quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

Anjo 29

Fotografia de Yasin Arıbuğa

Voltaria a agarrar o maço de tabaco açoriano
e a cantar-te as músicas que ouvíamos
quando sobre os nossos ombros
terminava a costa de Espanha e se via
por dentro a máscara do sol que se despe
na parte interior das mãos com sal e areia.


não encontro o nó aos rastos,
a corda que faria levantar de novo
a âncora e viajar sobre o teu
corpo atlântico e azul
como o dia em que ensinavas a natureza da
manhã rasgada dos olhos
a oferecer-me o vento
na imemorial passagem dos mares
das palavras celebradas e bebidas
na boca do horizonte,
frio e viajante como a liberdade.
Pompeu Miguel Martins



quarta-feira, 27 de fevereiro de 2019

DREN*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 27 de Fevereiro de 2009


1. Continuam as anedotas da DREN. Desta vez não é uma história de bufaria. Desta vez Margarida Moreira impôs que fosse feito um desfile de carnaval em Paredes de Coura, actividade que o agrupamento de escolas do concelho tinha decidido não fazer.
Eis, ipsis verbis, o último ponto do documento que Margarida Moreira enviou a desautorizar o conselho pedagógico de Paredes de Coura:

"Sendo certo que muitos professores não se aceitam o uso dos alunos nesta atitude inaceitável, acompanharemos de muito perto a defesa do bom nome da escola, dos professores e de toda uma população que muito tem orgulhado o nosso país pela valorização que à escola tem dado."

É evidente que quem escreve com esta qualidade pensa com esta qualidade.

Os professores de Paredes de Coura foram humilhados até ao que há de mais fundo na sua dignidade profissional.

Como se costuma dizer no Minho, perante tal desaforo, aqueles professores ou mandavam a DREN abaixo de Braga (e não compareciam ao desfile) ou mandavam a DREN abaixo de Braga (e aproveitavam o desfile para mostrarem a sua indignação).
Escolheram a segunda opção. 
Daqui
As imagens em todos os media de professores vestidos de preto e de boca amordaçada foram bem eloquentes.

2. Antigamente, em várias comunidades piscatórias, quando morriam pescadores no mar, as viúvas e os outros familiares apedrejavam as capelas. Com o desespero, pegavam nos santos, lapidavam-nos, insultavam-nos e enterravam-nos na areia. Eram os santos, que não tinham culpa nenhuma das inclemências do mar, que pagavam.

A economia mundial afundou-se por causa da ganância do capital especulativo. Cresce o desespero e o desespero não é bom conselheiro. Quem é que vai ser apedrejado?

Aparição num dia de inverno




Um dia, lendo este poema, lembrar-te-ás:
o amor falou através dele. Ouvirás no seu ritmo
a voz que tantas vezes desejaste; reconhecerás
nos seus versos o corpo que encheu
a tua vida; tocarás em cada uma das suas palavras
os dedos que te ensinaram a medir os dias
pelas suas contas de ternura. E o tempo
entrará por ti como esse rio que alagou os campos
do inverno. Olharás à tua volta, vendo a desolação
de uma paisagem inundada. Algures, porém,
uma árvore antiga sobressai; e os seus ramos
verdes dar-te-ão a esperança de uma nova
primavera, em que voltes a ouvir a voz
que o poema te trouxe com os seus dedos
de música.
Nuno Júdice




terça-feira, 26 de fevereiro de 2019

À noite lavo a cara no quintal

Fotografia de Rye Jessen


À noite lavo a cara no quintal.
De estrelas rudes o firmamento brilha.
Como sal no machado o raio estelar
arrefece a pipa cheia até cima.

O portão é trancado a ferrolho
e a severa terra é justa e agreste.
Impossível encontrar um mais puro
fundo que a verdade do linho fresco.

Como sal, uma estrela funde na pipa
e a água gelada é mais negra.
Mais pura a morte, mais salgada a desdita,
mais terrível e verdadeira a terra.
Óssip Mandelstam
Trad.: Nina Guerra e Filipe Guerra



segunda-feira, 25 de fevereiro de 2019

Mentirosa, barraqueira, fofoqueira

Fotografia de Radu Florin


Tá espalhando pra galera que tudo acabou.
Que foi tempo perdido a história que a gente viveu.
Ainda diz pra todo mundo que você que terminou.
Mentirosa! Quem terminou fui eu.
Falou pra todo mundo que não sou mais nada
Mas no mesmo dia, me liga de madrugada, me querendo, me implorando
Tá fazendo plantão na porta da minha casa.

Mentirosa, barraqueira, fofoqueira
Cê fica tirando onda com a minha cara, se achando.
Mentirosa, barraqueira, fofoqueira.
Foi você quem deu bobeira quando estava me enganando.


domingo, 24 de fevereiro de 2019

A mulher desconhecida

Fotografia de Alex Simpson



É muito bela esta mulher desconhecida
que me olha longamente
e repetidas vezes se interessa
pelo meu nome

eu não sei
mas nos curtos instantes de uma manhã
ela percorreu ásperas florestas
estações mais longas que as nossas
a imposição temível do que
desaparece

e se pergunta tantas vezes o meu nome
é porque no corpo que pensa
aquela luta arcaica, desmedida se cravou:
um esquecimento magnífico
repara a ferida irreparável
do doce amor
José Tolentino Mendonça


sábado, 23 de fevereiro de 2019

"And Now For Something Completely Different" (#228)

Como ganhar um sprint

Wisdom

Fotografia de David Solce


This I say, and this I know:
Love has seen the last of me.
Love's a trodden lane to woe,
Love's a path to misery.

This I know, and knew before,
This I tell you, of my years:
Hide your heart, and lock your door.
Hell's afloat in lovers' tears.

Give your heart, and toss and moan;
What a pretty fool you look!
I am sage, who sit alone;
Here's my wool, and here's my book.

Look! A lad's a-waiting there,
Tall he is and bold, and gay.
What the devil do I care
What I know, and what I say?
Dorothy Parker


sexta-feira, 22 de fevereiro de 2019

Deepfakes*

* Hoje no Jornal do Centro 
in Centro Leaks — Tintol & Traçadinho,
página de humor do Jornal do Centro,
edição de hoje 

1. No ano passado, o presidente da câmara de Penedono não fez nada que se visse para evitar o encerramento da estação de correio daquela bela vila do distrito de Viseu.

Agora, o ministério da saúde quis colocar um médico dentista e um assistente no centro de saúde local, num programa que carece do envolvimento das autarquias, mas o presidente da câmara pôs-se outra vez de fora, alegando que já lá há dentistas privados.

Se não é para defender a sua terra, se não é para defender a saúde dos seus munícipes mais pobres, para que raio é que o homem julga que foi eleito?

2. Os verdes do parlamento europeu fizeram as contas aos custos da corrupção em Portugal: todos os anos escoam-se pelo ralo 18,2 mil milhões de euros, mais do que o SNS (16,1 mM€), mais do dobro do orçamento da educação (8,7 mM€), mais de metade de todas as despesas sociais do estado. Aquele balúrdio que vai para o bolso dos corruptos dava para pagar a cada português 1763 euros. A conta foi feita também em Big Macs, mas só pensar nisso engorda.

Perante este cenário, de que a ladroagem na CGD é só a ponta do icebergue, a verdade verdadinha é que ninguém vai preso. Armando Vara parece-se cada vez mais com o boi de piranha dado em sacrifício para que o resto da manada atravesse incólume o rio.

O PS, o PSD e o CDS — que contaminaram a CGD com os seus boys — no mínimo dos mínimos deviam pedir desculpa ao país.

3. Deepfakes são vídeos manipulados que põem pessoas a dizer e fazer coisas que elas nunca fizeram ou disseram. Estes vídeos estão cada vez mais realistas e de produção acessível a cada vez mais gente.




Escusado será dizer que um deepfake pode desfazer uma reputação, pode estraçalhar um político. Pior: ao ser indistinguível a verdade da mentira, tudo nos parecerá mentira.

Vai haver tecnologia de detecção de deepfakes mas que será sempre imperfeita. O mais importante é não sermos impulsivos nas partilhas nas redes sociais e usarmos canais com um histórico de rigor.

Recado

Fotografia de Dima Port


ouve-me
que o dia te seja limpo e
a cada esquina de luz possas recolher
alimento suficiente para a tua morte

vai até onde ninguém te possa falar
ou reconhecer — vai por esse campo
de crateras extintas — vai por essa porta
de água tão vasta quanto a noite

deixa a árvore das cassiopeias cobrir-te
e as loucas aveias que o ácido enferrujou
erguerem-se na vertigem do voo - deixa
que o outono traga os pássaros e as abelhas
para pernoitarem na doçura
do teu breve coração — ouve-me

que o dia te seja limpo
e para lá da pele constrói o arco de sal
a morada eterna — o mar por onde fugirá
o etéreo visitante desta noite

não esqueças o navio carregado de lumes
de desejos em poeira — não esqueças o ouro
o marfim — os sessenta comprimidos letais
ao pequeno-almoço
Al Berto


quinta-feira, 21 de fevereiro de 2019

O domador de luas

Fotografia de Dima Port

estamos encostados a uma roulotte bebemos sangria
conversamos enquanto queimamos a noite
junto ao mar
o vento fresco surpreende-nos com as mãos nervosas
em redor dos copos embaciados a ternura dum olhar
não chega para iludir a embriaguez dos amores imperfeitos

sei que possuis ainda alguma juventude nesse sorriso
eu já só embebedo os lábios viciados pelas palavras
pouco tenho a dizer-te
toco-te no ombro faço promessas e tu ris
enquanto descobrimos no silêncio cúmplice do vinho
treme uma teia de luminoso sal onde a noite cai
sobreviveremos ao desgaste do amor

bebemos mais
para que haja só desejos e não amor entre nós e
o rapaz que tem a mania de espetar uma faca loura
no ombro do mar
La vie est une gare, je vais bientôt partir,
je ne dirai pas où.
calei-me
sabendo que me conduzirias até casa pelo caminho da praia
cambaleantes
e enquanto eu não conseguir abrir de novo os olhos
não partirás tenho a certeza
com a tua jaula cheia de luas mansas
apaziguadas
Al Berto



quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Multitarefas*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 20 de Fevereiro de 2009

1. Nós conseguimos fazer várias coisas ao mesmo tempo.

Há uns anos no IP3 foi apanhado pela GNR um condutor que ia a conduzir a 160 à hora e a fazer a barba. O facto é que o homem não se esbarrou.


Daqui
Já vi num multibanco uma mulher a levantar dinheiro da máquina enquanto falava ao telemóvel e comia um croissant. Ela não se enganou. Não falou para o multibanco nem comeu o telemóvel nem levantou o croissant.

Dizia-se que o presidente americano Gerald Ford não era capaz de caminhar e mascar chiclet ao mesmo tempo mas isso era só uma maldade dos seus inimigos políticos.

Nós somos multitarefas.

Portanto, por favor, não me digam que os portugueses não são capazes de votar para as autárquicas e para as legislativas no mesmo dia. Então as pessoas são capazes de votar em três papelinhos diferentes mas em quatro já não?

Ultimamente tenho ouvido muito o argumento que o que é preciso é atacar a crise económica em vez de se estar a pensar em problemas de minorias como o casamento gay. Ora, este argumento não tem em conta que os políticos também são multitarefas. Numa manhã de trabalho e sem madrugarem muito, os deputados podem perfeitamente resolver o problema do casamento entre homossexuais e ainda ficam com a tarde toda para lutarem contra a recessão.

2. Às vezes, na cabeça das pessoas, forma-se a ideia que a felicidade está sempre noutro lugar ou noutra circunstância, nunca no lugar ou na circunstância em que se está.

É disso que trata Revolutionary Road, de Sam Mendes, um filme amargo que vai aumentar a taxa de divórcios do mundo.

3. No último sábado foi lançado o primeiro número da Viseu.M. É uma revista excelente e imperdível.

Parabéns ao Grupo de Missão do Museu Municipal de Viseu.

O poema ensina a cair

Fotografia de Verne Ho



O poema ensina a cair
sobre os vários solos
desde perder o chão repentino sob os pés
como se perde os sentidos numa
queda de amor, ao encontro
do cabo onde a terra abate e
a fecunda ausência excede

até à queda vinda
da lenta volúpia de cair,
quando a face atinge o solo
numa curva delgada subtil
uma vénia a ninguém de especial
ou especialmente a nós uma homenagem
póstuma.
Luiza Neto Jorge


terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Música para ouvir




Música para ouvir no trabalho
Música para jogar baralho
Música para arrastar corrente
Música para subir serpente
Música para girar bambolê
Música para querer morrer
Música para escutar no campo
Música para baixar o santo
Música para ouvir
Música para ouvir
Música para ouvir

Música para compor o ambiente
Música para escovar o dente
Música para fazer chover
Música para ninar nenê
Música para tocar novela
Música de passarela
Música para vestir veludo
Música pra surdo-mudo

Música para estar distante
Música para estourar falante
Música para tocar no estádio
Música para escutar rádio
Música para ouvir no dentista
Música para dançar na pista
Música para cantar no chuveiro
Música para ganhar dinheiro

Música para ouvir
Música para ouvir
Música para ouvir

Música pra fazer sexo
Música para fazer sucesso
Música pra funeral
Música para pular carnaval
Música para esquecer de si
Música pra boi dormir
Música para tocar na parada
Música pra dar risada

Música para ouvir
Música para ouvir
Música para ouvir
Arnaldo Antunes






segunda-feira, 18 de fevereiro de 2019

Tentação

Fotografia de Steven Wright



Eu não resistirei à tentação,
não quero que de mim possas perder-te,
que só na fonte fria da razão
renasça a minha sede de beber-te.

Eu não resistirei à tentação
de quanto adivinhei nesta amargura:
um sim que só assalta quem diz não,
um corpo que entrevi na selva escura.

Resistirei a te chamar paixão,
a te perder nos versos, nas palavras:
mas não resistirei à tentação
de te dizer que o céu é o que rasa

a luz que nos teus olhos eu perdi
e que na terra toda não mais vi.
Luís Filipe Castro Mendes



domingo, 17 de fevereiro de 2019

Nova passante



1. sobre
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)

2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz

3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
……………..te dedicaria
um concerto
…………………para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteiro de silêncios
………esta salva de arrepios)
Carlito Azevedo


sábado, 16 de fevereiro de 2019

Não quero que vás à monda

Colheita — Ceifeiras
Óleo de Silva Porto (1893) 


Rapazes e raparigas
Pelos campos a cantar
Andam a colher a espiga
Oh meu lindo amor
Para o pão não lhes faltar

Ai não quero que vás à monda
Nem à ribeira lavar
Só quero que me acompanhes
Oh meu lindo amor
No dia em que m'eu casar!

Ai no dia em que m'eu casar
Hás-de ser minha madrinha
Não quero que vás à monda
Oh meu lindo amor
Nem à ribeira sozinha!

Oh luar de meia noite
Não digas à minha amada
Que eu passei à porta dela
Oh meu lindo amor
Às quatro da madrugada

Ai não quero que vás à monda
Nem à ribeira lavar
Só quero que me acompanhes
Oh meu lindo amor
No dia em que m'eu casar!

No dia em que m'eu casar
Hás-de ser minha madrinha
Não quero que vás à monda
Oh meu lindo amor
Nem à ribeira sozinha!














sexta-feira, 15 de fevereiro de 2019

Queijo*

* Hoje no Jornal do Centro

1. Antes de irem de fim-de-semana, os deputados fizeram uma resma de votações sobre portagens: desactivação de um pórtico em Aveiro, embaratecimento de dois troços na zona de Coimbra, abolição de portagens nas A22, A23, A24, A25, A28, A29, A41 e A42.

Ora, tudo aquilo foi um teatro para deixar tudo na mesma. Se os deputados julgam que com este faz-de-conta ficam melhor no retrato, estão muito enganados.

Ainda por cima, pelas votações socialistas desiguais, percebe-se que alguns deputados rosa votaram a “favor” da abolição das portagens nas auto-estradas do seu distrito, mas a “desfavor” nas outras. Uma palhaçada.

2. No sábado e no domingo, realizou-se a Feira do Pastor e do Queijo, de Penalva do Castelo, a primeira, a melhor de todas as feiras do queijo da serra que nos enche o corpo de prazer e de colesterol. Se houvesse justiça, o prazer era para nós e o colesterol para os deputados que nos quiseram tanguear na véspera.

A feira esteve magnífica, acampada numa tenda gigante que protegeu da intempérie Rosinha e as suas coristas, enquanto elas descreviam a pulsão macha para a “coentrada”...



... e a arte de “descascar a banana”, para não falar nos condimentos do “refogado” do Quim Barreiros.

Rezam as crónicas, eu não vi mas li algures, que o ainda-ministro-das-obras-cativadas e futuro eurodeputado Pedro Marques também lá esteve a degustar queijo e, depois, com o coração amanteigado, prometeu que este ano havia um avanço nas muito esperadas obras na rua com trânsito de caracol que liga Viseu ao Sátão.

O problema é que o ainda-ministro Pedro Marques descaiu-se. Afinal, depois de tanto tempo passado e tanta conversa, o projecto ainda está para conclusão. Logo, se está para conclusão, conclui-se que ainda não está concluído. Logo, afinal, ainda não vai acontecer nada este ano naquela rua.

O que vale ao ainda-ministro-das-obras-de-papel é que o que se diz enquanto se mastiga queijo é para esquecer.

De tarde

Fotografia Olho de Gato

Naquele pic-nic de burguesas,
Houve uma coisa simplesmente bela,
E que, sem ter história nem grandezas,
Em todo o caso dava uma aguarela.

Foi quando tu, descendo do burrico,
Foste colher, sem imposturas tolas,
A um granzoal azul de grão-de-bico
Um ramalhete rubro de papoulas.

Pouco depois, em cima duns penhascos,
Nós acampámos, inda o sol se via;
E houve talhadas de melão, damascos,
E pão-de-ló molhado em malvasia.

Mas, todo púrpuro, a sair da renda
Dos teus dois seios como duas rolas,
Era o supremo encanto da merenda
O ramalhete rubro das papoulas.
Cesário Verde


quinta-feira, 14 de fevereiro de 2019

Tacto

Egon Schiele (daqui)

o olho enxerga o que deseja e o que não
ouvido ouve o que deseja e o que não
o pinto duro pulsa forte como um coração
trepar é o melhor remédio pra tesão
um terço é muita penitência pra masturbação
a grávida não tem saudades da menstruação
se não consegue fazer sexo vê televisão
manteiga não se usa apenas pra passar no pão
boceta não é cu mas ambos são palavrão
gozo não significa ejaculação
o tacto mais experiente é a palma da mão

o olho enxerga o que deseja e o que não
ouvido ouve o que deseja e o que não
depois de ejacular espera por outra erecção
o ânus precisa de mais lubrificação
por mais que se reprima nunca seca a secreção
o corpo não é templo, casa nem prisão
uns comem outros fodem uns cometem outros dão
por graça por esporte ou tara por amor ou não
velocidade se controla com respiração
o pau se aprofunda mais conforma a posição
o tato mais experiente é a palma da mão

o pinto duro pulsa forte como um coração
gozo não significa ejaculação
o ânus precisa de mais lubrificação
por graça por amor por tara ou pra reprodução
ouvido ouve o que deseja e o que não
velocidade se controla com respiração
trepar é o melhor remédio pra tesão
o tacto mais experiente é a palma da mão
se não consegue fazer sexo vê televisão
o olho enxerga o que deseja e o que não
uns comem outros fodem uns cometem outros dão
Arnaldo Antunes


quarta-feira, 13 de fevereiro de 2019

Sexta-feira, dia 13*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 13 de Fevereiro de 2009

Esta edição do Jornal do Centro sai em dia aziago – hoje é sexta-feira, dia 13, um dia de azar.

Cara leitora, caro leitor, hoje não é bom dia para jogar no euromilhões. Devia ter jogado ontem. Até a Maya, de rotundidades tão recentes, lhe contaria o saber antigo que nos diz que uma sexta-feira, dia 13 é um dia impropício, um dia com perigos redobrados mesmo para quem não acredita em bruxas, pero que las hay, hay.

À cautela, cara leitora e caro leitor, não passe debaixo de uma escada, nem abra o guarda-chuva dentro de casa, nem preencha hoje o seu IRS embora se o fizer depressa e o enviar pela internet, o ministro Teixeira dos Santos vai ter isso em especial consideração.

Um conselho: dê três pancadas na madeira mas como deve ser, na parte debaixo do tampo da mesa. Tem uma mesa de vidro?!?! Não devia. Compre uma de madeira. Mas não a compre hoje, hoje é sexta-feira, dia 13.

Se vir uma aranha não rejubile porque não, não é sinal de dinheiro. Aranha dá dinheiro, sim, mas em todos os dias menos neste.

Para aonde vai com essa ferradura e o martelo? Pregá-la na sua porta por causa dos ladrões e dos maus espíritos? Boa ideia, mas guarde essa carpintaria para amanhã.

Ainda bem que o Olho de Gato não é um gato preto mas, mesmo assim, uma crónica neste dia é imprudente.

É que escrever neste dia é impropício, como tão bem explica Maya que nunca faz plásticas redondas numa sexta-feira, dia 13.




Uma coisa pode a cara leitora e o caro leitor fazer este serão, mas – atenção! - só depois da meia-noite. Antes de ir dormir, escreva um poema para o seu amor (ou escolha um de Eugénio ou de Drummond de Andrade).

É que amanhã já não é sexta-feira, dia 13.

Amanhã é dia de namoração.

Uma vez desaparecido o observador todas as coisas se despenham

Fotografia de Alexander Milo

uma vez desaparecido o observador todas as coisas se despenham
em direcção ao buraco na pedra visível imóvel grotesco como uma entranha
aí vão dar os sulcos paralelos na neve e o olhar surdo do falcão
as matilhas de cães na orla do rio o uivo do lobo na beira do penhasco
o pulso impaciente dos corredores deitados na esteira, trocando
minúsculos papéis com destinos a lápis,
voltará não voltará tudo conta e o olhar das mulheres do outro lado do muro
e o passo breve do relâmpago e o futuro a explodir dentro das coisas das
palavras das casas

e o mundo flutua inteiro no ar
o maior cansaço abre-se diante de nós apetecível com ninguém dentro
acabar-se o pequeno engano este mundo não é o nosso mundo, dizes bem mas
do mundo que não é nosso só conheço a brusca pancada quando corta
a pura raiz do ar E o mundo flutua inteiramente só
coisas inexistentes me acordam como portas abertas fechadas
o abraço móvel da carne

Enquanto o mundo, sei, é um inferno descolorido para além das coisas nunca vistas,
uma transparência quando sofremos ou quando desejamos
o inexplicável instante da partida. Os corredores, dispostos
em colunas compactas, olham serenamente
o horizonte flexível, vibrante, soando as súbitas pancadas do trovão longínquo,
percorrendo velozes o silêncio da neve eternamente caindo sobre coisa nenhuma,
a terra respirando inteira, como uma folha pousada do lado de fora da noite,
e o seu bafo impaciente, que a luz azul mistura
António Franco Alexandre


terça-feira, 12 de fevereiro de 2019

Poema do homem novo



Niels Armstrong pôs os pés na Lua
e a Humanidade inteira saudou nele
o Homem Novo.
No calendário da História sublinhou-se
com espesso traço o memorável feito.

Tudo nele era novo.
Vestia quinze fatos sobrepostos.
Primeiro, sobre a pele, cobrindo-o de alto a baixo,
um colante poroso de rede tricotada
para ventilação e temperatura próprias.
Logo após, outros fatos, e outros e mais outros,
catorze, no total,
de película de nylon
e borracha sintética.
Envolvendo o conjunto, do tronco até os pés,
na cabeça e nos braços,
confusíssima trama de canais
para circulação dos fluidos necessários,
da água e do oxigénio.
A cobrir tudo, enfim, como um balão de vento,
um envólucro soprado de tela de alumínio.
Capacete de rosca, de especial fibra de vidro,
auscultadores e microfones,
e, nas mãos penduradas, tentáculos programados,
luvas com luz nos dedos.

Numa cama de rede, pendurada
da parede do módulo,
na majestade augusta do silêncio,
dormia o Homem Novo a caminho da Lua.

Cá de longe, na Terra, num burburinho ansioso,
bocas de espanto e olhos de humidade,
todos se interpelavam e falavam
do Homem Novo,
do Homem Novo,
do Homem Novo.

Sobre a Lua, Armstrong pôs finalmente os pés.
Caminhava hesitante e cauteloso,
pé aqui,
pé ali,
as pernas afastadas,
os braços insuflados como balões pneumáticos,
o tronco debruçado sobre o solo.

Lá vai ele.
Lá vai o Homem Novo
medindo e calculando cada passo,
puxando pelo corpo como bloco emperrado.

Mais um passo.
Mais outro.
Num sobrehumano esforço
levanta a mão sapuda e qualquer coisa nela.
Com redobrado alento avança mais um passo,
e a Humanidade inteira,
com o coração pequeno e ressequido,
viu, com os olhos que a terra há-de comer,
o Homem Novo espetar, no chão poeirento da Lua, a bandeira da sua Pátria,
exactamente como faria o Homem Velho.
António Gedeão


segunda-feira, 11 de fevereiro de 2019

Precisão

Fotografia de Joop vd Schaaf


O que me tranquiliza
é que tudo o que existe,
existe com uma precisão absoluta.
O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete
não transborda nem uma fração de milímetro
além do tamanho de uma cabeça de alfinete.
Tudo o que existe é de uma grande exactidão.
Pena é que a maior parte do que existe
com essa exactidão
nos é tecnicamente invisível.
O bom é que a verdade chega a nós
como um sentido secreto das coisas.
Nós terminamos adivinhando, confusos,
a perfeição.
Clarice Lispector


domingo, 10 de fevereiro de 2019

Há sempre um comboio que parte

Fotografia de Fabrizio Verrecchia

Há sempre um comboio que parte
de algures em qualquer parte do mundo

Há sempre um cais com gente
ansiosa da viagem para a parte incerta

Há sempre um futuro com destino
que a gente do cais não conhece

Dentro deste comboio louco
vou eu em viagem dentro de mim

No cais alguém fica à espera
de um comboio que já partiu
Henrique Risques Pereira



sábado, 9 de fevereiro de 2019

Já não se vê o trigo

Fotografia de Sarah Ball

Já não se vê o trigo,
a vagarosa ondulação dos montes.
Não se pode dizer que fossem contigo,
tu só levaste esse modo

infantil de saltar o muro,
de levar à boca
um punhado de cerejas pretas,
de esconder o sorriso no bolso,

certa maneira de assobiar às rolas
ou então pedir um copo de água,
e dormir em novelo,
como só os gatos dormem.

Tudo isso eras tu, sujo de amoras.
Eugénio de Andrade



sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

Coimas*

* Hoje no Jornal do Centro


1. Sem se perceber bem como, ...


Editada a partir daqui
... Rui Rio e António Costa consumaram um acordo para transferir competências da administração central para as câmaras e comunidades intermunicipais.

Como os autarcas estão confrontados com um “aceitas-já” ou “aceitas-daqui-a-dois anos”, todas as deliberações que estão a ser tomadas sobre o assunto são pouco interessantes. Há um ou outro socialista mais vocal a tentar mostrar serviço aos chefes, mas, regra geral, o entusiasmo é pouco e as votações sobre o assunto são mornas.

Com este pacote legislativo, o centralismo não bule. E não bulirá enquanto o interior continuar com punhinhos de renda e conversa de chá-das-cinco e enquanto os políticos locais aceitarem qualquer coisinha, como se viu com aquele remendo mal botado que o governo arranjou para o IP3.

O centralismo vai continuar a levar para Lisboa todos os investimentos, todos os eventos, todos os passes fofinhos para os transportes metropolitanos, passes que o resto do país, sem alternativas, vai continuar a pagar com os seus impostos. O que está em causa, neste pacote descentralizador, são coisas de intendência que já não interessam a Lisboa, e que o sr. Rio e o sr. Costa querem entregar à província, mas sem lhes acoplar os necessários recursos financeiros.

Um exemplo: as câmaras municipais vão poder, a partir de agora, gerir o “estacionamento público”. Porreiro, pá! É um avanço transcendente na capacidade de auto-determinação do interior. Soem as trombetas! A partir de agora já não vai ser precisa uma assinatura prévia de um boy alfacinha para se poder decidir o estacionamento numa avenida em Moimenta da Beira ou em Mortágua.

2. Recomeçaram os avisos e as ameaças do ministro Cabrita: «evite coimas, limpe os 50 metros de terreno à volta da sua casa, e os 100 metros à volta da sua aldeia, até 15 de Março.»

É a mesma asneira do ano passado. Como se sabe, mato cortado tão cedo torna a crescer antes do Verão. Não se pode coimar a estupidez do legislador?

No fundo

Fotografia de Alex Iby

Segura-te bem
que vais voltar
a cair no fundo
do teu coração
Rui Esteves


quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

O meu coração é árabe

Fotografia de Fabio Santaniello Bruun



o meu coração é árabe
eis nuvens…
que espessas são!
parecem formadas,
deste azul lado do céu,
do fumo que ao arder
madeira verde lhes deu.
vem chuva fina!
poalha de prata
polvilhar terra ambarina.
e se um instante
o sol se fica a brilhar
é uma escrava provocante
que se mostra a quem a quer comprar.
Ibn'Ammâr al-Andalusî, 
versão de Adalberto Alves


quarta-feira, 6 de fevereiro de 2019

Perguntas*

* Publicado no Jornal do Centro há exactamente dez anos, em 6 de Fevereiro de 2009

1. Em Novembro foi conhecida a intenção da câmara de Viseu de construir um Centro de Artes do Espectáculo (CAE) ao fundo da Avenida da Europa.

Passaram já três meses e não dei conta de nenhuma tomada de posição política sobre este assunto tão obviamente importante para o concelho e a região.

Politiquice tem-se visto muita. Até já se usa a polícia municipal como arma de arremesso. Infelizmente, sobre o futuro CAE, nada. É pena.

Façamos, então, algumas perguntas:

O CAE incorpora algum pensamento estratégico para Viseu? Quer fazer-se de Viseu uma cidade de eventos? A ideia é tornar Viseu uma cidade criativa?

Porquê o convite a um arquitecto e não o lançamento de um concurso de ideias? Foi feita alguma prospectiva de públicos futuros? Que projecto funcional e com que modularidade? Como se articula o CAE e o Teatro Viriato? Há alguma estimativa de custos?


Fotografia daqui
Que fazer para que o fiasco do Pavilhão Multiusos não se repita no futuro Centro de Artes do Espectáculo de Viseu?

2. Na semana passada ninguém ligou nada à aprovação do orçamento rectificativo no parlamento que deitou ao rio todos os sacrifícios que fizemos nos últimos sete anos na luta contra o défice. Só se pensou e falou do caso Freeport.

O Olho de Gato também não vai fugir ao tema.

Factos: a mãe de José Sócrates vendeu uma casa em Cascais em 1998 e comprou um apartamento em Lisboa no mesmo ano. O licenciamento do Freeport foi em 2002.

Com estes factos, no último sábado, um jornal levantou suspeitas sobre a compra do apartamento da mãe de José Sócrates (recordo: comprado e pago quatro anos antes do licenciamento do outlet).

É isto jornalismo? Claro que não. Não se pode chamar jornalismo a uma pulhice.