sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

O comboio*

* Hoje no Jornal do Centro

1. No início deste mês, Lídia Jorge, na sua crónica semanal na Antena 2, contou um episódio observado por ela numa estação de comboios alfacinha. Vou tentar reproduzi-lo aqui de memória, especialmente os signos étnicos que polvilham o seu texto.
Fotografia de Alex Wendpap
Enquanto esperava pelo Alfa, a escritora deu conta que uma rapariga “africana”, com uma grande e pesada mala, andava meio perdida e foi pedir informações a um homem “celta”.

O interpelado, um sexagenário de “pele branca”, ajudou logo a rapariga com um sorriso: «vais para o cais número quatro e esperas que chegue um comboio azul...»

Pouco tempo depois, com o estrépito do costume, chegaram àquela estação, quase em simultâneo, dois comboios e a rapariga “africana”, imediatamente, começou a arrastar a mala para um deles.

Mal o “celta” percebeu que ela ia entrar no comboio errado, abandonou os seus pertences, correu ao seu encontro, alombou ele com a bagagem e foi pô-las, à mala e à rapariga “africana”, no comboio certo para o destino certo.

Depois, o homem entrou no Alfa, para o mesmo compartimento de Lídia Jorge. Esta, testemunha e narradora aos microfones da Antena 2 deste gesto simpático e solidário, em vez de o louvar, preferiu apelidar aquele cidadão de “olhos azuis” de racista porque tratou a rapariga por tu. Em tempos de antanho, lembrou a escritora, os senhores é que faziam questão de tutear as suas escravas.

2. Discursos como este sobre “a culpa do homem branco” são muito comuns agora. Como descreveu o deputado socialista Sérgio Sousa Pinto, neste “país exasperado da sua pobreza ancestral, que atravessa séculos e regimes”, temos agora um coro de intelectuais e políticos a querer “transmutar o povo sofrido em colonizador, racista, privilegiado, preconceituoso, heteropatriarcal e xenófobo”.

Esse coro quer meter à força o nosso desgraçado povo no comboio do ressentimento e do revisionismo histórico. Isso é muito injusto. E estúpido. Pelo menos tão estúpido como chamar racista àquele homem prestável da estação.

Dai-me hũa lei, Senhora, de querer-vos

Fotografia de Klara Kulikova


Dai-me hũa lei, Senhora, de querer-vos,
Porque a guarde sob pena de enojar-vos;
Pois a fé que me obriga a tanto amar-vos
Fara que fique em lei de obedecer-vos.

Tudo me defendei, senão só ver-vos
E dentro na minha alma contemplar-vos;
Que se assi não chegar a contentar-vos,
Ao menos nunca chegue a aborrecer-vos.

E se essa condição cruel e esquiva
Que me deis lei de vida não consente,
Dai-ma, Senhora, ja, seja de morte.

Se nem essa me dais, he bem que viva,
Sem saber como vivo, tristemente;
Mas contente estarei com minha sorte.
Luís Vaz de Camões


quinta-feira, 12 de dezembro de 2019

Íamos com fome para a escola [Maria do Rosário Pedreira 6]

Fotografia de Annie Spratt

Íamos com fome para a escola
onde aprendíamos contas de somar
o meu irmão dizia que somar era coisa de sonho
juntar às gemas açúcar e manteiga
e no fim a farinha e as claras em neve 
e ver crescer o bolo da porta do forno
e desenformá-lo ainda quente
com cheiro a bom
e dar uma fatia a toda a gente
mas depois recusava-se a fazer contas de menos
explicando que à miséria
já não se podia tirar fosse o que fosse
(...)

Leitura integral do poema, 
por Maria do Rosário Pereira, aqui





quarta-feira, 11 de dezembro de 2019

O ovo da serpente*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 11 de Dezembro de 2009 



1. A eleição de Barack Obama encheu o mundo de esperança. Só que Obama ainda não teve tempo para respirar. São sarilhos e mais sarilhos. A economia americana avariou, o dólar está a afundar-se e o SNS americano é um parto dificílimo.

O ”american way of life” quer pôr-se outra vez nos carris. Não se vê como. Esta semana, Fareed Zakaria no Washington Post sintetizou: 
“Obama está à procura de uma política pós-imperial no meio de uma crise imperial”.

A 1 de Dezembro, na academia de West Point, Barack fez um discurso sobre a situação militar. Aí, mais uma vez, explicou que é no Afeganistão e no Paquistão que está o ovo da serpente fundamentalista e procurá-lo no Iraque foi um desfoque estratégico.

Esse discurso foi ouvido e discutido em todo o mundo. Em Portugal, infelizmente, não se deu conta de nenhum debate sobre o assunto.



Obama anunciou o envio de mais 30 mil soldados e afirmou que as tropas vão começar a regressar à América daqui a 18 meses.

Percebe-se a motivação estratégica que fez Barack ter já triplicado a presença militar americana no Afeganistão. Já este anúncio de prazo de retirada é um erro difícil de perceber.

Os afegãos não se vão pôr ao lado do corrupto presidente Hamid Karzai sabendo que os americanos se vão embora.

Por sua vez, os talibans e a al-Qaeda só têm que fazer como as cobras durante o inverno e meterem-se mais uns tempos debaixo dos calhaus.

2. Pergunta: qual era o pior emprego em Viseu no séc. XVI?

Resposta: carcereiro. Se algum preso fugisse, era o carcereiro que tinha de cumprir a pena.

Aprendi isso em “A Cidade de Viseu no Século XVI”, de Liliana Castilho, um livro acabado de editar pela Arquehoje. Leitura boa, instrutiva e acessível mesmo a não especialistas.

Ao sair esta tarde do teu quarto [Maria do Rosário Pedreira 5]

Fotografia de Sydney Sims



Ao sair esta tarde do teu quarto com a lentidão
de um rio sob a ponte e a boca triste a retalhar-lhe
o rosto, esse homem a quem tu chamas médico
(mas que é, na verdade, um mago que lê nas veias e
adivinha o futuro) encostou a porta devagar; e disse
depois muito depressa — como uma faca que se risse
num corpo ou um ponto de luz que se apagasse
no céu — que afinal já não irias ter tempo para ver
os frutos derramarem-se das árvores deste verão,
nem os barcos que fendem o mar quando se cruzam
com o crepúsculo, nem sequer o mosteiro onde,
se fosses crente, mandavas rezar missa pela tua mãe.

Se as lágrimas não me tivessem então estremecido
nos olhos e um vento glacial não desenhasse de repente
as formas do meu corpo no vestido (e isso, não sei porquê,
me intimidasse), ter-lhe-ia respondido que se enganara:
porque era eu quem não teria já tempo para salvar-te,
era eu quem morrera com a pancada seca da verdade.
Maria do Rosário Pedreira


terça-feira, 10 de dezembro de 2019

Ainda bem [Maria do Rosário Pedreira 4]

Histórias Que Dão Para Ver, Teatro do Montemuro, texto de João Luís Oliva

Fotografia Olho de Gato
Nelas, 9/11/2019



Ainda bem
que não morri de todas as vezes que
quis morrer — que não saltei da ponte,
nem enchi os pulsos de sangue, nem
me deitei à linha, lá longe. Ainda bem

que não atei a corda à viga do tecto, nem
comprei na farmácia, com receita fingida,
uma dose de sono eterno. Ainda bem

que tive medo: das facas, das alturas, mas
sobretudo de não morrer completamente
e ficar para aí — ainda mais perdida do que
antes — a olhar sem ver. Ainda bem

que o tecto foi sempre demasiado alto e
eu ridiculamente pequena para a morte.

Se tivesse morrido de uma dessas vezes,
não ouviria agora a tua voz a chamar-me,
enquanto escrevo este poema, que pode
não parecer — mas é — um poema de amor.
Maria do Rosário Pedreira




segunda-feira, 9 de dezembro de 2019

Os seus vestidos pretos fechados [Maria do Rosário Pedreira 3]

Fotografia de Ali Gandomi



Os seus vestidos pretos fechados
no armário lançam uma sombra
funesta nos meus dias. A sua voz
eterna na fita do telefone é outro
espinho cravado no meu silêncio.
Roubei-lhe, sem saber, todas as

palavras que te disse — porque,
num beijo meu, são ainda os seus
lábios que procuras, é dela o corpo
que abraças quando me abraças.

Se adormecer ao teu lado mais
esta noite, sei que os seus olhos
hão-de pousar gelados nas minhas
pálpebras, roubando-me a secreta

ilusão desse repouso. E amanhã,
se por acaso saíres antes de mim,
vão esses olhos perseguir-me pelos
corredores, como a expulsar-me

para sempre desta casa. O tempo
é implacável com quem aguarda
em segredo o esquecimento de
uma morte. Deixa-me, por isso,

aguardá-lo contigo; e, entretanto,
basta que me mintas, sim, mente,
mas nunca me digas o seu nome.
Maria do Rosário Pedreira



domingo, 8 de dezembro de 2019

De que me serviu ir correr mundo? [Maria do Rosário Pedreira 2]

Fotografia de Kyle Broad

De que me serviu ir correr mundo,
arrastar, de cidade em cidade, um amor
que pesava mais do que mil malas; mostrar
a mil homens o teu nome escrito em mil
alfabetos e uma estampa do teu rosto
que eu julgava feliz? De que me serviu

recusar esses mil homens, e os outros mil
que fizeram de tudo para eu parar, mil
vezes me penteando as pregas do vestido
cansado de viagens, ou dizendo o seu nome
tão bonito em mil línguas que eu nunca
entenderia? Porque era apenas atrás de ti

que eu corria o mundo, era com a tua voz
nos meus ouvidos que eu arrastava o fardo
do amor de cidade em cidade, o teu nome
nos meus lábios de cidade em cidade, o teu
rosto nos meus olhos durante toda a viagem,

mas tu partias sempre na véspera de eu chegar.
Maria do Rosário Pedreira


sábado, 7 de dezembro de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#246)

The testosterone sound

First comment on the video: 
"So that's what 12 testicles sounds like"

Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim [Maria do Rosário Pedreira 1]

Fotografia de Yoann Boyer

Se alguém me perguntar, hei-de dizer que sim, que foi
verdade — que não amei ninguém depois de ti nem
o meu corpo procurou nunca mais outro incêndio
que não fosse a memória de um instante junto
do teu corpo; e que deixei de ler quando partiste
por não suportar as palavras maiores longe da tua boca;
e que tranquei os livros na despensa e tranquei a despensa,
acreditando que, se não me alimentasse, acabaria
por sofrer de uma doença menor do que a saudade, mas
a que os outros, pelo menos, não chamariam loucura.

Se alguém me perguntar, direi que foi assim, e não de
outra maneira, como alguns parecem supor — que permiti,
bem sei, que outros homens me amassem e me aquecessem
a cama, mas em troca lhes dei apenas um nome diferente
do que tinham e os vi partir desesperados a meio
da noite sem sentir maior dor que a de saber que, afinal,
também eles não existiam para além de ti; e que no dia
seguinte dava comigo a trautear sem querer essa canção
que amavas (como se ela, sim, se tivesse deitado
no meu ouvido), mas que a sua melodia, em vez
de me alegrar como antes, me escurecia mais a vida.

Se alguém me perguntar, nada desmentirei, nem negarei
que os frutos todos que me deram a provar na tua ausência
me pareceram demasiado azedos ao pé dos que explodiam
em sumo nos teus lábios; e que, por isso, nunca mais quis
um beijo de ninguém, nem sequer inocente, e não voltei
também a aceitar as flores que me traziam por me lembrar
que, em mãos assim, tão grandes para o afecto, o seu
perfume anunciava invariavelmente a chegada do outono.

E contarei por fim, se alguém quiser saber, que o teu silêncio
foi de tal densidade, de tal espessura, que não consegui
escutar nenhuma das vozes que vieram depois de ti e, pior
do que isso, me esqueci com indiferença das mais antigas,
pelo que as minhas noites se tornaram uma tão longa
e solitária travessia que ainda esta manhã acordei ao lado
da tua sombra e respondi baixinho, mesmo sem ninguém
me perguntar, que há coisas que uma mala nunca leva.
Maria do Rosário Pedreira


sexta-feira, 6 de dezembro de 2019

Circo — episódio 2*

* Hoje no Jornal do Centro

1. António Costa acaba de nos confrontar com um “déjà vu”: espalhou três secretarias de estado pelo território, uma em Castelo Branco, outra em Bragança e outra na Guarda.

Ora, no tempo do governo de Pedro Santana Lopes já tinha havido o mesmo filme, ...
Fotografia daqui
... o que motivou um Olho de Gato, em 30 de Julho de 2004, intitulado “Circo”.

Perante a repetição, o melhor é ser ecológico, poupar energia, e transcrever para aqui, no ponto seguinte, exactaqualmente o texto de há quinze anos.

2. Pedro Santana Lopes espalhou seis Secretarias de Estado por seis cidades do país. Alguns tenores da direita chamam a esta medida descentralização, outros chamam-lhe desconcentração. Dizer isto é um erro de palmatória. Não se descentraliza nada quando se alugam uns escritórios em Braga ou em Évora ou em Santarém; anima-se é um bocadinho o mercado imobiliário local.

Descentralizar é passar competências e recursos para quem está mais perto dos problemas das populações, por exemplo para as autarquias. Descentralizar não é mandar uns figurões de fatos e carros escuros para mais perto dos indígenas.

Espalhar membros do governo pelo país não é, tão pouco, desconcentrar. Desconcentrar é passar competências e recursos dos serviços centrais para os serviços periféricos do Estado, por exemplo para direcções regionais ou distritais ou concelhias.

Mandar para a província uns figurões de fatos e carros escuros, mais o seu séquito, não serve para nada: só vai atrapalhar o tráfego.

Mas se isto não é descentralizar, se isto não é desconcentrar, então o que é isto? A resposta é fácil: isto é circo.

Vai haver mais nos próximos tempos.

3. Como se sabe, meses depois, o menino guerreiro e o seu circo foram despedidos, com justa causa, por Jorge Sampaio.

Já a geringonça #2, por mais circo que faça, antes de 2021 não vai ter problemas com o presidente Marcelo. Este quer o apoio do PS para a sua reeleição. E está mais para isso do que outra coisa.

Black coffee

Fotografia de Radu Florin



I'm feeling mighty lonesome
Haven't slept a week
I walk the floor and watch that door
And in between I drink
Black coffee
Love's a hand me down brew
I've never know a Sunday
In this weekday room

I'm talking to the shadows
from 1 o'clock til 4
And lord, how slow the moments go
When all I do is pour
Black coffee
Since the blues caught my eye
I'm hanging out on Monday
My Sunday dreams to dry

Now a man is born to go a lovin'
A woman's born to weep and fret
To stay at home and tend her oven
And drown her past regrets
In coffee and cigarettes

I'm moaning all the morning
and mourning all the night
And in between it's nicotine
And not much heart to fight
Black coffee
Feelin' low as the ground
It's driving me crazy just waiting for my baby
To maybe come around...











quinta-feira, 5 de dezembro de 2019

Com que voz chorarei meu triste fado,

Fotografia de Edwin Andrade


Com que voz chorarei meu triste fado,
que em tão dura prisão me sepultou,
que mor não seja a dor que me deixou
o tempo, de meu bem desenganado?

Mas chorar não se estima neste estado,
onde suspirar nunca aproveitou;
triste quero viver, pois se mudou
em tristeza a alegria do passado.

Assi a vida passo descontente,
ao som nesta prisão do grilhão duro
que lastima o pé que o sofre e sente!

De tanto mal a causa é amor puro,
devido a quem de mi tenho ausente
por quem a vida, e bens dela, aventuro.
Luís Vaz de Camões


quarta-feira, 4 de dezembro de 2019

Paraíso*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 4 de Dezembro de 2009

N 40.74817; W 8.04267.
Estas são as coordenadas do Paraíso. É na N16. Viseu - S. Pedro Sul. O Paraíso fica antes de S. Pedro do Sul. Não há que errar. O Paraíso tem placa rodoviária.
Eu já estive no Paraíso. George Clooney também. Mas noutro Paraíso, bem entendido.

O Paraíso de George Clooney é todo branco. Para se lá chegar – ao Paraíso de George Clooney – é preciso subir uma escada muito, muito branca e muito, muito íngreme. Tantos demasiados degraus brancos.

Subir a escada branca do Paraíso é um inferno. Ao menos se se ouvisse, durante aquela escalada, o “Stairway to Heaven” dos Led Zeppelin. Mas nada, silêncio branco, degraus brancos, custosos, muitos, muito brancos.

Ainda por cima, apesar da fadiga de todo aquele para cima, a pesar no braço um saco de compras e nele uma máquina da Nespresso. Um tropeço aquela subida branca. Um cansaço extenuado.

George Clooney não concorda nada com aquilo. Ainda não é o tempo dele. Ainda não é o tempo de ele ir para o Paraíso. Ele não quer o Paraíso lá de cima. Ele tem o paraíso cá em baixo. Tanta mulher a olhar para ele cá em baixo. Tanto paraíso cá em baixo.

Perante o facto consumado, que fazer?

Lá, no cimo, de branco como os brancos degraus, John Malkovitch, porteiro do Paraíso:

«Olá, George!»
«Onde é que estou eu?»
«Não é difícil de adivinhares…»
«Ainda não é o meu tempo…»

John Malkovitch, a olhar um olhar significativo para o saco com a máquina de café, atira:
«Talvez nós pudéssemos chegar a um acordo…»

Pois.
Há tráfico de influências no Paraíso.



Nota de culpa: eu arguido me confesso, a ideia deste triângulo John Malkovitch / George Clooney / “tráfico de influências” vi-a eu a um dos 344 génios que sigo no Twitter. Qual deles foi? Já não sou capaz de dizer.

Faz de conta

Fotografia de Analise Benevides


Faz de conta
que comer uma maçã é
só isto
sem bicho
sem pântano de fino dedo sobre
a pele a eriçar a suspeição de
gastar o fôlego
em chama medianeira

encosta-te ao muro do lote
do lado de lá cinco
metros abaixo
alguém pare um filho
o choro é real contra a erva
e se as janelas estão de
costas para o
lugar logradouro
o choro só pode ser agouro
de uma obstinação luminosa
rasteira
da marginália

escrevi:

era um problema de hermenêutica
o dos dedos no teclado e o das
fronteiras

o linguajar do par de jarras
em ti pousado como múmias
evidentes

mesmo se com o sotaque reluzente
de enrolar rebuçados
que ainda ouço

era um problema de geografia
entre estar aí ou aqui
vim por isso para dentro

recebo a corrente de ar
mas sei que sou estes ossos
e mais adulta me inteiro livre

se a mão se abre e o dizer se
encaramela, peito
aberto à bala húmida que vem,

se a rua sobrevive a saber o
que revolve no caroço do
quarteirão,

então o rufar que agora
ouço a chegar à minha própria
vista saguão
existe, de facto
existe

e nada disto é estanque
pode entrar chuva por todo
o lado mas também

pode transformar-se
sim,
só não assim

não com a camuflagem
do ego sob a carpete,
assim não

talvez com dedicação
e uma peneira dos
intensos agoras

e saber disto
foi um raio de sol
de alívio

e descarregue dos sacos
para facilitar a gestação do gesto
do arejar completo


terça-feira, 3 de dezembro de 2019

segunda-feira, 2 de dezembro de 2019

Solitary animal

Fotografia de Adrien Olichon


The solitary animal walks alone. She has no uterus. She has no bone.
She slithers around dark bars and libraries. She carves
a beautiful girl on the cave wall. She dances with Aurora Borealis,
but goes home alone.

We are 7.5 billion. Thrust onto Earth together, we are not alone.
We shout at the stars, perhaps a Martian is listening, she/he/they
with ten thousand antennae, transversal labia quivering, searching for love.

Your half-drawn monolid eyes are most tantalizing, may I take you home?
Slime you with a green kiss? Breathe magma into your bones? Claw rainbows
onto your lips? Redecorate your home?

Our vertebrae are vibrating, signally: we are not alone. Sacrificed by a greedy
admiralty, we shall live forlornly, and be devoured, headfirst, by reptilian clones.

Inch back into your fern pods, why don’t ya! Baby, I call you, but you are not home. Somewhere in the cosmos, our lies are reverberating. Fake news is sad news. Shrapnel calcifying

into bone. Each day we begin on Earth as a dying person, each breath is one less
than yesterday, we shall die alone.
Marilyn Chin


domingo, 1 de dezembro de 2019

Frogless

Fotografia de JR Korpa

The sore trees cast their leaves
too early. Each twig pinching
shut like a jabbed clam.
Soon there will be a hot gauze of snow
searing the roots.

Booze in the spring runoff,
pure antifreeze;
the stream worms drunk and burning.
Tadpoles wrecked in the puddles.

Here comes an eel with a dead eye
grown from its cheek.
Would you cook it?
You would if.

The people eat sick fish
because there are no others.
Then they get born wrong.

This is not sport, sir.
This is not good weather.
This is not blue and green.

This is home.
Travel anywhere in a year, five years,
and you’ll end up here.
Margaret Atwood



sábado, 30 de novembro de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#245)

0'23'' order ||||||| 3'20'' caos ||||||| 4'49'' order (sort of)





Convite



A terra abre suas pálpebras
e oceano e céu são um convite ao fim do mundo
os seus cílios são brancos cúmulos na dissolução da tarde
há um incêndio de sombras e sangue púrpuro,
sem qualquer ruído

é apenas o sol deposto e a passagem do dia,
um estremecimento forte da pele, um respiro
mais fundo e as velhas questões acossando
tua consciência irredutível de estar vivo agora
e não depois

então diz adeus, despe a tua condição de forasteiro
deixa que a tua matéria seja a água e o esquecimento
do gosto acre da saliva deglutindo a seco
o contacto incómodo com a existência

os dias que foram, os dias que virão
teu medo mais derradeiro
tua angústia mais inominável
deita-os na coluna de espuma

enquanto o corpo é envolvido pela escuridão,
que não te pede absolutamente nada,
a não ser o silêncio profundo da tua alma
e das tuas obsessões calidamente cultivadas

escuta só o corpo latejando na concha
fria do universo, reverberando abandonos
e o êxtase da solidão

escuta esta canção de muito longe,
que todos os homens, em todas as épocas,
já ouviram, sentindo a escassez infinita
de si ante o pálio frio e espectral das estrelas

este ar, este mar não te saúdam
mas te recebem
se tu deixas a ti mesmo para trás
Laís Aquino


sexta-feira, 29 de novembro de 2019

O chupismo centralista*

* Hoje no Jornal do Centro

Daqui
1. Continuamos atolados no pântano que António Guterres anunciou antes de se ter escapulido, pântano que tem duas características:
— mistura a política com os negócios: os boys têm pressa de enriquecer, fazem ajustes directos por tudo e um par de botas e assinam contratos que são um maná para os rentistas;
— é hiper-centralista: usa a necessidade do controlo do défice como pretexto para concentrar todo o poder de decisão em Lisboa, com consequências nefastas no resto do país, especialmente no interior.

As pessoas ficam indignadas com as negociatas mas encolhem os ombros perante o centralismo. Cada vez mais, o país é Lisboa e o resto é paisagem.

Isso é mau, facilita a vida à corrupção e fica muito caro ao país. Um exemplo: até ao governo do engenheiro Guterres, as escolas e os hospitais compravam os consumíveis localmente, depois este tipo de aquisições passou a ser feito em centrais de compras em Lisboa. Não fica mais barato ao estado, mas serve para passar para as mãos de grandes operadores amigos do poder aquilo que sempre fora para os pequenos e médios negócios locais.

2. Os governos levam para Lisboa todo o poder e todos os recursos que podem. Agora até já só fazem obras da sua responsabilidade nos territórios se as câmaras ajudarem a pagar.

A requalificação da escola Grão Vasco de Viseu foi feita com fundos comunitários mas a comparticipação nacional de 195 mil euros teve que ser paga pelo município. O dono da escola, o ministério da educação, baldou-se.

A saturada e perigosa estrada que liga Viseu ao Sátão, que dá acesso a todo o norte do distrito, precisa de obras urgentes, orçadas em 3,3 milhões de euros, mas o governo, dono da estrada, diz que só as faz depois de chupar um milhão de euros à câmara de Viseu e 400 mil à câmara do Sátão.

E os dois presidentes de câmara estão dispostos a aceitar esta chantagem. E a ANMP, dirigida pelo fraquíssimo presidente da câmara de Coimbra, aceita estas chantagens.

Os cobardes

#kafkaemserralves #joanavasconcelosépirosa
Fotografia Olho de Gato




La belleza no es un lugar donde van a parar los cobardes.
Antonio Gamoneda

Talvez venhas a morrer perto
violentado pela luz, pelo assombro
de uma vida pensada junto ao fogo
mas de onde nunca trouxeste nada

A vida é tanto mais pesada
se te não fere a violência de um deus
se regressas da solidão com o mesmo porte
com as mãos abertas e laceradas

como praças descobertas para a morte
Bruno M. Silva



quinta-feira, 28 de novembro de 2019

Exército zombie

Fotografia de Nathan Wright

Idealistas sonhadores homens
mulheres
sem cabeça sem alvo ou
ponto a atingir
Poetas escrevendo apontamentos
deixando ora o braço
ora a mão aqui e ali na longa
planície da vida
Do céu tudo o que fazem
é um mero desenho
pontuado por destroços


quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Estilo

Fotografia de Avi Naim

na lapela uma agulha adornada c'um brilhante
na orelha uma argola de pirata petulante
o andar afectado de quem anda nas alturas
espreitando do bolso um folheto com torturas
ou então um volume de cozinha libertária
que ninguém percebia ao fazer a culinária

todo o dia a jogar a um jogo de charadas
entre copos de absinto e mistelas inaladas
recitamos poemas em delírio fonético
inventamos dadá em registo frenético
e depois já cansados vamos todos para a cama
numa orgia colectiva que não vinha no programa

é preciso é estilo! não cansamos de dizer
num verniz de desdém que nos dá muito prazer
assumindo o deboche cada vez mais descarado
insurrectos em graça adorando o acto ousado
somos fãs da desbunda do deleite permanente
e assim passa o tempo e com ele nova gente

é preciso é estilo em delírio fonético
é preciso é estilo adorando o acto ousado
é preciso é estilo de pirata petulante
é preciso é estilo vamos todos para a cama
é preciso é estilo em deleite permanente
é preciso é estilo de quem anda nas alturas
Adolfo Luxúria Canibal


Boris Pasternak *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 27 de Novembro de 2009



1. Em 1937 realizou-se um congresso dos escritores soviéticos onde só se ouviram hinos de louvor ao “pai dos povos”, José Estaline. Era então aquela a partitura oficial em todos os actos públicos naquele país.


Claro que Boris Pasternak, o mais aclamado dos poetas russos, esteve presente no congresso. Ele não queria tocar a música do regime pelo que tinha o seguinte dilema: ou falava e era preso ou não falava e era preso na mesma.

No último dia do congresso, Pasternak levantou-se. Fez-se silêncio. Silêncio sepulcral. Sem sair do lugar, o escritor russo disse um número. Todos perceberam. Era o número que tinha o soneto de Shakespeare “Quando sinto a lembrança das coisas passadas” numa colectânea que Pasternak traduzira para russo. Então, duas mil vozes recitaram aquele soneto em coro.

Foi um momento mágico. Até os esbirros perceberam que podiam entrar em todo o lado menos dentro das cabeças dos homens. Pasternak acabou por não ser preso.

Há momentos assim que são epifanias. Como se cada dilúvio decretado pelos deuses trouxesse já consigo a arca da salvação.

George Steiner já contou várias vezes esta história e referiu-se mais uma vez a ela esta semana no Instituto Piaget de Viseu.

 
2. Miguel Ginestal toma posse hoje como governador civil de Viseu. Esta é uma boa notícia para o distrito. Ginestal vai ser um excelente governador civil. Ele vai prosseguir sem sobressaltos o bom trabalho realizado por Acácio Pinto e sua equipa.

Já para o concelho de Viseu esta é uma notícia péssima. Fernando Ruas está no último mandato. Ora, como é sabido, os últimos mandatos são os que mais precisam de ser escrutinados. Era necessária uma oposição socialista com liderança política forte e competente na câmara de Viseu. E, agora, não há.

terça-feira, 26 de novembro de 2019

O pau sondava o tambor

Fotografia de Isaiah McClean


O pau sondava o tambor
O tambor seduzia o pau
Com o véu a encobrir o arco-íris
Música vibrante do seu arco
Coxas latejantes
No feitiço de emprenhar som e fantasia
No ritual propósito de gerar
Fecundar
Crescer
Revoltar
Soltar-se

No apelo para a dança
O pau vergava sob a ânsia
Do tambor
A fêmea era a Terra
Alimentadas as mãos do homem
Umbigos arfantes
Aspirando sémen e suor e sangue e música
Nos espasmos
Contracções da terra
Expelindo lava
Sugando o poema primeiro
Continuando nos gestos que iriam renascer
Na ansiedade de novas descobertas.
Daniel Medina


segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Laguna blues

Daqui



It’s Saturday afternoon at the edge of the world.
White pages lift in the wind and fall.
Dust threads, cut loose from the heart, float up and fall.
Something’s off-key in my mind.
Whatever it is, it bothers me all the time.

It’s hot, and the wind blows on what I have had to say.
I’m dancing a little dance.
The crows pick up a thermal that angles away from the sea.
I’m singing a little song.
Whatever it is, it bothers me all the time.

It’s Saturday afternoon and the crows glide down.
Black pages that lift and fall.
The castor beans and the pepper plant trundle their weary heads.
Something’s off-key and unkind.
Whatever it is, it bothers me all the time.
Charles Wright




domingo, 24 de novembro de 2019

Se eu pudesse dormiria abraçada com elas

Fotografia de Oswaldo Ibáñez


se eu pudesse dormiria abraçada com elas
todas as noites
por exemplo
no dia seguinte viraria para o lado e me fingiria de viva
não tenho que lidar com pedras que não são minhas
eu só quero dormir com elas sem ter que recolhê-las
sem ter que dar-lhes um nome um dinheiro para passagem de volta
se eu pudesse eu manteria distância de discursos
que me impõem uma responsabilidade por pedras
que não são minhas
a do peito
a dos rins
a do sapato
essas sim
eu carrego diariamente minhas próprias pedras sem nome
que é para não desenvolver algum vínculo
para não aparecer remorso na hora de jogá-las
de atirá-las
num rio
num rosto
num buraco que precisa ser tapado e só minhas pedras cabem
eu carrego diariamente minhas pedras
por ruas sujas e curiosamente ausentes delas
às vezes algumas me acertam a nuca
num movimento de destreza eu as capturo no meio das minhas costas
e digo: por aí só passa mão língua ou pomada relaxante muscular
se eu pudesse eu daria a algumas pessoas da minha vida
suas próprias pedras para desenvolverem responsabilidade
por algo realmente seu
se eu pudesse eu fingiria que essas mesmas pessoas não existem
nem elas
nem suas pedras
nem seu afazeres que não me dizem respeito
as pedras que às vezes surgem no caminho
não turvam a vista
não cansam os modos
eu as recolho
uma a uma
e dou pro moço que pesa objetos superestimados na esquina
para ver se eu descolo algum dinheiro
às vezes não valem nada
nem sequer pesam
mas alguém diz que pesa
que prende na garganta
que ataca o peito
eu apenas recolho
para evitar bagunça
para ver se eu consigo trocar por algodão doce
feito se fazia com panelas velhas em 1999
se eu pudesse eu comeria tuas pedras para saber o gosto que tem
ser tua pedra
andar no teu bolso
no teu anel
no teu pescoço
mas nunca te pesar o peito.
Ágnes Souza