terça-feira, 31 de dezembro de 2019

2009*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 31 de Dezembro de 2009 


Fica aqui uma pequena “antologia” da forma como esta coluna viu Viseu ao longo de 2009.

16 de Janeiro: Ainda não foi desta vez que a câmara municipal anunciou lugares de estacionamento reservados aos moradores. Foi pena. É uma medida tão necessária para dar vida ao centro histórico como a tão falada loja do cidadão.

6 de Fevereiro: Que fazer para que o fiasco do Pavilhão Multiusos não se repita no futuro Centro de Artes do Espectáculo de Viseu?

13 de Março: O que Viseu menos precisa é do velho e costumeiro pingue-pongue entre Fernando Ruas e José Junqueiro, com o dr. Ginestal a servir de apanha bolas. Mais um funeral como o da universidade pública não, por favor!

3 de Julho: Já devia haver internet sem fios gratuita nas ruas de Viseu. Era tão bom ver putos a guglarem nos seus Magalhães, com os dedos lambuzados de gelado, sentados no Rossio ao lado dos reformados!

18 de Setembro: Enquanto Almeida Fernandes “põe” D. Afonso Henriques em Viseu, Inês Vaz “tira” Viriato de Viseu. Não me canso de repetir: não há nada mais instável que o passado.

9 de Outubro: Cresceu muito a burocracia municipal. A câmara engordou e tem dificuldade em acomodar todas as suas adiposidades no edifício da Praça da República.

16 de Outubro: Quando Fernando Ruas vem, como lhe compete, dizer que “Lisboa prejudica Viseu”, é necessário aos socialistas engolirem sempre o anzol, a linha e a cana?

27 de Novembro: Fernando Ruas está no último mandato. Ora, como é sabido, os últimos mandatos são os que mais precisam de ser escrutinados. Era necessária uma oposição socialista com liderança política forte e competente na câmara de Viseu. E, agora, não há.

Na boca

Fotografia de Ian Dooley


A eternidade
Na boca
Uma língua
Cheia de palavras
Cheia de silêncio
Sem fim
As palavras
Na boca
A eternidade
Elas lapidam
A obscuridade
Dentro dos lábios
Lapidam-na
Clara como uma
Pedra preciosa
Transformam-na
Numa ponta aguda
Será a caneta que
Eu vou usar para
Escrever sobre estas,
Aquelas coisas que
Ainda não sei
Chrischa Venus Oswald


segunda-feira, 30 de dezembro de 2019

Engano

Fotografia de Frank Mckenna



engano nosso ao pensar
que um grande castelo
resistiria à leveza do mar
Fernanda Seavon




domingo, 29 de dezembro de 2019

(Esse-mesmo)

Fotografia de Jean Gerber


O Sr. Platão
vivia
numa cave
achando
que era
gruta:

a ideia
será
sempre
problema
não de luz
mas
de nome
Ricardo Tiago Moura


sábado, 28 de dezembro de 2019

sexta-feira, 27 de dezembro de 2019

Dito no Jornal do Centro em 2019*

* Publicado hoje no Jornal do Centro



[1/Março] Nestes tempos tão ásperos para a liberdade de expressão, às repressões antigas provenientes da religião e dos autoritarismos, há que somar também agora a repressão dos chuis da linguagem do politicamente correcto.

[29/Março] A nova ministra da Saúde, Marta Temido, é uma espécie de trigémea das manas Mortágua. Interessa-se muito com a ideologia e as abstracções que quer pôr na lei de bases, mas pouco com os problemas das pessoas.
Resultado: a classe média, assustada com o estado do SNS, vai arranjando seguros de saúde.

[5/Abril] Os “técnicos” de som das festas, em vez de confinarem a música aos recintos, abrem de tal maneira as goelas aos equipamentos que estes são ouvidos quilómetros e quilómetros em redor.
Este costume bárbaro é particularmente nefasto no Verão.

[10/Maio] O primeiro-ministro acaba de dizer aos professores que, com ele, os tempos felizes não voltam mais. O PS gosta de donos de restaurantes e de banqueiros. De profs não.

[21/Junho] Apesar de as câmaras agora preferirem o choupo, esse “eucalipto urbano” de crescimento rápido, ainda há algumas velhas tílias nas avenidas e nas praças.

[30/Agosto] Nos tempos que correm, uma boa parte dos assuntos da agenda mediática e política têm a ver com o corpo. São assuntos de biopolítica.
São as imposições alimentares, que tanto passam pela redução do sal e do açúcar como pelo crescente activismo veg que se vai radicalizar e tornar agressivo.

[11/Outubro] A seguir a uma legislatura sem partidos de protesto (a domesticação do BE e do PCP fez-lhes perder, respectivamente, 57 mil e 116 mil votos), vamos passar a ter uma voz anti-sistema (o Chega) e, de novo, vozes de protesto (a Iniciativa Liberal e o PCP).

[29/Novembro] A saturada e perigosa estrada que liga Viseu ao Sátão precisa de obras urgentes, orçadas em 3,3 milhões de euros, mas o governo, dono da estrada, diz que só as faz depois de chupar um milhão de euros à câmara de Viseu e 400 mil à câmara do Sátão.

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Os Olhos de Gato publicados no Jornal do Centro podem ser lidos aqui neste blogue clicando na etiqueta Jornal do Centro.

Segue-se a primeira leitura para esta selecção de fim-de-ano que, depois, foi devidamente tesourada para os necessários menos de 2000 caracteres:


4Jan
Festas e festinhas é com António Almeida Henriques. Já quanto a obras fica-se por anúncios mais anúncios, noves-fora-nada.*
No seu último “agora-é-que-vai-ser” no Mercado 2 de Maio, o edil viseense anunciou elevadores panorâmicos. Pode lá pôr já um que suba muito alto.
Para que dele se possa ver o Rossio e o panorama paralítico que vai naquela câmara.

11Jan
As pessoas desejam o que os outros desejam e odeiam o que os outros odeiam e essa imitação materializa-se em likes e partilhas.
As sociedades ligadas em rede como as nossas, apesar de toda a tecnologia que usam, são comandadas, como explica o filósofo francês, pelas pulsões primitivas de sempre — a alcateia de “haters” a uivar em cada indignação do Facebook parece-se muito com os antigos ritos sacrificiais, em que eram sangrados e queimados em aras os bodes expiatórios (os inimigos, as bruxas, os sacrílegos, …)
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A criança Trump precisa do “traficante” do lado de fora do muro com o México enquanto o seu clã faz negócios com os sauditas, o boçal Bolsonaro necessita da “petralhada” enquanto os filhos abrem a boca e sai asneira, o sinistro Puigdemont depende da diabolização do “espanhol” para que os catalães não vejam a sua mediocridade, o aflito Macron carece do “casseur” para ver se se safa daquele colete de onze varas em que está metido.
Até a nossa pacífica geringonça, pelo que se tem visto com a reacção à ida de um suástico a um programa de televisão, anseia por um “fascista” que possa ocupar o lugar de bode expiatório que está vago desde que saiu de cena Pedro Passos Coelho.

18Jan
Nos católicos há uma “hermenêutica mais flexível” que admite que “a Bíblia recorria com frequência a metáforas e a alegorias”, nos protestantes não.
É muito fácil constatar isso agora com os evangélicos no poder no Brasil. A ministra Damares Alves, depois de ter avistado Jesus num pé de goiaba, depois de ter “aberracionado” mulher com mulher e homem com homem, veio lamentar que a teoria da evolução de Darwin seja ensinada nas escolas e exasperar-se por a ciência estar entregue a... cientistas.

8Fev
Recomeçaram os avisos e as ameaças do ministro Cabrita: «evite coimas, limpe os 50 metros de terreno à volta da sua casa, e os 100 metros à volta da sua aldeia, até 15 de Março.»
É a mesma asneira do ano passado. Como se sabe, mato cortado tão cedo torna a crescer antes do Verão. Não se pode coimar a estupidez do legislador?

25Fev
Deepfakes são vídeos manipulados que põem pessoas a dizer e fazer coisas que elas nunca fizeram ou disseram. Estes vídeos estão cada vez mais realistas e de produção acessível a cada vez mais gente.
Escusado será dizer que um deepfake pode desfazer uma reputação, pode estraçalhar um político. Pior: ao ser indistinguível a verdade da mentira, tudo nos parecerá mentira.
Vai haver tecnologia de detecção de deepfakes mas que será sempre imperfeita. O mais importante é não sermos impulsivos nas partilhas nas redes sociais e usarmos canais com um histórico de rigor.

1Mar
Pois, é isso: é carnaval mas há quem leve a mal, é entrudo mas não vale tudo.
Nestes tempos tão ásperos para a liberdade de expressão, às repressões antigas provenientes da religião e dos autoritarismos, há que somar também agora a repressão dos chuis da linguagem do politicamente correcto.
O que é dito nos testamentos do Entrudo de Lazarim já desfez casamentos, já deu querelas em tribunal, mas nunca ninguém se zangou por uma comadre chamar “paneleiro” a um compadre, ou este chamar àquela “fressureira”. Isso em outros tempos. Agora, com os chuis da linguagem e os seus ofendidinhos politicamente correctos, é capaz de ser perigoso.

15Mar
Em todo o lado, os centros históricos das cidades estão a ser vedados, total ou parcialmente, à circulação automóvel. Em todo o lado menos em Viseu.
Em 2005, ainda houve uma tentativa mas, perante o clamor, a câmara desistiu. Ainda não havia evidências que um centro histórico livre de carros pode ser bom até para os negócios dos bares. Agora já há. Os Jardins Efémeros encarregaram-se de demonstrar que os viseenses não se importam de caminhar um pouco mais e ter as ruas e praças do centro histórico livres da poluição e do incómodo do trânsito.
Era bom, pelo menos nas noites dos fins-de-semana de Maio a Setembro, Viseu proporcionar às pessoas um centro histórico despoluído e civilizado.


29Mar
A nova ministra da Saúde, Marta Temido, é uma espécie de trigémea das manas Mortágua. Interessa-se muito com a ideologia e as abstracções que quer pôr na lei de bases, mas pouco com os problemas das pessoas. Resultado: a classe média, assustada com o estado do SNS, vai arranjando seguros de saúde.
Uma delegação de autarcas da CIM Viseu Dão Lafões acaba de ir em peregrinação à ministra mas regressou de mãos a abanar. As obras nas urgências do Hospital de S. Teotónio não avançam, apesar de já aprovadas e com comparticipação comunitária de 85%, mas a culpa não é dela... é das finanças. O Centro Oncológico não mexe mas a culpa não é dela... é da administração do hospital.

5Abril
Tratei aqui do familismo na política há mais de um ano, ainda não se conhecia, nem de perto nem de longe, a dimensão da endogamia que vai na cúpula socialista.
A tese que defendi então foi a seguinte: a bancarrota socrática, ao ter-nos levado as grandes empresas (a banca, a PT, a EDP, os CTT, ...) onde os nossos políticos costumavam prantar os familiares sem dar muito nas vistas, obriga-os agora a pôr os parentes em lugares de mais escrutínio.
Como estão mais visíveis, os media repararam e os parentes caíram na lama. Ainda há um ou outro comentador mais geringoncista e um ou outro aparelhista mais canino que refere a putativa “competência” especial desta fauna, mas vozes de burro não chegam ao céu.
Quem dera que todo este escrutínio resulte em listas menos nepóticas nas próximas legislativas.

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Os “técnicos” de som das festas, em vez de confinarem a música aos recintos, abrem de tal maneira as goelas aos equipamentos que estes são ouvidos quilómetros e quilómetros em redor. Este costume bárbaro é particularmente nefasto no Verão porque as pessoas precisam de ter as janelas abertas para refrescarem as casas e, com o barulho, não conseguem descansar.

19Abril
As nossas sociedades estão mais crispadas, mais sectárias, mais puritanas, e o primeiro alvo dessa fúria intolerante é a liberdade de expressão em geral e o humor em particular.
Não é por acaso que a maioria do tráfego de haters no FB do Jornal do Centro acontece nos comentários às peças da sua página de paródia, o Centro Leaks - Tintol & Traçadinho.
E essa censura não vem, como diz Nassim Nicholas Taleb, “do Estado em si” mas de “uma monocultura intelectual” imposta “por uma polícia do pensamento hiper-activa nos meios de comunicação social e na vida cultural.”
Eu tenho chamado aqui “chuis da linguagem” à malta dessa “polícia do pensamento”, sempre a ver “discursos de ódio” em tudo, sempre a censurar tudo, até o capuchinho vermelho. E essa repressão é feita nos dois mundos em que nós agora habitamos: o mundo real e o mundo virtual.

26Abril
Portugal é Lisboa, o resto é paisagem. Todos os governos sem excepção têm sido centralistas, mas o actual abusa.
No dia 1 de Setembro, estava ainda a ser cozinhado o orçamento de estado nos bastidores, já Fernando Medina anunciava 60 milhões de euros para passes fofinhos para os alfacinhas. Depois, perante o clamor do resto do país, o governo lá arranjou mais umas dezenas de milhões de euros para diluir na paisagem.
Agora, no dia 16 de Abril, como havia o risco de a greve dos motoristas secar os postos de combustível, a Resolução do Conselho de Ministros n.º 69-A/2019 prescreveu os seguintes serviços mínimos: “abastecimento de combustíveis aos postos de abastecimento da grande Lisboa e do grande Porto, tendo por referência 40% das operações asseguradas em dias em que não haja greve.”
Foi mesmo em letra de lei. Para o governo, a paisagem que ande a pé. Ou de burro.
Há aqui um padrão que o comportamentalista Ivan Petrovich Pavlov descreveu em laboratório em 1920: quem tem o verdadeiro poder na geringonça, como poliu durante muitos anos as cadeiras da câmara de Lisboa, como casou entre si, como se foi empregando mutuamente, tem um reflexo condicionado — saliva sempre primeiro por Lisboa.

3Maio
Apesar da oposição de várias organizações ciganas, alguns activistas que se dizem “racializados”, comandados pelo sr. Mamadou Ba do bloco de esquerda, têm feito tudo para prantar uma pergunta sobre origem étnica no Censos de 2021.
Ora, uma pergunta deste tipo é racista.

10Maio
O primeiro-ministro acaba de dizer aos professores que, com ele, os tempos felizes não voltam mais. O PS gosta de donos de restaurantes e de banqueiros. De profs não.
A partir de agora, só irá para professor quem não puder fazer mais nada. Daqui a poucos anos, vai haver falta de professores.


17Maio
Há evidências fotográficas e testemunhais de que aquele túnel por baixo da estação esteve sempre aberto ao trânsito, que, portanto, nunca foi uma câmara de gás, mas há sempre maluquinhos prontos a acreditar em qualquer patranha e construir, à volta dela, uma teoria da conspiração.

31Mai
Uma boa medida de combate à abstenção foi a novidade do voto antecipado que permitiu a uns milhares de eleitores votarem no domingo anterior, 19 de Maio.
Para eles não houve o tradicional sábado em que pára tudo e os media não podem falar “naquilo” que está na cabeça de toda a gente. Ficou ainda mais evidente quão absurdo é o chamado “dia de reflexão”.

7Jun
Este RIPismo, feito por especialistas mais ou menos instantâneos, divide-se em dois grandes grupos:
— o RIPismo que se foca nos feitos do génio que nos acabou de deixar e nos ajuda a compreender a sua obra;
— o RIPismo em que o vivo usa o óbito como pretexto para falar de si próprio (o dia em que encontrou o falecido, ou jantou na mesa dele, ou teve uma epifania com um seu poema, …); este RIPismo narcísico qualquer dia começa a tirar selfies junto aos caixões e publica-as no Instagram.

2. O RIPismo desta semana foi sobre Agustina Bessa-Luís.
Li textos muito bons sobre a romancista e o melhor deles foi de Rui Catalão que, no Facebook, lembrou que Agustina foi “a maior escritora de mão quente de todos os tempos: tudo o que dela conhecemos foi escrito ao primeiro rascunho, sem trabalho de edição nem reescrita”. Ela escrevia à mão, numa letra pequenina, ao “first take”, quase sem emendas nem rasuras.
É claro que nenhuma obra é feita “à primeira”, Agustina não fazia rascunhos no papel, fazia-os dentro da sua cabeça.
Aquilo que é o histórico de edições, as encruzilhadas narrativas, as hesitações, as personagens expulsas da história, as versões abandonadas, os esboços, aquilo a que Leibniz chamou «o grande mistério do que podia ter acontecido», tudo isso ficava-se pela cogitação interior de Agustina.

3. Paulo Ribeiro desistiu de tentar sacar em tribunal 53 mil euros ao Teatro Viriato por “despedimento ilícito” e o teatro municipal não vai pedir uma indemnização por aquele ataque ao seu bom nome.
RIP! Este caso faleceu quando ainda era só um esquisso esquisito, um esboço, um rascunho. Se nunca tivesse saído da cabeça do coreógrafo teria sido muito melhor. Especialmente para ele.

21Jun
Os identitários já não são capazes de conceber uma comunidade constituída por pessoas com um chão comum e um projecto de convivência colectiva capaz de conjugar as diferenças em paz e solidariedade.
Os identitários já só conseguem ver grupos, subgrupos e sub-subgrupos de indivíduos ressentidos, em conflito e com características tribais cada vez mais intrincadas.

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Apesar de as câmaras agora preferirem o choupo, esse “eucalipto urbano” de crescimento rápido, ainda há algumas velhas tílias nas avenidas e nas praças. Por exemplo, no Rossio de Viseu.

28Jun
A introdução dos autocarros amarelos em Viseu modificou a paisagem urbana e está a alterar, lentamente, a mobilidade das pessoas.
Nos últimos seis anos, a câmara, no essencial, derreteu os nossos impostos em festas e festinhas borliantes, para minorias. O novo sistema de transportes é a primeira medida estrutural feita depois de Fernando Ruas. Muito bem, vereador João Paulo Gouveia.

12Jul
Barroso e Sócrates fingiram que controlavam o défice, com truques contabilísticos e receitas extraordinárias. Passos e Costa, depois da bancarrota de 2011, controlaram-no mesmo. Numa coisa não houve diferença nenhuma entre estes quatro primeiros-ministros: todos eles usaram o pretexto do controlo do défice para centralizar, cada vez mais, todo o poder em Lisboa.
O ex-secretário de estado do ensino superior e professor de economia José Reis, aqui no Jornal do Centro, quantificou o que nos está a acontecer: de "2001 a 2017, o país perdeu 1% da sua população, mas na Área Metropolitana de Lisboa aumentou 5,8%. A própria Área Metropolitana do Porto perdeu 1%. O Norte, o Centro e o Alentejo perderam respectivamente 3,2%, 5,1% e 8,3%."
Lisboa é um íman que despovoa já não só o interior, mas todo o país. José Reis faz o diagnóstico exacto do que é agora Portugal: "um país unipolar, unicamente centrado e concentrado em Lisboa, com uma forte deslocação interna de recursos e uma desestruturação dos demais lugares".
Como o actual poder socialista é comandado por gente que gastou os fundilhos das calças na câmara de Lisboa, por gente que se casou e se nomeia para os gabinetes entre si, por gente que vai ganhar as próximas eleições, este panorama centralista dificilmente mudará.

19Jul
Os municípios de Viseu, Sátão, Nelas, Mangualde e Penalva do Castelo decidiram avançar para a construção de uma barragem que abasteça de água estes cinco concelhos. Excelente.
É importante fazer tudo para que sejam afastados, de vez, dois perigos: o de ficarmos dependentes da Águas de Portugal e dos seus boys e o de precisarmos de transvases provenientes de barragens de fora da região.

26Jul
Todas as campanhas eleitorais usam o medo para ganhar votos. Umas mais, outras menos, nenhuma dispensa a retórica da guerra entre o “nós”, onde mora a virtude, e o “eles”, onde habita o perigo.
Até não há muito tempo, esta batalha na lama tinha que ser protagonizada por políticos, com o microfone à frente, à vista de toda a gente. Agora os políticos de primeira linha já raramente fazem essa triste figurinha. As mensagens mais mentirosas são deixadas para as redes sociais e para a comunicação mais endereçada (WhatsApp, Messenger e afins).

2Ago
O politiquês, esse dialecto do politicamente correcto, deixou de chamar “interior” à parte do país a que não chega o cheiro do mar e agora prefere chamar-lhe “território-de-baixa-densidade”.
Já se sabe, os políticos são palavrosos, podendo usar quatro palavras não vão usar só uma e a nova designação faz algum sentido. Onde não chega o iodo e a maresia é cada vez mais baixa a densidade de serviços de saúde, de estações de correio, de agências da CGD, de transportes públicos com passes fofinhos, de estradas decentes não-portajadas.
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16Ago
Com a saída de Joaquim Seixas da câmara de Viseu, quem é que defende agora os viseenses dos decibéis em excesso produzidos pelo seu ex-colega Jorge Sobrado?

23Ago
As esquerdas, nas democracias liberais do ocidente, ainda vão entregando alguns resultados aos trabalhadores do sector público, mas já não fazem nada que se veja pelos jovens à procura do primeiro emprego, pelos precários, pelos trabalhadores do sector privado.
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Em suma, já se sabia que o Bloco de Esquerda é uma espécie de PS fashion, mas ainda se julgava que o PCP era o partido dos que sofrem, dos colarinhos azuis, dos descamisados.
Esta greve dos motoristas de matérias perigosas veio mostrar que afinal já nem o PCP serve para defender os trabalhadores do sector privado, os mais explorados deste país.
Estes, quando surgirem populismos à direita, vão votar neles. Vai ser feio de ver.

30Ago
Nos tempos que correm, uma boa parte dos assuntos da agenda mediática e política têm a ver com o corpo. São assuntos de biopolítica.
São as imposições alimentares, que tanto passam pela redução do sal e do açúcar como pelo crescente activismo veg que se vai radicalizar e tornar agressivo.
É, até, a construção do corpo dos políticos e a afirmação descomplexada das suas sexualidades: os peitorais de um deputado laranja, a tatuagem de uma deputada rosa que está no Tinder, a saída do armário da ministra da cultura e de um vice-presidente do CDS. E a este panorama só não se junta José Castelo Branco porque ele desistiu de ser candidato.
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Por cá, a reacção do CDS e do PSD à lei da identidade de género nas escolas parece indicar que acordaram para estas querelas do corpo, onde o bloco e a ala esquerda do PS têm pontificado sem contraditório.
Com o atraso pátrio do costume, também entre nós a biopolítica vai passar a ser muito mais dura.

27Set
Os governos já não conseguem fazer o bem. O ideal é que, ao menos, não tenham força para fazer o mal. Se forem fracos estragam pouco. Lembremos os 541 dias em que a Bélgica esteve sem governo, felicidade só interrompida quando as agências de notação ameaçaram desqualificar a dívida pública do país.

4Out
A campanha eleitoral que acaba hoje trouxe-nos o costume: outdoors nas rotundas; discursos zangados não se sabe com quê; comícios e bebícios com aparelhistas, boys e emplastros nas primeiras filas; feiras e mercados com candidatos e jornalistas à procura de algo castiço que dê algum tempero àquela estopada; arruadas em que aparecem uns "espontâneos" a abraçar o chefe, num teatro de papelão feito para as televisões.
Fora desta mesmice, tivemos um pouco Rui Rio e o PAN. Este, de tão veg, vai fazer diminuir a abstenção entre os talhantes.
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Um voto serve para duas coisas: eleger deputados e dar €2.90 por ano ao partido em que se vota, desde que este obtenha, pelo menos, 50 mil votos.
No distrito de Viseu, só dois ou três partidos deverão eleger deputados. Mas tenha isto presente: mesmo não votando em nenhum desses três, o seu voto pode ser muito útil - poderá valer, nos quatro anos da próxima legislatura, €11.60 para o partido da sua simpatia.

11Out
A seguir a uma legislatura sem partidos de protesto (a domesticação do BE e do PCP fez-lhes perder, respectivamente, 57 mil e 116 mil votos), vamos passar a ter uma voz anti-sistema (o Chega) e, de novo, vozes de protesto (a Iniciativa Liberal e o PCP).
Por sua vez, o Bloco, depois da sua campanha demagógica e errática, vai ter no Livre um concorrente directo no mercado do tribalismo identitário, um mercado sempre indignado com qualquer coisa e que vai dando assunto aos papagaios das televisões e aos viciados em likes das redes sociais.

25Out
Na Juventude e Desporto, João Paulo Rebelo vai ter os mesmos problemas e o mesmo contexto político dos últimos anos.
Já na Cidadania e Igualdade, Rosa Monteiro vai estar no meio de um vulcão. Em matéria de biopolítica, o panorama mudou à direita e à esquerda. Para além do Chega!, tanto o CDS como o PSD estão muito mais combativos nestas matérias, como se viu na reacção à lei da identidade de género nas escolas. E, à esquerda, o Bloco tem agora um concorrente, o Livre, a necessitar de fazer prova de vida no mercado do tribalismo identitário.

8Nov
António Almeida Henriques, mude de estratégia, a que adoptou nos seus primeiros seis anos não é boa. Seja frugal, responda ao básico: impostos moderados, eficácia nos fundos comunitários, ruas limpas, lixo recolhido a tempo e horas, ecopontos lavados com regularidade, bairros e aldeias dignificados, iluminação, segurança, empregos, empregos, empregos.

15Nov
Nos anos da primeira geringonça, as únicas lutas laborais com impacto foram impulsionadas por sindicatos independentes e críticos da CGTP e UGT.
A formação de um novo sindicato de professores, o STOP, obrigou Mário Nogueira a deixar-se de frescuras com o ministro da educação. As novas formas de financiamento das greves dos enfermeiros e a eficácia dos motoristas de matérias perigosas protagonizaram conflitos muito duros, diferentes do ramerrame dos sindicatos tradicionais.
A resposta do poder, como de costume, foi à bruta: auditorias manhosas à Ordem dos Enfermeiros, tropas a guiar camiões privados, ameaças de extinção do sindicato de motoristas, campanhas negras nos media e nas redes sociais contra a bastonária dos enfermeiros e o advogado do sindicato dos motoristas.

22Nov
Temos que ser livres. Não nos podemos deixar calar pelos novos “chuis da linguagem”. Perante alguém que nos venha, injustamente, com os agora costumeiros «racista!, homofóbico!, machista!», respondamos-lhe logo no melhor vernáculo. Perante alguém que venha com o agora costumeiro «estou ofendido com o que dizes», respondamos-lhe com um «mete uma rolha!».

29Nov
A saturada e perigosa estrada que liga Viseu ao Sátão, que dá acesso a todo o norte do distrito, precisa de obras urgentes, orçadas em 3,3 milhões de euros, mas o governo, dono da estrada, diz que só as faz depois de chupar um milhão de euros à câmara de Viseu e 400 mil à câmara do Sátão.
E os dois presidentes de câmara estão dispostos a aceitar esta chantagem. E a ANMP, dirigida pelo fraquíssimo presidente da câmara de Coimbra, aceita estas chantagens.


20Dez
assaram-se quatro anos e daquele concurso de ideias que custou muito dinheiro e muitas horas de trabalho não saiu nada. AAH mandou-o para o caixote do lixo e apareceu com um projecto novo, decidido nos gabinetes e sem escrutínio de ninguém.
O resultado não é famoso. Pelo que se percebe, a ideia é prantar, ao de cima do Mercado 2 de Maio, uma enorme estrutura, pesada e desgraciosa, com um custo estimado de 3,1 milhões de euros.
Já se viram WC para pombas mais baratos.

Não inventes [José Carlos Barros 4]




Não venhas cá com merdas. Não inventes.
Não olhes nos meus olhos. Sai apenas.
E poupa-me aos discursos eloquentes
e às farsas do adeus. Não faças cenas.

Não digas que lamentas ou que a vida
às vezes é assim: que tudo esquece;
que o mundo e o tempo curam qualquer ferida.
Repito, meu amor: desaparece.

E leva o que quiseres de tudo quanto
um dia suspeitámos partilhar:
os livros, as esculturas em pau-santo,
os discos, os retratos, o bilhar.

Não deixes endereços. Por favor:
eu quero é que te fodas, meu amor.
José Carlos Barros





quinta-feira, 26 de dezembro de 2019

É verdade que sinto [José Carlos Barros 3]

Fotografia de Andrei Damian


É verdade que sinto um imenso desprezo
pelos poetas. Por todos os poetas.
Esses seres ignóbeis que escrevem
a palavra «estrela» e uma estrela, de súbito,
nos queima os dedos distraídos. Uma
vez esteve aqui um poeta. Escreveu
a palavra «labareda». E ainda hoje as manchas
do fogo sujam as paredes e os
mosaicos vidrados da sala de reuniões
do Conselho de Administração.
José Carlos Barros






quarta-feira, 25 de dezembro de 2019

A falta que me fazem [José Carlos Barros 2]

Fotografia de Phil Coffman

Os meus amigos são tão poucos e às vezes
um a um quase me esqueço de lhes dizer
a falta que me fazem como quando por
exemplo numa sexta-feira à noite eu entro no café
e a cerveja nem me sabe nem
o caralho.

A alegria é cada vez mais com a passagem
dos anos essa ave rara que só
numa corrida com os
filhos num bosque de bétulas ou
numa tarde de domingo a desenhar com
eles um satélite ou num passeio à noite
na areia molhada da praia nas marés do
equinócio de forma imprevista verdadeiramente
pode visitar-nos.

Mas esta de que falo só com os meus amigos e
é inominável que dizer dessa paz imensa
dessa felicidade quase sem imagens que é
sentarmo-nos à roda de uma
mesa e nem dizermos nada.

Os meus amigos são tão poucos que é quase um
crime separarmo-nos assim deixarmos que às
vezes um número de telefone um círculo vermelho
a marcador no mapa do acp
uma carta sejam o mais que pode trazer às
nossas vidas essa ilusão de pertencer-nos o
mundo todo de não haver uma mulher uma
estrela uma cidade que não sejam
nossas para sempre.

Os meus amigos são tão poucos tão imensos que
às vezes apetece-me deixar o computador ligado
a meio da tarde meter-me no carro pagar
a portagem da auto-estrada permanentemente em
obras de conservação e procurá-los com
a agenda aberta nos seus nomes acordá-los
antes da alba só para lhes dizer
a falta que me fazem.
José Carlos Barros


terça-feira, 24 de dezembro de 2019

Noite de Natal*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 24 de Dezembro de 2009



Ia neura pela rua fora.

Não fazia outra coisa que não fosse cismar na sua filha. A filha que o fez dar no duro nas obras da Visabeira. Tanto trabalho, tantas privações, tudo para ela tirar um curso.

Foi uma alegria quando ela se formou. Ele tinha uma filha doutora! Até pagou uma rodada de cervejas aos colegas da obra.

Depois veio a desilusão. Durante um ano, ela só conseguiu arranjar um part-time num call-center e uns meses numa caixa do Intermarché, em substituição de uma grávida.

Finalmente, apareceu uma luz ao fundo do túnel, uma vaga para um lugar bem pago, onde ela podia aplicar aquilo para que tinha estudado. Só que era em Sydney, na Austrália. Que neura!

«Pai», dizia ela, «a gente fala todos os dias na internet. Aquilo é tão bonito. Olhe esta fotografia da ópera de Sydney.»

Já não faltava muito para a consoada. Ia ele, naquele dia frio, naquela rua onde tinham posto uma alcatifa, naquela rua aberta aos ventos de Espanha, a fugir daqueles jinglebéles nos altifalantes, que atroavam o ar. Ele ia a cismar. Nem deu conta que estava a pensar em voz alta:

«Merda de país! Forma doutores para os pôr nas caixas dos supermercados…»

Rua fora, ao fundo, viu a praça, o Rossio, as casinhas do Rossio.


Fotografia Olho de Gato

Estava lindo o Rossio, de presépio e de charrete, luzes de Natal a pingarem das tílias, táxis à espera, brasileiros ao telemóvel, ucranianos de camisa aberta, africanos de gorro na cabeça.

Não lhe passou a neura. Em cada uma daquelas caras, em cada um daqueles estrangeiros, em cada um daqueles olhos tristes, ele via a sua filha, sozinha, num Rossio qualquer de Sydney, do outro lado do mundo.

Chegou a casa e disse:

«Filha, nesta noite de Natal tens que me ensinar a mexer no computador…»

Feliz Natal

... deseja este modesto estabelecimento
a todos os clientes e amigos.

Gif Olho de Gato

Se ao menos nevasse [José Carlos Barros 1]

Fotografia Olho de Gato


Nesse tempo chegávamos ao natal
isto é um modo de dizer por carreiros de cabras
num labirinto de curvas e obras no pavimento que haveriam
mais tarde de justificar discussões políticas sobre
o emprego dos fundos comunitários
uns diziam que era preciso o progresso avançar
assim ao ritmo do asfalto cortando declives
aproximando as encostas de um e de outro lado do vale mesmo
ou sobretudo que a urze e a lírica passassem ao caralho
outros que na educação e na formação é que estava
o futuro de um povo e por essa altura vá
lá saber-se porquê dava-se como exemplo a dinamarca.

As minhas primas cagavam-se no discurso ideológico e
metiam-se às costelas de vinho e alho à carne da peça
às rabanadas e ao vinho quente das fatias de parida
a lírica delas eram os sonhos fritados às colheres até
rebentar ou golpearem-se à tesoura
as filhós as orelhas de abade o
bolo de monja com seu bico de grinalda e muitos ovos que
as galinhas quase nem davam posto e
na consoada amandavam-se gulosas ao polvo e
ao bacalhau cozido e à couve galega idem com
azeite de vila flor a escorrer-lhes salvo seja
dos carnudos lábios adolescentes
que era um mimo.

E chegávamos também ao natal pelo
tronco dos vidoeiros antes da neve e pelo fogo do pobo e
pelo presépio nos degraus da câmara
com musgo e serradura nos caminhos e santinhos de barro
esculpidos decerto em braga em tamanho natural que
a gente era como se o menino jesus se tivesse acabado de nascer
e até se benzia mesmo antes da missa do
galo quando o meu tio baptista bêbado que nem uma puta
rezava o pai nosso em siríaco e a família
tapava o rosto com as mãos muito
dividida entre o orgulho na erudição clássica do
velho seminarista e a vergonha pela sua queda em
sentido literal pelo tinto de valpaços.

A verdade é que tudo agora é difuso e insípido
a gente chega ao natal de auto-estrada pagando as portagens
e ele é o algodão dos pinheirinhos de plástico com
o logótipo da sociedade ponto verde a
garantir que tudo será tão reciclado que
apetece logo poluir o alto do larouco
a gente chega ao natal e ao meu tio baptista dão-lhe
comprimidos e chá de cidreira
e até o clafouti de maçã reineta já não leva conhaque e vai
ao forno com manteiga sem sal e
as minhas primas muito magras erguendo-se a medir a cintura
discutem a dieta e as sessões de mesoterapia
e se bem compreendo não fodem nem com os legítimos esposos se
a retoiça não vier especificada na tabela de calorias do livro que
é agora uma bíblia
da senhora doutora isabel do carmo.

Que saudades da neve se
ao menos nevasse
penso por instantes enquanto
venho à rua e acendo um cigarro
às quatro da manhã.
José Carlos Barros




segunda-feira, 23 de dezembro de 2019

A mãe e a irmã

Fotografia de Annie Spratt


A mãe não trouxe a irmã pela mão
viajou toda a noite sobre os seus próprios passos
toda a noite, esta noite, muitas noites
A mãe vinha sozinha sem o cesto e o peixe fumado
a garrafa de óleo de palma e o vinho fresco das espigas vermelhas

A mãe viajou toda a noite esta noite muitas noites todas as noites

com os seus pés nus subiu a montanha pelo leste
e só trazia a lua em fase pequena por companhia
e as vozes altas dos mabecos.
A mãe viajou sem as pulseiras e os óleos de protecção
no pano mal amarrado
nas mãos abertas de dor
estava escrito:
meu filho, meu filho único
não toma banho no rio
meu filho único foi sem bois
para as pastagens do céu
que são vastas
mas onde não cresce o capim.

A mãe sentou-se
fez um fogo novo com os paus antigos
preparou uma nova boneca de casamento.
Nem era trabalho dela
mas a mãe não descurou o fogo
enrolou também um fumo comprido para o cachimbo.
As tias do lado do leão choraram duas vezes
e os homens do lado do boi
afiaram as lanças.
A mãe preparou a palavra devagarinho
mas o que saiu da sua boca
não tinha sentido.
A mãe olhou as entranhas com tristeza
espremeu os seios murchos
ficou calada
no meio do dia.
Paula Tavares


domingo, 22 de dezembro de 2019

The solstice

Fotografia de Aaron Burden

They say the sun will come back
at midnight
after all
my one love

but we know how the minutes
fly out into
the dark trees
and vanish

like the great ‘ohias and the honey creepers
and we know how the weeks
walk into the
shadows at midday

at the thought of the months I reach for your hand
it is not something
one is supposed
to say

we watch the red birds in the morning
we hope for the quiet
daytime together
the year turns into air

but we are together in the whole night
with the sun still going away
and the year
coming back
W. S. Merwin



sábado, 21 de dezembro de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#248)

«I'm gonna do this because I can», mother Amanda Palmer

To love

Fotografia de Luke Stackpoole

Do you
only
go to new
places
is it true
did the
planet
just get
born

you in your
little legs
and I
am in my
tree
am love
the baby
crying is
the bouncing
plane
the strange
wind
that killed
Bob

all of it
is true
and I in
my rot
am having
the
time
of my
life.
Eileen Myles


sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Números*

* Hoje no Jornal do Centro

Este Olho de Gato vai usar como matéria-prima alguns números lidos aqui nas duas últimas edições deste jornal.

1. As estatísticas do desemprego de Novembro mostram um distrito a duas velocidades.

A situação é preocupante nos concelhos do norte, com números que vão dos 4% de desemprego em Armamar até aos 6,7% de Lamego e 7,1% de Moimenta da Beira.

Já o eixo da castanha e da amêndoa (Sernancelhe, Penedono e Pesqueira) e o sul do distrito vivem uma situação de quase pleno emprego e carência de mão-de-obra.

2. Enquanto as autoridades de saúde nos dizem que o concelho de Viseu tem 106.213 utentes registados, a Pordata estima que o concelho tem um total de 96.991 habitantes — uma diferença superior a 9.200 pessoas.

Ora, esta dessintonia entre as duas estatísticas levanta várias perguntas: aquelas pessoas “a mais” correspondem a duplicações de registos nos centros de saúde? Serão não-nacionais?

Será que Viseu já passou a “barreira” mágica dos cem mil habitantes e não deu conta?

3. Em Outubro de 2015, conforme tinha prometido aos viseenses, António Almeida Henriques (AAH) fez a apresentação pública do concurso de ideias para o Mercado 2 de Maio.

Vencedor: o arquitecto João Pedro Coelho Loureiro com um projecto visualmente muito forte que mereceu aqui o meu aplauso porque subvertia a banalidade do que Siza Vieira ali fez e deixava respirar a praça tanto para a Rua Formosa como para a Rua Chão do Mestre.

Passaram-se quatro anos e daquele concurso de ideias que custou muito dinheiro e muitas horas de trabalho não saiu nada. AAH mandou-o para o caixote do lixo e apareceu com um projecto novo, decidido nos gabinetes e sem escrutínio de ninguém.

O resultado não é famoso. Pelo que se percebe, a ideia é prantar, ao de cima do Mercado 2 de Maio, uma enorme estrutura, pesada e desgraciosa, com um custo estimado de 3,1 milhões de euros.
Já se viram WC para pombas mais baratos.
Imagem daqui
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Ver "bibliografia" sobre este assunto aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui, aqui e aqui

É assim

Fotografia daqui

É assim que se fazem certos livros,
quando a mágoa se transforma
em explosão. De rastilhos tu sabes
mecanismos. Recordas mausers antigas
ou G3, em que nervoso tocavas.
Ei!, amigos, os castanheiros
da Tapada ainda brilham e incendeiam
no inverno dessas guerras sujas.
Acende-me o cachimbo, meu alferes,
e na Berliet avança ao hospital
onde os loucos da guerra já transmitem
o grito da revolta. No abismo
afunda-se o barco Conrad
que desvendava o lusitano apoclipse.
Eduardo Guerra Carneiro




quinta-feira, 19 de dezembro de 2019

Ao tempo, esse patife

Daqui


E vês atrás de ti as máquinas resolutas
de fabricar as formas rápidas,

e convulsas, do esquecimento.
Herberto Helder



quarta-feira, 18 de dezembro de 2019

Cenários*

* Publicado no Jornal de Centro há exactamente dez anos, em 18 de Dezembro de 2009

No próximo ano, o governo vai aprovar o orçamento com a direita e o casamento homossexual com a esquerda. O resto, que para aí se fala, é treta.

Faltam treze meses para as presidenciais.

Tudo indica que Cavaco Silva se vai recandidatar e vai ter o apoio de toda a direita. Cavaco tem feito um mau mandato e pode ser o primeiro presidente não reconduzido pelo voto dos portugueses. É derrotável pela esquerda, embora não seja fácil.

Neste tipo de eleições, na primeira volta escolhe-se e na segunda rejeita-se. Explico: na primeira volta o eleitor escolhe o candidato mais do seu agrado e na segunda volta rejeita o finalista que mais lhe desagrada (na hipótese, bem entendido, do seu favorito ter ficado pelo caminho).

O pior que pode fazer a esquerda é ir com um candidato único. Há três partidos à esquerda e cada um deve apresentar o seu candidato. 

Depois, o melhor deles disputa a segunda volta com Cavaco Silva.

O país está metido num sarilho. É necessária clareza na política. O PS não pode ir às presidenciais de braço dado com a agenda estéril da extrema-esquerda.

Eis os candidatos ideais e mais fortes para umas presidenciais clarificadoras:
- à direita, (i) Cavaco Silva;
- à esquerda: (ii) Carvalho da Silva, apoiado pelo PCP; (iii) Manuel Alegre, apoiado pelo bloco de esquerda; e (iv) Jaime Gama, apoiado pelo PS (é sabido que Guterres não deixa a ONU e Vitorino não desgruda dos negócios).

Parece certo o apoio do bloco a Manuel Alegre.

O PCP receia a independência de Manuel Carvalho da Silva e, por isso, vai preferir um geronte qualquer do comité central.

Por sua vez, o PS se se misturar numa campanha alegre com o bloco, vai perder o eleitorado central, e oferecer numa bandeja o segundo mandato a Cavaco Silva.

Imagem daqui

Sento-me entre os que cantam em círculos

Fotografia de Aaron Burden


Sento-me entre os que cantam em círculos
E decoro a melodia improvisada
E embora cante ao longo do caminho
Fico sozinho ao chegar a casa

Mesmo quando estou sentado em casa
Canto mas não sei onde vivo

Sei as margens onde as crianças cortam os juncos
Sei que a música pode salvar um homem que se afoga sem nada
Taparei no entanto os ouvidos para descer humanamente ao fundo

Mesmo que aí a voz me seja o oxigénio necessário
Mergulharei voluntariamente na quietude ou na infância
De estar em silêncio

Quero aprender nas águas uma energia para escutar
Um instrumento sonoro, de fundo. A nervura
Da onda dobrando-se numa e noutra e noutra
Vinda
A concha acústica do búzio que ritma a embarcação
Sanguínea. A navegação de quem avista
Uma praça fora do mundo
Daniel Faria


terça-feira, 17 de dezembro de 2019

Catharsis

Fotografia de Nathan Lemon



It is the tenderness you feel you know
You may have had the tenderness you miss.

Still in the mask you wear your tongue can go
Raptly to themes the audience won’t guess

Creating from those fragments of thin air
Within the head’s O what you might have been.

You are not less because they cannot share
All that you are and tell what they have seen.

Still they’re agog. Your eloquence will flow
Beyond the measure pacing your distress

Till it breaks down the limits of your care
And finally you relish what you seem

And are to your last sense all you forgo.
Love. The particular. No more no less.
A. Alvarez