sábado, 17 de agosto de 2019

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

Frank Zappa*

* Hoje no Jornal do Centro


1. O sr. Google não me achou uma frase de Frank Zappa em que ele defendeu que a escolha do inquilino da Casa Branca devia ser votada por todos os países do mundo.

Não encontrei a tal frase, mas apareceu-me muita informação sobre o genial músico norte-americano que era tudo menos um hippie virado para o umbigo. Pelo contrário: Zappa era um freak irrequieto, movido a tabaco, café e manteiga de amendoim, com uma intervenção política permanente em defesa da liberdade e da participação democrática, especialmente dos jovens. Era bom que estes procurassem as suas músicas e atentassem nas suas palavras.

A tal frase dele que eu procurei foi mais ou menos assim: “como as decisões dos presidentes dos Estados Unidos afectam todo o planeta, deviam ser todos os cidadãos do planeta a votar na sua escolha.»

Vinte e seis anos depois da morte de Frank Zappa, o mundo interfere mesmo nas eleições presidenciais dos EUA e isso é assumido, com todas as letras, por políticos norte-americanos de topo:

— em Julho de 2016, Trump fez o seguinte pedido numa conferência de imprensa: “Rússia, se estás a ouvir, espero que sejas capaz de apanhar os 30 mil e-mails que faltam. Eu penso que serás fortemente recompensada pela nossa imprensa”. Putin, como se sabe, fez-lhe a vontade e os e-mails comprometedores de Hillary Clinton apareceram mesmo;

— há três meses, numa entrevista, Hillary sugeriu que um dos candidatos às primárias democratas faça o seguinte apelo: “China, se estás a ouvir, porque é que não consegues as declarações de rendimento de Trump? Tenho a certeza que os nossos media te davam uma rica recompensa.” Não se sabe se Xi Jinping vai fazer aparecer as ditas declarações.

Uma coisa é certa: a Rússia e a Arábia Saudita vão mexer os cordelinhos por Trump e a China e o Irão pelo candidato democrata.

2. Com a saída de Joaquim Seixas da câmara de Viseu, quem é que defende agora os viseenses dos decibéis em excesso produzidos pelo seu ex-colega Jorge Sobrado?




Café Orfeu

Fotografia de Michael Dam

Nunca tinha caído
de tamanha altura em mim
antes de ter subido
às alturas do teu sorriso.

Regressava do teu sorriso
como de uma súbita ausência
ou como se tivesse lá ficado
e outro é que tivesse regressado.

Fora do teu sorriso
a minha vida parecia
a vida de outra pessoa
que fora de mim a vivia.

E a que eu regressava lentamente
como se antes do teu sorriso
alguém (eu provavelmente)
nunca tivesse existido.
Manuel António Pina


quinta-feira, 15 de agosto de 2019

Para ti escrevi árduas sentenças

Fotografia de Elijah O'Donnell

Para ti escrevi árduas sentenças,
para ti escrevi todo o meu declínio;
aniquilo-me agora, e nada pode salvar
a minha voz devota; apenas um canto
pode transparecer sob a minha pele
e é um canto de amor que amadurece
esta minha eternidade sem limites.
Alda Merini
Trad.: Clara Rowland



quarta-feira, 14 de agosto de 2019

Ele e ela (#8)*

* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008, 2009, 2011 e 2012 no Jornal do Centro.
Este #8 foi publicado há exactamente dez anos, em 14 de Agosto de 2009


— Cuidado, vai devagar!
— É a primeira vez que andas no meu carro. Aviso-te já: eu sou um bom condutor. Guio há muitos, muitos anos, e nunca bati…
— Estou nervosa. Simpatizei contigo logo quando te vi na FNAC. Atenção à curva…
— Foi tão giro! Em milhares de livros que lá havia e ambos a querermos o mesmo livro.
— Sim. Eu tinha lido “na palma da tua mão” num blogue. Queria o livro que tivesse esse poema. Trava! Olha o TIR amarelo…
Imagem daqui




“E na palma da tua mão
busco ternura
sem contar meses,
anos, dias
sem saber dizer”…
— … “sem saber dizer
se já te chorei
por inteiro
o suficiente
para não voltar a perder-te”. 
Tão lindo! Tão triste! Gosto tanto da poesia de Vasco Gato! Estamos a chegar à cidade. Abranda.
— Deixa-me apertar a tua mão. E eles na FNAC foram ver à base de dados e só havia aquele exemplar em todas as lojas da rede.
— Foste tão simpático. Deixaste que eu ficasse com ele. Já o li tanta vez! Devagar! Olha a passadeira…
— … parecia o destino. Estava ali aquela mulher linda, linda, linda, que gostava de poesia… deixa-me sentir a palma da tua mão…
— Gostei de te conhecer ali. Os disparates que dissemos no café da FNAC! Cuidado, devagar!, a rotunda está com água…
— “Voa comigo nos ombros da noite
enlaçados como dedos e dedos
Imagem daqui
na ternura completa das mãos”.
Quero-te desde aquele dia. Sonho com esta noite desde aquele dia. Desejo-te agora. Quero-te tanto!
— Acelera! Rápido! Ainda só está no amarelo…


Procurei as moradas

Fotografia de Saksham Gangwar


Procurei as moradas onde as
Pessoas viveram, as datas
escalpelizadas
Da deportação, os locais

Onde foram assassi
Nadas, a alma desfaz-se, é trans
Portada por uma paisagem de fora
Sem exterior nem interior
É fatal o anjo da memória

O espaço morre, agora
Carlos Couto Sequeira Costa


terça-feira, 13 de agosto de 2019

Facilidade do ar

Fotografia de Joyce Huis

Não sei se respondo ou se pergunto.
Sou uma voz que nasceu na penumbra do vazio.
Estou um pouco ébria e estou crescendo numa pedra.
Não tenho a sabedoria do mel ou a do vinho.
De súbito ergo-me como uma torre de sombra fulgurante.
A minha ebriedade é a da sede e a da chama.
Com esta pequena centelha quero incendiar o silêncio.
O que eu amo, não sei. Amo. Amo em total abandono.
Sinto a minha boca dentro das árvores e de uma oculta nascente.
Indecisa e ardente, algo ainda não é flor em mim.
Não estou perdida. Estou entre o vento e o olvido.
Quero conhecer a minha nudez e ser o azul da presença.
Não sou a destruição cega nem a esperança impossível.
Sou alguém que espera ser aberto por uma palavra.
António Ramos Rosa


segunda-feira, 12 de agosto de 2019

Linhas de água

Fotografia de Bash Fish





إنما الناس سطورٌ كتبت لكن بماء
جبران
As pessoas são linhas, escritas só com água
Gibran


Reza a lenda
com o passar do tempo
a essência nas mãos dos seres humanos
assumiu plenamente
a prerrogativa material
venerada
e polimórfica
dos fluidos

O jarro de vidro
é um líquido
dentro esconde
a água graciosa
tapada com rodelas de limão
de um olhar alagado
sempre ausente
sempre fugaz

O jarro contém
linhas rugosas
entrelaçadas nos cantos dos olhos
Elas são o além
de um encontro nunca acabado
nas bordas de uma distância máxima
de outras vidas futuras
onde o brilho da pele húmida do pescoço
condensa
histórias de abandono
coloridas
com o suor líquido fora
e sangue quente dentro

Essa pele morena
pulsa
como um hímen fino sem contracção
como a face de um dado
de pintas gastas
como o cheiro improvável
do calcário queimado
ao sol do verão

Ao debruçar do sono
re-aprendi
só a densidade separa líquidos
só um poema infiltra
as escamas finas da pele amorfa
um líquido invólucro de um outro líquido
onde se dissolvem globos oculares
e zumbem os insetos pousados nos muros
a escutar a chuva
e a dormir quando chega o cansaço



domingo, 11 de agosto de 2019

Com que palavras

Gif Olho de Gato




Com que palavras ou que lábios
é possível estar assim tão perto do fogo,
e tão perto de cada dia, das horas tumultuosas e das serenas,
tão sem peso por cima do pensamento?

Pode bem acontecer que exista tudo e isto também,
e não só uma voz de ninguém.
Onde, porém? Em que lugares reais,
tão perto que as palavras são de mais?

Agora que os deuses partiram,
e estamos, se possível, ainda mais sós,
sem forma e vazios, inocentes de nós,
como diremos ainda margens e como diremos rios?
Manuel António Pina


sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Fusíveis*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Título de uma notícia neste jornal, em 19 de Julho: Mercado 2 de Maio, Praça Ganha Cobertura “Amiga do Ambiente”.


Fotografia Olho de Gato
No virar do milénio, Siza Vieira prantou uma eira no centro da cidade de Viseu e o dr. Ruas, paralisado pela reverência ao arquitecto, não fez nada para a melhorar.

Nos seis anos que já leva de presidência, António Almeida Henriques, que foi a votos com a promessa de dar uma volta àquele espaço, nada fez também. É verdade que, em 2015, avançou com um concurso de ideias cheio de ideias erradas, que até pretendia escarafunchar no granito para fazer ali um parque de estacionamento, mas aquilo foi um rascunho que só derreteu dinheiro e tempo.

Agora, em Julho, António Almeida Henriques saiu-se com este teaser sobre uma putativa cobertura fotovoltaica para o Mercado 2 de Maio. É um fusível político. É o truque “Greta Thunberg”. Para tentar evitar sarilhos com um projecto, nada melhor do que carimbá-lo à partida como “amigo do ambiente”.


2. Título de uma notícia neste jornal, em 2 de Agosto: Projecto do Centro Interpretativo do Estado Novo Agrada a Marcelo Rebelo de Sousa.

Leonel Gouveia, o presidente da câmara de Santa Comba Dão, é um homem determinado. Pegou no município mais falido do distrito, viu-o ser devastado em 15 de Outubro de 2017, quando até arderam as máquinas municipais, e está a recuperá-lo financeira e animicamente.

Como se isso não fosse pouco, o autarca tem também que fazer a gestão da memória de António Oliveira Salazar. Para tentar atravessar este campo minado, Leonel Gouveia deita mão não a um mas a dois fusíveis: avisa que o centro interpretativo é um projecto “científico” supervisionado por três catedráticos da universidade de Coimbra e sublinha que a “ideia foi muito bem aceite por Marcelo Rebelo de Sousa”.

O segundo fusível é melhor do que o primeiro, mas nem um nem outro vão evitar fortes descargas eléctricas naquele simpático concelho onde nasceu um antipático ditador.

Espero nunca mais te ver

Fotografia de Максим Лунгу


Para onde foste?
Fiquei sem saber
se os minutos correram no sentido certo,
quando a sombra te escureceu o olhar.
Eduardo Arimateia



quinta-feira, 8 de agosto de 2019

Era uma vez



Era uma vez
toda a gente se juntava
para à noite ir à farra
lá na tasca do Marquês
mas hoje em dia
está tudo remodelado
neste hostel não há fado
nem se percebe português
mas hoje em dia
está tudo remodelado
neste hostel não há fado
nem se percebe português

Era uma vez
quando Alfama anoitecia
toda ela só parecia
um veleiro sem vela
mas agora
que tem nova padroeira
até Madonna vai à feira
e St. António está com ela
mas agora
que tem nova padroeira
até Madonna vai à feira
e St. António está com ela

Era uma
era uma vez
era uma vez
Era uma
era uma vez
era uma vez

Era uma vez
que o largo do Intendente
era o fim de tanta gente
que se perdia pela vida fora
Mas agora
esta vida portuguesa
elegante à francesa
virou chique e está na moda
Mas agora
esta vida portuguesa
elegante à francesa
virou chique e está na moda

Era uma vez
que na Sra. da Saúde
ainda se rezava com virtude
ai, bendito é o Senhor
Mas de momento
tudo aquilo que nos resta
é de aproveitar a festa
e de dar de beber à dor
Mas de momento
tudo aquilo que nos resta
é de aproveitar a festa
e de dar de beber à dor

Era uma
era uma vez
era uma vez
Era uma
era uma vez
era uma vez
Telmo Pires





quarta-feira, 7 de agosto de 2019

Ele e ela (#7) *

* A série "Ele e ela" saiu nos verões de 2008, 2009, 2011 e 2012 no Jornal do Centro.
Este #8 foi publicado há exactamente dez anos, em 7 de Agosto de 2009

Imagem daqui

— Hmmmm… bom…

— Estava cheio de saudades.

— Estavas nada, mentiroso…

— Saudades muitas. Tu sabes. Tens lume?

— Não se fuma no quarto.

— Antes não dispensávamos um cigarrinho depois…

— Disseste “antes cigarrinho depois”… lol...

— Lol?! O que é isso?!

— Internet. Esquece…

— Já estás com os teus enigmas outra vez, é? Apetece-me um cigarro…

— Aqui no quarto, já te disse, agora não se fuma.

— Que está a dar na televisão?

— Deixa lá a televisão. Abraça-me.

— Como tem sido este último ano?

— Trabalho muito para me esquecer de tudo. Tomo comprimidos para dormir e tenho ajudado a minha mãe nas doenças dela…

— A tua mãe? Muito do que aconteceu foi por culpa dela…

— A minha mãe ajudou-me sempre nos meus problemas.

— A tua mãe é o teu único problema.

— Não digas isso…

— A tua mãe é uma víbora.

— Não te admito isso…

— É uma víbora. Espalha veneno em todo o lado. Até foi dizer mal de mim para a empresa.

— Isso não é verdade!

— Foi. Teve azar a velhadas, viram-na entrar para o gabinete do meu chefe.

— Se foi lá, foi tratar de algum assunto…

— Foi largar veneno, a víbora.

— Abraça-me. Preciso de carinho.

— Tenho um compromisso. Tenho que me ir embora.

— És sempre o mesmo. Um egoísta! Um merdas! Quero divorciar-me de ti!

— Mas nós estamos divorciados já há um ano…

— Quero o divórcio outra vez!

Esse verão a cada momento

Fotografia de Hanna Postova


Esse verão a cada momento esqueço havia esse
verão esse tempo atravessado por corpos nunca por
nome tidos esses corpos que fazem vir as lágrimas
os livros gamados por esse Chiado abaixo!
Chatices da sensibilidade! Como lhe hei-de
dizer a esse estudantinho de veterinária
a esse verão ainda repetido deus nos guarde!

Deus deus ou quem cá anda nesse rosto mais de
corpo que de rosto nesses olhos que troco há tantos
anos sob o duque da Terceira, já não sei se é a terceira
se é Saldanha, mas é duque! diz a Rita cobrindo a
mesa, das antigas, de mármore!, cobrindo a mesa de
fotografias. Ao lado o João, eu não, o outro, esse, o
dos livros gamados Chiado acima Portugal, Sá da Costa
no meio fica a Bertrand.
Bebendo ginja Cais do Sodré a tarde toda!
João Miguel Fernandes Jorge
(Poema 8, in Actus Tragicus)
Inédito — daqui



terça-feira, 6 de agosto de 2019

segunda-feira, 5 de agosto de 2019

To thee, old Cause!

Fotografia de Lionello DelPiccolo

To thee, old Cause!
Thou peerless, passionate, good cause!
Thou stern, remorseless, sweet Idea!
Deathless throughout the ages, races, lands!
After a strange, sad war—great war for thee,
(I think all war through time was really fought, and ever will be really fought,
for thee;)
These chants for thee—the eternal march of thee.

Thou orb of many orbs!
Thou seething principle! Thou well-kept, latent germ! Thou centre!
Around the idea of thee the strange sad war revolving,
With all its angry and vehement play of causes,
(With yet unknown results to come, for thrice a thousand years,)
These recitatives for thee—my Book and the War are one,
Merged in its spirit I and mine—as the contest hinged on thee,
As a wheel on its axis turns, this Book, unwitting to itself,
Around the Idea of thee.
Walt Whitman


domingo, 4 de agosto de 2019

És cruel — post # 6000



Meteste a tua filha num bordel
Enforcaste o teu caniche a um cordel
És cruel

És tarado
Pintaste o sexo cor de rebuçado
No circo tu serias um achado
És tarado

És um porco imundo,
Quando queres vais até ao fundo
Não sei onde vais parar

És ignóbil
Não sei qual é que é o teu móbil
És um reciclado de Chernobil
És ignóbil

És vaidoso
Meteste uma pompom na tua franja
Sabes que ainda o dia é uma criança
És vaidoso

És um porco imundo
Quando queres vais até ao fundo
Não sei onde vais parar

És obtuso
Lavas a tua tromba com água do Luso
O teu nariz é como um parafuso
És tarado

És obsceno
Os teus olhos diz que ele é um veneno
Encharcas-te com vinho do Reno
És cruel

És um porco imundo
Quando queres vais até ao fundo
Não sei onde vais parar

És um porco imundo
Quando queres vais até ao fundo
Não sei onde vais parar

Não sei onde vais parar

sábado, 3 de agosto de 2019

Café do molhe

Fotografia de Nick Owuor

Perguntavas-me
(ou talvez não tenhas sido
tu, mas só a ti
naquele tempo eu ouvia)

porquê a poesia,
e não outra coisa qualquer:
a filosofia, o futebol, alguma mulher?
Eu não sabia

que a resposta estava
numa certa estrofe de
um certo poema de
Frei Luís de Léon que Poe

(acho que era Poe)
conhecia de cor,
em castelhano e tudo.
Porém se o soubesse

de pouco me teria
então servido, ou de nada.
Porque estavas inclinada
de um modo perfeito

sobre a mesa
e o meu coração batia
tão infundadamente no teu peito
sob a tua blusa acesa

que tudo o que soubesse não o saberia.
Hoje sei: escrevo
contra aquilo de que me lembro,
essa tarde parada, por exemplo.
Manuel António Pina


sexta-feira, 2 de agosto de 2019

Baixa densidade*

* Hoje no Jornal do Centro


1. O politiquês, esse dialecto do politicamente correcto, deixou de chamar “interior” à parte do país a que não chega o cheiro do mar e agora prefere chamar-lhe “território-de-baixa-densidade”.

Já se sabe, os políticos são palavrosos, podendo usar quatro palavras não vão usar só uma e a nova designação faz algum sentido. Onde não chega o iodo e a maresia é cada vez mais baixa a densidade de serviços de saúde, de estações de correio, de agências da CGD, de transportes públicos com passes fofinhos, de estradas decentes não-portajadas.

2. O PS, o vencedor anunciado das próximas legislativas, dedica quatro páginas do seu programa eleitoral à “coesão territorial” onde se propõe “tomar medidas” para o “desenvolvimento harmonioso de todo o país, com especial atenção para os territórios de baixa densidade”.

Em sete sub-capítulos, cheios de clichês, são elencadas cinquenta “medidas” que querem “apostar no potencial” e “apoiar o aumento”, para além de “incentivar o surgimento” e “reforçar o diferencial”, de forma a “promover a obtenção” e “incorporar o desígnio”. Algures, claro, lá surge também o inevitável “incentivar o empreendedorismo”.

É uma lista de cinquenta eufemismos, escritos em língua-de-trapo, sem nenhuma quantificação ou calendarização, sem nenhum pensamento operativo sobre as cidades médias ou sobre o mundo rural, sem nenhum incentivo fiscal nem em IRS, nem IRC, nem IMI, sem nada palpável capaz de atrair pessoas ou investimentos para o interior.

3. À hora que escrevo este texto ainda não se sabe se o distrito de Viseu vai eleger oito ou nove deputados e também ainda não se conhece a lista do PSD.

Lúcia Silva e Rosa Monteiro
Já foi divulgada a lista socialista onde, em segundo lugar, em vez da secretária de estado Rosa Monteiro, o aparelho prantou Lúcia Silva. Percebe-se a lógica da batata da distrital socialista: para um “território-de-baixa-densidade”, uma deputada com densidade política equivalente.

Sovente il sole

Fotografia de Aziz Acharki

Sovente il sole
Risplende in cielo
Piu bello e vago
Se oscura nube
Gia l’offuscò.

E il mar tranquillo
Quasi senza onda
Talor si scorge,
Se ria procella
Già lo turbò.






quinta-feira, 1 de agosto de 2019

Timidez

Clip de Jim Jarmush (1986)



Perguntou-lhe se ia ao cinema.
Ela acendeu um cigarro, desviou o olhar do rosto dele.
Respondeu-lhe que o filme era muito inocente.
Eduardo Arimateia



quarta-feira, 31 de julho de 2019

Eleições 2009 (IV)

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 31 de Julho de 2009 


Quais dos nove deputados eleitos pelo distrito de Viseu merecem ser reconduzidos? Pela minha análise, três deputados e meio:

1. Hélder Amaral (CDS) – foi, sem dúvida, o melhor deputado de Viseu. Teve uma presença assídua nos media locais e nacionais e mostrou saber pensar pela própria cabeça.
Francisco Peixoto, há uns anos, deixou uma marca de qualidade na bancada do CDS. Hélder Amaral, agora, não lhe ficou atrás.

2. José Junqueiro (PS) – foi um vice-presidente subutilizado da bancada da maioria.
Paulo Rangel, no seu discurso de despedida do parlamento, chamou “diligente” a Junqueiro. Com justiça. A grande capacidade de trabalho do deputado do PS é a sua principal qualidade. Dos seus defeitos tem-se falado cabonde aqui no Olho de Gato.

3. António Almeida Henriques (PSD) – tem um longo currículo no associativismo empresarial. Mas não só: a sua recondução é apoiada por 23 das 24 concelhias do PSD.

Em 2013 será, muito provavelmente, candidato ao lugar ora ocupado por Fernando Ruas.

3,5. Carlos Miranda (PSD) – até Janeiro de 2008, enquanto tivemos a política errática de Correia de Campos, Carlos Miranda fez-lhe uma boa e aguerrida oposição.

Quando José Sócrates decidiu pôr sensatez no ministério da saúde e dar posse a Ana Jorge, Carlos Miranda passou a ser mais discreto. Por isso, merece só “meia” recondução. De qualquer forma, Carlos Miranda vai sair do parlamento por opção própria.

Quem não merece ser reconduzido é José Luís Arnault. Nestes quatro anos, não fez nada pelo distrito que o elegeu. Que vá pregar para outra freguesia.

O PS e o CDS já se livraram de pára-quedistas políticos. De que estão à espera José Cesário e o PSD-Viseu para fazerem o mesmo?

Corpo de trabalho

Fotografia de Pawel Szvmanski

Cansada de ver o pouco que valho
Este corpo que é todo
Um corpo de trabalho
Escravo demente dos dias ruins
Que bóia e espera o golpe de rins

Com papo vazio e o peito apertado
Passo-te, cega, a mão pelo pêlo
O coração na boca o palato suado
A cara de caso o nariz empinado
Tenho as costas largas e a língua num novelo
Não dou o braço a torcer por dor de cotovelo


terça-feira, 30 de julho de 2019

Algumas palavras em defesa

Fotografia de Oladimeji Odunsi


Dor em todo o lado. Mortandade em todo o lado. Se bebés
não morrem de fome algures, morrem de fome
noutro lugar qualquer. Com moscas rondando-lhes as narinas.
Mas nós apreciamos as nossas vidas porque Deus assim o quer.
Se assim não fosse, as madrugadas de Verão não teriam sido
feitas de tal beleza. O tigre de Bengala não teria sido
concebido com tão miraculosa perfeição. As mulheres pobres
junto à fonte riem em comunhão no intervalo entre
o sofrimento por que passaram e o terror
que as espera no futuro, sorrindo e dando gargalhadas enquanto alguém
na aldeia está muito doente. O riso acontece
todos os dias nas horrendas ruas de Calcutá,
e as mulheres riem nas prisões de Bombay.
Se negarmos a nossa felicidade, se resistirmos à nossa satisfação,
diminuímos a importância das suas privações.
Devemos arriscar a alegria. Podemos prescindir do prazer,
mas não da alegria. Não da satisfação. Temos de ter
a teimosia de aceitar o nosso contentamento no impiedoso
forno deste mundo. Fazer da injustiça a única
medida da nossa atenção é louvar o Demónio.
Se a locomotiva do Senhor nos abater,
devemos agradecer porque no nosso fim houve magnitude.
Admitamos que haverá música apesar de tudo.
Cá estamos, de novo na proa de um pequeno navio estreito,
olhando para a ilha que dorme: a beira-mar
são três cafés fechados e uma luz nua que ainda arde.
Ouvir o débil som de remos quebrando o silêncio enquanto um barquinho
sai do porto e depois regressa vale realmente a pena
todos os anos de dor que estão por vir.
Jack Gilbert
Trad.: Andreia C. Faria


segunda-feira, 29 de julho de 2019

Blandina

Fotografia de Frankie Cordoba

Tão bela! Que bela, que bela
é a toada que ouço agora
na vez em que vou morrer.

A multidão ferve e é hora:
bramas se me dobro já
sobre o escuro, teu corpo
de boi fogo e meu colosso.

Sobre o escuro teu dorso
de boi, breu fulvo, teu contorno,
curvo-me cativa e cumpro-me
pesada e côncava sobre o pó.

São fardo teu trono, meus seios,
enquanto bramimos; afinal
sou bicho e tanto como tu
na vez em que vou morrer.

Ergo-me ampla e abro-me
à fome, meu altar e tua arte
na vez em que vou morrer:
a multidão ferve e é hora.

Estendo-me larga e fendo-me
doida, densa açucena pousada,
planície inteira como se exposto
meu lombo, como se a escutasse

tão bela! que bela que bela
na vez em que vou morrer:
a multidão ferve e é hora.
Mafalda Sofia Gomes