segunda-feira, 15 de abril de 2019

Coisas concretas

Fotografia de Noah Baslé



Estou sentada na cozinha, enquanto a massa ferve.

Amo as coisas concretas
descobrir seus nomes ao pequeno-almoço:
despertador, chuva na calçada, supermercado,
beijos na siesta,
um copo de vinho, amigos,
as pequenas mãos de meu filho,
pessoas na praça,
tu...

Elas produzem as mais doces e lânguidas cócegas,
como um banquete após o jejum.
Parece-me impossível afastar-me de tais coisas:
colam-se à minha caneta e parece que não consigo sacudi-las.

No entanto,
as coisas concretas não permitem atrasos,
e a massa já está pronta.
Assim é a vida.
Quando o semear do poema começava a germinar,
eis que o mundano vem intrometer-se.
E lá tenho eu que me levantar da mesa,
enquanto a sombra de um bilioso humor assenta.
Miren Agur Meabe
Trad.: Amaia Gabantxo



domingo, 14 de abril de 2019

Poesia e propaganda

Fotografia de Daniele Salutari



Hei-de mandar arrastar com muito orgulho,
pelo pequeno avião da propaganda
e no céu inocente de Lisboa,
um dos meus versos, um dos meus
mais sonoros e compridos versos:

E será um verso de amor...
Alexandre O'Neill


sábado, 13 de abril de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#232)

O profissional, o ladrão e o sacana


Calibre 24

Fotografia de Edu Lauton




O coração na boca, as pernas trémulas
e o cuzinho na mão, piso o batente.
Que nem moela, o meu vulnerável
à flor de mim exposto, isca de cães.
Não obstante,

acredito piamente no homem, sério!,
mas êta racinha à toa, ordinária!
Todo cuidado é pouco, nunca esqueço
das palavras no coldre e a língua no gatilho.
Waldo Motta


sexta-feira, 12 de abril de 2019

Não se sentiu...*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Há um mês, num texto intitulado “Quem não se sente...”, alertei aqui o presidente da câmara de Viseu que lhe ficava muito mal estar a dar gás ao coreógrafo Paulo Ribeiro depois de este ter abandonado, em 2016, por sua única e exclusiva vontade, a direcção do Teatro Viriato, e ter vindo agora, anos depois, alegar que foi vítima de um “despedimento ilícito” e tentar sacar, em tribunal, 50 mil euros àquela entidade municipal.

Como é evidente, um bom líder “sente-se” e, por isso, põe-se ao lado do que é seu e está a ser atacado, não se põe ao lado do atacante.

O facto é que António Almeida Henriques, mesmo depois de avisado, “não se sentiu...” E fez pior: para além de ter mantido a encomenda de um espectáculo ao litigante, ...
Fotografia de José Ricardo Ferreira
(editada)
... sentou-se ao seu lado numa conferência de imprensa no exacto teatro demandado em tribunal. E, apesar de ter ouvido o homem confirmar aos jornalistas que ia continuar a exigir os 50 mil euros, mesmo assim, afirmou que aquilo ia ser “um grande momento das comemorações dos 20 anos do Teatro Viriato”.

Este episódio, do princípio ao fim, foi tudo menos “um grande momento” do que quer que seja.

A esta deserção do autarca de Viseu na defesa do seu teatro municipal some-se o seu défice de rigor gestionário: acaba de saber-se que a câmara de Viseu, em 2018, teve um resultado líquido negativo de 3.573.148,97 euros.

2. As eleições europeias de Maio são feitas num quadro político inédito: a UE tem dois inimigos declarados, Trump e Putin.

O presidente norte-americano e o presidente russo estão a apoiar partidos soberanistas de direita e de esquerda, hostis à “Europa”. Enquanto Putin faz as coisas mais na sombra, Trump é menos subtil. O seu estratega, Steve Bannon, não sai do velho continente a organizar uma internacional de ultra-direita.

É um sinal dos tempos: os vários nacionalismos europeus sempre foram historicamente hostis aos norte-americanos e aos russos. Agora, são lacaios deles.

Ela tinha uma amiga

Fotografia de Eliott Reyna

Ela tinha uma amiga chamada Maria
Que era quem me atendia quando eu telefonava
Ela tinha uma amiga chamada Maria
A quem ela dizia para dizer que não estava

E quando eu insistia, e não desligava
Era sempre a Maria
Que me mentia e me consolava
E perguntava o que é que eu lhe queria

Ela tinha uma amiga chamada Maria
Que nunca sabia por onde ela andava
Ela tinha uma amiga chamada Maria
De quem se servia quando me enganava

E quando eu lá ia, e não a encontrava
Era sempre a Maria
Que me dizia que ela não tardava
Que me jurava que ela voltaria

Quando eu ia buscá-la, e a gente saía
Era sempre a Maria que nos animava
Quando eu a convidava, e ela não queria
Era com a Maria que eu sempre dançava

E quando eu inventava uma melodia
Era sempre a Maria
Que me aplaudia, e ela não ligava
E eu ficava a cantar prá a Maria

No cinema, no escuro, quando eu a beijava
Ela empalidecia, a Maria corava
Ela não me ligava e adormecia
E era com a Maria
Que eu conversava
E que eu ficava quase até ser dia

Ela tinha uma amiga chamada Maria
A quem ela dizia p’ra dizer que não estava
Até que outro dia ela me telefonou
E eu disse: Maria...
E eu disse: Maria!
E eu disse: “Maria, vai dizer que eu não estou!”
Letra: Manuela de Freitas
Música: José Mário Branco







quinta-feira, 11 de abril de 2019

quarta-feira, 10 de abril de 2019

Gê Dois*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 10 de Abril de 2009 


1. A última cimeira dos G20 serviu para se atirar uma montanha de dinheiro para cima da crise e para se perceber que Barack Obama consegue moderar o fogo que lavra na economia mundial mas não é capaz de o apagar.

E a Europa?

A Europa mostrou-se como de costume: umas bravatas de Sarkozy, umas gaffes de Berlusconi e uma irrelevância chamada Durão Barroso.

Valha-nos a sensatez de Angela Merkel que não vai em keynesianismos de 25ª hora e, ao menos, tem uma ideia na cabeça para esta tempestade: apostar na solidez do euro.

Este G20 foi o décor londrino para mais um capítulo do drama a dois entre os Estados Unidos e a China.



Obama e Hu Jintao prosseguiram o seu G2 particular que está no epicentro desta crise global. O maior devedor mundial e o seu maior credor necessitam ambos que o valor do dólar não caia. Pelo menos muito depressa.

2. Recebi um mail de Lisa A. Saleh, senhora de quem nunca tinha ouvido falar.

Ela apresenta-se como “uma viúva de idade que sofre de doença prolongada” que herdou do seu “último marido” 3,5 milhões de dólares e que “precisa de uma pessoa honesta e temente a Deus que possa usar os fundos no trabalho de Deus a ajudar os menos privilegiados”.

Lisa A. Saleh reserva 1,2 milhões de dólares “para meu uso pessoal” neste trabalho misericordioso.

Depois pede-me dados pessoais bastante intrusivos e está à espera da minha resposta para o e-mail: mrslisa52@yahoo.co.th.

Pode esperar sentada numa cadeira confortável pela minha resposta. Deixo o e-mail da senhora para alguém interessado…

3. Está na fase de acabamentos uma nova rotunda no centro de Viseu que merece um especial carinho.

É um círculo perfeito.

À volta, bordejando toda a circunferência, tremeluzem dezenas de “olhos de gato”.

Esta coluna agradece a homenagem.

Os maridos das outras

Fotografia de Mariya Georgieva


Toda a gente sabe que os homens são brutos
Que deixam camas por fazer
E coisas por dizer.
São muito pouco astutos, muito pouco astutos.
Toda a gente sabe que os homens são brutos.
Toda a gente sabe que os homens são feios
Deixam conversas por acabar
E roupa por apanhar.
E vêm com rodeios, vêm com rodeios.
Toda a gente sabe que os homens são feios.
(...)

terça-feira, 9 de abril de 2019

El presente

Fotografia de Dinesh Kumar Nanduri



Hoy todo lo que escriba será un plagio
del anónimo verso endecasílabo
que tu aliento derrama por mi espalda
para borrarme el nombre y la conciencia,
las edades, las culpas y los miedos,
el pasado evidente y el futuro
que no quiero soñar por si se rompe.

Sólo soy este instante adormecido
en el cálido abrazo del presente.
Ana Montojo


segunda-feira, 8 de abril de 2019

It's a new dawn

Fotografia de Jessica Felicio



It's a new dawn
It's a new day
It's a new life
For me
And I'm feeling good



domingo, 7 de abril de 2019

Sunday night in Santa Rosa

Fotografia de Conor Samuel


The carnival is over. The high tents,
the palaces of light, are folded flat
and trucked away. A three-time loser yanks
the Wheel of Fortune off the wall. Mice
pick through the garbage by the popcorn stand.
A drunken giant falls asleep beside
the juggler, and the Dog-Faced Boy sneaks off
to join the Serpent Lady for the night.
Wind sweeps ticket stubs along the walk.
The Dead Man loads his coffin on a truck.
Off in a trailer by the parking lot
the radio predicts tomorrow's weather
while a clown stares in a dressing mirror,
takes out a box, and peels away his face.
Dana Gioia


sábado, 6 de abril de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#231)

Anti-stress perfeito

La maldición

Fotografia de Aziz Acharki



Que te pierdas en un bosque.
Que tardes
muchas veces
muchos años
en dar con la salida.
Y que cuando logres escapar,
y me busques,
y no me encuentres,
comprendas al fin
que tú eras el amor,
y yo, el bosque.
Alfonso Brezmes



sexta-feira, 5 de abril de 2019

Quem dera que...*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Já foram recuperadas e entregues aos donos quase todas as casas ardidas em Outubro de 2017. Na região, felizmente, não houve nada parecido com Pedrógão. Os nossos autarcas merecem aplauso.

A paisagem também está a recuperar. Já quase não há negro nos montes ardidos.

Quem dera que se tratasse agora da eclosão espontânea de eucaliptos, essa bomba-relógio a espalhar-se com força nos concelhos do sul do distrito.

2. Tratei aqui do familismo na política há mais de um ano, ainda não se conhecia, nem de perto nem de longe, a dimensão da endogamia que vai na cúpula socialista.

A tese que defendi então foi a seguinte: a bancarrota socrática, ao ter-nos levado as grandes empresas (a banca, a PT, a EDP, os CTT, ...) onde os nossos políticos costumavam prantar os familiares sem dar muito nas vistas, obriga-os agora a pôr os parentes em lugares de mais escrutínio.

Como estão mais visíveis, os media repararam e os parentes caíram na lama. Ainda há um ou outro comentador mais geringoncista e um ou outro aparelhista mais canino que refere a putativa “competência” especial desta fauna, mas vozes de burro não chegam ao céu.

Quem dera que todo este escrutínio resulte em listas menos nepóticas nas próximas legislativas.

3. Os “técnicos” de som das festas, em vez de confinarem a música aos recintos, abrem de tal maneira as goelas aos equipamentos que estes são ouvidos quilómetros e quilómetros em redor. Este costume bárbaro é particularmente nefasto no Verão porque as pessoas precisam de ter as janelas abertas para refrescarem as casas e, com o barulho, não conseguem descansar.


Daqui
Na semana passada, uma festa no Politécnico de Viseu não deixou dormir ninguém à volta, o que fez com que o vice-presidente da câmara lhe cortasse o pio no último dia. Muito bem!

Quem dera que Joaquim Seixas continue a controlar os decibéis festivos do Verão. A começar pelas festas e festinhas organizadas pela sua câmara.

The ballad of the lonely masturbator

Fotografia de Yuris Alhumaydy


The end of the affair is always death.
She’s my workshop. Slippery eye,
out of the tribe of myself my breath
finds you gone. I horrify
those who stand by. I am fed.
At night, alone, I marry the bed.

Finger to finger, now she’s mine.
She’s not too far. She’s my encounter.
I beat her like a bell. I recline
in the bower where you used to mount her.
You borrowed me on the flowered spread.
At night, alone, I marry the bed.

Take for instance this night, my love,
that every single couple puts together
with a joint overturning, beneath, above,
the abundant two on sponge and feather,
kneeling and pushing, head to head.
At night alone, I marry the bed.

I break out of my body this way,
an annoying miracle. Could I
put the dream market on display?
I am spread out. I crucify.
My little plum is what you said.
At night, alone, I marry the bed.

Then my black-eyed rival came.
The lady of water, rising on the beach,
a piano at her fingertips, shame
on her lips and a flute’s speech.
And I was the knock-kneed broom instead.
At night, alone, I marry the bed.

She took you the way a woman takes
a bargain dress off the rack
and I broke the way a stone breaks.
I give back your books and fishing tack.
Today’s paper says that you are wed.
At night, alone, I marry the bed.

The boys and girls are one tonight.
They unbutton blouses. They unzip flies.
They take off shoes. They turn off the light.
The glimmering creatures are full of lies.
They are eating each other. They are overfed.
At night, alone, I marry the bed.
Anne Sexton


quinta-feira, 4 de abril de 2019

Amigo aprendiz

Fotografia de Bao Truong


Quero ser o teu amigo.
Nem demais e nem de menos.
Nem tão longe e nem tão perto.
Na medida mais precisa que eu puder.
Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida,
Da maneira mais discreta que eu souber.
Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar.
Sem forçar tua vontade.
Sem falar, quando for hora de calar.
E sem calar, quando for hora de falar.
Nem ausente, nem presente por demais.
Simplesmente, calmamente, ser-te paz.
É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender!
E por isso eu te suplico paciência.
Vou encher este teu rosto de lembranças,
Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias...
Fernando Pessoa


quarta-feira, 3 de abril de 2019

Isto está bravo*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 3 de Abril de 2009 

1. Os anos de capital abundante e acessível já lá vão. Os bancos centrais estão a tipografar doses maciças de liquidez mas o dinheiro não chega às famílias nem às empresas. O motor da economia mundial gripou.

Desde Fevereiro de 2006, o think tank europeu LEAP/Europe2020, nos seus trabalhos de prospectiva, descreve a economia mundial a caminho de uma “crise sistémica global”. Os seus boletins mensais têm acertado no essencial, o que significa que os políticos — que têm acesso a todo o tipo de informação privilegiada — andaram anos a dormir na forma.

Em 24 de Março, o LEAP escreveu uma carta aberta dirigida aos líderes mundiais presentes na cimeira dos G20, em Londres.

Nessa carta aberta, facilmente encontrável na internet, os líderes mundiais são colocados perante a seguinte escolha: ou resolvem de uma forma concertada “uma crise de 3 a 5 anos” ou não evitamos “uma longa crise de pelo menos uma década “. É que isto está mesmo bravo!

O LEAP dá três conselhos aos G20:

i) Criação de uma nova divisa internacional a partir de um cabaz das principais moedas mundiais;

ii) Controle global do sistema bancário com eliminação dos “buracos negros” (offshóricos e não só…);

Daqui
iii) Avaliação independente e rápida, o mais tardar até Julho deste ano, dos sistemas financeiros americano, britânico e suíço (os mais infectados).

Esta é a primeira crise económica global. São precisas soluções globais. Uma política de “cada um por si” é a receita certa para o desastre.

É de lembrar a velha ideia de Montesquieu: comércio entre os povos é igual a paz. O contrário já se sabe a que é igual.

2. Esta crónica tuíta em twitter.com/olhodegato.
Com o lema de sempre: “Olhos e, se necessário, unhas”.

Tear the fascists down

Daqui
There's a great and a bloody fight
'round this whole world tonight
And the battle, the bombs and shrapnel reign
Hitler told the world around he would tear our union down
But our union's gonna break them slavery chains
Our union's gonna break them slavery chains

I walked up on a mountain in the middle of the sky
Could see every farm and every town
I could see all the people in this whole wide world
That's the union that'll tear the fascists down, down, down
That's the union that'll tear the fascists down

When I think of the men and the ships going down
While the Russians fight on across the Don
There's London in ruins and Paris in chains
Good people, what are we waiting on?
Good people, what are we waiting on?

So, I thank the Soviets and the mighty Chinese vets
The Allies the whole wide world around
To the battling British, thanks, you can have ten million Yanks
If it takes 'em to tear the fascists down, down, down
If it takes 'em to tear the fascists down

But when I think of the ships and the men going down
And the Russians fight on across the Don
There's London in ruins and Paris in chains
Good people, what are we waiting on?
Good people, what are we waiting on?
So I thank the Soviets and the mighty Chinese vets
The Allies the whole wide world around
To the battling British, thanks, you can have ten million Yanks
If it takes 'em to tear the fascists down, down, down
If it takes 'em to tear the fascists down
Woody Guthrie 




terça-feira, 2 de abril de 2019

Se quereis ser fino amante

Buffalo 66

Se quereis ser fino amante
e dessa Senhora amado
o que tendes de picado,
haveis de ter de picante.
Este é remédio importante;
se ela a versos se aplica,
fazei-lhe uma canção rica
se a quereis namorar.
Porém, se a quereis picar,
usai com ela de pica.
Dom Tomás de Noronha





segunda-feira, 1 de abril de 2019

Sistemas de equação tridimensional, dum mistério a desvendar





1 – Variável S:
Tanto tempo são todos os dias de manhã
a tarde e a noite no SUL quando chove.


2 – Variável C:
São todos os tempos no CENTRO de todos
os dias e deste tema por (a)bordar...


3 – Variável N:
(e porque)
são todos os tempos de colheita se a
ironia ancestral da vida troveja sobre
o sempre também a NORTE da humanidade?
Lopito Feijoó



domingo, 31 de março de 2019

A carta

Imagem de Kelly Sikkema

Assim não se esperam cartas.
Assim se espera — a carta.
Pedaço de papel
Com uma borda
De cola. Dentro — uma palavra
Apenas. Isto é tudo.

Assim não se espera o bem.
Assim se espera — o fim:
Salva de soldados,
No peito — três quartos
De chumbo. Céu vermelho.
E só. Isto é tudo.

Felicidade? E a idade?
A flor — floriu.
Quadrado no pátio:
Bocas de fuzil.

(Quadrado da carta:
Tinta, tanto!)
Para o sono da morte
Viver é bastante.

Quadrado da carta.
Marina Tsvetáeva
Trad.: Augusto de Campos

Ana Luísa Amaral e Luís Caetano conversam sobre Marina Tsvetaéva: ouvir aqui


sábado, 30 de março de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#230)

As criaturas da tesoura, agora, são os chuis da linguagem, os chibos politicamente correctos sempre prontos a acharem em tudo "discurso do ódio"


Deslealdade






Ora nós, que elogiamos muita coisa em Homero, não louvaremos
uma [...] Nem Ésquilo, quando faz dizer a Tétis que Apolo, ao
cantar nos seus esponsais, exaltara a sua bela progénie,

de vida isenta de doenças e de longa duração,
Depois que anunciou que de tudo, no meu destino,
cuidariam os deuses,
entoou o péan para minha alegria.
Julgara eu que era sem dolo, de Febo
a boca imortal, plena de arte dos oráculos
E ele, o mesmo que cantou este hino[...]
[...]ele mesmo é que o matou,
esse filho que é meu.
Platão, República II (383a -b)


Quando casavam Tétis com Peleu
levantou-se Apolo no esplêndido festim
do casamento, e falou da ventura dos recém-casados
com o rebento que sairia da sua união.
Disse: A este nunca lhe tocará a doença
e terá vida longínqua. - Quando disse isto,
Tétis alegrou-se muito, pois as palavras
de Apolo que conhecia de profecias
lhe pareceram garantia para o seu filho.
E enquanto Aquiles crescia, e era
a sua beleza alarde da Tessália,
Tétis lembrava-se da palavra do deus.
Mas um dia chegaram velhos com notícias
e disseram a chacina de Aquiles em Tróia.
E Tétis rasgava a sua roupa púrpura,
e arrancava de cima de si e atirava
ao chão as pulseiras e os anéis.
E por entre seus prantos lembrou-se do passado;
e perguntou o que fazia o sábio Apolo
por onde andava o poeta que nos festins
maravilhosamente fala, por onde andava o profeta
quando matavam o seu filho na flor da vida.
E responderam-lhe os velhos que Apolo
ele próprio desceu a Tróia
e com os troianos matou Aquiles.
Konstandinos Kavafis
Trad.: Joaquim Manuel Magalhães
e Nikos Pratsinis


sexta-feira, 29 de março de 2019

O último a saber*

* Hoje no Jornal do Centro

1. A nova ministra da Saúde, Marta Temido, é uma espécie de trigémea das manas Mortágua. Interessa-se muito com a ideologia e as abstracções que quer pôr na lei de bases, mas pouco com os problemas das pessoas. Resultado: a classe média, assustada com o estado do SNS, vai arranjando seguros de saúde.

Uma delegação de autarcas da CIM Viseu Dão Lafões acaba de ir em peregrinação à ministra mas regressou de mãos a abanar. As obras nas urgências do Hospital de S. Teotónio não avançam, apesar de já aprovadas e com comparticipação comunitária de 85%, mas a culpa não é dela... é das finanças. O Centro Oncológico não mexe mas a culpa não é dela... é da administração do hospital.

Volta, por favor, Adalberto Campos Fernandes!

Jardins Efémeros, 2017
Fotografia Olho de Gato

2. A última sessão da câmara de Viseu ficou marcada pela situação dos jardins Efémeros (JE): este ano não há, para o ano logo se vê.


O presidente da câmara confessou que “não estava a contar” (sic) e que só no dia 18 de Março, numa reunião com o vereador Jorge Sobrado e a organizadora dos JE, Sandra Oliveira, foi “confrontado” (sic) com aquele facto.

Ora, como António Almeida Henriques não ia mentir em sessão de câmara, isso significa que não foi avisado em devido tempo pelo seu vereador da cultura. Isso é um problema.

Qualquer vereador da cultura tem que estar atento ao “ecossistema” cultural do seu concelho. Sobrado tinha que saber que os JE fazem, logo em Janeiro, a chamada aos artistas para projectos integrados no tema do festival. Desta vez, nem em Janeiro, nem em Fevereiro, nem em meio Março houve tema dos JE/2019 nem “call-for-artists”.

Eu, que não sou vereador da cultura e, portanto, não recebi os e-mails aflitos da organizadora (não é preciso ser nenhum adivinho para imaginar que foram vários), sabia que os JE deste ano não iam acontecer.

Como é possível Jorge Sobrado não saber? Como é possível ele ter deixado que o seu presidente da câmara fosse o último a saber esta péssima notícia para a cidade e para o país?

Nas tuas mãos

Fotografia de Mitch Lensink

Primeiro pegarei
nas tuas mãos
procurando os sinais
de difícil leitura:
cefeidas
supernovas
planetas exteriores
em que pulsa
a memória
em que o destino
quebra
e a morte se introduz
como estrutura.
Yvette Centeno


quinta-feira, 28 de março de 2019

Fado das Horas

Fotografia de Tom Byrom

Chorava por te não ver
Por te ver eu choro agora
Mas choro só por querer
Querer ver-te a toda a hora

Passa o tempo de corrida
Quando falas e eu te escuto
Nas horas da nossa vida
Cada hora é um minuto

Quando estás ao pé de mim
Sinto-me dona do mundo
Mas o tempo é tão ruim
Tem cada hora um segundo

Deixa-te estar a meu lado
E não mais te vás embora
Para meu coração coitado
Viver na vida uma hora









quarta-feira, 27 de março de 2019

Hanami*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 27 de Março de 2009

Fotografia Olho de Gato
1. Hanami é uma tradição milenar japonesa que leva multidões para debaixo das cerejeiras a admirarem a beleza das suas flores. 

Ainda pode fazer hanami este fim-de-semana no vale do Douro, entre a Régua e Resende, onde há milhares de cerejeiras floridas à sua espera.
     
2. “A tendência do homens (…) a imporem aos outros como regra de conduta a sua opinião e os seus gostos, está tão energicamente sustentada por alguns dos melhores e alguns dos piores sentimentos inerentes à natureza humana que quase nunca se detém a não ser por lhe faltar poder.”
     
Quando escreveu isto há 150 anos, Stuart Mill estava longe de imaginar deputados, no século XXI, a parirem leis sobre o sal no pão nosso de cada dia.
     
3. Começo este ponto com uma declaração de interesses: integro um órgão não executivo do Cine Clube de Viseu (CCV).
     
Apesar disso, é com objectividade que afirmo: o CCV tem uma actividade cultural competente e consistente. O seu trabalho com as escolas já envolveu mais de 20 mil alunos. O Ministério da Cultura acaba de o colocar, pelo terceiro ano consecutivo, em primeiro lugar na rede nacional de exibição não comercial de cinema.
     
O CCV está bem mas há nuvens no horizonte. A evolução tecnológica vai fazer desaparecer as cópias de filmes em celulóide e a cidade ainda não tem uma sala não comercial com projecção digital.
     
Era importante que o futuro Centro de Artes do Espectáculo de Viseu (CAEV) tivesse uma sala com essa funcionalidade. Quanto mais modular, flexível e multidisciplinar o CAEV for, melhor.
     
É necessário evitar que o CAEV se transforme em mais um elefante branco. É agora na fase de concepção que se pode evitar esse risco bem real.

Janelas

Fotografia de Kinga Cichewicz

Minha amada me diz: — Mete.
Céus! Me sinto um meteoro —
e vou indo, feito um globo,
feito um bobo, uma vedete,
um luminoso sinistro.
Ela quer, alguém diria
(quem diria?), ela reflete
compenetrada alegria
por me sentir tão minério,
penhascos e companhia:
essa praia e seus mistérios.
A natureza copia
o que inventamos, aéreos.
Minha amada me diz: — Vem.
Um turbilhão nos trabalha.
O mesmo nos atrapalha,
como quem diz: — Eu também.
Palavras giram no avesso
e nelas nos reconheço
alados, entrelaçados
e realçados por essas
sombras de traços,
espaços
de intraduzíveis janelas.
Rubens Rodrigues Torres Filho


terça-feira, 26 de março de 2019

A namoradinha de um amigo meu

Fotografia de Tony Clark


Estou amando loucamente
A namoradinha de um amigo meu
Sei que estou errado
Mas nem mesmo sei como isso aconteceu

Um dia sem querer olhei em seu olhar
E disfarcei até pra ninguém notar.
Não sei mais o que faço
Pra ninguém saber que estou gamado assim

Se os dois souberem
Nem mesmo sei o que eles vão pensar de mim
Eu sei que vou sofrer mas tenho que esquecer
O que é dos outros não se deve ter

Vou procurar alguém que não tenha ninguém
Pois comigo aconteceu
Gostar da namorada de um amigo meu.





segunda-feira, 25 de março de 2019

A minha saia

Fotografia de Sean Kong



A minha saia é debruada de
dentes brancos
— saia rodada com pregas
e esconderijos que se abrem
sobre os precipícios da infância

É uma saia alta como janelas
remendada pelas mãos cuidadosas dos amantes

Debaixo da minha saia há
uma caixa com botões e olhos
que encontrei no leito seco dos caminhos
há um girassol que me aquece
o farelo e o sal dos ossos
há uma colmeia e o crescente negro
da sombra a roçar os joelhos

Há o riso dos velhos

Som de cordas, velas de moinho,
fábulas e exércitos balançam
dentro da minha saia
quando danço

Debaixo da minha saia há também casas
onde recolho o vento, e delas se avista
o pescoço curvo de dois bois mansos
alisando o pasto

Rodo o corpo e a minha saia aponta para o sul
baixo-a para desenhar círculos na poeira
ergo-a para atravessar o rio
na hora em que
a maré sobe
sobe
sobe
sobe
Ana Duarte