quarta-feira, 28 de fevereiro de 2018

“Professorzecos”*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 29 de Fevereiro de 2008


1. Falei duas vezes com José Manuel Silva: uma em 2001 quando ele era candidato pelo PS à Câmara de Leiria e eu era candidato à de Viseu; a outra vez foi no princípio de 2006, no Museu Grão Vasco, num encontro informal que ele promoveu para ouvir professores quando era Director Regional de Educação do Centro.

Na altura, ainda com menos de um ano no governo, a Ministra da Educação era gabada por todos os lados, (até Marques Mendes lhe cantava hossanas!), mas eu já tinha percebido que ela tinha uma política centralista e autoritária para as escolas e de facilitismo para os alunos. Disse isso alto e em bom som e pedi a demissão de Maria de Lurdes Rodrigues. José Manuel Silva olhou-me nos olhos. Falou da necessidade de mobilizar os professores e de não os agredir.


Nas reuniões no Ministério, ele era o único a defender que os professores eram mobilizáveis e entusiasmáveis para melhorarmos as nossas escolas. Era o único com bom-senso. No Ministério da Educação ninguém o quis ouvir pois manda lá gente que tem um preconceito mau contra os “professorzecos” (entre aspas porque é uma citação). Por isso, quando, ainda em 2006, José Manuel Silva deixou a DREC, não fiquei surpreendido. Presto-lhe aqui a minha homenagem. O seu blogue é: Campo Lavrado.


Daqui — onde também  se recorda 
o episódio de bufaria na DREN
2. Todos os professores do PS que pensam ir a votos para o ano que vem é melhor dizerem já (e de forma que se oiça) o que pensam do bufo da DREN; é melhor dizerem já (e de forma que se oiça) o que pensam desta política esquizofrénica que não deixa que os professores foquem as suas energias no essencial: a preparação das aulas e dos seus alunos.

Ao tempo, esse patife



terça-feira, 27 de fevereiro de 2018

Após a chuva

Fotografia de Josh Calabrese

Este silêncio picotado
após a chuva
após o receio de que o mundo
se desconversasse
para sempre
esta trégua erguida como
cenário diante da rara luz
com que se assinam
as ruas

ver assim o sossego
a pilhar os prédios
a colar os miúdos às janelas
com o mesmo espanto oblíquo
de cães e gatos
ver assim o futuro a assobiar
para o lado
para que não nos distraia
deste epicentro
a ambição da mera e pobre fome
com que o calendário inteiro
desejamos dissecar
o coração
e sentenciar:
vês
nada

este filtro
com que é possível
por vezes peneirar
os borbotões da realidade
e sacar-lhe um mindinho
de gozo
nada de festas
nada de proclamações
apenas o fim da chuva
algo caramba
de muito concretamente nosso
que o humano
não é senão um contágio da paisagem
uma tarefa da atenção
repara
Vasco Gato


segunda-feira, 26 de fevereiro de 2018

Um sonho

Fotografia de JC Dela Cuesta


Um sonho.

Na messe, que enlourece, estremece a quermesse...
O sol, o celestial girassol, esmorece...
E as cantilenas de serenos sons amenos
Fogem fluidas, fluindo à fina flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves.

Flor! enquanto na messe estremece a quermesse
E o sol, o celestial girassol esmorece,
Deixemos estes sons tão serenos e amenos,
Fujamos, Flor! à flor destes floridos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Como aqui se está bem! Além freme a quermesse...
– Não sentes um gemer dolente que esmorece?
São os amantes delirantes que em amenos
Beijos se beijam, Flor! à flor dos frescos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Esmaiece na messe o rumor da quermesse...
– Não ouves este ai que esmaiece e esmorece?
É um noivo a quem fugiu a Flor de olhos amenos,
E chora a sua morta, absorto, à flor dos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Penumbra de veludo. Esmorece a quermesse...
Sob o meu braço lasso o meu Lírio esmorece...
Beijo-lhe os boreais belos lábios amenos,
Beijo que freme e foge à flor dos flóreos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Cítolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Teus lábios de cinábrio, entreabre-os! Da quermesse
O rumor amolece, esmaiece, esmorece...
Dá-me que eu beije os teus' morenos e amenos
Peitos! Rolemos, Flor! à flor dos flóreos fenos...

Soam vesperais as Vésperas...
Uns com brilhos de alabastros,
Outros louros como nêsperas,
No céu pardo ardem os astros...

Ah! não resistas mais a meus ais! Da quermesse
O atroador clangor, o rumor esmorece...
Rolemos, b morena! em contactos amenos!
– Vibram três tiros à florida flor dos fenos...

As estrelas em seus halos
Brilham com brilhos sinistros...
Cornamusas e crotalos,
Citolas, cítaras, sistros,
Soam suaves, sonolentos,
Sonolentos e suaves,
Em suaves,
Suaves, lentos lamentos
De acentos
Graves,
Suaves...

Três da manhã. Desperto incerto... E essa quermesse?
E a Flor que sonho? e o sonho? Ah! tudo isso esmorece!
No meu quarto uma luz luz com lumes amenos,
Chora o vento lá fora, à flor dos flóreos fenos...
Eugénio de Castro


domingo, 25 de fevereiro de 2018

Sacode as nuvens

Fotografia de Marcus Zymmer



Sacode as nuvens que te poisam nos cabelos,
Sacode as aves que te levam o olhar.
Sacode os sonhos mais pesados do que as pedras.

Porque eu cheguei e é tempo de me veres,
Mesmo que os meus gestos te trespassem
De solidão e tu caias em poeira,
Mesmo que a minha voz queime o ar que respiras
E os teus olhos nunca mais possam olhar.
Sophia de Mello Breyner Andresen





sábado, 24 de fevereiro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#183)

O boato


Idilio

"Hilas e as Ninfas", de John William Waterhouse (1896)


Dice la dama: «El frío ya no hiere mi cuerpo.
Llega una primavera que no funde la nieve
ni licúa los ríos. Primavera de brazos
y músculos y sables y dentelladas dulces.
Bajo un cálido sueño masculino me olvido.
Y en mi olvido se olvidan mis doncellas y el mundo,
lo que fui y lo que soy, mi nombre y sus aristas.»

Él: «Comienza en tus ojos un combate sin tregua.
Vencida, eres el fuego. Victoriosa, la llama.
Nunca el crimen sagrado me pareció tan bello.»
Luis Alberto de Cuenca


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Carlos Santiago*

* Texto publicado hoje no Jornal do Centro


1. O escritor, dramaturgo e músico Carlos Santiago nasceu em Santiago de Compostela, mas é tão da Galiza como da nossa região, onde vem com muita frequência.

A sua peça “Tráfico”, que passou na Acert há um ano, foi o melhor espectáculo de teatro que subiu aos palcos do distrito em 2017. Em Maio fez um excelente monólogo em Viseu, na inauguração da galeria CAOS, mesmo atrás da Sé.


2. Na noite de sábado do carnaval deste ano, numa bela praça da sua cidade natal, Carlos, ataviado como o seu homónimo apóstolo Santiago, fez o mui aguardado “Pregón de Entroido”. Como é um soliloquista de eleição com décadas de experiência, ele pregoou coisas mui conformes com a liberdade desbundosa do carnaval.

Fotografia daqui


O jornal El Correo Gallego não esteve lá mas pôs um “jornalista” que assina com pseudónimo a contar tudo. À sua maneira. Emprenhou pelas orelhas com uns anónimos e contou o caso. À sua maneira.

Que o monologuista “fue muy duro” e fez “críticas muy groseras”.

Que o pregoeiro, com voz cheia de testosterona, aludira aos “huevos” de Santiago. Se foi aos próprios não foi gabarolice, Carlos é e sempre foi homem com eles no sítio, se foi aos do apóstolo, foi parábola, diria eu que não estive lá e, portanto, sei tanto como o “jornalista”.

Que, escreveu ainda a criatura que ninguém sabe quem é, “Carlos Santiago parece haber ido un poco más allá para, según denunciaron algunos de los presentes, rozar la grosería y la desvergüenza.”

Este artigo saiu da cloaca no dia 13. A seguir, viralizou. Outros jornais ecoaram a “notícia”, as sub-caves dos comentários online escorreram ódio, as redes sociais, como de costume, pegaram fogo.

Entretanto, o alcaide de Santiago, encomendador do pregão, e Carlos Santiago, o pregoeiro, já foram ameaçados de morte. E já apareceu uma associação de “abogados cristianos” que os quer levar a tribunal.

Vivemos tempos negros para a liberdade de expressão. Os identitarismos estão cada vez mais intolerantes e já nem as tréguas de carnaval respeitam.

Os poemas que escrevo

Fotografia de Kristopher Roller



Os poemas que escrevo
são moinhos
que andam ao contrário
as águas que moem
os moinhos
que andam ao contrário
são as águas passadas
Adília Lopes


quinta-feira, 22 de fevereiro de 2018

Melancolia*

* Publicado há exactamente dez anos, em 22 de Fevereiro de 2008

1. “Ai daqueles que se põem a percorrer o caminho por onde foram felizes!”. Paulo Portas tem sentido isso agora na pele. Neste seu regresso à liderança do CDS, ainda não teve um minuto de sossego. Da primeira vez, nos anos 90, tudo lhe foi mais fácil. Há uns tempos, num e-mail, escrevi um texto sobre essa “primeira vez” de Paulo Portas que adapto agora para aqui:

A sequência mais cinemática da política portuguesa aconteceu num Congresso do CDS. Ainda era primeiro-ministro António Guterres, patrão agora de Angelina Jolie.

Os "trabalhos" a decorrerem. Trabalhos, sim!: os congressistas trabalham, não dizem mal uns dos outros nas costas uns dos outros, nem discutem futebol, nem namordiscam... Os “trabalhos” decorriam. Ainda era Manuel Monteiro ao centro, na mesa principal.

De súbito, irrompem aplausos no fundo da sala. O povo do CDS vira a cabeça. Sorrisos no ar. Cenhos franzidos nas elites. Palmas. Metronicamente, Ele entra. Ele. O Messias. Paulo Portas, saudado pela sala em pé, caminha enérgico a olhar para Manuel Monteiro.

A turba agita-se. As televisões seguem a cena. Paulo Portas mais próximo. A sala paroxiza-se. As meninas jotas ruborescem. As madames têm princípios de delíquios. Os cabos de votos do Minho acenam que sim com a cabeça.

Paulo chega à mesa. Aperta energicamente a mão a Manuel. 
Fotografia de Fernando Veludo para o Público
No tempo de um aperto de mão, Paulo “é”, Manuel “era”. A política à Paulo Portas foi, então, naquele momento, bíblica.

2. Dez anos depois, já não há instantes assim. Caiu em cima da política portuguesa, e não só na de Paulo Portas, uma melancolia de sobreiros abatidos por obra e graça do Espírito Santo.

Amavisse

Fotografia de Roy DeCarava



Como se te perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro

Um arco-íris de ar em águas profundas.

Como se tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.

Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.
Hilda Hilst


quarta-feira, 21 de fevereiro de 2018

A rábula do dentro e do fora*

* O texto que se segue foi escrito em comentário no Facebook há exactamente dois anos a que acrescentei agora o terceiro parágrafo; aplica-se por inteiro ao PS no concelho de Viseu (onde sou militante com as cotas em dia) e ao Sporting (de que sou só simpatizante sofredor)



Imagem achada no FB de que se perdeu a autoria

Há uma esquizofrenia nos aparelhos cada vez menos operativa — a rábula do "cá dentro" e do "lá fora".

Esta rábula é cada vez menos operativa porque começa a faltar paciência às pessoas menos próximas dos rebanhos.

Essa rábula é típica dos partidos mas não só: vejam-se os muros que o autoritário e incompetente Bruno de Carvalho está a tentar criar entre um "dentro" e um "fora" do Sporting.

As "famiglias" que controlam os aparelhos levantam esse bisnau — dizem "lá dentro" que se deve falar "cá dentro" (expressão típica de aparelho) mas nunca se deve falar "lá fora" (expressão típica de aparelho).

E ostracizam quem fala "lá fora" (quer tenha ou não avisado "lá dentro"). E odeiam e invejam quem tem voz "lá fora".

Normalmente as "famiglias" já nem tentam falar "lá fora" onde ninguém os ouve.

Esta esquizofrenia serve, acima de tudo, para quê?

Resposta simples: para evitar escrutínio "lá dentro", qualquer que seja a merda feita "lá dentro".

As coisas nunca se consertam "lá dentro", embora haja, depois, um concerto afinadinho "cá fora" para desvalorizar ou disfarçar a malcheirosice "lá dentro".

Então, cheirando mal "lá dentro" e não sendo possível abrir as janelas para o "lá fora" arejar o "cá dentro", como ficam as coisas?

Ficam a cheirar mal, claro, mas na paz, com as "famiglias" a mandar e as ovelhas mais microcéfalas e desprovidos de pituitária a balirem todas contentes. A elas toda a merda lhes cheira bem.

Nesta última tarde em que respiro

Barbara Kruger, Remember Me (1988)


Nesta última tarde em que respiro
A justa luz que nasce das palavras
E no largo horizonte se dissipa
Quantos segredos únicos, precisos,
E que altiva promessa fica ardendo
Na ausência interminável do teu rosto.
Pois não posso dizer sequer que te amei nunca
Senão em cada gesto e pensamento
E dentro destes vagos vãos poemas;
E já todos me ensinam em linguagem simples
Que somos mera fábula, obscuramente
Inventada na rima de um qualquer
Cantor sem voz batendo no teclado;
Desta falta de tempo, sorte, e jeito,
Se faz noutro futuro o nosso encontro.
António Franco Alexandre




terça-feira, 20 de fevereiro de 2018

As chuvas da primavera

Fotografia de David Werbrouck


Em breve virão as chuvas da Primavera,
As chuvas da primavera
Vão descer sobre os campos,
Sobre as árvores pobres,
Sobre os rios degelando.

As chuvas da Primavera
Cairão sobre os jardins perdidos,
Sobre os rosais desnudos,
Sobre os canteiros sem flor.

As chuvas da Primavera anunciarão
Os grandes dias próximos,
E a cantiga das águas escorrendo
Dos beirais
Nos dirá do tempo próximo,
Das primeiras flores,
Dos primeiros ninhos,
Das primeiras palpitações
Dos brotos,
Das esperanças,
Da vida que se insinua em tudo,
Nos ramos,nas penugens,
Nos céus limpos.

Em breve virão as chuvas da Primavera.
Os rios já estão degelando
O frio já não é tão mau.
Adormece, pois, meu amor,
E esquece este inverno,
Deixa que o sono te leve,
Como as águas levam flores
E folhas soltas.
Augusto Frederico Schmidt




segunda-feira, 19 de fevereiro de 2018

Bengaleiro ou horacianas

Fotografia de Mpumelelo Macu



Físico o tractor quente arremessou
Contra as colheitas de ouro o breu de corvos
Trazendo a noite em ondas de onde andou
De foice afoita, a luz sugando a sorvos.
Modorrento, o vapor da chaminé,
Máquina de fazer nuvens, levando
Ondinas ao empíreo mar, rapé
Da paz entre titãs que ordenhando
Alheias colinas se houvessem mais
Desavindo. Van Gogh ou Fabergé:
Ovos de palha, gemas siderais
Chocados em estrelado canapé.
Entrar nesta pintura eu queria
Se à entrada não pedissem a poesia.
Daniel Jonas


domingo, 18 de fevereiro de 2018

Violência urbana (#34)

Fotografia Olho de Gato

Sombra

Fotografia de Sarah Diniz Outeiro


A minha sombra sou eu,
ela não me segue,
eu estou na minha sombra
e não vou em mim.
Sombra de mim que recebo a luz,
sombra atrelada ao que eu nasci,
distância imutável de minha sombra a mim,
toco-me e não me atinjo,
só sei do que seria
se de minha sombra chegasse a mim.
Passa-se tudo em seguir-me
e finjo que sou eu que sigo,
finjo que sou eu que vou
e não que me persigo.
Faço por confundir a minha sombra comigo:
estou sempre às portas da vida,
sempre sempre às portas de mim!
José de Almada Negreiros


sábado, 17 de fevereiro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#182)

Anúncio banido

En fuga

Fotografia de André Kertesz



Nuestra historia
a punto de derrumbe.

La casa es un desastre.
Al jardín le queda poca vida.
Hay sillones vacíos,
y libros por el suelo.

La sopa quedó fría.
Y los vasos con restos de café
por cualquier sitio.

Y he pensado coger una maleta
y marchar
con destino imprevisible,
a cualquier parte.

Quedarán por los cuartos
palabras malheridas,
amaneceres rotos
y restos de naufragios.
Poemas no acabados.
Y ese tango de aquel atardecer
que tanto amábamos...

Las cortinas al viento.
Y el implacable frío del adiós.

Y llevaré
— muy bien amarradito —
tu último combate

y el plan irrevocable de olvidarte.
María Socorro Luis


sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

Chuis da linguagem*

* Hoje no Jornal do Centro


Escrevo este Olho de Gato na tarde de terça-feira de carnaval. Está um griso áspero que põe roxas as peles à mostra dos nossos carnavais.
Em Lazarim, no momento em que teclo estas palavras, os compadres estão a “divulgar” as “fressureirices” das comadres e estas as “paneleirices” deles. 


Fotografia Olho de Gato 
2008
Se não forem estas designações, que já lá ouvi, serão outras parecidas. É que os chuis da linguagem ainda não entram naquele genuíno e libérrimo entrudo. Mas vão querer entrar. E quem defende a liberdade de expressão vai ter que os parar. Nos três dias de carnaval. E nos restantes 362.

Não há dia em que não se saiba de mais um caso de censura. Ou são uns “ofendidinhos da silva” que se sentem “agredidos” por um quadro num museu, ou é um livro que “estereotipa” e é subtraído do mercado ou tirado dos programas escolares.

Acaba de acontecer isso a “Aventuras de Huckleberry Finn” num distrito escolar do Minnesota. Os alunos vão deixar de estudar o livro de Mark Twain porque, apesar de ser um livro anti-racista, os censores acham que, como repete várias vezes a palavra “nigger”, os alunos podem sentir-se “humilhados e marginalizados”. Estamos nisto: agora lêem-se e julgam-se os clássicos à luz das vivências contemporâneas.

Nuns rascunhos de há quarenta anos, Woody Allen riscou idades de personagens femininas na casa dos vinte e escreveu por cima nuns casos dezassete, noutros dezoito anos. A partir desses esboços amarelecidos pelo tempo, arquivados na Universidade de Princeton, justiceiros à procura de cinco minutos de fama concluem que o realizador tem “uma obsessão vívida por mulheres jovens e raparigas”.

Raparigas de dezassete anos. Desvergonhado. Merece fogueira. Há que pôr as obras dele no “index filmorum proibitorum”. Todas. Não esquecer de queimar todas as cópias de “Annie Hall” ou do sublime “Stardust Memories”.

O politicamente correcto está a pôr uma burca na liberdade de expressão. Há que lhe resistir. Sem medo.

Caminho

Tempo dos Ciganos, de Emir Kusturica (1988)



Onde houver uma árvore para plantar, planta-a tu.
Onde houver um erro para emendar, emenda-o tu.
Onde houver um esforço de que todos fogem, fá-lo tu.
Sê tu aquele que afasta as pedras do caminho.
Gabriela Mistral


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Impostos*

* Publicado no Jornal de Centro há exactamente dez anos, e, 15 de Fevereiro de 2008



Daqui

1. Cara leitora, caro leitor: agora que provavelmente está a organizar os seus papéis para “meter” o IRS, proponho-lhe que procure a carta que recebeu das Finanças, no último Verão, com a liquidação do seu IRS. Procure a linha 20, referente à “colecta líquida”. Ora aí está quanto pagou de IRS. Se vive no concelho de Viseu, calcule 2% dessa “colecta líquida”. Meta-lhe mais a inflação em 2007 e 2008 (talvez, num cálculo conservador, 5%). Quanto dá? Viu o número? É quanto lhe vai custar este ano, a si e à sua família, em IRS, o seu Presidente da Câmara. Eu explico:

A partir de 2008, o IRS pode ser diferente de concelho para concelho. Estão em causa 5% do valor do imposto. Das 24 Câmaras do distrito de Viseu, só Resende (PS), Penalva do Castelo (PSD), Mortágua (PS) e Penedono (PSD), baixaram o IRS dos seus habitantes, em percentagens que vão de 2 a 3%. Portanto, só quatro Presidentes de Câmara é que mostraram alguma solidariedade pela classe média, que é quem paga o grosso dos impostos, e que está a ser massacrada em todas as frentes, designadamente nos impostos imobiliários (IMI e IMT) que nunca pingaram tanto como agora nos cofres municipais.

No concelho de Viseu, Fernando Ruas recusou uma proposta de Miguel Ginestal para que fosse feita uma redução de 2% no imposto de rendimento dos viseenses.

Quando, em 2009, receber a tal cartinha das finanças, não se esqueça dos dois por cento do seu dinheiro. Em 2009 é ano para acertar contas. Na cabine de voto.

2. O IVA dos ginásios desceu de 21% para 5%. Excelente! É de pedir o mesmo para os DVDs e CDs.

Depois do gasto de calorias no ginásio, nada como duas horas retemperadoras no sofá, com um bom filme, uma boa música, …

Solidão




Ai solidao to'me
Sima sol sozim na ceu
So ta brilha ma ta cega
Na se clarao
Sem sabe pa onde lumia
Pa onde bai
Ai solidao e un sina...


quarta-feira, 14 de fevereiro de 2018

Abstinência

Fotografia de Lucas Huffman


De todas as taras sexuais, não existe nenhuma mais estranha do que a abstinência.
Millôr Fernandes


terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

I like the smell of a gender stereotype in the morning!

Source

“Well, the female body is a… work of art. 
The male body is utilitarian, it’s for gettin’ around, like a jeep.”
Elaine Benes — Seinfeld

Como as sereias

Daqui


Existe a seiva. Existe o instinto. E existo eu
suspensa de mundos cintilantes pelas veias
metade fêmea metade mar como as sereias
Natália Correia





segunda-feira, 12 de fevereiro de 2018

I google you

Daqui


I Google you
Late at night when I don't know what to do
I find photos you've forgotten you were in
Put up by your friends
I do, I Google you
When the day is done and everything is through
I read your journal that you kept that month in France
I've watched you dance
And I'm pleased your name is practically unique
It's only you and a would-be PhD from Chesapeake
Who writes papers on the structure of the sun
I've read each one
I know that I should let you fade
But there's that box and there's your name
Somehow it never makes the pain grow less or fade or disappear
I think that I should save my soul and I should crawl back in my hole
But it's too easy just to fold and type your name again, I fear
I Google you
When I'm all alone and don't know what to do
And each shred of information that I gather
Says you've found somebody new
And it really shouldn’t matter
Ought to blow up my computer
But instead...
I Google you
Neil Gaiman






domingo, 11 de fevereiro de 2018

Paixões vulgares

Daqui


Não desdenhes as paixões vulgares.
Tens os anos precisos para saber
que elas correspondem exactamente à vida.
Francisco Brines


sábado, 10 de fevereiro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#181)

(El gran arte)

Fotografia de Françoise Huguier

¿Y si mentir no fuera vil
ni tan siquiera grave, no tuviese
fatales consecuencias,
no fuese irremediable ni sonase a pólvora;
y si mentir
no dejara marchitos los jardines
ni congelase el manantial sagrado
que riega nuestros sueños;
y si después de todo
mentir no fuera malo
sino sólo difícil?
Andrés Neuman


sexta-feira, 9 de fevereiro de 2018

Tiquetaque, tiquetaque*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


1. O passo em falso da procuradora-geral da república no caso dos bilhetes lampiões de Mário Centeno fez sair dos estábulos dezenas de “cabaleiros” a galope nas suas teorias da cabala.

Deu para perceber, mais uma vez, que não são só os governos de Portugal e Angola que estão ansiosos por terem, de novo, um arquivador-geral da república.

Tenha muita saúde, Joana Marques Vidal. E vontade para continuar.

2. O PS no concelho de Viseu está em pantanas. A anterior presidente falhou na decisão mais importante do seu mandato. Não conseguiu impedir que a candidata à câmara fosse escolhida em petit-comité em vez de ter sido em primárias.

O resultado viu-se: com uma candidata incapaz de articular uma ideia que fosse para o concelho, os socialistas marcaram passo. Isto enquanto o PS a nível nacional subia em todo o lado, impulsionado pelo bom momento do governo e do primeiro-ministro.

Lúcia Araújo Silva só sabe ganhar eleições quando elas são dentro do partido. As recentes eleições da concelhia de Viseu, onde nenhum dos candidatos mostrou vontade de debater ideias, foram resolvidas através do cochicho arrebanhador de votos. E nisso a vereadora é especialista.

Agora, o PS das famílias, depois da derrota, quer ganhar na secretaria. Uma “moscambilha”, como bem disse José Junqueiro.

3. Lembremos António Almeida Henriques em discurso directo, em 10 de Dezembro de 2015:

— “seis quilómetros [de ciclovias] serão o vírus positivo para transformar muitos hábitos (…) uma revolução tranquila na mobilidade da cidade”;

— “é já um salto de tigre numa mobilidade mais amiga da qualidade de vida urbana, da economia e do ambiente e que prova que isto não é só apanágio das grandes cidades”.

Passaram dois anos completos e mais dois meses. Espera-se que não tenha dado um vírus negativo neste tigre saltador.

Daqui
É que o presidente da câmara de Viseu prometeu a conclusão destas ciclovias em... 2018. E, para já, não se vê nada. 

Tiquetaque, tiquetaque. Faltam 325 dias.

Landscape with the Fall of Icarus

Paisagem com a Queda de Ícaro, de Pieter Bruegel (1565)



According to Brueghel
when Icarus fell
it was spring

a farmer was ploughing
his field
the whole pageantry

of the year was
awake tingling
near

the edge of the sea
concerned
with itself

sweating in the sun
that melted
the wings’ wax

unsignificantly
off the coast
there was

a splash quite unnoticed
this was
Icarus drowning
William Carlos Williams

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2018

Límites

Fotografia de Louis Stettner



Hay una línea de Verlaine que no volveré a recordar.
Hay una calle próxima que está vedada a mis pasos,
hay un espejo que me ha visto por última vez,
hay una puerta que he cerrado hasta el fin del mundo.
Entre los libros de mi biblioteca (estoy viéndolos)
hay alguno que ya nunca abriré.
Este verano cumpliré cincuenta años;
La muerte me desgasta, incesante.
Jorge Luis Borges


quarta-feira, 7 de fevereiro de 2018

A igreja da escatologia



Que a força do medo que tenho, não me impeça de ver o que anseio.
Que a morte de tudo o que acredito não me tape os ouvidos e a boca.
Porque metade de mim é o que eu grito, mas a outra metade é silêncio…
Ferreira Gullar


terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Smoke rings

Daqui

Ah desire!
Ah desire!
Ah desire!
So random So rare
And everytime
I see those smoke rings
I think you're there

Que es mas macho staircase o smoke rings?
Get the blanket from the bedroom
We can go walking once again
Down in the boondocks
Where our sweet love first began


segunda-feira, 5 de fevereiro de 2018

Ser pedra é fácil, difícil é ser vidro *

Tout quitter, tout lâcher, qui voudrait devenir Refugee?
Aux portes de nos villes, qui prend l'temps d'écouter les Refugees?
Si demain vient la guerre, on peut devenir des Refugees...
Que deviendront ces hommes?



* Provérbio chinês

domingo, 4 de fevereiro de 2018

Have Me

Fotografia de Rinko Kawauchi


Have me in the blue and the sun.
Have me on the open sea and the mountains.

When I go into the grass of the sea floor, I will go alone.
This is where I came from—the chlorine and the salt are blood and bones.
It is here the nostrils rush the air to the lungs. It is here oxygen clamors to be let in. 
And here in the root grass of the sea floor I will go alone.

Love goes far. Here love ends.
Have me in the blue and the sun.
Carl Sandburg






sábado, 3 de fevereiro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#180)

Gato em apontamento quase barroco e de manhã de sábado

Fotografia Olho de Gato


Gentilmente curvado sobre a flor,
Percorre devagar nervura e centro.
E em tantos delicados argumentos
Vai avançando lentamente as folhas.

A cabeça pondera e repondera
Defronte a haste fácil, rente a terra,
E uma pedra minúscula e serena
Sobe no ar, acesa como fera.

Não conhece os segredos do soneto,
Sendo de ofício muito ignorado
A sua arte. E em curto minuete:

Uma garra afiada em pé de valsa,
Um dente a desdenhar a flor e a folha
E a cravar-se, feroz, na minha salsa.
Ana Luísa Amaral