Estou sentada na cozinha, enquanto a massa ferve. Amo as coisas concretas descobrir seus nomes ao pequeno-almoço: despertador, chuva na calçada, supermercado, beijos na siesta, um copo de vinho, amigos, as pequenas mãos de meu filho, pessoas na praça, tu... Elas produzem as mais doces e lânguidas cócegas, como um banquete após o jejum. Parece-me impossível afastar-me de tais coisas: colam-se à minha caneta e parece que não consigo sacudi-las. No entanto, as coisas concretas não permitem atrasos, e a massa já está pronta. Assim é a vida. Quando o semear do poema começava a germinar, eis que o mundano vem intrometer-se. E lá tenho eu que me levantar da mesa, enquanto a sombra de um bilioso humor assenta.
1. Há um mês, num texto intitulado “Quem não se sente...”, alertei aqui o presidente da câmara de Viseu que lhe ficava muito mal estar a dar gás ao coreógrafo Paulo Ribeiro depois de este ter abandonado, em 2016, por sua única e exclusiva vontade, a direcção do Teatro Viriato, e ter vindo agora, anos depois, alegar que foi vítima de um “despedimento ilícito” e tentar sacar, em tribunal, 50 mil euros àquela entidade municipal. Como é evidente, um bom líder “sente-se” e, por isso, põe-se ao lado do que é seu e está a ser atacado, não se põe ao lado do atacante. O facto é que António Almeida Henriques, mesmo depois de avisado, “não se sentiu...” E fez pior: para além de ter mantido a encomenda de um espectáculo ao litigante, ...
Fotografia de José Ricardo Ferreira (editada)
... sentou-se ao seu lado numa conferência de imprensa no exacto teatro demandado em tribunal. E, apesar de ter ouvido o homem confirmar aos jornalistas que ia continuar a exigir os 50 mil euros, mesmo assim, afirmou que aquilo ia ser “um grande momento das comemorações dos 20 anos do Teatro Viriato”. Este episódio, do princípio ao fim, foi tudo menos “um grande momento” do que quer que seja. A esta deserção do autarca de Viseu na defesa do seu teatro municipal some-se o seu défice de rigor gestionário: acaba de saber-se que a câmara de Viseu, em 2018, teve um resultado líquido negativo de 3.573.148,97 euros. 2. As eleições europeias de Maio são feitas num quadro político inédito: a UE tem dois inimigos declarados, Trump e Putin. O presidente norte-americano e o presidente russo estão a apoiar partidos soberanistas de direita e de esquerda, hostis à “Europa”. Enquanto Putin faz as coisas mais na sombra, Trump é menos subtil. O seu estratega, Steve Bannon, não sai do velho continente a organizar uma internacional de ultra-direita. É um sinal dos tempos: os vários nacionalismos europeus sempre foram historicamente hostis aos norte-americanos e aos russos. Agora, são lacaios deles.
* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 10 de Abril de 2009 1. A última cimeira dos G20 serviu para se atirar uma montanha de dinheiro para cima da crise e para se perceber que Barack Obama consegue moderar o fogo que lavra na economia mundial mas não é capaz de o apagar. E a Europa? A Europa mostrou-se como de costume: umas bravatas de Sarkozy, umas gaffes de Berlusconi e uma irrelevância chamada Durão Barroso. Valha-nos a sensatez de Angela Merkel que não vai em keynesianismos de 25ª hora e, ao menos, tem uma ideia na cabeça para esta tempestade: apostar na solidez do euro. Este G20 foi o décor londrino para mais um capítulo do drama a dois entre os Estados Unidos e a China.
Obama e Hu Jintao prosseguiram o seu G2 particular que está no epicentro desta crise global. O maior devedor mundial e o seu maior credor necessitam ambos que o valor do dólar não caia. Pelo menos muito depressa. 2. Recebi um mail de Lisa A. Saleh, senhora de quem nunca tinha ouvido falar. Ela apresenta-se como “uma viúva de idade que sofre de doença prolongada” que herdou do seu “último marido” 3,5 milhões de dólares e que “precisa de uma pessoa honesta e temente a Deus que possa usar os fundos no trabalho de Deus a ajudar os menos privilegiados”. Lisa A. Saleh reserva 1,2 milhões de dólares “para meu uso pessoal” neste trabalho misericordioso. Depois pede-me dados pessoais bastante intrusivos e está à espera da minha resposta para o e-mail: mrslisa52@yahoo.co.th. Pode esperar sentada numa cadeira confortável pela minha resposta. Deixo o e-mail da senhora para alguém interessado… 3. Está na fase de acabamentos uma nova rotunda no centro de Viseu que merece um especial carinho. É um círculo perfeito. À volta, bordejando toda a circunferência, tremeluzem dezenas de “olhos de gato”. Esta coluna agradece a homenagem.
Hoy todo lo que escriba será un plagio del anónimo verso endecasílabo que tu aliento derrama por mi espalda para borrarme el nombre y la conciencia, las edades, las culpas y los miedos, el pasado evidente y el futuro que no quiero soñar por si se rompe. Sólo soy este instante adormecido en el cálido abrazo del presente.
The carnival is over. The high tents, the palaces of light, are folded flat and trucked away. A three-time loser yanks the Wheel of Fortune off the wall. Mice pick through the garbage by the popcorn stand. A drunken giant falls asleep beside the juggler, and the Dog-Faced Boy sneaks off to join the Serpent Lady for the night. Wind sweeps ticket stubs along the walk. The Dead Man loads his coffin on a truck. Off in a trailer by the parking lot the radio predicts tomorrow's weather while a clown stares in a dressing mirror, takes out a box, and peels away his face.
* Hoje no Jornal do Centro 1. Já foram recuperadas e entregues aos donos quase todas as casas ardidas em Outubro de 2017. Na região, felizmente, não houve nada parecido com Pedrógão. Os nossos autarcas merecem aplauso. A paisagem também está a recuperar. Já quase não há negro nos montes ardidos. Quem dera que se tratasse agora da eclosão espontânea de eucaliptos, essa bomba-relógio a espalhar-se com força nos concelhos do sul do distrito. 2.Tratei aqui do familismo na política há mais de um ano, ainda não se conhecia, nem de perto nem de longe, a dimensão da endogamia que vai na cúpula socialista. A tese que defendi então foi a seguinte: a bancarrota socrática, ao ter-nos levado as grandes empresas (a banca, a PT, a EDP, os CTT, ...) onde os nossos políticos costumavam prantar os familiares sem dar muito nas vistas, obriga-os agora a pôr os parentes em lugares de mais escrutínio. Como estão mais visíveis, os media repararam e os parentes caíram na lama. Ainda há um ou outro comentador mais geringoncista e um ou outro aparelhista mais canino que refere a putativa “competência” especial desta fauna, mas vozes de burro não chegam ao céu. Quem dera que todo este escrutínio resulte em listas menos nepóticas nas próximas legislativas. 3. Os “técnicos” de som das festas, em vez de confinarem a música aos recintos, abrem de tal maneira as goelas aos equipamentos que estes são ouvidos quilómetros e quilómetros em redor. Este costume bárbaro é particularmente nefasto no Verão porque as pessoas precisam de ter as janelas abertas para refrescarem as casas e, com o barulho, não conseguem descansar.
Quero ser o teu amigo. Nem demais e nem de menos. Nem tão longe e nem tão perto. Na medida mais precisa que eu puder. Mas amar-te sem medida e ficar na tua vida, Da maneira mais discreta que eu souber. Sem tirar-te a liberdade, sem jamais te sufocar. Sem forçar tua vontade. Sem falar, quando for hora de calar. E sem calar, quando for hora de falar. Nem ausente, nem presente por demais. Simplesmente, calmamente, ser-te paz. É bonito ser amigo, mas confesso é tão difícil aprender! E por isso eu te suplico paciência. Vou encher este teu rosto de lembranças, Dá-me tempo, de acertar nossas distâncias...
* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 3 de Abril de 2009 1. Os anos de capital abundante e acessível já lá vão. Os bancos centrais estão a tipografar doses maciças de liquidez mas o dinheiro não chega às famílias nem às empresas. O motor da economia mundial gripou. Desde Fevereiro de 2006, o think tank europeu LEAP/Europe2020, nos seus trabalhos de prospectiva, descreve a economia mundial a caminho de uma “crise sistémica global”. Os seus boletins mensais têm acertado no essencial, o que significa que os políticos — que têm acesso a todo o tipo de informação privilegiada — andaram anos a dormir na forma. Em 24 de Março, o LEAP escreveu uma carta aberta dirigida aos líderes mundiais presentes na cimeira dos G20, em Londres. Nessa carta aberta, facilmente encontrável na internet, os líderes mundiais são colocados perante a seguinte escolha: ou resolvem de uma forma concertada “uma crise de 3 a 5 anos” ou não evitamos “uma longa crise de pelo menos uma década “. É que isto está mesmo bravo! O LEAP dá três conselhos aos G20: i) Criação de uma nova divisa internacional a partir de um cabaz das principais moedas mundiais; ii) Controle global do sistema bancário com eliminação dos “buracos negros” (offshóricos e não só…);
iii) Avaliação independente e rápida, o mais tardar até Julho deste ano, dos sistemas financeiros americano, britânico e suíço (os mais infectados). Esta é a primeira crise económica global. São precisas soluções globais. Uma política de “cada um por si” é a receita certa para o desastre. É de lembrar a velha ideia de Montesquieu: comércio entre os povos é igual a paz. O contrário já se sabe a que é igual. 2. Esta crónica tuíta em twitter.com/olhodegato. Com o lema de sempre: “Olhos e, se necessário, unhas”.
There's a great and a bloody fight 'round this whole world tonight And the battle, the bombs and shrapnel reign Hitler told the world around he would tear our union down But our union's gonna break them slavery chains Our union's gonna break them slavery chains I walked up on a mountain in the middle of the sky Could see every farm and every town I could see all the people in this whole wide world That's the union that'll tear the fascists down, down, down That's the union that'll tear the fascists down When I think of the men and the ships going down While the Russians fight on across the Don There's London in ruins and Paris in chains Good people, what are we waiting on? Good people, what are we waiting on? So, I thank the Soviets and the mighty Chinese vets The Allies the whole wide world around To the battling British, thanks, you can have ten million Yanks If it takes 'em to tear the fascists down, down, down If it takes 'em to tear the fascists down But when I think of the ships and the men going down And the Russians fight on across the Don There's London in ruins and Paris in chains Good people, what are we waiting on? Good people, what are we waiting on? So I thank the Soviets and the mighty Chinese vets The Allies the whole wide world around To the battling British, thanks, you can have ten million Yanks If it takes 'em to tear the fascists down, down, down If it takes 'em to tear the fascists down
Ora nós, que elogiamos muita coisa em Homero, não louvaremos
uma [...] Nem Ésquilo, quando faz dizer a Tétis que Apolo, ao
cantar nos seus esponsais, exaltara a sua bela progénie,
de vida isenta de doenças e de longa duração,
Depois que anunciou que de tudo, no meu destino,
cuidariam os deuses,
entoou o péan para minha alegria.
Julgara eu que era sem dolo, de Febo
a boca imortal, plena de arte dos oráculos
E ele, o mesmo que cantou este hino[...]
[...]ele mesmo é que o matou,
esse filho que é meu.
Platão, República II (383a -b)
Quando casavam Tétis com Peleu levantou-se Apolo no esplêndido festim do casamento, e falou da ventura dos recém-casados com o rebento que sairia da sua união. Disse: A este nunca lhe tocará a doença e terá vida longínqua. - Quando disse isto, Tétis alegrou-se muito, pois as palavras de Apolo que conhecia de profecias lhe pareceram garantia para o seu filho. E enquanto Aquiles crescia, e era a sua beleza alarde da Tessália, Tétis lembrava-se da palavra do deus. Mas um dia chegaram velhos com notícias e disseram a chacina de Aquiles em Tróia. E Tétis rasgava a sua roupa púrpura, e arrancava de cima de si e atirava ao chão as pulseiras e os anéis. E por entre seus prantos lembrou-se do passado; e perguntou o que fazia o sábio Apolo por onde andava o poeta que nos festins maravilhosamente fala, por onde andava o profeta quando matavam o seu filho na flor da vida. E responderam-lhe os velhos que Apolo ele próprio desceu a Tróia e com os troianos matou Aquiles.
* Hoje no Jornal do Centro 1. A nova ministra da Saúde, Marta Temido, é uma espécie de trigémea das manas Mortágua. Interessa-se muito com a ideologia e as abstracções que quer pôr na lei de bases, mas pouco com os problemas das pessoas. Resultado: a classe média, assustada com o estado do SNS, vai arranjando seguros de saúde. Uma delegação de autarcas da CIM Viseu Dão Lafões acaba de ir em peregrinação à ministra mas regressou de mãos a abanar. As obras nas urgências do Hospital de S. Teotónio não avançam, apesar de já aprovadas e com comparticipação comunitária de 85%, mas a culpa não é dela... é das finanças. O Centro Oncológico não mexe mas a culpa não é dela... é da administração do hospital. Volta, por favor, Adalberto Campos Fernandes!
Jardins Efémeros, 2017
Fotografia Olho de Gato
2. A última sessão da câmara de Viseu ficou marcada pela situação dos jardins Efémeros (JE): este ano não há, para o ano logo se vê. O presidente da câmara confessou que “não estava a contar” (sic) e que só no dia 18 de Março, numa reunião com o vereador Jorge Sobrado e a organizadora dos JE, Sandra Oliveira, foi “confrontado” (sic) com aquele facto. Ora, como António Almeida Henriques não ia mentir em sessão de câmara, isso significa que não foi avisado em devido tempo pelo seu vereador da cultura. Isso é um problema. Qualquer vereador da cultura tem que estar atento ao “ecossistema” cultural do seu concelho. Sobrado tinha que saber que os JE fazem, logo em Janeiro, a chamada aos artistas para projectos integrados no tema do festival. Desta vez, nem em Janeiro, nem em Fevereiro, nem em meio Março houve tema dos JE/2019 nem “call-for-artists”. Eu, que não sou vereador da cultura e, portanto, não recebi os e-mails aflitos da organizadora (não é preciso ser nenhum adivinho para imaginar que foram vários), sabia que os JE deste ano não iam acontecer. Como é possível Jorge Sobrado não saber? Como é possível ele ter deixado que o seu presidente da câmara fosse o último a saber esta péssima notícia para a cidade e para o país?
* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 27 de Março de 2009
Fotografia Olho de Gato
1. Hanami é uma tradição milenar japonesa que leva multidões para debaixo das cerejeiras a admirarem a beleza das suas flores.
Ainda pode fazer hanami este fim-de-semana no vale do Douro, entre a Régua e Resende, onde há milhares de cerejeiras floridas à sua espera.
2. “A tendência do homens (…) a imporem aos outros como regra de conduta a sua opinião e os seus gostos, está tão energicamente sustentada por alguns dos melhores e alguns dos piores sentimentos inerentes à natureza humana que quase nunca se detém a não ser por lhe faltar poder.”
Quando escreveu isto há 150 anos, Stuart Mill estava longe de imaginar deputados, no século XXI, a parirem leis sobre o sal no pão nosso de cada dia.
3. Começo este ponto com uma declaração de interesses: integro um órgão não executivo do Cine Clube de Viseu (CCV).
Apesar disso, é com objectividade que afirmo: o CCV tem uma actividade cultural competente e consistente. O seu trabalho com as escolas já envolveu mais de 20 mil alunos. O Ministério da Cultura acaba de o colocar, pelo terceiro ano consecutivo, em primeiro lugar na rede nacional de exibição não comercial de cinema.
O CCV está bem mas há nuvens no horizonte. A evolução tecnológica vai fazer desaparecer as cópias de filmes em celulóide e a cidade ainda não tem uma sala não comercial com projecção digital.
Era importante que o futuro Centro de Artes do Espectáculo de Viseu (CAEV) tivesse uma sala com essa funcionalidade. Quanto mais modular, flexível e multidisciplinar o CAEV for, melhor.
É necessário evitar que o CAEV se transforme em mais um elefante branco. É agora na fase de concepção que se pode evitar esse risco bem real.
Estou amando loucamente A namoradinha de um amigo meu Sei que estou errado Mas nem mesmo sei como isso aconteceu Um dia sem querer olhei em seu olhar E disfarcei até pra ninguém notar. Não sei mais o que faço Pra ninguém saber que estou gamado assim Se os dois souberem Nem mesmo sei o que eles vão pensar de mim Eu sei que vou sofrer mas tenho que esquecer O que é dos outros não se deve ter Vou procurar alguém que não tenha ninguém Pois comigo aconteceu Gostar da namorada de um amigo meu.