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sexta-feira, 23 de agosto de 2019

Equidade e desigualdade*

* Hoje no Jornal do Centro


1. O PCP e o Bloco fizeram-se de mortos durante a recente greve dos motoristas de matérias perigosas. Até mesmo depois de serem conhecidos os horários desumanos que são impostos àqueles trabalhadores.



Esta inacção perante esta luta não deve surpreender ninguém. As esquerdas, nas democracias liberais do ocidente, ainda vão entregando alguns resultados aos trabalhadores do sector público, mas já não fazem nada que se veja pelos jovens à procura do primeiro emprego, pelos precários, pelos trabalhadores do sector privado.

Durante a greve, publiquei nas redes sociais uma reflexão sobre este problema estrutural. Partilho-a também aqui no ponto seguinte.

2. O Bloco de Esquerda já se sabia que é para defender as causas identitárias da classe média urbana, cosmopolita e que trabalha no Estado.

O PCP é que era suposto defender quem recebe 630 euros de salário-base e que, para levar 1200 euros para casa, tem que trabalhar 60/65 horas, quase o dobro do horário da função pública.

Julgava-se que o Bloco, inchado de identitarismos, era pela equidade, e o PCP, orgulhoso da sua tradição operária, era pela igualdade.

Como descreveu Guy Standing, em “O Precariado - A Nova Classe Perigosa”, “uma característica da perda de dinamismo da agenda social-democrata (...) foi que a ênfase colocada na igualdade se deslocou para a equidade social. A redução da discriminação e das diferenças salariais com base no género tornaram-se objectivos prioritários, enquanto a redução das desigualdades estruturais foi remetida para segundo plano.”

Em suma, já se sabia que o Bloco de Esquerda é uma espécie de PS fashion, mas ainda se julgava que o PCP era o partido dos que sofrem, dos colarinhos azuis, dos descamisados.

Esta greve dos motoristas de matérias perigosas veio mostrar que afinal já nem o PCP serve para defender os trabalhadores do sector privado, os mais explorados deste país.

Estes, quando surgirem populismos à direita, vão votar neles. Vai ser feio de ver.

sexta-feira, 2 de novembro de 2018

A sangria*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Nas últimas semanas, tem havido más notícias para as estações dos CTT no distrito. Já encerrou a de Armamar (os serviços mínimos agora fazem-se na Junta de Freguesia) e também a de Penedono (o expediente agora é num café).

Daqui


Estão também em risco as de Sernancelhe, de Tabuaço, de S. João da Pesqueira e de Oliveira de Frades. Os presidentes da câmara estão a fazer tudo o que podem para evitar o encerramento. Exasperado, o presidente da câmara de Tabuaço, Carlos Carvalho, propõe-se “fazer com que nenhuma entidade privada aceite ficar à frente do serviço.”

Foram as urgências, os tribunais, a CGD, agora são os CTT. A sangria do interior não pára. Os autarcas bem a tentam anular, atrasar, bloquear, sabotar, estancar, reverter, num esforço muitas vezes inglório mas que merece todo o nosso apoio e solidariedade.

Esta saudação a quem luta o melhor que pode e sabe contra o centralismo não se estende ao presidente da câmara de Penedono. Há uns meses, fartou-se de gastar energia num responso ridículo ao Tintol & Traçadinho, a página de brincadeira e bom-humor deste jornal. Agora, perante o encerramento dos correios da sua terra, não se viu nada.

2. No domingo, um apoiante de Haddad que acabara de votar em Faro sentiu necessidade de afirmar à SIC: «eu sou da esquerda, mas não sou ladrão». Claro que não é. Já o mesmo não se pode dizer do lulopetismo que, só no caso Odebrecht, derreteu entre três a quatro mil milhões de euros (!) em subornos em doze (!) países. Esta cleptocracia levou ao resultado desgraçado que se viu.

O Brasil, agora, fica nas mãos de Jair Bolsonaro que, como é costume nos populistas, vai tentar controlar os tribunais e os media. O que se vai passar com os tribunais é uma incógnita, mas os media têm boas condições para resistir: têm bom jornalismo e têm leitores e anunciantes suficientes para poderem sobreviver aos ataques do poder.