domingo, 12 de julho de 2020

Amendoins

Fotografia de Krisztina Papp

 
Não sou capaz. Bem tento que ele venha, 
o tal olhar diagonal das coisas, 
mas as pessoas surgem
-me tão sérias, 
tão capazes nos seus discernimentos. 
À minha frente agora, por exemplo, 
um grupo com cerveja e amendoins. 
Se fosse um tempo antes, conseguia 
fazer de amendoins um qualquer tema, 
descascar um poema devagar 
feito de amendoins, cerveja e gente. 
Mas tudo me parece tão normal 
e os amendoins coisas sensatas 
[apanhados do prato vorazmente, 
entre gestos nervosos e correntes 
conversas baloiçadas]
Ana Luísa Amaral

sábado, 11 de julho de 2020

Por um fio*

* Hoje no Jornal do Centro
Podcast no Rádio Jornal do Centro aqui


A maneira como comunicamos uns com os outros está cada vez mais nómada, mais instantânea, mais inescapável.

Há quinze anos, 99% dos mails só podiam ser enviados ou lidos nos computadores de casa ou do trabalho. Agora é como se sabe: tratamos de assuntos por WhatsApp, por Messenger, por Telegram, por Zoom, por um nunca acabar de canais e apps diferentes, a todas as horas e em todos os lugares.


Daqui
Há quinze anos, ainda havia telefones agarrados por um fio a uma parede. Agora não.
Isto é bom, isto é mau. Depende. Isto dá mais liberdade, isto dá menos liberdade. Depende.

É bom porque trazemos no bolso a omnisciência do sr. Google, é mau porque o nosso chefe pode contactar-nos a qualquer hora.

Dá mais liberdade porque não precisamos de estar perto da parede que tem o fio do telefone. Dá menos liberdade porque o cônjuge e o colega-melga começam todos os telefonemas com um "onde tás?"

Enfim, as coisas são como são. Está um calor de ananases, é verão em ano da peste. Albufeira em vez de ingleses bêbedos tem púberes holandeses desconsolados por não terem a chave que abre as discotecas.

É verão em ano da peste e o dr. Sobrado, em Viseu, prepara uns cubos mágicos, uns micro-eventos no valor de meio milhão de euros, num programa de verão "alternativo & seguro & safe & clean", a que só se terá acesso por "pré-reserva digital".

Se pudesse, S. Mateus ia comer umas enguias e umas farturas no cubo mágico aprazado para o seu dia, 21 de Setembro. Mas, como ele é de um século em que tudo era analógico, não vai conseguir fazer a dita "pré-reserva digital". Mais uma vez, o dr. Sobrado vai conseguir expulsar o pobre santo da feira com o seu nome.

Regressemos à descomunicação do tempo dos telefones agarrados à parede. Reza a lenda que, em 1995, quando António Guterres estava a formar o seu primeiro governo queria convidar António Reis para ministro da cultura. Foram dias de tentativas frustradas para o telefone agarrado por um fio à parede daquele fundador do PS. Quando já não era possível esperar mais, Guterres entrou em plano B e, por sorte, Manuel Maria Carrilho estava em casa.

Amar

Fotografia de Sharon McCutcheon


Amar não deve ser desfortuna.
O cio transfunde
a lagartixa e o homem
na criação tenaz.
E o buxo, o pólen
e as primeiras folhas
da vinha virgem. Amor
não tem quaresma,
nela impetuoso regressa e copula.
António Osório


sexta-feira, 10 de julho de 2020

Não é o coração

Fotografia de Bruno Kelzer 

Não é o coração
mas esta carne
em seu rumor.

Não é o coração
mas teu silêncio
de intenso furor.

Não é o coração
mas as mãos
sem corpo, vazias.
Na grave melodia
de um instante
tu e eu
em desequilíbrio
na infame
consistência
de um absoluto
obstáculo.
Ana Marques Gastão



quinta-feira, 9 de julho de 2020

Padeira de Aljubarrota *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 9 de Julho de 2010

1. No caso PT/Telefónica todos os políticos fizeram de “padeira de Aljubarrota”, de Portas a Louçã, passando por Cavaco. Até o “liberal” Passos Coelho tartamudeou um “nim” a medo.

Mas afaste-se a espuma política e olhe-se para o assunto.

Fotografia daqui
Zeinal Bava não se cansou de dizer: o mercado brasileiro representa 72% dos clientes da PT, 45% das suas receitas e 40% dos lucros. Ora, como explica o blogue The Portuguese Economy, esses números querem dizer duas coisas:
i) são os clientes domésticos da PT (28%) que geram 55% das receitas e 60% dos lucros da empresa;
ii) são, portanto, os clientes portugueses que estão a financiar a expansão da PT no Brasil.

Para os clientes da PT não era mau que os espanhóis levassem a Vivo. Podiam levar até o sr. Rui Pedro Soares de brinde.

É o filme do costume: o estado exerce o seu direito de pernada na PT. Isso dá prazer aos boys. Mas só a eles.

2. Segundo os jornais, o PS e o PSD andam a congeminar uma política de “discriminação positiva” para as SCUT. Uma “discriminação positiva” que, evidentemente, depois há-de ser anulada no PEC de 2013 ou de 2014. Para já, entretém as tropas.

Depois de terem andado a dormir e terem deixado passar os “chispes das matrículas” e os pórticos de portagens electrónicas, os políticos locais engoliram também este anzol. Até já fazem conferências de imprensa a dizer que “a minha ‘discriminação positiva’ é melhor que a tua”.

Ora tudo isto é um engodo e - muito pior – é um insulto. Nós não somos índios nem devemos deixar que nos tratem como tal. O que pagar um minhoto, ou um alentejano, ou um espanhol deve ser o que nós pagamos.

Para começo de conversa, devia ser dito com firmeza ao governo: só aceitamos portagens na A25 quando nos devolverem o IP5, a excelente alternativa que a A25 nos tirou.

Escrever foi um engano

Fotografia de Coral Ouellette


Escrever foi um engano
a mulher que me deu mais prazer
perdi-a um dia.

às vezes via a sua magreza
através da elegância das saias.

eu conhecia os relicários dos santos
os seus ossos distribuídos por
gavetas de prata
e sabia que um relógio
cria no cão pequeno
a ilusão do bater do coração da mãe.

o que eu beijava nessa mulher
era a sua respiração
o ar da sua santidade
que lhe impulsionava as ancas.

e ao seu lado eu dormia
como um cão enrolado
ouvindo o bater do coração.
Carlos Saraiva Pinto

quarta-feira, 8 de julho de 2020

Te empeñas en llegar hasta el final


Te empeñas en llegar hasta el final,
en exhumar ausencias, noches rotas,
mientras te va emergiendo
de yo no sé qué abismo de la mente
un iceberg de dudas que intentas derretir.
Y al amarnos, pues insistes en eso,
todas nuestras caricias se deforman.
El cuerpo es una jungla
tan poderosamente enmarañada
que nada hay más difícil que encontrarnos.
Nunca estamos tan solos como ahora.
Pero el dolor, que es sabio, nos engaña.
Alejandro Céspedes


terça-feira, 7 de julho de 2020

Wild Geese, de e por Mary Oliver — Gansos selvagens (versões de Ana Luísa Amaral e Jorge Sousa Braga)




You do not have to be good.
You do not have to walk on your knees
For a hundred miles through the desert, repenting.
You only have to let the soft animal of your body
love what it loves.
Tell me about your despair, yours, and I will tell you mine.
Meanwhile the world goes on.
Meanwhile the sun and the clear pebbles of the rain
are moving across the landscapes,
over the prairies and the deep trees,
the mountains and the rivers.
Meanwhile the wild geese, high in the clean blue air,
are heading home again.
Whoever you are, no matter how lonely,
the world offers itself to your imagination,
calls to you like the wild geese, harsh and exciting --
over and over announcing your place
in the family of things.
Mary Oliver





Ana Luísa Amaral e Luís Caetano conversam sobre 
Wild Geese / Gansos Selvagens aqui


Não precisas de ser bom.
Não tens de percorrer o deserto de joelhos, cem milhas do deserto, em penitência.
Basta-te deixar que o suave animal do teu corpo ame aquilo que ama.
Diz-me do desespero, o teu, e eu digo-te do meu desespero.
Entretanto o mundo continua.
Entretanto o sol e os seixos límpidos da chuva
movem-se ao longo de paisagens
por sobre as pradarias e as árvores cerradas,
as montanhas e os rios.
Entretanto os gansos selvagens, lá em cima no ar azul e limpo,
regressam a casa.
Quem quer que sejas, não importa quão sozinho te sintas
o mundo abre-se à tua imaginação,
chama-te como os gansos selvagens, ásperos, wxcitados —
anunciando o teu lugar várias vezes, repetidamente,
na família das coisas.
Mary Oliver
Trad.: Ana Luísa Amaral


---------

Não tens que ser bom.
Não tens que caminhar ajoelhado
durante quilómetros através do deserto, em sinal de arrependimento.
Só tens que deixar o afável animal do teu corpo amar aquilo que ama.
Fala-me do teu desespero e eu falar-te-ei do meu.
Entretanto o mundo não pára.
Entretanto o sol e os seixos transparentes da chuva
movem-se através da paisagem
sobre as pradarias e as árvores mais altas,
as montanhas e os rios.
Entretanto os gansos selvagens, lá no alto do céu de um límpido azul,
dirigem-se para casa de novo.
Quem quer que tu sejas, por mais solitário que estejas,
o mundo oferece-se à tua imaginação,
chama-te como os gansos selvagens, duma forma áspera e emocionante —
repetidamente anunciando o teu lugar
na família das coisas.
Mary Oliver
Trad.: Jorge Sousa Braga


segunda-feira, 6 de julho de 2020

O único amigo

Fotografia de Gabe Hobbs


Não me alcançarás, amigo.
Chegarás ansioso, louco.
Eu, porém, já terei ido.

(E que espantoso vazio
Tudo o que tenhas deixado
Atrás para vir comigo!
Que lamentável abismo
Tudo quanto eu haja posto
Em meio, sem culpa, amigo!)

Ficar não podes, amigo.
Voltarei talvez ao mundo.
Tu, porém, já terás ido.
Juan Ramón Jiménez
Trad.: Manuel Bandeira



domingo, 5 de julho de 2020

Testamento

Fotografia de Bill Wegener


À prostituta mais nova
Do bairro mais velho e escuro,
Deixo os meus brincos, lavrados
Em cristal, límpido e puro...

E àquela virgem esquecida
Rapariga sem ternura,
Sonhando algures uma lenda,
Deixo o meu vestido branco,
O meu vestido de noiva,
Todo tecido de renda...

Este meu rosário antigo
Ofereço-o àquele amigo
Que não acredita em Deus...

E os livros, rosários meus
Das contas de outro sofrer,
São para os homens humildes,
Que nunca souberam ler.
Quanto aos meus poemas loucos,
Esses, que são de dor
Sincera e desordenada...

Esses, que são de esperança,
Desesperada mas firme,
Deixo-os a ti, meu amor...

Para que, na paz da hora,
Em que a minha alma venha
Beijar de longe os teus olhos,
Vás por essa noite fora...

Com passos feitos de lua,
Oferecê-los às crianças
Que encontrares em cada rua...
Alda Lara


sábado, 4 de julho de 2020

Discursos de ódio*

* Hoje no online do Jornal do Centro
Podcast aqui

A ministra de estado Mariana Vieira da Silva disse esta semana, no parlamento, que estava "em vias" (sic) de abrir um concurso público para "monitorizar" (sic) a internet à procura de "discursos de ódio".

Imagem daqui

A ministra está com o coração cheio de ódio ao "discurso de ódio" e quer "perceber aspectos como a forma de propagação deste discurso nas plataformas 'online', as mensagens que contém, identificar autores, monitorizar processos de queixas, entre outros aspectos." 

Em resumo, ela quer classificar conteúdos: uns bons, uns maus, uns assim-assim. Os que os seus "monitores", lá no critério deles, qualificarem como odientos vão ser perseguidos.  

Quem tem estado atento à pulsão censória do identitarismo não estranha este caminho. Este ataque à liberdade de expressão evoluiu do clássico "o-que-tu-dizes-ofende-me" (e muita gente de bem, para evitar chatices, pediu desculpa) para "o-que-tu-dizes-ofende-me-portanto-cala-te" (e muita gente de bem, para evitar chatices, calou-se). Agora os chuis da linguagem, no poder ou com influência no poder, subiram a parada e ameaçam: "o-que-tu-dizes-ofende-me-cala-te-ou-és-castigado".

Enfim. Alguma dessa malta politicamente correcta vai ganhar agora uns bons euritos com a ministra Mariana Vieira da Silva e produzir uns "barómetros" (sic) da treta que hão-de dar umas manchetes nos media e as indignações do costume nas redes sociais. Enquanto tivermos um primeiro-ministro democrata e respeitador do estado de direito como António Costa não virá daí grande mal ao mundo.

Problemas a sério para a liberdade de expressão só surgirão quando tivermos no poder um primeiro-ministro autoritário. Quando isso acontecer, estes "monitores da internet" da ministra Mariana Vieira da Silva, ou outros censores como eles, vão perseguir quem escreva textos desfavoráveis ao governo de turno alegando que os mesmos são "discursos de ódio".

Sozinho com todo mundo

Fotografia de Note Thanun


a carne cobre os ossos
e colocam uma mente
ali dentro e
algumas vezes uma alma,
e as mulheres quebram
vasos contra as paredes
e os homem bebem
demais
e ninguém encontra o
par ideal
mas seguem na
procura
rastejando para dentro e para fora
dos leitos.
a carne cobre
os ossos e a
carne busca
muito mais do que mera
carne.

de facto, não há qualquer
chance:
estamos todos presos
a um destino
singular.

ninguém nunca encontra
o par ideal.

as lixeiras da cidade se completam
os ferros-velhos se completam
os hospícios se completam
as sepulturas se completam

nada mais
se completa.
Charles Bukowski
Trad.: Pedro Gonzaga

sexta-feira, 3 de julho de 2020

Pequeños acidentes caseros


Fotografia de Chris Bair

Me  hice un tajo en un dedo cuando cocinaba.
Luego me despellejé otro dedo al abrir una botella.
Hoy me he raspado la pierna con el pico de la mesita.
Así que me he puesto seria:
he reunido en asamblea a todos los objetos de mi casa
y les he dicho que ya sé
que me muero de la pena,
que tengo el corazón en carne viva,
que ya sé
que no soy más que una herida que sangra tristeza,
que hasta respirar me duele porque él no me ama
como le amo yo;
en fin: que no hace ninguna falta, les he dicho,
que me lo recuerden también ellos
cada día.
Berna Wang


quinta-feira, 2 de julho de 2020

Breathe





Breathe, breathe in the air.
Don't be afraid to care.
Leave, but don't leave me.
Look around, and choose your own ground.

For long you live and high you fly,
And smiles you'll give and tears you'll cry,
All you touch and all you see,
Is all your life will ever be.

Run, rabbit run.
Dig that hole, forget the sun,
And when at last the work is done,
Don't sit down, it's time to dig another one.

For long you live and high you fly,
But only if you ride the tide,
And balanced on the biggest wave,
You race towards an early grave.



Little Brothers *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 2 de Julho de 2010

Portagens em que não se possa pagar nem em dinheiro nem por cartão inquietam. É o estado Big Brother, mas são também os Little Brothers, os espreitas sempre prontos a meterem o nariz na vida alheia.

Dos vários casos problemáticos que me contaram, descrevo dois:

1. O sr. António trabalha para uma grande empresa. O carro de trabalho é seu e a “via verde” debita na sua conta bancária. 

Durante o trabalho, passa nas portagens manuais para receber o talão, talão que depois apresenta na contabilidade da empresa.
Como é que o sr. António vai poder documentar a despesa nas portagens electrónicas? Pede os talões às cegonhas poisadas nos pórticos? Manda a conta ao secretário de estado Paulo Campos e ao seu ex-assessor?

2. O sr. Belmiro é chefe de departamento numa empresa industrial. Tem carro da empresa atribuído, com “via verde” em nome da empresa. Aos fins-de-semana o sr. Belmiro, que é uma pessoa escrupulosa, vai à portagem manual para ser ele a pagar o uso particular do carro.

O sr. Belmiro está com dois problemas e não sabe qual deles é o pior:
- como pagar as portagens electrónicas do seu bolso já que a “via verde” debita na conta da empresa?
- como evitar que o seus administradores, uns Little Brothers metediços, saibam por onde ele anda aos fins-de-semana?


Título do Diário de Viseu de 25 de Junho: “Presidente da Câmara de Viseu quer turistas a pagar SCUT”.

Eis as exactas palavras de Fernando Ruas: "Eu nunca achei bem que um alemão venha pelo seu país, chegue à França pague portagens, chegue a Espanha pague portagens e depois vem a Portugal e entra aqui e nada."

Que pensarão destas palavras os homólogos do dr. Ruas de Ciudad Rodrigo, de Salamanca e de Ávila? É que eles são servidos por excelentes “Autovias” onde ninguém paga. Ninguém paga. Nem os turistas viseenses que passam por lá.


quarta-feira, 1 de julho de 2020

terça-feira, 30 de junho de 2020

Sonho de menina



A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?

Sonho
risonho:

O vento sozinho
no seu carrinho.

De que tamanho
seria o rebanho?

A vizinha
apanha
a sombrinha
de teia de aranha...

Na lua há um ninho
de passarinho.

A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?
Cecília Meireles


segunda-feira, 29 de junho de 2020

Je bois

Fotografia de Mario Gogh

Je bois systématiquement
Pour oublier les amis de ma femme
Je bois systématiquement
Pour oublier tous mes emmerdements
Je bois n'importe quel jaja
Pourvu qu'il fasse ses douze degrés cinq
Je bois la pire des vinasses
C'est dégueulasse mais ça fait passer l'temps
La vie est-elle tellement marrante
La vie est-elle tellement vivante
Je pose ces deux questions
La vie vaut-elle d'être vécue
L'amour vaut-il qu'on soit cocu
Je pose ces deux questions
Auxquelles personne ne répond
Et je bois systématiquement
Pour oublier le prochain jour du terme
Je bois systématiquement
Pour oublier que je n'ai plus vingt ans
Je bois sans y prendre plaisir
Pour être saoul
Pour ne plus voir ma gueule
Je bois dès que j'ai des loisirs
Pour pas me dire qu'il faudrait en finir.
Boris Vian








domingo, 28 de junho de 2020

Queria que me acompanhasses

Fotografia Olho de Gato

Queria que me acompanhasses
vida fora
como uma vela
que me descobrisse o mundo
mas situo-me no lado incerto
onde bate o vento
e só te posso ensinar
nomes de árvores
cujo fruto se colhe numa próxima estação
por onde os comboios estendem
silvos aflitos
Ana Paula Inácio



sábado, 27 de junho de 2020

Matrioscas de caras*

* Hoje no Jornal do Centro
Vídeo e podcast aqui

A paisagem humana mudou. Já não é carnaval, mas ninguém leva a mal por ainda andarmos mascarados. Toda a gente agora precisa de máscara e temos de aprender a reconhecermo-nos uns aos outros só através dos olhos.

No mercado dos afectos, uns olhos bonitos agora fazem toda a diferença. O nariz, o desenho da boca, os dentes, já não são tão importantes. Há um meme que circula nas redes sociais que explica muito bem este “novo normal”. É um casal de namorados num banco de jardim; ele para ela: «mostra-me o nariz»; ela para ele: «só depois de casarmos».

As máscaras são um mercado imenso. Vão dar muito dinheiro. O bicho corono conseguiu aquilo que os barbudos aiatolas nunca conseguiram. Chusmas de empreendedoristas (como se diz em economês), resmas de trafulhas, nuvens de criativos, está tudo na corrida para nos tapar a cara.

A designer Danielle Baskin, de San Francisco, criou uma linha de máscaras N95 em que se pode imprimir o nariz, a boca e o queixo do proprietário. É à vontade do freguês. Esta máscara é uma cara sobre a cara. Se se fizer uma com cara a rir, e outra com cara séria, podemos alterná-las conforme o estado de espírito. Ou pôr uma sobre a outra, uma matriosca de caras. Espero ter explicado a ideia. 

Se pusesse aqui um gif da Danielle a tirar a cara da Danielle de cima da cara da Danielle, era mais fácil e este parágrafo ficava bem mais pequeno.

Daqui

Ao ver esta história lembrei-me da bancarrota da Argentina de 2001. Em 30 de Novembro daquele ano, o ministro da economia Domingo Cavallo decretou o corralito que congelou as contas bancárias. As pessoas ficaram sem acesso ao seu dinheiro. Em fúria, milhares e milhares de argentinos vieram para as ruas com uma máscara do odiado ministro e a baterem em panelas — o carecolazo -, uma tradição da política latino-americana. Houve tiros. Mortes. Pilhagens. Caos.

A 19 de Dezembro teve que ser declarado o estado de sítio. A multidão mascarada e de caçarolas na mão cercou a casa de Cavallo. Reza a lenda que o ministro só conseguiu escapulir-se pelo meio daquela turba porque levava posta uma das populares máscaras de si próprio.
Daqui

"And Now For Something Completely Different" (#266)

Is an audiovisual essay that aims to compare the poetry of both Mirror and Persona films, made by Tarkovsky and Bergman

This project was edited by Beatriz Sousa and Magda Silva


L'érotisme

Fotografia de Alexander Krivitskiy


Ce qui est en jeu, dans l'érotisme, c'est toujours une dissolution des formes constituées.
Georges Bataille


sexta-feira, 26 de junho de 2020

Uma farsa metafísica


Em 1960, no pátio de entrada do Museum of Modern Art de Nova York, Jean Tinguely incendiou a sua complexa e muito alta 'Homenagem a Nova York'. A construção metálica desabou num clarão enorme («um relâmpago desce do ar»). Seguir-se-iam outras peças «auto-destrutivas». (...)

A peça «auto-destrutiva» é uma farsa metafísica concebida segundo a reiteração de uma lógica milenar. Só a auto-destruição pode validar actos de renovação libertos das ilusões da permanência, da vanglória do desafio à morte. (...)

No seu suicídio jubilatório, a peça «auto-destrutiva» desarma a morte mais que o pode fazer qualquer ode à imortalidade. E o último a rir é deveras o melhor.
George Steiner, in GRAMÁTICAS DA CRIAÇÃO





quinta-feira, 25 de junho de 2020

Ao menos isso *

*Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 25 de Junho de 2010


1. Era o dia 27 de Junho de 1960. Passavam poucos minutos das sete da tarde quando, na estação de Amara em San Sebastian, se ouviu um grande estrondo e uma língua de fogo atingiu Begoña Urroz Ibarrola, uma menina de 22 meses.

No próximo domingo o primeiro atentado da ETA faz 50 anos e chora-se a sua primeira vítima - uma menina de 22 meses.

Em Setembro de 2000, o ex-ministro de Felipe Gonzalez, Ernest Luch, chamou ao assassínio da pequena Begoña: “indigno inicio en el pecado original de ETA”. Menos de dois meses depois, um comando etarra matou-o na garagem da sua casa em Barcelona.
A ETA - sabe-se agora - tem bases em Portugal.

2. Tivemos três aumentos de impostos em oito anos: em 2002, 2005 e 2010. Quem ainda tem trabalho já vai ver este mês o seu salário amputado. Em Julho aumenta o IVA.

Como se sabe, aumentar impostos é deprimir a economia. Estes sucessivos massacres fiscais fizeram de Portugal o caranguejo dos rankings da “Europa”. Até Malta já nos apanhou e vai-nos ultrapassar.

E dinheiro tem havido. Diz um relatório da UE sobre o impacto dos fundos comunitários na última década: "Portugal foi o país que mais verbas recebeu em peso no PIB e mais beneficiou desses fundos. Mas foi o país que menos cresceu e onde as disparidades regionais aumentaram mais."

Portugal acaba de dar sete a zero à Coreia do Norte. As pessoas estão felizes. Receio que esta felicidade seja de pouca dura.
É que um povo feliz é aquele que tem um governo pequeno e moderado nos impostos. E nós não temos tido nem uma coisa nem outra.


Cavalhada de Vildemoinhos, 2008

Fotografia Olho de Gato
3. Nesta altura do ano de dias grandes e luminosos e de noites pequenas e dionisíacas, em Viseu admira-se a força da gente de Vildemoinhos e aspira-se o aroma das tílias do Rossio.

Isso é bom e isso - ao menos isso - ainda não paga imposto.

Entrelinhas





Já que se há-de escrever, que ao menos não se esmaguem com palavras as entrelinhas.
Clarice Lispector




quarta-feira, 24 de junho de 2020

Lamento della Ninfa

Fotografia de Edwin Andrade


Part I: 
Non havea Febo ancora
Non havea Febo ancora
recato al mondo il dì
ch'una donzella fuora
del proprio albergo uscì.

Sul pallidetto volto
scorgease il suo dolor,
spesso gli venia sciolto
un gran sospir dal cor.

Sì calpestando fiori,
errava hor qua, hor là,
i suoi perduti amori
così piangendo va:

Part II: 
Amor, dicea 
"Amor," dicea, il ciel
mirando il piè fermò
"dove, dov'è la fé
che 'l traditor giurò?

Fa che ritorni il mio
amor com'ei pur fu,
o tu m'ancidi, ch'io
non mi tormenti più."

Miserella, ah più no,
tanto gel soffrir non può.

"Non vo' più ch'ei sospiri
se non lontan da me,
no, no, che i suoi martiri
più non dirammi, affé!

Perché di lui mi struggo
tutt'orgoglioso sta,
che sì, che sì se 'l fuggo
ancor mi pregherà?

Se ciglio ha più sereno
colei che 'l mio non è,
già non rinchiude in seno
Amor si bella fé.

Né mai si dolci baci
da quella bocca havrai,
né più soavi; ah, taci,
taci, che troppo il sai."


Part III: 
Si, tra sdegnosi pianti
Sì tra sdegnosi pianti
spargea le voci al ciel;
così ne' cori amanti
mesce Amor fiamma e gel.
Claudio Monteverdi
Detalhes e traduções para 
outras línguas aqui



terça-feira, 23 de junho de 2020

O death, rock me asleep

Tower of London  where, according to legend, in the year 1536, Anne Boleyn wrote the poem 
“O Death, rock me asleep” on the eve of her execution 
(fotografia daqui)

Death, rock me asleep,
Bring me to quiet rest,
Let pass my weary guiltless ghost
Out of my careful breast.
Toll on, thou passing bell;
Ring out my doleful knell;
Let thy sound my death tell.
Death doth draw nigh;
There is no remedy.

My pains who can express?
Alas, they are so strong;
My dolour will not suffer strength
My life for to prolong.
Toll on, thou passing bell;
Ring out my doleful knell;
Let thy sound my death tell.
Death doth draw nigh;
There is no remedy.

Alone in prison strong
I wait my destiny.
Woe worth this cruel hap that I
Should taste this misery!
Toll on, thou passing bell;
Ring out my doleful knell;
Let thy sound my death tell.
Death doth draw nigh;
There is no remedy.

Farewell, my pleasures past,
Welcome, my present pain!
I feel my torments so increase
That life cannot remain.
Cease now, thou passing bell;
Rung is my doleful knell;
For the sound my death doth tell.
Death doth draw nigh;
There is no remedy.



segunda-feira, 22 de junho de 2020

Love

Fotografia de Elijah Macleod


Love is anterior to Life,
Posterior to death,
Initial to creation, and
The exponent of breath.
Emily Dickinson


domingo, 21 de junho de 2020

É tão grande o Alentejo





No Alentejo eu trabalho
cultivando a dura terra
vou fumando o meu cigarro
vou cumprindo o meu horário
lá na encosta da serra

É tão grande o Alentejo
tanta terra abandonada
a terra é que dá o pão
para bem desta nação
devia ser cultivada

Tem sido sempre esquecido
à margem ao sul do Tejo
há gente desempregada
tanta terra abandonada
é tão grande o Alentejo

Trabalha homem trabalha
se queres ter o teu valor
os calos são os anéis
os calos são os anéis
do homem trabalhador

é tão grande o Alentejo
tanta terra abandonada
a terra é que dá o pão
para bem desta nação
devia ser cultivada

tem sido sempre esquecido
à margem ao sul do Tejo
há gente desempregada
tanta terra abandonada
é tão grande o Alentejo