quarta-feira, 31 de julho de 2019

Eleições 2009 (IV)

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 31 de Julho de 2009 


Quais dos nove deputados eleitos pelo distrito de Viseu merecem ser reconduzidos? Pela minha análise, três deputados e meio:

1. Hélder Amaral (CDS) – foi, sem dúvida, o melhor deputado de Viseu. Teve uma presença assídua nos media locais e nacionais e mostrou saber pensar pela própria cabeça.
Francisco Peixoto, há uns anos, deixou uma marca de qualidade na bancada do CDS. Hélder Amaral, agora, não lhe ficou atrás.

2. José Junqueiro (PS) – foi um vice-presidente subutilizado da bancada da maioria.
Paulo Rangel, no seu discurso de despedida do parlamento, chamou “diligente” a Junqueiro. Com justiça. A grande capacidade de trabalho do deputado do PS é a sua principal qualidade. Dos seus defeitos tem-se falado cabonde aqui no Olho de Gato.

3. António Almeida Henriques (PSD) – tem um longo currículo no associativismo empresarial. Mas não só: a sua recondução é apoiada por 23 das 24 concelhias do PSD.

Em 2013 será, muito provavelmente, candidato ao lugar ora ocupado por Fernando Ruas.

3,5. Carlos Miranda (PSD) – até Janeiro de 2008, enquanto tivemos a política errática de Correia de Campos, Carlos Miranda fez-lhe uma boa e aguerrida oposição.

Quando José Sócrates decidiu pôr sensatez no ministério da saúde e dar posse a Ana Jorge, Carlos Miranda passou a ser mais discreto. Por isso, merece só “meia” recondução. De qualquer forma, Carlos Miranda vai sair do parlamento por opção própria.

Quem não merece ser reconduzido é José Luís Arnault. Nestes quatro anos, não fez nada pelo distrito que o elegeu. Que vá pregar para outra freguesia.

O PS e o CDS já se livraram de pára-quedistas políticos. De que estão à espera José Cesário e o PSD-Viseu para fazerem o mesmo?

Corpo de trabalho

Fotografia de Pawel Szvmanski

Cansada de ver o pouco que valho
Este corpo que é todo
Um corpo de trabalho
Escravo demente dos dias ruins
Que bóia e espera o golpe de rins

Com papo vazio e o peito apertado
Passo-te, cega, a mão pelo pêlo
O coração na boca o palato suado
A cara de caso o nariz empinado
Tenho as costas largas e a língua num novelo
Não dou o braço a torcer por dor de cotovelo


terça-feira, 30 de julho de 2019

Algumas palavras em defesa

Fotografia de Oladimeji Odunsi


Dor em todo o lado. Mortandade em todo o lado. Se bebés
não morrem de fome algures, morrem de fome
noutro lugar qualquer. Com moscas rondando-lhes as narinas.
Mas nós apreciamos as nossas vidas porque Deus assim o quer.
Se assim não fosse, as madrugadas de Verão não teriam sido
feitas de tal beleza. O tigre de Bengala não teria sido
concebido com tão miraculosa perfeição. As mulheres pobres
junto à fonte riem em comunhão no intervalo entre
o sofrimento por que passaram e o terror
que as espera no futuro, sorrindo e dando gargalhadas enquanto alguém
na aldeia está muito doente. O riso acontece
todos os dias nas horrendas ruas de Calcutá,
e as mulheres riem nas prisões de Bombay.
Se negarmos a nossa felicidade, se resistirmos à nossa satisfação,
diminuímos a importância das suas privações.
Devemos arriscar a alegria. Podemos prescindir do prazer,
mas não da alegria. Não da satisfação. Temos de ter
a teimosia de aceitar o nosso contentamento no impiedoso
forno deste mundo. Fazer da injustiça a única
medida da nossa atenção é louvar o Demónio.
Se a locomotiva do Senhor nos abater,
devemos agradecer porque no nosso fim houve magnitude.
Admitamos que haverá música apesar de tudo.
Cá estamos, de novo na proa de um pequeno navio estreito,
olhando para a ilha que dorme: a beira-mar
são três cafés fechados e uma luz nua que ainda arde.
Ouvir o débil som de remos quebrando o silêncio enquanto um barquinho
sai do porto e depois regressa vale realmente a pena
todos os anos de dor que estão por vir.
Jack Gilbert
Trad.: Andreia C. Faria


segunda-feira, 29 de julho de 2019

Blandina

Fotografia de Frankie Cordoba

Tão bela! Que bela, que bela
é a toada que ouço agora
na vez em que vou morrer.

A multidão ferve e é hora:
bramas se me dobro já
sobre o escuro, teu corpo
de boi fogo e meu colosso.

Sobre o escuro teu dorso
de boi, breu fulvo, teu contorno,
curvo-me cativa e cumpro-me
pesada e côncava sobre o pó.

São fardo teu trono, meus seios,
enquanto bramimos; afinal
sou bicho e tanto como tu
na vez em que vou morrer.

Ergo-me ampla e abro-me
à fome, meu altar e tua arte
na vez em que vou morrer:
a multidão ferve e é hora.

Estendo-me larga e fendo-me
doida, densa açucena pousada,
planície inteira como se exposto
meu lombo, como se a escutasse

tão bela! que bela que bela
na vez em que vou morrer:
a multidão ferve e é hora.
Mafalda Sofia Gomes


domingo, 28 de julho de 2019

O amor bate na aorta

Fotografia de Yoann Boyer



Cantiga de amor sem eira
nem beira,
vira o mundo de cabeça
para baixo,
suspende a saia das mulheres,
tira os óculos dos homens,
o amor, seja como for,
é o amor.

Meu bem, não chores,
hoje tem filme do Carlito.

O amor bate na porta
o amor bate na aorta,
fui abrir e me constipei.
Cardíaco e melancólico,
o amor ronca na horta
entre pés de laranjeira
entre uvas meio verdes
e desejos já maduros.

Entre uvas meio verdes,
meu amor, não te atormentes.
Certos ácidos adoçam
a boca murcha dos velhos
e quando os dentes não mordem
e quando os braços não prendem
o amor faz uma cócega
o amor desenha uma curva
propõe uma geometria.

Amor é bicho instruido.

Olha: o amor pulou o muro
o amor subiu na árvore
em tempo de se estrepar
Pronto, o amor se estrepou.
Daqui estou vendo o sangue
que escorre do corpo andrógino.
Essa ferida, meu bem,
às vezes não sara nunca,
às vezes sara amanhã.

Daqui estou vendo o amor
irritado, desapontado,
mas também vejo outras coisas:
vejo corpos, vejo almas
vejo beijos que se beijam
ouço mãos que se conversam
e que viajam sem mapa.
Vejo muitas outras coisas
que não ouso compreender…
Carlos Drummond de Andrade


sábado, 27 de julho de 2019

Céptico

Fotografia de Sunny Ng


Não creia em tudo aquilo que está lendo.
Duvide até da própria assinatura.
Não cante sem reler a partitura.
Recuse poesia com remendo.

Se um cego diz seu seu calvário horrendo,
coloque mais pimenta, que ele atura.
Se ser um masoquista é o que ele jura,
no máximo masturba-se escrevendo.

Cantando espalharei por toda parte,
mas sei que poucos vão acreditar
que sou Átila, Nero ou Bonaparte.

Vá lá, não sou guru nem superstar.
Na dúvida, porém, nunca descarte
que onde há fumaça o fogo pode estar.
Glauco Mattoso


sexta-feira, 26 de julho de 2019

Medo*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Todas as campanhas eleitorais usam o medo para ganhar votos. Umas mais, outras menos, nenhuma dispensa a retórica da guerra entre o “nós”, onde mora a virtude, e o “eles”, onde habita o perigo.

Até não há muito tempo, esta batalha na lama tinha que ser protagonizada por políticos, com o microfone à frente, à vista de toda a gente. Agora os políticos de primeira linha já raramente fazem essa triste figurinha. As mensagens mais mentirosas são deixadas para as redes sociais e para a comunicação mais endereçada (WhatsApp, Messenger e afins).

O impacto deste lixo mal-cheiroso na decisão de voto é muito difícil de avaliar e troca com frequência as voltas às sondagens, como se viu recentemente na Austrália, ou, em 2016, com o Brexit e Trump.

Por cá, o medo também vai ser usado na próxima campanha das legislativas, mas com pouco sucesso por duas razões óbvias: a geringonça descrispou o país e as eleições têm vencedor anunciado.

É claro que poderão ser enviados para os telemóveis dos funcionários públicos memes toscos com um penteado de Assunção Cristas a dizer “vêm aí outra vez as 40 horas!”, ou produtos similares a flagelarem outros líderes, mas não é provável que se tornem virais.


Edição em cima de uma fotografia de Rui Ochoa

2. Deixemos as catacumbas da propaganda política e debrucemo-nos agora sobre o medo que está a ser debatido às claras no espaço público, e que descrevi aqui em Outubro de 2018: “no próximo ano só vai haver um assunto político — a maioria absoluta do PS. Os socialistas vão fazer tudo para a obter, os outros partidos vão fazer tudo para a evitar.”

A dez semanas das eleições, esse risco é mais visível. É que, à medida que Rui Rio se afunda e o bloco vai parecendo o novo dono disto tudo, mais aumenta a probabilidade de um jackpot eleitoral do PS.

E convém lembrar: uma maioria absoluta de um só partido mete mesmo medo, basta lembrar o negocismo arrogante e autoritário dos únicos primeiros-ministros que a obtiveram — Cavaco e Sócrates.

Déjà vu

Fotografia de Austin Prock



he visto esa provincia donde
la sombra de mi cuerpo habla
de mi cuerpo como de una sombra
Guillermo Boido


quinta-feira, 25 de julho de 2019

Foi por ela

Fotografia de Toa Heftiba


Foi por ela que amanhã me vou embora
ontem mesmo hoje e sempre ainda agora
sempre o mesmo em frente ao mar também me cansa
diz Madrid, Paris, Bruxelas quem me alcança
em Lisboa fica o Tejo a ver navios
dos rossios de guitarras à janela
foi por ela que eu já danço a valsa em pontas
que eu passei das minhas contas foi por ela

Foi por ela que eu me enfeito de agasalhos
em vez daquela manga curta colorida
se vais sair minha nação dos cabeçalhos
ainda a tiritar de frio acometida
mas o calor que era dantes também farta
e esvai-se o tropical sentido na lapela
foi por ela que eu vesti fato e gravata
que o sol até nem me faz falta foi por ela

Foi por ela que eu passo coisas graves
e passei passando as passas dos Algarves
com tanto santo milagreiro todo o ano
foi por milagre que eu até nasci profano
e venho assim como um tritão subindo os rios
que dão forma como um Deus ao rosto dela
foi por ela que eu deixei de ser quem era
sem saber o que me espera foi por ela
Fausto Bordalo Dias
















quarta-feira, 24 de julho de 2019

Decência*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 24 de Julho de 2009


Nesta legislatura, em matéria de luta contra a corrupção e defesa da ética política, o parlamento foi mais lento do que couves a crescerem numa horta. Que o diga João Cravinho deixado pelos seus pares a falar sozinho.

Reconheça-se que há gente na assembleia da república, em todos os partidos, que se dedica à defesa do interesse público com brio e com brilho.

Mas as coisas na casa da democracia não estão bem. Conforme contas feitas pelo Correio da Manhã, metade dos deputados exerce o seu mandato em part-time, recebendo dinheiro de outras proveniências.

Alguns deputados de topo abicham consultorias de topo, alguns deputados do meio da tabela ficam-se por avenças de meio da tabela e alguns dos de baixo pretendem subir nesta cadeia alimentar.

Que fazer para acabar com este pântano? Exclusividade obrigatória aos deputados? Se as coisas continuarem como estão, para lá temos de ir. Para já, ajudava os deputados terem algum auto-controle.

No início deste mês, num plenário de militantes, mesmo perante o evidente desconforto dos vips do PS-Viseu, defendi que os deputados eleitos pelo PS deviam assumir o seguinte compromisso: durante o período em que estão na AR, não recebem dinheiro de empresas ou grupos económicos que recebam fundos públicos, nem mesmo em situações permitidas na lei.

Assim mesmo. Um compromisso de decência. Sem ser preciso escrever isso em letra de lei.

Ao fim e ao cabo, o mesmo aconteceu com as bi-candidaturas. O PSD e o PS acabaram com as candidaturas simultâneas. O que impediu que uma mesma criatura seja candidata a deputado e a presidente da câmara não foi nenhuma lei. Foi a decência. E chegou.

Cosa rara, que no conozco

Fotografia de Timur Romanov


Cosa rara, que no conozco.

Medida, catalogada, estudiada
por otros, no por mí.
Cosa con peso y tinte precisos
mímesis oculta a estos ojos.

No adivino.

Hay reglas de 30 cm.
de 40, de 1 metro de madera
reglas milimetradas, escuadras,
escalímetros.

Igual como no veo = no veo.

Hay compases con agujas
con clavos como ejes
compases giratorios
para el mar, para la lluvia.

Cosa rara que no conozco me anda cerca.

Hay ballestillas que miden
las estrellas, astrolabios,
hay un número de magnitud
para cada intensidad de brillo.

Cosa seria, eso me temo.

Hay idiomas enteros como cuerpos
hay miradas distintas
para cada dialecto,
se inventaron o salieron las palabras.

Salieron inventadas que junto por el suelo
(No me alcanza para decir).
Cosa rara que no veo = no puedo.

Hay esferas armilares, celestes
marítimas, terrestres,
se abren como huevos y adentro
un mapa convexo que número
tras número tras número
marca el recorrido de una ameba.

El pleno despiste de una ameba sonámbula.
Lucía Bianco


terça-feira, 23 de julho de 2019

Mamografia de mármore

Afrodite, mármore
Metropolitan Museum of Art of NYC




Deliciam-me as palavras
dos relatórios médicos, os nomes cheios
de saber oculto e míticos lugares
como a região sacro-lombar ou o tendão de Aquiles.

Numa mamografia de rastreio,
a incidência crânio-caudal seria
um bom título para uma tese teológica.

Alguns poetas falam disso. Pneumotórax
de Manuel Bandeira ou Electrocardiograma
de Nemésio, para não referir os vermelhos de hemoptise
de Pessanha ou as engomadeiras tísicas
de Cesário.

Mas nenhum(a) falou (ou fala)
de mamografia de rastreio. Versos dignos
só os de mamilo róseo desde o tempo
de Safo ou de Penélope. E, de Afrodite
enquanto deusa, só restaram óleos e
mamografias de mármore.
Inês Lourenço



segunda-feira, 22 de julho de 2019

O som

Fotografia de Rene Böhmer



o som dos espelhos
alaga as ruas
que se arrastam pelo corpo
entre o suor ácido das formas.
chove
e vejo a língua do relógio
misturar-se com a lama.
a cidade arde
e a minha ressaca
é uma lareira
a pingar pelos dedos.
Sara F. Costa





domingo, 21 de julho de 2019

Bésame mucho




Bésame, bésame mucho
Que tengo miedo perderte,
Perderte después.

Quiero tenerte muy cerca
Mirarme en tus ojos
Verte junto a mi
Piensa que tal vez mañana
Yo ya estaré lejos
Muy lejos de tí.

Bésame, bésame mucho
Como si fuera esta noche
La última vez

Bésame, bésame mucho
Que tengo miedo perderte,
Perderte después.
Consuelo Velázquez







E agora século XXI:

sábado, 20 de julho de 2019

Dust

Fotografia de Kunj Parekh



When I went to look at what had long been hidden,
A jewel laid long ago in a secret place,
I trembled, for I thought to see its dark deep fire—
But only a pinch of dust blew up in my face.

I almost gave my life long ago for a thing
That has gone to dust now, stinging my eyes—
It is strange how often a heart must be broken
Before the years can make it wise.
Sara Teasdale


sexta-feira, 19 de julho de 2019

Água no Rossio*

* Hoje no Jornal do Centro

1. O comentariado e as redes sociais começaram o ano à procura do “fascista português”.

Tudo começou quando um suástico foi à TVI, ao programa do Goucha. A partir daí, os líderes de opinião proclamaram que o país estava perdido. Que havia lepénicos em cada esquina pagos pelo Trump. Que a extrema-direita ia eleger vários deputados nas europeias.

Aquele “vem-lobo!” teve o seu ponto mais histérico no jornal Público, na forma de um manifesto subscrito por centenas de individualidades e colectivos, intitulado “O racismo e o fascismo não passarão!”, que exigia aos poderes públicos uma “sanção efectiva” a “todos os órgãos de comunicação social, empresas e pessoas” propagadores “de atitudes e discursos racistas, fascistas, homofóbicos e sexistas.” Eram solicitadas sanções efectivas, sanções mesmo à bruta, sanções mesmo mesmo à séria, a todos os hereges que não sigam a linguagem virtuosa dos signatários.

Entretanto, o mesmo Público publicou agora um texto racista de Fátima Bonifácio. Resultado: por causa dos parágrafos mal-enjorcados da Bonifácio, o comentariado e as redes sociais estão outra vez histéricos. Ainda sai praí outro manifesto a pedir, desta vez, fogueira para os ímpios que desrespeitem os comandamentos da santa madre igreja do politicamente correcto.

2. Os municípios de Viseu, Sátão, Nelas, Mangualde e Penalva do Castelo decidiram avançar para a construção de uma barragem que abasteça de água estes cinco concelhos. Excelente.

É importante fazer tudo para que sejam afastados, de vez, dois perigos: o de ficarmos dependentes da Águas de Portugal e dos seus boys e o de precisarmos de transvases provenientes de barragens de fora da região.

Fotografia Olho de Gato
3. Espera-se que a câmara de Viseu não esteja à espera da água da nova barragem para lavar o Rossio.

A “sala de visitas” da cidade nunca esteve tão porca e desleixada. Tem, em toda ela, uma gosma negra que se agarra aos sapatos de quem lá passa e à roupa de quem se senta nos bancos.

Ela

Fotografia de John Hoang


É já tempo de não esperar ninguém.
Passa o amor, fugaz e silencioso
como ao longe um comboio nocturno.
Não resta ninguém, é hora de voltar
ao desolado reino do absurdo,
a sentir culpa, ao vulgar medo
de perder o que já estava perdido.
À inútil e sórdida moral.
É já hora de dar por vencido
no trabalho, a sós, outro Inverno.
Quantos faltam ainda, e que sentido
tem esta vida onde te procurei,
se chegou já a hora tão temida
de comprovar que nunca exististe?
Joan Margarit
Trad.: Vasco Gato


quinta-feira, 18 de julho de 2019

Confession



To say I’m without fear –
It wouldn’t be true.
I’m afraid of sickness, humiliation.
Like anyone, I have my dreams.
But I’ve learned to hide them,
To protect myself
From fulfillment: all happiness
Attracts the Fates’ anger.
They are sisters, savages –
In the end they have
No emotion but envy.
Louise Glück


quarta-feira, 17 de julho de 2019

Eleições 2009 (III)*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 17 de Julho de 2009

1. As legislativas e autárquicas deviam ter sido marcadas para o mesmo dia e não separadas por duas semanas. Vamos ter um mês seguido de campanha eleitoral a estragar dinheiro e a cansar as pessoas.

Os partidos fizeram contas de cabeça estúpidas. O PSD julgou que tirava vantagem em eleições simultâneas. Todos os outros partidos pensaram o mesmo e, por isso, defenderam eleições separadas.

A classe política ainda não percebeu que as pessoas sabem bem o que querem. Quem faz uma cruzinha em três papéis diferentes nas autárquicas, faz perfeitamente em quatro. As pessoas evoluíram. Os partidos não. São um atraso de vida.

Nas campanhas das autárquicas gastam-se quantidades obscenas de dinheiro, muito mais que nas legislativas. Os eleitores vão ficar saturados e revoltados. Não ficarei nada admirado que, das legislativas para as autárquicas, a abstenção cresça entre 600 a 750 mil eleitores.

No futuro devem-se juntar eleições sempre que possível. É conveniente mudar a lei dos referendos para poderem ser feitos vários no mesmo dia e em conjunto com outras eleições, de forma a virmos a ter referendos com resultados vinculativos.

2. Três semanas antes das europeias escrevi aqui:
«A asneira cometida com as multi-candidaturas de Ana Gomes e Elisa Ferreira já não tem remédio. Que sirva de lição para as eleições do Outono. Ao PS e aos outros partidos.»

José Sócrates emendou a asneira. Fez bem. Mais vale tarde do que nunca.

Uns deputados do PS que queriam ser omnicandidatos vieram para os media queixarem-se de “mudança das regras a meio do jogo”. Problemas de umbigo. Nada de grave.

Mais uma vez se viu que, nos partidos, a ética tem sempre que ser imposta de cima para baixo.

Hotel Insónia

Fotografia de Annie Spratt


Gostava do meu buraquinho,
com a janela virada para a parede de tijolo.
Na porta ao lado havia um piano.
Algumas tardes por mês
um velho aleijado vinha tocar
"My Blue Heaven."

Mas havia, normalmente, sossego.
Cada quarto com a sua aranha no seu pesado sobretudo
A apanhar a sua mosca com uma teia
De fumo de cigarro e devaneios.
Tão escuro,
que não podia ver a minha cara no espelho da barba.

Às 5 da manhã o som de pés descalços lá em cima.
O Cigano que lia a sina,
Cujo estabelecimento ficava à esquina,
A urinar depois de uma noite de amor.
Uma vez, também, o som de uma criança a chorar.
Tão próximo estava, pensei
Por um momento, que era eu quem chorava.
Charles Simic











terça-feira, 16 de julho de 2019

Ó César

Fotografia de Priscilla Du Preez


não sou uma mulher moderna
não me ligo à net
gosto de compras ao vivo
cujas listas faço em cadernos de argolas
que depois esqueço
e só me lembro de elixir para aclarar a voz,
tenho tantas embalagens
como Warhol de Tomato Soap
ou de detergente Brillo,
para que ao chegares a casa
te envolva, te abrace e te queira
mas nem só de voz vive o homem
dizes tu,
e então a minha saúda-te
como a daqueles que vão morrer
Ana Paula Inácio

segunda-feira, 15 de julho de 2019

Chega de saudade

Fotografia de Elias Domsch


Vai, minha tristeza, e diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer

Chega de saudade, a realidade é que
Sem ela não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia que não sai de mim
Não sai de mim, não sai

Mas se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca

Dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de viver longe de mim

Vai, minha tristeza, e diz a ela
Que sem ela não pode ser
Diz-lhe numa prece que ela regresse
Porque eu não posso mais sofrer

Chega de saudade, a realidade é que
Sem ela não há paz, não há beleza
É só tristeza e a melancolia que não sai de mim
Não sai de mim, não sai

Mas se ela voltar, se ela voltar
Que coisa linda, que coisa louca
Pois há menos peixinhos a nadar no mar
Do que os beijinhos que eu darei na sua boca

Dentro dos meus braços
Os abraços hão de ser milhões de abraços
Apertado assim, colado assim, calado assim
Abraços e beijinhos e carinhos sem ter fim
Que é pra acabar com esse negócio de viver longe de mim
Não quero mais esse negócio de você viver assim
Vamos deixar desse negócio de você viver sem mim
Vinicius de Moraes


domingo, 14 de julho de 2019

Memória

Fotografia de Rich Smith

Amar o perdido
deixa confundido
este coração.

Nada pode o olvido
contra o sem sentido
apelo do Não.

As coisas tangíveis
tornam-se insensíveis
à palma da mão.

Mas as coisas findas,
muito mais que lindas,
essas ficarão.
Carlos Drummond de Andrade


sábado, 13 de julho de 2019

Intercidades

Fotografia de Amine Rock Hoovr

galopamos pelas costas dos montes no interior
da terra a comer eucaliptos a comer os entulhos de feno
a cuspir o vento a cuspir o tempo a cuspir
o tempo
o tempo que os comboios do sentido contrário engolem
do sentido contrário roubam-nos o tempo meu amor

preciso de ti que vens voando
até mim
mas voas à vela sobre o mar
e tens espaço asas por isso vogas à deriva enquanto eu
vou rastejando ao teu encontro sobre os carris faiscando
ocasionalmente e escrevo para ti meu amor
a enganar a tua ausência a claustrofobia de cortinas
cor de mostarda tu caminhas sobre a água e agora
eu sei
as palavras valem menos do que os barcos

preciso de ti meu amor nesta solidão neste desamparo
de cortinas espessas que impedem o sol que me impedem
de voar e ainda assim do outro lado
o céu exibe nuvens pequeninas carneirinhos a trotar
a trotar sobre searas de aveia e trigais aqui não há
comemos eucaliptos eucaliptos e igrejas caiadas
debruçadas sobre os apeadeiros igrejas caiadas
meu amor
eu fumo um cigarro entre duas paragens leio
o Lobo Antunes e penso as pessoas são tristes as
as pessoas são tão tristes as pessoas são patéticas meu
amor ainda bem que tu me escondes do mundo me escondes
dos sorrisos condescendentes do mundo da comiseração
do mundo
à noite no teu corpo meu amor eu
também sou um barco sentada sobre o teu ventre
sou um mastro

preciso de ti meu amor estou cansada dói-me
em volta dos olhos tenho vontade de chorar mesmo assim
desejo-te mas antes antes de me tocares de dizeres quero-te
meu amor hás-de deixar-me dormir cem anos
depois de cem anos voltaremos a ser barcos
eu estou só
Portugal nunca mais acaba comemos eucaliptos
eucaliptos intermináveis longos e verdes
comemos eucaliptos entremeados de arbustos
comemos eucaliptos a dor da tua ausência meu amor
comemos este calor e os caminhos de ferro e a angústia
a deflagrar combustão no livro do Lobo Antunes
comemos eucaliptos e Portugal nunca mais acaba Portugal
é enorme eu preciso de ti e em sentido contrário roubam-nos
o tempo roubam-nos o tempo meu amor tempo
o tempo para sermos barcos e atravessar paredes dentro dos quartos

meu amor para sermos barcos à noite
à noite a soprar docemente sobre as velas acesas

barcos.
Margarida Vale de Gato


sexta-feira, 12 de julho de 2019

O íman centralista*

* Hoje no Jornal do Centro



Daqui
Depois de 38 mil milhões de euros de receita global das privatizações, depois do aumento doido da dívida pública em 165 mil milhões de euros a seguir a Guterres ter abandonado o pântano, depois da transferência global de 130 milhões de euros de fundos comunitários que era suposto servirem para desenvolver as regiões mais pobres, o país está mais desigual do que nunca, com a riqueza e a população empilhadas no litoral.

Barroso e Sócrates fingiram que controlavam o défice, com truques contabilísticos e receitas extraordinárias. Passos e Costa, depois da bancarrota de 2011, controlaram-no mesmo. Numa coisa não houve diferença nenhuma entre estes quatro primeiros-ministros: todos eles usaram o pretexto do controlo do défice para centralizar, cada vez mais, todo o poder em Lisboa.

O ex-secretário de estado do ensino superior e professor de economia José Reis, aqui no Jornal do Centro, quantificou o que nos está a acontecer: de "2001 a 2017, o país perdeu 1% da sua população, mas na Área Metropolitana de Lisboa aumentou 5,8%. A própria Área Metropolitana do Porto perdeu 1%. O Norte, o Centro e o Alentejo perderam respectivamente 3,2%, 5,1% e 8,3%."

Lisboa é um íman que despovoa já não só o interior, mas todo o país. José Reis faz o diagnóstico exacto do que é agora Portugal: "um país unipolar, unicamente centrado e concentrado em Lisboa, com uma forte deslocação interna de recursos e uma desestruturação dos demais lugares".

Como o actual poder socialista é comandado por gente que gastou os fundilhos das calças na câmara de Lisboa, por gente que se casou e se nomeia para os gabinetes entre si, por gente que vai ganhar as próximas eleições, este panorama centralista dificilmente mudará.

O interior precisa de uma fiscalidade substancialmente mais baixa em IRC, IRS e IMI, que atraia investimento e gente. Partidos que forem omissos nestas propostas não merecem o nosso voto.

Amansar

Fotografia de Bruno do Val



Amansar a ideia de vê-lo
é o tecido dos meus dias
e eu me recubro totalmente

com este selo — esta companhia
podemos nos amar na distância
transcender o espírito largo

é o fosso que nos separa
e contigo estou — sempre — a um passo
do abismo escuto o eco dum graveto

quebrando lá embaixo o clique
pros meus ouvidos tão abertos é tão nítido
quanto o teu desejo de ficar comigo.
Júlia de Carvalho Hansen


quinta-feira, 11 de julho de 2019

Caixa de velocidades

Fotografia de Alexandre Godreau

O carro arde, é
verão, falha-me
a embraiagem
(confesso que
tenho medo).

É por Monsanto que
sigo para recuperar
no opifício do comercial
centro a celeridade e
beijar as montras do
auto-conhecimento.

Faço aquisições, toco
na pele do pêssego.

Posso porque conheço
tão bem o curso que
me transporta para o
nível menos um
como a família
de feudatários
da qual descendo.
Respiro o condicionado
ar e a consolação de
um austero estacionamento.

Está escuro
está fresco
reina o silêncio.

Regresso ao vermelho
lugar e espera-me
aí — ar gasoso e suspenso

o garagista com olhos de Cristo
e é com mãos nos bolsos
que me aponta
o dedo.

De mão dada com
o meu saco plástico,
não me mexo.

De olhos fechados
conto até três
(como Ele pode)
mas é ponto
assente:
Pulverizados podem
seguir outros corpos
em nuvens isentas
financeiros túneis ou
vias rápidas mas
face ao ultimato
não concedo

Penso em nós —
súbditos amantes
no fundo do
saco de polietileno —
e simplesmente

não desapareço.
Susana Araújo