* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 13 de Novembro de 2009
1. Isabel Alçada, a nova Ministra da Educação, vai tentar compor o mal que o marilurdismo causou nas escolas. Está a começar pelo mais urgente e menos difícil - o estatuto e a avaliação dos professores.
Depois virá o tempo para dar atenção ao mais árduo e importante nas nossas escolas que não são os professores mas sim os alunos e os conteúdos que eles têm que aprender. Repito porque sei que isto irrita o eduquês que manda na “educação”: o essencial são os alunos e os conteúdos que eles têm que aprender.
Vai ser necessária uma terapia rigorosa. O resultado é muito incerto. Fizeram-se muitas asneiras. Nas escolas, como muito bem sintetizou António Barreto no Público, o marilurdismo causou um “desastre ecológico”.
Os quadros políticos do PS ligados à educação podiam e deviam ter tido mais coluna vertebral. Deviam ter pensado mais no interesse público e menos nas suas carreiras.
Da parte que me toca, estou de consciência tranquila.
Desejo boa sorte a Isabel Alçada.
2. Em 1992, Karl Popper deu uma conferência em Lisboa a convite de Mário Soares, onde defendeu a personalização dos votos.
Cito Popper: “E se as opiniões dos homens merecem sempre o maior respeito, os partidos políticos, enquanto instrumentos típicos de promoção pessoal e de poder, com todas as possibilidades de intriga que isso implica, não podem de forma alguma ser identificados com opiniões.”
Depois do que aconteceu nos últimos 17 anos, talvez agora se perceba melhor esta tese de Popper. De facto, as pessoas têm opiniões, os partidos não.
As opiniões de Maria de Lurdes Rodrigues sobre a escola eram uma desgraça mas tiveram muita gente atrás delas. Oxalá essa mesma gente vá agora atrás de opiniões boas.
Oxalá, agora, haja ideias boas.
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quarta-feira, 13 de novembro de 2019
sexta-feira, 8 de novembro de 2019
Mudar a estratégia*
* Hoje no Jornal do Centro
1. António Almeida Henriques (AAH) já gastou metade dos dias que poderá ter como presidente da câmara de Viseu. Tomou posse no dia 22 de Outubro de 2013. Acaba de fazer seis anos à frente da maior câmara do distrito, faltam-lhe outros tantos.
É claro que, para atingir a dúzia de anos, AAH tem que vencer as eleições de 2021, tarefa que não se afigura difícil: a sua provável adversária socialista, a líder concelhia Lúcia Silva, além de não ter nenhuma ideia política sobre o que quer que seja, faz tudo para mostrar serviço ao governo de Lisboa de quem depende, mas não mostra igual empenho a mostrar serviço aos viseenses. Isso é fatal para os socialistas e um descanso para o PSD.
2. O país não andou para a frente com a Expo 98 e o Euro 2004, muito pelo contrário. Estratégias de desenvolvimento assentes em eventos são um fiasco.
Infelizmente, o sucessor de Fernando Ruas viu neste atalho “eventoal” um, cito, “papel estratégico na promoção do desenvolvimento local e regional”. Derreteu uns largos milhões de euros com minorias privilegiadas, em festas e festinhas borliantes, encadeadas umas nas outras, ainda por cima sem nenhuma ideia global nem nada distintivo para elas. Um falhanço.
Ao fim de seis anos, não sobrou nada. Obra física nova, usável por todos, não há. Em seis anos, novo no concelho, com potencial para servir todos os munícipes, só os autocarros amarelos da MUV. A cidade e o concelho estão mais sujos, mais barulhentos, mais degradados. O município está a descer nos rankings, as contas a entrar no vermelho — em 2018 houve um prejuízo superior a 3,5 milhões de euros.
António Almeida Henriques, mude de estratégia, a que adoptou nos seus primeiros seis anos não é boa. Seja frugal, responda ao básico: impostos moderados, eficácia nos fundos comunitários, ruas limpas, lixo recolhido a tempo e horas, ecopontos lavados com regularidade, bairros e aldeias dignificados, iluminação, segurança, empregos, empregos, empregos.
1. António Almeida Henriques (AAH) já gastou metade dos dias que poderá ter como presidente da câmara de Viseu. Tomou posse no dia 22 de Outubro de 2013. Acaba de fazer seis anos à frente da maior câmara do distrito, faltam-lhe outros tantos.
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| Editada a partir de uma fotografia do Jornal do Centro |
2. O país não andou para a frente com a Expo 98 e o Euro 2004, muito pelo contrário. Estratégias de desenvolvimento assentes em eventos são um fiasco.
Infelizmente, o sucessor de Fernando Ruas viu neste atalho “eventoal” um, cito, “papel estratégico na promoção do desenvolvimento local e regional”. Derreteu uns largos milhões de euros com minorias privilegiadas, em festas e festinhas borliantes, encadeadas umas nas outras, ainda por cima sem nenhuma ideia global nem nada distintivo para elas. Um falhanço.
Ao fim de seis anos, não sobrou nada. Obra física nova, usável por todos, não há. Em seis anos, novo no concelho, com potencial para servir todos os munícipes, só os autocarros amarelos da MUV. A cidade e o concelho estão mais sujos, mais barulhentos, mais degradados. O município está a descer nos rankings, as contas a entrar no vermelho — em 2018 houve um prejuízo superior a 3,5 milhões de euros.
António Almeida Henriques, mude de estratégia, a que adoptou nos seus primeiros seis anos não é boa. Seja frugal, responda ao básico: impostos moderados, eficácia nos fundos comunitários, ruas limpas, lixo recolhido a tempo e horas, ecopontos lavados com regularidade, bairros e aldeias dignificados, iluminação, segurança, empregos, empregos, empregos.
sexta-feira, 25 de outubro de 2019
Tintol & Traçadinho*
* Hoje no Jornal do Centro
1. António Costa acabou com parentelas no governo. Espera-se igual escrúpulo na restante cadeia alimentar. Incluindo na nomeação de boys e girls de Viseu.
Em Março e Abril, o caso das famílias no governo português foi tratado na comunicação social global. Escreveu o Politico: “o mundo talvez já se tenha habituado a Ivanka e Jared na Casa Branca mas os laços familiares estão a causar comoção na política portuguesa (...) o governo conta agora com um casal e um par pai-filha, provocando alegações de nepotismo (...)”. Esta sobredose marido-mulher-pai-filha num conselho de ministros foi tratada pela Bloomberg, pelo El Pais, pela Reuters, foi notícia em todo o lado, e foi um desastre reputacional que António Costa agora não quer repetir.
Quanto às pessoas em causa: Vieira da Silva fez bem em ter ido embora, a sua filha Mariana parece ter a energia que já ia faltando ao velho lobo socialista.
Já a opção pelo ministro Cabrita é incompreensível. Ana Paula Vitorino é competente, o marido é uma espécie de gola inflamável numa aldeia insegura.
2. Os viseenses João Paulo Rebelo e Rosa Monteiro continuam nas secretarias de estado que já tutelavam.
Na Juventude e Desporto, João Paulo Rebelo vai ter os mesmos problemas e o mesmo contexto político dos últimos anos.
Já na Cidadania e Igualdade, Rosa Monteiro vai estar no meio de um vulcão. Em matéria de biopolítica, o panorama mudou à direita e à esquerda. Para além do Chega!, tanto o CDS como o PSD estão muito mais combativos nestas matérias, como se viu na reacção à lei da identidade de género nas escolas. E, à esquerda, o Bloco tem agora um concorrente, o Livre, a necessitar de fazer prova de vida no mercado do tribalismo identitário.
3. A página de humor deste jornal decidiu brincar comigo e “atribuir-me” o “prémio Pacheco Pereira” por estar sempre a malhar no meu partido. Para a minha felicidade ser maior, o prémio foi-me “entregue” pela admirável Ana Gomes.
1. António Costa acabou com parentelas no governo. Espera-se igual escrúpulo na restante cadeia alimentar. Incluindo na nomeação de boys e girls de Viseu.
Em Março e Abril, o caso das famílias no governo português foi tratado na comunicação social global. Escreveu o Politico: “o mundo talvez já se tenha habituado a Ivanka e Jared na Casa Branca mas os laços familiares estão a causar comoção na política portuguesa (...) o governo conta agora com um casal e um par pai-filha, provocando alegações de nepotismo (...)”. Esta sobredose marido-mulher-pai-filha num conselho de ministros foi tratada pela Bloomberg, pelo El Pais, pela Reuters, foi notícia em todo o lado, e foi um desastre reputacional que António Costa agora não quer repetir.
Quanto às pessoas em causa: Vieira da Silva fez bem em ter ido embora, a sua filha Mariana parece ter a energia que já ia faltando ao velho lobo socialista.
Já a opção pelo ministro Cabrita é incompreensível. Ana Paula Vitorino é competente, o marido é uma espécie de gola inflamável numa aldeia insegura.
2. Os viseenses João Paulo Rebelo e Rosa Monteiro continuam nas secretarias de estado que já tutelavam.
Na Juventude e Desporto, João Paulo Rebelo vai ter os mesmos problemas e o mesmo contexto político dos últimos anos.
Já na Cidadania e Igualdade, Rosa Monteiro vai estar no meio de um vulcão. Em matéria de biopolítica, o panorama mudou à direita e à esquerda. Para além do Chega!, tanto o CDS como o PSD estão muito mais combativos nestas matérias, como se viu na reacção à lei da identidade de género nas escolas. E, à esquerda, o Bloco tem agora um concorrente, o Livre, a necessitar de fazer prova de vida no mercado do tribalismo identitário.
3. A página de humor deste jornal decidiu brincar comigo e “atribuir-me” o “prémio Pacheco Pereira” por estar sempre a malhar no meu partido. Para a minha felicidade ser maior, o prémio foi-me “entregue” pela admirável Ana Gomes.
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| Muito obrigado, Tintol & Traçadinho! |
sexta-feira, 11 de outubro de 2019
Os três émes*
* Hoje no Jornal do Centro
Moisés Naím, no seu livro “O fim do poder”, descreve as três revoluções que estão a a acontecer à frente dos nossos olhos:
— a revolução do mais (“que se caracteriza por aumentos em tudo” - número de países, populações, níveis de vida, literacia, produtos no mercado, …);
— a revolução da mobilidade (pessoas, bens, dinheiro, ideias, valores, a “movimentarem-se de forma nunca antes vista por todo o planeta”); e
— a revolução da mentalidade (o “mais” e a “mobilidade” causam “grandes mudanças nas mentalidades, expectativas e aspirações” das pessoas).
Na nossa política, estes três émes “revolucionários” receberam um impulso muito grande durante o longo caminho que nos levou às eleições legislativas do passado domingo.
Agora há mais forças partidárias, mais ideias, mais candidatos. Nunca o boletim de voto foi tão grande. Depois da cruzinha feita, já não chega dobrar o voto em quatro, aquele lençol tem que levar mais uma dobra.
E, apesar de todos os travões colocados na engrenagem pelos donos do regime, ...
... o eleitorado moveu-se. E esta “mobilidade” pode ser quantificada: foram 550 mil votos (11%) nos dezasseis partidos mais pequenos que não pertencem ao cartel partidário instalado. De uma só vez, entraram no parlamento três partidos novos e o PAN quadriplicou a sua presença.
Este “mais” da oferta partidária, somado a esta “mobilidade” dos eleitores, vai ter consequências na “mentalidade” do próximo parlamento.
A seguir a uma legislatura sem partidos de protesto (a domesticação do BE e do PCP fez-lhes perder, respectivamente, 57 mil e 116 mil votos), vamos passar a ter uma voz anti-sistema (o Chega) e, de novo, vozes de protesto (a Iniciativa Liberal e o PCP).
Por sua vez, o Bloco, depois da sua campanha demagógica e errática, vai ter no Livre um concorrente directo no mercado do tribalismo identitário, um mercado sempre indignado com qualquer coisa e que vai dando assunto aos papagaios das televisões e aos viciados em likes das redes sociais.
Moisés Naím, no seu livro “O fim do poder”, descreve as três revoluções que estão a a acontecer à frente dos nossos olhos:
— a revolução do mais (“que se caracteriza por aumentos em tudo” - número de países, populações, níveis de vida, literacia, produtos no mercado, …);
— a revolução da mobilidade (pessoas, bens, dinheiro, ideias, valores, a “movimentarem-se de forma nunca antes vista por todo o planeta”); e
— a revolução da mentalidade (o “mais” e a “mobilidade” causam “grandes mudanças nas mentalidades, expectativas e aspirações” das pessoas).
Na nossa política, estes três émes “revolucionários” receberam um impulso muito grande durante o longo caminho que nos levou às eleições legislativas do passado domingo.
Agora há mais forças partidárias, mais ideias, mais candidatos. Nunca o boletim de voto foi tão grande. Depois da cruzinha feita, já não chega dobrar o voto em quatro, aquele lençol tem que levar mais uma dobra.
E, apesar de todos os travões colocados na engrenagem pelos donos do regime, ...
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| Daqui |
Este “mais” da oferta partidária, somado a esta “mobilidade” dos eleitores, vai ter consequências na “mentalidade” do próximo parlamento.
A seguir a uma legislatura sem partidos de protesto (a domesticação do BE e do PCP fez-lhes perder, respectivamente, 57 mil e 116 mil votos), vamos passar a ter uma voz anti-sistema (o Chega) e, de novo, vozes de protesto (a Iniciativa Liberal e o PCP).
Por sua vez, o Bloco, depois da sua campanha demagógica e errática, vai ter no Livre um concorrente directo no mercado do tribalismo identitário, um mercado sempre indignado com qualquer coisa e que vai dando assunto aos papagaios das televisões e aos viciados em likes das redes sociais.
sexta-feira, 4 de outubro de 2019
Onze euros e sessenta cêntimos*
* Hoje no Jornal do Centro
1. Já depois de ter enviado o último Olho de Gato para o jornal, o INE alterou os números indicados aqui de crescimento do PIB durante os anos da geringonça. Houve uma revisão em alta, o país está mais rico dois mil milhões de euros do que se julgava.
De qualquer forma, esta boa notícia não abana os fundamentos da crónica da semana passada: a instabilidade espanhola (vai para a quarta eleição em quatro anos) fez crescer bem mais a economia do que a nossa estabilidade. Se tivéssemos tido o mesmo crescimento de "nuestros inestables hermanos" éramos mais ricos 7,5 mil milhões.
2. A campanha eleitoral que acaba hoje trouxe-nos o costume: outdoors nas rotundas; discursos zangados não se sabe com quê; comícios e bebícios com aparelhistas, boys e emplastros nas primeiras filas; feiras e mercados com candidatos e jornalistas à procura de algo castiço que dê algum tempero àquela estopada; arruadas em que aparecem uns "espontâneos" a abraçar o chefe, num teatro de papelão feito para as televisões.
Fora desta mesmice, tivemos um pouco Rui Rio e o PAN. Este, de tão veg, vai fazer diminuir a abstenção entre os talhantes.
E, claro, o melhor desta campanha eleitoral: o programa "Gente que não sabe estar", de Ricardo Araújo Pereira. É tão, tão bom que até dá pena não termos legislativas com a cadência dos espanhóis para termos mais vezes aquela desbunda. Foi neste programa que se viu, entre nós, o primeiro "deepfake" - uma hilariante tourada sem cavalos nem touro.
3. Um voto serve para duas coisas: eleger deputados e dar €2.90 por ano ao partido em que se vota, desde que este obtenha, pelo menos, 50 mil votos.
No distrito de Viseu, só dois ou três partidos deverão eleger deputados. Mas tenha isto presente: mesmo não votando em nenhum desses três, o seu voto pode ser muito útil — poderá valer, nos quatro anos da próxima legislatura, €11.60 para o partido da sua simpatia.
1. Já depois de ter enviado o último Olho de Gato para o jornal, o INE alterou os números indicados aqui de crescimento do PIB durante os anos da geringonça. Houve uma revisão em alta, o país está mais rico dois mil milhões de euros do que se julgava.
De qualquer forma, esta boa notícia não abana os fundamentos da crónica da semana passada: a instabilidade espanhola (vai para a quarta eleição em quatro anos) fez crescer bem mais a economia do que a nossa estabilidade. Se tivéssemos tido o mesmo crescimento de "nuestros inestables hermanos" éramos mais ricos 7,5 mil milhões.
2. A campanha eleitoral que acaba hoje trouxe-nos o costume: outdoors nas rotundas; discursos zangados não se sabe com quê; comícios e bebícios com aparelhistas, boys e emplastros nas primeiras filas; feiras e mercados com candidatos e jornalistas à procura de algo castiço que dê algum tempero àquela estopada; arruadas em que aparecem uns "espontâneos" a abraçar o chefe, num teatro de papelão feito para as televisões.
Fora desta mesmice, tivemos um pouco Rui Rio e o PAN. Este, de tão veg, vai fazer diminuir a abstenção entre os talhantes.
E, claro, o melhor desta campanha eleitoral: o programa "Gente que não sabe estar", de Ricardo Araújo Pereira. É tão, tão bom que até dá pena não termos legislativas com a cadência dos espanhóis para termos mais vezes aquela desbunda. Foi neste programa que se viu, entre nós, o primeiro "deepfake" - uma hilariante tourada sem cavalos nem touro.
3. Um voto serve para duas coisas: eleger deputados e dar €2.90 por ano ao partido em que se vota, desde que este obtenha, pelo menos, 50 mil votos.
No distrito de Viseu, só dois ou três partidos deverão eleger deputados. Mas tenha isto presente: mesmo não votando em nenhum desses três, o seu voto pode ser muito útil — poderá valer, nos quatro anos da próxima legislatura, €11.60 para o partido da sua simpatia.
sexta-feira, 23 de agosto de 2019
Equidade e desigualdade*
* Hoje no Jornal do Centro
1. O PCP e o Bloco fizeram-se de mortos durante a recente greve dos motoristas de matérias perigosas. Até mesmo depois de serem conhecidos os horários desumanos que são impostos àqueles trabalhadores.
Esta inacção perante esta luta não deve surpreender ninguém. As esquerdas, nas democracias liberais do ocidente, ainda vão entregando alguns resultados aos trabalhadores do sector público, mas já não fazem nada que se veja pelos jovens à procura do primeiro emprego, pelos precários, pelos trabalhadores do sector privado.
Durante a greve, publiquei nas redes sociais uma reflexão sobre este problema estrutural. Partilho-a também aqui no ponto seguinte.
2. O Bloco de Esquerda já se sabia que é para defender as causas identitárias da classe média urbana, cosmopolita e que trabalha no Estado.
O PCP é que era suposto defender quem recebe 630 euros de salário-base e que, para levar 1200 euros para casa, tem que trabalhar 60/65 horas, quase o dobro do horário da função pública.
Julgava-se que o Bloco, inchado de identitarismos, era pela equidade, e o PCP, orgulhoso da sua tradição operária, era pela igualdade.
Como descreveu Guy Standing, em “O Precariado - A Nova Classe Perigosa”, “uma característica da perda de dinamismo da agenda social-democrata (...) foi que a ênfase colocada na igualdade se deslocou para a equidade social. A redução da discriminação e das diferenças salariais com base no género tornaram-se objectivos prioritários, enquanto a redução das desigualdades estruturais foi remetida para segundo plano.”
Em suma, já se sabia que o Bloco de Esquerda é uma espécie de PS fashion, mas ainda se julgava que o PCP era o partido dos que sofrem, dos colarinhos azuis, dos descamisados.
Esta greve dos motoristas de matérias perigosas veio mostrar que afinal já nem o PCP serve para defender os trabalhadores do sector privado, os mais explorados deste país.
Estes, quando surgirem populismos à direita, vão votar neles. Vai ser feio de ver.
1. O PCP e o Bloco fizeram-se de mortos durante a recente greve dos motoristas de matérias perigosas. Até mesmo depois de serem conhecidos os horários desumanos que são impostos àqueles trabalhadores.
Esta inacção perante esta luta não deve surpreender ninguém. As esquerdas, nas democracias liberais do ocidente, ainda vão entregando alguns resultados aos trabalhadores do sector público, mas já não fazem nada que se veja pelos jovens à procura do primeiro emprego, pelos precários, pelos trabalhadores do sector privado.
Durante a greve, publiquei nas redes sociais uma reflexão sobre este problema estrutural. Partilho-a também aqui no ponto seguinte.
2. O Bloco de Esquerda já se sabia que é para defender as causas identitárias da classe média urbana, cosmopolita e que trabalha no Estado.
O PCP é que era suposto defender quem recebe 630 euros de salário-base e que, para levar 1200 euros para casa, tem que trabalhar 60/65 horas, quase o dobro do horário da função pública.
Julgava-se que o Bloco, inchado de identitarismos, era pela equidade, e o PCP, orgulhoso da sua tradição operária, era pela igualdade.
Como descreveu Guy Standing, em “O Precariado - A Nova Classe Perigosa”, “uma característica da perda de dinamismo da agenda social-democrata (...) foi que a ênfase colocada na igualdade se deslocou para a equidade social. A redução da discriminação e das diferenças salariais com base no género tornaram-se objectivos prioritários, enquanto a redução das desigualdades estruturais foi remetida para segundo plano.”
Em suma, já se sabia que o Bloco de Esquerda é uma espécie de PS fashion, mas ainda se julgava que o PCP era o partido dos que sofrem, dos colarinhos azuis, dos descamisados.
Esta greve dos motoristas de matérias perigosas veio mostrar que afinal já nem o PCP serve para defender os trabalhadores do sector privado, os mais explorados deste país.
Estes, quando surgirem populismos à direita, vão votar neles. Vai ser feio de ver.
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sexta-feira, 26 de julho de 2019
Medo*
* Hoje no Jornal do Centro
1. Todas as campanhas eleitorais usam o medo para ganhar votos. Umas mais, outras menos, nenhuma dispensa a retórica da guerra entre o “nós”, onde mora a virtude, e o “eles”, onde habita o perigo.
Até não há muito tempo, esta batalha na lama tinha que ser protagonizada por políticos, com o microfone à frente, à vista de toda a gente. Agora os políticos de primeira linha já raramente fazem essa triste figurinha. As mensagens mais mentirosas são deixadas para as redes sociais e para a comunicação mais endereçada (WhatsApp, Messenger e afins).
O impacto deste lixo mal-cheiroso na decisão de voto é muito difícil de avaliar e troca com frequência as voltas às sondagens, como se viu recentemente na Austrália, ou, em 2016, com o Brexit e Trump.
Por cá, o medo também vai ser usado na próxima campanha das legislativas, mas com pouco sucesso por duas razões óbvias: a geringonça descrispou o país e as eleições têm vencedor anunciado.
É claro que poderão ser enviados para os telemóveis dos funcionários públicos memes toscos com um penteado de Assunção Cristas a dizer “vêm aí outra vez as 40 horas!”, ou produtos similares a flagelarem outros líderes, mas não é provável que se tornem virais.
2. Deixemos as catacumbas da propaganda política e debrucemo-nos agora sobre o medo que está a ser debatido às claras no espaço público, e que descrevi aqui em Outubro de 2018: “no próximo ano só vai haver um assunto político — a maioria absoluta do PS. Os socialistas vão fazer tudo para a obter, os outros partidos vão fazer tudo para a evitar.”
A dez semanas das eleições, esse risco é mais visível. É que, à medida que Rui Rio se afunda e o bloco vai parecendo o novo dono disto tudo, mais aumenta a probabilidade de um jackpot eleitoral do PS.
E convém lembrar: uma maioria absoluta de um só partido mete mesmo medo, basta lembrar o negocismo arrogante e autoritário dos únicos primeiros-ministros que a obtiveram — Cavaco e Sócrates.
1. Todas as campanhas eleitorais usam o medo para ganhar votos. Umas mais, outras menos, nenhuma dispensa a retórica da guerra entre o “nós”, onde mora a virtude, e o “eles”, onde habita o perigo.
Até não há muito tempo, esta batalha na lama tinha que ser protagonizada por políticos, com o microfone à frente, à vista de toda a gente. Agora os políticos de primeira linha já raramente fazem essa triste figurinha. As mensagens mais mentirosas são deixadas para as redes sociais e para a comunicação mais endereçada (WhatsApp, Messenger e afins).
O impacto deste lixo mal-cheiroso na decisão de voto é muito difícil de avaliar e troca com frequência as voltas às sondagens, como se viu recentemente na Austrália, ou, em 2016, com o Brexit e Trump.
Por cá, o medo também vai ser usado na próxima campanha das legislativas, mas com pouco sucesso por duas razões óbvias: a geringonça descrispou o país e as eleições têm vencedor anunciado.
É claro que poderão ser enviados para os telemóveis dos funcionários públicos memes toscos com um penteado de Assunção Cristas a dizer “vêm aí outra vez as 40 horas!”, ou produtos similares a flagelarem outros líderes, mas não é provável que se tornem virais.
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| Edição em cima de uma fotografia de Rui Ochoa |
A dez semanas das eleições, esse risco é mais visível. É que, à medida que Rui Rio se afunda e o bloco vai parecendo o novo dono disto tudo, mais aumenta a probabilidade de um jackpot eleitoral do PS.
E convém lembrar: uma maioria absoluta de um só partido mete mesmo medo, basta lembrar o negocismo arrogante e autoritário dos únicos primeiros-ministros que a obtiveram — Cavaco e Sócrates.
sexta-feira, 26 de abril de 2019
A paisagem*
* Hoje no Jornal do Centro
1. No último Olho de Gato, descrevi que a nossa relação com a internet agora é, como se diz no Facebook, complicada. Isso está a mudar-nos pessoal e colectivamente.
A esperança acendida com a primavera árabe, à excepção da Tunísia, virou pesadelo. As novas formas de participação democrática online ou falharam ou ficaram-se pelos orçamentos participativos da treta com que se entretêm os nossos autarcas e os jotinhas.
Este desencanto das pessoas é uma alegria para os estados. Os governos sempre quiseram controlar a internet e agora, perante o faroeste em que ela se tornou, aproveitam.
No domingo de Páscoa, logo depois dos atentados no Sri Lanka, o governo desligou as redes sociais. Foi só mais um episódio de uma tendência que vai aumentar.
2. Portugal é Lisboa, o resto é paisagem. Todos os governos sem excepção têm sido centralistas, mas o actual abusa.
No dia 1 de Setembro, estava ainda a ser cozinhado o orçamento de estado nos bastidores, já Fernando Medina anunciava 60 milhões de euros para passes fofinhos para os alfacinhas. Depois, perante o clamor do resto do país, o governo lá arranjou mais umas dezenas de milhões de euros para diluir na paisagem.
Agora, no dia 16 de Abril, como havia o risco de a greve dos motoristas secar os postos de combustível, a Resolução do Conselho de Ministros n.º 69-A/2019 prescreveu os seguintes serviços mínimos: “abastecimento de combustíveis aos postos de abastecimento da grande Lisboa e do grande Porto, tendo por referência 40% das operações asseguradas em dias em que não haja greve.”
Foi mesmo em letra de lei. Para o governo, a paisagem que ande a pé. Ou de burro.
Há aqui um padrão que o comportamentalista Ivan Petrovich Pavlov descreveu em laboratório em 1920: quem tem o verdadeiro poder na geringonça, como poliu durante muitos anos as cadeiras da câmara de Lisboa, como casou entre si, como se foi empregando mutuamente, tem um reflexo condicionado — saliva sempre primeiro por Lisboa.
1. No último Olho de Gato, descrevi que a nossa relação com a internet agora é, como se diz no Facebook, complicada. Isso está a mudar-nos pessoal e colectivamente.
A esperança acendida com a primavera árabe, à excepção da Tunísia, virou pesadelo. As novas formas de participação democrática online ou falharam ou ficaram-se pelos orçamentos participativos da treta com que se entretêm os nossos autarcas e os jotinhas.
Este desencanto das pessoas é uma alegria para os estados. Os governos sempre quiseram controlar a internet e agora, perante o faroeste em que ela se tornou, aproveitam.
No domingo de Páscoa, logo depois dos atentados no Sri Lanka, o governo desligou as redes sociais. Foi só mais um episódio de uma tendência que vai aumentar.
No dia 1 de Setembro, estava ainda a ser cozinhado o orçamento de estado nos bastidores, já Fernando Medina anunciava 60 milhões de euros para passes fofinhos para os alfacinhas. Depois, perante o clamor do resto do país, o governo lá arranjou mais umas dezenas de milhões de euros para diluir na paisagem.
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Posto Galp, Praça Carlos Lopes, Viseu, 17 de Abril
Fotografia Olho de Gato
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Foi mesmo em letra de lei. Para o governo, a paisagem que ande a pé. Ou de burro.
Há aqui um padrão que o comportamentalista Ivan Petrovich Pavlov descreveu em laboratório em 1920: quem tem o verdadeiro poder na geringonça, como poliu durante muitos anos as cadeiras da câmara de Lisboa, como casou entre si, como se foi empregando mutuamente, tem um reflexo condicionado — saliva sempre primeiro por Lisboa.
sexta-feira, 15 de março de 2019
O lugarito*
* Hoje no Jornal do Centro
1. Ninguém tinha dado conta mas, pelos modos, conforme se lê num comunicado da comissão política da JS-Viseu, há “um grande mau estar e grave insatisfação por parte dos jovens socialistas” com o seu presidente distrital, Miguel Figueiredo. Um quarteirão de jotinhas convocou um congresso extraordinário.
O “bom estar” do líder lembrou ao “mau estar” daqueles militantes que era estúpido fazer um congresso seis meses antes de outro obrigatório, mas, já se sabe, o cozinhado da lista de deputados é agora, não é no outono.
É verdade: como não há primárias, chega-se ao lugarito nas listas através da intriga, lugarito que costuma calhar ao chefe local e aos seus acartadores da pasta.
Há quatro anos, o PS elegeu três bons deputados pelo distrito de Viseu: Maria Manuel Leitão Marques, António Borges e João Paulo Rebelo, mas, como estes foram para outros voos, acabaram substituídos por três nulidades de aparelho sem uma ideia política na cabeça.
Desta vez, como há algumas hipóteses de o PS eleger quatro deputados, a luta para um lugarito até ao oitavo lugar está a ser ainda mais brava do que o costume. Uns jotinhas querem pôr uns patins em Miguel Figueiredo que, coisa rara entre os vips da JS, trabalha no duro numa empresa e não precisa de tacho.
2. Em todo o lado, os centros históricos das cidades estão a ser vedados, total ou parcialmente, à circulação automóvel. Em todo o lado menos em Viseu.
Em 2005, ainda houve uma tentativa mas, perante o clamor, a câmara desistiu. Ainda não havia evidências que um centro histórico livre de carros pode ser bom até para os negócios dos bares. Agora já há. Os Jardins Efémeros encarregaram-se de demonstrar que os viseenses não se importam de caminhar um pouco mais e ter as ruas e praças do centro histórico livres da poluição e do incómodo do trânsito.
Era bom, pelo menos nas noites dos fins-de-semana de Maio a Setembro, Viseu proporcionar às pessoas um centro histórico despoluído e civilizado.
1. Ninguém tinha dado conta mas, pelos modos, conforme se lê num comunicado da comissão política da JS-Viseu, há “um grande mau estar e grave insatisfação por parte dos jovens socialistas” com o seu presidente distrital, Miguel Figueiredo. Um quarteirão de jotinhas convocou um congresso extraordinário.
O “bom estar” do líder lembrou ao “mau estar” daqueles militantes que era estúpido fazer um congresso seis meses antes de outro obrigatório, mas, já se sabe, o cozinhado da lista de deputados é agora, não é no outono.
É verdade: como não há primárias, chega-se ao lugarito nas listas através da intriga, lugarito que costuma calhar ao chefe local e aos seus acartadores da pasta.
Há quatro anos, o PS elegeu três bons deputados pelo distrito de Viseu: Maria Manuel Leitão Marques, António Borges e João Paulo Rebelo, mas, como estes foram para outros voos, acabaram substituídos por três nulidades de aparelho sem uma ideia política na cabeça.
Desta vez, como há algumas hipóteses de o PS eleger quatro deputados, a luta para um lugarito até ao oitavo lugar está a ser ainda mais brava do que o costume. Uns jotinhas querem pôr uns patins em Miguel Figueiredo que, coisa rara entre os vips da JS, trabalha no duro numa empresa e não precisa de tacho.
2. Em todo o lado, os centros históricos das cidades estão a ser vedados, total ou parcialmente, à circulação automóvel. Em todo o lado menos em Viseu.
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| Fotografia Olho de Gato Maio/2012 |
Era bom, pelo menos nas noites dos fins-de-semana de Maio a Setembro, Viseu proporcionar às pessoas um centro histórico despoluído e civilizado.
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sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019
Queijo*
* Hoje no Jornal do Centro
1. Antes de irem de fim-de-semana, os deputados fizeram uma resma de votações sobre portagens: desactivação de um pórtico em Aveiro, embaratecimento de dois troços na zona de Coimbra, abolição de portagens nas A22, A23, A24, A25, A28, A29, A41 e A42.
Ora, tudo aquilo foi um teatro para deixar tudo na mesma. Se os deputados julgam que com este faz-de-conta ficam melhor no retrato, estão muito enganados.
Ainda por cima, pelas votações socialistas desiguais, percebe-se que alguns deputados rosa votaram a “favor” da abolição das portagens nas auto-estradas do seu distrito, mas a “desfavor” nas outras. Uma palhaçada.
2. No sábado e no domingo, realizou-se a Feira do Pastor e do Queijo, de Penalva do Castelo, a primeira, a melhor de todas as feiras do queijo da serra que nos enche o corpo de prazer e de colesterol. Se houvesse justiça, o prazer era para nós e o colesterol para os deputados que nos quiseram tanguear na véspera.
A feira esteve magnífica, acampada numa tenda gigante que protegeu da intempérie Rosinha e as suas coristas, enquanto elas descreviam a pulsão macha para a “coentrada”...
... e a arte de “descascar a banana”, para não falar nos condimentos do “refogado” do Quim Barreiros.
Rezam as crónicas, eu não vi mas li algures, que o ainda-ministro-das-obras-cativadas e futuro eurodeputado Pedro Marques também lá esteve a degustar queijo e, depois, com o coração amanteigado, prometeu que este ano havia um avanço nas muito esperadas obras na rua com trânsito de caracol que liga Viseu ao Sátão.
O problema é que o ainda-ministro Pedro Marques descaiu-se. Afinal, depois de tanto tempo passado e tanta conversa, o projecto ainda está para conclusão. Logo, se está para conclusão, conclui-se que ainda não está concluído. Logo, afinal, ainda não vai acontecer nada este ano naquela rua.
O que vale ao ainda-ministro-das-obras-de-papel é que o que se diz enquanto se mastiga queijo é para esquecer.
1. Antes de irem de fim-de-semana, os deputados fizeram uma resma de votações sobre portagens: desactivação de um pórtico em Aveiro, embaratecimento de dois troços na zona de Coimbra, abolição de portagens nas A22, A23, A24, A25, A28, A29, A41 e A42.
Ora, tudo aquilo foi um teatro para deixar tudo na mesma. Se os deputados julgam que com este faz-de-conta ficam melhor no retrato, estão muito enganados.
Ainda por cima, pelas votações socialistas desiguais, percebe-se que alguns deputados rosa votaram a “favor” da abolição das portagens nas auto-estradas do seu distrito, mas a “desfavor” nas outras. Uma palhaçada.
2. No sábado e no domingo, realizou-se a Feira do Pastor e do Queijo, de Penalva do Castelo, a primeira, a melhor de todas as feiras do queijo da serra que nos enche o corpo de prazer e de colesterol. Se houvesse justiça, o prazer era para nós e o colesterol para os deputados que nos quiseram tanguear na véspera.
A feira esteve magnífica, acampada numa tenda gigante que protegeu da intempérie Rosinha e as suas coristas, enquanto elas descreviam a pulsão macha para a “coentrada”...
... e a arte de “descascar a banana”, para não falar nos condimentos do “refogado” do Quim Barreiros.
Rezam as crónicas, eu não vi mas li algures, que o ainda-ministro-das-obras-cativadas e futuro eurodeputado Pedro Marques também lá esteve a degustar queijo e, depois, com o coração amanteigado, prometeu que este ano havia um avanço nas muito esperadas obras na rua com trânsito de caracol que liga Viseu ao Sátão.
O problema é que o ainda-ministro Pedro Marques descaiu-se. Afinal, depois de tanto tempo passado e tanta conversa, o projecto ainda está para conclusão. Logo, se está para conclusão, conclui-se que ainda não está concluído. Logo, afinal, ainda não vai acontecer nada este ano naquela rua.
O que vale ao ainda-ministro-das-obras-de-papel é que o que se diz enquanto se mastiga queijo é para esquecer.
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quarta-feira, 7 de novembro de 2018
“Matar” o pai*
* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 7 de Novembro de 2008
1. Depois das eleições dos líderes distritais do PS em 2006, Marcos Perestrello, o homem forte do aparelho socialista, mostrou pena por só terem mudado oito presidentes de federação. Isso foi há dois anos. Agora, nas eleições internas de 2008, nenhum responsável nacional falou de renovação. O melindre eleitoral do próximo ano aconselhava a deixar tudo o mais possível na mesma.
Ora, como se sabe, a mesmice não é mobilizadora. Em Viseu, aconteceu mais uma candidatura de José Junqueiro - um filme que se repete desde os anos 80 do século passado. Este ritual fossilizado fazia adivinhar umas eleições mais frias que um glaciar.
Foi por isso que António Borges, o socialista viseense com mais influência nacional, veio para o terreno tentar impulsionar as coisas. O presidente da câmara de Resende só não levou ao colo José Junqueiro porque este é demasiado grande.
A eleição, naturalmente, não correu bem: em cada cinco militantes socialistas, quatro não foram votar. Os votos expressos deram uma matemática que já nem na Albânia se usa.
2. Num evento recente do partido, António Borges fez o seguinte aviso à navegação: «Na política, como na vida, é feio “matar” o pai.»
Esta referência directa a Sigmund Freud é fácil de perceber. O congresso distrital do PS, que vai decorrer depois de amanhã em Mangualde, representa a primeira etapa do pós-junqueirismo.
Perfilam-se, na grelha de partida para a sucessão, várias cópias de José Junqueiro que são muito piores que ele. Só sabem acartar-lhe a pasta. Não têm pensamento próprio. Fazem recados enquanto recheiam a agenda do telemóvel. Esperam o dia das partilhas e do testamento.
Avisou-os António Borges: «É feio “matar” o pai.»
É, de facto, feiíssimo.
1. Depois das eleições dos líderes distritais do PS em 2006, Marcos Perestrello, o homem forte do aparelho socialista, mostrou pena por só terem mudado oito presidentes de federação. Isso foi há dois anos. Agora, nas eleições internas de 2008, nenhum responsável nacional falou de renovação. O melindre eleitoral do próximo ano aconselhava a deixar tudo o mais possível na mesma.
Ora, como se sabe, a mesmice não é mobilizadora. Em Viseu, aconteceu mais uma candidatura de José Junqueiro - um filme que se repete desde os anos 80 do século passado. Este ritual fossilizado fazia adivinhar umas eleições mais frias que um glaciar.
Foi por isso que António Borges, o socialista viseense com mais influência nacional, veio para o terreno tentar impulsionar as coisas. O presidente da câmara de Resende só não levou ao colo José Junqueiro porque este é demasiado grande.
A eleição, naturalmente, não correu bem: em cada cinco militantes socialistas, quatro não foram votar. Os votos expressos deram uma matemática que já nem na Albânia se usa.
2. Num evento recente do partido, António Borges fez o seguinte aviso à navegação: «Na política, como na vida, é feio “matar” o pai.»
Esta referência directa a Sigmund Freud é fácil de perceber. O congresso distrital do PS, que vai decorrer depois de amanhã em Mangualde, representa a primeira etapa do pós-junqueirismo.
Perfilam-se, na grelha de partida para a sucessão, várias cópias de José Junqueiro que são muito piores que ele. Só sabem acartar-lhe a pasta. Não têm pensamento próprio. Fazem recados enquanto recheiam a agenda do telemóvel. Esperam o dia das partilhas e do testamento.
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| Daqui |
É, de facto, feiíssimo.
sexta-feira, 19 de outubro de 2018
Cochichos*
* Hoje no Jornal do Centro
1. Os partidos vivem de dinheiros públicos, mas são pouco escrutinados. Os media raramente abordam o seu funcionamento e o Tribunal Constitucional deixa prescrever tudo. As leis regulatórias dos partidos têm que ser aprovadas por eles na assembleia da república e, por artes mágicas e azares diversos, atrasam, atrasam, atrasam...
Esses "atrasos", neste Verão, fizeram prescrever multas a todos os partidos e aos seus responsáveis financeiros. Mais uma vez, impunidade total. A todos eles.
A lógica partidária separa o "cá dentro" do "lá fora", para que o "fora" não saiba nada do "dentro". Quem não cumprir esta regra é marginalizado. Esta "omertá" convém aos nano-chefes locais que tratam dos tachitos e serve aos macro-chefes nacionais que controlam os melhores lugares e gerem, na base do ajuste directo, muitos milhões de euros recebidos do orçamento do estado.
2. Nas últimas eleições para a concelhia do PS-Viseu, não houve nenhuma ideia política nem nenhum debate entre os candidatos. Lúcia Silva socorreu-se da conversa de pé-de-orelha arregimentadora de votos e Gonçalo Ginestal confiou nos nomes sonantes da sua lista. Foi uma eleição entre o PS do cochicho e o PS das famílias, como na altura aqui escrevi. Ganhou o cochicho.
Agora, por causa da convocatória de uma comissão política com duração de meia hora, uns "socialistas indignados", sob anonimato, vieram queixar-se a este jornal do "autoritarismo" da facção do cochicho. Que havia "assuntos internos algo delicados" que, se "tratados à porta aberta", lhes retirava a "liberdade de expressão suficiente para se manifestarem".
Depois das eleições e das queixas-crime no ministério público, há finalmente sintonia total na concelhia de Viseu. O PS das famílias está igual ao PS do cochicho: zero ideias, um muro alto a esconder o "dentro" do "fora", cochichos para os militantes e para os jornais, ninguém a dar a cara.
António Almeida Henriques agradece.
1. Os partidos vivem de dinheiros públicos, mas são pouco escrutinados. Os media raramente abordam o seu funcionamento e o Tribunal Constitucional deixa prescrever tudo. As leis regulatórias dos partidos têm que ser aprovadas por eles na assembleia da república e, por artes mágicas e azares diversos, atrasam, atrasam, atrasam...
Esses "atrasos", neste Verão, fizeram prescrever multas a todos os partidos e aos seus responsáveis financeiros. Mais uma vez, impunidade total. A todos eles.
A lógica partidária separa o "cá dentro" do "lá fora", para que o "fora" não saiba nada do "dentro". Quem não cumprir esta regra é marginalizado. Esta "omertá" convém aos nano-chefes locais que tratam dos tachitos e serve aos macro-chefes nacionais que controlam os melhores lugares e gerem, na base do ajuste directo, muitos milhões de euros recebidos do orçamento do estado.
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| Imagem daqui |
Agora, por causa da convocatória de uma comissão política com duração de meia hora, uns "socialistas indignados", sob anonimato, vieram queixar-se a este jornal do "autoritarismo" da facção do cochicho. Que havia "assuntos internos algo delicados" que, se "tratados à porta aberta", lhes retirava a "liberdade de expressão suficiente para se manifestarem".
Depois das eleições e das queixas-crime no ministério público, há finalmente sintonia total na concelhia de Viseu. O PS das famílias está igual ao PS do cochicho: zero ideias, um muro alto a esconder o "dentro" do "fora", cochichos para os militantes e para os jornais, ninguém a dar a cara.
António Almeida Henriques agradece.
quarta-feira, 26 de setembro de 2018
Eventos*
* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 26 de Setembro de 2008
1. A última edição do Jornal do Centro trazia dois artigos dos deputados José Junqueiro e Miguel Ginestal...
... que desvendam qual vai ser o argumento principal que vai ser usado para tentar justificar a enésima candidatura de Junqueiro a presidente da federação do PS: vai ser repetido em todos os cantos do distrito que tivemos dois anos muito bons porque o PS-Viseu trouxe cá vários membros do governo e organizou com eles sessões públicas.
Toda a gente sabe que José Sócrates não dorme em serviço e que pôs os ministros a prestarem contas políticas pelo país fora e não só nos superlativos eventos organizados em Viseu, só que isso não importa ao junqueirismo que nunca deixa que a realidade dos factos atrapalhe as suas histórias.
Desta vez o que vai ser dito tem este grau de elaboração: Junqueiro foi um bom promotor de eventos, logo foi um bom líder distrital, logo deve continuar.
2. Debrucemo-nos então sobre os três passos do raciocínio junqueirista:
1º) Eu sou o maior porque organizo eventos com ministros;
2º) Quem esteve lá e não disse nada aos ministros não pode falar cá fora;
3º) Se falar cá fora, não tem “nobreza de carácter” e só sabe “atirar de costas” [estes entre aspas são citações].
Segundo esta lógica, àqueles eventos aplicava-se a célebre fórmula: “Se alguém tem algo a dizer, que o diga agora ou, então, que se cale para sempre.”
Estamos, portanto, com um problema: muitos ilustres cidadãos de todo o distrito, incluindo vários líderes de opinião, foram àqueles eventos e não disseram nada. Não conheciam as regras. Ninguém os avisou que ali era obrigatório falar. E, agora, ai deles se abrirem a boca…
1. A última edição do Jornal do Centro trazia dois artigos dos deputados José Junqueiro e Miguel Ginestal...
... que desvendam qual vai ser o argumento principal que vai ser usado para tentar justificar a enésima candidatura de Junqueiro a presidente da federação do PS: vai ser repetido em todos os cantos do distrito que tivemos dois anos muito bons porque o PS-Viseu trouxe cá vários membros do governo e organizou com eles sessões públicas.
Toda a gente sabe que José Sócrates não dorme em serviço e que pôs os ministros a prestarem contas políticas pelo país fora e não só nos superlativos eventos organizados em Viseu, só que isso não importa ao junqueirismo que nunca deixa que a realidade dos factos atrapalhe as suas histórias.
Desta vez o que vai ser dito tem este grau de elaboração: Junqueiro foi um bom promotor de eventos, logo foi um bom líder distrital, logo deve continuar.
2. Debrucemo-nos então sobre os três passos do raciocínio junqueirista:
1º) Eu sou o maior porque organizo eventos com ministros;
2º) Quem esteve lá e não disse nada aos ministros não pode falar cá fora;
3º) Se falar cá fora, não tem “nobreza de carácter” e só sabe “atirar de costas” [estes entre aspas são citações].
Segundo esta lógica, àqueles eventos aplicava-se a célebre fórmula: “Se alguém tem algo a dizer, que o diga agora ou, então, que se cale para sempre.”
Estamos, portanto, com um problema: muitos ilustres cidadãos de todo o distrito, incluindo vários líderes de opinião, foram àqueles eventos e não disseram nada. Não conheciam as regras. Ninguém os avisou que ali era obrigatório falar. E, agora, ai deles se abrirem a boca…
quarta-feira, 12 de setembro de 2018
Carta aberta*
* Publicada no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 12 de Setembro de 2008
Caros António Borges, João Paulo Rebelo e Miguel Ginestal:
Dirijo-vos esta carta aberta porque penso que são capazes de fazer no PS de Viseu aquilo que José Sócrates fez no PS de Castelo Branco: torná-lo o primeiro partido do distrito.
Como sabem, aproximam-se eleições distritais no PS. Tudo indica que José Junqueiro pretende continuar como presidente da federação. Como sabem melhor do que ninguém, isso seria muito mau para Viseu.
Mais uma vez teríamos um distrito peso pluma no contexto do PS nacional.
Mais uma vez o PSD teria um seguro de vida para a sua hegemonia nas autarquias do distrito.
Mais uma vez teríamos uma liderança incapaz de atrair os melhores quadros, aqueles que não precisam da política para terem biografia.
Teríamos, ainda, uma liderança muito fragilizada pois já é público e notório o conflito de interesses em que caiu José Junqueiro, ao ter aceitado ser consultor remunerado de um grupo económico que recebe dinheiros públicos. Os colégios privados desse grupo receberam 12 milhões e 867 mil euros do Ministério da Educação no segundo semestre de 2007.
Como é possível um líder distrital, ainda por cima do partido do poder, não se dedicar em exclusivo à defesa do interesse público?
Em Viseu, precisamos de um PS renovado, com ambição e sem telhados de vidro.
Caros António Borges, João Paulo Rebelo e Miguel Ginestal: os militantes do PS do distrito de Viseu olham para vós com esperança.
Lembro-vos um pensamento de Peter Singer: "Somos responsáveis não só por aquilo que fazemos, mas também por aquilo que poderíamos ter impedido."
Com amizade
Joaquim Alexandre Rodrigues
Caros António Borges, João Paulo Rebelo e Miguel Ginestal:
Dirijo-vos esta carta aberta porque penso que são capazes de fazer no PS de Viseu aquilo que José Sócrates fez no PS de Castelo Branco: torná-lo o primeiro partido do distrito.
Como sabem, aproximam-se eleições distritais no PS. Tudo indica que José Junqueiro pretende continuar como presidente da federação. Como sabem melhor do que ninguém, isso seria muito mau para Viseu.
Mais uma vez teríamos um distrito peso pluma no contexto do PS nacional.
Mais uma vez o PSD teria um seguro de vida para a sua hegemonia nas autarquias do distrito.
Mais uma vez teríamos uma liderança incapaz de atrair os melhores quadros, aqueles que não precisam da política para terem biografia.
Teríamos, ainda, uma liderança muito fragilizada pois já é público e notório o conflito de interesses em que caiu José Junqueiro, ao ter aceitado ser consultor remunerado de um grupo económico que recebe dinheiros públicos. Os colégios privados desse grupo receberam 12 milhões e 867 mil euros do Ministério da Educação no segundo semestre de 2007.
Como é possível um líder distrital, ainda por cima do partido do poder, não se dedicar em exclusivo à defesa do interesse público?
Em Viseu, precisamos de um PS renovado, com ambição e sem telhados de vidro.
Caros António Borges, João Paulo Rebelo e Miguel Ginestal: os militantes do PS do distrito de Viseu olham para vós com esperança.
Lembro-vos um pensamento de Peter Singer: "Somos responsáveis não só por aquilo que fazemos, mas também por aquilo que poderíamos ter impedido."
Com amizade
Joaquim Alexandre Rodrigues
quarta-feira, 5 de setembro de 2018
Porque será?*
* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 5 de Setembro de 2008
1. Em Agosto, o preço do barril do petróleo aliviou ligeiramente mas ninguém sabe o que vai acontecer no futuro. Para o caso, as previsões dos economistas têm-se mostrado tão úteis como os horóscopos da Maya.
Num ponto de vista ecológico, o fim do crude barato não é mau. Os consumidores vão poupar mais, vão procurar alternativas mais eficientes e as energias renováveis vão ganhar mercado.
Há quatro meses atrás, todos os partidos da oposição culpavam o governo pela subida dos combustíveis. Evidentemente, não tinham razão. Portugal não tem poços de petróleo. José Sócrates esteve bem durante a crise: deixou o mercado funcionar, acudiu aos sectores mais fragilizados e correu a apertar a mão aos Chavez, Kadhaffis e Eduardos dos Santos deste mundo, essa fauna peculiar que tem petróleo.
Este último choque petrolífero revelou que o nosso mercado precisa de muito mais concorrência. Há que aproveitar esta pequena acalmia para tomar medidas. Porque não licenciar mais postos de abastecimento nos hipermercados?
2. Jorge Coelho, Manuel Maria Carrilho e Correia de Campos têm muita coisa em comum: (i) os três são de Viseu; (ii) os três são militantes do PS; (iii) os três foram ministros de governos do PS; (iv) os três fizeram a sua militância partidária longe, bem longe, da federação distrital de Viseu.
De facto, por mais dedicado ao interesse público e mais competente que seja, nenhum socialista do distrito tem conseguido chegar a um lugar de relevo na política portuguesa. Para que tal aconteça, é necessário fazer vida partidária longe, bem longe, da Rua 5 de Outubro de Viseu.
Porque será?
1. Em Agosto, o preço do barril do petróleo aliviou ligeiramente mas ninguém sabe o que vai acontecer no futuro. Para o caso, as previsões dos economistas têm-se mostrado tão úteis como os horóscopos da Maya.
Num ponto de vista ecológico, o fim do crude barato não é mau. Os consumidores vão poupar mais, vão procurar alternativas mais eficientes e as energias renováveis vão ganhar mercado.
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| Daqui |
Este último choque petrolífero revelou que o nosso mercado precisa de muito mais concorrência. Há que aproveitar esta pequena acalmia para tomar medidas. Porque não licenciar mais postos de abastecimento nos hipermercados?
2. Jorge Coelho, Manuel Maria Carrilho e Correia de Campos têm muita coisa em comum: (i) os três são de Viseu; (ii) os três são militantes do PS; (iii) os três foram ministros de governos do PS; (iv) os três fizeram a sua militância partidária longe, bem longe, da federação distrital de Viseu.
De facto, por mais dedicado ao interesse público e mais competente que seja, nenhum socialista do distrito tem conseguido chegar a um lugar de relevo na política portuguesa. Para que tal aconteça, é necessário fazer vida partidária longe, bem longe, da Rua 5 de Outubro de Viseu.
Porque será?
sexta-feira, 31 de agosto de 2018
700*
* Hoje no Jornal do Centro
1. No último dia deste querido mês de Agosto, um número redondo: este é o septingentésimo Olho de Gato.
Este Agosto teve um calor bravo nos primeiros dias mas, depois, lá amansou e ficou querido como todos os anos. Dava jeito uma chuvinha em cima das nossas vinhas e dos pinhais. Pinhais que, mais para o Outono, hão-de dar míscaros e sanchas e tortulhos e gasalhos e centieiros.
Os nossos queridos emigrantes já regressaram às terras onde fizeram vida, a nossa classe média mais manienta chama-os aveques, eles estão-se bem nas tintas, gozaram cá as merecidas férias, para o ano regressam, abençoados sejam.
Os apoios e os descontos de IRS anunciados pelo primeiro-ministro não são para eles, não são para as Lindas de Suza. António Costa só quer pôr o fisco a mimar os “mochilas-de-cartão”, licenciados e de smartphones cheios de apps, ...
Esta “ideia” do governo vai contribuir tanto para o regresso de quadros qualificados como o cheque-bebé de Sócrates, há oito anos, contribuiu para o aumento da natalidade. Mas vai entreter o pagode.
2. Esta semana, o jornal Público alegrava-se em letras garrafais na primeira página: “Novas regras para matrículas acabaram com fraudes das moradas falsas”.
Agora só falta o parlamento aplicar as mesmas regras das matrículas dos alunos às casinhas dos senhores deputados.
3. Com o fim do querido mês de Agosto, vai-se a bonomia e o sossego. Chegam as contas dos cartões de crédito e as despesas do “regresso às aulas”.
Há que cair na real e enfrentar os problemas. Na política, está a chegar o tempo da única decisão verdadeiramente importante de 2018 — a designação do Procurador-Geral da República.
Como é consabido, António Costa e Rui Rio não querem a recondução de Joana Marques Vidal. Paciência. Vão ter que a gramar. Era só o que mais faltava regressarmos aos tempos em que tínhamos um arquivador-geral da república às ordens das cliques partidárias.
1. No último dia deste querido mês de Agosto, um número redondo: este é o septingentésimo Olho de Gato.
Este Agosto teve um calor bravo nos primeiros dias mas, depois, lá amansou e ficou querido como todos os anos. Dava jeito uma chuvinha em cima das nossas vinhas e dos pinhais. Pinhais que, mais para o Outono, hão-de dar míscaros e sanchas e tortulhos e gasalhos e centieiros.
Os nossos queridos emigrantes já regressaram às terras onde fizeram vida, a nossa classe média mais manienta chama-os aveques, eles estão-se bem nas tintas, gozaram cá as merecidas férias, para o ano regressam, abençoados sejam.
Os apoios e os descontos de IRS anunciados pelo primeiro-ministro não são para eles, não são para as Lindas de Suza. António Costa só quer pôr o fisco a mimar os “mochilas-de-cartão”, licenciados e de smartphones cheios de apps, ...
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| Fotografia daqui |
... que emigraram nos anos a seguir à bancarrota, esses e mais ninguém.
Esta “ideia” do governo vai contribuir tanto para o regresso de quadros qualificados como o cheque-bebé de Sócrates, há oito anos, contribuiu para o aumento da natalidade. Mas vai entreter o pagode.
2. Esta semana, o jornal Público alegrava-se em letras garrafais na primeira página: “Novas regras para matrículas acabaram com fraudes das moradas falsas”.
Agora só falta o parlamento aplicar as mesmas regras das matrículas dos alunos às casinhas dos senhores deputados.
3. Com o fim do querido mês de Agosto, vai-se a bonomia e o sossego. Chegam as contas dos cartões de crédito e as despesas do “regresso às aulas”.
Há que cair na real e enfrentar os problemas. Na política, está a chegar o tempo da única decisão verdadeiramente importante de 2018 — a designação do Procurador-Geral da República.
Como é consabido, António Costa e Rui Rio não querem a recondução de Joana Marques Vidal. Paciência. Vão ter que a gramar. Era só o que mais faltava regressarmos aos tempos em que tínhamos um arquivador-geral da república às ordens das cliques partidárias.
sexta-feira, 20 de abril de 2018
Para lamentações*
* Hoje no Jornal do Centro
O título deste Olho de Gato assume o nada original jogo de palavras: a nossa vida parlamentar é para lamentar.
Cada vez há mais berbicachos com o fim do mês dos deputados. São sarilhos e mais sarilhos que a comissão de “ética” do parlamento e os visados tentam remendar com o costumeiro: “não houve incumprimento da lei”. Desta dupla negativa não sai nada de positivo para a casa da democracia que devia ser a primeira dar o exemplo.
Há uns anos, Inês de Medeiros, eleita por Lisboa, só não pôs o parlamento a pagar-lhe os bilhetes semanais de avião para Paris porque houve um escarcéu danado. Casos de deputados com casinha em Lisboa mas que dão uma morada no círculo por onde foram eleitos são mais do que as mães. O último — apanhado literalmente na casa da mãezinha — foi Feliciano Barreiras Duarte. Mas há mais.
O Expresso divulgou o extraordinário caso de oito deputados, o poderoso Carlos César incluído, todos eleitos pelas ilhas, que, além de abicharem quinhentos euros por semana para deslocações, ajuntam em cima deste pecúlio o valor dos bilhetes de avião.
Um dos apanhados, o deputado Paulino Ascensão, confessou ter tido uma “prática incorreta” (rima com “forreta”, mas a culpa é do acordês com que escreveu o comunicado). E o bloquista, “após reflexão”, diz que desforreta o dinheiro indevidamente recebido para o entregar a instituições sociais da Madeira. E comunica que renuncia ao lugar.
Mal li este comunicado, elogiei o homem nas redes sociais e mandei uma ferroada em Carlos César. A ferroada foi justa, o panegírico, uma precipitação. Elogiar esta gente é uma imprudência. Afinal o bloquista, lá na sua prosa, absteve-se de referir que já tinha previsto sair de Lisboa para ir para um lugar político no Funchal. Afinal, como tinha sido apanhado com a boca na botija, tinha só antecipado a saída.
Vamos lá ver, agora, se o bloco deixa o Paulino Ascensão ascender ao lugar que lhe tinha reservado na Madeira.
O título deste Olho de Gato assume o nada original jogo de palavras: a nossa vida parlamentar é para lamentar.
Cada vez há mais berbicachos com o fim do mês dos deputados. São sarilhos e mais sarilhos que a comissão de “ética” do parlamento e os visados tentam remendar com o costumeiro: “não houve incumprimento da lei”. Desta dupla negativa não sai nada de positivo para a casa da democracia que devia ser a primeira dar o exemplo.
Há uns anos, Inês de Medeiros, eleita por Lisboa, só não pôs o parlamento a pagar-lhe os bilhetes semanais de avião para Paris porque houve um escarcéu danado. Casos de deputados com casinha em Lisboa mas que dão uma morada no círculo por onde foram eleitos são mais do que as mães. O último — apanhado literalmente na casa da mãezinha — foi Feliciano Barreiras Duarte. Mas há mais.
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| Fotografia de Pedro Nunes Lusa (daqui) |
Um dos apanhados, o deputado Paulino Ascensão, confessou ter tido uma “prática incorreta” (rima com “forreta”, mas a culpa é do acordês com que escreveu o comunicado). E o bloquista, “após reflexão”, diz que desforreta o dinheiro indevidamente recebido para o entregar a instituições sociais da Madeira. E comunica que renuncia ao lugar.
Mal li este comunicado, elogiei o homem nas redes sociais e mandei uma ferroada em Carlos César. A ferroada foi justa, o panegírico, uma precipitação. Elogiar esta gente é uma imprudência. Afinal o bloquista, lá na sua prosa, absteve-se de referir que já tinha previsto sair de Lisboa para ir para um lugar político no Funchal. Afinal, como tinha sido apanhado com a boca na botija, tinha só antecipado a saída.
Vamos lá ver, agora, se o bloco deixa o Paulino Ascensão ascender ao lugar que lhe tinha reservado na Madeira.
quinta-feira, 3 de agosto de 2017
Nível*
* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 3 de Agosto de 2007
1. Transcrevo aqui, no Olho de Gato, o último parágrafo da crónica da semana passada de José Junqueiro. Repare-se no nível:
“É o caso do cronista Joaquim Alexandre que entrou no Congresso Distrital do PS mudo e saiu calado, que se esconde atrás das costas da última cadeira nas assembleias do PS e nada diz, que paralisa em frente da ministra da Educação, na sessão pública de Junho num hotel da cidade, e não solta uma palavra, que não foi escolhido para deputado, como desejava, e vive amargurado, que não foi nomeado Governador Civil, como tanto pediu, e ficou ressabiado! Assim se percebe o frenesim do moço sempre que arranha na coluna do tareco!”
Estamos, como se vê, em plena silly season.
2. Lembro dois episódios de pequena política:
(i) Em Janeiro de 2005, o então Ministro Morais Sarmento fez uma visita a São Tomé e Príncipe que incluiu mergulho submarino; Junqueiro mergulhou de cabeça na história;
(ii) já neste Verão, Marques Mendes levou com uma história de remunerações em Oeiras; coisa malcheirosa; Junqueiro apareceu logo a meter o bedelho.
Ora, nenhum político com nível chafurda neste lodo.
É uma pena o sempiterno líder do PS-Viseu prestar-se a fazer esta “figura do costume”. Assim chamei a este padrão de conduta no último Olho de Gato: “figura do costume”. A reacção de Junqueiro foi aquele fogo de artilharia patético acima transcrito.
Liderei a oposição a Fernando Ruas na Câmara Municipal de Viseu, de 2002 a 2005, e não me escondi nunca atrás de cadeiras. Naqueles tempos, bem mais difíceis para os socialistas que os de agora, se alguém teve medo, não fui eu. E por aqui me fico.
É sempre bom relembrar o que disse Millôr Fernandes:“É impressionante a altura que uma pessoa atinge só não descendo de nível.”
1. Transcrevo aqui, no Olho de Gato, o último parágrafo da crónica da semana passada de José Junqueiro. Repare-se no nível:
“É o caso do cronista Joaquim Alexandre que entrou no Congresso Distrital do PS mudo e saiu calado, que se esconde atrás das costas da última cadeira nas assembleias do PS e nada diz, que paralisa em frente da ministra da Educação, na sessão pública de Junho num hotel da cidade, e não solta uma palavra, que não foi escolhido para deputado, como desejava, e vive amargurado, que não foi nomeado Governador Civil, como tanto pediu, e ficou ressabiado! Assim se percebe o frenesim do moço sempre que arranha na coluna do tareco!”
Estamos, como se vê, em plena silly season.
2. Lembro dois episódios de pequena política:
(i) Em Janeiro de 2005, o então Ministro Morais Sarmento fez uma visita a São Tomé e Príncipe que incluiu mergulho submarino; Junqueiro mergulhou de cabeça na história;
(ii) já neste Verão, Marques Mendes levou com uma história de remunerações em Oeiras; coisa malcheirosa; Junqueiro apareceu logo a meter o bedelho.
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| Daqui |
É uma pena o sempiterno líder do PS-Viseu prestar-se a fazer esta “figura do costume”. Assim chamei a este padrão de conduta no último Olho de Gato: “figura do costume”. A reacção de Junqueiro foi aquele fogo de artilharia patético acima transcrito.
Liderei a oposição a Fernando Ruas na Câmara Municipal de Viseu, de 2002 a 2005, e não me escondi nunca atrás de cadeiras. Naqueles tempos, bem mais difíceis para os socialistas que os de agora, se alguém teve medo, não fui eu. E por aqui me fico.
É sempre bom relembrar o que disse Millôr Fernandes:“É impressionante a altura que uma pessoa atinge só não descendo de nível.”
sexta-feira, 16 de junho de 2017
A doença dos aparelhos*
* Publicado hoje no Jornal do Centro
1. Os motores das autárquicas estão a aquecer. O quadro de candidatos às câmaras municipais que o Jornal do Centro tem vindo a actualizar, ao longo dos últimos meses, está quase completo.
O PSD concorre a todos os concelhos do distrito de Viseu, o PS apagou-se em S. João da Pesqueira e no Sátão. Para já: Pedro Alves, 24 — António Borges, 22.
O caso do Sátão é difícil de explicar fora das lógicas pequeninas do aparelho socialista. É sabido que a ecologia dentro dos partidos tende a premiar as ovelhas que mais dizem ámen ao chefe de turno, repelindo, perseguindo, ou fazendo desistir quem pensa pela sua cabeça. Esta ecologia é hostil ao mérito e faz com que a vontade colectiva dos partidos não seja construída das bases para a cúpula, mas ao contrário: as decisões importantes tomam-se em cima e aplicam-se em baixo.
É por isso que o facto de Acácio Pinto não concorrer no Sátão com as cores do PS é da responsabilidade integral do presidente da distrital, António Borges. Quando um líder já não consegue pôr juízo nas suas tropas, em bom juízo já não é um líder.
2. No concelho de Viseu, já há três candidatas à presidência da câmara (PS, CDS e CDU) e dois candidatos (PSD e BE). Três mulheres e dois homens. Se João Nascimento conseguir consumar a sua candidatura independente, então haverá paridade: três mulheres e três homens.
Isto é bom. Contudo, convém lembrar: aquilo a que se chama “política no feminino” é um gambozino. Não existe. Há boas e más ideias políticas. Tanto nos homens como nas mulheres. Há boas e más práticas políticas. Tanto nos homens como nas mulheres. Ponto.
Como vimos, ser homem ou ser mulher não nos diz nada acerca da qualidade de um político. Porém, há uma grelha de análise que é como o algodão, não engana. Basta aplicarmos a cada candidato, homem ou mulher, a seguinte pergunta: “esta pessoa tem ideias e acções, conhecidas e com valor, fora do aparelho partidário mais encardido?”
1. Os motores das autárquicas estão a aquecer. O quadro de candidatos às câmaras municipais que o Jornal do Centro tem vindo a actualizar, ao longo dos últimos meses, está quase completo.
O PSD concorre a todos os concelhos do distrito de Viseu, o PS apagou-se em S. João da Pesqueira e no Sátão. Para já: Pedro Alves, 24 — António Borges, 22.
O caso do Sátão é difícil de explicar fora das lógicas pequeninas do aparelho socialista. É sabido que a ecologia dentro dos partidos tende a premiar as ovelhas que mais dizem ámen ao chefe de turno, repelindo, perseguindo, ou fazendo desistir quem pensa pela sua cabeça. Esta ecologia é hostil ao mérito e faz com que a vontade colectiva dos partidos não seja construída das bases para a cúpula, mas ao contrário: as decisões importantes tomam-se em cima e aplicam-se em baixo.
É por isso que o facto de Acácio Pinto não concorrer no Sátão com as cores do PS é da responsabilidade integral do presidente da distrital, António Borges. Quando um líder já não consegue pôr juízo nas suas tropas, em bom juízo já não é um líder.
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| Fotografia Olho de Gato |
Isto é bom. Contudo, convém lembrar: aquilo a que se chama “política no feminino” é um gambozino. Não existe. Há boas e más ideias políticas. Tanto nos homens como nas mulheres. Há boas e más práticas políticas. Tanto nos homens como nas mulheres. Ponto.
Como vimos, ser homem ou ser mulher não nos diz nada acerca da qualidade de um político. Porém, há uma grelha de análise que é como o algodão, não engana. Basta aplicarmos a cada candidato, homem ou mulher, a seguinte pergunta: “esta pessoa tem ideias e acções, conhecidas e com valor, fora do aparelho partidário mais encardido?”
sexta-feira, 22 de janeiro de 2016
Presidenciais*
* Texto publicado hoje no Jornal do Centro
A campanha das presidenciais foi frugal e decente. E curta: enquanto a geringonça de António Costa não tomou posse, ninguém quis saber dos candidatos presidenciais. Depois o interesse pouco aumentou, deva-se dizer.
As eleições presidenciais de ano par (1976, 1986, 1996, 2006) têm posto um novo inquilino em Belém (Eanes, Soares, Sampaio, Cavaco). As eleições de ano ímpar (1981, 1991, 2001, 2011) têm reeleito o PR no cargo. As primeiras costumam ser animadas: em 1986 até houve uma segunda volta que elegeu Mário Soares. Já as eleições de anos ímpares têm sido sempre uma chateza — o incumbente passeou-se para uma fácil reeleição.
Ora, estamos em ano par — 2016. Porque é que, contra o costume, esta eleição presidencial está a ser tão desinteressante?
A resposta é óbvia: Guterres não quis ser PR e Marcelo quis. Se Guterres tivesse querido, Marcelo mantinha a vontade? Nunca se vai saber nem interessa. Nem tão pouco interessa especular agora sobre a provável segunda volta entre Marcelo e Rui Rio, se este se tivesse apresentado. Marcelo aproveitou a falta de comparência do PS e tem feito o papel de incumbente, mesmo não o sendo.
Maria de Belém está em perda. Sampaio da Nóvoa, com a sua retórica vazia a anunciar um evangélico “tempo novo”, deverá ter um resultado parecido com o de Manuel Alegre há cinco anos.
Henrique Neto foi o único candidato capaz de dizer o que pensa sem medo de perder votos; e o homem pensa bem. Esperava-se de Vitorino Silva (“Tino de Rans”) uma campanha histriónica e, pelo contrário, ele fez uma campanha com uma densidade humana que merece aplauso.
Em legislativas, cada voto rende €3,11 por ano ao partido que o recebe; em presidenciais, só os candidatos que obtêm mais de 5% têm subvenção pública para as despesas de campanha. Henrique Neto, Vitorino Silva, Marisa Matias e Edgar Silva mereciam chegar, pelo menos, aos 5%. Infelizmente, mesmo para estes dois últimos isso não parece assegurado.
A campanha das presidenciais foi frugal e decente. E curta: enquanto a geringonça de António Costa não tomou posse, ninguém quis saber dos candidatos presidenciais. Depois o interesse pouco aumentou, deva-se dizer.
As eleições presidenciais de ano par (1976, 1986, 1996, 2006) têm posto um novo inquilino em Belém (Eanes, Soares, Sampaio, Cavaco). As eleições de ano ímpar (1981, 1991, 2001, 2011) têm reeleito o PR no cargo. As primeiras costumam ser animadas: em 1986 até houve uma segunda volta que elegeu Mário Soares. Já as eleições de anos ímpares têm sido sempre uma chateza — o incumbente passeou-se para uma fácil reeleição.
Ora, estamos em ano par — 2016. Porque é que, contra o costume, esta eleição presidencial está a ser tão desinteressante?
| Imagem daqui onde pode encontrar mais detalhes sobre os candidatos num trabalho feito pelo jornal Público |
A resposta é óbvia: Guterres não quis ser PR e Marcelo quis. Se Guterres tivesse querido, Marcelo mantinha a vontade? Nunca se vai saber nem interessa. Nem tão pouco interessa especular agora sobre a provável segunda volta entre Marcelo e Rui Rio, se este se tivesse apresentado. Marcelo aproveitou a falta de comparência do PS e tem feito o papel de incumbente, mesmo não o sendo.
Maria de Belém está em perda. Sampaio da Nóvoa, com a sua retórica vazia a anunciar um evangélico “tempo novo”, deverá ter um resultado parecido com o de Manuel Alegre há cinco anos.
Henrique Neto foi o único candidato capaz de dizer o que pensa sem medo de perder votos; e o homem pensa bem. Esperava-se de Vitorino Silva (“Tino de Rans”) uma campanha histriónica e, pelo contrário, ele fez uma campanha com uma densidade humana que merece aplauso.
Em legislativas, cada voto rende €3,11 por ano ao partido que o recebe; em presidenciais, só os candidatos que obtêm mais de 5% têm subvenção pública para as despesas de campanha. Henrique Neto, Vitorino Silva, Marisa Matias e Edgar Silva mereciam chegar, pelo menos, aos 5%. Infelizmente, mesmo para estes dois últimos isso não parece assegurado.
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