segunda-feira, 4 de junho de 2018

Elogio da vida monástica

Fotografia de Ryan Tang


Outrora, uma pessoa retirava-se do mundo,
amortalhava-se em vida, fazia-se monge,
ou porque a vida lhe dera tudo e a agonia sobrevinha,
ou porque desistia de lutar com ela pelo que não vinha nunca
(nem mesmo sob a forma de agonia que facilitasse as coisas).
Depois, porque o espírito precisa de ocupar-se,
a pessoa tratava de salvar a própria alma,
de mortificar o corpo, e preparava-se para a morte
(um acidente para que só pelo acaso feliz de ter nascido,
uma pessoa, naquele tempo sem recurso algum,
estava, por estar viva, sempre preparada).
Era uma aposentadoria honrosa, olhada com respeito,
e que não podia deixar de encher a solidão
como gente e amor não tinham preenchido a vida.
Era um estar só, rodeado de calor humano,
sem os inconvenientes e a incomodidade
que o convívio humano traz consigo,
desde os sentimentos a mais aos sentidos a menos,
ou ao facto lamentável de quem amamos não cheirar
como quereríamos: a um misto de rosas e de sexo,
com alguma imaginação de como o amor cheira.

Hoje, não há mais mundo
de que uma pessoa possa retirar-se.
O mundo se retirou de nós. E a solidão
é como um convento gigantesco em que,
na rua, nos transportes colectivos, na cama,
olhamos a vizinhança com a mesma convicção
com que os carmelitas descalços ao cruzarem-se no claustro
mutuamente se saudavam dizendo
que era preciso morrer.
Na dor, na alegria, no prazer, em tudo,
somos monges laicos cuja morte sobrevém
de uma qualquer maneira estúpida e sem graça.
E o nosso olhar de espanto não é o de termos sido
colhidos de surpresa antes de estar salva a alma,
mas o de ela estar salva, desde que o mundo
se retirou de nós. É o olhar de espanto do funcionário público
que descobre, ao contarem-lhe o tempo de aposentadoria,
que nunca figurara na folha de pagamento,
nem no quadro dos funcionários efectivos,
ou mesmo sequer nas listas do comissariado
do desemprego. Não tem direito sequer
à agonia que todavia sente como antigamente
era sentida a que justificava tudo:
o prazer de decidir entre duas coisas:
o ir ou o ficar, o estar ou o partir,
O ter-se uma alma que jogar e perder.
Jorge de Sena



1 comentário:

  1. Bom dia e boa semana.

    Da Séria - “No tempo em que” havia músicos a fazer intervenção política.
    Hoje: Nina Simone e “Four Women”.

    Se há cantora “mal-amada”, o seu rosto é Nina Simone (Eunice Kathleen Waymon). Não lhe bastou ser pianista, cantora, compositora e ativista pelos direitos civis dos negros norte-americanos, ter abrangido a música clássica, blues, folk, R&B, gospel e pop, ter vencido o álcool, ser derrotada pelo cancro e a sua obra continua a recolher reticências por parte dos “sapientes críticos” de música. Adoro Nina Simone!

    Nos anos 60, os EUA fervilhavam com o Movimento pelos Direitos Civis dos negros. Neste contexto, em 1966, é lançada a música "Four Women" (Tia Sarah, Saffronia, Sweet Thing, e Peaches) e é, de imediato, banida por várias estações de rádio. A história (inventada) representa 4 mulheres negras que Nina canta como se fossem pessoas reais. O caso mais controverso foi a figura "Sweet Thing", uma prostituta, pois as rádios não quiseram tocar uma música sobre uma trabalhadora do sexo. A quarta mulher Peaches, tem sido descrita como uma imagem da própria Nina Simone amarga com as condições em que cresceu, mas lutadora, sofrida e cansada.
    Em "Four Women" muito do poder da música vem da simetria dos quatro versos, já que cada verso segue o que poderíamos chamar de a mesma lógica "biométrica". Para a mesma estrutura métrica, as características corporais de cada mulher são delineadas (pele, cabelo, costas, quadris), alguns detalhes históricos ou biográficos são fornecidos e, finalmente, um nome é dado. Ao usar a sua voz poderosa Simone transmitiu ao mundo a luta e a força das mulheres negras e ajudou o seu poder nos movimentos de direitos civis dominados pelos homens.
    Nina Simone foi uma líder feminista? Sim, e as suas canções serviram como manifestações pungentes do pensamento feminista negro, pois ela deu voz a inúmeras mulheres silenciadas e exploradas.

    “Four Women” é uma das músicas mais poderosas que já ouvi em toda a minha vida.

    Nina Simone – “Four Women”
    https://youtu.be/WRmzQ39sXTQ

    My skin is black
    My arms are long
    My hair is wooly
    My back is strong
    Strong enough to take the pain
    Its been inflicted again and again
    What do they call me
    My name is aunt sarah
    My name is aunt sarah

    My skin is yellow
    My hair is long
    Between two worlds
    I do belong
    My father was rich and white
    He forced my mother late one night
    What do they call me
    My name is siffronia
    My name is siffronia

    My skin is tan
    My hairs alright, its fine
    My hips invite you
    And my lips are like wine
    Whose little girl am i?
    Well yours if you have some money to buy
    What do they call me
    My name is sweet thing
    My name is sweet thing

    My skin is brown
    And my manner is tough
    Ill kill the first mother I see
    Cos my life has been too rough
    Im awfully bitter these days
    Because my parents were slaves
    What do they call me
    My
    Name
    Is
    Peaches

    PS: ao escrever sobre esta música, tinha na cabeça o riff constante desta cena:

    "They call me Mister Tibbs!" (In the Heat of the Night, 1967)
    https://youtu.be/r0hytuh6GIk
    Um filme imperdível!

    ResponderEliminar