quarta-feira, 31 de outubro de 2018

Desobras*

* No Jornal do Centro ha exactamente dez anos, em 31 de Outubro de 2008


1. Na Expotec, um robô jogava o jogo do galo com o público. Não sei se jogava bem se jogava mal. Quando passei lá, estava uma pessoa a carregar nos botões e ele respondia com uns braços articulados enormes.



Era um robô excessivo, grande demais, a gastar energia demais, num jogo burro. O jogo do galo, bem jogado, dá sempre empate. É um jogo burro.

Ao ver aquilo, lembrei-me do filme “War Games” (1983), em que o sistema informático do Pentágono toma o freio nos dentes e se prepara para começar uma guerra nuclear. Há um relógio em contagem decrescente para o fim do mundo. Ninguém o consegue parar.

Então, o herói põe a máquina a jogar o jogo do galo. Empata. O computador procura mais recursos. Empata outra vez. Mais energia. Novo empate. Mais energia e mais capacidade de processamento. Empates, mais empates. O sistema concentra-se cada vez mais no jogo do galo. Ziliões de empates em cada segundo. Até que a máquina percebe e diz: “Jogo engraçado: a única maneira de ganhar é não jogar!” E, então, pára a contagem decrescente para o apocalipse. Uffff…




2. Foi numa edição do Público que conheci as ideias de poupança e frugalidade do arquitecto Jean-Philippe Vassal.

Uma das suas coroas de glória é a resposta que o seu atelier deu, em 1996, a uma encomenda da câmara de Bordéus para o embelezamento de uma praça. Quando foram estudar o local, viram uma praça bonita, onde as pessoas se sentiam bem. Em consequência, decidiram não mexer no que estava bem. O projecto que apresentaram à câmara foi não fazer projecto. Em vez de uma obra, fizeram uma desobra.

3. “Envelhecem virgens” tantas casas novas! Não há quem as compre. Estão prontas. Foram obras. Já não podem ser desobras. Quanto tempo vão ficar elas a ganharem teias de aranha?

Piano

Fotografia de Leonie Wise


Softly, in the dusk, a woman is singing to me;
Taking me back down the vista of years, till I see
A child sitting under the piano, in the boom of the tingling strings
And pressing the small, poised feet of a mother who smiles as she sings.

In spite of myself, the insidious mastery of song
Betrays me back, till the heart of me weeps to belong
To the old Sunday evenings at home, with winter outside
And hymns in the cozy parlor, the tinkling piano our guide.

So now it is vain for the singer to burst into clamor
With the great black piano appassionato. The glamor
Of childish days is upon me, my manhood is cast
Down in the flood of remembrance, I weep like a child for the past.
D. H. Lawrence



terça-feira, 30 de outubro de 2018

Em Lixboa sobre lo mar

Caravela Boa Esperança —  daqui


Em Lixboa sobre lo mar
barcas novas mandei lavrar,
          ay mia senhor velida!

Em Lisboa sobre lo lez
barcas novas mandei fazer,
          ay mia senhor velida!

Barcas novas mandei lavrar
e no mar as mandei deitar,
          ay mia senhor velida!

Barcas novas mandei fazer
e no mar as mandei meter,
          ay mia senhor velida!
João Zorro


segunda-feira, 29 de outubro de 2018

The end

The end, Jim Morrison


This is the end
Beautiful friend
This is the end
My only friend, the end
Of our elaborate plans, the end
Of everything that stands, the end
No safety or surprise, the end
I’ll never look into your eyes…again
Can you picture what will be
So limitless and free
Desperately in need…of some…stranger’s hand
In a…desperate land

Lost in a Roman…wilderness of pain
And all the children are insane
All the children are insane
Waiting for the summer rain, yeah

There’s danger on the edge of town
Ride the King’s highway, baby
Weird scenes inside the gold mine
Ride the highway west, baby

Ride the snake, ride the snake
To the lake, the ancient lake, baby
The snake is long, seven miles
Ride the snake…he’s old, and his skin is cold

The west is the best
The west is the best
Get here, and we’ll do the rest

The blue bus is callin’ us
The blue bus is callin’ us
Driver, where you taken’ us

The killer awoke before dawn, he put his boots on
He took a face from the ancient gallery
And he walked on down the hall
He went into the room where his sister lived, and…then he
Paid a visit to his brother, and then he
He walked on down the hall, and
And he came to a door…and he looked inside
Father, yes son, I want to kill you
Mother…I want to…fuck you

C’mon baby, take a chance with us
C’mon baby, take a chance with us
C’mon baby, take a chance with us
And meet me at the back of the blue bus
Doin’ a blue rock
On a blue bus
Doin’ a blue rock
C’mon, yeah

Kill, kill, kill, kill, kill, kill

This is the end
Beautiful friend
This is the end
My only friend, the end

This is the end
Beautiful friend
This is the end
My only friend, the end of our elaborate plans, the end
Of everything that stands, the end
No safety or surprise, the end
I’ll never look into your eyes…again
Can you picture what will be
So limitless and free
Desperately in need…of some…stranger’s hand
In a…desperate land

Lost in a Roman…wilderness of pain
And all the children are insane
All the children are insane
Waiting for the summer rain, yeah

There’s danger on the edge of town
Ride the King’s highway, baby
Weird scenes inside the gold mine
Ride the highway west, baby

Ride the snake, ride the snake
To the lake, the ancient lake, baby
The snake is long, seven miles
Ride the snake…he’s old, and his skin is cold

The west is the best
The west is the best
Get here, and we’ll do the rest

The blue bus is callin’ us
The blue bus is callin’ us
Driver, where you taken’ us

The killer awoke before dawn, he put his boots on
He took a face from the ancient gallery
And he walked on down the hall
He went into the room where his sister lived, and…then he
Paid a visit to his brother, and then he
He walked on down the hall, and
And he came to a door…and he looked inside
Father, yes son, I want to kill you
Mother…I want to…fuck you

C’mon baby, take a chance with us
C’mon baby, take a chance with us
C’mon baby, take a chance with us
And meet me at the back of the blue bus
Doin’ a blue rock
On a blue bus
Doin’ a blue rock
C’mon, yeah

Kill, kill, kill, kill, kill, kill

This is the end
Beautiful friend
This is the end
My only friend, the end

It hurts to set you free
But you’ll never follow me
The end of laughter and soft lies
The end of nights we tried to die

This is the end

Jim Morrison










domingo, 28 de outubro de 2018

Fulfillment

Fotografia de Averie Woodard


For this my mother wrapped me warm,
And called me home against the storm,
And coaxed my infant nights to quiet,
And gave me roughage in my diet,
And tucked me in my bed at eight,
And clipped my hair, and marked my weight,
And watched me as I sat and stood:
That I might grow to womanhood
To hear a whistle and drop my wits
And break my heart to clattering bits.
Dorothy Parker


sábado, 27 de outubro de 2018

Quase de nada místico

Fotografia de Daniil Kuželev

Não, não deve ser nada este pulsar
de dentro: só um lento desejo
de dançar. E nem deve ter grande
significado este vapor dourado,

e invisível a olhares alheios:
só um pólen a meio, como de abelha
à espera de voar. E não é com certeza
relevante este brilhante aqui:

poeira de diamante que encontrei
pelo verso e por acaso, poema
muito breve e muito raso,
que (aproveitando) trago para ti.
Ana Luísa Amaral






sexta-feira, 26 de outubro de 2018

Maioria absoluta*

* Hoje no Jornal do Centro


1. No início desta semana, Joana Marques Vidal foi agraciada com a Grã-Cruz da Ordem de Cristo. Numa fotografia oficial da cerimónia, ...

Daqui
... vêem-se Ferro Rodrigues, Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa com um sorriso de plástico e a ex-PGR com a cara fechada.

O dossier político mais importante deste ano foi fechado assim, com esta rotina institucional tristonha e envergonhada, que decorreu longe dos olhares da comunicação social.

2. Vamos agora a 2019. No próximo ano só vai haver um assunto político - a maioria absoluta do PS. Os socialistas vão fazer tudo para a obter, os outros partidos vão fazer tudo para a evitar.

E, valha a verdade, sendo a maioria absoluta difícil de alcançar, ela não é impossível. É que, quando o segundo partido fica muito longe do primeiro, o método de Hondt pode dar a maioria ao vencedor com uma votação à volta de 42/43%.

Façamos um parêntesis. E se acontece, como em 1999, um empate com 115 deputados da situação e 115 da oposição? Pois, já devia haver um número ímpar de deputados para evitar isso, mas os políticos comem muito queijo limiano. Fim de parêntesis.

Pelas razões explicadas acima, quanto maior a inacção e falta de estratégia de Rui Rio, maior a probabilidade de acontecer uma maioria absoluta socialista.

O principal obstáculo é o descontentamento dos professores. Estando em causa valores orçamentais equivalentes, Costa preferiu tratar bem o IVA dos donos dos restaurantes e tratar mal o tempo de serviço dos professores. Isso vai ter custos eleitorais.

Termino com uma pergunta: quais foram os primeiros-ministros que fizeram mais mal ao país? Pois. Foram mesmo esses dois em que está a pensar.

E repare: tanto Cavaco Silva como José Sócrates foram eleitos com maiorias absolutas de que resultaram governos arrogantes, autoritários e negocistas.

Poema kitsch

Fotografia de Hadis Safari



Tu és o meu veneno e o meu vício
uma forma de estar fora de mim
sem ti o que era espera faz-se ofício
a vontade de te ter noite sem fim
esse tu não estares um breve indício
de flores morrendo no jardim.

Há um sítio em mim por habitar
casa para sempre em construção
há traves altos andaimes pelo ar
estaleiro abandonado junto ao chão
onde antes se julgava que era o mar
não há vagas nem marés nem barcos vão.

Se a hora de chegares fica esquecida
não mais posso esperar tua presença
o que antes era corpo tornou ferida
tudo o mais reduto de indiferença
pois onde agora a sombra estava a vida
onde antes a luz a noite imensa.
Bernardo Pinto de Almeida



quinta-feira, 25 de outubro de 2018

Quando o coração petrifica

Fotografia de Rian Adi


Ó jovem, considera a secura
dos trágicos que se perdem em facécias. Não esqueças
que não existe alguma vez progresso
quando o coração petrifica. É
preciso que toda a ciência se
ordene à semelhança dum fruto que
se dependure na ponta de uma árvore
de carne e que amadureça
ao sol da paixão,
histologia, fotografia, campainha
eléctrica, telescópios, pássaros,
amperes, ferro de passar,
etc. – Tudo isto é para deslumbrar a porra da hu-
manidade.

O teu rosto é tão diferente
tão comovente molhado de
lágrimas e pronto a rebentar
de riso.
Blaise Cendrars
Trad.: Ruy Belo


quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Sons*

* No Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 24 de Outubro de 2008


1. Circula na net uma reportagem televisiva que anuncia um ministro “apanhado” pelos microfones. É uma maldade que a TVI fez em Bruxelas ao ministro Rui Pereira.

Vê-se um plano rápido de uma loura e, logo a seguir, ouve-se Rui Pereira a sussurrar um comentário para o lado acerca duma “rapariga toda giraça”. Depois, Rui Pereira lembra-se onde está, tem um pressentimento, e diz: “com os microfones direccionais, uma pessoa tem que ter cuidado com estas conversas”.


Este “jornalismo” de emboscada faz mais mal à imagem da TVI que ao ministro. Rui Pereira mostrou que é humano o que só abona em seu favor.

2. Assisti na televisão, no início do Suécia - Portugal, ao momento sempre solene do hino. A câmara foi focando, um a um, os futebolistas portugueses a cantarem o “heróis do mar”. Quando um era focado, ouvia-se a sua voz. Uma desgraça! Os nossos “egrégios avós” devem ter dado voltas nos túmulos com tamanha desafinação!

3. Quando assistimos à actuação de um coro ao vivo e sem amplificação, ouvimos o resultado sinérgico de todas as vozes e, ao mesmo tempo, conseguimos distinguir perfeitamente a voz de um cantor ou de uma cantora bastando, para isso, fixar o olhar naquele ou naquela cuja voz desejamos ouvir mais individualizada.

Nenhum sistema electrónico de som é capaz de reproduzir isto. Nem o surround mais sofisticado consegue reproduzir com exactidão a espacialidade do som.

4. O universo fascinante do som é muito bem documentado em Soundwalkers, da viseense Raquel Castro que pode “ouver” na net. O filme acha-se facilmente com o Google. É uma meia hora muito interessante.



SoundWalkers - Raquel Castro - leg pt from Educa pela Arte on Vimeo.

Egoísmo

Fotografia de Calvin Lupiya



Eu,
estudar apenas
o sentido estético da tarde.

Nem grandes sentimentos,
rolando
em alinhamentos compactos
das reminiscências
dos factos, ou não.

Nunca atitudes suspensas,
vindas de conhecimentos
vastos,
da grande multidão das coisas
com sequência.

Nada.

Apenas eu, estudando
através do gozo de estar ao sol
numa cadeira vermelha
já velha,
o sentido estético da tarde.
Glória de Sant'Anna



terça-feira, 23 de outubro de 2018

Ode à maneira de Horácio

Fotografia de Nofi Sofyan Hadi


Feliz aquela que efabulou o romance
Depois de o ter vivido
A que lavrou a terra e construiu a casa
Mas fiel ao canto estridente das sereias
Amou a errância o caçador e a caçada
E sob o fulgor da noite constelada
À beira da tenda partilhou o vinho e a vida.
Sofia de Mello Breyner Andresen


segunda-feira, 22 de outubro de 2018

Não foi preciso muito

Fotografia de Josh Edgoose


Não foi preciso muito para que a cidade
começasse a tomar o veneno do milho
e fechasse tudo. A Palmeira, o Estádio,
a Barateira, até os grandes candidatos
à última cadeira ficaram por sua conta.
Lisboa é uma azinhaga tristíssima.

Talvez queiram acabar com a música
as doenças tropicais, os sonhadores.
Fechá-los no foyer servir-lhes faisão
e orquídeas negras, preveni-los de que
no sopé da lixeira haverá sempre lugar
para mais uma mantinha.

Que dias estes em que o amor passou
para um tempo que não mexe.
Vida em troca de indícios
de que apenas depois percebemos
a dimensão furiosa do vazio.

Grandes clássicos da vida para quem acha
que por ter lido a Rayuela foi ao cu ao profeta.

Homem, se tiveres sorte saberás
que nunca foi preciso namorar Platão
para saber que o cocheiro vai louco e num só pé.

É importante esta narrativa agigantada de referências
para que tudo feche literalmente com o porteiro da discoteca.

E que não sejamos menos aqui, que ninguém nos ouve,
contra o jogo de não termos conseguido melhor:

I want to fuck everyone in the world
I want to do something that matters

Ficas a dever-me uma.
Raquel Nobre Guerra


domingo, 21 de outubro de 2018

A stone

Fotografia de Alex J. Reyes


Long ago, I was wounded.
I learned
to exist, in reaction,
out of touch
with the world: I’ll tell you
what I meant to be —
a device that listened.
Not inert: still.
A piece of wood. A stone.
Louise Glück


sábado, 20 de outubro de 2018

Uma coisa que me põe triste

Fotografia de Alexander Andrews


Uma coisa que me põe triste
é que não exista o que não existe.
(Se é que não existe, e isto é que existe!)
Há tantas coisas bonitas que não há:
coisas que não há, gente que não há,
bichos que já houve e já não há,
livros por ler, coisas por ver,
feitos desfeitos, outros feitos por fazer,
pessoas tão boas ainda por nascer
e outras que morreram há tanto tempo!
Tantas lembranças de que não me lembro,
sítios que não sei, invenções que não invento,
gente de vidro e de vento, países por achar,
paisagens, plantas, jardins de ar,
tudo o que eu nem posso imaginar
porque se o imaginasse já existia
embora num sítio onde só eu ia...
Manuel António Pina

sexta-feira, 19 de outubro de 2018

Cochichos*

* Hoje no Jornal do Centro



1. Os partidos vivem de dinheiros públicos, mas são pouco escrutinados. Os media raramente abordam o seu funcionamento e o Tribunal Constitucional deixa prescrever tudo. As leis regulatórias dos partidos têm que ser aprovadas por eles na assembleia da república e, por artes mágicas e azares diversos, atrasam, atrasam, atrasam...

Esses "atrasos", neste Verão, fizeram prescrever multas a todos os partidos e aos seus responsáveis financeiros. Mais uma vez, impunidade total. A todos eles.

A lógica partidária separa o "cá dentro" do "lá fora", para que o "fora" não saiba nada do "dentro". Quem não cumprir esta regra é marginalizado. Esta "omertá" convém aos nano-chefes locais que tratam dos tachitos e serve aos macro-chefes nacionais que controlam os melhores lugares e gerem, na base do ajuste directo, muitos milhões de euros recebidos do orçamento do estado.


Imagem daqui
2. Nas últimas eleições para a concelhia do PS-Viseu, não houve nenhuma ideia política nem nenhum debate entre os candidatos. Lúcia Silva socorreu-se da conversa de pé-de-orelha arregimentadora de votos e Gonçalo Ginestal confiou nos nomes sonantes da sua lista. Foi uma eleição entre o PS do cochicho e o PS das famílias, como na altura aqui escrevi. Ganhou o cochicho.

Agora, por causa da convocatória de uma comissão política com duração de meia hora, uns "socialistas indignados", sob anonimato, vieram queixar-se a este jornal do "autoritarismo" da facção do cochicho. Que havia "assuntos internos algo delicados" que, se "tratados à porta aberta", lhes retirava a "liberdade de expressão suficiente para se manifestarem".

Depois das eleições e das queixas-crime no ministério público, há finalmente sintonia total na concelhia de Viseu. O PS das famílias está igual ao PS do cochicho: zero ideias, um muro alto a esconder o "dentro" do "fora", cochichos para os militantes e para os jornais, ninguém a dar a cara.

António Almeida Henriques agradece.


A romã

Fotografia de Yerlin Matu

Tirei os bagos, um a um,
de dentro da romã. Juntei-os
no prato do poema, e construí com eles
a tua imagem para que
a pudesse morder como se ama,
até ouvir o teu riso perguntar-me: «Que
fazes?», enquanto libertavas
os seios de dentro
da camisa, para que a luz os mordesse
como se morde a romã.
Nuno Júdice




quinta-feira, 18 de outubro de 2018

(I Can't Get No) Satisfaction

Daqui

I can't get no satisfaction, I can't get no satisfaction
'Cause I try and I try and I try and I try
I can't get no, I can't get no
When I'm drivin' in my car, and the man come on the radio
He's tellin' me more and more about some useless information
Supposed to fire my imagination
I can't get no, oh, no, no, no, hey, hey, hey
That's what I say
I can't get no satisfaction, I can't get no satisfaction
'Cause I try and I try and I try and I try
I can't get no, I can't get no
When I'm watchin' my tv and a man comes on and tell me
How white my shirts can be
But, he can't be a man 'cause he doesn't smoke
The same cigarettes as me
I can't get no, oh, no, no, no, hey, hey, hey
That's what I say
I can't get no satisfaction, I can't get girl reaction
'Cause I…




























quarta-feira, 17 de outubro de 2018

Compasso 331*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 17 de Outubro de 2008 

     
1. No prefácio do seu livro Bem-vindo ao Deserto do Real, Slavoj Žižek chama a atenção para o compasso 331 do último andamento da nona sinfonia de Beethoven. No que é o hino oficioso da União Europeia há um antes e um depois do compasso 331. 


    
Cito Žižek: “depois de ter escutado o tema da alegria nas suas três variações orquestrais e vocais, acontece algo inesperado” e “tudo se degrada e não mais voltamos a encontrar a dignidade simples e solene”.
     
Nesta perspectiva, no compasso 331 do Hino à Alegria há um ponto de viragem mau.

     
2. Portugal também teve o seu compasso 331. Há um antes e um depois do dia 4 de Março de 2001, o dia em que caiu a ponte de Entre-os-Rios. 
Desde esse dia estamos a marcar passo.




O blogue Blasfémias fez as contas: de 2001 a 2007, Portugal cresceu em média 1,1% ao ano. No mesmo período de tempo, Espanha cresceu 3,4% ao ano; a Polónia 4; a Grécia 4,3; a República Checa 4,9. Os países bálticos cresceram quase a 10% ao ano.
     
Vamos no sétimo ano seguido de subida de impostos e de empobrecimento da classe média e dos funcionários públicos. O resultado não é bom: desde 2001, já fomos ultrapassados pela Eslovénia e pela República Checa. Este ano a Eslováquia e a Estónia já ligaram o pisca e vão-nos passar. A Polónia aproxima-se.
     
Com o dinheiro fácil dos fundos comunitários o país ficou menos frugal e mais corrupto. A última história de ganhuça que aparece nos media serve só para fazer esquecer a penúltima. Nunca acontece nada. É justo dizer que têm aparecido políticos influentes a quererem lutar contra a corrupção mas acabam por se ir embora. Perante o polvo, acabam por desistir. Os últimos foram João Cravinho e Marques Mendes.

Dou-me mal com o que sou mas não mudo

Fotografia de Robert Anasch


Os stôres queixam-se da minha letra:
estes gráficos do coração
às vezes nem eu próprio entendo.

Os joelhos quase não me cabem debaixo
da carteira velha,
o tampo entalhado de pesadelos.

As mãos começam a não caber nos bolsos
e quando as abro espero e não sei
muito bem o que fazer com elas.

Rapei completamente o cabelo no inverno.
E se no verão as botas não me caem dos pés
é porque calço seis pares de meias.

Volto da escola pelo trilho mais longo
a falar alto e a fazer heroísmos.
Deito-me às escuras com a tv ligada.

No canto espreita um espião: o olho verde
da aparelhagem. E no hálito do chamon
derreto a última pastilha elástica.

Estas olheiras logo de manhã
são aquilo que os meus pais mais censuram.
Mas doente como estou, já nem me dizem.

Fechado à chave na casa de banho
sem respeito pelos outros
morro longamente várias vezes por dia.
Rogério Rôla


terça-feira, 16 de outubro de 2018

I don't want to love you

Fotografia de Drew Hays


cause I know you could possess my body
I know you can make me scrawl
I know you can have me shaking
I know you could have me climbing the walls
thats why I don't want to love you
cause I know how you are









segunda-feira, 15 de outubro de 2018

História do meu boneco

Fotografia de Gérard Castello-Lopes

Cresceu comigo
neste espaço que se diz português
e neste tempo (histórico)

Maricas (era de esperar)
mas rebelde como um felino
ninguém se lhe pôs inteiro
ficou sempre um bocadinho
porque rangia a dentadura.

Depois de 45
afundou-se na continuidade
farfalhou o bigode, à guarda nacional antigo
e esperto como um corisco
instalou-se então, decidido

à mesa do orçamento.
Pedro Oom







domingo, 14 de outubro de 2018

Ay ondas que eu vin veer

Fotografia de Richard Lee



Ay ondas que eu vin veer,
se mi saberedes dizer
porque tarda meu amigo sen mi!

Ay ondas que eu vin mirar,
se mi saberedes contar
porque tarda meu amigo sen mi!
Martim Codax



sábado, 13 de outubro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#215)

O amado odor do corpo

Fotografia de Krista Mangulsone



O sono das manhãs
me encadeia os joelhos
me cinge a fronte
com suas vendas de seda

Então sem que eu te chame
penetras nos meus sonhos
e, eu vencida, me afagas
com mãos violadoras

Em plena luz do dia
a vertigem me cega
e na escuridão do sonho
trémula me transporta
Alla Romano
Trad.: Geraldo Holanda Cavalcanti



sexta-feira, 12 de outubro de 2018

Classe média*

* Hoje no Jornal do Centro


1. O World Data Lab, dirigido por Kristofer Hamel, está há anos a aperfeiçoar a caracterização de quatro grupos sociais — pobres, vulneráveis, classe média, ricos — usando bases de dados de 188 países.

Hamel e Homi Kharas acabam de publicar o estudo “Um ponto de inflexão global: metade do mundo é agora da classe média ou rica”, cujos resultados não devem admirar os leitores habituais desta coluna. Bastas vezes tenho feito notar aqui que as narrativas dos media e das nossas universidades sobre a globalização não descrevem o que está a acontecer no mundo.

A verdade é que “pela primeira vez desde que começou a civilização baseada na agricultura, há dez mil anos, a maioria da humanidade já não é pobre nem está em risco de cair na pobreza.” Três mil e oitocentos milhões de pessoas vivem em casas de classe média ou rica e um número ligeiramente inferior em casas pobres ou vulneráveis à pobreza.

E este processo está a ser rápido: “no mundo de hoje, há uma pessoa a escapar da pobreza extrema em cada segundo, enquanto, no mesmo segundo, cinco pessoas entram na classe média. Os ricos estão a aumentar também, mas a um ritmo menor (um em cada dois segundos).”

Campeão de bilheteiras este ano, não vai estrear em Portugal 

 A nova classe média é, sem surpresa, predominantemente asiática (nove em cada dez) e, a continuar esta tendência, este grupo vai ter 4 mil milhões daqui a dois anos e 5,3 mil milhões em 2030.

Ora, como se sabe, a classe média é sempre um sarilho para os governos: onde está a crescer exige mais infra-estruturas e serviços do estado, onde está a recuar protesta e vota anti-sistema. Aconteceu no último domingo no Brasil.



2. Eclodem eucaliptos por tudo quanto é terreno ardido há um ano.

O governo, claro, não quer saber. Os autarcas é mais festas e festinhas. Nem para o problema da água se mobilizam. Temos água com fartura nos nossos rios mas os boys socialistas da Águas de Portugal e os capitalistas da Águas do Planalto vão mexendo os cordelinhos. Para depois nos vampirarem nas contas mensais.

Perda

Fotografia de Gabriel Nunes



Da primeira vez que me quebraram
toda
dobrei os joelhos,
caí sem joelhos,
me dobrei toda sobre
o vazio dos braços.
Os ossos tiritavam,
a cabeça estalava
um sino:
toda um estaleiro
sem navios,
só pavios de viagem,
toda uma estalagem
bêbada de sombras
e sinas,
não sabia mais
quantas primaveras
fazem um cisne,
não sabia
beber a não ser
com as mãos em cuia,
eu era um pires
com a cara redonda
que os gatos lamberam
e fugiram,
um piano com febre
em desarticulação nervosa,
uma pátina derretida,
uma patavina
atarantada
com os caracóis da poeira
sumida no horizonte.
Elisabeth Veiga



quinta-feira, 11 de outubro de 2018

A uma trança de cabelos negros

Fotografia de Mike Fox



Diversa em cor, igual em bizarria
Sois, bela trança, ao lustre Sofala,
Luto por negra, por vistosa gala,
Nas cores noite, na beleza dia.

Negra, porém de amor na monarquia
reinas senhora, não servis vassala;
Sombra, mas toda a luz não vos iguala;
Tristeza, mas venceis toda a alegria.
Tudo sois, mas eu tenho resoluto
Que sois só na aparência enganadora
Negra, noite, tristeza, sombra, luto.

Porém na essência, ó doce matadora,
Quem não dirá que sois, e não diz muito,
Dia, gala, alegria, luz, senhora?
Frei Jerónimo Baía




quarta-feira, 10 de outubro de 2018

Inflação*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 10 de Outubro de 2008



A inflação é o mais injusto dos impostos porque corrói o rendimento dos mais pobres e dos mais fracos. Quando se transforma em hiperinflação, então, é uma tragédia social. Essa tragédia aconteceu na Alemanha depois da I Guerra Mundial, tendo sido uma das causas que levou ao nazismo e a Adolf Hitler.

O que aconteceu é muito bem contado em “O Obelisco Negro”, um divertido livro de Erich Maria Remarque que conta as aventuras de uns cangalheiros durante a República de Weimar.


Entre Janeiro de 1922 e Dezembro de 1923, os preços aumentaram mil milhões de vezes. A cavalgada dos preços era de tal forma que até a “cotação” de uma refeição num restaurante não parava quieta. Era conveniente comer depressa. Quanto mais se demorava, mais a conta final podia ser multiplicada por cem ou por mil.

Havia uma pausa nesta desgraça: a subida dos preços parava nos fins-de-semana porque a bolsa estava fechava.

Na crise actual acontece algo parecido. Ao fim-de-semana, a cotação do petróleo e das outras commodities não inquieta. Ao fim-de-semana, o Dow Jones e a Euribor estão parados. Ao fim-de-semana, não precisamos de ter medo do subprime nem dos ainda mais tóxicos credit default swaps.

Os bancos centrais têm injectado doses obscenas de dinheiro no sistema bancário. Como se sabe, mais massa monetária significa mais inflação.

O cidadão alemão comum não gosta do euro e ainda tem saudades do velho marco. Não surpreende, portanto, que Angela Merkel ligue pouco ao que diz o sr. Sarkozy. A chanceler alemã prefere verificar se o sr. Trichet no BCE mantém o euro forte e a inflação controlada.

Como é a Alemanha que paga a “Europa”, tenhamos alguma esperança.

terça-feira, 9 de outubro de 2018

Perscrutação

Fotografia Olho de Gato



não me canso de dizer que cada coisa
pode ser o contrário do que é.

quando digo que cada coisa pode ser
o contrário do que é, sei perfeitamen
te o que digo e é isso que quero di
zer e não o contrário, embora o contr
ário também esteja certo, porque cada
coisa também pode ser o que é.

a função das coisas é ser aquilo
que se quer que elas sejam.
Alberto Pimenta



segunda-feira, 8 de outubro de 2018

É uma tarde de outono a pique

Fotografia Olho de Gato



é uma tarde de outono a pique
a luz vertida do inverno
na ladeira fria
onde o gato se espraia
no despojos fúnebres
um róseo vítreo de celofane murcho
como as flores que o menino descalço pisa
os pés carregados de chagas
os pés vermelhos de lume
Ana Paula Inácio