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sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

É assim

Fotografia daqui

É assim que se fazem certos livros,
quando a mágoa se transforma
em explosão. De rastilhos tu sabes
mecanismos. Recordas mausers antigas
ou G3, em que nervoso tocavas.
Ei!, amigos, os castanheiros
da Tapada ainda brilham e incendeiam
no inverno dessas guerras sujas.
Acende-me o cachimbo, meu alferes,
e na Berliet avança ao hospital
onde os loucos da guerra já transmitem
o grito da revolta. No abismo
afunda-se o barco Conrad
que desvendava o lusitano apoclipse.
Eduardo Guerra Carneiro




sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

O comboio*

* Hoje no Jornal do Centro

1. No início deste mês, Lídia Jorge, na sua crónica semanal na Antena 2, contou um episódio observado por ela numa estação de comboios alfacinha. Vou tentar reproduzi-lo aqui de memória, especialmente os signos étnicos que polvilham o seu texto.
Fotografia de Alex Wendpap
Enquanto esperava pelo Alfa, a escritora deu conta que uma rapariga “africana”, com uma grande e pesada mala, andava meio perdida e foi pedir informações a um homem “celta”.

O interpelado, um sexagenário de “pele branca”, ajudou logo a rapariga com um sorriso: «vais para o cais número quatro e esperas que chegue um comboio azul...»

Pouco tempo depois, com o estrépito do costume, chegaram àquela estação, quase em simultâneo, dois comboios e a rapariga “africana”, imediatamente, começou a arrastar a mala para um deles.

Mal o “celta” percebeu que ela ia entrar no comboio errado, abandonou os seus pertences, correu ao seu encontro, alombou ele com a bagagem e foi pô-las, à mala e à rapariga “africana”, no comboio certo para o destino certo.

Depois, o homem entrou no Alfa, para o mesmo compartimento de Lídia Jorge. Esta, testemunha e narradora aos microfones da Antena 2 deste gesto simpático e solidário, em vez de o louvar, preferiu apelidar aquele cidadão de “olhos azuis” de racista porque tratou a rapariga por tu. Em tempos de antanho, lembrou a escritora, os senhores é que faziam questão de tutear as suas escravas.

2. Discursos como este sobre “a culpa do homem branco” são muito comuns agora. Como descreveu o deputado socialista Sérgio Sousa Pinto, neste “país exasperado da sua pobreza ancestral, que atravessa séculos e regimes”, temos agora um coro de intelectuais e políticos a querer “transmutar o povo sofrido em colonizador, racista, privilegiado, preconceituoso, heteropatriarcal e xenófobo”.

Esse coro quer meter à força o nosso desgraçado povo no comboio do ressentimento e do revisionismo histórico. Isso é muito injusto. E estúpido. Pelo menos tão estúpido como chamar racista àquele homem prestável da estação.

quarta-feira, 27 de novembro de 2019

Boris Pasternak *

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 27 de Novembro de 2009



1. Em 1937 realizou-se um congresso dos escritores soviéticos onde só se ouviram hinos de louvor ao “pai dos povos”, José Estaline. Era então aquela a partitura oficial em todos os actos públicos naquele país.


Claro que Boris Pasternak, o mais aclamado dos poetas russos, esteve presente no congresso. Ele não queria tocar a música do regime pelo que tinha o seguinte dilema: ou falava e era preso ou não falava e era preso na mesma.

No último dia do congresso, Pasternak levantou-se. Fez-se silêncio. Silêncio sepulcral. Sem sair do lugar, o escritor russo disse um número. Todos perceberam. Era o número que tinha o soneto de Shakespeare “Quando sinto a lembrança das coisas passadas” numa colectânea que Pasternak traduzira para russo. Então, duas mil vozes recitaram aquele soneto em coro.

Foi um momento mágico. Até os esbirros perceberam que podiam entrar em todo o lado menos dentro das cabeças dos homens. Pasternak acabou por não ser preso.

Há momentos assim que são epifanias. Como se cada dilúvio decretado pelos deuses trouxesse já consigo a arca da salvação.

George Steiner já contou várias vezes esta história e referiu-se mais uma vez a ela esta semana no Instituto Piaget de Viseu.

 
2. Miguel Ginestal toma posse hoje como governador civil de Viseu. Esta é uma boa notícia para o distrito. Ginestal vai ser um excelente governador civil. Ele vai prosseguir sem sobressaltos o bom trabalho realizado por Acácio Pinto e sua equipa.

Já para o concelho de Viseu esta é uma notícia péssima. Fernando Ruas está no último mandato. Ora, como é sabido, os últimos mandatos são os que mais precisam de ser escrutinados. Era necessária uma oposição socialista com liderança política forte e competente na câmara de Viseu. E, agora, não há.

quarta-feira, 20 de novembro de 2019

Fura-greves e adesivos*

* Texto publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 20 de Novembro de 2009



1. Há 40 anos, Coimbra fervia de agitação estudantil. A ditadura salazarosa, já muito apodrecida, servia-se da polícia política e da censura para se segurar no poder.

Em 17 de Abril de 1969, o então presidente da república, na altura dizia-se “a veneranda figura do chefe de estado”, foi a Coimbra inaugurar o departamento de Matemática. Alberto Martins, líder dos estudantes, pediu a palavra. Américo Tomás não lha deu e terminou a cerimónia de forma abrupta.

Seguiu-se repressão e prisões. Os estudantes resistiram de todas as maneiras. Fizeram greves maciças às aulas que culminaram numa greve aos exames.

Fazer greve aos exames acarretava um grande custo pessoal: para além do atraso no curso significava também poder ser enviado para as piores frentes da guerra em África.

Não é difícil perceber a angústia interior que aqueles jovens viveram e a pressão familiar a que eles estiveram sujeitos. Mesmo assim, foram poucos os que foram fazer exames. Foram poucos os fura-greves. E os fura-greves ficaram muito mal vistos.

Muitas décadas depois do que aconteceu em Coimbra, em cavaqueira de amigos, mal foi referido o nome de uma determinada personalidade, ouvi logo vernáculo do grosso: “essa besta foi um dos que furou a greve aos exames…”


2. Embora não com o dramatismo dos estudantes de há 40 anos, a avaliação engendrada por Maria de Lurdes Rodrigues colocou os professores também perante dilemas éticos: 

“Entrego os objectivos, não entrego os objectivos?” 

“Peço aulas assistidas, não peço aulas assistidas?»

Todo o professor que quis aproveitar o campo livre para obter um “excelente” na avaliação não ficou bem no retrato.

Vai-se ouvir muitas vezes no futuro:

“essa besta foi um dos adesivos da marilú…”

Rock is dead


Dortmund, fotografia de Robert Anasch


(...)
Now listen, listen, listen, listen, listen
Now I dont want to hear no talk about no revolution
And I swear to God I dont want to hear
No talk about no constitution
And in my frame of mind I am in no mood for
No talk about no cremation
The only thing Im interested in
I wanna have a good time
I dont wanna hear no talk about no riots
No demonstrations, no calcitritions, no impablermations
Theres only one thing I want to see
Thats some dancin, were gonna have some fun
Were gonna have a good time, lets roll
(...)
Jim Morrison




terça-feira, 19 de novembro de 2019

José Mário Branco, 25.5.1942 — 18.11.2019

Se tivesse que escolher uma música de JMB era esta:


Se tivesse que escolher uma homenagem que JMB adoraria, era esta:


ETHNO Portugal Orquestra 2018 - "Nevoeiro" de José Mário Branco e "Baile das Oliveiras" de Roncos do Diabo

Gravado em Castelo de Vide, Portalegre, a 28 de Julho de 2018
Realização e Som: Tiago Pereira e Ana Beatriz de Jesus

sexta-feira, 20 de setembro de 2019

Vem-lobo!*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Durante a silly-season deste ano, o comentariado luso atirou-se com fúria ao projecto de criação de um Centro Interpretativo do Estado Novo, em Santa Comba Dão.

Era muito fácil de prever. Uma semana antes de ter sido tornada pública a petição que abriu aquele circo mediático, já o autarca de Santa Comba Dão era avisado aqui, no Olho de Gato, que nenhum "fusível" podia "evitar fortes descargas eléctricas naquele simpático concelho onde nasceu um antipático ditador".

Aquela petição pôs as pessoas a assinar contra um "Museu Salazar" e não está previsto "Museu Salazar" nenhum. Como explicar tamanho logro? Terá sido má-fé? Incúria?

Não se sabe. Sabe-se é que um dos redactores da petição é "investigador" no Centro de Estudos Sociais da Universidade de Coimbra. Bastava o homem ter telefonado aos responsáveis científicos do projecto, seus colegas do Centro de Estudos Interdisciplinares do Século XX da mesma universidade, para perceber que, ao contrário do que é mentido na petição, o que está para ali previsto será tudo menos "um instrumento ao serviço do branqueamento do regime fascista".

Esta inventona é mais um prego no caixão dos "antifascistas" profissionais que andam, há décadas, a gritar o seu "vem-lobo!" pífio.

2. Em 16 de Março de 2017, no Observador, José Carlos Fernandes, num excelente texto intitulado "Um mundo cheio de porcos fascistas?", analisa com profundidade esta tendência actual para ver fascismo em todo o lado.

Imagem daqui
O autor começa por lembrar que os muito sociáveis macacos-vervet vocalizam alarmes de perigo diferentes consoante o predador à vista é uma serpente, ou um leopardo ou uma águia.

Aqueles macacóides têm rigor semântico nos alarmes. Quando gritam "águia!" está mesmo perigo a vir do céu e o bando corre a abrigar-se.

Já nos humanóides, o grito "vem-lobo!", de tão gasto, não vai ser ouvido por ninguém quando houver mesmo um perigo real para a democracia.

quarta-feira, 18 de setembro de 2019

Viriato*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 18 de Setembro de 2009 

Na Hispânia, as coisas continuavam acesas entre os romanos e os lusitanos. Guerras, saques, fome, miséria. Roma desesperava.
Faltavam ainda 150 anos para Jesus Cristo nascer quando o pretor Sérvio Sulpício Galba fez saber por toda a Lusitânia que iria distribuir terras novas e férteis. Juntaram trinta mil lusitanos em idade de pegar em armas e Galba, hábil tribuno, fez-lhes um discurso a anunciar leite e mel, jurando desejar respeitá-los e viver em paz com eles.

A seguir, Galba dividiu os lusitanos em três grupos a pretexto de assim ser mais fácil a distribuição das terras.

Depois, chegou-se ao primeiro grupo e pediu-lhes que entregassem as armas. «Entre amigos não há lugar para armas», disse. A seguir, encurralou-os numa cerca e mandou-os matar. Os lusitanos em vão lhe recordaram as juras de amizade e desesperaram daquela traição. Galba, implacável, fez também o mesmo ao segundo e ao terceiro grupo.

Foram assassinados nove mil lusitanos, vinte mil foram vendidos como escravos e mil escaparam. Um dos que escapou foi Viriato que nunca mais se esqueceria ou perdoaria a desonrosa conduta de Galba.

Viriato, a seguir, assumiu o comando da resistência dos lusitanos, instalando o seu refúgio no Monte de Vénus, actual Sierra de San Pedro, na província de Cáceres.

Esta é a principal tese de “Lusitanos no Tempo de Viriato”, de João Luís Inês Vaz, livro escrito com excelente sentido da narrativa e que se lê de um fôlego.

A pesquisa histórica de Inês Vaz desconecta Viriato de Viseu.

É assim: enquanto Almeida Fernandes “põe” D. Afonso Henriques em Viseu, Inês Vaz “tira” Viriato de Viseu.

Não me canso de repetir: não há nada mais instável que o passado.

sexta-feira, 13 de setembro de 2019

Sexta-feira 13*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Esta não é a primeira nem a segunda vez que brinco aqui com a sexta-feira-treze, dia do azar em que ninguém acredita, assim como ninguém acredita em bruxas, pero que las hay, las hay...

Os media e as redes sociais em dias como os de hoje enchem-se com as recomendações desazarosas do costume: não passar debaixo de uma escada, não abrir o guarda-chuva dentro de casa, pregar uma ferradura na porta, dar três pancadas na madeira, evitar os olhos amarelos dos gatos pretos. Pobres felinos tão lindos, os gatos pretos, difamados desta maneira.

Mas não há azar, é para nos rirmos uns com os outros, enquanto vão passando estes amáveis dias de Setembro.

2. Hoje, dia de azar, conforme bamboleiam os cartazes espalhados no Minho, o palco do Multiusos de Guimarães tem a sorte de contar com “Gipsy Kings BY Andre Reyes”. Traduzindo: “Gipsy Kings POR Andre Reyes”.

Amanhã, dia sem azar, conforme bailam os cartazes espalhados nas Beiras, o palco da Feira de S. Mateus vai ter a sorte de contar com “Gipsy Kings FEAT Andre Reyes”. Traduzindo: “Gipsy Kings COM A PARTICIPAÇÃO DE Andre Reyes”.

Esta publicidade diferente fez com que este jornal tivesse que fazer uma notícia a traduzir os cartazes. Deve dizer-se que o BY de Guimarães percebe-se melhor do que o FEAT de Viseu.

Enfim, importante mesmo é que os ritmos ciganos do “Bamboleo” façam “Volare” pessoas felizes pela feira fora. E que, com a participação de todos, haja muita diversão e alegria, ...
Fotografia Olho de Gato
... mesmo naqueles a quem a barraca da Sumol tapar a visão do palco. 

3. A câmara de Viseu já anunciou que, em 2020, a sua feira franca vai começar mais cedo, a 6 de Agosto, e, portanto, vai acabar também mais cedo, muito antes de 21 de Setembro, dia de S. Mateus, dia do santo que foi despejado da feira que foi sua durante mais de seiscentos e vinte anos.

Fica uma sugestão para o director daquele certame, o anglófono Jorge Sobrado — o melhor é, nos cartazes do próximo ano, escrever “Feira WITHOUT FEAT S. Mateus”.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Banzo




Banzo — ban-zo, do português banzar, pasmar pela morte

Do quimbundo, banza, aldeia, falta da aldeia, a nostalgia dos negros arrancados de África que levou muitos à morte no Brasil colonial

Banzo, escravos com banzo caíam na apatia, recusavam alimentos, tomavam veneno, enforcavam-se, muitos comiam terra, uma forma arcaica de atenuar a fome que estava ligada a infecções, definhamento e vontade de morrer

Para evitar perdas, o proprietário português forçava-os a usar a máscara de folha de flandres, uma mistura de ferro, aço e estanho, que se aplicava directamente sobre a boca das pessoas escravizadas, funcionava como burca facial 
(...)



sexta-feira, 9 de agosto de 2019

Fusíveis*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Título de uma notícia neste jornal, em 19 de Julho: Mercado 2 de Maio, Praça Ganha Cobertura “Amiga do Ambiente”.


Fotografia Olho de Gato
No virar do milénio, Siza Vieira prantou uma eira no centro da cidade de Viseu e o dr. Ruas, paralisado pela reverência ao arquitecto, não fez nada para a melhorar.

Nos seis anos que já leva de presidência, António Almeida Henriques, que foi a votos com a promessa de dar uma volta àquele espaço, nada fez também. É verdade que, em 2015, avançou com um concurso de ideias cheio de ideias erradas, que até pretendia escarafunchar no granito para fazer ali um parque de estacionamento, mas aquilo foi um rascunho que só derreteu dinheiro e tempo.

Agora, em Julho, António Almeida Henriques saiu-se com este teaser sobre uma putativa cobertura fotovoltaica para o Mercado 2 de Maio. É um fusível político. É o truque “Greta Thunberg”. Para tentar evitar sarilhos com um projecto, nada melhor do que carimbá-lo à partida como “amigo do ambiente”.


2. Título de uma notícia neste jornal, em 2 de Agosto: Projecto do Centro Interpretativo do Estado Novo Agrada a Marcelo Rebelo de Sousa.

Leonel Gouveia, o presidente da câmara de Santa Comba Dão, é um homem determinado. Pegou no município mais falido do distrito, viu-o ser devastado em 15 de Outubro de 2017, quando até arderam as máquinas municipais, e está a recuperá-lo financeira e animicamente.

Como se isso não fosse pouco, o autarca tem também que fazer a gestão da memória de António Oliveira Salazar. Para tentar atravessar este campo minado, Leonel Gouveia deita mão não a um mas a dois fusíveis: avisa que o centro interpretativo é um projecto “científico” supervisionado por três catedráticos da universidade de Coimbra e sublinha que a “ideia foi muito bem aceite por Marcelo Rebelo de Sousa”.

O segundo fusível é melhor do que o primeiro, mas nem um nem outro vão evitar fortes descargas eléctricas naquele simpático concelho onde nasceu um antipático ditador.

quarta-feira, 29 de maio de 2019

Tempo*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 29 de Maio de 2009 


O tempo leva os corpos de novos para velhos.

O tempo põe musgo nas pedras e depois ele - o tempo - seca o musgo. Pode-se lutar contra o tempo mas ele acaba sempre por ganhar.

O tempo põe o ontem antes do hoje, e põe o hoje antes do amanhã. Depois de amanhã logo se há-de ver…

Só a imaginação dos homens consegue fugir a estas implacáveis leis e é capaz de colocar os relógios a andarem para trás. Vê-se isso em dois filmes recentes:

1. A história de “O Estranho Caso de Benjamin Button” é bem conhecida. Benjamin Button nasceu num corpo velho e fez a viagem da vida de trás para a frente.




Os anos tiraram-lhe a artrite e o reumatismo e deram-lhe vigor. Morreu com corpo de bebé, pequenino, consolado, ao colo do seu amor.

Foi a imaginação de F. Scott Fritzgerald que escreveu o conto “The Curious Case Of Benjamin Button”, nos anos de 1920, agora adaptado ao cinema por David Fincher.

2. Em “Uma Segunda Juventude”, o professor de linguística Dominic Matei, já com mais de 70 anos, sente-se incapaz de terminar a obra da sua vida sobre a origem da linguagem humana.

No dia em que se ia suicidar, foi atingido por um raio e acordou no hospital 30 anos mais novo e capaz de falar todas as línguas do mundo. Aquela faísca deu a Dominic uma nova vida para poder partilhar com a mulher da sua vida (também “abençoada” por um relâmpago).

Esta história, adaptada ao cinema por Francis Ford Coppola, saiu da imaginação de Mircea Eliade.

Este filósofo das religiões romeno esteve em Viseu, no Outono de 1941, a estudar os quadros de Grão Vasco. Será que foi ao olhar para aqueles quadros mágicos que Mircea Eliade foi atingido pela faísca da ideia para esta história extraordinária?

sexta-feira, 17 de maio de 2019

Falsificar o passado*

* Hoje no Jornal do Centro

Não há país europeu em que a memória histórica cause tanta controvérsia como na Polónia, onde políticos e “académicos” estão sempre a reescrever o passado para obterem ganhos no presente.

Christian Davies, na última edição da London Review of Books, conta uma dessas querelas, num texto intitulado “Debaixo da linha de comboio”.

Davies começa por descrever uma cerimónia na capital polaca, em Outubro de 2017, em que, na presença de autoridades civis, militares e religiosas, foi descerrada uma placa que dizia: “Em memória dos 200.000 polacos assassinados em Varsóvia no campo de morte alemão de KL Warschau”.

Daqui
Nunca se tinha avançado com uma cifra de mortes deste tamanho, até Maria Trzcińska, uma juíza que tinha trabalhado na Comissão de Investigação dos Crimes Nazis na Polónia, ter publicado uma monografia em 2002, em que, entre várias fantasias, afirmava que um túnel rodoviário que passa debaixo de uma estação de comboios de Varsóvia tinha sido transformado pelos alemães numa gigantesca câmara de gás onde teriam sido executados os tais duzentos mil polacos, na sua maioria não-judeus (pormenor importante nesta narrativa).

A partir daí, a extrema direita nacionalista e anti-semita e o partido PiS, no poder, nunca mais largaram aquele osso, com a tese de o país ter sido vítima de um “Polocausto” (termo deles).

Ora, a verdade é que não foram assassinados duzentos mil polacos em KL Warschau. O campo existiu de facto no gueto de Varsóvia depois de este ter sido destruído por Himmler, em 1943, e recebeu muitos judeus exactamente para serem usados como mão-de-obra escrava para limpar as ruínas. As estimativas apontam para a morte ali de vinte mil pessoas.

Há evidências fotográficas e testemunhais de que aquele túnel por baixo da estação esteve sempre aberto ao trânsito, que, portanto, nunca foi uma câmara de gás, mas há sempre maluquinhos prontos a acreditar em qualquer patranha e construir, à volta dela, uma teoria da conspiração.

sexta-feira, 19 de abril de 2019

Höchster, mache deine Güte

Calvário, de Vasco Fernandes — Grão Vasco
(1530-1535)  

Höchster, mache deine Güte
Ferner alle Morgen neu.
So soll vor die Vatertreu
Auch ein dankbares Gemüte
Durch ein frommes Leben weisen,
Dass wir deine Kinder heißen.

Altíssimo, renova Tua bondade
A cada dia.
Assim, diante de Teu amor paternal,
A consciência agradecida
Mostrará, por meio de uma vida devota,
Que somos Teus filhos.


quarta-feira, 17 de abril de 2019

A culpa

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 17 de Abril de 2009 



1. Está em exibição nos cinemas O Leitor, de Stephen Daldry. Este filme conta a história de Michael, um adolescente que conhece e ama com as hormonas aos saltos uma mulher com mais do dobro da sua idade. Essa mulher é Hanna, interpretada por Kate Winslet (merecidíssimo óscar de melhor actriz). É uma mulher enigmática que se relaciona com Michael, que o quer, fazendo parte desse querer ouvir a voz dele horas e horas a ler-lhe livros. Daí o título deste excelente filme – O Leitor.


Um amor de verão, um amor de uma vida.

Hanna tinha sido guarda num campo de concentração e é levada a tribunal. Centenas de prisioneiros tinham morrido fechados num lugar em chamas e Hanna assume essa culpa. Disse ela ao tribunal: “se as portas fossem abertas, dava-se o caos e os prisioneiros fugiam”. Ao fim e ao cabo, foi esse baixar de braços perante regulamentos e leis iníquas que oleou a máquina nazi.

O Leitor trata também da culpa de Michael que calou informação importante para o julgamento e para a sorte de Hanna.

Essa culpa individual e colectiva não é um exclusivo alemão, mas a Alemanha pagou-a bem caro, com o país retalhado durante décadas, e feridas que demoram a cicatrizar.

Como parte desse processo de exorcização da culpa, foram feitos na Alemanha milhares de filmes, séries de televisão e romances sobre Hitler e o Holocausto.

2. Portugal também tem duas páginas muito negras na sua história mas, estranhamente, não há grandes narrativas sobre a nossa culpa quer durante a inquisição quer durante o salazarismo.

Quanto a Salazar, o que tem aparecido são histórias que glamourizam o ditador, tornando-o uma espécie de arrasa-corações de botas, com direito a Soraia Chaves e tudo.

segunda-feira, 4 de março de 2019

La víspera

Leda e o cisne, Pompeia (daqui)

A fuerza de explotar a los esclavos

y robarse dinero público,
hubo auge en los negocios. Así los ricos
se volvieron más ricos, mientras los pobres
redoblaban su hambre y su miseria. La ciudad
desbordó sus antiguos límites, perdió sus rasgos
originales, fue construida
según los lineamientos del imperio. También el habla
se corrompió con los hablantes. Y el lujo
entró como la hiedra en muchas partes.
Combatieron el tedio con la droga.
Nos legaron imágenes de sus actos sexuales
como extraño presentimiento
de su fragilidad. Y entre robos
y asesinatos por dondequiera, el terror
extendió su dominio. Miedo en la alcoba
y pánico en la calle. Furias y penas.
Sobre todo odio
proliferante. Porque el bien camina
pero el Mal corre (y no se sacia nunca).
Todo esto sucedió en Pompeya, la víspera
del estallido del Vesubio.
José Emilio Pacheco


sexta-feira, 1 de março de 2019

Carnaval, entrudo, liberdade*

* Hoje no Jornal do Centro


Estão a chegar os três dias de entrudo. E, segundo prevê a meteorologia, depois da primavera antecipada que tivemos, no carnaval vai estar frio para arroxear as carnes das matrafonas mais descascadas.

Dulce Simões, num texto académico intitulado “Carnaval em Lazarim: máscaras, testamentos e práticas carnavalescas”, caracteriza o que se passa nestes dias como “um sistema simbólico associado à transição do Inverno para a Primavera, do velho para o novo, da morte para a vida”, um sempre repetido “ciclo de renovação cósmica e social, tempo de utopia e transgressão, onde o marginalizado busca uma libertação catártica, vencendo simbolicamente a hierarquia, a ordem, a opressão, e o sagrado.”

No carnaval, ninguém leva a mal. No entrudo, vale tudo. Mas será que ninguém leva a mal? Mas será que vale mesmo tudo?

No ano passado contei aqui o caso de Carlos Santiago, cujo “Pregón de Entroido” que fez em Santiago de Compostela pôs aquele excelente monologuista debaixo de tiro da igreja e da direita espanhola mais retrógada.


Fotografia daqui
Já este ano, Bruno Melo, o escultor que pôs uma “Nossa Senhora da Bola” num monumento ao Carnaval de Torres Vedras, viu a paróquia da terra muito zangada a obrigar o município a retirá-la.

Pois, é isso: é carnaval mas há quem leve a mal, é entrudo mas não vale tudo.

Nestes tempos tão ásperos para a liberdade de expressão, às repressões antigas provenientes da religião e dos autoritarismos, há que somar também agora a repressão dos chuis da linguagem do politicamente correcto.

O que é dito nos testamentos do Entrudo de Lazarim já desfez casamentos, já deu querelas em tribunal, mas nunca ninguém se zangou por uma comadre chamar “paneleiro” a um compadre, ou este chamar àquela “fressureira”. Isso em outros tempos. Agora, com os chuis da linguagem e os seus ofendidinhos politicamente correctos, é capaz de ser perigoso.

sexta-feira, 1 de fevereiro de 2019

Arranjem-me um emprego*

* Hoje no Jornal do Centro


Fotografia Olho de Gato 

No início desta semana, houve uma conversa evocativa dos 20 anos do Teatro Viriato, moderada por Pedro Santos Guerreiro, com Paula Garcia, Manuel Maria Carrilho, Ricardo Pais e Paulo Ribeiro.

Pedro Santos Guerreiro foi de um rigor impecável e, no final, fez uma síntese tão exaustiva e perfeita que deixou a plateia toda de boca aberta.

Paula Garcia esteve bem, descreveu, como lhe competia, o presente e os projectos para o futuro do teatro que dirige e que tem financiamento assegurado até 2021.

Manuel Maria Carrilho lembrou-nos naquele palco uma evidência: ele foi, de facto, o único ministro da Cultura da terceira república com meios e pensamento estratégico para o sector.

Já Ricardo Pais, sempre igual a Ricardo Pais, lá lembrou aquelas coisas dele apenas críveis à luz eléctrica, coisas dos anos 80 em que façanhudos parolos viravam apreciadores de Cole Porter, por sua obra e graça, e dos canapés que servia nos eventos da associação comercial. Enfim, elogio em boca própria não é bonito, mas há pior e houve pior.

E o pior deixo-o aqui mesmo para o fim: o coreógrafo Paulo Ribeiro, ex-director da casa, subiu àquele palco para dizer que o Teatro Viriato precisa de um “director-artista”. Verdade. O homem desenhou no ar uma moldura e pôs a sua cara de artista lá dentro. Transformou aquela evocação histórica numa espécie de “arranjem-me um emprego”.

Será que o mesmo “director-artista” que, logo em 2003, desertou para Lisboa para dirigir o Ballet Gulbenkian, e que, depois do fiasco, regressou a Viseu para uns anos de preguiça e rotina criativa, e que ainda desertou mais uma vez para Lisboa para dirigir a Companhia Nacional de Bailado, quer agora vir, pela terceira vez, tomar conta do Teatro Viriato?

Ou será que o coreógrafo vai ficar, afinal, na Casa da Dança de Almada? No primeiro mandato, António Almeida Henriques prometeu uma Casa da Dança para Viseu, mas o edil, já se sabe, em matéria de obras é só inconseguimentos.

sábado, 1 de dezembro de 2018

"And Now For Something Completely Different" (#219)

First choral performance with reconstructed aulos of reconstructed ancient scores of Athenaeus Paean (127 BC) and Euripides Orestes chorus (408 BC), with the evidence presented and explained by Professor Armand D'Angour, Jesus College Oxford.