sábado, 30 de junho de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#201)

O sol é grande

Fotografia de Steve Halama



O sol é grande, caem co' a calma as aves,
do tempo em tal sazão, que sói ser fria;
esta água que d' alto cai acordar-m'-ia
do sono não, mas de cuidados graves.

Ó cousas, todas vãs, todas mudaves,
qual é tal coração qu'em vós confia?
Passam os tempos, vai dia trás dia,
incertos muito mais que ao vento as naves.

Eu vira já aqui sombras, vira flores,
vi tantas águas, vi tanta verdura,
as aves todas cantavam d' amores.

Tudo é seco e mudo; e, de mestura,
também mudando-m'eu fiz doutras cores:
e tudo o mais renova, isto é sem cura!
Francisco Sá de Miranda




sexta-feira, 29 de junho de 2018

Coragem*

* Hoje no Jonal do Centro



1. Há exactamente duas semanas e dois dias, a polícia iraniana irrompeu pela casa de Nasrin Soutoudeh e levou para a prisão aquela advogada defensora dos direitos humanos. Não foi a primeira vez que tal aconteceu a esta Mulher corajosa - já tinha estado presa pelo regime teocrático do Irão de 2010 a 2013. Foi durante esses amargos anos que ela recebeu, e muito bem, o Prémio Sakharov.

Desta vez, a advogada estava em casa com sua filha de 18 anos que preparava os exames para a entrada na universidade. Foi dito a Nasrin que ela tinha sido condenada à revelia a cinco anos de prisão. Foi-lhe dito isso e mais nada do que isso. Ela não faz ideia do que se passou no julgamento. Não sabia, tão pouco, que o mesmo estava a acontecer.

Sabe-se que, nas semanas que precederam a sua prisão, Nasrin Soutoudeh tinha tomado uma posição firme contra uma norma do código de processo penal iraniano de 2015 que, em determinados "crimes", proibe os acusados de terem acesso a advogados independentes, só podem ser "defendidos" por advogados autorizados pelo regime.

Por exemplo, em Teerão, dos sessenta mil advogados activos só há vinte a poderem "representar" as mulheres que cometem o "crime" de aparecerem sem hijab em público. E, como se sabe, muitas têm sido as Mulheres que têm lutado contra a obrigatoriedade dos véus. Cheias de coragem, destapam a cabeça, sobem às caixas de electricidade espalhadas pelas ruas e publicam esses actos de liberdade nas redes sociais. Muitas têm sido presas pela sinistra polícia moral dos aiatolas.


Fotografia AFP/Getty Images
2. Durante o jogo Portugal-Irão, duas mulheres lindas, de cabelo negro ao vento, uma delas a sorrir, a outra a gargalhar, ambas com o verde, o branco e o vermelho da bandeira iraniana pintados nas suas caras, apareceram, sem véu nenhum, nos écrãs de todo o mundo. Nos do Irão também.

Tão belas. Tão belas como a trivela de Ricardo Quaresma.

Pode-se escrever

Fotografia de Angelina Litvin


Pode-se escrever sem ortografia
Pode-se escrever sem sintaxe
Pode-se escrever sem português
Pode-se escrever numa língua sem saber essa língua
Pode-se escrever sem saber escrever
Pode-se pegar na caneta sem haver escrita
Pode-se pegar na escrita sem haver caneta
Pode-se pegar na caneta sem haver caneta
Pode-se escrever sem caneta
Pode-se sem caneta escrever caneta
Pode-se sem escrever escrever plume
Pode-se escrever sem escrever
Pode-se escrever sem sabermos nada
Pode-se escrever nada sem sabermos
Pode-se escrever sabermos sem nada
Pode-se escrever nada
Pode-se escrever com nada
Pode-se escrever sem nada
Pode-se não escrever
Pedro Oom


quinta-feira, 28 de junho de 2018

When man enters woman

De Claudio Souza Pinto — daqui



When man
enters woman,
like the surf biting the shore,
again and again,
and the woman opens her mouth in pleasure
and her teeth gleam
like the alphabet,
Logos appears milking a star,
and the man
inside of woman
ties a knot
so that they will
never again be separate
and the woman
climbs into a flower
and swallows its stem
and Logos appears
and unleashed their rivers.

This man,
this woman
with their double hunger,
have tried to reach through
the curtain of God
and briefly they have,
though God
in His perversity
unties the knot.
Anne Sexton


quarta-feira, 27 de junho de 2018

Alemanha — Grécia*

* Publicado há exactamente dez anos, em 27 de Junho de 2008


1. Quando a Alemanha estava a ganhar 2-0, a televisão mostrou a cara top-model de Cristiano Ronaldo; ele estava ensimesmado, parecia em conspiração consigo próprio; pensei eu, então, ao ver o pensar dele: agora, sim, a asa esquerda do nosso ataque vai “ligar o turbo” e deixar os teutões pregados à sua insignificância.

Pouco depois, as televisões mostraram um grande plano de Scolari ensimesmado, perdido em cálculos; pensei eu, então, ao ver o pensar dele: agora, sim, é que Scolari vai dar asas à nossa fantasia e vencer a sensaboria pragmática de Schweinsteiger e companhia.

Pensava eu que a vitória só podia ser um caso de cosa mentale e não dos centímetros germânicos recenseados burocraticamente por Scolari em conferência de imprensa, antes do jogo.

O “tamanho importa” dizia, há uns anos, agoirento, um anúncio do Renault Clio. E importou: Joachim Low usou muitos mais centímetros que Scolari. De inteligência.

2. Vou ao YouTube e escrevo “Monty Python Football” para ver a segunda parte de um jogo Alemanha - Grécia.




Pela Alemanha alinham, entre outros, Leibniz, Kant, Hegel; mais à frente, Jaspers (substituído aos 88’ por Karl Marx) e, claro, Nietzche e Heidegger.

A Grécia tem uma equipa fabulosa, em que se destacam Platão (à baliza), Aristóteles, Sófocles, Epicuro; no miolo, Demócrito e, ao ataque, o trio maravilha: Heraclito, Sócrates e Arquimedes.

Aos 89’, Arquimedes brada: «EURECA!». Arranca com a bola, faz uma tabela com Sócrates e outra com Heraclito, corre pela direita, centra e Sócrates marca. De cabeça, evidentemente. O mais importante golo da sua carreira. Alemanha, 0 – Grécia, 1.

Pois é. A Grécia e a Alemanha têm filósofos…

Uma mulher e a sua vida

Fotografia de Cristian Newman




Yehuda Amichai

De uma tia doce e enrugada
como um figo seco pelo fim do outono
todo o mundo louva a sabedoria.

Assim a sobrinha, sua menina
de quarenta anos, apaixonada,
ao apresentar-lhe o namorado careca.

Na sala, a tia oferece ambas as faces
a beijinhos estranhos e familiares,
escuta, observa, serve chá de erva-príncipe
em chávenas da Vista Alegre

e puxa a sobrinha para a cozinha.
Lá, com o bolo-rei fatiado, dá-lhe
a sua benção salomónica: «Fode,
minha filha! Fode, mas não te cases».
Marco Mackaaij





terça-feira, 26 de junho de 2018

Dois rumos




Mentir, eis o problema:
minto de vez em quando
ou sempre, por sistema?

Se mentir todo dia,
erguerei um castelo
em alta serrania

contra toda escalada,
e mais ninguém no mundo
me atira seta ervada?

Livre estarei, e dentro
de mim outra verdade
rebrilhará no centro?

Ou mentirei apenas
no varejo da vida,
sem alívio de penas,

sem suporte e armadura
ante o império dos grandes,
frágil, frágil criatura?

Pensarei ainda nisto.
Por enquanto não sei
se me exponho ou resisto,

se componho um casulo
e nele me agasalho,
tornando o resto nulo,

ou adiro à suposta
verdade contingente
que, de verdade, mente.
Carlos Drummond de Andrade


segunda-feira, 25 de junho de 2018

Lamento de Calipso

Fotografia de Erika Lanpher


Primeiro foi o bule,
de seguida foi a asa.
Que mais irás quebrar.

Não sei o que fazer com o teu sim,
o teu não, o teu
passa-me o açúcar.

A distância dos teus olhos, não a sei
abreviar, o latido dos teus sonhos
não me deixa adormecer.

Gostava de te amar um pouco menos,
de voltar ao meu rebanho
de feridas e sopores,

regressar ao rijo barro dos domingos
em que não te conhecia,
ao supor de suas tardes,

quando ainda não sabia
da dureza do cimento
nem dos modos de quebrar e ser quebrado.
José Miguel Silva


domingo, 24 de junho de 2018

Iremos pelos campos

Fotografia de Aziz Acharki

vêm sôfregos os peixes da madrugada
beber o marítimo veneno das grandes travessias
trazem nas escamas a primavera sombria do mar
largam minúsculos cristais de areia junto à boca
e partem quando desperto no tecido húmido dos sonhos

vem deitar-te comigo no feno dos romances
para que a manhã não solte o ciúme
e de novo nos obrigue a fugir
vem estender-te onde os dedos são aves sob o peito
esquece os maus momentos a falta de notícias a preguiça
ergue-te e regressa
para olharmos a geada dos astros deslizar nas vidraça
e os pássaros debicarem o outono no sumo das amoras

iremos pelos campos
à procura do silente lume das cassiopeias
Al Berto


sábado, 23 de junho de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#200)

Namoro

Fotografia de Lance Matthew Pahang

Mandei-lhe uma carta em papel perfumado
e com a letra bonita eu disse ela tinha
um sorrir luminoso tão quente e gaiato
como o sol de Novembro brincando de artista nas acácias floridas
espalhando diamantes na fímbria do mar

e dando calor ao sumo das mangas.
sua pele macia - era sumaúma...
Sua pele macia, da cor do jambo, cheirando a rosas
tão rijo e tão doce - como o maboque...
Seu seios laranjas - laranjas do Loge
seus dentes... - marfim...
Mandei-lhe uma carta
e ela disse que não.

Mandei-lhe um cartão
que o Maninjo tipografou:
"Por ti sofre o meu coração"
Num canto - SIM, noutro canto - NÃO
E ela o canto do NÃO dobrou.

Mandei-lhe um recado pela Zefa do Sete
pedindo rogando de joelhos no chão
pela Senhora do Cabo, pela Santa Ifigénia,
me desse a ventura do seu namoro...
E ela disse que não.

Levei à avó Chica, quimbanda de fama
a areia da marca que o seu pé deixou
para que fizesse um feitiço forte e seguro
que nela nascesse um amor como o meu...
E o feitiço falhou.

Esperei-a de tarde, à porta da fábrica,
ofertei-lhe um colar e um anel e um broche,
paguei-lhe doces na calçada da Missão,
ficamos num banco do largo da Estátua,
afaguei-lhe as mãos...
falei-lhe de amor... e ela disse que não.

Andei barbado, sujo, e descalço,
como um mona-ngamba.
Procuraram por mim
" - Não viu...(ai, não viu...?) Não viu Benjamim?"
E perdido me deram no morro da Samba.
E para me distrair
levaram-me ao baile do sô Januário
mas ela lá estava num canto a rir
contando o meu caso às moças mais lindas do Bairro Operário

Tocaram uma rumba dancei com ela
e num passo maluco voamos na sala
qual uma estrela riscando o céu!
E a malta gritou: "Aí Benjamim!"
Olhei-a nos olhos - sorriu para mim
pedi-lhe um beijo - e ela disse que sim.
Viriato da Cruz















sexta-feira, 22 de junho de 2018

Adicções*

* Hoje no Jornal do Centro


Adições dão somas, adicções, dependências. Nos tempos que correm, há cada vez mais gente a adicionar adicções. Uma delas é o smartphone.


Corre um meme nas redes que descreve perfeitamente esta agarração — numa fotografia temos sete pessoas sentadas em dois sofás: o pai, a mãe, o tio, a tia, o neto, a neta e a avó; ninguém diz nada; os seis primeiros estão ferrados no telelé, a avó olha o vazio, a legenda ironiza: «oxalá a vovó esteja a gostar da nossa visita».

Isto é mundial. As pessoas estão apanhadas de todo. O norte-americano médio consulta o seu aparato de doze em doze minutos. Para Portugal não há estatísticas, mas um sportinguista médio, como eu, está sempre a passar os dedos na maquineta para saber as últimas de Bruno de Carvalho.

No domingo, o Washington Post trazia um texto de William Wan a descrever esta adicção e a reportar a luta que os Davids do movimento “bem-estar digital” travam contra os Golias: a Apple, a Google, o Facebook e similares.

É que, explica Wan, os utilizadores estão transformados nos pombos de Skinner — um psicólogo comportamentalista que, há sessenta anos, pôs os bichos numa caixa e treinou-os a bicarem num botão para obterem comida; depois, o investigador subverteu as regras; para dar prémio, os pombos tanto tinham que bicar duas vezes, como cinco, ou uma, ou quatro, numa sequência que nunca se repetia; resultado: os pombos endoidaram e passaram a bicar convulsivamente o botão durante horas.

O que está a acontecer às pessoas é um bocado parecido. Haja ou não haja o “plim!” das notificações, pegam no smartphone à procura de um prémio. A maior parte das vezes, é uma irrelevância, é spam, é um video melga, é publicidade; uma vez por outra, aparece algo de interesse.

Amanhã à noite lá estarei eu às voltas com o meu Xiaomi à espera do jackpot — a notificação a informar que os sócios equiparam devidamente Bruno de Carvalho com uns patins debaixo dos pés.

Enigma

Fotografia de Nobuyoshi Araki

O teu enigma
não é o do espaço vazio
por entre os dedos

O teu enigma
é a nobreza do gesto futuro
quase escondido
nas palavras diurnas

O teu enigma
é líquido
quase como as formas que usas
todas elas
para dizer: inacabado
nunca fechado
na calmaria
da
paisagem.
Rosa Oliveira


quinta-feira, 21 de junho de 2018

Vê como o verão*

Fotografia de Nathan Dumlao


Arte de navegar

Vê como o verão
subitamente
se faz água no teu peito,

e a noite se faz barco,

e minha mão marinheiro.
Eugénio de Andrade




* Reedição

quarta-feira, 20 de junho de 2018

Israel - Irão*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 20 de Junho de 2008


1. A edição de 15 de Junho do Times dá notícia que George W. Bush está empenhadíssimo numa última tarefa antes de deixar o emprego: apresentar aos americanos, numa bandeja, as barbas do líder da al-Qaeda. Mesmo que consiga esse jackpot e Osama Bin Laden saia agora de debaixo duma pedra, Bush já não perde o título de pior presidente da história dos Estados Unidos.

A aliança Irão, Hezbollah, Hamas e Iraque (dominado pelos xiitas com apoio americano) criou um desequilíbrio estratégico no Médio Oriente. O presidente iraniano Mamoud Ahmadinejad, sempre que abre a boca, é para ameaçar varrer Israel do mapa e essas ameaças são levadas a sério em Telavive.

Joshka Fichler, o bem informado ex-ministro dos Negócios Estrangeiros alemão, acaba de avisar que há cada vez mais sinais que Israel prepara um ataque às instalações nucleares iranianas ainda antes de Bush se ir embora.

É mesmo: 2008 é o ano de todos os pesadelos.

2. Deve haver verdade no preço dos combustíveis. Por razões ecológicas e económicas. As empresas e as pessoas devem receber os sinais certos. Se a energia está cara, há que mudar comportamentos e consumos.

Sócrates está a fazer melhor que Guterres que, em 1999, congelou os preços dos combustíveis.

A Galp tem-se revelado insolente. É possível e desejável introduzir mais concorrência no mercado dos combustíveis. 

Mas convém lembrar: nós não temos petróleo. É preciso investir cada vez mais em energias renováveis e na eficiência energética.

No curto prazo, há que cerrar os dentes, aguentar a tempestade e ir acudindo aos sectores mais fragilizados pela subida dos preços. É o que José Sócrates está a fazer.

Refresh. Refresh. Refresh.



I’d give you another day dizzy
in its bracket for the reluctant circumference
of a sad sad satellite’s antiquated orbital stoppage.
You can’t jump with a lead foot, can’t
anthropomorphize insect anticipation, can’t
pixelate postcard nostalgia, can’t
trace a boy’s tiny hand and call him
king of anything that crosses your path, your past,
your iconographic reluctance to let go the toehold
of ordinary New York lasting so long at night, so
lusty in traffic & another orphan absently
kicking the underside of an orange plastic chair.
Poems shouldn’t make you wait for them to finish.
Like love, they should finish making you wait.
Noah Eli Gordon


terça-feira, 19 de junho de 2018

Sabiá

Detalhes aqui


A todo mundo eu dou psiu.
Psiu! Psiu! Psiu!
Perguntando por meu bem.
Psiu! Psiu! Psiu!
Tendo o coração vazio,
Vivo assim a dar psiu,
Sabiá, vem cá também.
Psiu! Psiu! Psiu!


Tu que andas pelo mundo,
Sabiá!
Tu que tanto já voou,
Sabiá!
Tu que falas aos passarinhos!
Alivia a minha dor.
Tem pena d’eu,
Sabiá!
Diz, por favor,
Sabiá!
Tu que tanto andas no mundo,
Sabiá!
Onde anda o meu amor?
Sabiáááááááááá!!!
Luiz Gonzaga










segunda-feira, 18 de junho de 2018

Hah!

Daqui


Há a mulher que me ama e eu não amo.
Há as mulheres que me acamam e eu acamo.
Há a mulher que eu amo e não me ama nem acama.

Ah essa mulher!

Tu eras mais feliz, Apollinaire.
montado num obus, voavas à mulher.
Tu foste mais feliz, meu artilheiro.
tiveste amor e guerra.

Eu andei pra marinheiro,
mas pus óculos e fiquei em terra.

Upa garupa na mulher que me acama,
que a outra é contigo, coração que bem queres
sofrer pelas mulheres...
Alexandre O'Neill


domingo, 17 de junho de 2018

Violência urbana (#38)

Santa Cruz da Trapa

Fotografia de Olho de Gato

Construção

Fotografia de John Moeses Bauan

Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão atrapalhando o tráfego

Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passo bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público

Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contra-mão atrapalhando o sábado
Chico Buarque



sábado, 16 de junho de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#199)

Retrato do artista quando coisa

Por Robert e Shana Pakerharrison



A maior riqueza
do homem
é sua incompletude.
Nesse ponto
sou abastado.
Palavras que me aceitam
como sou
— eu não aceito.
Não aguento ser apenas
um sujeito que abre
portas, que puxa
válvulas, que olha o
relógio, que compra pão
às 6 da tarde, que vai
lá fora, que aponta lápis,
que vê a uva etc. etc.
Perdoai. Mas eu
preciso ser Outros.
Eu penso
renovar o homem
usando borboletas.
Manoel de Barros


sexta-feira, 15 de junho de 2018

Atenção*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Quando alguém se foca em algo exterior a si, esse alguém está a aprender. Para aprender é imperativo prestar atenção e tudo indica que a atenção das pessoas é uma matéria-prima em declínio. Há cada vez mais gente a falar e, quanto mais falam os falantes, menos ouvem os ouvintes. E quanto mais falantes há, menos ouvintes há disponíveis.

Os professores sabem bem isso e tratam de, ao mesmo tempo que dão a matéria, manter debaixo de olho os alunos. Eles sabem que é cada vez mais difícil manter os alunos atentos, mesmo na ecologia ideal de uma sala de aulas em que os papéis e os tempos para os vários emissores e receptores estão bem definidos. Vamos lá ver se conseguem recuperar os 9A 4M 2D que a geringonça lhes quer roubar.

Fora das escolas o panorama é pior. Há para aí cada vez mais gente a falar sozinha sem dar conta disso. Muitos dos que dão conta, em desespero por audiências, até fazem o pino em posts no Facebook.

Já o devo ter dito aqui mas repito-o: como a atenção é cada vez mais rara, ela ainda vai ser paga. E, como sempre, quando isso acontecer, os ricos vão receber mais do que os pobres.


Fotografia de Lacie Slezak

2. A professora N. Katherine Hayles identificou dois tipos de atenção:

— a “atenção profunda”, que se concentra num só objecto durante um longo período de tempo, é capaz de ignorar estímulos externos e perseverar em objectivos de longo prazo, como por exemplo na leitura de um livro;

— a “hiperatenção”, sempre “a mudar de foco entre várias tarefas”, a fazer zapping, prefere “fluxos múltiplos de informação”, procura “um nível elevado de estimulação e tem uma tolerância baixa” à seca, ao chato.

É claro que umas vezes funcionamos em “atenção profunda”, outras vezes em “hiperatenção”, e que ambos “estilos cognitivos” têm vantagens e têm inconvenientes. Mas não é arriscado afirmar que a primeira maneira de conhecer o mundo está a perder terreno para a segunda e que essa perda é maior nas novas gerações.

Caixa de velocidades

Fotografia de Scott Webb



O carro arde, é
verão, falha-me
a embraiagem
(confesso que
tenho medo).

É por Monsanto que
sigo para recuperar
no opifício do comercial
centro a celeridade e
beijar as montras do
auto-conhecimento.

Faço aquisições, toco
na pele do pêssego.

Posso porque conheço
tão bem o curso que
me transporta para o
nível menos um
como a família
de feudatários
da qual descendo.
Respiro o condicionado
ar e a consolação de
um austero estacionamento.

Está escuro
está fresco
reina o silêncio.

Regresso ao vermelho
lugar e espera-me
aí — ar gasoso e suspenso

o garagista com olhos de Cristo
e é com mãos nos bolsos
que me aponta
o dedo.

De mão dada com
o meu saco plástico,
não me mexo.

De olhos fechados
conto até três
(como Ele pode)
mas é ponto
assente:
Pulverizados podem
seguir outros corpos
em nuvens isentas
financeiros túneis ou
vias rápidas mas
face ao ultimato
não concedo

Penso em nós —
súbditos amantes
no fundo do
saco de polietileno —
e simplesmente

não desapareço.
Susana Araújo




quinta-feira, 14 de junho de 2018

A minha saia

Fotografia de Simone Perrone



A minha saia é debruada de
dentes brancos
— saia rodada com pregas
e esconderijos que se abrem
sobre os precipícios da infância

É uma saia alta como janelas
remendada pelas mãos cuidadosas dos amantes

Debaixo da minha saia há
uma caixa com botões e olhos
que encontrei no leito seco dos caminhos
há um girassol que me aquece
o farelo e o sal dos ossos
há uma colmeia e o crescente negro
da sombra a roçar os joelhos

Há o riso dos velhos

Som de cordas, velas de moinho,
fábulas e exércitos balançam
dentro da minha saia
quando danço

Debaixo da minha saia há também casas
onde recolho o vento, e delas se avista
o pescoço curvo de dois bois mansos
alisando o pasto

Rodo o corpo e a minha saia aponta para o sul
baixo-a para desenhar círculos na poeira
ergo-a para atravessar o rio
na hora em que
a maré sobe
sobe
sobe
sobe
Ana Duarte


quarta-feira, 13 de junho de 2018

Part-time*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 13 de Junho de 2008


Fotografia de Tiago Caramujo
(daqui)
1. Manuela Ferreira Leite ganhou as eleições no PSD. A partir de agora vamos passar a ter o presidente, o partido do governo e o principal partido da oposição a dizerem o mesmo e isso não é bom.

Os sindicatos e as associações empresariais tentam moderar e enquadrar o descontentamento — veja-se o que se passou com os professores e o que se passa agora com os camionistas — mas a pressão está a acumular-se. Há um risco elevado de incêndio na “rua” e, infelizmente, Cavaco não sabe fazer de válvula de escape.

Já se começa a falar num governo Sócrates / Manuela para depois das eleições de 2009. É uma ideia péssima. O bloco central é estéril. Basta ver os resultados obtidos com o pacto de justiça que foi celebrado entre o PS e o PSD. Nada de bom aconteceu — os nossos tribunais estão na mesma como a lesma.

2. Marques Mendes defendeu a descida dos impostos e a moralização da política. Foi ele que libertou o PSD de criaturas como Valentim Loureiro e Isaltino Morais.

Não se imagina Manuela a baixar impostos e não se lhe conhecem ideias sobre a ganhuça em que se tornou boa parte da actividade política. Espera-se que, no mínimo, mantenha longe o seu antigo protegido, António Preto, o homem da mala cheia de dinheiro.

Durante a campanha interna do PSD, Manuela Ferreira Leite não disse nada. Agora vai ter que falar, especialmente para a classe média, os reformados e o funcionalismo que são quem tem pago, com língua de palmo, a redução do défice. Será que eles a vão ouvir?

3. A edição de 2 de Junho do Correio da Manhã trazia uma análise dos registos de interesse dos deputados. Em cada dois, um é deputado em part-time.

Não adianta



não adianta
chegar na porta
e ordenar
abra
öffnen
open
é preciso
girar a chave


e mais
é preciso saber
qual chave


ou então
esbarrar na dureza
de certos materiais


mogno pinho
cedro ou lâmina
de qualquer madeira


conhecer a chave
ou intuir para que
lado gira


tantos têm
tão pouca paciência
Angélica Freitas



terça-feira, 12 de junho de 2018

Do consumo do desejo




Como saber se isto é o esforço
que pede à carne o espanto do mundo,
ou se é pretensão de arte o esquecer
à porta toda uma noite a chave
para acolher cupidamente
o imprevisto o amor a rapina
na ânsia excitada do que somos
a seguir capazes de fazer?

se é este o estrénuo abandono
ao inquieto instante ou se antes
nos ilude a evasão? tão ténue
a fronteira entre a fuga e a oferta.
Tu estás do outro lado e eu não
sei como chegar e se escavar
um túnel sob o mar pode haver
maior exumação antes de ti:

tudo o que sepulta o passado –
ruínas de outros, o mudo lodo
sem que haja o modo de dragar;
e o dilatar-se o curso e não
cumprir-se o nosso encontro. Mau grado
a grande apneia o imenso hausto,
cruzam-se os destroços e entravado
o túnel cerca e serpenteia

eu devia ter tentado o voo
porém faltava-me o equilíbrio;
devia ter optado pelo arroubo
todavia não sabia preces;
não tinha a palavra de salvar,
a senha que consagra e exonera;
só tinha este corpo para entrar
e um tacto insolente para abrir.
Margarida Vale de Gato


segunda-feira, 11 de junho de 2018

Melhor seria...

Fotografia de Laurie Simmons



Melhor seria que não me lessem nunca
os que por costume lêem poesia.
Muito além deles conseguir falar
ao que chega a casa e prefere o álcool,
a música de acaso, a sombra de alguém
com o silêncio das situações ajustadas.

Não ser lido por quem lê. Somente
pelos que procuram qualquer coisa
rugosa e rápida a caminho de uma revista
onde fotografaram todo o ludíbrio da felicidade.
Que um poema meu lhes pudesse entregar,
ademais da morte,
um alívio igual ao de atirar os sapatos
que tanto apertam os pés desencaminhados.
Joaquim Manuel Magalhães