segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Ano novo




Virás de manto realmente novo
Entre searas ardentes e mãos puras?
Poderemos enfim chamar-te novo,
Ano novo entre as tuas criaturas?

Deceparás enfim as mãos tiranas?
Será feita, enfim, nossa vontade?
Eu queria acreditar, vozes humanas,
Acreditar em ti, deus da verdade!

Como eu queria trazer-te a este mundo
(Mas onde te escondeste? Desde quando?)
Ó deus livre, sem espinhos, ó fecundo
Senhor do fogo alegre e não do pranto!

Ó ano novo, a minha esperança é cega.
Transforma em luz a nossa própria treva.
Alberto de Lacerda




domingo, 30 de dezembro de 2018

Bolero





Qué vanidad imaginar
que puedo darte todo, el amor y la dicha,
itinerarios, música, juguetes.
Es cierto que es así:
todo lo mío te lo doy, es cierto,
pero todo lo mío no te basta
como a mí no me basta que me des
todo lo tuyo.

Por eso no seremos nunca
la pareja perfecta, la tarjeta postal,
si no somos capaces de aceptar
que sólo en la aritmética
el dos nace del uno más el uno.

Por ahí un papelito
que solamente dice:

Siempre fuiste mi espejo,
quiero decir que para verme tenía que mirarte.

Y este fragmento:

La lenta máquina del desamor
los engranajes del reflujo
los cuerpos que abandonan las almohadas
las sábanas los besos

y de pie ante el espejo interrogándose
cada uno a sí mismo
ya no mirándose entre ellos
ya no desnudos para el otro
ya no te amo,
mi amor.
Julio Cortázar













sábado, 29 de dezembro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#223)

Centaura

Fotografia de Erik Witsoe

A moça de bicicleta
parece estar correndo
sobre um chão de nuvens.

A mecânica ardilosa
dos pedais multiplica
suas pernas de bronze

O guidão lhe reúne
num só gesto redondo
quatro braços.

O selim trava com ela
um íntimo diálogo
de côncavos e convexos.

Em revide aos dois seios
em riste, o vento desfaz
os cabelos da moça

numa esteira de barco
— um barco chamado
Desejo onde, passageiros

de impossível viagem,
vão todos os olhos
das ruas por que passa.
José Paulo Paes






sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

Dito no Jornal do Centro em 2018*

* Publicado hoje no Jornal do Centro


5 de Janeiro
De Lisboa não se espere muito. Nem depois da tragédia [dos incêndios] foi aprovada uma fiscalidade mais favorável para as pessoas e as empresas do interior.

13 de Abril
A geringonça aumentou as verbas nacionais para apoio à cultura mas cá diminuiu-as fortemente. O ministério quer tirar 130 mil euros por ano à Acert e 93 mil ao Teatro Viriato. Onde estão os eleitos com os nossos votos capazes de evitar que tal aconteça?

4 de Maio
Deixámos que a A25 nos estragasse o IP5 porque acreditámos quando nos disseram que a A25 não ia ter portagens. Vamos repetir a asneira? Vamos deixar que nos estraguem também o IP3? Depois, na próxima bancarrota, para fugirmos aos pórticos, regressamos às curvas do Luso?

25 de Maio
O centralismo tem duas peles muito ásperas: a pele política, manhosa, cheia de retórica na defesa do interior mas que aplica todos os recursos no litoral onde estão os votos; a pele tecnocrática, untuosa, que já começou a levantar espantalhos nos media contra a “província”.

8 de Junho
A multiplicação de eventos borliantes, promovidos directa ou indirectamente pelo município de Viseu, descura a medida do impacto dos mesmos e do retorno dos dinheiros públicos envolvidos. Impede também que se gere um mercado, com público habituado a pagar o seu bilhete.

6 de Julho
“Populista” é o “vem-aí-lobo!”, é o novo nome do “homem-do-saco” que vem levar as criancinhas que não comem a sopa. Houve uma altura em que se chamava a tudo o que não agradava “fassista”, agora é “populista”.

9 de Novembro
Precisamos de uma câmara de Viseu forte capaz de impedir que os boys socialistas da Águas de Portugal ou os capitalistas da Águas do Planalto nos imponham transvases e nos salguem as facturas mensais do precioso líquido.

21 de Dezembro
É necessário criminalizar o enriquecimento ilícito, meter logo na cadeia os corruptos após condenação em segunda instância, instituir a colaboração premiada para quebrar a omertá corrupta.

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Os Olhos de Gato publicados no Jornal do Centro podem ser lidos aqui neste blogue clicando na etiqueta Jornal do Centro.

Segue-se a primeira leitura para esta selecção de fim-de-ano que, depois, foi devidamente tesourada para os necessários menos de 2000 caracteres:

[5Jan] 
De Lisboa não se espere muito. Nem depois da tragédia, nem com um orçamento de vacas gordas que deu de mamar a todos os lóbis, nem assim foi aprovada uma fiscalidade mais favorável para as pessoas e as empresas do interior.
Para nos reerguermos contemos, acima de tudo, com a nossa força.

[2Mar] 
O sr. A faz uma afirmação, mas o sr. B, em vez de tratar dos méritos ou deméritos da dita afirmação, põe é um carimbo mau no sr. A.
Há mais formas de desconversar mas deitar abaixo o mensageiro é o exercício preferido nas querelas de opinião dos media e das tribos das redes sociais. E, claro, para denegrir o mensageiro, chovem ataques ao seu carácter.
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A ascensão meteórica de Elina Fraga no PSD de Rui Rio diz muito sobre a natureza leninista dos nossos partidos. Em nenhum deles há dinâmicas de baixo para cima. As políticas são definidas em cima e seguidas em baixo. E os lugares de influência são monopolizados pelo topo que controla também as sobras para a restante cadeia alimentar.
Portanto, para se ter poder e influência no nosso sistema partidário, ou se faz o complicado e demorado caminho para chegar a chefe ou se escolhe um muito mais fácil e rápido: ser guru do chefe. A fatal Elina usou este atalho.

[9Mar] 
Assim como nos nossos montes, depois dos incêndios, se vêem melhor as pedras, também depois do fogo que pôs as nossas maiores empresas em mãos estrangeiras vêem-se muito melhor os familismos das nossas elites.
Os nossos políticos ficaram sem o mato da PT, da EDP, do BES, onde iam prantando sem dar muito nas vistas os cônjuges, os manos, os primos, os...

[16Mar] 
Os eleitores comunistas elegeram Fernando Loureiro para a assembleia municipal de Viseu mas o lugar acabou por ficar para Filomena Pires. Os eleitores socialistas do distrito elegeram deputados Maria Manuel Leitão Marques, António Borges e João Paulo Rebelo mas saíram-lhes na rifa Marisabel Moutela, José Rui Cruz e Lúcia Silva.
António Costa e Rui Rio, já que estais virados para “acordos de regime”, aqui está um a sério: é urgente acabar com esta vigarice política que leva as pessoas a votarem em A para depois o lugar ficar para B.

[23Mar] 
Foram desmatados muitos terrenos antes de 15 de Março. Respeitaram o prazo absurdo de uma má lei centralista, estúpida, que não sabe nem quer saber nada do mundo rural e que não tem em conta nem as diferenças regionais nem as condições meteorológicas. Além disso, obriga a limpar 50 metros em redor de casas, um exagero que impõe custos enormes a proprietários que não foram tidos nem achados sobre as construções junto dos seus terrenos.
Entretanto, os sarilhos atirados para as costas dos donos dos terrenos foram atirados também para cima das autarquias. Estas que poupem em festas e gastem em desmate, foi com esta mordidela que o ministro da agricultura sacudiu o capote governamental.
Infelizmente, muitas pessoas mal informadas e com medo das multas estão a cortar tudo a eito, o necessário e o desnecessário. O que faltou em informação competente sobrou em ameaças com a GNR. O ministro Cabrita transplantou para a administração interna a mesma incompetência com que dirigiu o dossier da regionalização em 1998, ou tutelou a pulsão censórica da CIG em 2016 e 2017.

[6Abril] 
Em Lisboa e Vale do Tejo, as actividades culturais vão receber €1.75 por habitante. A capitação desce para €1.08 na região centro, no norte fica-se por €0.95 e na Madeira afunda-se para €0.78, menos de metade do subsídio por alfacinha.
Lisboa parte e reparte e abarbata sempre a melhor parte.

[13Abril] 
A chegada de um partido populista ao poder não é, em si, uma tragédia. Por vezes, é até bom que as suas receitas simplistas choquem com a realidade. Veja-se o caso do Syriza. Depois de meio ano de desvario que culminou na vigarice do referendo OXI, Tsipras ganhou juízo. O mesmo há-de acontecer em Itália se chegar a haver um governo do Cinco Estrelas.
O populismo só se torna um fungo letal quando, chegado ao poder, tem força para anular os contra-pesos de uma democracia — a independência dos media e dos tribunais. Quando tal acontece, alapam-se, pelo voto não saem, só através da força.
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a geringonça aumentou as verbas nacionais para apoio à cultura mas cá diminuiu-as fortemente. O ministério quer tirar 130 mil euros por ano à Acert e 93 mil ao Teatro Viriato.
Onde estão os eleitos com os nossos votos capazes de evitar que tal aconteça?

[4Maio] 
Deixámos que a A25 nos estragasse o IP5 porque acreditámos quando nos disseram que a A25 não ia ter portagens. Vamos repetir a asneira? Vamos deixar que nos estraguem também o IP3? Depois, na próxima bancarrota, para fugirmos aos pórticos, regressamos às curvas do Luso?

[18Maio] 
As casas dos políticos vão adquirindo adjectivos cada vez mais delirantes. O deputado bloquista Pedro Soares, apanhado também a arredondar o fim do mês, afirmou-se à RTP com:
— uma “morada estável” (sic) na sede do bloco de esquerda em Braga;
— uma “morada de família” (sic) em Vouzela, nunca registada porque, disse o deputado e escreveu o bloco num comunicado, o custo seria “mais elevado” para o parlamento;
— uma “morada de contacto” (sic) em Lisboa nunca indicada à AR mas registada no tribunal constitucional para “facilidade de contacto” deste.

[25Maio] 
A verdade é que, das três alternativas estudadas pela Infraestruturas de Portugal, o governo quer escolher a pior só porque é a mais baratinha. E a região não pode deixar que se repita no IP3 a asneira que foi feita no IP5. É que depois, na próxima bancarrota, não vai haver força para impedir portagens nos troços que venham, eventualmente, a ser duplicados.
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O centralismo tem duas peles muito ásperas:
— a pele política, manhosa, cheia de retórica na defesa do interior mas que aplica todos os recursos no litoral onde estão os votos;
— a pele tecnocrática, untuosa, que já começou a levantar espantalhos nos media contra a “província”.

[1Junho] 
Certo, certo, é que, na noite de 15 para 16 de Outubro, a estrada regional 230 entre Carregal do Sal e Tondela foi varrida pelos ventos doidos e crestos da tempestade Ophelia, e o fogo furioso fez fenecer tudo à frente.
Queimou tudo menos aquela declaração de amor naquela parede.
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Os actores principais deste teatro mínimo que é a presença do estado no interior não existiram naquela noite trágica, só existem quando é para cobrarem impostos ou para fazerem leis mal paridas como aquela que obrigava a limpar o mato até 15 de Março, mato que, entretanto, já cresceu outra vez.

[8Junho] 
A multiplicação de eventos borliantes, promovidos directa ou indirectamente pelo município de Viseu, descura a medida do impacto dos mesmos e do retorno dos dinheiros públicos envolvidos. Impede também que se gere um mercado, com público habituado a pagar o seu bilhete.
Há que criar esse hábito até porque o concelho tem já muitas pessoas a trabalharem na cultura e que precisam que ela tenha sustentabilidade.

[15Jun] 
Há para aí cada vez mais gente a falar sozinha sem dar conta disso. Muitos dos que dão conta, em desespero por audiências, até fazem o pino em posts no Facebook.
Já o devo ter dito aqui mas repito-o: como a atenção é cada vez mais rara, ela ainda vai ser paga. E, como sempre, quando isso acontecer, os ricos vão receber mais do que os pobres.

[6Julho] 
"Populista" é o "vem-aí-lobo!", é o novo nome do "homem-do-saco" que vem levar as criancinhas que não comem a sopa. Houve uma altura em que se chamava a tudo o que não agradava "fassista", agora é "populista".
Escusado será dizer que quando chegarem os lobos populistas, e eles vão mesmo chegar, a palavra já estará gasta, metida no fundo do saco da indiferença.
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Homem bom, tolerante, atento, sensível, D. Ilídio foi uma lufada de ar fresco numa cidade e numa diocese enclausuradas demasiados anos no mundo reaccionário e ultramontano do bispo D. António Monteiro.
Para além desta oxigenação vivificadora da diocese, D. Ilídio iniciou uma mais que necessária recuperação patrimonial, muito bem sucedida na vertente dos bens culturais, não muito bem na parte imobiliária por causa da crise pós-2008.
Saneou, ainda, moralmente o Jornal da Beira. Aquele órgão de comunicação da diocese cumpre agora o seu papel, não é mais o pasquim alaranjado que era no virar do milénio.
Obrigado, D. Ilídio!

[20Julho] 
No concelho de Viseu, a omnipresença de Jorge Sobrado leva ao eclipse parcial do presidente da câmara e ao eclipse total dos outros vereadores.
Para deseclipsar a situação, António Almeida Henriques tem duas hipóteses: ou dilui Xanax nas bebidas do seu vereador da cultura ou contrata uma equipa alargada para a comunicação da câmara. Claro que a primeira hipótese não é defensável por ninguém e a segunda — que, ao que consta, está a ser cozinhada — é cara e de eficácia duvidosa.

[3 Agosto] 
Só ainda não vi em lado nenhum uma reflexão sobre o que terá levado a cúpula do bloco de esquerda a vir com teorias da cabala (olá, Sócrates!) e a atacar os media (olá,Trump!), quando os factos já conhecidos eram evidentes e facilmente verificáveis.
O que terá levado aquelas criaturas a reagirem tão toscamente? Encontro duas razões:
— por desábito: o bloco nunca foi escrutinado nos media, por isso, os seus líderes fizeram uma asneira de principiante;
— por causa da “bolha de filtros”: os políticos, depois de algum tempo, deixam de viver no mundo e passam a viver numa bolha só deles; é que os chefes gostam de viver rodeados por sacristãos, por gente que depende deles, que lhes filtra a realidade e lhes diz só o que eles gostam de ouvir.
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O Europeade foi excelente. O folclore (leia-se: tradição, costumes locais), aliado à globalização (leia-se: modernidade, ferramentas globais), fez das ruas e praças de Viseu um fascínio de diversidade, um encantamento.
Dito isto, importa saber quanto custou esta festa cosmopolita.

[10Agosto] 
Há que impedir os nossos eleitos de privatizarem a água e de a encarecerem com aumentos e aumentinhos, taxas e taxinhas. É preciso que eles peguem na energia que gastam em festas e festinhas e, literalmente, a canalizem para a modernização das redes e para o rigor na cobrança dos consumos.


[31 Agosto] 
Os nossos queridos emigrantes já regressaram às terras onde fizeram vida, a nossa classe média mais manienta chama-os aveques, eles estão-se bem nas tintas, gozaram cá as merecidas férias, para o ano regressam, abençoados sejam.

[7 Setembro] 
Quanto mais longe do mar, mais se sente o chicote implacável do princípio do utilizador-pagador, o mesmo que ergueu pórticos nas nossas auto-estradas. Sem alternativas, lá temos de atestar os nossos carros com 40% de combustível e 60% de impostos. Impostos que, depois, vão financiar transportes metropolitanos, com passes fofinhos para utilizadores-não-pagadores.

[21 Setembro] 
Em vez de fazer como Bill Murray no filme “Os Caça-Fantasmas”, o bloco de esquerda, para tentar exterminar o fantasma Robles, propôs um “adicional ao IMT”, propôs um aumento da velhinha sisa.
Isto é, se o deixassem, o bloco adicionava ainda mais estupidez ao “imposto mais estúpido do mundo”.

[28 Setembro] 
Marcelo está nos primeiros cinco anos de uma presidência de dez. Nos primeiros cinco, os presidentes só pensam na sua reeleição e fazem tudo o que os primeiros-ministros querem. Soares deixou o PM Cavaco fazer tudo, Cavaco deixou o PM Sócrates fazer tudo (até uma bancarrota), Marcelo está a deixar o PM Costa fazer tudo.
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Nos primeiros cinco anos, tem havido sempre em Belém um sacristão do primeiro-ministro e só nos segundos cinco um presidente. Para evitarmos a fase sacristã, há que constitucionalizar um mandato presidencial único de sete anos.

[6 Outubro]
Há mais vips a receberem o prémio Escolha do Consumidor do que velhinhos, em hotéis, a comprarem a prestações faqueiros, serviços de loiça e colchões ortopédicos.
No Facebook, há um vídeo patusco deste evento que decorreu numa embarcação de cruzeiros em Lisboa. Na cerimónia pingam dezenas e dezenas de prémios, alguns delirantes: “Cascais é o melhor concelho para se ter vida social”, “Sintra, o melhor para namorar”, “Portimão para fazer praia”, “Viseu para ser feliz”.
Um solitário conhece uma tia de Cascais, acende-se uma paixão ali ao lado em Sintra e, depois de um bronzeamento na praia da Rocha, vão ser felizes para sempre em Viseu.
Seja como for, o dr. Sobrado e o dr. Almeida Henriques lá subiram a bordo e tiraram uma fotografia com o faqueiro, perdão, com o prémio. Depois, fizeram-na chegar aos jornais.

[12 Outubro] 
Eclodem eucaliptos, daninhos, por tudo quanto é zona que ardeu há um ano.
O governo, sem surpresa, não quer saber. Os autarcas é mais festas e festinhas, nem para o problema da água se mobilizam.

[19 Outubro] 
Nas últimas eleições para a concelhia do PS-Viseu, não houve nenhuma ideia política nem nenhum debate entre os candidatos. Lúcia Silva socorreu-se da conversa de pé-de-orelha arregimentadora de votos e Gonçalo Ginestal confiou nos nomes sonantes da sua lista. Foi uma eleição entre o PS do cochicho e o PS das famílias, como na altura aqui escrevi. Ganhou o cochicho.

[26 Outubro] 
Quais foram os primeiros-ministros que fizeram mais mal ao país? Pois. Foram mesmo esses dois em que está a pensar.
E repare: tanto Cavaco Silva como José Sócrates foram eleitos com maiorias absolutas de que resultaram governos arrogantes, autoritários e negocistas.

[2 Novembro] 
Foram as urgências, os tribunais, a CGD, agora são os CTT. A sangria do interior não pára. Os autarcas bem a tentam anular, atrasar, bloquear, sabotar, estancar, reverter, num esforço muitas vezes inglório mas que merece todo o nosso apoio e solidariedade.

[9 Novembro] 
Precisamos de uma câmara de Viseu forte capaz de impedir que os boys socialistas da Águas de Portugal ou os capitalistas da Águas do Planalto nos imponham transvases e nos salguem as facturas mensais do precioso líquido.
Os presidentes das câmaras de Mangualde, de Penalva do Castelo e de Nelas inviabilizaram uma solução intermunicipal, com oito municípios, que nos resolvia a todos o problema sem interferências exteriores. Como não é crível que algum deles queira ser no futuro boy da Águas de Portugal, deixo aos três aqui um apelo: regressem às negociações, promovam uma solução nossa, pública, capaz de nos abastecer sem problemas nos próximos cinquenta anos. Ao trabalho?

[23 Novembro] 
Para além de meio ano de “assessoria de programação” ao vereador da cultura, o encenador Nuno Cardoso está, por estes dias, também em Viseu a fazer um evento sem especial novidade ou atenção pública. Por estes dois serviços, o futuro director artístico do Teatro Nacional S. João cobra, e muito bem, 112 mil euros ao município.
O mesmo não se poderá dizer da câmara que, ao aceitar pagar-lhos, se esquece da frugalidade que impõe, e muito bem, a outras iniciativas culturais com muitíssimo mais impacto na cidade, na região e no país.

[7 Dezembro] 
Depois do episódio em que a vereadora/deputada socialista Lúcia Silva chegou, assinou e bazou, a assembleia municipal de Viseu passou a querer disciplinar o pagamento das senhas de presença dos seus membros.
Faz bem: os deputados municipais só devem receber quando estiverem presentes no debate e votação dos pontos da ordem de trabalhos.
Já o período de antes da ordem do dia, esse looongooo bocejo de mesmice e sexo dos anjos, não deve ser obrigatório. A presença que fique a depender da maior ou menor pulsão masoquista de cada um.

[14 Dezembro] 
O politicamente correcto é uma fábrica de ressentimento que produz flores de estufa, gente sempre ofendidinha, que não pode ouvir nada. Acaba de abrir mais uma frente censórica: inventou uma putativa “linguagem anti-animal”.


[21 Dezembro] 
Os inconseguimentos da justiça no combate à corrupção são uma bomba relógio no coração da terceira república.
É necessário criminalizar o enriquecimento ilícito, meter logo na cadeia os corruptos após condenação em segunda instância, instituir a colaboração premiada para quebrar a omertá corrupta. É necessário, mas o cartel partidário não vai fazer nada disso.
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As jotas partidárias deixaram de ter interesse. Dali não sai uma ideia nova, uma proposta articulada, um sobressalto, uma chispa. Ali habita só o conformismo e a ganhuça.
Os seus dirigentes, sempre ao lado do chefe partidário de turno, ficam mais velhos e mais chatos do que ele. É gente que, com a vida tão facilitada, deixa de saber o que custa a vida. Gente que é um atraso de vida.

Limitações

Fotografia de Jeremy Bishop

Só posso te falar com as falas das falésias.
Só posso te escrever com as tintas da escritura.
Só posso te saber com as somas do ser.
Só posso te abraçar com os braços de teu mar.
Só posso te acenar com os gestos de teu lenço.
Só posso te sofrer com as flores do mistério.
Só posso te querer com as cercas da querência.
Só posso te amar com as cinzas do silêncio.
Altino Caixeta de Castro



quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

Wait for the ricochet

Fotografia Olho de Gato




Sweet child in time
You'll see the line
The line that's drawn between
Good and bad

See the blind man
Shooting at the world
Bullets flying
Mmmm taking toll

If you've been bad
Lord I bet you have
And you've not been hit
Oh by flying lead

You'd better close your eyes
Ooohhhhhhh bow your head
Wait for the ricochet





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quarta-feira, 26 de dezembro de 2018

2008*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 26 de Dezembro de 2008

1. Este ano, durante a greve dos camionistas, houve uma corrida aos combustíveis e aos supermercados. Esteve-se a milímetros do caos.

As gerações mais novas, habituadas ao “leve 3 e pague 2”, ficaram a saber o que é açambarcamento de produtos. Os cotas recordaram tempos maus.

2. Foi metido muito dinheiro debaixo dos colchões no período mais agudo da crise dos bancos. Quando, num sábado à tarde, o Multibanco avariou durante uma horas, sentiu-se um calafrio. Ups!

Bismarck disse uma vez que, para sossego social, é melhor as pessoas não saberem como são feitas as leis ou as salsichas. Pelo que se tem visto, é melhor desconhecermos também como é feita a gestão dos bancos. Até para ficarmos tão informados como Vítor Constâncio.

3. Ao longo de 2008 foi aumentando o fosso entre o que diz Maria de Lurdes Rodrigues e a realidade nas escolas. Esse fosso é já um delírio.

A avaliação de professores, de remendo em remendo, de simplex em simplex, ficou só um faz-de-conta irritante.

Muito mais grave: a avaliação dos alunos é agora uma estatística cor-de-rosa sem credibilidade.

4. Neste ano de todos os perigos viu-se bem que o governo tem quatro políticos excepcionais: José Sócrates, Pedro Silva Pereira, Teixeira dos Santos e Vieira da Silva. É graças a eles que o PS resiste nas sondagens.



5. Uma imagem especular só existe quando há algo à frente do espelho. 

Num espelho não há uma imagem. Num espelho acontece uma imagem.

Até 18 de Janeiro, na ACERT, em Tondela, há uma exposição de fotografias (e espelhos) de Alberto Plácido

Se for lá, e entrar no poliedro que está no meio da galeria, nunca mais esquece a experiência…

Dois "ele e ela"

Duas canções que o politicamente correcto tem tentado censurar

— 1 —




1944. Ele queria. Ela queria. Estava frio lá fora.

Este vídeo apresenta duas versões da história, na segunda as falas dele passam para ela, nem assim os neo-puritanos aplacarão a sua pulsão censória e, se derem conta, ainda o denunciam ao YouTube. 

Setenta e quatro anos depois, é preciso explicar o contexto todo aos neo-puritanos.

A continuarem assim, eles vão acabar por ficar em casa a aliviarem-se sozinhos, ou, então, para poderem acasalar, terão que previamente assinar declarações de permissão cheias de cláusulas em juridiquês cerrado e letrinha pequenina.

Mais detalhes aqui



— 2 —



Neste caso a estupidez dos chuis da linguagem não é menor.

O dispositivo narrativo desta canção de Natal sublime também é um diálogo entre um ele e um ela, em que, a determinada altura, se começam a insultar um ao outro:


You're a bum
You're a punk

You're an old slut on junk
Lying there almost dead on a drip in that bed

You scumbag, you maggot
You cheap lousy faggot
Happy Christmas your arse
I pray God it's our last

Duas personagens zangadas a atirarem palavras más uma à outra. 

Os chuis da linguagem não entendem que, na ficção, é normal que o mau use palavras más. 

E, acima de tudo, não percebem que o autor tem o direito à sua liberdade de expressão.


Mais detalhes aqui

terça-feira, 25 de dezembro de 2018

Natal

A Adoração dos Reis Magos, Vasco Fernandes, 1502
primeira representação de um índio brasileiro na arte ocidental


Somos a autobiografia de Deus

Quando despontarem as primeiras luzes do Seu cortejo
ainda nos faltará tudo:
o azeite na almotolia,
um alfabeto que descreva com outra firmeza o azul,
formas indivisíveis para este amor,
que só em fragmentos
e numa gramática imprecisa
conseguimos viver.

Quando despontarem as primeiras luzes
estaremos talvez longe:
à altura dos olhos continuaremos a trazer a mesma indisfarçável solidão
as mesmas mediações ilegíveis através do tempo
as mesmas demoras tatuadas.

O Seu advento encontra-nos sempre impreparados
e, contudo, este é o momento em que
por puro dom se nasce.

A Sua vinda testemunha o que não sabíamos ainda:
a nossa frágil humanidade é narração
da autobiografia de Deus.
José Tolentino Mendonça


segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Feliz Natal

... deseja este modesto estabelecimento
a todos os clientes e amigos.

Fotografia Olho de Gato

Noite de Natal

Fotografia de Craig Whitehead


Noite de Natal.
Estou bonita que é um desperdício.
Não sinto nada
Não sinto nada, mamãe
Esqueci
Menti de dia
Antigamente eu sabia escrever
Hoje beijo os pacientes na entrada e na saída
com desvelo técnico.
Freud e eu brigamos muito.
Irene no céu desmente: deixou de
trepar aos 45 anos
Entretanto sou moça
estreando um bico fino que anda feio,
pisa mais que deve,
me leva indesejável pra perto das
botas pretas
pudera





domingo, 23 de dezembro de 2018

Força

Fotografia SM


Olha o sol!
Corre uma sombra no lombo do morro.
Há pedaços de luz que já voltaram.

Tudo invade a visão:
esguicho roxo de jacarandás,
atropelo vermelho dos telhados,
verde-gaio na folhagem trémula.


Que ventinho moleque bulindo nas folhas…

Parece que o mundo nasceu de novo.
Augusto Meyer


sábado, 22 de dezembro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#222)

Ontem, o horror, o drama, o suspense, os coletes amarelos

O som que importa

Fotografia de Mag Pole

volto à cegueira a reflexão sonora
há um lugar incerto onde aconteço
vou pela areia liminar de inverno
mexendo tão somente os vocativos

atei o vento à estaca de madeira
senhor de esquinas lâminas de terra
e sonhei ser ateu e a ingratidão
descia na colina as redes de água

não vi não vejo os muros na brancura
os olhos que inventavam o aroma

só pouco a pouco afasto das palavras
o som que importa
pobre de quem ouviu e não entende
pobre quem entendeu e já não ouve
António Franco Alexandre




sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

Inverno*

Fotografia de Herb Ritts


Apagou-se a fogueira.
Que frio na lareira
Do coração!
Neva
Na solidão
Da vida.
E o vento traz e leva
Um recado de eterna despedida.

Amor! Amor!
Sei ainda o teu nome redentor,
Chamo ainda por ti a cada hora!
Arde outra vez em mim
Como ardias outrora,
Os dias de ventura.
Não me deixes assim
Nesta algidez de morte prematura.
Miguel Torga



* Reedição

Jovens velhos*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Os inconseguimentos da justiça no combate à corrupção são uma bomba relógio no coração da terceira república.

É necessário criminalizar o enriquecimento ilícito, meter logo na cadeia os corruptos após condenação em segunda instância, instituir a colaboração premiada para quebrar a omertá corrupta. É necessário, mas o cartel partidário não vai fazer nada disso.

Depois de terem corrido com Joana Marques Vidal, os partidos passaram à fase seguinte: querem domesticar a PGR. Começaram por tentar o controlo político do conselho superior do ministério público, só que, perante a reacção pública, o PS fez um recuo táctico e deixou Rui Rio a fazer o papel de “idiota útil”. Mas ambos vão voltar à carga.

2. A nova líder da JS, em 28 meses de assessorias, recebeu 110 mil euros da câmara de Lisboa. Foram 3928 euros por mês. Quase sete salários mínimos.


Editada a partir de uma fotografia de João Porfírio
 (daqui)
Perante isto, o poderoso Pedro Nuno Santos lembrou, em pleno congresso jotinha, que “a avença que a Maria Begonha recebe não a distingue de nenhum outro assessor das dezenas de assessores” da câmara da capital.

E isso é verdade. É mesmo aquela a tabela dos 124 boys e girls ao “serviço” dos dezassete vereadores alfacinhas. Para se perceber a dimensão desta cadeia alimentar, refira-se que os avençados de um só vereador com pelouro, num mandato, custam 1,3 milhões de euros. E todos os partidos têm lá Begonhas a facturar desta maneira.

3. Os congressos jotas quando não são um bocejo são uma anedota. O último da JS que elegeu Maria Begonha conseguiu ser as duas coisas ao mesmo tempo.

As jotas partidárias deixaram de ter interesse. Dali não sai uma ideia nova, uma proposta articulada, um sobressalto, uma chispa. Ali habita só o conformismo e a ganhuça.

Os seus dirigentes, sempre ao lado do chefe partidário de turno, ficam mais velhos e mais chatos do que ele. É gente que, com a vida tão facilitada, deixa de saber o que custa a vida. Gente que é um atraso de vida.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

Heranças

Fotografia Olho de Gato




abandonará a casa
teu pai
com olhos de rico
bolso de pobre
como todo aquele que
pressentindo-a
lhe toma o lugar

quando o dia findar
perseguirás o caminho mais longo
sabê-lo-ás pendente
do ramo mais forte
da penúltima árvore

a última deixá-la-á para ti
Ana Paula inácio



quarta-feira, 19 de dezembro de 2018

Schadenfreude*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 19 de Dezembro de 2008


1. Schadenfreude é uma palavra alemã sem equivalente em português. Schadenfreude não é a mesma coisa que inveja, embora haja quem confunda.


Daqui

Schadenfreude é a felicidade perante a infelicidade alheia. Inveja é a infelicidade perante a felicidade alheia.


Todos os governos usam a schadenfreude, especialmente em tempos de vacas magras. Quando os tempos são de tirar e não de dar, os governos escolhem alvos específicos. Começam por bater nos privilégios reais ou imaginários do grupo A, e a maioria fica toda contente. Depois dão uma sova nos privilégios reais ou imaginários do grupo B, e a maioria sorri, e o grupo A junta-se a esse contentamento. Depois é a vez do grupo C, do D, e por aí fora…


A schadenfreude floresce com facilidade. Não há muito tempo, viu-se em Portugal um ataque aos “privilégios” dos “deficientes privilegiados”. Até isso pegou.


2. Quando se passa da fase do tirar para a fase do dar, a schadenfreude cede o seu lugar à inveja.


Os nossos banqueiros são muito invejados. Depois de passarem anos a arredondarem-nos os juros para cima, preparam-se agora para nos porem os cofres públicos para baixo.


O tratamento prestado ao Banco Privado Português, o banco dos ricos, causou inveja. Muita inveja. Um dia o BPP não causava risco sistémico e era só um problema de meia dúzia de milionários. No dia seguinte, o mesmo banco custava 450 milhões de euros em avales públicos.

As pessoas ficaram infelizes com a felicidade do sr. Rendeiro, do sr. Saviotti, do sr. Balsemão e do sr. Júdice.

A schadenfreude bate mais nos de baixo e, por isso, é boa para os governos.

A inveja bate mais nos de cima e, por isso, é má para os governos.


No dossier BPP é melhor Sócrates pôr as barbas de molho…

Deixa o tempo fazer o resto

Fotografia de Elijah O'Donnell


deixa o tempo fazer o resto
fechar janelas
aplacar os barcos
recolher os víveres
semear a sorte
acender o fogo
esperar a ceia

abre as portas: lê a luz
a sombra, a arte do passarinheiro

com três paus
fazes uma canoa
com quatro tens um verso,
deixa o tempo fazer o resto.
Ana Paula Inácio



terça-feira, 18 de dezembro de 2018

Conto de nada

Fotografia de Christal Yuen


Munida de balas,
broas e advertências,
encaminha-se retilínea
à casa da avó.

A capa
é blindada contra a chuva
e à prova de maiores belezas.

Está avisada
dos perigos das margaridas
e sem arranhões
ela chega encapotada,
encapuzada
e ilesa.

Sem sombra de lobo.

Sequer o relance de um cão.
Isabela Sancho











segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Se me abraçares

Fotografia de Bobby Rodriguezz



Se partires, não me abraces — a falésia que se encosta
uma vez ao ombro do mar quer ser barco para sempre
e sonha com viagens na pele salgada das ondas.

Quando me abraças, pulsa nas minhas veias a convulsão
das marés e uma canção desprende-se da espiral dos búzios;
mas o meu sorriso tem o tamanho do medo de te perder,
porque o ar que respiras junto de mim é como um vento
a corrigir a rota do navio. Se partires, não me abraces —

o teu perfume preso à minha roupa é um lento veneno
nos dias sem ninguém — longe de ti, o corpo não faz
senão enumerar as próprias feridas (como a falésia conta
as embarcações perdidas nos gritos do mar); e o rosto
espia os espelhos à espera de que a dor desapareça.
Se me abraçares, não partas.
Maria do Rosário Pedreira






domingo, 16 de dezembro de 2018

O menos possível

Fotografia de Guilherme Stecanella

Respirar
o menos possível
nestas cidades
de uma tristeza
sem idade
abrindo o espaço
com os gestos lentos de um náufrago
a caminho
do fundo

A noite sobe-me
na voz
como um lugar
capaz de imaginar
sozinho
o seu cenário
onde o azul
dorme
numa cave
com os cães
Ernesto Sampaio




sábado, 15 de dezembro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#221)

Overtone singing is a voice technique where it seems like one person sings two notes at the same time. 

You can sing the overtone scale on one fundamental. 

Another fundamental has its own overtone scale, so in order to have more overtones to sing nice melodies, you can use different fundamentals and change them while singing.