segunda-feira, 11 de junho de 2018

Melhor seria...

Fotografia de Laurie Simmons



Melhor seria que não me lessem nunca
os que por costume lêem poesia.
Muito além deles conseguir falar
ao que chega a casa e prefere o álcool,
a música de acaso, a sombra de alguém
com o silêncio das situações ajustadas.

Não ser lido por quem lê. Somente
pelos que procuram qualquer coisa
rugosa e rápida a caminho de uma revista
onde fotografaram todo o ludíbrio da felicidade.
Que um poema meu lhes pudesse entregar,
ademais da morte,
um alívio igual ao de atirar os sapatos
que tanto apertam os pés desencaminhados.
Joaquim Manuel Magalhães


1 comentário:

  1. Bom dia e boa semana.

    Da Séria - “No tempo em que” havia músicos a fazer intervenção política.
    Hoje: Robert Wyatt – “The Age Of Self”.

    Robert Wyatt é uma personagem anti-sistema, interventiva e militante.

    Em 1966, Wyatt foi membro fundador do grupo de rock progressivo Soft Machine. Em 1973, esse projeto foi interrompido quando Wyatt caiu de uma janela do quarto andar, por estar embriagado, paralisando-o da cintura para baixo e colocou-o numa cadeira de rodas. Este acidente vai obrigá-lo a mudar da bateria para o teclado.

    Robert Wyatt inicia a sua intervenção política como membro do Partido Comunista inglês, num modo em que a política e a música são inseparáveis (“Eu sinto que posso ser uma internacionalista”), assumindo uma visão participativa nos movimentos e nas revoluções (“Estou interessado em destacar certas questões, identificar grupos que precisam de ajuda para serem ouvidos”) e refletindo o envolvimento de Wyatt com políticas de esquerda e uma perspectiva geopolítica cada vez maior. Este trabalho político assume a forma de material escrito e versões cover do trabalho de cantores e compositores internacionais, um processo que contribui para uma rede global de música comprometida. Exemplos desta atitude são os covers das músicas: "Strange Fruit" de Billie Hollyday, "Caimanera" hino popular cubano ou 'Arauco' da compositora e ativista chilena Violetta Parra.
    No seu trabalho há a preocupação, numa base consistente, de fazer música que “não possa ser apropriada pela Direita”, perita na duplicidade, traiçoeira e mentirosa no uso da linguagem política. Neste contexto surgiram a parceria com Elvis Costello em "Shipbuilding", uma canção de protesto contra a Guerra das Malvinas; “East Timor/Timor Leste", como denúncia da invasão pela Indonésia e do genocídio do povo timorense ou “Venceremos” dos Working Week.

    Neste contexto encontramos “The Age Of Self”, originalmente gravada em 1982, em apoio à comunidade mineira e à luta contra Margaret Tatcher. Robert Wyatt critica os que consideram que a esquerda perdeu os seus valores e está agarrada ao passado e enaltece o papel dos sindicatos. O refrão lúgubre de Wyatt, cantado sobre um som esparso de uma bateria eletrônica e um órgão elétrico fúnebre, deve ressoar em torno da cabeça da esquerda (que não cumpre os ideais) quando chegar o colapso eleitoral:
    “And it seems to me if we forget
    Our roots and where we stand
    The movement will disintegrate
    Like castles built on sand”

    Nesta canção há uma crítica dirigida a Martin Jaques, que foi editor da revista Marxism Today, considerado (nos anos 80) o líder dos “yummies "- jovens marxistas ascendentes; uma referência a Robert Maxwell (o magnata dos meios de comunicação britânicos) e a relação interdependente entre os governos e a imprensa (com uma base de poder inatacável) e à multinacional australiana-britânica Rio Tinto (uma das maiores corporações de metais e mineração do mundo), que também tem sido alvo de Neil Young…

    Robert Wyatt, disse numa entrevista:
    "Quando vou dormir, sonho sempre em vermelho"

    Robert Wyatt – “The Age Of Self”
    https://youtu.be/aWPRHqptlVU

    They say the working class is dead, we're all consumers now
    They say that we have moved ahead, we're all just people now
    There's people doing 'frightfully well' there's others on the shelf
    But never mind the second kind this is the age of self
    They say we need new images to help our movement grow
    They say that life is broader based as if we didn't know
    While Martin J. and Robert M. play with printer's ink
    The workers 'round the world still die for Rio Tinto Zinc
    And it seems to me if we forget
    Our roots and where we stand
    The movement will disintegrate
    Like castles built on sand

    Também a escutar: Robert Wyatt – “East Timor”
    https://youtu.be/ny1IEJXmShY

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