sexta-feira, 15 de junho de 2018

Caixa de velocidades

Fotografia de Scott Webb



O carro arde, é
verão, falha-me
a embraiagem
(confesso que
tenho medo).

É por Monsanto que
sigo para recuperar
no opifício do comercial
centro a celeridade e
beijar as montras do
auto-conhecimento.

Faço aquisições, toco
na pele do pêssego.

Posso porque conheço
tão bem o curso que
me transporta para o
nível menos um
como a família
de feudatários
da qual descendo.
Respiro o condicionado
ar e a consolação de
um austero estacionamento.

Está escuro
está fresco
reina o silêncio.

Regresso ao vermelho
lugar e espera-me
aí — ar gasoso e suspenso

o garagista com olhos de Cristo
e é com mãos nos bolsos
que me aponta
o dedo.

De mão dada com
o meu saco plástico,
não me mexo.

De olhos fechados
conto até três
(como Ele pode)
mas é ponto
assente:
Pulverizados podem
seguir outros corpos
em nuvens isentas
financeiros túneis ou
vias rápidas mas
face ao ultimato
não concedo

Penso em nós —
súbditos amantes
no fundo do
saco de polietileno —
e simplesmente

não desapareço.
Susana Araújo




Sem comentários:

Enviar um comentário