistas. Sem surpresa, Maria Manuel Leitão Marques, a cabeça de lista de Viseu pelo PS, vai ser ministra “Simplex 2.0”, deixando vago o seu lugar de deputada. Vai entrar a quarta da lista.

Ora, este “descer” na lista de Viseu, que pode não ficar por aqui, vai ser um patético “cair-para-baixo”. O PS fez mal em só se ter preocupado com a qualidade dos três primeiros nomes.

Editada a partir de uma fotografia de
Enric Vives-Rubio (Público)
2. A “pergunta de um milhão de euros” agora é a seguinte: quanto tempo vai conseguir aguentar-se o governo de António Costa?

Mesmo sabendo-se que a direita vai eleger Marcelo, mesmo sabendo-se da “legitimidade” atribulada deste governo, mesmo assim Costa só deverá ter sérios problemas no outono de 2017, na discussão do orçamento para o ano seguinte.

É que o Bloco de Esquerda é pragmático como o Syriza — tanto vota primeiro na desausteridade como a seguir na austeridade; não quer é eleições já porque receia perder metade dos deputados.

É que o PCP, mesmo com a segurança dos seus fiéis 400 mil votos, cumpre a sua parte desde que seja revertida a privatização dos transportes de Lisboa e do Porto.

É que o BCE vai continuar a mesma política monetária e dar respaldo às emissões de dívida pública.

É que os portugueses são mais sensatos que os seus políticos. O pequeno ganho de poder de compra das famílias em 2016 vai para poupança e não para consumo; ele não vai comprometer as nossas contas externas nem inquietar os mercados.

3. Termino com um precautério, estas zandinguices que nunca nos façam esquecer o grande João Pinto: «prognósticos só no fim do jogo».

É difícil prever a dois meses quanto mais a dois anos. Quem é que podia adivinhar, em 4 de Outubro, que uma derrota nada poucochinha de António Costa ia pô-lo a primeiro-ministro?

terça-feira, 24 de novembro de 2015

domingo, 22 de novembro de 2015

A seguir ao sadismo de Eanes, o de Cavaco?

Já fiz aqui em Junho um balanço da presidência de Cavaco Silva num texto intitulado “Poder Moderador”. Para quem não quiser clicar no título para rever aquele texto repito alguns dos argumentos.

Cavaco Silva esteve muito bem na crise “irrevogável” de Julho de 2013: “fritou” Paulo Portas, impediu que o país se tornasse numa nova Grécia e ainda deu uma mão a Seguro. Este, coitado, não a soube ou não pôde aproveitar, se tivesse sabido era hoje primeiro-ministro.

Contudo, tendo estado bem naquela crise de há dois anos, tem que se fazer um balanço negativo dos dois mandatos de Cavaco Silva porque falhou nas duas principais funções da presidência da república:

(i) não foi a “válvula de escape” do regime, nem no primeiro mandato durante o socratismo, nem no segundo durante o passismo;

(ii) falhou no segundo mandato como factor de unidade nacional por se ter deixado cegar pelo ódio, depois das campanhas sujas do poeta Alegre e do madeirense Coelho.

Chegados aqui, e para não alongar muito este post, vamos agora ao caso que Cavaco tem entre mãos — a indigitação ou não do derrotado líder socialista para primeiro-ministro.

Cavaco está a arrastar os pés. Não tenho a certeza se ele se está a divertir com o caso. Ele divertiu-se quando lançou os discursos amassadores de vento de Sampaio da Nóvoa num 10 de Junho (para os mais esquecidos, Cavaco é o criador de Nóvoa), ele divertiu-se a "fritar" o antigo director de “O Independente” (Cavaco, como se sabe, não perdoa nunca).

Pode haver agora um pouco de diversão: a nossa situação não é tão grave como em 2013 em que estávamos com um terço do plano de resgate por fazer e não havia ainda a ajuda do “quantitative easing” do BCE para o financiamento do estado. Agora a emergência não é tão grande e o sr. Centeno, com a sua elástica folha de cálculo, não alevantará as golas a Dijsselbloem, nem acachecolará Lagarde, nem fará tremer os joelhos da Merkel, para desgosto da sra dona Catarina Martins, que se julga a nova dona-disto-tudo", e para infelicidade dos “jovens turcos” socialistas que já se sonham sentados em BMWs pretos do estado, para alegria do blogue “Ladrões de Bicicletas”.

Indo ao ponto: Cavaco foi um mau presidente da república mas já tivemos um pior que ele — Ramalho Eanes que se entretinha a derrubar governos e até fundou um partido aproveitando o descontentamento dos eleitores durante a nossa segunda bancarrota.


Fotografia daqui

Nos dez anos de presidência de Ramalho Eanes houve nove governos. Quando eles não caíam no parlamento, era Eanes que os deitava abaixo.

Recordo uma comunicação especialmente sádica de Ramalho Eanes em que ele se alongou, parágrafo após parágrafo, a listar os convenientes e os inconvenientes de manter ou não um determinado governo, não me lembro de qual, foram tantos e já passaram tantos anos...

Lembro-me que foi um discurso cubista, em que Eanes se atardou a descrever todas as perspectivas do problema: “se por um lado o senhor primeiro-ministro é bom, por outro lado o senhor primeiro-ministro é mau”. Isto longos e longos minutos, de forma que o povo e as elites que o ouviam, naquele longos minutos se perguntavam, “afinal, o governo cai ou não cai?”, e Eanes, sádico, hitchcockiano, lá prosseguia “se por um lado blá blá blá... branco, por outro lado blá blá blá... preto”, e o povo a mexer-se nas cadeiras e os jantares a arrefecerem. Até que por fim e na última frase do último parágrafo — o grande Eanes lá disse: “decidi dissolver a assembleia da república e convocar eleições antecipadas”.

Não sei se Cavaco se está a divertir, repito. Talvez não esteja, pelo menos não está tanto como em 2013. Para a próxima semana ele vai fazer uma comunicação ao país. Na altura, a direita terá mais razões para tremer do que a esquerda. Tudo o que Cavaco disser ou fizer tem potencial para ser tóxico para a direita e dar cimento à esquerda.

Cavaco não vai fazer um discurso cubista nem uma eanice tipo “por um lado... branco, por outro lado... preto”. Mas tem matéria entre mãos para ser sádico: basta-lhe descrever com algum detalhe as fragilidades e inconsistências dos “papéis” assinados pelas esquerdas, que são de facto uma vergonha — ficam-se por uma lista de medidas para aumentar a despesa e diminuir a receita e não têm nem uma única palavra sobre as nossas responsabilidades na “Europa”.

sexta-feira, 20 de novembro de 2015

O fim do poder*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


Nas guerras assimétricas ocorridas entre 1800 e 1849, o lado que tinha menos homens e menos armas só atingiu os seus objectivos em 12% das vezes; já entre 1950 e 1999 a taxa de sucesso do lado mais fraco subiu para 55%. Cada vez mais são os Davids que derrotam os Golias. Esta “lei do mais pequeno” confirmou-se, na sua crueza terrível, nos acontecimentos de Paris da última sexta-feira.

Este processo de erosão do poder e de perda da vantagem da grande escala não se verifica só no universo militar, mas em todos os campos, desde a religião, à economia ou à política.

O “mercado das almas” está a ser ganho por pequenas igrejas que vão tirando fiéis aos milhões às grandes religiões. Mesmo o Islão está a fragmentar-se em milhares de interpretações antagónicas do Corão, feitas em madrassas e plataformas electrónicas.

Na economia o mesmo: as grandes corporações estão cada vez mais sujeitas a desastres reputacionais ou tecnológicos — vejam-se os casos da VW ou da Kodak. E, acossadas, elas precisam de adoptar estratégias comerciais de nicho para darem resposta aos pequenos.

Na política, a vantagem da dimensão também está em perda. Os micropoderes adiam, vetam, sabotam, ou torneiam a decisão política dos grandes. O sr. Costa, para manter o seu emprego, teve de ceder na TSU a Catarina e teve que devolver as greves nos transportes ao sr. Arménio da CGTP.

Todas estas ideias são desenvolvidas em “O Fim do Poder”, um livro de Moisés Naím. Quem o leu não liga nada ao especioso arrastar de pés que Cavaco está a fazer.

Temos um governo em gestão há 47 dias e o país está a funcionar. A Bélgica teve um 541 dias e tudo correu na perfeição. O impasse só acabou quando a Standard & Poor's decidiu baixar a notação da dívida belga.

Os políticos, coitados, dividem-se em dois grupos: os que sabem que agora podem cada vez menos e os que não sabem. Os primeiros fingem que podem, os segundos, à moda de Varoufakis, são um perigo.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

O Costa, o Jerónimo e a Catarina vão funcionar assim...

... dizem os jornais de hoje:

Ver os extraordinários Vlad Gapanovich, Maxim Golovchenko e Evgeniy Pahalovich aqui


Mas Francisco Assis, num texto de hoje intitulado "O Debate que importa", que fica para memória futura, diz que eles vão acabar assim:



«Na minha opinião são duas as fontes de que promana tal ameaça [à União Europeia]: 
— por um lado, a parcial dissolução do Estado-Providência em resultado da abertura ao fenómeno da globalização; 
— por outro, a crescente infantilização das sociedades democráticas com a consequente degradação do princípio da responsabilidade individual. 

Curiosamente, um e outro motivo vão a par e contribuem para o surgimento de um niilismo que fomenta o sucesso das posições extremistas.»
Francisco Assis
  Público, 6.11.2015


À espera*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


No país político vive-se uma calmaria estranha — é a calma que antecede a tempestade com data anunciada: 10 de Novembro.

Nesse dia, já com manif marcada pelo sr. Arménio da CGTP para a Assembleia da República, ou a esquerda rejeita o governo de Pedro Passos Coelho ou António Costa perde o emprego.

Uma coisa é certa: aconteça o que acontecer, no dia a seguir é o S. Martinho, vai-se à adega e prova-se o vinho, os meninos nas escolas comem castanhas assadas e enfarruscam-se uns aos outros, caso tal ainda não seja desaconselhado pela Organização Mundial de Saúde.

Enquanto não chega a tempestade e a jeropiga, está tudo à espera. Os deputados tomaram posse, elegeram o presidente e os vice-presidentes da AR (até o Lacão...) e, depois, entraram numa espécie de férias.


Fotografia editada a partir daqui

Está tudo à espera do “papel” assinado entre António Costa, Catarina Martins e Jerónimo de Sousa. Enquanto não aparece o tal “papel”, tudo é um jogo de sombras, um teatro que vai entretendo os papagaios que gralham a partir do vazio nas televisões.

Tudo à espera. O governo de Pedro Passos Coelho nem o esboço de orçamento se atreve a mandar para a “Europa”. Os media internacionais já começam a apresentar Portugal como “o doente que se segue” na eurozona.

Tudo à espera. Os candidatos presidenciais fingem-se de mortos quando lhe perguntam sobre o assunto mais quente que vai sobrar para o próximo inquilino do Palácio de Belém — quando vamos ter eleições legislativas antecipadas?

Maria de Belém vai visitando santas casas da misericórdia enquanto Sampaio “Diapasão” da Nóvoa, sem nada para dizer como de costume, elabora sobre o “tom de desafio” (sic) ou o “tom certo” (sic) dos discursos de Cavaco.

Já Marcelo Rebelo de Sousa tanto se adentra na Festa do Avante como fala na Voz do Operário, enquanto o PSD e o CDS — quais Nanni Moretti no filme “Abril” — baralham as mãos e imploram: «diga qualquer coisa de direita, professor!»

Está tudo à espera.

sexta-feira, 23 de outubro de 2015

Guitarrada*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Há muito tempo que a política portuguesa não andava tão interessante. Pena é ser por más razões: a situação enfatua os políticos, encafua-os em fila nas televisões, arrecua-os em desassossegos, amua-os em teatreirices.

Escrevo este texto na terça-feira, 16 dias depois das eleições. Só hoje o presidente da república começou a receber os partidos. Não há ainda novo parlamento. Dezasseis dias depois.

Entretanto, a coligação de direita já “dá” mais de mil milhões de euros em concessões ao PS. O que Costa está a conceder ao bloco e à CDU para se manter ao de cima da água não se conhece mas adivinha-se.

É o nosso fado: ir de bancarrota em bancarrota.


2. Declaração de interesses — pertenço aos corpos sociais do Cine Clube de Viseu, o que me leva a falar dele aqui menos do que devia.

O CCV foi fundado em 1955 e está um pujante “sexigenário”. A cidade e a região devem muito a este colectivo que tem sabido sobreviver ao duro teste do tempo sem estrelas nem “mentores”. Um só exemplo: toda a actual “movida” estival no centro histórico começou, em 2009, com as sessões de cinema na Praça D. Duarte.


Fotografia daqui
Aproveito o pretexto de o CCV ter passado esta semana “Verdes Anos”, o clássico do “cinema novo” com a música eterna de Carlos Paredes, para lembrar um concerto do mestre da guitarra em Viseu, no final de 1989, organizado pelo CCV e a Acert para o Auditório Mirita Casimiro, no tempo em que esta sala de espectáculos não tinha as teias de aranha de agora.

Carlos Paredes era um génio modesto e tímido. Ele chegou a Viseu muito constipado e foi levado ao Hotel Avenida para descansar antes do concerto. O José Rui Martins, da Acert, pediu na recepção que levassem um chá ao músico e, quando o foi lá buscar, encontrou um Carlos Paredes muito melhor e entusiasmadíssimo.

«Sabe,» contou ele, «são uma simpatia aqui. Até me trouxeram um chá ao quarto. Mandei entrar a senhora e, como não sabia como lhe agradecer, toquei-lhe uma guitarrada...»

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Legislativas (#4)*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Os costumes da república, os resultados e as declarações dos vencedores e perdedores na noite eleitoral fizeram-nos pensar que tudo ia começar pelo escrutínio no parlamento de um governo minoritário de Pedro Passos Coelho. O PSD tinha o maior número de deputados, a que iria somar ainda os deputados “emigrantes”. Quando fomos dormir a 4 de Outubro, ninguém duvidava que competia a Passos o primeiro movimento para tentar formar governo.

Entretanto, surpresa! A esquerda de protesto, que sempre preferiu ser virgem a sujar as mãos no poder, decidiu pela primeira vez arriscar a sua virtude nuns preliminares.


Editada a partir daqui
Repito a metáfora da última crónica: António Costa, Jerónimo de Sousa e Catarina Martins estão numa sala de cinema, a pipocar do mesmo balde, enquanto vêem “Jules e Jim”. 

Se, quando acabarem de ver a obra-prima de Truffaut, aquilo resulta como no filme num “ménage-à-trois” ainda não se sabe.

O sr. Costa está feliz com os “rendez-vous” que vai fazendo à esquerda, até o “tête-à-tête” com Heloísa Apolónia o entusiasmou. Por sua vez, a direita, em pânico, tem medo que Cavaco lhe falhe, sonha com uma cisão entre os deputados socialistas, ameaça com a “rua”.

2. Como já aqui escrevi, numa noite eleitoral a voz mais importante não é a de quem ganha mas sim a de quem perde. É contra-intuitivo mas é assim nas democracias saudáveis. Quem perdeu cumprimenta o vencedor e, ao “conceder” a vitória, está a dizer que, embora não concorde com as políticas, concorda com as regras.

Nunca na nossa terceira república houve querela sobre regras ou sobre quem ganhou e quem perdeu umas eleições. Mas agora há: se ficar a governar a direita, a esquerda achará ilegítimo; se ficar a governar a esquerda, a direita achará ilegítimo.

Este sarilho enfraquece o próximo governo e vai levar a eleições antecipadas. Quanto mais elas demorarem mais o país vai apodrecer. Podem ser já na próxima primavera, professor Marcelo Rebelo de Sousa?

segunda-feira, 12 de outubro de 2015

Ferro Rodrigues, o breve?

Fotografia de José Manuel Ribeiro (daqui)

Leonardo Ribeiro de Almeida foi presidente da assembleia da república durante 8 breves meses, entre Novembro de 1982 e Junho de 1983.

Quantos meses vai aguentar Ferro Rodrigues?

sexta-feira, 9 de outubro de 2015

Legislativas (#3)*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. Tal como em 2009, as eleições de domingo vão resultar num governo minoritário. A maioria de esquerda de há seis anos com 128 deputados foi estéril, a de agora com 122 estéril vai ser.


A esquerda está mais fraca e essa fraqueza reside no PS que, desde a bancarrota financeira e ética do socratismo, nunca mais pôde com uma gata pelo rabo (o deputado do PAN me perdoe a metáfora).

Em 2009, Sócrates sabia que era impossível um “ménage à trois” com Louçã e Jerónimo. Agora, seis anos depois, temos a mesma matemática e o mesmo amor. Costa e Jerónimo nunca vão ser o “Jules e Jim” de Catarina Martins, nem que os fechemos aos três na mesma sala a ver, em sessões contínuas, a obra-prima de Truffaut.

A maioria de esquerda há-de servir para acabar com o aconselhamento psicológico obrigatório às mulheres antes de um aborto, essa aberração que a direita impôs já este ano, e há-de servir para outras matérias civilizacionais. Por exemplo, na eutanásia. E há-de servir para impedir alguns excessos da direita. Para pouco mais servirá.

2. Pedro Passos Coelho teve nervos de aço e adoptou uma estratégia nada intuitiva: quanto menos fizesse ou dissesse, melhor.

A esta campanha zen e breve da direita, respondeu Costa com um longo e arrastado chorrilho de asneiras — socratizou em Outubro e syrizou em Janeiro; entregou as listas ao aparelho em vez de fazer primárias e encerrou a campanha com uma ideia eleitoralmente tóxica: galambizar, perdão, chumbar o orçamento mesmo ainda antes dele estar feito.


3. Mesmo depois de quatro anos duros, a direita viseense conseguiu ganhar em todos os concelhos e manter os mesmos seis deputados. Mérito de Mota Faria, demérito de António Borges, o líder distrital do PS.

Em 2013, António Borges escolheu para lhe suceder em Resende um fraquíssimo presidente da câmara. Em 2014 arrastou o concelho para o beco-sem-saída segurista. Abusou daquela boa gente e agora levou a paga: nem lá conseguiu ganhar.

quinta-feira, 8 de outubro de 2015

Caracolices

Passaram 122 horas desde que fecharam as urnas no Açores.
Passaram mais de quatro dias.


Os deputados ainda não tomaram posse.
Ainda não temos governo.

Tudo lento.
Movido a petróleo.

Um dia destes, devagarinho, lá vão ver se o "Nós, Cidadãos" sempre abicha um dos tradicionais três deputados do PSD pela emigração ou se fica tudo na mesma como a lesma.

Perdão, tudo na mesma como o caracol.




Depois, devagarinho, lentamente, sem stress, depois de tudo carimbado no ritmo lento do tempo das mangas-de-alpaca, lá andarão as coisas.

Devagarinho.

Este rame-rame está tão interiorizado nas pessoas que elas até acham que assim é que é natural. Houve até quem tivesse criticado Cavaco por não ter ficado quieto à espera dos carimbos todos. Na Grécia, em dois dias depois dos votos têm governo novo. Aqui, é como o caracol.

Aqui está uma coisa que era bom que Passos e Costa acertassem — estamos numa fase de instabilidade governativa, há sérios riscos de queda de governo e ficarmos meses e meses até a vontade do povo fazer efeito.

Comprimam este calendário. Ponham a terceira república no século XXI.

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

Boa noite, povo, vou cantar com muita alegria...

... bardamerda a quem acha que tu és burro!



Boa noite povo que eu cheguei
Mais outra vez apresentá meu baianá
Eu vou cantar com muita alegria (ahhhhhh)
Vou apresentá essas baiana da Maria

Boa noite povo que eu cheguei
Mais outra vez apresentá meu baianá
Boa noite povo que eu cheguei
Mais outra vez apresentá meu baianá
Eu vou cantar com muita alegria
Vou apresentá essas baiana da Maria

Baianá, baianá
Baianá, baianá
Baianá, baianá
Baianá, baianá
Baianá, baianá
Baianá, baianá
Baianá, baianá
Baianá, baianá
Baianá, baianá

Jacarecica ponta verde morro grosso
Levada cambono e poço bebedouro, Jaraguá
Coqueiro seco de outro lado da lagoa
se atravessa na canoa lamarão é no pilar

Olha o bura do barreiro, cavaleiro
Bravo do carro carreiro desviou pra não virar

Abeia ufamo tubibura usu mirim
Boca de sirimimbuco, jataí, aripuá
Ainda essa noite meu cachorro acuou um bicho
Mas eu levo de capricho minha pistola matá

São sete machado com dezoito caripina
cortando madeira fina pra fazer meu tabuado
fazer meu tabuado, cortando madeira fina
São sete machado com dezoito caripina

Tava Crato, do Crato, do crato para Monteiro
De monteiro para o Crato, do Crato pra Juazeiro
Depois do Crato eu voltei para Monteiro
De monteiro para o Crato, do Crato pra Juazeiro

Baianá, baianá

Boa noite povo que eu cheguei
Mais outra vez apresentá meu baianá
Boa noite povo que eu cheguei
Mais outra vez apresentá meu baianá

Eu vou cantar com muita alegria
Vou apresentá essas baiana da Maria
Eu vou cantar com muita alegria
Vou apresentá essas baiana da Maria
Vou apresentá essas baiana da Maria
Vou apresentá essas baiana da Maria
Vou apresentá essas baiana da Maria
Vou apresentá essas baiana da Maria

Legislativas (#2)

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro



1. Deu nas vistas a impreparação da cabeça-de-lista do PS: este jornal perguntou-lhe sobre o IP3, respondeu que não era técnica da área, quanto ao comboio, ideias, só depois de ler dois estudos. 

No meio de tanta resposta embrulhada, um relampejo: que o país precisa de um “ministério transversal e uma unidade de missão para o interior”.

Parece bem: se ganhar o PàF, fica Carlos Abreu Amorim ministro transversal, se for o PS, põe-se João Soares em dieta hipercalórica.

2. Quer o histórico eleitoral do distrito de Viseu, quer as sondagens, dizem-nos que oito lugares do próximo parlamento já estão entregues. Parabéns, António Leitão Amaro, Pedro Alves, Inês Domingos, Hélder Amaral, António Costa Lima, do PàF; parabéns, Maria Manuel Leitão Marques, António Borges e João Paulo Rebelo, do PS.

Para o nono e último lugar, mantém-se a pergunta feita aqui em 7 de Agosto: “os viseenses elegem Isaura Pedro que perdeu a câmara de Nelas depois de ter levado aquele município à falência ou elegem Marisabel Moutela, a anónima aparelhista que António Borges trouxe da folha de pagamentos da câmara de Resende?”

A resposta é já domingo. Ou fica feliz Pedro Alves, que quer ir acompanhado pela sua anterior “patroa” de Nelas, ou fica contente António Borges, que quer levar uma sua “colaboradora” de Resende.

3. Há um facto que não é suficientemente explicado às pessoas — cada voto rende ao partido que o recebe €3,11 por ano. Desde que um partido obtenha pelo menos cinquenta mil votos numas legislativas, ele recebe essa subvenção pública quer eleja deputados quer não.

É importante que o eleitor saiba isso para dar a utilidade que achar melhor ao seu voto: votar para eleger deputados ou votar meramente para dar os €12,44 de uma legislatura ao partido de que gosta, mesmo que ele não eleja nenhum deputado no seu distrito ou no país. Ou para, caso não queira entregar esse dinheiro a ninguém, inutilizar o voto.

A abstenção, essa, deve ser evitada.

quinta-feira, 24 de setembro de 2015

E querem agora o votinho dos viseenses, não é? (#2)

Aqui

Em Junho, foram presos em Luanda 15 activistas cívicos.
Os jovens estavam reunidos numa residência particular com o objectivo de lerem e discutirem um livro sobre técnicas de acção não violenta visando a substituição de regimes ditatoriais.
À meia noite do dia 21 de setembro, Domingos da Cruz, Inocêncio de Brito, Luaty Beirão e Sedrick de Carvalho tomaram a decisão extrema de iniciar uma greve de fome. 
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No início de Julho, a Assembleia da República chumbou um voto de condenação da "repressão política em Angola". Só o bloco de esquerda, proponente do texto, e o socialista Pedro Delgado Alves votaram a favor.

Perante a brutalidade do regime angolano, os nossos eleitos puseram-se de cócoras, vácuos de valores, prenhes de uma "realpolitik" de pacotilha.

De Viseu, nem um dos nove deputados eleitos no distrito condenou Angola por prender pessoas que estão em sua casa a... ler um livro.  Um que fosse. Zero.

Os viseenses elegeram nove zeros em matéria de direitos humanos.

E querem agora o nosso votinho, não é?