domingo, 30 de setembro de 2018

Síndrome

Fotografia de Brennan Martinez



Todavía tengo casi todos mis dientes
casi todos mis cabellos y poquísimas canas
puedo hacer y deshacer el amor
trepar una escalera de dos en dos
y correr cuarenta metros detrás del ómnibus
o sea que no debería sentirme viejo
pero el grave problema es que antes
no me fijaba en estos detalles.
Mario Benedetti


sábado, 29 de setembro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#213)

Frog autumn

Fotografia Olho de Gato



Summer grows old, cold-blooded mother,
The insects are scant, skinny.
In these palustral homes we only
Croak and wither.

Mornings dissipate in somnolence.
The sun brightens tardily
Among the pithless reeds. Flies fail us.
The fen sickens.

Frost drops even the spider. Clearly
The genius of plenitude
Houses himself elsewhere. Our folk thin
Lamentably.
Sylvia Plath



sexta-feira, 28 de setembro de 2018

Contas de cabeça*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Há quatro semanas, espalhei-me ao comprido quando previ aqui cheio de certezas: “António Costa e Rui Rio não querem a recondução de Joana Marques Vidal. Paciência. Vão ter que a gramar.”


Editada a partir daqui
Contra o expectável, Marcelo Rebelo de Sousa não quis tirar uma selfie com a popularíssima procuradora, a primeira que começou de facto a incomodar gente importante. Marcelo, o poderoso Marcelo, borregou. Porque terá sido?

Há teorias conspirativas e teorias psi para este falhanço presidencial: que Marcelo não perdoa a JMV ter indiciado o seu amigo Ricardo Salgado, que se irritou com aquele “irritante” processo ao ex-vice angolano, que ele é mais fraco psicologicamente do que Costa.

Não creio que tenha sido nada disso. Marcelo está nos primeiros cinco anos de uma presidência de dez. Nos primeiros cinco, os presidentes só pensam na sua reeleição e fazem tudo o que os primeiros-ministros querem. Soares deixou o PM Cavaco fazer tudo, Cavaco deixou o PM Sócrates fazer tudo (até uma bancarrota), Marcelo está a deixar o PM Costa fazer tudo.

Marcelo, o popular Marcelo, tem uma meta para a sua reeleição — ultrapassar os 70,35% de Mário Soares em 1991. Para tal conseguir, precisa que Costa o apoie e não apresente nenhum candidato socialista em 2021, da mesma maneira como Cavaco, então, prescindiu de um candidato laranja e apoiou Soares.

Foram estas contas de cabeça que despediram Joana Marques Vidal. Nos primeiros cinco anos, tem havido sempre em Belém um sacristão do primeiro-ministro e só nos segundos cinco um presidente. Para evitarmos a fase sacristã, há que constitucionalizar um mandato presidencial único de sete anos.

2. Em Singapura, a Huawei chegou junto de uma fila de compradores para o ultimíssimo iPhone e deu-lhes uma caixa com uma bateria externa onde se podia ler: “Aqui está um powerbank. Você vai precisar dele.”

Um dia destes, Xi Jinping, num gesto magnânimo, entrega uma caixa destas a Donald Trump.

Tragam-me um homem que me levante

Pintura de Cláudia R. Sampaio



Tragam-me um homem que me levante
com os olhos
que em mim deposite o fim da tragédia
com a graça de um balão acabado de encher
tragam-me um homem que venha em baldes,
solto e líquido para se misturar em mim
com a fé nupcial de rapaz prometido a despir-se
leve, leve, um principiante de pássaro
tragam-me um homem que me ame em círculos
que me ame em medos, que me ame em risos
que me ame em autocarros de roda no precipício
e me devolva as olheiras em gratidão de
estarmos vivos
um homem homem, um homem criança
um homem mulher
um homem florido de noites nos cabelos
um homem aquático em lume e inteiro
um homem casa, um homem inverno
um homem com boca de crepúsculo inclinado
de coração prefácio à espera de ser escrito
tragam-me um homem que me queira em mim
que eu erga em hemisférios e espalhe e cante
um homem mundo onde me possa perder
e que dedo a dedo me tire as farpas dos olhos
atirando-me à ilusão de sermos duas
novíssimas nuvens em pé.
Cláudia R. Sampaio



quinta-feira, 27 de setembro de 2018

A Silves

Fotografia Olho de Gato



ó Dona dos Corações, em ti, talvez,
esteja a causa do tormento do cantor,
diz adeus a quem te quer, inda uma vez,
e que, em ti, por nada sente amor.
quando te sinto longe na lembrança
choro por ti, Silves, qual criança.
Ibn Habîb
Trad.: Adalberto Alves



quarta-feira, 26 de setembro de 2018

Eventos*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 26 de Setembro de 2008




1. A última edição do Jornal do Centro trazia dois artigos dos deputados José Junqueiro e Miguel Ginestal...


... que desvendam qual vai ser o argumento principal que vai ser usado para tentar justificar a enésima candidatura de Junqueiro a presidente da federação do PS: vai ser repetido em todos os cantos do distrito que tivemos dois anos muito bons porque o PS-Viseu trouxe cá vários membros do governo e organizou com eles sessões públicas.

Toda a gente sabe que José Sócrates não dorme em serviço e que pôs os ministros a prestarem contas políticas pelo país fora e não só nos superlativos eventos organizados em Viseu, só que isso não importa ao junqueirismo que nunca deixa que a realidade dos factos atrapalhe as suas histórias.

Desta vez o que vai ser dito tem este grau de elaboração: Junqueiro foi um bom promotor de eventos, logo foi um bom líder distrital, logo deve continuar.

2. Debrucemo-nos então sobre os três passos do raciocínio junqueirista:

1º) Eu sou o maior porque organizo eventos com ministros;

2º) Quem esteve lá e não disse nada aos ministros não pode falar cá fora;

3º) Se falar cá fora, não tem “nobreza de carácter” e só sabe “atirar de costas” [estes entre aspas são citações].

Segundo esta lógica, àqueles eventos aplicava-se a célebre fórmula: “Se alguém tem algo a dizer, que o diga agora ou, então, que se cale para sempre.”

Estamos, portanto, com um problema: muitos ilustres cidadãos de todo o distrito, incluindo vários líderes de opinião, foram àqueles eventos e não disseram nada. Não conheciam as regras. Ninguém os avisou que ali era obrigatório falar. E, agora, ai deles se abrirem a boca…

Vai o rio de monte a monte

Fotografia Olho de Gato


Vai o rio de monte a monte,
Como passarei sem ponte?

É o vão mui arriscado,
Só nele é certo o perigo;
O tempo como inimigo
Tem-me o caminho tomado.
Num monte está meu cuidado,
E eu, posto aqui noutro monte,
Como passarei sem ponte?

Tudo quanto a vista alcança
Coberto de males vejo:
D’aquém fica meu desejo
E d’além minha esperança.
Esta, contínua, me cansa
Porque está sempre defronte:
Como passarei sem ponte?
Francisco Rodrigues Lobo



terça-feira, 25 de setembro de 2018

Senhora

Fotografia de Samantha Qeja


Senhora, há demasiados pássaros
No vosso piano
Que atrai o Outono sobre uma selva
Espessa de nervos palpitantes e libélulas

As árvores em arpejos insuspeitados
Às vezes perdem a orientação do globo

Senhora, suporto isso tudo. Sem clorofórmio,
Descendo ao fundo da madrugada,
O rouxinol, rei de Setembro, informa-me
Que a noite se deixa cair entre a chuva
Burlando a vigilância dos vossos olhares
E que uma voz canta longe da vida
Para suster o espaço despregado
O espaço tão cheio de estrelas que está quase a cair

Senhora, às dez cheira a tabaco de artista
Amais o aroma a corpo de pássaro
Sois um fenómeno ligeiro
Vou-me, solitário, até ao ocaso dos turistas:
É muito mais belo
Vicente Huidobro
Trad.: Ricardo Marques


segunda-feira, 24 de setembro de 2018

Serralvilhos*

* Cadê das vinte fotografias de Robert Mapplethorpe que censurasteis, Serralvilhos?

Fotografia de Robert Mapplethorpe 


O Sena não se vende


Dizem alguns directores literários
(e accionistas da própria propaganda)
que «o Sena não se vende». E é verdade:
Não vende. Só as putas se vendem.
E em Portugal são tantas que não há
bolsas bastantes para comprá-las,
nem caralhos bastantes
para fodê-las como mereciam.
Jorge de Sena


domingo, 23 de setembro de 2018

Soneto para uma estação

Fotografia Olho de Gato



Estas sombras antigas de poente
guardam arcos de sol — dias de outono —
desfolhados na noite, nunca ausente,
quando as horas bocejam voz de sono.

São instantes maduros de nascente
na surpresa incessante do mês nono,
concebidos em gestos, mão silente,
quando as horas bocejam cor de sono.

Entre os cílios, o mundo em movimento,
sob as asas dos olhos morre um vento
para não ser sequer restos de sono.

Mas ao leste dos lábios pousa a aurora
fogem sombras antigas, vão-se embora...
surgem arcos de sol — dias de outono.
Majela Colares


Violência urbana (#39)

Fotografia Olho de Gato

sábado, 22 de setembro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#212)


Há 10% de homens que estudaram, folhearam as enciclopédias, consultaram os sites da especialidade...

Há 10% que sabem o que é um colibri...




Este texto "Os homens e os minetes", de Ana Anes, teve resposta de Miguel Sousa Tavares.

Um e outro podem ser lidos aqui.

Aqueço-me com isto

Fotografia de Giulia Bertelli



Aqueço-me com isto. Ao seu calor
O nosso sangue é um e amadurece
Boa-noite meu amor.
Boa-noite, que amanhece.
Pedro Tamen


sexta-feira, 21 de setembro de 2018

Encomendas*

* Hoje no Jornal do Centro


1. No dia 27 de Setembro de 2010, o secretário-geral da OCDE, sr. Ángel Gurría, apareceu em todos os media portugueses a recomendar um aumento vigoroso dos impostos sobre o imobiliário. Para além do IMI, a criatura queria também um aumento no IMT, o imposto que, quando ainda se chamava sisa, foi carimbado por Guterres como “o imposto mais estúpido do mundo”.
Durante dias a comunicação social não falou de outra coisa. Aquela conversa sintonizava-se tanto com a conversa do governo Sócrates que até parecia uma encomenda.

No dia 14 de Maio de 2013, o secretário-geral da OCDE, sr. Ángel Gurría, recomendou a Portugal que aumentasse impostos, tesourasse pensões, cortasse nos subsídios e indemnizações dos desempregados e carregasse nos combustíveis.
Durante dias a comunicação social não falou de outra coisa. Aquela conversa sintonizava-se tanto com a conversa do governo Passos que até parecia uma encomenda.

No passado dia 11 de Setembro de 2018, foi publicado um relatório da OCDE do eterno senhor Gurría, relatório esse que fez com que os nossos media desatassem a “informar” que os professores portugueses ganham dinheiro que nunca mais acaba.
Durante dias a comunicação social não falou de outra coisa. Aquela conversa sintonizava-se tanto com a conversa que o governo Costa gostaria de ter se tivesse coragem que até parecia uma encomenda.

Em 2010, a OCDE acarinhou Sócrates. Em 2013, mimou Passos. Agora quis fazer o mesmo a Costa mas as coisas não correram bem. Nem a perorar nove anos, quatro meses e dois dias seguidos, o sr. Ángel Gurría conseguiria convencer os portugueses que os seus professores são uns nababos.

2. Em vez de fazer como Bill Murray no filme “Os Caça-Fantasmas”, o bloco de esquerda, para tentar exterminar o fantasma Robles, propôs um “adicional ao IMT”, propôs um aumento da velhinha sisa.

Isto é, se o deixassem, o bloco adicionava ainda mais estupidez ao “imposto mais estúpido do mundo”.

Days

Fotografia de Alexander Popov

What are days for?
Days are where we live.
They come, they wake us
Time and time over.
They are to be happy in:
Where can we live but days?

Ah, solving that question
Brings the priest and the doctor
In their long coats
Running over the fields.
Philip Larkin


quinta-feira, 20 de setembro de 2018

Tempo

Fotografia de Daiga Ellaby


Tempo — definição da angústia.
Pudesse ao menos eu agrilhoar-te
Ao coração pulsátil dum poema!
Era o devir eterno em harmonia.
Mas foges das vogais, como a frescura
Da tinta com que escrevo.
Fica apenas a tua negra sombra:
— O passado,
Amargura maior, fotografada.

Tempo...
E não haver nada,
Ninguém,
Uma alma penada
Que estrangule a ampulheta duma vez!

Que realize o crime e a perfeição
De cortar aquele fio movediço
De areia
Que nenhum tecelão
É capaz de tecer na sua teia!
Miguel Torga


quarta-feira, 19 de setembro de 2018

Regressos*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 19 de Setembro de 2008



1. Herman José regressou com a Roda da Sorte. Eu fui fã da primeira edição deste concurso que passou na RTP. Desta nova aposta da SIC ainda é cedo para dizer.

Há uns bons anos, Herman José, Cândido Mota e Ruth Rita conseguiram transformar um insosso e bocejante concurso televisivo numa desbunda inesquecível.

Duvida? Basta ir ao YouTube. Acha-se com facilidade a última sessão da anterior Roda da Sorte, emitida em 1993. É a meia hora mais louca que conheço de um concurso televisivo.



Cândido Mota, impecável como sempre, anunciou Herman com a voz off mais in da nossa televisão. Este adentrou no estúdio de óculos escuros e caçadeira nas mãos, tal qual um Schwarzenegger.

Plácida como uma madona renascentista, Ruth Rita sorria enquanto virava as letras. Os três concorrentes, sem pestanejar, iam dando à roda e jogando em piloto automático. Herman José mal lhes ligava. O trabalho dele naquele dia era desfazer, a tiro de zagalotes, os adereços e o cenário. Assim fez com impecável pontaria.

No final, aquele estúdio ficou com um cheiro a pólvora mais intenso que o de uma oficina de pirotecnia na época alta.

2. Depois das férias de Verão, o Cine Clube de Viseu regressou com a versão final cut de Blade Runner lançada para assinalar os 25 anos deste clássico da ficção científica. Esta remontagem de Blade Runner é ainda mais sombria que a de 1982. Visto com olhos actuais, estranha-se aquele mundo analógico criado por Ridley Scott. A obra falhou a antevisão dos aparatos do nosso mundo digital mas continua a ser um filme de culto.

Foi feita edição especial, cheia de extras, em DVD e em Blu-Ray.

Gostei

Fotografia Olho de Gato


Gostei de saber que não estamos sós
gostei de sonhar
gostei que não dissesses o segredo
gostei de saber que ainda existes
que algures respiras o mesmo ar que eu respiro
gostei ter esquecido o teu nome
mas ter ainda o teu perfume na memória
gostei de saber que ainda há o jardim
e o banco e o lago
e que os peixes ainda lá estão

Gostei
gostei muito de saber que estás bem
e bem esquecido
no cotão do passado que não volta
Henrique Risques Pereira


terça-feira, 18 de setembro de 2018

Eu era quase um anjo

Fotografia Olho de Gato


Eu era quase um anjo
e escrevi relatórios
precisos
acerca do silêncio

Nesse tempo
ainda era possível
encontrar Deus
pelos baldios

Isso foi antes
de aprender a álgebra
José Tolentino de Mendonça











segunda-feira, 17 de setembro de 2018

Too Many Cooks Spoil the Broth

Fotografia Olho de Gato


Too many needles spoil the cloth.
Too many parrots spoil the talk.
Too many chapped lips spoil the gloss.
Too many teasel burs spoil the paw.
Too many bubbles spoil the froth.
Too many doorbells spoil the knock.
Too many seeds spoil the floss.
Too many feathers spoil the claw.
Too many lightbulbs spoil the moth.
Too many holes spoil the sock.
Too many sunbeams spoil the moss.
Too many kisses spoil the jaw.
Too many wolves spoil the flock.
Too many necks spoil the block.
Aimee Nezhukumatathil



domingo, 16 de setembro de 2018

Ledas sejamos hojemais!

Daqui




Este lais fezerom donzelas a dom [L]ançarot quando estava na Ínsoa da Lidiça, quando a Rainha Genevra [o] achou com a filha do Rei Peles, e lhi defendeu que nom parecesse ant’ela.*

Ledas sejamos hojemais!
E dancemos! Pois nos chegou
e o Deus connosco juntou,
cantemos-lhe aqueste lais!
          Ca est'escudo é do melhor
          homem que fez Nostro Senhor!

Com [e]st'escudo gram prazer
hajamos! E cantemos bem!
E dancemos a nosso sem,
pois lo havemos em poder!
          Ca est'escudo é do melhor
          homem que fez Nostro Senhor!

Oi nos devemos [a]legrar,
dest'escudo, que Deus aqui
troux'e façamo-lo assi:
puinhemos muit'eno honrar!
          Ca est'escudo é do melhor
          homem que fez Nostro Senhor!
Anónimo






* Último dos cinco lais que abrem o Cancioneiro da Biblioteca Nacional. Também em forma de bailada como o segundo, não se conhece nenhuma fonte direta para a composição. Tematicamente, no entanto, ela é inspirada no episódio designado "a loucura de Lancelot", que se encontra no Lancelot du Lac do ciclo da Vulgata, e, amplificado, no Roman du Graal do ciclo pós-Vulgata.

Sharrer (19881) transcreve a passagem que estará no origem do lai: "Et quant les damoyselles orent vue la jouste, elles viennent a l´ecu et ly enclinent toutes, et puis commencent a karoler et a chanter et disoient en leur chanson: ´Voirement est ce ly escus au meilleur chevalier du monde´" (e quando as donzelas acabaram de ver a justa, vieram ao pé do escudo e inclinaram-se perante ele, e depois começaram a cantar e diziam na sua canção: "Verdadeiramente este é o escudo do melhor cavaleiro do mundo").

Daqui


sábado, 15 de setembro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#211)

Ai! Se sêsse!...

Se um dia nós se gostasse;
Se um dia nós se queresse;
Se nós dos se impariásse,
Se juntinho nós dois vivesse!
Se juntinho nós dois morasse
Se juntinho nós dois drumisse;
Se juntinho nós dois morresse!
Se pro céu nós assubisse?
Mas porém, se acontecesse
qui São Pêdo não abrisse
as portas do céu e fosse,
te dizê quarqué toulíce?
E se eu me arriminasse
e tu cum insistisse,
prá qui eu me arrezorvesse
e a minha faca puxasse,
e o buxo do céu furasse?...
Tarvez qui nós dois ficasse
tarvez qui nós dois caísse
e o céu furado arriasse
e as virge tôdas fugisse!!!
Zé da Luz




Dez chamamentos ao amigo — #10

Fotografia de Viviane Sasen 


X

Não é apenas um vago, modulado sentimento
O que me faz cantar enormemente
A memória de nós. É mais. É como um sopro
De fogo, é fraterno e leal, é ardoroso
É como se a despedida se fizesse o gozo
De saber
Que há no teu todo e no meu, um espaço
Oloroso, onde não vive o adeus.
Não é apenas vaidade de querer
Que aos cinquenta
Tua alma e teu corpo se enterneçam
Da graça, da justeza do poema. É mais.
E por isso perdoa todo esse amor de mim
E me perdoa de ti a indiferença.
Hilda Hilst


sexta-feira, 14 de setembro de 2018

Armazém da pólvora*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


Conforme nos informam as Memórias Paroquiais de 1758, junto ao Rossio da Ribeira, também conhecido por Campo de São Mateus, ou Campo da Feira, ou Campo de “Sam Luis onde se faz a selebrada feira de Sam Matheos em cada hum anno pello dia do mesmo Sam Matheos” estava “situada huma casa que serve de armazém das polvoras dos homens de negocio desta cidade, a qual se fez por ordem do ilustre senado da Câmara desta cidade” para ali “se conservarem as polvoras sem detrimento da cidade e seus edifficios e por se temerem os estragos e ruínas nos tempos das trovoadas”.

Achei esta transcrição, em grafia da época, no interessante livro “Construindo a cidade: Viseu nos Séculos XVII e XVIII”, de Liliana Castilho. Livro que nos explica que aquele campo largo, na margem norte do rio Pavia, tinha um uso diferente dos outros rossios da cidade e ficava fora dos seus muros.

Era ali que se realizava a feira anual e, a partir do século XVIII, “com a construção nas suas proximidades do Armazém da Pólvora e de uma fonte, por iniciativa camarária”, a que se somou a “(re)construção da Capela de Nossa Senhora da Ribeira” e mais embelezamentos, o local foi adquirindo a sua vocação de lazer que mantém hoje.

A Ribeira agora está dentro da cidade, pelo que, entretanto, a prudência e o temor das trovoadas, secas ou molhadas, expulsaram o armazém da pólvora. Ou, melhor dito, expulsaram a pólvora do armazém.

Já a “selebrada feira de Sam Matheos” mantém-se naquele mesmo campo secular e vai encerrar depois de amanhã, 16 de Setembro. Isto é, o polvoroso fogo-de-artifício final vai parecer um clímax precoce e unilateral. Satisfaz o dr. Sobrado mas não o outro santo que dá o nome à feira.

Para que acontecesse esse prazer simultâneo, era preciso que o certame durasse mais cinco dias. Era preciso que ele durasse...
Fotografia Olho de Gato
... pelo menos até ao dia de S. Mateus, como aconteceu durante mais de seis séculos.

Dez chamamentos ao amigo — #9

Fotografia de Viviane Sassen

IX

Esse poeta em mim sempre morrendo
Se tenta repetir salmodiado:
Como te conhecer, arquitecto do tempo
Como saber de mim, sem te saber?
Algidez do teu gesto, minha cegueira
E o casto incendiado momento
Se ao teu lado me vejo. As tardes
Fiandeiras, as tardes que eu amava,
Matéria de solidão, íntimas, claras
Sofrem a sonolência de umas águas
Como se um barco recusasse sempre
A liquidez. Minhas tardes dilatadas
Sobre-existindo apenas
Porque à noite retomo minha verdade:
teu contorno, teu rosto álgido sim
E por isso, quem sabe, tão amado.
Hilda Hilst







quinta-feira, 13 de setembro de 2018

Dez chamamentos ao amigo — #8

Fotografia de Viviane Sassen


VIII

De luas, desatino e aguaceiro
Todas as noites que não foram tuas.
Amigos e meninos de ternura
Intocado meu rosto-pensamento
Intocado meu corpo e tão mais triste
Sempre à procura do teu corpo exacto.
Livra-me de ti. Que eu reconstrua
Meus pequenos amores. A ciência
De me deixar amar
Sem amargura. E que me dêem
Enorme incoerência
De desamar, amando. E te lembrando
— Fazedor de desgosto —
Que eu te esqueça.
Hilda Hilst




quarta-feira, 12 de setembro de 2018

Carta aberta*

* Publicada no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 12 de Setembro de 2008


Caros António Borges, João Paulo Rebelo e Miguel Ginestal:

Dirijo-vos esta carta aberta porque penso que são capazes de fazer no PS de Viseu aquilo que José Sócrates fez no PS de Castelo Branco: torná-lo o primeiro partido do distrito.

Como sabem, aproximam-se eleições distritais no PS. Tudo indica que José Junqueiro pretende continuar como presidente da federação. Como sabem melhor do que ninguém, isso seria muito mau para Viseu.

Mais uma vez teríamos um distrito peso pluma no contexto do PS nacional.

Mais uma vez o PSD teria um seguro de vida para a sua hegemonia nas autarquias do distrito.

Mais uma vez teríamos uma liderança incapaz de atrair os melhores quadros, aqueles que não precisam da política para terem biografia.

Teríamos, ainda, uma liderança muito fragilizada pois já é público e notório o conflito de interesses em que caiu José Junqueiro, ao ter aceitado ser consultor remunerado de um grupo económico que recebe dinheiros públicos. Os colégios privados desse grupo receberam 12 milhões e 867 mil euros do Ministério da Educação no segundo semestre de 2007.

Como é possível um líder distrital, ainda por cima do partido do poder, não se dedicar em exclusivo à defesa do interesse público?
Em Viseu, precisamos de um PS renovado, com ambição e sem telhados de vidro.

Caros António Borges, João Paulo Rebelo e Miguel Ginestal: os militantes do PS do distrito de Viseu olham para vós com esperança.

Lembro-vos um pensamento de Peter Singer: "Somos responsáveis não só por aquilo que fazemos, mas também por aquilo que poderíamos ter impedido."

Com amizade
Joaquim Alexandre Rodrigues

Dez chamamentos ao amigo — #7

Fotografia de  Vivian Sassen



VII

Sorrio quando penso
Em que lugar da sala
Guardarás o meu verso.
Distanciado
Dos teus livros políticos?
Na primeira gaveta
Mais próxima à janela?
Tu sorris quando lês
Ou te cansas de ver
Tamanha perdição
Amorável centelha
No meu rosto maduro?
E te pareço bela
Ou apenas te pareço
Mais poeta talvez
E menos séria?
O que pensa o homem
Do poeta? Que não há verdade
Na minha embriaguez
E que me preferes
Amiga mais pacífica
E menos aventura?
Que é de todo impossível
Guardar na tua sala
Vestígio passional
Da minha linguagem?
Eu te pareço louca?
Eu te pareço pura?
Eu te pareço moça?
Ou é mesmo verdade
Que nunca me soubeste?
Hilda Hilst



terça-feira, 11 de setembro de 2018

Dez chamamentos ao amigo — #6

Fotografia de Viviane Sassen


VI

Foi Julho sim. E nunca mais esqueço.
O ouro em mim, a palavra
Irisada na minha boca
A urgência de me dizer em amor
Tatuada de memória e confidência.
Setembro em enorme silêncio
Distancia meu rosto. Te pergunto:
De Julho em mim ainda te lembras?
Disseram-me os amigos que Saturno
Se refaz este ano. E é tigre
E é verdugo. E que os amantes
Pensativos, glaciais
Ficarão surdos ao canto comovido.
E em sendo assim, amor,
De que me adianta a mim, te dizer mais?
Hilda Hilst


segunda-feira, 10 de setembro de 2018

Dez chamamentos ao amigo — #5

Fotografia de Viviane Sassen



V

Nós dois passamos. E os amigos
E toda minha seiva, meu suplício
De jamais ver, teu desamor também
Há de passar. Sou apenas poeta

E tu, lúcido, fazedor da palavra,
Inconsentido, nítido

Nós dois passamos porque assim é sempre.
E singular e raro este tempo inventivo
Circundando a palavra. Trevo escuro

Desmemoriado, coincidido e ardente
No meu tempo de vida tão maduro.
Hilda Hilst




domingo, 9 de setembro de 2018

Dez chamamentos ao amigo — #4

Fotografia de Viviane Sassen

IV

Minha medida? Amor.
E tua boca na minha
Imerecida.

Minha vergonha? O verso
Ardente. E o meu rosto
Reverso de quem sonha.

Meu chamamento? Sagitário
Ao meu lado
Enlaçado ao Touro.

Minha riqueza? Procura
Obstinada, tua presença
Em tudo: julho, agosto
Zodíaco antevisto, página

Ilustrada de revista
Editoria; de jornal
Teia cindida.

Em cada canto da Casa
Evidência veemente
Do teu rosto.
Hilda Hilst


sábado, 8 de setembro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#210)

É p'ra ti
É p'ra ti
Pensa em mim
Pensa em mim
Não estás só
A lembrar
Não estás só
A chorar
Teu olhar
Voltará
A brilhar

Dez chamamentos ao amigo — #3

Fotografia de Viviane Sassen



III

Se refazer o tempo, a mim, me fosse dado
Faria do meu rosto de parábola
Rede de mel, ofício de magia

E naquela encantada livraria
Onde os raros amigos me sorriam
Onde a meus olhos eras torre e trigo

Meu todo corajoso de Poesia
Te tomava. Aventurança, amigo,
Tão extremada e larga

E amavio contente o amor teria sido.
Hilda Hilst


sexta-feira, 7 de setembro de 2018

Utilizadores-não-pagadores*

* Hoje no Jornal do Centro


Ele é borlas para o IRS dos emigrantes, ele é saldos dos passes sociais, ele é isto, ele é aquilo, os políticos estão lelés da cuca, como dizia há uns anos Marcelo Rebelo de Sousa.

Ainda faltam nove meses para as europeias e mais de um ano para as legislativas, mas, apesar de toda esta lonjura, a bolha em que vivem os políticos já só pensa numa coisa — votos.

E onde é que há votos? Pois, já se sabe, votos, votos a sério, há no litoral. No distrito de Viseu, se as pessoas estiverem contentes com o PS dão-lhe quatro deputados, se estiverem zangadas dão-lhe três. Não aquenta nem arrefenta. Já nos grandes círculos as coisas piam mais fino.

Foi por isso que o PS se saiu, no último fim-de-semana, com a ideia de uns passes fofinhos para os transportes em Lisboa. Coisa para uns sessenta milhões de euros a pagar por todos, alfacinhas ou não.

Depois, aquele eleitoralismo centralista foi diluído com um acrescentamento carinhoso de quinze milhões para os passes dos tripeiros e um afago de cinco milhões para os outros, entenda-se, para os passes de Coimbra e Braga.

Falta ver se estas águas de bacalhau cativam, ou não, o ministro Centeno. Esperemos sentados a trautear aquela cantiga do Sérgio Godinho que espera pelo comboio na paragem do autocarro. Os nossos poucos comboios, avariados ou atrasados, periclitam-se nos carris, enquanto os novos autocarros amarelos de Viseu...


Fotografia Olho de Gato
... ganham pó há meses em Coimbrões, à espera de uma decisão judicial. Mas, mesmo que estivessem a andar, não havia carinhos nem afagos do orçamento de estado nos passes de ninguém.

Quanto mais longe do mar, mais se sente o chicote implacável do princípio do utilizador-pagador, o mesmo que ergueu pórticos nas nossas auto-estradas. Sem alternativas, lá temos de atestar os nossos carros com 40% de combustível e 60% de impostos. Impostos que, depois, vão financiar transportes metropolitanos, com passes fofinhos para utilizadores-não-pagadores.